30 de maio – São Fernando de Castela, incansável batalhador

São Fernando de Castela, incansável batalhador

São Fernando de Castela, incansável batalhador na reconquista espanhola, assim rezava: “Senhor, Vós que sondais os corações, sabeis que busco vossa glória e não a minha; não me proponho conquistar reinos perecíveis, mas difundir o conhecimento de vosso nome”.

Façamos nossa, essa bela prece, a fim de alcançarmos a virtude da despretensão: “Em todas as nossas ações de apostolado, Senhor, procuramos exclusivamente vossa glória e não a nossa. Não almejamos conquistar para nós um prestígio perecível, mas difundir o conhecimento da verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, da doutrina da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana!”

(Extraído de conferência em 29/5/1968)

30 de maio – Santa Joana d’Arc

Santa Joana d'Arc

Virgem heroica, virgem pura, virgem encantadora, Santa Joana d’Arc foi suscitada por Deus para restituir à França sua glória épica e cavalheiresca.

A humilde pastora de Domrémy fora chamada a brilhar na corte de um rei, onde a inocência dela se revelou com a clareza do sol ao meio-dia; destinada a viver num campo de batalha onde, em meio a lamentáveis desregramentos, ela reluziu como um círio de cera puríssima em plena noite…

30 de maio – São Fernando de Castela

São Fernando de Castela

Rei e arquétipo do batalhador incansável, São Fernando de Castela foi extraordinário exemplo do homem forte e herói, completado pelas antíteses harmônicas: alma mais vigorosa que o corpo, ímpeto maior que a musculatura; ideal ainda maior que o ímpeto; e uma total abnegação de si, em aras desse ideal.

De tal maneira que não se tratava de um César imaginando-se nos triunfos de Roma, mas de um verdadeiro santo que pensava no Céu…

26 de maio – São Filipe Néri e a florescência da Europa católica

São Filipe Néri e a florescência da Europa católica

“Imagine, quem puder, toda a beleza espiritual de uma época em que os santos se encontravam na rua, cruzavam seus olhares, e a luz da virtude de um resplandecia na face do outro!” — exclama Dr. Plinio, ao considerar alguns dos edificantes episódios da vida de São Filipe Néri.

 

De São Filipe Néri, Fundador da Congregação do Oratório, sabemos que nasceu em Florença, no dia 15 de julho de 1515, e morreu em Roma, no dia 25 de maio de 1595.

Cena poética na Cidade Eterna

Segundo interessante notícia biográfica(1), ele teria passado todas as noites, durante dez anos, nas catacumbas. Quando encontrava as igrejas fechadas, recitava suas orações nos pórticos dos templos, e mais de uma vez foi visto fazendo leitura ao clarão da lua.

Não podemos nos esquivar de considerar o poético da cena. Um jovem estudante, piedoso, futuro santo, aureolado de virtude, peregrinando pelas igrejas da Cidade Eterna, lendo ao clarão da lua. E a poesia se torna mais acentuada se lembrarmos que, em Roma, isto se dava junto a ruínas milenares, sentado sobre o capitel de uma velha coluna, afagando com a mão a cabeça de um leão de pedra trazido do Egito, com ramagens crescendo pelo meio, enfim, todo o ambiente da Roma antiga, temperado por uma pitoresca e artística desordem…

Elevação de trato entre dois santos

No dia de Pentecostes de 1545, como ele suplicasse ao Espírito Santo de lhe conceder seus dons, sentiu seu coração abrasar‑se, e não podendo suportar o excesso desse abrasamento, jogou-se no chão. Quando se levantou, levou a mão ao peito: seu amor era tanto que o tórax havia estufado e se distanciado do coração.

Cinqüenta anos depois, quando da sua morte, os médicos o abriram para examinar o milagre e descobriram que duas costelas haviam se rompido sobre o coração e não se fecharam, tal o entusiasmo do amor de Deus que ele tinha sentido. Após aquele episódio na festa de Pentecostes, o santo experimentou uma contínua palpitação de coração todas as vezes que se ocupava das coisas divinas.

Muitos e nobres personagens, estimulados pelo exemplo desse até então simples leigo — ele só se tornaria padre seis anos depois, em 1551 —, entraram em Ordens religiosas, enquanto ele mesmo permanecia no século. Por isso Santo Inácio de Loyola, que o conheceu, censurava-lhe com familiar afeto, comparando-o ao sino, que chamava todos para dentro da Igreja, mas que nunca entrava.

Vê-se o dito amável, leve e gracioso de um santo para outro santo. O primeiro fora inspirado por Nossa Senhora a escrever os Exercícios Espirituais na Gruta de Manresa, e o segundo, nimbado pelos dons do Espírito Santo numa festa de Pentecostes: quem pode imaginar, pois, a elevação do trato entre eles!? Eram grandes conversas de grandes santos.

Assistência especial de Deus para com os caridosos

Certa noite, dirigindo-se à casa de uma pessoa nobre, mas arruinada, para levar alguma provisão de víveres, topou com uma carruagem no seu caminho, e querendo lhe dar passagem, caiu dentro de um buraco muito profundo. Porém, o anjo do pobre a quem ia socorrer velava sobre ele, e o suspendeu miraculosamente no ar, impedindo que despencasse naquela abertura.

Quer dizer, enquanto São Filipe Néri caminhava pelas ruas de Roma à procura dos necessitados aos quais costumava amparar, os anjos da guarda deles o acompanhavam e protegiam. Poder-se-ia perguntar por que não foi socorrido pelo seu próprio anjo custódio. E eu responderia: primeiro, porque o pobre era interessado em que seu benfeitor chegasse até ele; e em segundo lugar, porque Deus dava a entender, por essa forma, quanto Lhe era grata a esmola que São Filipe fazia ao necessitado.

