Um nascimento todo especial…

Quando Nossa Senhora nasceu, o mundo estava prostrado no paganismo; os vícios imperavam; a idolatria dominava a Terra; o mal e o demônio venciam inteiramente.

Mas, no momento decretado por Deus em sua misericórdia, tudo mudou! Nasceu Maria Santíssima, a raiz bendita da qual nasceria o Salvador da humanidade. Começava assim a derrocada do demônio.

Quantas vezes não se passa algo semelhante em nossa vida espiritual! Há ocasiões em que nossa alma está em luta, com problemas, contorcendo e revolvendo dificuldades! Sequer temos ideia de quando virá o dia bendito onde uma graça extraordinária, um grande favor acabará com nossos tormentos, proporcionando-nos um amplo progresso na vida espiritual. E, de repente, há um nascimento no sentido especial da palavra: Nossa Senhora aparece qual aurora em nossa vida espiritual.

Isso deve nos dar muita alegria e esperança, com a certeza de que Nossa Senhora nunca nos abandona. Nas ocasiões mais difíceis Ela nos visita, resolve nossos problemas, cura nossas dores, dá‑nos a combatividade e a coragem necessárias para cumprirmos nosso dever até o fim, por mais árduo que seja.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/9/1963)

A alegria do mundo inteiro

Por que a Santa Igreja Católica comemora de modo particular a natividade de Nossa Senhora? A razão é simples. O nascimento da Virgem Maria marcou o início de uma nova era na História, pois foi através d’Ela que o Sol da Redenção brilhou para a humanidade.

Até então, o mundo estivera prostrado no paganismo, gemendo sob o ímpeto dos vícios e da idolatria. Durante séculos, enquanto o mal e o demônio venciam inteiramente, almas santas haviam rogado a Deus pela vinda do Redentor, porém, a hora designada por Deus ainda não havia chegado…

A partir do momento bendito em que Maria iniciou sua trajetória entre os homens, as relações de Deus com humanidade se modificaram: através das portas do céu, até então trancadas, começaram a como que filtrar luzes de esperança no sentido de que seriam abertas em breve, de par em par.

Desde a mais tenra idade, Ela começou a pedir o advento do Messias e o fim daquela ordem de coisas estabelecida pelo pecado. A ação de presença d’Ela era o prenúncio da salvação que seu Filho viria trazer.

***

Em outras épocas, Nossa Senhora opera uma repetição daquilo que então se passou, e podemos dizer que, na época presente, há uma nova interferência d’Ela na história do mundo. Prova disso é o fato de haver almas que anseiam pelo Reino de Maria, trabalham e rezam para que ele venha.

Dr. Plinio, durante toda a sua vida, não quis ser senão um arauto do Reino de Maria, e viver na perspectiva dele. Quem assim atende ao apelo marial faz o papel de Nossa Senhora no Antigo Testamento: ainda não veio a Luz, a libertação, a vitória; mas algo que é prenúncio da vitória já está presente, começa a espalhar as suas graças e a determinar movimentos entusiásticos de adesão.

Atitudes como estas são como que natividades, que preparam o dia pleno de alegria em que Nossa Senhora reinará no mundo.

***

Que Ela nos dê graças abundantes para que, também nós — assim como foi Dr. Plinio — vivamos no desejo ardente da vinda do Reino d’Ela, pedindo que cesse o quanto antes o domínio do pecado e do demônio sobre a terra.

Plinio Corrêa de Oliveira

Olhos postos em Maria

A natividade de Nossa Senhora, celebrada em 8 de setembro, representa a aurora da redenção do gênero humano, posto que, com o nascimento de Maria, inicia-se a realização das promessas divinas de enviar ao mundo o seu Salvador”, comentava Dr. Plinio. “No momento decretado por Deus em sua misericórdia”, acrescentava, “Ele faz surgir Nossa Senhora, raiz bendita da qual brotaria Nosso Senhor Jesus Cristo, começando assim a obra de destruição do reino do demônio — no exterior, bem como no interior dos homens.

“De fato, na vida espiritual de quantas almas não se verifica situação semelhante à do mundo em que surgiu Nossa Senhora, imerso no império dos vícios e do pecado! A pobre alma está em luta com seus defeitos, se contorce em dificuldades, sem vislumbrar o dia bendito em que uma grande graça, um grande favor celestial porá fim aos seus tormentos e lhe franqueará o progresso na piedade. Pois na história dessas almas há como que irrupções de Nossa Senhora. Na noite das maiores trevas e aflições, Ela aparece e começa a solucionar todos os problemas. Maria surge então como uma radiante aurora em nossa existência, incutindo-nos um alento que não conhecíamos.

“Nesse sentido, vem muito a propósito a conhecida exortação de São Bernardo, aplicando a Nossa Senhora o simbolismo da Estrela do Mar: Ó tu que nesta vida andas flutuando entre borrascas e tempestades, antes que vagando por terra, não tires os teus olhos do fulgor desta estrela, se não quiseres que te arrastem os vagalhões. Quando te vires arremessado aos escolhos da tribulação, se te surgirem os ventos das tentações, olha a estrela e invoca Maria. Quando te vires perecer nas ondas da soberba e da ambição, da detração e da luxúria, olha para a estrela, invoca Maria.

“Contrárias às ilusões de que esta vida é um constante jardim de rosas onde tudo nos sorri, as palavras de São Bernardo — conformes ao ensinamento da Igreja — nos falam do vale de lágrimas no qual expiamos o pecado original e nossos pecados atuais. Segundo o conselho do santo, o quotidiano terreno é permeado de borrascas e tempestades, de rochedos que insidiosamente aguardam o navegante durante seu trajeto, e dos ventos das tentações que podem soprar e nos solicitar para o mal.

“Ora, sob essas condições adversas, não devemos nunca deixar de pôr os olhos em Maria Santíssima, senão os vagalhões nos arrastam. A exemplo dos antigos navegantes que se orientavam pela estrela polar a fim de alcançar o porto seguro, cumpre seguirmos as maternais coruscações da Estrela do Mar. Na incerteza das ondas, no singrar atribulado, jamais percamos de vista essa luz que nos orienta para a salvação; jamais nos esqueçamos de invocar Maria Santíssima.”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências em 8/9/63 e 24/9/66)

Harmonia e felicidade no Céu entre anjos e santos

Baseando-se nas revelações de Santa Francisca Romana, Dr. Plinio nos propõe interessante paralelo entre a harmonia existente no Céu e a beleza de uma sinfonia, na qual cada nota, distinta uma da outra, contribui com sua beleza própria para formar um lindo e melodioso conjunto. Ali, anjos e bem-aventurados, unidos na diversidade de seus sons, entoam a Deus um magnífico hino de louvor.

