21 de agosto – Mãos para confortar quem sofre e esmagar as heresias

Mãos para confortar quem sofre e esmagar as heresias

São Pio X era para todos os que o visitavam o pai por excelência, de coração inexprimivelmente suave e compassivo. Aconselhou a Comunhão quotidiana e a das crianças, incentivou a devoção a Nossa Senhora e também condenou o modernismo. Fez ver a todos os fiéis que se as mãos de um Papa e de um Santo são maternais para cicatrizar as feridas de quem sofre, sabem esmagar os erros e as heresias.

De origem humilde e não tendo passado pela admirável escola de formação política que é a carreira da diplomacia pontifícia, o Santo Padre Pio X teve de arcar com a sucessão do Papa Leão XIII.

Igreja ameaçada por uma das crises mais complexas e graves

 

 

Quando este último ascendeu ao trono pontifício, encontrou a Igreja em situação delicadíssima, ameaçada de todos os lados por uma das crises mais complexas e graves de sua História. Desenvolvendo qualidades de inteligência, habilidade e zelo que assombraram o mundo inteiro, Leão XIII, durante um longo pontificado que foi uma série ininterrupta de triunfos, alterou profundamente esta situação crítica.
Com tudo isto, sua personalidade marcantíssima de tal maneira assombrou os contemporâneos que, quando o velho Pontífice expirou, era impressão unânime que o pontificado de seu sucessor ficaria irremediavelmente esmagado pelo confronto inevitável com as glórias dos dias em que reinara Leão XIII. Esta impressão cresceu de ponto quando se soube da eleição de Pio X, cuja personalidade parecia despojada de todos os predicados que em Leão XIII haviam brilhado com tão intenso fulgor. Neste sentido, a imprensa declaradamente ímpia ou simplesmente neutra explorou com uma insistência insolente o contraste entre Leão XIII e Pio X.
Na realidade, não faltavam a Pio X altos predicados de inteligência e cultura, porém, inútil tentar equipará-los ao de seu imortal antecessor. Entretanto, aos poucos, da personalidade do novo Pontífice começou a se irradiar uma luz suavíssima que atraía e iluminava o mundo inteiro. De uma bondade verdadeiramente angélica, de uma piedade que deixava transparecer o mais vivo e ardente espírito sobrenatural, Pio X era para todos os peregrinos que o visitavam, bem como para toda Cristandade, o Pai por excelência, de coração inexprimivelmente suave e compassivo, sempre disposto a acolher a expansão de todas as mágoas, de todos os sofrimentos, de todas as dores que pungem o homem neste vale de tristezas. E para cada qual encontrava sempre a palavra adequada, escolhida com uma finura de tato que só os corações de escol possuem, e revestida de uma eficácia verdadeiramente carismática.
Um rápido conselho, uma palavra, até um sorriso do Papa enchia de luz os corações mais desditosos; mais ainda: sua virtude era comunicativa aos

 

que dele se aproximavam. Pio X foi típica e caracteristicamente o homem de Deus descrito por Dom Chautard1, estuante de vida interior e irradiando de todos os modos, em sua maneira de rezar, de falar, de agir e até de olhar, a graça de Deus que subjugava os corações mais rebeldes. E, aos poucos, notícias singulares começavam a correr entre os fiéis. Eram curas obtidas pela intercessão decisiva do Servo de Deus. Eram atos e gestos que revelavam um conhecimento sobrenatural dos fatos. Pio X era um verdadeiro Santo. Era esta a voz corrente em toda a Cristandade.

 