Ou seja, o fazer bem aos pobres nos dá direito a uma assistência especial da parte da Divina Providência. E devemos acrescentar: se o socorro prestado aos indigentes de bens materiais reverte em tantos benefícios para o benfeitor, estes serão ainda maiores para os que prestam auxílio aos carentes de bens espirituais. Então, ao darmos um bom conselho, fazermos um apostolado, trazermos uma alma para a Igreja, etc., estaremos colhendo frutos para nossa própria santificação.

O “contra‑Carnaval” e os milagres de São Filipe Néri

Alguns fatos da vida de São Filipe merecem particular destaque.

Por exemplo, já sacerdote, nos dias de Carnaval costumava redobrar suas orações. Seguido por uma massa imponente de fiéis, peregrinava pelas sete basílicas de Roma, a fim de protestar contra a imoralidade de seus cidadãos.

Ou seja, enquanto alguns do povo se entregavam aos festejos desregrados, ele organizava procissões pelas ruas, apresentando a Deus um ato de reparação. Era um contra‑carnaval, vigoroso e destemido. A tal ponto que o cardeal-vigário de Roma o chamou e, depois de lhe ter censurado fortemente por aquelas peregrinações, proibiu-lhe de ser confessor durante 15 dias.

Ora, o vigário morreu bruscamente, antes de ter levantado a penalidade e o Papa Paulo IV, chamado a julgar a causa, deu ordem ao santo de retomar os seus exercícios e lhe pediu que rezasse por ele, Sumo Pontífice.

Outro fato digno de nota se passou com um de seus penitentes que, tendo partido de Roma contra a opinião de São Filipe, em direção a Nápoles, foi detido por corsários. Como estava a ponto de se afogar, ele clamou por São Filipe Néri à distância e pediu seu apoio. Imediatamente o santo lhe apareceu, cercado de uma auréola luminosa, tirou‑o da água pelos cabelos e o conduziu até a margem, por cima das ondas.

Como se vê, um estupendo milagre.

Noutra ocasião, o Papa Clemente VIII se viu atacado por uma doença mortal e fez chamar São Filipe Néri. Assim que o santo entrou no quarto, o Pontífice se sentiu curado.

E o próprio São Filipe, no mês de maio de 1594, foi acometido por uma violenta febre, e acreditou estar tudo perdido. Mas quando todos se desesperavam em torno dele, o doente, atraído subitamente por uma força desconhecida, foi arrancado de seu leito e durante alguns momentos suspenso entre a terra e o céu. Nossa Senhora visitou aquele a quem Ela amava e que tinha socorrido a tantos enfermos e lhe restituiu, ao mesmo tempo, a vida e a saúde.

Sem seriedade, nem as lições dos milagres nos fazem bem

Semelhantes milagres nos levam a uma consideração colateral, porém importante. Procuremos nos imaginar entrando no quarto de um moribundo e, de repente, o vemos se elevar e permanecer suspenso entre o céu e a terra. Dali a instantes ele desce, senta-se na cama e diz: “Estou curado”. Levanta-se e retoma seus afazeres costumeiros.

Dificilmente essa cena não produziria um impacto profundo em quem a presenciasse. Pergunta-se: esse impacto nos faria muito bem ou não?

Sabendo-me pouco amável — mas provavelmente veraz — em minha resposta, eu diria não estar tão certo da afirmativa. Pois a contagiante superficialidade de muitos espíritos contemporâneos é tal que, se não nos habituarmos a tomar as coisas com seriedade, um milagre como esse produz em nós impressão passageira, sem nos fazer o bem que dele deveríamos colher.

Alguém constestaria: “Dr. Plinio, eu teria um tal choque, que nunca me esqueceria desse fato”. É verdade. Nunca se esqueceria, mas nunca o tomaria a sério.

E o que entendo por “tomar a sério” é ver, julgar e agir como São Paulo no caminho de Damasco. Ele foi jogado ao chão, ofuscado pela luz divina, e ali mesmo, deitado no solo, tomou suas resoluções de santidade: “Senhor, o que quereis que eu faça?”, foi sua imediata resposta ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quer dizer, tomou a sério: viu que andou mal, ouviu a voz de Deus, julgou sua situação, tirou suas conclusões e decidiu agir. “Que quereis que eu faça?” É o exemplo que devemos imitar, é o hábito de ser sério que devemos adquirir.

Contemplava a perfeição na fisionomia dos santos

Voltemos  à vida de São Filipe Néri. Por um privilégio especial, era-lhe dado contemplar a santidade resplandecer no rosto dos santos.

Percebe-se, por aí, como ele passeava no meio de bem-aventurados, conhecendo a vários deles e observando na suas fisionomias a excelência moral de que eram relicários vivos.

De modo particular notava-o no semblante de São Carlos Borromeu e de Santo Inácio de Loyola. Deste último, costumava dizer: “A beleza de sua alma é tal, que ela resplandece em sua face. Eu via raios de luz emanarem de seu rosto”.

Pensemos como haveria de ser maravilhoso essa contemplação: olhar para um homem e ver raios de luz espargindo de sua face! Se pudéssemos simplesmente presenciar a cena de dois santos cruzando seus olhares, quanto isso nos faria bem… se o soubéssemos tomar a sério!

“Eu preciso morrer”

Deus concedeu a São Filipe Néri o dom da bilocação, como atesta um episódio passado entre ele e a bem‑aventurada Catarina de Ricci, dominicana. Esta se achava na cidade de Prato, e São Filipe, em Roma. Ora, aquela pode vê‑lo e conversar com ele, e quando o santo foi informado disso, concordou que tudo quanto ela tinha dito era verdade. O próprio São Filipe admitiu que tinha conversado com Catarina, sem que esta tivesse ido a Roma, nem o corpo dele tivesse ido a Pratto.

Ou seja, foi um fenômeno de bilocação, muito pouco freqüente, mesmo entre os santos.

