Varão polêmico e recriminador

Na escultura de Aleijadinho representando o Profeta Isaías, nota-se o olhar de um homem que está com a cabeça povoada de ideias, não meramente contemplativas, mas de quem vai fazer uma invectiva. É um varão polêmico e recriminador.

Lendo as profecias de Isaías, tem-se a impressão da narração da dor e da desventura de um homem, quase uma autobiografia. É preciso ver como essa autobiografia se encaixa na História da salvação.

Os justos são o centro da História

Ela poderia eventualmente ser vista da seguinte maneira: uma vez que o centro da História são os justos, Isaías representaria a história de Nosso Senhor e dos filões de justos ao longo dos tempos, e conteria uma espécie de doutrina da história dos justos, a qual teria, no Antigo Testamento, seu ápice em Elias.
Alguns trechos dão a história do justo, que se divide em dois tipos de episódios. Primeiro, Deus parece retirar-se e o justo é abandonado, perseguido, precisando confiar n’Ele. Segundo, a hora em que o Criador volta e dá o triunfo ao justo. Notem a coisa curiosa: muito mais do que se diz, Ele concede ao justo também o triunfo terreno.
De outro lado, vem narrada a história da atitude interna do justo diante dessa variação de tratamentos de Deus e uma história da tática de combate em face do injusto. Para ser mais preciso, a história do justo diante de sua própria dor e do Criador enquanto permitindo sua dor. Depois, a tática de combate e a atitude dele perante sua própria vitória e diante de Deus, causador de sua vitória.
Ele era inocente, foi atacado injustamente e padeceu tormentos que não merecia; o Criador pareceu abandoná-lo; mas ele rezou, confiou e reagiu de acordo com uma certa conduta interior e exterior, e Deus lhe deu a vitória.
Tomando em consideração as vitórias e as dores dos justos, são compendiadas todas as inocências, as vitórias, as dores e as táticas dos justos ao longo da História, em Nosso Senhor Jesus Cristo e, a seu modo, em Nossa Senhora. Ela vive tudo isso e depois o Divino Redentor leva ao auge.
Todas as inocências, dores, táticas e vitórias dos justos ao longo da História constituem uma coleção metafísica. Eu seria levado a supor que cada resplendor de Cristo ressurreto não deveria mostrar-se como se costuma fazer – um halo luminoso em torno de Nosso Senhor –, mas sim fachos de luz, cada qual representando, na coleção das modalidades de glória, uma espécie de tratado de metafísica da glória enquanto tal, de maneira que Ele estaria cercado de todas as formas e graus de glória possíveis.

O melhor modo de meditar o Rosário

Outro dia fiz a meditação do Rosário neste sistema, imaginando em cada dezena as várias modalidades metafísicas que aquele mistério comportava, desde a Anunciação até a Coroação de Nossa Senhora no Céu. Constitui o melhor modo possível de meditar o terço.
Então, por exemplo, a Ressurreição: triunfo sobre a morte.

Imaginar, por exemplo, na Ascensão todos os movimentos ascensionais dos bons e do Bem rumo à vitória completa. Essa trajetória tem mil modalidades realizadas na Ascensão de Nosso Senhor, de maneira tal que os muitíssimos brilhos possíveis de todas as ascensões do Bem na História foram representados em aspectos sucessivos à medida que Ele ia subindo.
Vinda do Espírito Santo: todas as formas de graça possíveis que há na Igreja Católica baixando, metafisicamente ordenadas, sobre os fiéis. Línguas de fogo, sim; mas o que elas conteriam? Não é uma maçaroca de linguinhas de fogo, e sim uma apoteose de ordem, de sabedoria e de ordenação, uma coisa maravilhosa!

A Assunção de Maria Santíssima aos Céus. Não é mais o Justo que Se levanta por uma ação direta sobre ele, mas o justo que, socorrido pelos outros, sobe glorificado. Por fim, a Coroação d’Ela.
Seriam todas as formas possíveis de vida do justo imbricadas na vida de Nosso Senhor. Também na dor. Neste sentido, eu seria levado a imaginar que o número de açoites desferidos contra o Redentor não foi arbitrário, nem determinado pela cólera vil daqueles bandidos, mas cessaram quando Ele gemeu todos os ais próprios à flagelação, enquanto flagelação de alma mais do que de corpo.
Quer dizer, eu veria na Paixão uma espécie de compêndio, ao mesmo tempo, de Teologia e de Metafísica. Caso se justificasse teologicamente, esse modo de meditar seria belíssimo!
Os profetas, enquanto precursores de Nosso Senhor Jesus Cristo, já possuíam sinais de toda a história d’Ele, mas que é também a história dos justos ao longo dos tempos. Inclusive a nossa própria história.
Seria interessante fazermos um histórico nesse nível sobre os profetas; serviria muito para se ter uma visão de conjunto.

 

Batalhador contemplativo da batalha

 

Na escultura de Aleijadinho que representa o Profeta Isaías, nota-se um olhar que fita um ponto indefinido no horizonte, o mirar de um homem que está com a cabeça povoada de ideias, as quais não estão na mente dele numa posição contemplativa, mas de quem vai tirar dali uma invectiva.
Ele está com ar de quem descansa da descompostura que passou e prepara-se para a que vai passar. É um homem polêmico e recriminador em posição de luta, que contempla o embate de todas as ondas. Não o deixaram impune, mas ele sente que permanece substancialmente o mesmo e, percebendo as outras vagas que vêm, pensa: “A lembrança dos embates passados me ajudará no futuro.”
O Profeta Isaías é um batalhador e, ao mesmo tempo, um contemplativo da batalha. Nessa contemplação ele vê os inimigos de Deus avançando por todas as partes e sente o que Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “O Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8, 20). E pensa: “Todos têm um ponto de beneplácito, eu não tenho. Tudo é mal, dor, oposição. Porém, Deus é maior do que todas as investidas.” A certeza da vitória divina está presente. Encontrava-se pronto a prorromper em catilinárias e não tinha pena de si mesmo. Eis a visão do mundo do Profeta Isaías.
Essa visão cada alma a tem conforme a vocação. Por exemplo, São João Bosco. É-me fácil penetrar no olhar dele. Ele possuía uma centelha profética. Não era o profeta dos castigos previstos em Fátima, mas da vitória que deveria vir docemente triunfante, dando uma antecipação, um deleite dessa vitória.

Conosco o que há é a previsão de uma situação análoga à de Isaías, de todo o pulchrum1 de estar nessa situação e uma felicidade de encontrar-se nesse infortúnio: “Mar bravio! Isto é lindo!”
Se me oferecessem de vencer já, sem enfrentar a luta, eu não quereria. Esse holocausto teria que ser feito.
Paciência é a capacidade de sofrer, de entrar na dor e arrostá-la. Santo Ambrósio dizia: “Ubi patientia ibi lætitia”2. Sofrer na jovialidade e na alegria.

O que Isaías afirma de si mesmo se aplica a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora: “Eis na paz minha amargura amaríssima” (Is 38, 17).
Como é bonito sermos os guerreiros que enfrentamos a luta a ponto de estalarmos e com a confiança de que vamos para frente! Ter esse estado de espírito e mostrá-lo levanta as ondas contra si. E quanto mais os inimigos ficam sem pretexto, mais odeiam. É o que o Profeta Isaías via vir de longe.v

(Extraído de conferências de 10/3/1966, 31/7/1979 e 15/1/1989)

1) Do latim: belo.
2) Do Latim: Onde há paciência há alegria.

Uma meditação para a Ascensão

Devemos imaginar o momento da Ascensão como uma glorificação, uma despedida na qual todas as virtudes singularíssimas, insondáveis, infinitas de Nosso Senhor apareceram com uma rutilância como nunca antes tinham manifestado.

 

Para atentarmos bem ao significado da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, deveríamos tomar em consideração o fato concreto de ela ser a despedida d’Ele dos homens.
A existência terrena do Redentor se encerrou, de algum modo, com sua morte. Entretanto, depois de ressuscitado, Jesus esteve entre seus discípulos e lhes apareceu várias vezes. De maneira que a sua presença era como um fato comum, frequente, porque Ele tinha convivido com os homens.

 

Novo modo de conviver com os homens

A partir do momento da Ascensão, pelo contrário, esse convívio visível se tornaria raríssimo, esporádico, extraoficial, em

revelações particulares somente. Entretanto, a presença d’Ele entre os homens, no período entre a Páscoa e a Ascensão, teve o caráter de uma revelação oficial.
E, por esse lado, então, podemos afirmar ter a Ascensão constituído uma verdadeira despedida de Nosso Senhor. Os homens não O veriam mais. Ele continuaria realmente presente no Santíssimo Sacramento, porém de um modo insensível.
A Ascensão era mais uma despedida das aparências do sensível, do que do real, embora insensível, isto é, a sua presença permanente entre os homens na Eucaristia.
E era, portanto, a figura de Nosso Senhor naquilo que o homem vê, ouve, admira através dos sentidos, que se retirava da Terra e subia aos Céus. Era um encerramento e uma despedida. E, ao mesmo tempo, uma glorificação, porque Nosso Senhor Jesus Cristo voltava ao Padre Eterno. A sua missão terrena estava encerrada. Ele subia para receber o triunfo, as manifestações de honra e de glória devidas àqueles que cumprem, de um modo exímio e sublime, uma missão muitíssimo árdua. Ele seria glorificado pelo Padre Eterno.
Assim, a Ascensão se daria em condições para que toda a glória de Nosso Senhor aparecesse aos olhos dos homens. E chegando ao Céu seria recebido por uma manifestação, no sentido literal da palavra, apoteótica, de todos os Anjos e de todos os justos que tinham morrido e estavam à espera do Redentor para entrar no Céu com Ele e reinar com os Anjos por toda a eternidade.