 

Célebre por suas visões e revelações a respeito dos anjos e demônios, Santa Francisca Romana descreve de modo admirável o conhecimento que teve de toda a ordem celeste. O pressuposto desta revelação é o ensinamento da doutrina católica segundo o qual os lugares no Céu deixados vacantes pelos anjos apóstatas, serão preenchidos pelos homens que se salvarem.

Como notas de uma sinfonia

Não se trata, é claro, de lugares materiais, pois os anjos, sendo puros espíritos, não ocupam um espaço físico. Para se entender o significado de “lugar” aqui empregado, devemos pensar que cada coro angélico é como uma sinfonia de notas em que cada elemento — cada anjo — representa um papel. Digamos que algumas dessas notas se tenham revoltado e abandonado a partitura. As lacunas desse imenso concerto serão, graças à misericórdia divina, cobertas pelos bem-aventurados, os quais completarão assim a harmonia do conjunto celestial.

Imensa alegria no Paraíso pela chegada de um novo santo

Pelas descrições de Santa Francisca Romana somos levados a imaginar, por exemplo, a alma de um justo que ascende pelos vários coros angélicos até alcançar o lugar na mais elevada categoria de anjos a que foi destinada. E como os anjos situados num grau inferior, à medida que aquela alma sobe, manifestam uma extrema alegria pela glória por ela alcançada.

E a vidente nos mostra que, ao chegar a alma no lugar que lhe compete, o gáudio dos anjos ali presentes é incomparável, pois cada posição vaga ocupada é mais uma parte da beleza daquele imenso conjunto que se completa. Diz a santa:

São enormes demonstrações de alegrias e de amizade, de cânticos de louvores e bênçãos para dar graças a Deus por sua felicidade. E este júbilo dura mais longo tempo nuns coros do que noutros. Na ordem dos serafins,  uns penetram mais do que os outros na compreensão divina. Há entre eles uma gradação de inteligência que  existe igualmente em todos os coros.

Ou seja, até mesmo entre os serafins, que são os mais altos, há distinções de inteligência e de capacidade de compreender a infinita perfeição de Deus. Essa desigualdade, segundo a narração de Santa Francisca Romana, existe em todos os demais coros angélicos.

Quanto maior a sutileza de entendimento, maior a saciedade na visão beatífica

E continua:

O que digo dos anjos, digo igualmente dos espíritos humanos que lhes estão associados. Todos os espíritos de um mesmo coro não estão igualmente próximos de Deus. Ora, quanto mais de perto uma inteligência vê a Deus, melhor n’Ele penetra e, portanto, mais feliz é.

Todos os espíritos humanos colocados na glória não a  possuem no mesmo grau. Alguns, quando viviam em sua carne mortal, receberam uma inteligência mais sutil e, segundo suas operações intelectuais e capacidade, penetram mais no abismo da divindade. Eles levaram ao Céu um espírito mais arguto e penetrante.

Assim, quanto mais uma alma tem capacidade e sutileza de entendimento, mais é saciada da visão beatífica. É verdade que no Céu todas as almas são plenamente saciadas, mas cada uma o é segundo a medida de sua capacidade.

Quando os Apóstolos receberam o Espírito Santo, não obtiveram todos a mesma medida de graça. Aqueles que tinham mais capacidade e sutileza em seu entendimento as receberam em mais alto grau. Ora, o que se dispõe a uma maior graça, dispõe-se igualmente a uma maior glória.

Ela, então, nos dá a compreender que os bem-aventurados, ao ocuparem os lugares vagos no Céu neste ou naquele coro angélico, obedecem também a essa espécie de regra pela qual os mais inteligentes e perspicazes vêem e compreendem mais da perfeição divina. Além disso, a saciedade que terão pela visão beatífica será determinada pelo grau de correspondência que deram às graças recebidas por eles na Terra.

Cântico harmonioso entre anjos e bem-aventurados

Temos, pois, dois interessantes aspectos a considerar nessas descrições de Santa Francisca Romana.

Primeiro: todos os anjos e santos no Céu gozam de plena felicidade. As almas dos homens se encaixam ao longo da hierarquia angélica, ocupando as lacunas deixadas pelos anjos rebeldes. A felicidade maior de uns não ofende a menor de outros, pois todos são inteiramente felizes de acordo com a capacidade de inteligência e de percepção que lhes foi dada por Deus.

Segundo: embora sendo superiores aos homens por sua natureza, os anjos manifestam extremo contentamento ao verem uma alma bem-aventurada galgar os maiores escalões da hierarquia celeste, sobrepujando aos próprios anjos de coros inferiores.

Há nisso uma esplêndida lição de harmonia e de humildade. No Paraíso celestial, onde impera a mais perfeita ordem das coisas, os anjos e os santos são desiguais, e nenhum deles sofre com as diferenças que os distinguem. Pelo contrário, todos se unem num cântico perpétuo e inexcedível de louvor a Deus, como notas desiguais que compõem uma maravilhosa sinfonia.

Comprazer-se com a superioridade do próximo

Essas considerações devem nos levar a um propósito concreto de nos examinarmos quanto às nossas disposições de alma nesta vida. Em que sentido?

Se as coisas bem ordenadas e belas da Terra são reflexos da ordenação celeste, cumpre sê-lo também as atitudes que tomamos em relação ao nosso próximo no que diz respeito às desigualdades que nos distinguem. Noutros termos, sentimos, como sentem os anjos e os bem-aventurados, alegria em constatarmos a superioridade de um semelhante sobre nós? Manifestamos nosso júbilo ao vê-lo crescer, igualar-se a nós e, mais, tornar-se maior, sobrepujando nossas próprias qualidades? Entoamos um Magnificat em louvor de Nossa Senhora, em agradecimento a Deus por essa desigualdade?

As respostas a essas perguntas nos dirão até que ponto estamos preparados para a insondável e maravilhosa harmonia de grandezas distintas existentes no Céu.

Roguemos a todos os anjos e santos que, pela intercessão de Maria Santíssima, nos alcancem a graça de sermos como eles, isto é, de desejarmos o bem maior para o próximo, e de termos alegria pela superioridade alheia.

Lembro, a esse propósito, das preces redigidas pelo Cardeal Rafael Merry del Val em sua Ladainha da Humildade, entre as quais, esta: “que os outros sejam mais santos do que eu, embora me torne santo o quanto me for possível, Jesus dai-me a graça de desejá-lo”.