Por fim, no dia de Corpus Christi de 1595, São Filipe, após ter recitado o Ofício, celebrado a Missa e confessado pela última vez um grande número de penitentes, aos quais recomendava, sobretudo, ler a Vida dos santos, deitou-se na cama, dizendo: “Eu preciso morrer”.

O médico foi chamado, examinou‑o e disse que ele estava mais bem disposto do que nunca. Três horas depois São Filipe expirava docemente, assistido pelo Cardeal Baronius, um dos seus primeiros colaboradores. A Rainha do Céu recebeu sua alma.

Das considerações desses fatos tão edificantes, além dos exemplos de virtudes a serem por nós imitadas, depreende-se a idéia do que foi a florescência da Europa católica de antigas eras. Parafraseando a expressão de Leão XIII, diríamos: tempo houve em que os santos se encontravam nas ruas, cruzavam seus olhares e a luz da santidade de um repercutia na do outro, multiplicando-se e operando milagres. Felizes tempos.

 

(Extraído de conferência em 8/10/1973)

 

1) Cf. Rohrbacher, Histoire Universelle de L’Église Catholique, 1872, vol. 10, p. 347 ss.

26 de maio – Firmeza do guerreiro católico

Firmeza do guerreiro católico

Vemos aqui São Felipe Néri já idoso, com a barba inteiramente branca e o semblante de um homem que lutou muito, e ainda está no combate. E que está olhando atento e desconfiado para um adversário invisível para nós, mas que ele divisava ao longe.

Dir-se-ia que o Santo estava percebendo formar-se uma trama a certa distância dele, e que pensava na argumentação a ser dada e na rasteira a passar em quem avançava contra ele.

O caráter de luta, a meu ver, está não tanto no olhar, que dá muito a ideia de vigilância e de pugnacidade, mas no formato contorcido das sobrancelhas. Dir-se-ia que de tanto franzir as  sobrancelhas elas ficaram com essa forma singular. Como um guerreiro carrega as características da guerra, assim também as sobrancelhas dele carregavam o traçado de profundas preocupações.

Mas, se o olhar é vigilante, toda a atitude do rosto é plácida: é a firmeza do guerreiro católico que tem coragem.

25 de maio – São Beda e o antagonismo de duas épocas

São Beda e o antagonismo de duas épocas

São Beda foi um homem em cuja presença sentiam-se impressões de respeito, reverência, enlevo e encanto, convidando ao recolhimento quem dele se aproximava. Tal era sua santidade que, não podendo chamá-lo de santo ainda em vida, deram–lhe o título de “Venerável”, o que contrasta com o espírito revolucionário e igualitário dos nossos dias.

 

Em 25 de maio se comemora a festa de São Beda, o Venerável, Confessor e Doutor da Igreja. Diz a seguinte ficha:

Êmulo de Santo Isidoro de Sevilha, São Beda foi um dos sábios mais ilustres do seu tempo. Tal era sua santidade que, não podendo chamá-lo de santo ainda em vida, deram-lhe o nome de “Venerável”, que não perdeu depois de sua morte.

 

 

Diferença entre o apogeu da Idade Média e nossa época

Simplesmente por esta alcunha de “venerável”, dada a São Beda, podemos ter ideia da mudança dos tempos e dos lugares. Calculem na Europa do começo da Idade Média, no século VIII, um homem que é tido como dos mais cultos e inteligentes de sua época. Seria mais ou menos, em nossos dias, um indivíduo que tivesse recebido o prêmio Nobel de Ciência, ou da Paz, ou da

 

Literatura; alguém, portanto, consagrado por sua cultura. Pois bem, este homem é um Santo.
Já neste ponto notamos a diferença em relação ao nosso tempo, porque é raro vermos coincidirem sobre o mesmo homem a auréola e o esplendor da santidade e o fulgor da cultura e da inteligência. Aqueles grandes Santos foram, por assim dizer, “especializados” em santidade. Eles eram mais santos do que qualquer outra coisa.
Em nossos dias não encontramos, como no apogeu da Cristandade medieval, Santos que, ademais, sejam muito salientes em qualquer outra atividade: grandes guerreiros, notáveis sábios ou imponentes reis. Por quê? Justamente por causa da decadência da Cristandade que levou os homens de cúpula a serem tantas vezes pinçados para servirem ao mal, escapando das mãos amorosas da Igreja. Assim, vemos um grande contraste entre a figura de São Beda, o Venerável, e as circunstâncias da nossa época.
De outro lado, imaginem uma pessoa de quem se dissesse o seguinte: “Ah, é um indivíduo amabilíssimo, de uma prosa agradável, engraçado, atraente, um piadista como ninguém!” Certamente esse homem atrairia muito as companhias em torno de si, sobretudo se correspondesse aos elogios que fizessem dele.
Entretanto, se perguntássemos a alguém numa roda comum de nossos dias:
— Que tal é Fulano?
— Ah, respeitabilíssimo…
Esse homem atrairia muita gente em torno de si? Sem dúvida, não.

 

 

O homem desfigurado pela Revolução

Ora, tempo houve em que a mais alta qualidade de uma pessoa era a de ser respeitável, venerável. Então, a um homem que possuía essa virtude em grau eminente dava-se a alcunha: “o Venerável”. Quer dizer, era aquele em cuja presença sentiam-se impressões de respeito, reverência, uma superioridade que enlevava e encantava, e que colocava as pessoas numa atitude de recolhimento. Era uma humanidade católica, batizada, que, por possuir o espírito incutido pelo santo Batismo nas pessoas, e conservado nelas quando fiéis à graça, gostava de ter diante de si alguém superior, cuja superioridade reconheciam e admiravam. Poder estar com um homem venerável, vê-lo ou reverenciá-lo era a suprema alegria.
Por que, no mundo de hoje, as pessoas não gostam de venerar? E, tendo a alcunha de venerável, por que o indivíduo veria o vazio em torno de si? Por uma razão muito simples: em primeiro lugar, o igualitarismo faz com que se odeie toda superioridade. E em segundo lugar, porque a venerabilidade é séria, grave, convidando as pessoas que tomam contato com ela a uma postura de recolhimento, bom senso, respeito.
É exatamente disso que foge o homem modelado pela Revolução, ou, se preferirem, desfigurado pela Revolução. Aquele título, considerado como uma pérola brilhante sobre a fronte do homem medieval, afugenta em nossos dias. Nisso constatamos a enorme rotação dos espíritos, pois tudo mudou.