No momento da despedida, uma nova rutilância

Devemos imaginar o momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo se despediu como uma despedida imensamente gloriosa e uma glorificação de todos os aspectos de sua santidade, de sua perfeição moral infinita.
Então, todas as virtudes singularíssimas, insondáveis, infinitas manifestadas por Nosso Senhor em sua existência terrena, todos os atrativos, todos os encantos de sua personalidade, tudo isso devia aparecer com uma rutilância, uma cintilação, um fulgor, uma glória, como nunca tinham aparecido.
À medida que Nosso Senhor ascendia, a sua glória resplandecia ainda mais, até o momento no qual os homens perderam o olhar d’Ele e compreenderam que aquela glória se tinha confundido com os esplendores do Padre Eterno e nada mais dela era visível.
Imaginemos Nosso Senhor caminhando com os seus para o alto do monte a partir do qual Ele subiria aos Céus. Assim como quando Ele foi para o Horto das Oliveiras ao iniciar a Paixão, com os Apóstolos cada vez mais tristes e distantes d’Ele, assim nessa segunda caminhada Nosso Senhor foi com os seus, desta vez, porém, foi com uma alegria e glória cada vez maior. Houve uma despedida, Ele disse algumas palavras para todos e, então, começou a subir aos Céus.

Todos viam tudo, mas com aspectos diferentes

Numa síntese maravilhosa, todos os predicados de Nosso Senhor Jesus Cristo começavam a aparecer. E cada alma ia notando, de acordo com sua luz primordial1, algo que ela deveria ver.

Podemos conjecturar a Ascensão tendo se passado aos olhos de todos de um modo igual. Entretanto, cada um deve ter notado qualquer coisa de completamente diferente. Para algumas almas, Nosso Senhor apareceu como um Rei resplandecente de glória, subindo ao Céu e refulgindo de poder sagrado; a outras, com uma nota mais dominante de Mestre sapientíssimo, levando consigo toda a Sabedoria; a outras, como o Taumaturgo poderosíssimo; a outras, como o Pastor boníssimo; a outras, enfim, apareceram o encanto e a meiguice do Divino Salvador.
Nosso Senhor Jesus Cristo, se ousássemos afirmar isto, mostrou-Se pequeno para os pequenos, meigo para os meigos, acessível para os tímidos e, assim, subiu ao Céu na glorificação de sua condescendência, de sua bondade, de sua afabilidade e misericórdia.
Alguns tê-lo-ão visto subir com aquele poder terrível da divindade manifestada por Ele quando respondeu aos soldados que O buscavam: “Ego Sum”, fazendo todos caírem por terra. Outros viram-no ascender de tal modo que as suas palavras mais carinhosas, mais afetuosas e condescendentes para com os homens tenham aparecido ali de uma forma verdadeiramente magnífica. E, sobretudo, todos viram tudo, mas cada um viu aquilo que faria mais bem para sua alma.

Como estava o Céu naquele momento

Enquanto Nosso Senhor Jesus Cristo subia, talvez o céu tenha tomado coloridos inefáveis, com irisações onde se alternaram o ouro e cores várias; as pessoas tenham ouvido músicas e experimentado sensações extraordinárias que eram coruscações da glorificação do Céu e do concerto dos Anjos baixando à Terra, para os homens compreenderem quais triunfos o Pai preparava para Ele.
Tudo isso é uma conjectura. Entretanto, algo à maneira disso se deu e a História não nos registra bem exatamente, nos pormenores e nas manifestações concretas. Mas esse é o efeito que a Ascensão d’Ele produziu sobre as almas, impressionando a todas de um modo ou de outro.
Fazendo uma recomposição hipotética de lugar, imaginemos Nosso Senhor subindo e a glória d’Ele empolgando cada vez mais.
Podemos, então, voltar os nossos olhos para os fiéis que estavam ali contemplando a Ascensão, a multidão embevecida, entusiasmada com o que via, mas com um entusiasmo sagrado, cheio de recolhimento, de veneração, de amor. Essa multidão, que era a semente da Igreja Católica, estava ajoelhada. Imaginem a impressão de piedade que todas aquelas almas deviam dar.
Ainda que não víssemos a elevação de Nosso Senhor aos Céus, mas apenas essas almas, pelo estado delas poderíamos saber como foi a Ascensão. E, no centro de tudo, naturalmente São Pedro e os Apóstolos, mas, sobretudo, Nossa Senhora!

 

A Ascensão e a missão de Maria

Nossa Senhora ficava enquanto a imagem de Cristo. Era Ela quem assegurava, nos planos da Providência, pela sua presença na Igreja, que aquela distância imensa estabelecida entre Nosso Senhor e os homens não era um abismo ou um hiato, mas, pelo contrário, havia algo que continuava e unia. Maria era exatamente a Mediadora onipotente, o traço de união entre o Céu e a Terra, entre Deus e os homens.
Ana Catarina Emmerich nos diz, e é muito explicável, que durante a presença de Nosso Senhor na Terra a Santíssima Virgem não apareceu tão claramente no esplendor de suas prerrogativas aos Apóstolos e aos primeiros católicos. E isso era para que a Pessoa de Nosso Senhor ocupasse a plenitude de tudo.

No entanto, a partir do momento em que Ele subiu aos Céus, começou-se a notar mais tudo quanto havia n’Ela e toda a sua semelhança com Ele, e isso foi reforçado com Pentecostes. Deste modo o fervor de todos para com Ela foi crescendo. Iniciou-se, então, aquilo que alguns escritores chamam “a missão de Maria”. E a missão terrena de Maria antes d’Ela subir ao Céu era fazer de algum modo as vezes da presença sensível de Nosso Senhor.
Começava a veneração “marial” a se tornar mais nítida, a tomar o caráter de um culto e Nossa Senhora iniciou o seu trabalho na Igreja, como quando o Sol se põe e aparece a Lua. E, embora a Lua não seja de nenhum modo o Sol, ela tem sua meiguice, seu encanto, sua beleza e seu atrativo, que é verdadeiramente maravilhoso!
Nosso Senhor Jesus Cristo partiu, mas nos deixou sua presença real na Eucaristia e sua Mãe Santíssima. E todas aquelas refulgências notadas na Ascensão começaram a se notar depois, conservados os devidos graus, na pessoa de Nossa Senhora. Iniciava-se, assim, a grande missão de Nossa Senhora na Igreja.
Com base nessas considerações, poderíamos nos perguntar o seguinte: “Se eu estivesse lá, como veria? De acordo com minha luz primordial, como imaginar?” Desde que se tenha o cuidado de compreender que não passa de uma hipótese – com certo substrato real no seu aspecto simbólico, não histórico –, existe a possibilidade de uma meditação muito frutuosa a respeito da Ascensão.

 

Magnificência do mistério

Ainda sobre a Ascensão, temos uma ficha tirada do L’Année Liturgique, de D. Guéranger2, com uma oração da liturgia grega a respeito de Nossa Senhora:
Senhor, após o cumprimento, por vossa bondade, do mistério oculto há tantos séculos e tantas gerações, viestes com vossos discípulos ao Monte das Oliveiras. Tínheis convosco Aquela que vos colocara no mundo, Vós, o Criador e Artífice de todas as coisas.

Não convinha, na verdade, que Aquela que em sua condição de Mãe sofrera mais do que qualquer outro quando de vossa Paixão, usufruísse de uma alegria que ultrapassa qualquer outra alegria, na glória de vossa carne?

Tomando parte também nessa alegria, glorificamos na vossa Ascensão ao Céu o grande benefício que Vós nos fizestes.
No Horto das Oliveiras, onde Nosso Senhor subiu, Nossa Senhora estava presente. A presença d’Ela era a primeira junto d’Ele na hora da glória porque tinha sido a primeira junto a Ele na hora da dor. Essa glorificação e alegria é algo pelo qual todos nós devemos dar graças, e não apenas Nossa Senhora.
A oração continua:
Colocastes no mundo, ó Soberana Imaculada, o Senhor de todas as coisas, o qual escolheu uma Paixão voluntária e subiu ao Pai, do qual não Se afastara ao Se encarnar. Ó maravilha inconcebível! Como, Vós que sois cheia de graça divina, contivestes em vosso seio o Deus incompreensível, Aquele que mendigou uma carne e que neste dia sobe aos Céus no meio de uma tão grande glória? E que deu a vida aos homens?
Essa oração glorifica Nossa Senhora, porque Ela deu a carne a Nosso Senhor, o qual, com a carne dada por Ela, sobe aos Céus. E isso torna-se para Ela, como Mãe d’Ele, uma glória incomparável.
Eis que vosso Filho, ó Mãe de Deus, após ter vencido a morte por sua Cruz…
Nosso Senhor, morrendo na Cruz venceu a morte do pecado.
…ressuscitou ao terceiro dia e, após ter aparecido aos discípulos, retomou o caminho para os Céus. Nós nos unimos a Ele em nossa veneração e vos cantamos e glorificamos em todos os séculos.