Tarefa soberanamente difícil, quase inexequível

Deus governa com sabedoria infinita a sua Santa Igreja, dando-lhe para as ocasiões de crise os Pontífices adequados para o momento. Desbastando o campo doutrinário em que pululavam os erros mais grosseiros, Leão XIII, dotado de zelo apostólico admirável e relevantes virtudes, precisou e definiu os contornos da ortodoxia, ameaçados e a todo momento transgredidos por fautores de ideias novas que quereriam, entretanto, continuar a se dizer católicos. Restaurando os estudos do tomismo; refutando os erros pestilenciais do liberalismo, do socialismo e do comunismo, ele imprimiu ao pensamento católico rumos definitivos e, além disto, lhes indicou as normas de ação adequadas, na imortal encíclica Rerum novarum.
Mas isto não bastava. O erro que deprava a inteligência arrasta a vontade para o mal. A debelação radical de toda a pestilência dos erros que, desde o Humanismo e a Renascença, passando pelo jansenismo, o pombalismo ou josefismo, o filosofismo, etc., se haviam atirado sobre a Cristandade infeliz, exigia uma obra mais profunda.
Era preciso reanimar as vontades tíbias, chamar à virtude as pessoas mal-intencionadas, arrancar o pecador ao seu pecado e inspirar no homem um verdadeiro horror às veredas ímpias seguidas por seus contemporâneos. Um erro se define, se refuta e se condena. É tarefa árdua, mas francamente realizável. Porém retificar uma vontade sinuosa, dar novo calor a uma alma enregelada pela tibieza, avivar a chama do bem que bruxuleava até na alma de muitos católicos retos, eis aí tarefa difícil, soberanamente difícil, quase inexequível. Foi a obra que a Divina Providência confiou a quem com inexcedível eficácia a poderia realizar: a um Santo, a Pio X. E, por isso, disse certo historiador da Igreja que o reinado de Pio X foi dos mais gloriosos e difíceis que tenhamos visto.

Condenação da música profana nas cerimônias religiosas

Para que essa obra fosse levada a cabo era preciso, antes de tudo, que do Santuário fossem eliminadas as escórias de todas as influências meramente naturais e profanas. Pio X se imortalizou por sua obra de reerguimento dos estudos e da piedade dos fiéis acerca da Sagrada Liturgia, com o que concorreu notavelmente para o aperfeiçoamento do senso católico. A Sagrada Liturgia é a própria voz da Igreja que ora. Estudá-la, conhecê-la, amá-la, inserir-se na vida sobrenatural que ela comunica, corresponder generosamente, com a mortificação e a vida interior, às graças que ela transmite, com isto só podia lucrar imensamente a piedade dos fiéis.
Entretanto, havia um obstáculo, além do desinteresse, desconhecimento e ignorância em que em não raros lugares estavam os conhecimentos litúrgicos. Era a música profana que se associava às celebrações religiosas, roubando-lhes sua dignidade, seu caráter sobrenatural, toda a sua austeridade.

Como fazer? Atraídas por toda sorte de diversões novas, as massas fugiam ao santuário. Se a Igreja lhes tirasse a música profana, muito mais acessível ao gosto moderno do que o cantochão ou até polifônico, as igrejas se esvaziariam de vez. Não seria melhor contemporizar? É o eterno problema dos que julgam que o melhor meio de propagar verdades consiste em as diluir e ocultar, como se o mais eficaz modo de disseminar a luz fosse quebrá-la com um abat-jour…
Pio X pensou de modo radicalmente diverso. No seu famoso Motu Proprio2, condenou formalmente a música profana nas igrejas e, desembaraçando dessa floração inconveniente e às vezes até má o ambiente do santuário, reeducou os fiéis para a apreciação do verdadeiro canto sacro. O que se lucrou com isto é fácil vê-lo em nossos dias, quando já ninguém suporta de bom grado a música profana que, por vezes, tenta reintroduzir-se pertinazmente no lugar santo.
Seria preciso todo um artigo de jornal para falar a respeito dos atos pelos quais o Santo Padre Pio X, abrindo mais francamente as fontes da graça que a obstinação dos jansenistas pretendera fechar, inaugurou na Santa Igreja uma era nova de fervor eucarístico. Aconselhando a comunhão assídua e até quotidiana, o Santo Padre determinou uma admirável eclosão de espírito eucarístico, que se manifestou pelas mais variadas obras. Por outro lado, aproximando da Sagrada mesa desde os albores da idade da razão as crianças, Pio X opôs à expansão da imoralidade e da impiedade fortíssima barreira, robustecendo as vontades e as inteligências com a graça de Deus ainda na idade da inocência.
De tudo isto decorreu um aumento de piedade em toda a Cristandade, que iluminou o reinado de Pio X com uma glória inextinguível. Devotíssimo da Mãe de Deus e Senhora nossa, Maria Santíssima, o Santo Padre Pio X incentivou notavelmente a devoção para com Aquela que a Igreja ainda proclamará solenemente a Medianeira universal de todas as graças. E, por isto, foi imensa a torrente de benefícios espirituais com que se enriqueceu a Santa Igreja.