Portanto, é levar ao auge o desapego de si e a alegria pela glória do seu semelhante. É desejar, de fato, que os mais inteligentes e capazes brilhem mais do que eu nas vias do serviço de Deus. Sobretudo, é querer, segundo dos desígnios da Providência, que os outros sejam mais santos do que eu, porque me alegro com todas as superioridades que estão acima de mim. Esse é o timbre de voz da alma autenticamente católica quando reza. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 1/11/1965)
Revista Dr Plinio 125 (Agosto de 2008)

 

Lugar onde a Providência quis reunir suas maravilhas – I

Dr. Plinio sempre teve encanto pelo mar. Eis uma das razões pelas quais apreciava sobremaneira Veneza, a cidade construída sobre as águas. A causa mais profunda do surgimento de tal maravilha é o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Quem resulta tudo quanto há de bom e de belo na Terra.

 

Antes de comentarmos alguns aspectos de Veneza, parece-me conveniente considerarmos um pouco o que se passa no interior de nossa alma, vendo essa cidade. Externo aqui minhas reflexões ao visitá-la, pois o que vou dizer a meu respeito se dá mais ou menos com todo mundo.

Fascínio pelo mar

Tanto quanto me lembro, em pequeno eu tinha impulsos que me levavam a lamentar de não poder viver, não propriamente no mundo da fantasia, mas num mundo que não era aquele no qual eu vivia. Portanto, levar uma vida real numa atmosfera diferente da qual eu vivia.

Assim, por exemplo, recordo-me de, muitas vezes, estando em Santos ou, muito mais modestamente, numa estação de águas hidrotermal que eu frequentava por causa de minha mãe, onde havia um riachinho um pouco nutrido, corria um pouco de água, formava uma ilhota e umas coisas assim; olhava para as águas e sentia o fascínio que esse elemento produz. A água salgada do mar me fascinava além de todo limite. Foi toda a vida o encanto de minha alma considerar o mar.

Lembro-me do meu tempo de deputado, quando o prédio onde se reunia a Assembleia Constituinte ficava numa praça do Rio de Janeiro, no fundo da qual há um braço de mar. Meu gosto pelo mar era tal que, às vezes, eu estava sentado assistindo à sessão e me vinha à mente:  “Como seria interessante se eu pudesse estar olhando para o mar, por exemplo, sobre uma espécie de terracinho de madeira amarrado em estacas, posto na água de maneira a acompanhar o movimento da maré!” Aquilo me distraía a ponto de ter que fazer esforço com a minha inteligência para prestar atenção nas arengas, tanto era o meu gosto pelo mar.

Entretanto, nunca me passou pela cabeça imaginar um homem que, estando no mar, começasse a pensar na terra. Então, alguém se encontrando num navio, vendo a terra de longe, pensasse: “Ah, que delícia aquela terra! Pisar em solo firme…” O chão não é firme, mas duro; é diferente de firme. Para acharmos graça no chão é preciso calçá-lo com pedras bonitas, pôr um tapete para disfarçá-lo a fim de nos sentirmos à vontade em cima dele.

Pelo contrário, no mar não. Ele é delicioso! Debaixo de certo ponto de vista, quanto mais a pessoa possa estar no mar, sem pisar em nada que lembre a terra, melhor é. Se ela estiver nadando, metida na água que exerce sobre ela uma atração extraordinária, tanto melhor. É o fascínio produzido por um elemento onde o homem realmente não vive, mas no qual ele tem a impressão de que a vida seria ideal.

Palácios e jardins, nostalgia do Paraíso

Certa ocasião, estando em Petrópolis, no Rio de Janeiro, vi pela primeira vez um homem voar em asa delta. Percebi que do local onde me encontrava até o panorama marítimo da Baía de Guanabara não levava muito tempo. E notei que lá de cima o homem estava olhando para aquela baía, realizando assim a convergência de dois sonhos: a água e o ar. Pareceu-me delicioso estar lá em cima, apesar de umas inseguranças não pequenas. Mas ele se movia com tal desembaraço no ar, que percebi estar inteiramente seguro. Então, a ideia de estar seguro, planando no ar, longe da terra e olhando o mar, era uma coisa deliciosa.

De outro lado, há uma coisa que também atrai o homem. Não é propriamente a terra, mas o palácio. Folheando álbuns, vendo palácios lindamente decorados, os mais antigos com belos vitrais, os outros com pinturas lindas, ou tapeçarias bonitas, com um chão precioso, macetado com madeiras de cores diferentes, formando desenhos, com quadros, móveis luxuosos, e com o teto alto, o homem tem sedução por algo que esconde de todos os modos a realidade comum da terra onde ele vive. O palácio é uma espécie de esconderijo onde, sem sentir a instabilidade da água e da flutuação no ar, a pessoa também foge de algum modo da terra concreta e constrói um sonho dentro do qual ela entra. Este é o palácio.

Ademais, para encobrir ainda de algum modo a terra, o homem elabora jardins, por vezes ornados com chafarizes que fazem a água brincar no ar, caindo depois em tanques onde o elemento líquido fica refletindo o céu, o próprio jardim e o palácio.

Como se explica que o homem goste tanto de disfarçar a terra? A meu ver, porque ela é exatamente o elemento que mais traduz a punição e o desterro do homem por causa do pecado original. “Amaldiçoada será a terra por tua causa. Com sofrimento tirarás dela o alimento todos os dias de tua vida. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até voltares à terra da qual foste tirado” (Gn 3, 17.19).

A terra é apresentada como um lugar de degredo onde é duro trabalhar, é preciso regar com o suor do rosto, ou seja, é penoso obter algum resultado. Ela é prosaica, não apresenta cores lindas, nem maravilhas de nenhuma espécie. A meu ver, por onde mais sentimos a nostalgia do Paraíso é precisamente no contato com a terra.

Palafitas para se proteger contra as feras

Reportemo-nos, agora, a uma remota reminiscência para compreendermos os desígnios da Providência, e como Ela dispõe tudo de modo maravilhoso.

Como demonstram as pesquisas arqueológicas, na Pré-História houve povos que, levados pelo receio dos animais ferozes, construíram as chamadas palafitas, conjuntos de estacas que sustentavam habitações construídas sobre as águas. Durante a noite, eles retiravam uma espécie de tabuleiro que lhes servia de ponte entre a palafita e a terra, e assim os animais podiam rondar em torno deles, mas não incomodavam. A água protetora os separava.

Podemos imaginar a sensação de progresso experimentada por esses primitivos quando eles construíram a primeira casinha e, à noite, ouviam as feras uivar dentro do mato; ao invés de ficarem apavorados, como no tempo em que viviam em grutas ou cabanas, dentro das quais um animal feroz podia de repente irromper, eles dormiam sossegados e se abanando deliciosamente, porque a fera não constituía mais um perigo. Que “civilização”!