Esta frase foi o pensamento de todos os católicos que estavam no momento da Ascensão, depois de Nosso Senhor desaparecer e dos Anjos virem anunciar a volta d’Ele.

Salve Mãe de Deus, Mãe de Cristo Deus, Aquele que destes ao mundo, Vós O glorificais vendo-O neste dia elevar-Se da terra com os Anjos.
Maria Santíssima viu Nosso Senhor subir ao Céu por poder próprio, mas seguido de uma revoada de Anjos. Quem O tinha dado ao mundo, contemplava-O, naquele momento, sendo objeto de uma tão imensa glória! Podemos afirmar que a maior, a mais magnífica das meditações sobre a Ascensão foi feita por Nossa Senhora.v

(Extraído de conferência
de 18/5/1966)

1) A luz primordial é a virtude dominante que uma alma é chamada a refletir, imprimindo nas outras virtudes sua tonalidade particular.
2) Não dispomos dos dados desta ficha.

O Papa que travou uma batalha decisiva

São Gregório VII travou uma batalha decisiva, depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual Henrique IV se levantou. Posteriormente houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo.

 

São Gregório VII teve um importante papel contrarrevolucionário ao reivindicar a prioridade das coisas espirituais sobre as temporais, do papado sobre o império, ao impor, com palavras magníficas, o castigo necessário ao Imperador rebelde que, assim contido, teve reprimida na sua pessoa, durante séculos, a marcha da Revolução a qual, como serpente que saía de sua toca, tentava começar a caminhar na História, quando o cajado firme desse pastor lhe quebrou a cerviz.

Vibrou contra Henrique IV a punição mais alta, profunda e intransigente

Tudo isso constituiu a glória desse Santo o qual pôde dizer que morria no exílio porque tinha amado a justiça e odiado a iniquidade, cumprindo desta forma inteiramente o seu dever de pastor, e dando o magnífico testemunho de si mesmo.

Mas há um aspecto da vida de São Gregório VII o qual, embora reluza com todo o brilho e seja notado por todo mundo, não vi ninguém que comentasse. Que aspecto é esse?

Ele travou uma batalha decisiva depois da qual não houve mais luta séria entre o papado e o império, ou qualquer monarquia, a respeito do princípio contra o qual ele se levantou. Sobre aplicações colaterais ou transgressões desse princípio, punidas justamente pela Igreja, ainda houve escaramuças, mas fundamentalmente a batalha estava ganha por esse Santo. Portanto, o golpe desferido por ele foi certeiro, atingindo o ponto que deveria.

Em segundo lugar, São Gregório VII teve que enfrentar o maior potentado da Terra, e não tentou ladear a questão. Ele não procurou mandar emissários incumbidos de deformar o problema, atenuando-o com meias palavras e por meio de inadequadas contemporizações.

“O Imperador se levantou e sustentou tal coisa? Eu, Gregório, sucessor de São Pedro, declaro que esta coisa é falsa, e digo a ti, ó Imperador: Tu és o maior potentado civil da Terra, tu te encontras no meu caminho como o homem mais poderoso que a mim poderia se opor. Está bem, eu travo esta batalha contigo! Entesto o meu poder contra o teu, e vamos ver qual é o poder que vale mais. Eu te deponho e excomungo, escorraço-te da Igreja Católica. Mais ainda: amaldiçoo-te, declaro que tens parte com satanás e pertences à grei maldita que Deus expulsa da sua presença. Vai, sai!”

Quer dizer, contra esse potentado ele vibra a punição mais alta, profunda e intransigente que se poderia imaginar. Não tem medo de nada. E se tiver que acontecer qualquer coisa, aconteça. “Eu estou aqui para a glória de Deus, para a vida ou para a morte desta minha pobre existência terrena. Mas lutarei até o fim.”

Um fato sem precedentes na História

O Imperador vai a Canossa. De lá para cá, “ir a Canossa” ficou uma expressão consagrada na literatura de bom quilate. Diz-se que vai a Canossa a pessoa que, em linguagem corrente, vulgar, banal de hoje em dia, entrega os pontos, não tem mais resistência a fazer e se declara derrotada.

Canossa é uma comuna italiana, próxima a Toscana – Norte da Itália –, onde a Condessa Matilde, fervorosa devota do papado, possuía um castelo no qual abrigara o Santo Pontífice contra quem o furor do Imperador Henrique IV estava por se desatar.

Esse Imperador, em pleno inverno, toma trenós e, percorrendo os desertos gélidos da Suíça, particularmente inóspitos nessa época, vai a Canossa e pede perdão, porque não tinha outro remédio. Nos últimos dias em que ele permaneceu no poder, até os criados fugiam de sua casa, de maneira a não ter sequer quem lhe prestasse os serviços domésticos. Não é só dizer que não possuía apoio político, ele não tinha quem lhe preparasse o banho! Por quê? Porque era o homem maldito sobre o qual caíra a excomunhão do representante de Cristo na Terra, do sucessor de São Pedro. Por isso ninguém queria nada com ele.

Henrique IV atravessa as vastidões perigosas da Suíça durante o inverno, e naquele tempo a qualquer momento podia acontecer que caísse por um abismo abaixo, ficando sepultado na neve. Com a excomunhão, na neve ficaria o seu corpo e no fogo sua alma para todo o sempre, se não houvesse um arrependimento perfeito.

Enfim, ele se apresenta e pede perdão. Fato sem precedentes na História: um imperador humilhado a este ponto, por uma mera palavra de um papa. É o mais alto potentado da Terra contra quem o Sumo Pontífice pronuncia uma fórmula, e ele cai no chão. Era o caso de dizer: “Sed tantum dic verbum – dizei uma só palavra, e a Igreja será salva deste inimigo.” São Gregório VII disse a palavra, e a Igreja ficou libertada.

“Excomungado aqui não entra!”

No castelo da Condessa Matilde, o Papa é informado que o Imperador estava ali. Alguém mais fraco – não só um homem que não fosse santo, mas mesmo um santo não assistido por uma graça especialíssima – talvez tivesse pensado em acolher o penitente de imediato. Mas estava ali o varão cuja vocação era dar o exemplo do que é o gládio da Igreja, e fazer amar de modo todo especial essa integridade de alma pela qual a Igreja não cede. São Gregório VII manda fechar as portas do castelo:

— Excomungado aqui não entra!

— Mas o que ele pode fazer, pois está do lado de fora das muralhas, ajoelhado no gelo e pedindo perdão.

— Que fique!

Nesse gesto tão duro e admirável nota-se a mão maternal da Igreja. Ele poderia ter dito: “Que vá embora!” Entretanto, disse: “Fique!” Na ponta do gesto floresce uma vaga esperança de perdão. Mas antes a penitência, a humilhação. Durante três dias e três noites, o soberano deposto sofreu essa humilhação.

A História nos conta que só depois disso São Gregório VII admitiu Henrique IV e, tendo este pedido perdão com toda a humildade, o Papa o perdoou, reconciliou-o e permitiu que fosse embora. Estava quebrado o cetro que satanás levantara contra o papado. São Gregório VII tinha obtido uma grande vitória.

Que a maldita Revolução gnóstica e igualitária seja punida!

Qual é a lição que tiramos disso? A de ser rijo, firme, ir ao fundo, até o fim dos princípios, às últimas consequências, enfrentar qualquer adversário de viseira erguida e de gládio em punho, não se contentar com meios termos, com palavras vazias, nem com esperanças vãs, mas, ao pé da letra, exigir que se quebre o poder que se levantou e se anule o risco que se constituiu; só então ter misericórdia.

Porque a misericórdia é admirável enquanto chama para o arrependimento o pecador e o perdoa. Ela não seria admirável e não seria verdadeira misericórdia se fosse a paz com o pecador que não se arrepende. É preciso que o pecador se arrependa sinceramente e peça perdão. Depois disso ele deixou de ser empedernido. Então é a vez da misericórdia; antes não.

Mesmo depois de pedir o perdão ainda há a penitência a cumprir. É o que nos ensina esse entrecruzamento maravilhoso de justiça e de misericórdia que é o Purgatório. Almas de pessoas que faleceram piedosamente em Jesus Cristo, morreram rezando, pediram perdão de seus pecados e comparecem diante de Deus. Entretanto, em número incontável, são mandadas para o Purgatório. Por quê? Porque é preciso expiar, pagar de algum modo o mal feito. E a alma que se arrepende tem vontade de reparar esse mal praticado.

Assim, em nossa luta devemos considerar os desígnios da Providência: desejar, com toda a nossa alma, que o adversário da verdadeira Igreja Católica Apostólica Romana em nossos dias seja punido: a maldita Revolução gnóstica e igualitária. Mas seja punida ainda mais do que o Imperador Henrique IV foi, porque ela ousou coisa pior: tentou penetrar no próprio Santuário e transformá-lo num reduto da Revolução. Ela desbastou a Terra inteira, e é preciso que o castigo seja proporcional. A Revolução, enquanto tal, tem que desaparecer!

Eis a lição do grande São Gregório VII. Em última análise, levar o bem, a verdade, a beleza e a fidelidade à Igreja até as suas últimas consequências.