 

O nocivo imperialismo norte-americano

 

Daquela Europa antiga do século VIII para nossa América deste século, na enorme mutação dos tempos e dos lugares, como todas as coisas são diferentes! E eu falo de modo especial da América do Norte, porque se há um espírito que foge ao venerável é o espírito norte-americano, tendo seu foco de irradiação nos Estados Unidos, mas que se expande em largos borbotões pelas nações vizinhas do continente.
Não sou economista, de maneira que não posso avaliar até que ponto esse imperialismo americano, tão falado, existe do ponto de vista financeiro, material. Deve haver um exagero, porque os comunistas dizem que ele existe; e quando os comunistas não mentem, eles exageram, mas afirmar a verdade inteira nunca fazem.
O imperialismo político norte-americano praticamente não existe. Porém, há um imperialismo nocivo, imponderável, ideológico, mas de uma ideologia difundida de forma vivencial, que se espalha por toda parte, impregna todos os ambientes e penetra no subconsciente das pessoas através de mil condutos de propaganda, inimigo da veneração e da desigualdade.
Se considerarmos, por exemplo, a fotografia do primeiro mandatário de qualquer grande nação de nossos dias, pode-se dizer tudo dele: que ele conta piadas, é muito inteligente, haverá até quem afirme ser muito agradável… Há um provérbio prosaico de antigamente que meu pai gostava de citar em certas ocasiões: “Não há sapato velho que não procure o seu pé inchado.” Assim também haverá quem ache graça em certos personagens da política contemporânea. Mas o que eu não concebo é alguém olhar a fotografia de algum deles e dizer: “o venerável Fulano…!”
Um indício de como as coisas mudaram que se faz bem presente ao espírito, é este: antigamente, se houvesse uma eleição, ganharia o mais venerável. Em nossos dias, quantas vezes um palhaço tem maiores possibilidades de vencer uma eleição! Imaginem alguém se apresentar para uma eleição com os dizeres: “Fulano de tal, candidato da respeitabilidade nacional.” Estava derrotado. Assim, vemos como tudo decaiu ao sopro da Revolução.
Eis uma pequena meditação sobre o título de um grande Santo.v

(Extraído de conferência de 27/5/1972)

25 de maio – O Papa que travou uma batalha decisiva

O Papa que travou uma batalha decisiva

São Gregório VII travou uma batalha decisiva, depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual Henrique IV se levantou. Posteriormente houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo.

 

São Gregório VII teve um importante papel contrarrevolucionário ao reivindicar a prioridade das coisas espirituais sobre as temporais, do papado sobre o império, ao impor, com palavras magníficas, o castigo necessário ao Imperador rebelde que, assim contido, teve reprimida na sua pessoa, durante séculos, a marcha da Revolução a qual, como serpente que saía de sua toca, tentava começar a caminhar na História, quando o cajado firme desse pastor lhe quebrou a cerviz.

Vibrou contra Henrique IV a punição mais alta, profunda e intransigente

Tudo isso constituiu a glória desse Santo o qual pôde dizer que morria no exílio porque tinha amado a justiça e odiado a iniquidade, cumprindo desta forma inteiramente o seu dever de pastor, e dando o magnífico testemunho de si mesmo.

Mas há um aspecto da vida de São Gregório VII o qual, embora reluza com todo o brilho e seja notado por todo mundo, não vi ninguém que comentasse. Que aspecto é esse?

Ele travou uma batalha decisiva depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual ele se levantou. Sobre aplicações colaterais ou transgressões desse princípio, punidas justamente pela Igreja, ainda houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo. Portanto, o golpe desferido por ele foi certeiro, atingindo o ponto que deveria.

Em segundo lugar, São Gregório VII teve que enfrentar o maior potentado da Terra, e não tentou ladear a questão. Ele não procurou mandar emissários incumbidos de deformar o problema, atenuando-o com meias palavras e por meio de inadequadas contemporizações.

“O Imperador se levantou e sustentou tal coisa? Eu, Gregório, sucessor de São Pedro, declaro que esta coisa é falsa, e digo a ti, ó Imperador: Tu és o maior potentado civil da Terra, tu te encontras no meu caminho como o homem mais poderoso que a mim poderia se opor. Está bem, eu travo esta batalha contigo! Entesto o meu poder contra o teu, e vamos ver qual é o poder que vale mais. Eu te deponho e excomungo, escorraço-te da Igreja Católica. Mais ainda: amaldiçoo-te, declaro que tens parte com satanás e pertences à grei maldita que Deus expulsa da sua presença. Vai, sai!”

Quer dizer, contra esse potentado ele vibra a punição mais alta, profunda e intransigente que se poderia imaginar. Não tem medo de nada. E se tiver que acontecer qualquer coisa, aconteça. “Eu estou aqui para a glória de Deus, para a vida ou para a morte desta minha pobre existência terrena. Mas lutarei até o fim.”

Um fato sem precedentes na História

O Imperador vai a Canossa. De lá para cá, “ir a Canossa” ficou uma expressão consagrada na literatura de bom quilate. Diz-se que vai a Canossa a pessoa que, em linguagem corrente, vulgar, banal de hoje em dia, entrega os pontos, não tem mais resistência a fazer e se declara derrotada.