Foi de uma situação análoga a essa que, do pânico de primitivos habitando um lugar pantanoso e inconsistente, nasceu uma das maiores belezas do universo. O local hoje ocupado por Veneza, outrora era muito pantanoso.

Um dos lugares mais bonitos da Terra

Em certo momento, um guerreiro terrível, Átila, desceu com seus hunos através da Hungria, invadiu a Itália e foi surrando tudo no caminho. O pavor que os latinos civilizados tinham dele era tal que se exprimiu por uma metáfora muito poética: por onde a patas do cavalo dele pousavam nunca mais nascia erva.

As populações daquelas regiões ficaram com pavor de Átila e se aprofundaram em seus pântanos, procurando lugares de mais resistência para se fixarem. Ali mais ou menos repetiram as palafitas.

Esses povos depois foram batizados, e o Batismo operou em suas almas o efeito regenerador que lhe é próprio; e de primitivos, mais ou menos vagabundos, passaram a ser homens de trabalho que, seduzidos pelas águas do Mar Adriático, entregaram-se à navegação. Tornaram-se grandes navegantes e se dedicaram ao comércio, passando a ser a maior potência marítima do Mar Mediterrâneo.

As riquezas voltavam para Veneza e com elas as possibilidades de trabalho, de organização. Aquelas ilhas resultantes do antigo pântano foram consolidadas, ajeitadas, fizeram correr água onde havia lodo outrora. As casas foram melhorando, as águas se tornaram de trânsito fácil e, no lugar do antigo pântano, constituiu-se um arquipélago que foi se enchendo de palácios de uma beleza famosa no mundo inteiro.

E ali, em vez do jardim que Veneza não tem, nasceu para o homem este sonho que se realizava: morar num palácio à beira d’água, com um céu lindíssimo. O céu de Veneza é uma espécie de céu dos céus, o colorido e as brumas são uma beleza, os anoiteceres são lindíssimos. E realiza-se assim esse ponto de eleição que é uma espécie de paraíso feito pelo homem, pela sua fantasia, pelo seu talento, pela sua capacidade de trabalhar, pelo seu desejo do maravilhoso, coisa tão distante do homem contemporâneo.

Então, realizou-se em Veneza esse ponto de encontro onde a terra feia, outrora pântano, é disfarçada pelo chão dos palácios, o pântano é coberto pelas águas do mar que correm, o céu maravilhoso e as águas se osculam, formado um dos lugares mais bonitos da Terra.

Maravilha que nasceu do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo

No centro desta narração está o desvendar de um enigma. Como povos tão primitivos puderam realizar uma coisa tão maravilhosa? Será por que se mesclaram com outros povos? A meu ver, se eles não fossem batizados isso não saía. Pode ser que se tenham mesclado com latinos decadentes. Mas do pântano do primitivismo e da decadência das grandes cidades em decomposição sair uma coisa assim, não era preciso um terceiro elemento que fizesse uma coisa verdadeiramente mais bela?

A meu juízo é evidente que sim.  É o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja imolação no alto do Calvário obteve as grandes regenerações morais. É deste Sangue, a propósito de cuja efusão Nossa Senhora chorou e do qual resulta tudo quanto há de bom, de grande, de belo na Terra, que nasceram maravilhas dessas, pela regeneração do homem. Batizou-se, ficou trabalhador. Intensificou e disciplinou o seu desejo do maravilhoso, as maravilhas começam a nascer.

Foi à procura desse auge de realização do maravilhoso na Terra que me pus a sonhar sobre Veneza e a querê-la. Desde minha primeira viagem àquela cidade, meu espírito estava tomado por esta ideia: eu estava visitando uma junção incomparável e paradisíaca de coisas maravilhosas.

Poder-se-ia dizer, entretanto, haver mais algo ocupando no meu espírito um grande espaço, um ponto importante que procurarei condensar: das várias obras-primas existentes em Veneza, – oh, mistério! – nenhuma é tão grande e tão maravilhosa quanto o homem.

A “Sereníssima República de Veneza”

Se Deus tivesse criado Veneza, mas a cidade houvesse ficado sozinha para ser habitada pelos pombos, que valor ela teria? Muito mais do que simplesmente aquilo, há em Veneza o estilo de vida, o estilo artístico veneziano, a cultura, as instituições venezianas, que modelaram as fisionomias dos palácios. E, no plano da Providência, o palácio é modelado pela cultura do homem, mas o auxilia a modelar depois a sua própria cultura. Ajuda-o a se requintar. O céu, o mar e a terra foram feitos para, iluminando a casa ou o palácio do homem, iluminar a alma de quem ali reside.

Esta é a dignidade do ser humano. Tudo isso nos reporta ao fato de que a chamavam de “Sereníssima República de Veneza”. “Sereníssima” é quase mais bonito do que Imperial e Real. Dá a impressão de orvalhada por todas as calmas da noite. “Sua Alteza Sereníssima”, por exemplo, eu acho um título lindíssimo! E a República de Veneza, por ser soberana e querer se encaixar na hierarquia nobiliárquica e feudal da Europa, considerando que seu chefe tinha uma verdadeira dignidade de um duque, tomou para si o título de “Sereníssima”.

Veneza era uma república aristocrática, dirigida por uma nobreza inscrita num livro chamado “Livro de Ouro”. As famílias promovidas à nobreza tinham seus nomes inscritos nesse livro, e pertenciam a uma classe social que elegia uma espécie de Câmara dos Lordes. Havia também, para as várias categorias da plebe, câmaras, conselhos, etc.

Casamento de Veneza com o mar

À testa disso estava o Conselho dos Dez, chefiado por um doge que usava o barrete frígio das repúblicas contemporâneas, cercado de uma pequena coroa. Tratado como um príncipe, eleito de dez em dez anos, podendo ser reeleito, o doge era o ponto de partida de politicagens finíssimas, rasteiras jeitosíssimas, mais elegantes do que passos de minueto; com a beleza de quem se habituou muito cedo a burilar a política como quem burila um cristal. Aliás, por uma coincidência bonita, as fábricas de cristal começaram a aparecer. Daí vem o famoso cristal Murano. Há qualquer coisa de cristalino na República de Veneza.

Todo mundo conhece a festa anual de esplendor de Veneza. O doge, vestido com trajes fabulosos, ia até o alto-mar num navio todo folheado a ouro, chamado Bucentauro, seguido de um cortejo de embarcações com gente a bordo tocando violinos e outros instrumentos. Ao chegar a certa altura, fazia-se o casamento de Veneza com o mar, lançando no fundo do Mar Adriático um anel. Nesse momento, a música dava o seu todo, o pessoal aclamava. Ao cair da tarde, todos voltavam, em meio aos reflexos da água do mar de Veneza, e a festa continuava na terra. Aqueles canais eram percorridos por gente em gôndolas, lanternas bonitas iluminavam os terraços, de fora dos palácios se percebia a luz das festas que se estavam dando ali dentro. O tilintar dos copos de cristal, os vivas, os cânticos se prolongavam pela noite afora.