 

Modernismo, “súmula de todas as heresias”

 

Mas havia um grave erro, de nenhum valor intelectual é certo, pois que não consiste senão em uma indecorosa coleção de subterfúgios, de sofismas e de mentiras, que a socapa, como serpente insidiosa, se havia insinuado entre os fiéis. Era o modernismo. Ele exprimia em última análise o esforço desesperado de certos espíritos de, conservando embora certas formas e exterioridades católicas com que não ousavam romper, aceitar ao mesmo tempo todos os erros do século.
A primeira característica do modernismo era que todas as palavras que na Igreja tem um sentido definido e tradicional valiam como índices de outro sentido no vocabulário dos modernistas. Usavam a mesma linguagem que nós, mas com outro espírito e com um segundo sentido que só com habilidade deixavam entrever em seus escritos, e apenas aos poucos iam revelando oralmente aos seus adeptos. Daí uma confiança ilimitada de espíritos ingênuos, mas às vezes retos e bem intencionados, que, vendo as aparências, julgavam salvas as realidades. E o mal circulava impune.
Em uma encíclica famosa, Pio X condenou violentamente este mal e fez ver a todos os fiéis que se as mãos de um Papa e de um Santo sabem ser maternais para cicatrizar as feridas dos que sofrem, sabem ser pesadas como montanhas para esmagar erros e matar heresias.
A Encíclica Pascendi Dominici gregis, contra o modernismo, é dos documentos mais edificantes de Pio X. Suas páginas ardem e vibram de santa indignação. Tomado de um zelo sobrenatural pela Casa de Deus, o Santo Padre denuncia com palavras de fogo o veneno que escorria sub-reptício “dentro das próprias veias da Cristandade”, e com uma precisão admirável, ponto por ponto, denunciava os subterfúgios, esmagando as alegações falsas e deixando a nu toda a vileza dessa corrente que era, segundo suas expressões, a “súmula de todas as heresias”.

Heresia que defendia os regimes sociais e políticos igualitários

Um dos lances sem dúvida mais fortes da luta de Pio X contra o modernismo se encontra na condenação do “Sillon”3. Essa organização de jovens franceses tinha tomado orientações perigosas. Apaixonadamente amiga de todas as novidades , odiando sem distinção todas as tradições, partidária sistemática dos regimes sociais e políticos igualitários e condenando os aristocráticos como anticristãos (contra o expresso ensinamento de Leão XIII), inimiga de toda autoridade a ponto de não admitir que existissem professores nem cursos organizados para seus sócios, e admitindo apenas cooperativas intelectuais, inimiga de toda seleção de membros, de um interconfessionalismo tipicamente liberal, o “Sillon” gostava de se afirmar “revolucionário” e de apontar em Jesus Cristo, Senhor nosso, um grande “revolucionário”. Pode-se imaginar a indignação de Pio X contra uma tal série de erros. Ele os condenou e fustigou em uma encíclica4 que deveria estar nas mãos de todos, de tal maneira esclarece pontos doutrinários importantíssimos, que hão de interessar os fiéis até a consumação dos séculos.

 

O esplendor das virtudes de Pio X havia, por fim, abafado na sua totalidade o ruído estúpido dos que, inteiramente naturalistas, julgavam que o fator mais importante do apostolado está na inteligência e não na virtude. E, por isto, o ambiente criado pela admirável figura do Papa era de verdadeiro e universal enlevo.
Infelizmente, porém, veio a guerra. E como todos sabem, não resistindo ao golpe bem como às inúmeras lutas de seu árduo pontificado, Pio X morreu.
No Céu mais um Santo se sentou no número dos eleitos e na Terra sua memória continua a embalsamar todos os corações, a edificar todas as almas e a consolar inúmeras dores. Até hoje chegam ao Vaticano cartas endereçadas a Pio X em que dos mais variados pontos da Terra os fiéis pedem ao grande Papa, cujos restos mortais sabem estar ali sepultados, que reze por eles e lhes obtenha as graças espirituais ou temporais necessárias.