Devemos nos preparar para a grande luta que nos espera

Esse Pontífice não viveu no tempo de Carlos Magno, em cujo gládio estavam inscritas as palavras: “Defensor dos Dez Mandamentos”. Que coisa maravilhosa! Entretanto, São Gregório VII foi o Carlos Magno da Igreja Católica. A glória carolíngia, de proporções mais angélicas do que humanas, a Igreja a viveu nos dias de São Gregório VII magnificamente.

Nós, que queremos a glória da Santa Igreja porque desejamos a glória de Deus, devemos pedir a São Gregório VII que faça voltar à Terra esses dias de glória. Por meio dele, voltemo-nos para Nossa Senhora e peçamos a Ela, cuja intercessão é onipotente, que abrevie os dias tremendos nos quais estamos; faça com que atravessemos corajosamente todos os obstáculos que temos diante de nós e sejamos capazes da grande luta que nos espera.

São Gregório VII disse: “Eu odiei a iniquidade e amei a justiça, por isso morro no exílio.” Nós devemos afirmar: “Odiamos a iniquidade e amamos a justiça, por isso vivemos no exílio.” A nossa vida é um longo exílio, tivemos que nos exilar de tantas coisas, de tantos ambientes, de tantas circunstâncias; nós somos os exilados! Mas que belo exílio esse no qual um tão pulcro sentimento fraterno, uma tão bela conformidade de todos os espíritos e de todos os desígnios, no mesmo amor à mesma causa, nos reúnem.

O glorioso São Gregório VII, que morreu no exílio, dê força e ânimo a quem deve viver e, mais tarde, morrer no exílio. Como também àqueles destinados a ter suas vidas ceifadas durante os castigos profetizados em Fátima, para que morram com bravura. E os chamados a viver no Reino de Maria, vivam igualmente com coragem nessa ideia: o exílio acabou, mas se ainda hoje eu devesse me exilar, repetiria o meu passo e me exilaria novamente. Não tenho apego nem ao prêmio da minha vitória. Eis o nosso pedido a esse grande Santo, no dia em que se comemora a sua festa.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/5/1985)
Revista Dr Plinio 266 (Maio de 2020)

 

Glória de fogo na História da Igreja

No tempo do Império Romano, Santo Atanásio combatia os arianos com muito vigor. Mas, a certa altura, o mundo inteiro tornou-se ariano, como que da noite para o dia, e esse Santo Patriarca de Alexandria quase ficou sozinho nessa luta, chegando a ser tão perseguido que, para evitar a morte, não teve outro remédio senão entrar na sepultura dos pais e ali morar escondido.

Entretanto, ele lutou contra tudo e contra todos até que o Concílio de Niceia definiu a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, a Maternidade Divina de Nossa Senhora.

Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Uma coluna qualquer um terremoto derruba. Porém, nada derrubou Santo Atanásio! Ele tinha a graça divina que o ajudou. A muitos Deus oferece a graça, mas nem todos correspondem. A este grande Doutor da Igreja, pelo contrário, Deus a ofereceu e ele correspondeu generosamente. O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/10/1985)

Revista Dr Plinio 266

Auxiliadora até dos mais miseráveis

Minha Mãe, eu, sucumbindo ao peso da tentação, não andei bem.

Pequei. Tenho o receio de me habituar ao pecado e de nele me embrutecer. Por outro lado, imensa é a minha vontade de me regenerar.

Sei que não mereço a vossa proteção, mas, porque sois a auxiliadora de todos os cristãos, não apenas dos bons, porém até dos mais miseráveis, peço-Vos: vinde e auxiliai-me.

Plinio Corrêa de Oliveira (Composta em 24/5/1965)

O Magnificat, hino de sabedoria, humildade e grandeza

Único cântico que se sabe proferido por Nossa Senhora em sua vida terrena, o “Magnificat” despertava na alma de Dr. Plinio enlevadas considerações que ele, em mais de uma ocasião, comprouve-se em transmitir a seus jovens discípulos. Como essas, que abaixo transcrevemos.

 

Entoado por Nossa Senhora no encontro com Santa Isabel, o “Magnificat” é um maravilhoso hino inspirado pelo Altíssimo, é Deus cantando sua própria glória pelos lábios da mais amada das suas filhas. É, também, uma linda mensagem, coerente, lógica e séria, que Ele transmitiu a todos os homens de todos os séculos, pela voz virginal de Maria.

O cântico se inicia com a palavra “Magnificat” do latim “magnus”, isto é, grande para enaltecer Aquele que é a Grandeza personificada, reconhecendo que Deus merece este superlativo de louvor e de honra na sua glória extrínseca, passível de crescimento, por haver realizado n’Ela, Virgem bendita, o cumprimento da maior e mais alvissareira promessa divina feita à humanidade: a Encarnação do Verbo.

A exultação em Deus, seu Salvador

Então a alma d’Ela se apressa em extravasar o seu sentimento de profunda gratidão, proclamando como o Senhor assim se revelava o magno por excelência.

Em seguida, vem a alegria: “Et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo” (“E o meu espírito exulta!”).

Exultar é sentir um júbilo intenso, e não uma qualquer satisfação, como a que poderia experimentar alguém se soubesse que os seus investimentos renderam um pouco além do esperado. Esta seria uma alegria pequena, perto daquela que se exprime pela palavra “exultação”.

Por isso Nossa Senhora a emprega, para significar como seu espírito transbordou de gáudio em relação a Deus, o seu magnífico Salvador.

Essa felicidade se mostra tanto mais intensa quanto, conforme o pensamento que se completa no versículo seguinte, Ela considera a sua pequenez e vê como Deus a salvou de modo extraordinário, super-excelente, não só fazendo d’Ela a Mãe do Verbo Encarnado, mas dispondo que Ela tivesse em toda a existência de Nosso Senhor Jesus Cristo o papel admirável que sabemos.

Legítima alegria por ter sido engrandecida

Depois de afirmar a sua exultação, a Santíssima Virgem manifesta então o motivo dessa imensa alegria: “Quia respexit humilitatem ancillae suae – porque Deus olhou para a humildade da sua Serva”. Em conseqüência dessa atenção do Senhor para com Ela, “ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes”, eis que “todas as gerações”, isto é, todos os homens até o fim do mundo, vão por sua vez enaltecê-La, chamando-A “bem-aventurada”.

“Quia fecit mihi magna qui potens est” – porque me fez grande Aquele que é poderoso”. Percebe-se aqui, mais uma vez, o gáudio de Maria por ter sido objeto de um especial desígnio do Onipotente: Ela, tão humilde, tornou-se grande pela força d’Ele.

Há, nessa passagem, um interessante ensinamento que deve ser considerado.

Alegrando-se com a grandeza divina, Nossa Senhora ao mesmo tempo se alegra com o fato de ter sido também engrandecida por uma condescendência d’Ele, e sabe que essa sua magnitude Lhe valeria o louvor e a devoção das gerações vindouras. É uma glória única, que a cobre de felicidade, e pela qual, cheia de reconhecimento, agradece a Deus.

Ora, essa atitude de Nossa Senhora aceitando, auferindo e amando a própria excelência, demonstra como é legítimo nos alegrarmos com a grandeza que Deus eventualmente nos conceda. Desde que, a exemplo de Maria, esse júbilo esteja alicerçado no amor a Ele, compreendendo que essa glória estabelece uma relação mais íntima entre nós e o Criador.

Eis outra importante lição a ser colhida do “Magnificat”.

O temor se divide em servil e reverencial. O temor servil é aquele que tem, por exemplo, um escravo ao fazer a vontade de seu dono pelo receio de sofrer duros castigos se não obedecer. O temor reverencial é aquele que alguém demonstra em relação a outrem, não por medo das penalidades que lhe possa infligir, mas por respeito e veneração pela superioridade dele, por não querer ultrajá-lo nem violar a obediência que deve a ele.

Um exemplo maravilhoso de temor reverencial encontramos nas ardorosas palavras que Santa Teresa de Jesus dirige a Nosso Senhor: “Ainda que não houvesse Céu, eu vos amara; ainda que não houvesse inferno, eu vos temera”. Quer dizer, ainda que Deus não lançasse à geena aqueles que se revoltam contra Ele, por temor de Deus experimentavam, antes de serem tocados pela graça e se converterem.

Pode-se supor, por exemplo, que São Paulo na via de Damasco não tivesse temor de Deus. Mas, atingido por um raio, ele caiu do cavalo, perdeu a visão, e logo ouviu a voz de Nosso Senhor que o interpelava. Quando se levantou, era outro homem, tornando-se o grande Apóstolo dos gentios. Era uma extraordinária ação da misericórdia divina muito provavelmente a rogos de Maria estendendo-se sobra uma alma que até então não temia a Deus.

Queda dos soberbos e exaltação dos humildes

“Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis suis – Manifestou o poder do seu braço, e dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração”.

“Et sanctum nomen eius – E o Seu Nome é Santo”. Quer dizer, “Deus agiu assim para comigo, e procedeu santamente”. Essa fabulosa obra que o Senhor realizava na sua serva, vinha marcada pela infinita perfeição com que Ele modela tudo quanto sai de suas mãos onipotentes.

Misericórdia para os que temem a Deus

Após ter manifestado de tal maneira a grandeza de Deus e a sua própria, Nossa Senhora evoca o aspecto de bondade: “Et misericordia eius a progenie in progenies, timentibus eum – e a misericórdia d’Ele se estende de geração em geração, sobre aqueles que O temem”.