Canossa é uma comuna italiana, próxima a Toscana – Norte da Itália –, onde a Condessa Matilde, fervorosa devota do papado, possuía um castelo no qual abrigara o Santo Pontífice contra quem o furor do Imperador Henrique IV estava por se desatar.

Esse Imperador, em pleno inverno, toma trenós e, percorrendo os desertos gélidos da Suíça, particularmente inóspitos nessa época, vai a Canossa e pede perdão, porque não tinha outro remédio. Nos últimos dias em que ele permaneceu no poder, até os criados fugiam de sua casa, de maneira a não ter sequer quem lhe prestasse os serviços domésticos. Não é só dizer que não possuía apoio político, ele não tinha quem lhe preparasse o banho! Por quê? Porque era o homem maldito sobre o qual caíra a excomunhão do representante de Cristo na Terra, do sucessor de São Pedro. Por isso ninguém queria nada com ele.

Henrique IV atravessa as vastidões perigosas da Suíça durante o inverno, e naquele tempo a qualquer momento podia acontecer que caísse por um abismo abaixo, ficando sepultado na neve. Com a excomunhão, na neve ficaria o seu corpo e no fogo sua alma para todo o sempre, se não houvesse um arrependimento perfeito.

Enfim, ele se apresenta e pede perdão. Fato sem precedentes na História: um imperador humilhado a este ponto, por uma mera palavra de um papa. É o mais alto potentado da Terra contra quem o Sumo Pontífice pronuncia uma fórmula, e ele cai no chão. Era o caso de dizer: “Sed tantum dic verbum – dizei uma só palavra, e a Igreja será salva deste inimigo.” São Gregório VII disse a palavra, e a Igreja ficou libertada.

“Excomungado aqui não entra!”

No castelo da Condessa Matilde, o Papa é informado que o Imperador estava ali. Alguém mais fraco – não só um homem que não fosse santo, mas mesmo um santo não assistido por uma graça especialíssima – talvez tivesse pensado em acolher o penitente de imediato. Mas estava ali o varão cuja vocação era dar o exemplo do que é o gládio da Igreja, e fazer amar de modo todo especial essa integridade de alma pela qual a Igreja não cede. São Gregório VII manda fechar as portas do castelo:

— Excomungado aqui não entra!

— Mas o que ele pode fazer, pois está do lado de fora das muralhas, ajoelhado no gelo e pedindo perdão.

— Que fique!

Nesse gesto tão duro e admirável nota-se a mão maternal da Igreja. Ele poderia ter dito: “Que vá embora!” Entretanto, disse: “Fique!” Na ponta do gesto floresce uma vaga esperança de perdão. Mas antes a penitência, a humilhação. Durante três dias e três noites, o soberano deposto sofreu essa humilhação.

A História nos conta que só depois disso São Gregório VII admitiu Henrique IV e, tendo este pedido perdão com toda a humildade, o Papa o perdoou, reconciliou-o e permitiu que fosse embora. Estava quebrado o cetro que satanás levantara contra o papado. São Gregório VII tinha obtido uma grande vitória.

Que a maldita Revolução gnóstica e igualitária seja punida!

Qual é a lição que tiramos disso? A de ser rijo, firme, ir ao fundo, até o fim dos princípios, às últimas consequências, enfrentar qualquer adversário de viseira erguida e de gládio em punho, não se contentar com meios termos, com palavras vazias, nem com esperanças vãs, mas, ao pé da letra, exigir que se quebre o poder que se levantou e se anule o risco que se constituiu; só então ter misericórdia.

Porque a misericórdia é admirável enquanto chama para o arrependimento o pecador e o perdoa. Ela não seria admirável e não seria verdadeira misericórdia se fosse a paz com o pecador que não se arrepende. É preciso que o pecador se arrependa sinceramente e peça perdão. Depois disso ele deixou de ser empedernido. Então é a vez da misericórdia; antes não.

Mesmo depois de pedir o perdão ainda há a penitência a cumprir. É o que nos ensina esse entrecruzamento maravilhoso de justiça e de misericórdia que é o Purgatório. Almas de pessoas que faleceram piedosamente em Jesus Cristo, morreram rezando, pediram perdão de seus pecados e comparecem diante de Deus. Entretanto, em número incontável, são mandadas para o Purgatório. Por quê? Porque é preciso expiar, pagar de algum modo o mal feito. E a alma que se arrepende tem vontade de reparar esse mal praticado.

Assim, em nossa luta devemos considerar os desígnios da Providência: desejar, com toda a nossa alma, que o adversário da verdadeira Igreja Católica Apostólica Romana em nossos dias seja punido: a maldita Revolução gnóstica e igualitária. Mas seja punida ainda mais do que o Imperador Henrique IV foi, porque ela ousou coisa pior: tentou penetrar no próprio Santuário e transformá-lo num reduto da Revolução. Ela desbastou a Terra inteira, e é preciso que o castigo seja proporcional. A Revolução, enquanto tal, tem que desaparecer!

Eis a lição do grande São Gregório VII. Em última análise, levar o bem, a verdade, a beleza e a fidelidade à Igreja até as suas últimas consequências.

Devemos nos preparar para a grande luta que nos espera

Esse Pontífice não viveu no tempo de Carlos Magno, em cujo gládio estavam inscritas as palavras: “Defensor dos Dez Mandamentos”. Que coisa maravilhosa! Entretanto, São Gregório VII foi o Carlos Magno da Igreja Católica. A glória carolíngia, de proporções mais angélicas do que humanas, a Igreja a viveu nos dias de São Gregório VII magnificamente.