A cripta em que seu corpo repousa é visitada constantemente por peregrinos. E como não está sempre aberta, no lajedo de mármore da Basílica do Vaticano, exatamente sobre a lápide embaixo da qual está o lugar em que, os restos mortais de Pio X dormem no Senhor, se fixou um sinal de metal. Em torno dele rezam os fiéis nas horas em que o local não está exposto à visitação pública.

(Extraído de O Legionário n. 553, 14/3/1943)

1) Jean-Baptiste Chautard (*1858 – †1935). Abade de Sept-Fons, França, autor da obra A alma de todo apostolado.
2) Tra le sollecitudini, 22 de novembro de 1903, sobre a música sacra.
3) Le Sillon, movimento político-religioso francês que pretendia unir o catolicismo aos ideais socialistas e republicanos franceses.
4) Encíclica Notre charge apostolique, de 25 de agosto de 1910.

21 de agosto – São Pio X, modelo de varão católico

São Pio X, modelo de varão católico

Quero que o último ato de meu intelecto e o último pulsar de meu coração seja um brado de amor e fidelidade ao Papado”, costumava repetir Dr. Plinio até seus derradeiros dias. Na verdade, depois  e sua entranhada devoção ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora, por nada tinha ele mais apreço do que à divina instituição do Papado, pela qual nutria imensa veneração. Sentimento que transparece nas palavras aqui transcritas, com as quais recorda a figura de um dos maiores Pontífices que já ocuparam a Cátedra de Pedro: São Pio X, cuja festa se celebra no dia 21 de agosto.

 

Em 1903, após um dos mais longos pontificados da História, e numa idade muito avançada, faleceu o Papa Leão XIII. Logo depois das exéquias, de acordo com o secular costume da Igreja, todos os cardeais se reuniram na Cidade Eterna para o Conclave que elegeria o novo Sumo Pontífice.

Conta-se que o então Cardeal Sarto, Patriarca de Veneza, foi um dos poucos, se não o único, a se dirigir a Roma tendo já em mãos o bilhete de passagem da volta, tão certo estava de que sobre ele não recairiam os votos de seus pares.

E os fatos pareciam confirmar as despretensiosas expectativas daquele Purpurado, pois, ao final de alguns escrutínios, o sucessor de Leão XIII estava praticamente escolhido. Tratava-se do Cardeal Rampolla del Tindaro, que fora Secretário de Estado do falecido Papa, e cuja orientação de governo ele haveria de manter durante o novo Pontificado.

Manteria, se uma inesperada atitude não viesse mudar o rumo dos acontecimentos. Tão logo se tornou claro qual seria o resultado da votação, levantou-se, trêmulo e indeciso, o Cardeal-Arcebispo de Praga, dizendo: “Eu tenho uma comunicação a fazer da parte do meu soberano, o Imperador da Áustria. Prevalecendo-se do direito que têm os monarcas austríacos de vetar alguém eleito para o Papado, quando tal escolha lhe parecer nociva aos interesses e às conveniências da Igreja Católica no seu país, o Imperador Francisco José, meu senhor, dá ordem de vetar o Cardeal Rampolla del Tíndalo para Papa”.

Esse uso do veto ou seja, de proibição escandalizou todo o Conclave, porque há muito tempo os soberanos austríacos não exerciam esse direito. Era, portanto, um papel por demais antigo que Francisco José retirava da gaveta. Mas… retirou e mandou: não podia ser. O Cardeal Rampolla estava fora de cogitação.

Sabendo que não seriam possíveis tratativas nem apelações, os cardeais dão início a novos escrutínios, fazendo valer a célebre subtileza da diplomacia romana dos grandes tempos. A cada turno de eleição eram proclamados os resultados, e em duas ou três vezes os votos para o Cardeal Rampolla retomaram por baixo e foram crescendo o suficiente para significar um desafio ao Imperador da Áustria, não porém o bastante para elegê-lo. Foi uma jogada astuta e inteligente, bem ao estilo do Vaticano…

A eleição do Cardeal Sarto, futuro São Pio X

Como era de se  esperar, caiu em definitivo a votação do Cardeal Rampolla, enquanto se levantava outro candidato: o Cardeal Sarto, Patriarca de Veneza, futuro São Pio X.