Significa que o fato de Deus A ter feito tão grande redunda num benefício e numa obra de misericórdia de que se aproveitarão todos os homens ser Ele quem é e pelos infinitos títulos que Ele possui acima de nós, temeríamos não fazer a vontade d’Ele. É essa a forma altíssima e nobilíssima do temor reverencial.

Então, aos que amam a Deus com um amor tal que até O temem não apenas por causa do inferno, mas sobretudo por não querer desagradá-Lo na sua infinita santidade -, para estes se abre a inesgotável misericórdia de Deus: “et misericordia eius a progenie in progenies, timentibus eum”. Cumpre salientar que, muitas vezes, a bondade divina não se prende a essa restrição, superando-se em requintes de solicitude até mesmo para com homens que pouco ou nenhum

Entendamos o que significa “manifestar o poder de seu braço”. Trata-se de uma metáfora, pois Deus, puro espírito, não possui braço. Este, porém, é no homem o membro pelo qual ele mostra a sua força e executa os decretos de sua inteligência e de sua vontade. Então, ao se referir ao “braço de Deus”, Nossa Senhora nos faz ver como Ele age energicamente em relação aos soberbos e orgulhosos, àqueles que se fecham para a ação da graça e não O temem nem O amam nos seus corações. Para com esses, Deus manifesta o poder de seu braço.

O pensamento se completa no versículo seguinte: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles – Depôs de seus tronos os poderosos, e exaltou os humildes”.

Por meio da Encarnação do Verbo, Deus quebrou o poder com que o demônio e seus sequazes neste mundo atormentavam os bons. Então, depôs aqueles de seus tronos, e exaltou a estes que eram perseguidos.

Alguém poderia objetar: “Mas, Dr. Plinio, não foi o que aconteceu. Deu-se o contrário! Anás, Caifás, Pilatos e congêneres, todos se achavam nos seus tronos, perseguiram e mataram Nosso Senhor!”

É verdade. Mas essa história não está narrada até o fim. Porque depois de Jesus ter sido morto, aconteceu precisamente o que aqueles poderosos queriam evitar: Ele ressuscitou, triunfando sobre a morte e sobre todos

os seus algozes. Com Ele, triunfava a Santa Igreja, venciam os Apóstolos e Nossa Senhora, os humildes até en-

tão desprezados. E para todo o sempre, serão estes glorificados e exaltados, enquanto Anás, Caifás e Pilatos serão mencionados com vitupério e horror. Então se comprovou a veracidade do dito: “deposuit potentes de sedes, et exaltavit humiles”.

Essa ideia ainda prevalece na seqüência do cântico: “Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes – Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com as mãos vazias”.

Nossa Senhora não pretende fazer aqui uma alusão aos recursos materiais ou financeiros. Ela se refere, antes de tudo, aos que se acham na carência de bens espirituais, aos indigentes das dádivas celestiais. A esses pobres de espírito que, humildemente, suplicam essas graças, Deus os atende na abundância infinita de sua misericórdia. Pelo contrário, aos “ricos”, àqueles que se julgam inteiramente satisfeitos no seu orgulho, Deus os despede de mãos vazias, isto é, sem torná-los partícipes do tesouro de seus dons sobrenaturais.

Em Maria, cumpre-se a promessa feita a Abraão

Por fim, Nossa Senhora volta à ideia central que inspira esse hino maravilhoso: “Suscepit Israel puerum suum: recordatus misericordiae suae – Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrado da sua misercórdia”.

Quer dizer, o Povo Eleito receberia em breve o Messias há milênios prometido, a Quem Deus enviaria ao mundo, recordando que

sua misericórdia assim havia disposto. Daí a conclusão: “Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in saecula – Conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre”.

A promessa feita a Abraão, fundador da raça hebraica, e aos descendentes dele ao longo dos séculos, de que o Salvador nasceria de sua progênie, acabava de ser cumprida. Nossa Senhora já trazia em seu claustro materno o Esperado das nações. Ela, uma filha de Abraão, daria à luz o Filho de Deus.

E assim o “Magnificat”, esta joia inapreciável, este maravilhoso cântico de sabedoria, humildade e grandeza, muito harmoniosamente se encerra pensando na Encarnação do Verbo, como o fizera na primeira estrofe.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

A grandeza do dom da Sagrada Eucaristia

Admirador da lógica de Santo Inácio de Loyola, Dr. Plinio fez uma série de reuniões, em 1973, sobre os exercícios espirituais inacianos, comentados pelo célebre jesuíta, Pe. João Pedro Pinamonti. Nestas linhas, Dr. Plinio comenta a grandeza do Sacramento da Eucaristia.

 

“Considera que três coisas podem concorrer para fazer um dom grandemente estimável: a grandeza do mesmo dom; o afeto de quem o dá; a utilidade de quem o recebe; as quais três coisas todas se acham maravilhosamente na diviníssima Eucaristia”(1).

Gostaria que analisassem o raciocínio para perceberem como é lógico.

Ele faz aqui consideração sobre o Santíssimo Sacramento enquanto dom, ou presente. Como preliminar do assunto, explicita uma teoria a respeito do valor de um presente, aplicável a todos os dons, em todas as épocas e sobre toda a face da Terra.

E indica os três pontos que tornam um presente muito apreciado:

  1. a) a grandeza do dom;
  2. b) o afeto de quem o dá;
  3. c) a utilidade de quem o recebe.

É uma ordem perfeita e reduzida à sua expressão mais simples!

Para compreender o valor de um dom, devo analisar o objeto, a pessoa que o dá e quem o recebe. Creio ser bem perceptível a limpidez de espírito que há nesta operação mental. Desta maneira como é apresentada não há nada que escape.

Esta é uma ordem hierárquica de valores muito diversa da usada em nossos dias.

Hoje, quando se dá um presente, grande parte dos indivíduos o recebe marcusianamente(2): fazem relambórios, não sabem analisá-lo, nem dizer qual o seu valor; afirmam que gostaram etc. É uma massaroca de impressões confusas. A pessoa de espírito católico analisa seus próprios sentimentos para verificar, no que são bons ou ruins, qual a razão deles, etc. Este é o verdadeiro espírito da Igreja.

Conhece-se o caso de Santo Inácio de Loyola em que ele afirmava ser capaz de escrever as dezesseis razões — pró e contra — pelas quais cumprimentou de certa maneira algum noviço da Companhia, quando este passou perto dele em determinado momento. Quer dizer, nele tudo era bem pensado, bem calculado.

Caso dois de meus ouvintes, por exemplo, se cumprimentassem, eu gostaria de vê-los escrever três razões pelas quais o cumprimento foi daquele jeito. Creio que haveria muita dificuldade em redigir alguma coisa…

A Escritura diz que todas as obras de Deus têm conta, peso e medida. Neste comentário — que muito reflete a mente de Santo Inácio — vê-se que tudo tinha conta, peso e medida.

Tendo penetrado no firmamento do espírito inaciano, entendamos que é um firmamento ordenado, no qual tudo tem conta, peso e medida.

A primeira coisa, pois, que ele considera é o valor do dom (hoje considerar-se-ia a utilidade de quem o recebe); a segunda, quem o deu; e a terceira, a utilidade de quem o recebe. Esta é a verdadeira hierarquia.

Se alguém, recebe, por exemplo, um brilhante, numa linda caixa, primeiramente indaga qual seu valor. Depois, quem o deu. Suponhamos que lhe informem: “Foi a Rainha da Inglaterra… Ouviu falar de suas singulares virtudes e resolveu mandar-lhe este presente. Sua reação imediata: “Que psicóloga essa rainha! Ela, de longe, percebeu minhas qualidades!” E manda logo colocar na caixa um cartãozinho: “Brilhante que a rainha da Inglaterra enviou-me.”

A terceira pergunta: “O que vou fazer com este brilhante?”.

Está tudo, portanto, magnificamente pensado. Assim eu quisera que fosse cada um de nós. É um convite para um firmamento que se abre.

Continua o Pe. Pinamonti:

“Considera, pois, em primeiro lugar a grandeza do dom. Grandes coisas tinha o Senhor já dado aos homens: tinha-nos dado a nós mesmos, e juntamente nos tinha dado inumeráveis criaturas para o benefício da nossa criação e conservação: estas coisas, ainda que muito estimáveis, eram limitadas. Deu, pois, o Senhor aos homens na Encarnação um dom infinito; porém este dom foi imediatamente dado à humanidade de Jesus Cristo, e a nós por ela só mediatamente; e por isso podia ainda o Senhor dar-se a si mesmo a cada um dos fiéis em particular, estendendo desta forma o benefício da mesma Encarnação”(3).

O pensamento dele aqui é o seguinte: para cada homem, Deus deu uma série de coisas.

Em primeiro lugar o ser, pois de nada adiantaria dar-lhe todo o resto se o homem não existisse.

Além disso, criou o Céu para a Humanidade no seu conjunto e para cada homem individualmente. Porque, se um só homem se salvasse, o Céu brilharia para ele da mesma forma.

Ademais deu-nos saúde, inteligência; em síntese deu-nos todas as coisas que existem.

Sobretudo, deu a Encarnação do Verbo: Ele se fez carne para nos salvar. É um dom enorme!

Imaginemos que uma pessoa empreendesse uma viagem a outro planeta para, chegando lá, fazer a doação de um olho a alguém necessitado; consideraríamos tal gesto de uma extrema generosidade. Se fizéssemos tal coisa, acharíamos que o beneficiado deveria a vida inteira cantar louvores a nossa bondade.