Nós, que queremos a glória da Santa Igreja porque desejamos a glória de Deus, devemos pedir a São Gregório VII que faça voltar à Terra esses dias de glória. Por meio dele, voltemo-nos para Nossa Senhora e peçamos a Ela, cuja intercessão é onipotente, que abrevie os dias tremendos nos quais estamos; faça com que atravessemos corajosamente todos os obstáculos que temos diante de nós e sejamos capazes da grande luta que nos espera.

São Gregório VII disse: “Eu odiei a iniquidade e amei a justiça, por isso morro no exílio.” Nós devemos afirmar: “Odiamos a iniquidade e amamos a justiça, por isso vivemos no exílio.” A nossa vida é um longo exílio, tivemos que nos exilar de tantas coisas, de tantos ambientes, de tantas circunstâncias; nós somos os exilados! Mas que belo exílio esse no qual um tão pulcro sentimento fraterno, uma tão bela conformidade de todos os espíritos e de todos os desígnios, no mesmo amor à mesma causa, nos reúnem.

O glorioso São Gregório VII, que morreu no exílio, dê força e ânimo a quem deve viver e, mais tarde, morrer no exílio. Como também àqueles destinados a ter suas vidas ceifadas durante os castigos profetizados em Fátima, para que morram com bravura. E os chamados a viver no Reino de Maria, vivam igualmente com coragem nessa ideia: o exílio acabou, mas se ainda hoje eu devesse me exilar, repetiria o meu passo e me exilaria novamente. Não tenho apego nem ao prêmio da minha vitória. Eis o nosso pedido a esse grande Santo, no dia em que se comemora a sua festa.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/5/1985)
Revista Dr Plinio 266 (Maio de 2020)

25 de maio – A mais eminente figura da Idade Média

A mais eminente figura da Idade Média

Dr. Plinio tinha grande devoção a São Gregório VII, porque este possuía, mais do que qualquer outro Bem-aventurado que ele conhecia, uma virtude que o entusiasmava  ao último ponto, e para a qual iam todas as fibras de sua alma: a combatividade inquebrantável. Esse papa tinha a integridade de alma por onde o homem caminha para todos os esforços, todos os riscos, todos os  dissabores, com o intuito de fazer vencer a causa da Santa Igreja.

 

Temos para comentar um trecho da carta escrita por São Gregório VII à Condessa

Matilde, no ano 1074 .

Um papa que atacava os vícios e as desordens dos mais poderosos

Entre as armas que, com o auxílio de Deus, eu vos forneço contra as insídias do mundo, lembrai-vos de que as principais são: receber frequentemente o Corpo do Senhor e ter uma confiança segura e completa em sua Santa Mãe.

Eis o que diz Santo Ambrósio, no livro quatro “Dos Sacramentos”: “Se nós anunciamos a Morte do Senhor, anunciamos a remissão dos pecados. Se cada vez que o Sangue do Senhor é derramado, o é pela remissão dos pecados, devo recebê-Lo sempre para que meus pecados sejam sempre perdoados. Pecando sempre, devo sempre tomar o remédio.”

No livro quinto “Dos Sacramentos”, o mesmo Santo diz ainda: “Se é um pão quotidiano, por que o recebeis uma vez ao ano, como os gregos costumam fazer no Oriente? Recebei-O diariamente, a fim de que cada dia vos seja proveitoso. Vivei de maneira a merecer recebê-Lo todos os dias.” […]

Quis, filha mui amada de São Pedro, escrever-vos estas coisas, a fim de aumentar a vossa fé e vossa confiança no recebimento do Corpo do Senhor; porque tal é o tesouro, tais são os presentes, não de ouro, nem de pedras preciosas, que, pelo amor de vosso Pai, o soberano dos Céus, vossa alma espera de mim, conquanto possais, segundo vossos méritos, receber de melhor de outros Pontífices.

Quanto à Mãe do Senhor, a Quem principalmente vos recomendei, recomendo-vos e não cessarei de recomendar-vos, até o momento em que tivermos a felicidade de vê-La como nós o desejamos. Que vos direi? Ela, a Quem o Céu e a Terra não cessam de louvar, ainda que não A possam louvar dignamente. Entretanto, considero isto fora de qualquer dúvida: Ela é mais elevada, e melhor, e mais santa do que qualquer mãe. Ela é mais clemente e mais doce para com os pecadores e as pecadoras convertidos. Empenhai-vos, pois, em pôr cobro ao pecado e, prosternada diante d’Ela com coração contrito e humilhado, derramai as vossas lágrimas. Vós A encontrareis, prometo-vos, sem qualquer dúvida, mais pronta do que uma mãe carnal, e mais terna em vos amar.

Comenta o Padre Rohrbacher:

Essa carta do Papa São Gregório VII é muito notável. Mostra-nos uma maravilha que o mundo não compreende. Esse gênio poderoso que com um olhar abarcava todos os reinos, todos os bens e os males da humanidade, que atacava ao mesmo tempo  e  por toda parte os vícios e desordens dos mais poderosos, que não se arreceava de nenhum obstáculo, que parecia aos homens de seu tempo mais firme e mais inquebrantável do que o céu e a Terra, esse gênio poderoso tinha […]uma ardente devoção  à Santa Eucaristia, uma confiança filial na Santa Virgem, uma terna compaixão para a fraqueza humana.

Alegria de Deus com o pecador que se converte

São trechos de um grande Santo e comentários de um grande autor .

Em primeiro lugar, a respeito do Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que está dito é que o pecador não deve afastar-se da Sagrada Eucaristia. Pelo contrário, ele precisa recuperar o estado de graça e voltar a frequentar este sublime Sacramento. Isso porque o Deus de misericórdia, ao invés de afastar o pecador, o atrai. Ele não aceita na Sagrada Eucaristia o homem no estado de pecado, mas arranca o pecador desse estado pela perspectiva de receber o banquete celeste e o atrai a Si. De maneira que, quando alguém comete pecado, não deve afastar-se da Eucaristia; pelo contrário, o mais depressa possível precisa confessar-se, recolocar-se no estado de graça e voltar à Sagrada Eucaristia.