Se passarmos daí para as palafitas que constituíram a primeira Veneza, compreenderemos a enorme trajetória percorrida nesse lugar verdadeiramente privilegiado, onde a Providência quis reunir as suas maravilhas.

(Continua no próximo número)

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/12/1988)

A "Oração da Restauração"

No Antigo Testamento – tanto quanto me lembre isso não ocorre no Novo – encontramos preces nas quais o orante dirige perguntas a Deus. Por exemplo: “Senhor, por que dormis?”, e outras interrogações análogas que esperam uma resposta do Criador.

De passagem, é interessante notar que as súplicas presentes nas páginas do Antigo como nas do Novo Testamento são inspiradas pelo Divino Espírito Santo, ou ensinadas diretamente por Nosso Senhor Jesus Cristo. São diferentes de uma prece privada, como esta que agora passo a comentar.

A pergunta-chave

A Oração da Restauração contém uma indagação, que é o ponto chave dela: “Não tendes também Vós , Senhora, saudades deste tempo?”

É a impetração de um pecador que se encontra no início ou na plenitude de um processo de arrependimento, e por isso se lembra com nostalgia do tempo em que ele era bom. E se recorda do convívio espiritual que tinha com Nossa Senhora, através da graça. Essa lembrança o enche de contrição e de saudades, pois ele quereria reviver aquela felicidade matutina do começo de sua vida, e que depois não teve igual.

Argumento do faltoso em seu favor

Então ele deseja dar a Maria Santíssima um argumento que A leve a atender seu pedido. Porque, precisamente por ser pecador, sente a insuficiência de seus próprios meios. Sozinho, nada obtém, e só alcançará algo se os seus argumentos forem aceitos. Então, com ânimo redobrado, parte à procura de uma razão para apresentar, e diz a Nossa Senhora: “Se eu, que sou filho, tenho saudades de Vós, quanto mais Vós, que sois Mãe, deveríeis ter saudades de mim!”

É a essência da oração.

E tão grande é a certeza da reciprocidade de sentimentos, que o suplicante não espera resposta. Como se Nossa Senhora lhe tivesse dito: “Sim, meu filho, tenho saudades de ti”, ele tira a conclusão: “Vinde, pois, minha Mãe, e por amor ao que desabrochava em mim, restaurai-me!”

Quer dizer, “por amor ao bem que ia surgindo em mim (está subentendido: ‘que eu sufoquei’), restaurai-me”.

“Recomponde em mim o amor a Vós”. Significa que ele não sente tanto quanto deveria o amor a Nossa Senhora, merecedora de maior devoção sua. Então pede-Lhe recomponha na sua alma esse amor, como conseqüência das saudades que Ela, por sua vez, tem dele: “Se Vós, minha Mãe, lembrais de mim, restaurai-me!”

“Dai-me aquilo que perdi…”

“E fazei de mim a plena realização daquele filho sem mancha que eu teria sido, se não fosse tanta miséria”.

Ou seja: “Eu era um filho que Vós amáveis inteiramente, pois não tinha manchas. Nesse tempo, estabelecia convosco um convívio amado por mim e por Vós. Entretanto, agora apresento essas nódoas. Vós não podeis desejar tal relacionamento com esse homem manchado. Então, tirai-me as máculas! Se tendes de fato saudades de mim, compadecei-vos e dai-me aquilo que eu perdi!”

Esse é o pensamento contido na oração.

Trata-se, portanto, de uma prece estruturada com lógica, embora não o pareça à primeira vista, devido ao intenso sentimento que a repassa. Mas este e a lógica não se excluem. O reto sentimento é o fruto da lógica. E a oração de tal maneira é confiante que, depois disso, não faz insistência. Termina dando ao pecador a tranquila certeza de que será atendido.

Oração da confiança filial

Ela pode chamar-se a “oração da confiança filial”. E acontece que, quanto mais uma prece incute confiança, tanto mais ela tem condições de ser ouvida pelo Céu. E o pecador, de si, não tem nenhum título para ser acolhido. Porém, se confia, apesar dos seus pecados, sua atitude adquire mérito, pois é duro confiar quando se ofendeu a Deus. Esse ato difícil o faltoso realiza. E assim, essa oração não é a do pecador que se arrependeu e se converteu, mas daquele que se sabe um pulha, um nada, sem nenhuma qualidade que agrade a Nossa Senhora, senão sua confiança.

Diz ele a Maria Santíssima: “Vós me favorecestes e me amastes tanto outrora – e aí entra o lado bem brasileiro da oração –, não tendes saudades desse tempo? Minha Mãe, se tenho saudades, será que Vós não tendes também?”

Imagine-se uma mãe que expulsou seu filho de casa, por grave e justo motivo. Certo dia, andando pela rua, ela se encontra com o rapaz. Procura manter uma fisionomia severa, condigna com a situação imposta pelos fatos. Contudo, se o filho lhe disser: “Mamãe, mereci ser expulso, mas que saudades tenho de vossa casa!”, qual será o efeito disso no coração materno?

Por mais que ela deseje manter a cara amarrada e séria, a misericórdia fala mais alto e a inclina para a clemência. A fim de que esse movimento seja completo, o filho pergunta: “Será que vós, vendo minhas saudades, não tendes também saudades do meu afeto?”

Isso é muito psicológico e cogente. É a súplica esperançada do desesperado.

Triste situação do que retorna ao pecado

Para se compreender o que caracteriza essa oração, devemos considerar que o mundo de hoje naufragou num tal abismo de relaxamento moral que bem poucos são os que ingressam no nosso movimento sem nunca ter cometido um pecado grave. A maioria são dos que se converteram, abandonaram os maus hábitos e abraçaram as vias da virtude. Depois, infelizmente, pode suceder que algum recaia no pecado. Então, é uma miséria que se soma a outra. Na linguagem acerba e veraz de São Pedro, “o cão volta ao seu vômito”. Quer dizer, o indivíduo vomitou o pecado, mas, ao recair, procura alimentar-se do que lançou fora de si, à semelhança do procedimento de alguns cachorros.

Segundo o Evangelho, Nosso Senhor fala de um homem infestado pelo espírito maligno. Ele foi exorcizado, expulso o demônio que o atormentava, e sua alma se tornou como uma casa limpa.