Em suas Memórias do Papa Pio X, narra o Cardeal Merry del Val então monsenhor e secretário do Conclave que, depois de um daqueles decisivos escrutínios, fora encarregado de procurar o Cardeal Sarto, a fim de demovê-lo da resistência que este opunha à sua eleição. Entrando ele na Capela Paulina, reservada aos Purpurados, encontrou ali o Patriarca de Veneza, ajoelhado no solo de mármore, a cabeça entre as mãos, chorando e rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano.

O prelado se ajoelha por sua vez junto do Cardeal Sarto, e com voz baixa lhe confia a mensagem de que era portador. Lentamente, o Patriarca levanta a cabeça, volta para o secretário a face sulcada de lágrimas, e lhe pede que anuncie a sua recusa formal ao sólio pontifício. Santo como era, tinha plena consciência de que o Papado significava uma responsabilidade tremenda, em meio a árduos combates em defesa da Igreja. Parecia repetir, daquele modo, as palavras do Divino Redentor no Horto das Oliveiras: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”…

Compadecido daquele varão que dava tais mostras de humildade, Monsenhor Merry del Val -, ele mesmo homem de rara virtude e futuro braço direito de São Pio X –, a fim de animá-lo e fazê-lo aceitar o cargo, disse-lhe:

Coragem Eminência, o Senhor o ajudará!

Novamente ocultou o Cardeal Sarto a cabeça entre as mãos, para terminar sua prece. O secretário do Conclave se afastou. “Nunca esquecerei” comenta ele “a impressão que me produziu este encontro, à vista de uma angústia tão intensa. Era a primeira vez que me punha em contato com Sua Eminência, e pressentia ter me achado em presença de um santo”.

Poucas horas depois, o Cardeal Sarto, premido pelas reiteradas e insistentes  solicitações de vários membros do Sacro Colégio, decidiu desistir de sua oposição. Na manhã seguinte, era eleito por uma grande maioria, e aceitava a missão de suceder a São Pedro, sob o nome de Pio X.

“O Anjo guardião do Paraíso”

Homem de origem assaz modesta, o Cardeal Sarto (em italiano, sarto quer dizer alfaiate) nasceu na pequena aldeia de Riese, na qual até hoje se conservam a casa em que ele veio ao mundo e todas as lembranças de sua história desde menino. Riese tornou-se um lugar de peregrinação. Adolescente, Giuseppe Sarto deixou o lar paterno para ingressar no seminário da diocese de Treviso. Depois de completar seus estudos em Pádua, foi ordenado sacerdote, e, três décadas mais tarde, sagrado Bispo de Mântua. Em 1893 tornou-se Cardeal e Patriarca de Veneza, de onde partiu para ser eleito Papa.

Apesar de sua ascendência humilde, São Pio X possuía tanta dignidade moral, e uma tal estampa pessoal que um jornalista francês, depois de entrevistá-lo, fez o seguinte comentário: “Quem se encontra e conversa com o Papa, conhece um homem tão forte e tão puro, que tem a impressão de estar diante do Anjo que a Escritura descreve como guardando a entrada do Paraíso Terrestre, com uma espada de fogo à mão”.

De fato, diversos traços da vida de São Pio X revelam que ele foi realmente uma figura angélica, um modelo super-acabado de pureza e de fortaleza. Homem de alta estatura, muito robusto, como são em geral os italianos da região do Veneto, era dotado de vigorosa personalidade, e sobretudo, formado numa integridade e firmeza de princípios, bem como numa completa renúncia de si mesmo, que caracteriza o verdadeiro Santo da Igreja Católica.

Por isso, assim que o mundo conheceu o nome do novo sucessor do Príncipe dos Apóstolos, uma intensa manifestação de júbilo e de louvores a Deus perpassou a Cristandade. Estavam os fiéis convictos de que Nosso Senhor lhes havia dado um Pastor sábio e virtuoso, atilado e prudente, em cujo coração pulsava zelo e amor ardentes pela Esposa Mística de Cristo, que a Providência acabava de confiar a suas firmes mãos de Soberano Pontífice. E ele de tal maneira a dirigiu com maestria e paternalidade, que a Igreja passou a viver um período de esplêndido florescimento, de brilho extraordinário, de profunda unidade e coesão na sua estrutura sagrada.