Ora, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade percorreu um espaço muito mais que planetário para vir a nós. Deus verdadeiro, abaixou-se, condescendeu em fazer-se, não anjo, mas homem, para nos salvar.

São Luís, Rei da França, introduziu o costume de inclinar-se quando, no Credo, se diz: “et Homo factus est”. Porque é um dom tão extraordinário, que temos de fazer vênia para agradecê-lo a Deus.

Mais ainda: fazendo-se Homem, passou trinta anos em vida oculta com Nossa Senhora, para glorificar a Deus e rezar pelo gênero humano. Durante todo esse tempo passou orando pela missão que posteriormente haveria de exercer.

Depois, durante três anos operou tais maravilhas, que São João chega a dizer que se as fosse narrar,  encheria a Terra com os escritos de Seus feitos. Os Evangelhos contam-nos apenas parte deles, e já são tão magníficos que nem se sabe o que dizer.

E Jesus além de todos os ensinamentos, o exemplo, de toda a manifestação de paciência, de carinho, e de perdão, ainda fez mais: como coroa de todos os dons anteriores, Ele deu a Sagrada Eucaristia.

Fazendo eco ao espírito de Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais, o Pe. Pinamonti irá mostrar adiante que, dar a Sagrada Eucaristia é de algum modo mais do que ter-Se feito Homem: através dela Ele adquiriu uma união mais íntima conosco do que pelo fato de ter-Se encarnado. A Sagrada Eucaristia é um dom, fruto da própria Encarnação; compreende-se portanto quão prodigioso ele é.

Continua o Pe. Pinamonti:

“Isto, pois, é o que Ele faz na Eucaristia, comunicando-nos quanto tem de riquezas e de bens: o seu corpo, o seu sangue, os seus merecimentos, as suas virtudes, a sua alma,e a sua divindade, com uma invenção tão admirável, que por toda a eternidade não viria jamais ao pensamento dos serafins. Não se pode, pois, pedir outra coisa maior ao nosso Salvador nesta vida; e, se lha pedíssemos, poderia ele responder que, mesmo sendo Senhor de todos os bens, agora não tem mais que nos dar, tendo-nos dado tudo no pão dos escolhidos, e no vinho que gera virgens”(4).

É um pensamento admirável! Nosso Senhor, na Eucaristia, dá-Se a nós de um modo tão esplêndido como ninguém poderia inventar. Os mais altos anjos — os serafins —, se pensassem sobre o assunto por toda a eternidade, não poderiam excogitar a ideia de um Deus que Se dá ao homem sob as espécies de pão e de vinho, de modo a penetrar nesse homem e assumí-lo.

Não há na Terra, por exemplo, nas relações de pessoa a pessoa, nenhuma forma de união tão íntima como a existente entre Nosso Senhor Jesus Cristo, na Eucaristia, e nós.

E Pe. Pinamonti enumera os dons que isto representa: Seu corpo, Seu sangue e todos os Seus méritos.

Os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo são tais que, por cada gota de Seu sangue, Ele resgataria o mundo inteiro. Ora, Ele derramou todo o sangue no alto da Cruz. Como, pois, haveríamos de calcular esse mérito? Ele é infinito!

Na Eucaristia recebemos o precioso dom: todo seu sangue derramado! Também todas as Suas virtudes. Quer dizer, toda a Sua santidade, por assim dizer toca-nos, contagia-nos santamente.

A santidade de Nossa Senhora é incomensurável, mas ela não é infinita. A de Nosso Senhor é estritamente infinita. Ele é “a” santidade.

Pois bem, Aquele que é “a” santidade condescende em vir a mim na Sagrada Eucaristia.

Que dom formidável Ele ficar no sacrário, trancado, até a hora em que chego para comungar! Nesse momento por mim escolhido, Ele vem e me visita, mais intimamente do que à casa de Lázaro e de Maria, enquanto estava vivo na terra. Porque, naquela ocasião, Ele não entrava em Lázaro nem em Maria. Aqui, Ele entra em mim.

É um dom verdadeiramente inestimável! Glória, saúde, todas as riquezas do mundo, nada são comparadas a uma comunhão. E nós que recebemos o chamado para comungar diariamente!

Alguns de nosso movimento, há dez, vinte anos comungam todos os dias; eu, há quarenta anos. Quantas comunhões isto representa! Quantos dons foram se acumulando ao longo desses anos em tais comunhões diárias! É verdadeiramente inimaginável! Esta é a amplitude do dom que Deus nos dá.

Como aproveitarmos esta meditação?

Podemos aproveitá-la, por exemplo, lendo ao menos um destes pontos, a fim de prepararmo-nos para a comunhão.

Suponhamos que uma pessoa esteja, com problemas de inveja. Deve ela considerar que vai receber Aquele que é a suma generosidade, a suma bondade, que nunca invejou ninguém; pelo contrário, alegrou-Se com o bem que fez a todos os outros.

E então dizer: “Senhor, vinde, e dai-me Vossa bondade. Lavai-me do defeito de inveja que noto em mim”.

E se a dificuldade for praticar a castidade, pensar: Nosso Senhor Jesus Cristo é a própria pureza. O sangue d’Ele é chamado vinho que gera virgens. Quem não tiver parte com Ele não consegue a pureza.

E pedir: “Senhor, vinde à minha alma para comunicar-me a Vossa pureza. Por meio de Maria Vos peço que me torneis puro, de uma pureza que lembre a d’Ela, o melhor espelho de Vossa própria pureza”.

Estes pensamentos são tão profundos que não há possibilidade de deter-se em todos antes da comunhão; basta um tomado a sério, para fazer uma comunhão bem feita.

Prossegue o Pe. Pinamonti:

“Em comparação pois duma liberalidade tão excessiva de teu Deus com a tua alma, quão enorme será a tua avareza para com Ele, se não lhe ofereces, pelo menos, aquela liberdade que te resta? Tens até agora feito resistências aos outros dons; mas poderás ainda resistir a um Deus que te dá a si mesmo?” 5

Imaginem que entrasse na casa de um de nós uma pessoa de suma importância e dissesse: “Fulano, vim aqui porque quero ser seu amigo e dar-lhe tudo o que possuo”.

Normalmente a reação seria perguntar-se a si mesmo: “O que tenho para retribuir-lhe? É um presente tão grande que ele me concede: sua fortuna, dinheiro, automóveis, aviões, tudo ele está me dando nesse momento! Alguma coisa deverei fazer por ele”.

Toma então um objeto fino que tenha em sua residência e diz: “Não está de modo algum na proporção do seu dom. Mas, para lhe manifestar o quanto estou grato, leve isto”.

Ou, uma bebida excelente que possua: “Sei que isto não paga em nada, mas peço-lhe aceitar esta bebida. É uma magra expressão daquilo que eu gostaria de fazer”.

A mais elementar das gratidões levaria a tais atitudes.

O Pe. Pinamonti, a respeito da Eucaristia, faz dessas perguntas sumamente lógicas, próprias a levar a alma quase que de elevador para o caminho da virtude.

“Estás recebendo tal dom: o que pretendes fazer? Tens resistido a outras graças: resistirás também a esta? Deus Se dá a ti, e tu não te darás a Ele? Que propósito tem não te ofereceres a Ele por inteiro nesta comunhão?”

Porque na verdade Nosso Senhor dá muito e pede pouco. O que sou para Deus Nosso Senhor? Nada! E eu não me ofereço a Ele?

Portanto, o corolário normal de uma comunhão é fazer um oferecimento: “Senhor, não sou digno de Vos receber, mas suplico que entreis em minha alma. Concedei-me a graça do desejo de dar-me a Vós, e de que um dia, o mais breve possível, eu efetivamente me dê a Vós inteiramente, isto é, abandone o pecado, deixe de Vos ofender, pratique a virtude inteiramente, seja um perfeito soldado de Vossa Causa; por meio de Maria, Vô-lo suplico”.

Esta é a retribuição forçosa. Quem recebe tanto, deve ao menos pagar um pouco pelo que recebeu. E, se Deus Se dá inteiramente a nós, tal será que não nos entreguemos completamente a Ele!

São reflexões que penetram até o fundo! Se a pessoa as tomar um pouco a sério, não pode deixar de persuadir-se. Porque, se em última análise eu acredito na Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo, como posso negar a validade de tal raciocínio? É o mais evidente que há!

Coisa muito boa é ter em mente durante o dia determinado pensamento. Por exemplo: de que, hoje, Nosso Senhor Se deu a mim. Pedir-Lhe-ei, portanto, a graça de me entregar a Ele em tal ponto. E farei nessa intenção algum sacrifício, entregarei algo que me custa, oferecerei a Ele tal tarefa difícil, etc.

Ou, então, se percebo que terei uma grande aflição certa coisa muito difícil diante de mim devo refletir: se Deus deu-Se a mim hoje, e novamente Se dará amanhã, não vou confiar n’Ele? Não irá ajudar-me nessa ocasião, sorrir para mim em tal oportunidade? É evidente que sim! Viverei esse dia com confiança, porque Deus Nosso Senhor me auxiliará.

Essas são atitudes normais de alma, de quem vive em função da comunhão que fez hoje e fará amanhã. É assim que se prepara uma alma verdadeiramente eucarística.