Entretanto, da narração se pode deduzir que ele pecou de novo, e sua casa, ou seja, sua alma, ficou ainda mais infestada que antes, atormentada por vários demônios. Nosso Senhor fala em sete, mas sabe-se que este é um número simbólico. Na realidade, sobreveio uma falange de espíritos imundos para povoarem a alma daquele que tinha sido exorcizado.

Mas, a oração apelando para a misericórdia de Nossa Senhora obtém a segunda desinfestação, que é definitiva.

Gancho que liberta o pecador do pecado

Então, a Oração da Restauração é composta tendo em vista essas verdades. É a prece de uma alma outrora possuidora de grande inocência, perdida por causa do pecado. Tendo se afastado de Nossa Senhora, ela se volta para a Santíssima Virgem e Lhe diz: “Ai, que saudades!”. E apesar do seu pecado, ela – a devedora! – cobra da Mãe de Deus a reciprocidade: “Tenho saudades. Não é natural que Vós tenhais também?!”

Essa pergunta, dirigida a uma mãe, produz o resultado que conhecemos.

Forma-se, assim, uma espécie de gancho no qual o pecador se agarra e sobe. É uma súplica muito adequada para uma época como a nossa, onde as ofensas a Deus são superabundantes, terríveis, e as infestações, medonhas. E para qualquer homem que alguma vez amou Nossa Senhora, essa prece ficará bem em seus lábios.

Se, porventura, alguém declarasse: “Mas, Dr. Plinio, nunca amei Nossa Senhora”, eu lhe recomendaria que dissesse à Virgem Bendita: “Minha Mãe, quem vos amou, pode rezar a Oração da Restauração. Muito pior é a situação em que me encontro, pois nunca vos amei, e não posso sequer dirigir-vos essa súplica. Hoje, porém, compreendo quão lastimável é o estado de um homem que nunca vos teve por Mãe. Não posso perguntar se tendes saudades de mim, porque nunca fui vosso! Mas, se tendes pena de quem foi vosso, quanto mais não deveis ter de quem nunca o foi?!

“Vendo minha situação, ó Mãe, não vos compadeceis? Vinde e salvai-me!”

Essa seria a Oração da Instauração que eu ensinaria a um filho nessas condições.

Há momentos minha Mãe, em que minha alma se sente, no que tem de mais fundo, tocada por uma saudade indizível. Tenho saudades da época em que eu Vos amava, e Vós me amáveis, na atmosfera primaveril de minha vida espiritual.

Tenho saudades de Vós, Senhora, e do paraíso que punha em mim a grande comunicação que tinha convosco. Não tendes também Vós, Senhora, saudades desse tempo? Não tendes saudades da bondade que havia naquele filho que fui?

Vinde, pois, ó melhor de todas as mães, e por amor ao que desabrochava em mim, restaurai-me: recomponde em mim o amor a Vós, e fazei de mim a plena realização daquele filho sem mancha que eu teria sido, se não fosse tanta miséria.

Dai-me, ó Mãe, um coração arrependido e humilhado, e fazei luzir novamente aos meus olhos aquilo que, pelo esplendor de vossa graça, eu começara a amar tanto e tanto!

Lembrai-Vos, Senhora, deste David e de toda a doçura que nele púnheis. Assim seja!

Entusiasmo e amor pelo Papado

Nunca será demasiado procurarmos recordar as grandezas do Papado, admirá-las, entender o seu papel na História e na vida dos homens, para assim crescermos no amor a essa instituição admirável que Nosso Senhor estabeleceu como cabeça da Igreja.

A fim de melhor fazê-lo, convém tomarmos em consideração a importância da própria Igreja no existir da humanidade.

A missão de ensinar e governar

A Santa Igreja Católica Apostólica Romana é especialmente constituída por aqueles que creem e declaram acreditar em toda a doutrina por ela ministrada. Naturalmente, estes devem praticar os Mandamentos e frequentar os sacramentos. Mestra, ela lhes ensina aquilo no que precisam crer: se o fazem, com o auxílio da graça divina e de Maria Santíssima, serão salvos; caso contrário, correm o risco de se condenarem.

No conjunto da Igreja, os leigos são os discípulos, enquanto à Hierarquia cabe a missão docente, cuja formação aceitamos com enlevo e respeito, deixando-nos educar por ela. Temos, portanto, uma sociedade constituída por aqueles que ensinam e pelos que são ensinados.

Porém, a Igreja não se limita a instruir. Ela governa, guia, oferece diretrizes aos homens, em ordem à salvação deles. Por exemplo: “Compareçam à Missa no domingo e dias de guarda; confessem-se e comunguem uma vez por ano; façam jejuns em certos dias”, etc. Além disso, ela promete indulgências a quem praticar determinados atos, e se reserva o direito de aplicar sanções e penalidades quando julgar necessário. A Igreja não é apenas Mestra, mas Mãe. Em relação aos seus filhos, a mãe os governa e educa, com bondade e firmeza, para levá-los a seu normal desenvolvimento, assim como a Igreja conduz as almas a fim de alcançarem o Céu.

Especial tarefa de santificar

Ademais de governar e ensinar, outra missão cabe ainda à Esposa Mística de Cristo: a de santificar.

Essa ação santificante da Igreja se realiza através do sobrenatural, ou seja, da graça divina. Para entendê-lo, imaginemos o homem mais dotado de boas disposições que tenha nascido, sem contudo conhecer a Igreja. Se lhe apresentarem os Dez Mandamentos, ele poderá se entusiasmar e dizer: “Vou cumpri-los!”

Mas, em virtude do pecado original, todos os homens se tornaram tão inclinados para o mal, que nem mesmo esse indivíduo privilegiado conseguirá observar na totalidade e de modo durável a Lei de Deus. Ele fracassará e cometerá faltas, arrastado por essa triste tendência. Então, é mister a ajuda sobrenatural para que o homem logre praticar os Mandamentos, bem como todas as virtudes necessárias para subir ao Céu.

Tal socorro, como dissemos, lhe vem pela graça, participação criada na vida incriada de Deus que o Senhor nos concede. Dom maravilhoso, cuja ação benéfica eleva nossa alma, a fortalece, dá-lhe a indispensável clareza de espírito para crer nas verdades eternas, infunde-lhe vigor e disposição para obedecer e cumprir os Mandamentos divinos e os preceitos eclesiásticos.

Ora, a distribuição da graça é a obra santificante da Igreja. Das mãos desta – notadamente através dos Sacramentos – o homem recebe as dádivas celestiais. Quer dizer, o Batismo, a Confissão, a Comunhão, a Unção dos Enfermos, etc., são meios pelos quais a graça penetra na alma humana, podendo ser obtida igualmente pelas orações recitadas com piedade e perseverança, pela intercessão dos santos e, claro, de Maria Santíssima, Medianeira universal de todas as graças.