Porque é imensa a alegria de Deus com o pecador que se converte. Ele a exprime bem no Evangelho quando fala da mulher que perdeu uma moeda, procurou-a por toda parte e, tendo-a encontrado, chama as amigas e mostra a sua alegria pelo encontro da moeda. Ou, então, com o exemplo do bom pastor que vai procurar a ovelha tresmalhada ao longe, e a traz nos seus ombros para o aprisco .

Quer dizer, Deus ama singularmente o pecador arrependido. E ao perdoar o pecador verdadeiramente contrito, Ele tem uma razão para amá-lo mais do que antes. É por isso, por exemplo, que Santa Maria Madalena foi mais amada por Nosso Senhor depois de se converter do que antes de pecar . São essas as amplitudes da misericórdia divina.

Não há coisa que seja mais frequente do que encontrarmos nas almas uma ação do demônio que põe a coisa nestes termos: “Você está em estado de pecado, não comungue, nem se aproxime de Deus. Onde é que se viu que um pecador de seu jaez vá se aproximar de Deus em estado de pecado! Você é louco, isso não tem propósito, fuja!”

Ora, o certo é o contrário: “Você está em estado de pecado mortal, venha correndo para Aquele que é o Médico de sua alma, o seu Redentor, com toda a humildade, batendo no peito, lamentando o mal que fez, é verdade, mas venha com confiança porque a porta da misericórdia estará aberta”.

São Pio X desferiu na Revolução um dos mais terríveis golpes

Compreendem-se, assim, os problemas da expansão da Igreja e o bem prodigioso feito por São Pio X com o seu projeto de re-afervoramento eucarístico.

Nós vemos aqui São Gregório VII, apoiado em Santo Ambrósio, pleitear a Comunhão diária. Como é sabido, antes do tempo de São Pio X, as pessoas mais piedosas comungavam duas ou três vezes por ano. Isso era observado para ter mais respeito para com a Eucaristia, de maneira a, mantendo-se bem afastado, o fiel fizesse uma arqui preparação para a Comunhão. Dir-se-ia até ser uma atitude esplêndida. Mas, generalizando a frequência à Sagrada Eucaristia, São Pio X desferiu na Revolução um dos mais rudes e terríveis golpes que se podia dar. Especialmente com a Comunhão das crianças. O império do demônio dificilmente é tão grande numa alma que recebeu o Santíssimo Sacramento, como seria se essa alma nunca O tivesse recebido.

Portanto, a insistência para que os fiéis vão ao Santíssimo Sacramento tem por detrás, doutrinariamente, uma insistência para que o pecador procure Nosso Senhor e, sem desfalecer, amparado na bondade d’Ele, vá mais uma vez ao seu encontro. De maneira que uma pessoa, por mais que peque, nunca deixe de se confessar, com um propósito sério de não mais pecar, segundo pede a Igreja, e comungar, aproximando-se assim das fontes das águas que é o Santíssimo Sacramento.

Harmonia total e inebriantemente bela do perfil moral da Mãe de Deus

O que o São Gregório VII diz a respeito de Nossa Senhora é também uma verdadeira maravilha:

…considero isto fora de qualquer dúvida: Ela é mais elevada, e melhor, e mais santa do que qualquer mãe. Ela é mais clemente e mais doce para com os pecadores e as pecadoras convertidos.

Aqui está um princípio de moral

que nos é muito caro: quem tem uma virtude em muito alto grau, possui também todas as outras virtudes em grau elevado . Não é possível a pessoa ser verdadeiramente muito elevada em outras virtudes, sem ser ao mesmo tempo muito misericordiosa. Porque, se ela é muito virtuosa, tem de um modo insigne todas as virtudes e, portanto, também a misericórdia.

Então, quanto mais eu falo da grandeza da Santíssima Virgem e nos seus altos privilégios, tanto mais devo me convencer de que Ela, entre outras qualidades excelsas, tem a de Mãe terníssima, benigníssima, intimíssima, que Se põe na estatura de cada um de seus filhos para tratar com eles como as mães fazem habitualmente com suas crianças .

Compreende-se, assim, como a harmonia celeste da alma de Nossa Senhora é feita: tão mais alta do que todos os querubins e serafins, a ponto de estar fora de qualquer termo de comparação com tudo quanto o restante da Criação possa ter de mais superlativamente magnífico. Entretanto, apesar disso, Ela é a mais meiga, a mais terna de todas as criaturas, a que mais entra na proporção e no contato com cada homem, de maneira tal que se um de nós tem uma mãe que considera ser muito carinhosa, esteja certo de que Nossa Senhora a excede indizivelmente em afabilidade, meiguice e carinho.

É assim que a devoção a Maria Santíssima deve ser vista. E jamais me cansarei de ensinar isso, porque Ela nunca Se farta de dá-lo a entender a seus filhos de todos os modos: aparições, milagres, etc .

A ação de Nossa Senhora sobre a Terra consiste em mostrar que Ela é simultaneamente terrível como um exército em ordem de batalha – esmagando continuamente a cabeça da serpente, derrotando sozinha todas as heresias do mundo inteiro; Nossa Senhora dos Cruzados, dos Inquisidores, dos Santos indomáveis na luta pela Fé, como foi São Gregório VII – e, ao mesmo tempo, Mãe bondosa dos pobres, fracos, desvalidos, pequeninos. É a harmonia total e inebriantemente bela do perfil moral da Mãe de Deus.

Varão intrépido, batalhador indomável

Na ficha lida há pouco, o Padre Rohrbacher mostra como São Gregório VII foi um pontífice indomável .