Os raciocínios do Pe. Pinamonti para os que praticam os exercícios de Santo Inácio pedem muita seriedade.

Porém, estas são meditações profundamente lógicas.

Imaginemos uma pessoa que resida num país aonde haja um rei, o qual lhe deu um principado. Em certa circunstância, ela precisa de um pequeno favor do monarca, por exemplo, que mande a outrem fornecer-lhe um certificado de vacina.

Não é razoável que ela tenha medo de fazer esse pedido ao rei, pois quem deu-lhe o muito mais dar-lhe-á o menos. Deve, entretanto, pedir muito não só coisas pequenas, mas grandes.

Assim precisamos ser com Nosso Senhor; preparar nossa vida em função d’Ele na Eucaristia.

Tudo isso é profundamente sério e estas conferências são um convite à seriedade. Se não formos sérios nessa vida, ao morrer teremos o maior choque que se possa imaginar: defrontar-nos-emos com a infinita seriedade de Deus.

Ele então nos dirá:

“Diariamente durante tantos anos dei-te a graça de desejardes a minha visita; e correspondeste a ela. Mas, em todas essas visitas não foste sério. Recebeste-me não refletindo no que o ato significava, nem tirando as consequência dele”.

O que iremos dizer-Lhe?  Compreende-se a importância de meditar sobre isto?

O ideal seria fazer um recolhimento com base nesse texto. Se tivéssemos um local onde pudessem revê-lo, com alguém encarregado de dar um desenvolvimento mais amplo à matéria… E meditar aos poucos, tomando notas para prepararem um “manual do comungante” a fim de ajudar a terem estas considerações no espírito, na hora de receberem a Eucaristia. Esta é a verdadeira seiva da vida espiritual. v

 

Continua no próximo número.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 15 de setembro de 1973).

 

 

1) Exercícios de Santo Inácio e Leituras Espirituais. 3ª ed. corr. Edições A.J. Porto, 1934, p. 170

2) Conforme Marcuse. Herbert Marcuse (1898-1979), filósofo de origem alemã, que se radicou nos EEUU, propugnador de uma filosofia baseada em Freud e Marx. Exerceu forte influência nos movimentos revolucionários estudantis que eclodiram a partir da Sorbonne, em 1968.

3) Pinamonti, op. cit. p. 170.

4) Ídem. p. 171

5) Ídem. p. 171

 

Lamparinas de Deus…

Dr. Plinio, arauto da Eucaristia, teve sempre especial apreço pelo valor simbólico das lamparinas que, junto ao tabernáculo, indicam a Presença Real de Jesus nas Sagradas Espécies. Acompanhemos uma analogia feita por ele, ao recordar o dia de seu próprio Batismo.

 

A lamparina acesa durante a noite diante do tabernáculo, até o momento em que raie o sol é a luz! E, quem passa toda a noite em adoração tem naquela fagulha um elemento de esperança do sol que vai nascer!

Em algumas almas percebemos a chama da graça que arde. De certo modo, cada alma humana é uma lamparina para a vida espiritual.

Imaginem uma igreja com uma lamparina em cada um de seus vários altares. Em algumas delas as chamas sobem, engrandecem, depois diminuem; parecem mover-se dentro da escuridão. Em outras são fixas, calmas, serenas, como que se imolam sem nenhuma excitação, até o ponto final. Às vezes crescem de um lado e parecem querer subir ao céu por uma via própria.

Imaginemos o universo das lamparinas de todas as igrejas! Como seria encantador, no silêncio da noite, observarmos a história de cada uma. Se tivéssemos o dom do discernimento dos espíritos, perceberíamos em cada alma como a lamparina da graça de Deus se move: ora se acende, ora pelo contrário enlanguesce, helas, às vezes toma vento, deita fumaça, suja o teto… E estende-se a mão meiga de Nossa Senhora que a limpa e, a lamparina continua a brilhar.

Se tivéssemos os olhos voltados para isso, compreenderíamos o que o Batismo deu a cada um de nós: ser algo à maneira de uma lamparina dentro da casa de Deus, mas com pavio aceso e não apagado; pavio que brilha e não pavio morto! E a história da alma de cada de um de nós poderia ser comparada à de uma lamparina.

Aqui está uma lamparina que, tendo demorado seis meses para acender-se , deveria arder pelo menos até setenta anos.

Quanto ao resto do tempo, Deus o saberá.

Se eu fosse estudar a história dessa lamparina, diria que no meio de mil provações e desventuras, uma alegria a manteve ereta como um gládio. E a alegria provinha deste fato: sou lamparina na casa de meu Deus, aos olhos de minha Mãe! De minha Mãe celeste e também aos olhos, tão insondavelmente menores, mas tão insondavelmente carinhosos, de minha mãe terrena.

Na presença deles ardi, procurando o teto o tempo inteiro e dessa maneira procurando dar a glória que dei! Sei que não foi o que deveria, Ela que perdoe; mas, algo está feito, algo está dado, algo resta para dar. 

 

(Extraído de conversa em 7 de junho de 1979)

Eucaristia

Imaginemos uma pequena capela onde um sacerdote dá a algum de nós a Eucaristia.

Visíveis apenas o padre, um de nós, e um discozinho de farinha e água. Porém, a fé nos ensina que todos os anjos e santos do Céu adoram cada partícula do Santíssimo Sacramento existente na Terra; e portanto presenciam aquela comunhão, cantando e louvando o Divino Redentor. Nossa Senhora, por sua vez, louva a Nosso Senhor porque Ele está Se dando a nós. De maneira que o Céu inteiro está olhando para aquela cena e pede a Nosso Senhor misericórdia por aquele que está recebendo a Eucaristia.

Pode-se conjecturar algo mais alentador? Quanta alegria e que beleza nessa cena! Se antes de comungar pensássemos um pouco nisto, não é verdade que iríamos receber a Eucaristia com mais esperança, mais confiança, mais alegria? É evidente!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de Conferência em 15 setembro de 1973)

Grande lição de combatividade

Tendo fraquejado a coragem de proclamar os dogmas, houve uma diminuição da Fé em incontáveis pessoas que se dizem católicas. A Solenidade de “Corpus Christi” nos ensina a ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração à Sagrada Eucaristia.

 

Deverei falar alguma coisa a respeito de “Corpus Christi”. Os aspectos da instituição do Santíssimo Sacramento e da presença da Eucaristia na Igreja já têm de tal maneira sido estudados por nós, que se fica um pouco embaraçado em dizer algo de novo. Mas uma vez que não estamos propriamente na festa da instituição do Santíssimo Sacramento, que é na Quinta-feira Santa, mas na solenidade de “Corpus Christi”, eu gostaria de dizer algo sobre a razão pela qual ela foi instituída.

Um dos maiores escândalos na Igreja, no século XVI

Todos sabem que os protestantes, hereges, negaram e negam a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. E esse foi um dos maiores escândalos sentidos ou realizados na Igreja, no século XVI, no qual houve tantos escândalos.

Os medievais tinham uma profunda Fé no Santíssimo Sacramento, na presença real e, portanto, uma devoção enorme à Santa Missa, à adoração do Santíssimo Sacramento. E a negação brutal da presença real, feita pelos protestantes, foi um dos pontos de fratura entre eles e os católicos, tendo sido recebida por estes como um dos piores ultrajes que jamais se tenham cometido contra Nosso Senhor.

Qual foi então a política – porque se pode aqui falar em política, no sentido elevado do termo –, quer dizer, a tática pastoral usada pela Igreja em face desse fato?

A Igreja tinha dois caminhos. Um seria o de dizer: “Nossos irmãos separados protestantes estão negando a presença real. Se formos afirmar de modo protuberante essa presença, nós sustentamos a separação. Como eles não querem saber de nenhum modo desse dogma, na medida em que nós o afirmamos, eles se afastam. Vale a pena, então, repensarmos o dogma da presença real. E tomando em consideração que os tempos mudaram – porque o ano de 1500 estava afinal de contas bem longe do ano I da era Cristã –, era muito natural que nós agora exprimíssemos a presença real num vocabulário diferente, que agradasse aos protestantes”.

“Não seria uma negação da presença real, pois é um dogma definido por Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas em vez de afirmar de forma tão acentuada que Ele está realmente presente, debaixo das aparências eucarísticas, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, nós poderíamos dizer que há a presença de Cristo no pão aqui consagrado. O que essa presença significa? Deus está presente por toda parte, e os bons amigos protestantes podem entender que Ele se encontra ali como está, por exemplo, numa flor ou num pão qualquer. Nós compreendemos que não é isso, mas sim que Ele está realmente presente com Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Porém, não vamos declarar isso para não criar uma cisão. Vamos usar um termo confuso, equívoco e assim eles ficam unidos conosco. Depois, vamos começar o diálogo, no qual dizemos para eles: ‘Que tal seria se nós reestudássemos os fundamentos do dogma da presença real, para verificarmos em conjunto até que ponto ele tem ou não seu fundamento da Sagrada Escritura?’”

O protestante diria: “A sua dúvida é irmã da minha. E tenho vontade de re-pesquisar o assunto, como você tem também”. Eu não lhe iria afirmar que duvido, porque destruiria a Fé. Então eu lhe falaria: “Se você tem dúvidas, era bom estudar”. Ele fica com uma certa  impressão de que eu tenho dúvidas, mas eu não disse que tenho dúvidas.