Compreendemos, pois, como a Igreja realiza a obra da salvação. Ela ensina o que devemos saber e crer; nos orienta à prática da virtude; nos obtém as forças necessárias para atingirmos nossa salvação. É a Igreja docente, a que governa e, sobretudo, santifica.

Tal é a beleza da missão da Igreja, centro de tudo, para o qual devem convergir as atenções e o amor de todos os homens. Se estes a aceitarem e reconhecerem como Mãe e Mestra, todos se santificam, tudo floresce na Terra, e as almas se salvam. Se, pelo contrário, a Igreja não for vista como deve ser, em pouco tempo os espíritos se estiolam e se perdem.

O Papa, máximo representante de Cristo na Igreja

Agora, no ápice dessa constituição encontra-se o Vigário de Cristo, o Papa, máximo representante de Nosso Senhor na Igreja. A ele toca, em grau eminente, aquilo que os outros ministros eclesiásticos podem ter de um certo modo. O Soberano Pontífice é o mestre dos mestres, e exerce os poderes de ensinar e governar acima de toda a Hierarquia. Os bispos e párocos formam e orientam os fiéis, na medida em que estão unidos ao Sucessor de Pedro. Se romperem com este, perdem seu papel orientador e docente.

A esse propósito, lembro-me de ter tido notícia de um caso infeliz. Em meados do século XX, certo bispo de uma cidade paulista começou a propagar heresias, e a Santa Sé, muito clemente, avisou-o e o afastou da diocese, sem excomungá-lo. Tendo ele insistido nas doutrinas errôneas, o Vaticano advertiu: “Se continuar a difundir esses erros, será excomungado!”

O bispo não deu ouvidos, e acabou recebendo o castigo que merecia. Depois disso, esse prelado não teve nenhum poder sobre os fiéis. Ficou pulverizado. Rompeu com o Papa, rompeu com tudo.

Pedro é o tronco da árvore por onde passa toda a seiva. Unidos ao Papa, os homens se salvam. Desligando-se dele, se desviam. Não há, portanto, quem ocupe cargo mais alto na Terra do que o Papa. E não existe coisa mais bela do que amar , venerar e servir o Romano Pontífice.

Bela manifestação de amor ao Papa

No século XIX deu-se um lindo episódio ao qual os historiadores, exceto os que tratam do Papado, quase não se referem: uma espécie de cruzada em defesa do Vigário de Cristo. Menos ainda mencionam o fato de que desta cruzada fizeram parte vários sul-americanos, entre eles alguns brasileiros.

Naquele tempo, o Papa era rei da cidade de Roma e de territórios circunvizinhos. Movidos por inimigos da Igreja, o monarca Vitor Emanuel e o general Garibaldi, que o servia, resolveram conquistar a Cidade Eterna e arrancá-la ao Pontífice. Ao saberem da perigosa situação em que se encontrava o Pai da Cristandade, católicos do mundo inteiro acorreram para defendê-lo e lutar por ele. Eram os chamados zuavos pontifícios. Embora pouco numerosos, combateram heroicamente, infligindo grandes derrotas aos adversários, sobretudo na acirrada batalha de Mentana.

Devido às circunstâncias, o Papa acabou perdendo o reino de Roma, mas a epopeia dos zuavos ficou sendo para sempre uma das mais belas manifestações de veneração ao Papado.

E assim temos uma breve noção do esplendor da instituição pontifícia. Se não houvesse uma autoridade suprema em sua Hierarquia, a Igreja se tornaria um caos, e a salvação das almas estaria gravemente prejudicada. Tudo isso se evita, porque há um Papa.

Numa palavra, o Sucessor de Pedro é o ponto central da vida dos homens, e para ele deve se voltar todo o nosso entusiasmo e amor.

São Tomás de Vilanova, caridade milagrosa e dom de conselho

“No início do século XVI” — afirma Rohrbacher — “a Alemanha e a Espanha apresentavam um curioso contraste: a Alemanha fora dividida e desviada por um monge agostiniano: Lutero; a  Espanha fora edificada e santificada por um monge agostiniano: São Tomás de Vilanova”.

Ouçamos o que o Padre R. F. Rohrbacher nos diz, na sua “Vida dos Santos”, sobre São Tomás de Vilanova.

Nascido no ano de 1488, em Fuenllana, diocese de Toledo, Tomás era filho de velha nobreza empobrecida. Seus pais eram excepcionalmente virtuosos e incutiram no filho um extraordinário amor aos pobres. Sua mãe, mulher de raro valor, possuía até o dom dos milagres. O menino foi digno dos exemplos recebidos. Após uma infância virtuosa, formou-se brilhantemente em Alcalá, passando a lecionar Filosofia entre os eremitas de Santo Agostinho, professando a 25 de Novembro de 1517, no mesmo ano da apostasia de Lutero.

Dedicou-se depois à cátedra, ao púlpito e ao confessionário. Foi pregador e conselheiro de Carlos V, que nada lhe negava, pois dizia que ele tinha “o dom de vergar os corações”. Escolhido como bispo de Granada, recusou o cargo, mas anos depois foi obrigado a aceitar o de Valência. O imperador escolhera outro religioso, mas o seu secretário ouviu o nome de São Tomás e assim redigiu o diploma de nomeação. Ao saber do acontecido, Carlos V negou-se a retificar o engano, pois o considerou providencial.

Havia muito que o reino de Valência era vítima de seca e aridez. De súbito, quatro dias antes do Natal de 1544, ano da escolha do novo arcebispo, a chuva começou a cair em abundância, como a anunciar dias de graça e redenção. E, de fato, assim foi o governo de São Tomás. Dando ele o exemplo, reformou paulatinamente o clero de sua diocese, voltando-se depois para os demais fiéis. Continuou sua vida mortificada, vendo nos pobres sua maior riqueza. Liberal para com os outros, era tão parcimonioso para consigo mesmo que chegou a ser acusado de avarento por um alfaiate, a quem mandara reformar um velho gibão. Entretanto, a es-te mesmo alfaiate doou cento e cinqüenta moedas de prata como dote para suas três filhas.

Sua caridade era, frequentemente, acompanhada de milagres. Seus êxtases também eram tão comuns que deles chegou a falar, em seus vários sermões sobre a Transfiguração. Finalmente, após onze anos de episcopado, São Tomás caiu gravemente enfermo, vindo a falecer em 8 de setembro de 1555, dia da Natividade de Nossa Senhora, por quem demonstrara a maior devoção durante toda a vida. Já agonizante, doou a um pobre carcereiro a cama em que estava deitado, pois já nada mais possuía.