Eu tenho a impressão de que – e é a razão de minha veneração e ternura por São Gregório VII – ele foi chamado a prestar na História da Igreja, mais do que qualquer outro Santo que eu conheça, uma virtude que me entusiasma ao último ponto, e para a qual vão todas as fibras de minha alma: a combatividade inquebrantável. Ele combateu tudo, lutou contra todos, não cedeu em nada e enfrentou tudo.

Essa integridade de alma por onde o homem caminha para todos os esforços, todos os riscos, todos os dissabores, com o intuito de fazer vencer a causa da Santa Igreja, me entusiasma.

No entanto, por ser muito combativo, São Gregório VII necessariamente tem que ter também em alto grau as virtudes simétricas ou opostas. Assim, precisamente por ter muita combatividade, ele devia ser também um devoto ardentíssimo de Nossa Senhora, muito terno, meigo, e um ardorosíssimo devoto do Santíssimo Sacramento, inculcando formas de piedade extremamente suaves, como a da frequência diária ao Santíssimo Sacramento e a devoção à Santíssima Virgem.

É como São Bernardo, que foi pregador de Cruzadas e o autor da “Salve Rainha”, do “Lembrai-Vos”, orações de uma unção extraordinária! Pregador de Cruzadas e chamado “Doutor Melífluo”, quer dizer, de quem flui o mel pela doçura de sua pregação a respeito de Nossa Senhora. Ele não teria estado à altura de compor a “Salve Rainha” e o “Lembrai-Vos” se não fosse um homem com uma alma de um pregador de Cruzadas. Mas, por outro lado, não seria verdadeiramente um pregador de Cruzadas se não tivesse a alma de um homem tão doce, capaz de compor essas orações. As duas coisas se completam, uma seria impossível sem a outra.

Vemos, assim, as almas grandiosas de São Bernardo e de São Gregório VII, mas este último ainda mais caracteristicamente um varão intrépido, batalhador indomável que encheu com sua luz todo o céu da Igreja até nossos dias e a iluminará até o fim dos tempos.

Cada apóstolo dos últimos tempos deve ser como que um outro São Gregório VII

Eis o grande Santo cuja relíquia se encontra em nossa capela. Que felicidade e tesouro contidos simplesmente nesta afirmação: a relíquia desse Santo se encontra em nossa capela! Quer dizer, é um fragmento dos ossos dele, uma matéria momentaneamente dissociada, mas que numa ordem mais profunda forma um só todo com sua alma gloriosíssima que já está no Céu vendo a Deus face a face, e contemplando Nossa Senhora.

Esse fragmento, no dia da ressurreição da carne, vai ser unido ao corpo dele. Portanto, temos certeza de que esse pedaço de osso com um pouco de carne será inundado pela glória de Deus e se transformará em corpo glorioso, participando das alegrias da visão beatífica que São Gregório VII tem no Céu.

Compreende-se, então, com quanta devoção devemos nos aproximar dessa relíquia, e quanta confiança precisamos ter em sermos atendidos, tendo-a presente entre nós.

Anna Catarina Emmerich, várias vezes, viu relíquias deitando chispas de luz magníficas. Essa luz deveria ser um símbolo da virtude do Santo a quem aquela relíquia pertencia. Que luz de ouro, luz solar estupenda deve espargir essa relíquia de São Gregório VII que, a meu ver, na sua grandeza e riqueza de alma, foi a mais eminente figura da Idade Média e conteve em si, de algum modo, a Idade Média inteira.

Eu não poderia encerrar estas palavras sem lembrar que estamos na Festa de Nossa Senhora Auxiliadora, ocasião em que Ela se mostra particularmente solícita em nos auxiliar em nossas necessidades e atender nossos pedidos . Creio não haver intenção mais grata do que esta: que Nossa Senhora Auxiliadora faça de nós, o quanto antes, perfeitos apóstolos dos últimos tempos, segundo São Luís Grignion de Montfort.

Se São Gregório VII tivesse podido conhecer os apóstolos dos últimos tempos, ele estremeceria de alegria, porque cada um deles deve ser como que um outro São Gregório VII, ou seja, deve ter aquela combatividade, aquela grandeza, aquela suavidade.

 

(Extraído de conferência de 24/5/1967)

25 de maio – O Carlos Magno da Igreja Católica

O Carlos Magno da Igreja Católica

São Gregório VII travou uma batalha decisiva e desfechou um golpe certeiro no maior potentado da Terra, vibrando contra ele a punição mais alta, profunda e intransigente que se poderia imaginar.

A lição desse grande Pontífice foi, em última análise, a de levar a verdade, o bem, a beleza, a fidelidade à Igreja até as suas últimas consequências.

Ele foi o Carlos Magno da Igreja Católica! A glória carolíngia, de proporções mais angélicas do que humanas, foi vivida magnificamente pela Santa Igreja Católica nos dias de São Gregório VII.

Devemos desejar, com toda a nossa alma, que o adversário da verdadeira Igreja Católica Apostólica, Romana em nossos dias, a maldita Revolução gnóstica e igualitária, seja punida ainda mais do que o Imperador Henrique IV, pois ela tentou coisa pior do que ele. A Revolução desbastou a Terra inteira, e é preciso que a punição seja proporcional.

(Extraído de conferência de 25/5/1985)

25 de maio – Seriedade, pureza, religiosidade

Seriedade, pureza, religiosidade

Santa Maria Madalena de Pazzi tinha um olhar cheio de vida, reflexão e seriedade. Uma seriedade que vai de par com uma real bondade, e que não está voltada para os assuntos terrenos, mas é uma seriedade que só se tem quando se pensa nos temas celestes. O todo de sua pessoa tem a ligeireza, a leveza de uma virgem. A seriedade, a pureza, a finura de pensamento, a religiosidade profunda do olhar, a aristocracia do todo se aliam muito bem. Isso tudo brilha em Santa Maria Madalena de Pazzi.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/1/1986)