Se satanás fizesse uso da palavra…

Então, começa uma conversa a respeito do Santíssimo Sacramento em que digo: “Seria mais interessante, em vez de eu tomar uma posição endurecida e você também, nós estudarmos qual é o modo pelo qual poderíamos chegar a um acordo. De maneira tal que, da tese ‘Jesus Cristo não está presente realmente na Eucaristia’, nós conseguíssemos deduzir uma terceira posição que não seria inteiramente uma coisa nem outra. Você cede um pouco e eu também. E nós afirmaremos juntos que Jesus Cristo está presente de fato na Eucaristia. Porém, se ele está presente apenas enquanto Deus, ou enquanto Homem-Deus, é um pormenor a respeito do qual cada um de nós reserva sua liberdade de posição. Então, teremos chegado finalmente a uma síntese”.

Por essa forma poder-se-ia evitar uma ruptura entre protestantes e católicos, e o mundo cristão seria hoje unanimemente católico. Essa unidade teria dado à Religião Católica um vigor, uma magnitude muito diferente da tristeza dessa bipartição que está aí.

“Vocês católicos – argumentaria um protestante – quando veem, do alto e de dentro de sua unidade, as seitas protestantes pulverizadas, riem dessa pulverização, imaginam bem de que desgraça, de que infortúnio estão escarnecendo? Vocês têm uma ideia de quanto isso representou para o rebaixamento moral desse mundo protestante assim dividido? Quanto significou de lutas, de divisões, de dores, de sofrimentos? A primeira cisão partiu de vocês, quando rejeitaram a nossa novidade. Depois, as outras cisões vieram em cadeia, por causa exatamente da rejeição que vocês praticaram. Vocês são os autores dos males dos quais se queixam.”

Se satanás tivesse que fazer uso da palavra, diria – com mais inteligência e mais charme – mais ou menos a mesma coisa.

O ensino deve ter clareza

Ora, os Santos, os teólogos, os papas daquele tempo seguiram uma política inteiramente diversa. Eles pensaram o seguinte: a Igreja Católica foi instituída por Jesus Cristo para ensinar a verdade. E ela não tem o direito de dar um ensinamento confuso porque não é um ensinamento digno desse nome. É indigno o ensinamento confuso, mesmo de um professor que, involuntariamente, por incompetência, deixe a confusão reinar sobre o conteúdo do que ele está ensinando. Porque a clareza é a primeira das qualidades do professor, ou seja, o ensino exige como pressuposto a clareza. Um homem pode ser sábio e não ser claro. Mas não pode ser professor e não ser claro. Seria mais ou menos como um fabricante de binóculos que os faz com um cristal excelente, com uma montagem muito boa, mas os cristais que ele usa são um pouco embaçados: é uma porcaria. Porque o binóculo foi feito para se ver à distância com clareza. Se não dá para ver com clareza, é uma porcaria, o resto não interessa.

Portanto, a primeira exigência do ensino é de ser claro. Se aquele que ensina não o faz com clareza intencionalmente, ele é pior do que um incompetente: é um desonesto. Porque é uma desonestidade, uma fraude, apresentar-se alguém a um outro com a segunda intenção de não lhe transmitir a verdade inteira, quando este supõe que a verdade inteira lhe será dada.

Em termos mais definidos: há uma questão a respeito de saber se os portugueses já conheciam ou não o caminho do Brasil, quando aqui chegou Pedro Álvares Cabral, e se o descobrimento do Brasil foi, portanto, realmente um descobrimento ou uma expedição mandada pelo Rei de Portugal para oficialmente descobrir o Brasil. Os portugueses julgaram que era o momento de revelar ao mundo a posse desta terra que eles já conheciam, mas não queriam que fosse habitada ainda, porque não sentiam ainda a nação portuguesa bastante pujante para iniciar o povoamento deste mundo que estava diante deles.

Há uma discussão sobre esse assunto na História do Brasil. Um professor tem o direito de sustentar uma dessas duas teses, que se apoiam em argumentos prováveis; tem o direito de dizer que não aceita nenhuma delas como demonstradas ainda, porque não as acha suficientemente elucidadas. O que ele não tem é o direito de, numa aula de História tratando da questão, tirar o corpo da solução e não dar a posição dele. Se, por uma razão política qualquer, ele evita tomar posição, não é honesto porque tem a obrigação de dizer a verdade a respeito das coisas.

Pode-se até compreender – não chego a dizer que se possa escusar – que um ou outro faça silêncio a respeito de um determinado ponto de História. Contudo, segundo pensaram aqueles grandes teólogos e doutores, se a Igreja fizesse o silêncio a respeito da Eucaristia, ela estaria fraudando os fiéis que receberiam dela um ensinamento confuso sobre uma verdade indispensável à salvação. E ela, assim, faltaria com a sua missão.

Necessidade de levar os princípios até suas últimas consequências

Ademais, se a Igreja silenciasse a respeito da Eucaristia faria com que os fiéis comungassem mal, porque eles, não tendo o ensinamento claro sobre o que estão recebendo, não podiam recebê-lo bem. Como fazer um ato de adoração ao Santíssimo Sacramento se não se tem certeza que ali está Nosso Senhor Jesus Cristo? Não é possível. Quer dizer, para manter uma unidade pútrida, a Igreja sacrificaria a vida espiritual de seus fiéis.

Por fim, viria um princípio que, embora não seja o mais forte, é o menos realçado, e por isso desejo salientá-lo: A força de toda instituição consiste em levar às últimas consequências seus próprios princípios. A partir do momento no qual ela julga que, para sobreviver, deve adoçar os seus princípios, reconhece que já morreu.

Tomem, por exemplo, o estado militar. As forças armadas constituem uma instituição do país. O próprio delas, na sua pujança, é deduzir da condição militar o estilo de vida militar levado tão longe quanto possível. A partir do momento em que, por exemplo, um ministro da guerra dissesse que o Brasil é um país ao qual repugna tanto o estado militar que, ou o militar toma ares de civil, ou não haverá mais militares, as forças armadas morreram no Brasil. Porque se a coerência do estado militar é inaceitável pelo país, afugenta as vocações; então é preciso reconhecer que o estado militar morreu.

Vocações clericais: um padre deve ser, pensar, vestir-se e viver como padre. Se alguém diz que em determinado país é preciso trajar os padres de macacão para atrair vocações, então esse país não quer ter mais padres, ficou pagão. 

Aplico o mesmo princípio à instituição da família. Alguém dirá: “Dr. Plinio, se não for aprovado o divórcio, muita gente começa a não se casar mais e a viver no amor livre.” A resposta é: “Então diga que morreu a instituição da família. Não vale a pena fazer uma familiazinha moribunda, caricatura abastardada daquilo que deve ser”.

Vamos, então, tomar a questão de frente e dizer logo: tal país morreu. Porque uma nação onde não há compreensão para o estado militar, para o estado eclesiástico e nem apreço pela família é uma nação morta.

Política de enfrentar, lutar, afirmar, proclamar 

Os padres do Concílio de Trento entenderam ser preciso fazer o contrário. E em oposição ao protestantismo, acentuar o culto ao Santíssimo Sacramento. Então, o Concílio fortaleceu o decreto da instituição da festa de “Corpus Christi”, prescrevendo ao clero a realização de uma procissão na qual o Santíssimo Sacramento saísse à rua, para se ver que as multidões O adoram de joelhos postos em terra, reconhecendo que debaixo das aparências eucarísticas está Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde então, impulsionou-se o culto ao Santíssimo Sacramento de todos os modos, chegando a essa plenitude que era a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento, instituída por São Pedro Julião Eymard.

Era a política de enfrentar, não conceder, lutar, afirmar, proclamar. A política da honestidade, da lealdade, da integridade, da coerência, de onde veio para a Igreja uma torrente de graças, exatamente as graças da Contra-Reforma, que representaram uma das maiores chuvas de bênçãos que a Igreja tem recebido.

Acentuar o culto ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e a devoção ao Papa foi a resposta da Igreja ao protestantismo. Uma longa resposta de trezentos anos. No século XIX ainda, a proclamação da infalibilidade papal, do dogma da Imaculada Conceição; no século XX, o dogma da Assunção. Enfim, tivemos uma série de afirmações e instituições desdobrando e afirmando aquilo que o protestantismo negava. De maneira que quanto mais eles persistam no seu erro, tanto mais nós íamos proclamando alto a nossa verdade. Quanto mais eles se esfarelavam, tanto mais a nossa unidade se afirmava. Quanto mais eles morriam, tanto mais a nossa vitalidade se multiplicava.

Até que outros ventos sopraram… Vejamos a verdade de frente: há incontáveis católicos que não têm mais a coerência de sua Fé. Não possuem mais a pugnacidade, aquela integridade que caracteriza uma instituição quando está viva. A Igreja nunca diminui de vitalidade porque é imortal, sobrenatural, divina, mas a correspondência de seus filhos a ela pode diminuir e, portanto, a densidade de Fé minguar também no espírito de muitos deles.

Como, em nossos dias, a coragem de proclamar os dogmas diminuiu, há, portanto, uma diminuição da Fé em incontáveis daqueles que se dizem católicos!

A solenidade de “Corpus Christi” é a festa do Santíssimo Sacramento, mas também uma grande lição de combatividade. Aprendamos essa lição e procuremos ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração à Eucaristia.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/5/1970)