São Tomás deixou grande número de sermões, cujo magnífico estilo lembra São Bernardo, por quem sempre nutriu grande admiração.

Não é muito fácil comentar esta ficha, porque os traços que relata de São Tomás de Vilanova são de um lado, evidentemente admiráveis e, de outro, característicos de muitos santos, estando acima e além de qualquer louvor. Limito-me portanto, a ressaltar algumas coisas digna de meditação, por apresentar certa peculiaridade.

Homem suscitado pela Providência

Em primeiro lugar, o fato de Carlos V ter tido como pregador e conselheiro um tão grande santo quanto este. Vemos aí o dedo da Providência dirigindo os grandes homens de Estado. Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Alemão, o homem em cujos domínios o sol nunca se deitava, Rei da Espanha, e, portanto, de todas as colônias que esta possuía no Novo Mundo — para a execução da tarefa providencial que cabia à Casa d’Áustria, teve o auxílio de São Tomás de Vilanova.

Há revelações privadas tratando a respeito do papel dos Habsburg, dos desígnios da Providência sobre a Casa d’Áustria, e das graças que lhe concedeu para realizar esses desígnios. Conhecendo tudo isto, compreendemos como é belo ver a Providência amparar por esta forma a Carlos V, de maneira a ajudá-lo a cumprir um dever realmente pesado.

Dom de vergar os corações

De outro lado, entretanto, não se pode deixar de notar com tristeza o resultado causado pela falta de correspondência dos homens às graças de Deus. Carlos V teve um santo como conselheiro, mas, devido à sua moleza e espírito de contemporização, permitiu ao protestantismo se expandir tanto em suas próprias terras. É bem verdade que ele lutava com muitos inimigos, como, por exemplo, a Turquia e a França, a qual se tornou responsável, por este modo, pelo alastramento do protestantismo. Porém, ele desfrutou longos períodos de paz, e teria tido muitos meios para se opor mais seriamente ao alastramento do protestantismo. Suas famosas contemporizações causam tristes reflexões da parte de todos os historiadores da Igreja.

De outro lado, existe o reverso da medalha. Este homem terminou sua existência como penitente. Abandonou todos os seus bens e foi se encerrar no Mosteiro de Yuste, onde passou os Últimos anos de sua vida de um modo digno a edificar a Cristandade. Não foram os conselhos de São Tomás que teriam, afinal de contas, repercutido em seu coração? Dizia Carlos V que São Tomás tinha o dom de vergar os corações. Tudo dá a impressão de que ele falava por experiência própria: não teria São Tomás vergado esse coração de ferro?

Poder-se-ia objetar: Dr. Plinio, por que o senhor fala em ‘coração de ferro’? Um homem contemporizador é um mole, um brando, não pode ser considerado um ‘coração de ferro’. É Minha experiência, que já não é pequena, me ensina o seguinte: não há alma mais dura do que a do mole; não há coisa mais difícil do que levar o mole a ser enérgico. É mais árduo fazer um mole ser enérgico do que um enérgico seja moderado.

Por exemplo, se um santo tivesse conseguido que Luís XVI fosse enérgico, teria feito uma proeza sobrenatural “se se pudesse usar esta expressão” maior do que um outro que convencesse Luís XIV a não praticar alguns atos de energia, talvez exagerada, que ele tenha feito em seu reinado. De maneira que, se isso São Tomás de Vilanova conseguiu, foi realmente uma prova de que ele vergava corações de ferro.

Desprendido, nosso Santo mostrava as maravilhas feitas por Deus em sua alma, sabendo que com isto glorificava-O.

Uma via excepcional suscitada pela Esposa de Cristo

Outra coisa bonita é notarmos que os êxtases de São Tomás foram tantos que ele próprio chegou a falar deles em sermões. Essa naturalidade, sinceridade e nobreza com que ele contava, do “pápito”, as manifestações da vida da graça em sua alma, demonstram um espírito verdadeiramente elevado, capaz de fazer isso sem se envaidecer nem procurar dar a entender que era por mérito próprio, mas, pelo contrário, atribuindo tudo é  graça de Deus.

É o contrário de um certo modo protestantoso de entender a modéstia, que se generalizou mesmo em certos países católicos, segundo o qual o indivíduo seria imodesto sempre que se elogiasse a si próprio, deixando transparecer suas qualidades, porque a suprema modéstia consiste em escondê-las. Nem sempre isto é bem pensado. Porque os defeitos sempre aparecem. Se escondermos com muito cuidado as qualidades, pergunta-se o que iremos levar de bom para o convívio com os outros. Quer dizer, isso é um cálculo um pouco simplificado.

Que seja perigoso dizer a alguém: ‘Fale sobre suas qualidades’, eu compreendo. Pois é provável que a pessoa não tenha uma noção inteiramente objetiva a respeito delas. Mas afirmar que ocultar as virtudes seja uma obrigação, até lá não chego.

Desprendido, nosso Santo mostrava as maravilhas feitas por Deus em sua alma, sabendo que com isto glorificava-O. É uma via não-habitual, inteiramente justificável.

Natividade de Nossa Senhora

Fonte de toda elevação e grandeza, Nosso Senhor escolheu por Mãe aquela que, abaixo d’Ele, veio ao mundo para ser o píncaro da criação. E um ápice com esta característica de particular excelência: possuía tudo na ordem do necessário, acrescido da elegância que se alça para o terreno do supérfluo.

Ela nasceu com o florilégio de todos os charmes possíveis, mil graciosidades, mil distinções, mil belezas que constituem, também, a sua incomparável glória.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

Os Céus se alegram, os Infernos estremecem

Há um hino a Nossa Senhora do qual gosto muito, cujas estrofes afirmam:
“Se tu queres o Céu, ó alma, invoca o nome de Maria.
“Aos que invocam Maria, as portas do Céu se abrem.
“Pelo nome de Maria os Céus se alegram, os Infernos estremecem.
“O Céu, a Terra e os mares, o mundo inteiro se rejubila.
“Fogem as culpas e as trevas, as dores da doença e as úlceras.
“Aos vencidos se desatam os pés, e para os navegantes as águas se tornam mansas.
“Glória a Maria, Filha do Pai, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Esposa do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.”
É muito bonitinho, tem muita candura. Ao dizer isto, não o dissocio de Nossa Senhora altíssima, puríssima, reinando no Céu e, por causa disso, exercendo sobre a Terra essa ação benfazeja, mas enorme! Não há mares, não há trevas, não há coisas que Ela não domine, em razão de ser tão boa e estar tão alto.

 

Plinio Corrêa de Oliveira(Extraído de conferência de 6/7/1985)
Revista Dr Plinio 234 (Setembro de 2017)