O papa das primeiras comunhões

Entre os inestimáveis benefícios que a Religião Católica lucrou no governo de São Pio X, destaca-se o de ele ter estabelecido a Primeira Comunhão para as crianças. Até então, a tendência corrente era de que uma pessoa só a fizesse quando inteiramente adulta, não sendo raro o caso de homens e mulheres que comungavam pela primeira vez nas vésperas de seu casamento.

Essa atitude era determinada pela compreensível ideia de que a Comunhão é algo por demais sagrado para que as crianças se aproximem dela, pois não teriam critério para comungar com o respeito e a devoção necessárias.

São Pio X, entretanto, entendia de modo diferente, e colocou a questão em outros termos. Dizia ele: “Não se trata de saber o que a criança é capaz de pensar, e sim que grau de inocência ela tem. Porque se fôssemos raciocinar em função de sua capacidade intelectual, então não deveríamos batizá-la nos primeiros dias após seu nascimento”.

Um juízo muito acertado, cujo desenvolvimento é este: no momento do Batismo, embora o recém-nascido ainda não pense, a recepção do Sacramento significa para ele uma comunicação de graças extraordinárias, que agirão sobre sua alma até o dia em que comece a fazer uso da razão. E mesmo nesse início da vida de pensamento aquelas graças do Batismo lhe serão de extrema valia, guiando seus primeiros passos e o fortalecendo na Fé.

É este um dos principais motivos pelos quais a Igreja inteira batiza as crianças logo depois do nascimento.

E análogo princípio aplicou São Pio X, ao instituir a Primeira Comunhão para as crianças. Quer dizer, tomando em consideração que estas, via de regra, ainda conservam sua inocência, ser-lhes-á ocasião de graças superabundantes receberem a Sagrada Eucaristia. Para tanto, basta compreenderem a mudança de substância operada na hóstia no momento em que é consagrada, passando a ser, verdadeiramente, Nosso Senhor Jesus Cristo, em seu corpo e sangue, alma e divindade.

Observadas essas condições, São Pio X determinou que a festa da Primeira Comunhão para as crianças fosse cercada de grande solenidade. E datam daí os ornamentos de que se revestem as igrejas e capelas nos dias de Primeira Comunhão, e os trajes cerimoniosos com que meninos e meninas se apresentam para receber a Jesus Sacramentado, símbolos da alma inteiramente inocente e virginal que vai de encontro ao seu Salvador.

Atmosfera santificante cobrindo a Igreja

Outro  precioso fruto do governo de São Pio X foi o espraiar-se de uma atmosfera sacrossanta por todos os ambientes católicos que dele recebiam a influência, produzindo um efeito vantajoso, santificante e magnífico. De tal maneira que, anos depois de sua morte, ainda persistiam o perfume e os ecos de seu pontificado. Tal se verificou sobretudo nos países distantes da Europa, aos quais naqueles tempos tardavam em chegar as transformações ocorridas no Velho Continente.

Por exemplo, no Brasil. Eu nasci em 1908, quando há cinco anos já se encontrava São Pio X à frente  da Igreja. E fiz a minha formação religiosa envolto naquela atmosfera sacrossanta, a qual conduzia os fiéis a um respeito, uma confiança e uma admiração indizíveis por toda a sagrada hierarquia eclesiástica. E não apenas pelo que essa hierarquia tem de fundamental e organizado por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo portanto, algo de suma perfeição como também pelos homens investidos nesses cargos, pois nos pareciam santos como era santa a missão deles, e como era santo o Papa Pio X.

Assim, no meu espírito, como no de incontáveis católicos, os padres, os religiosos, as freiras, os bispos, e daí para cima até o Soberano Pontífice, todos se nos afiguravam de uma venerabilidade sem nome, dignos do nosso maior acatamento e inteira dedicação.

Um remédio corriqueiro… e misterioso

Ao longo de onze anos viveu a Igreja sob essa firme, paternal e abençoada proteção de São Pio X. Em agosto de 1914, após o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando aliás, amigo do santo Pontífice -, arrebentou a Primeira Guerra Mundial.

O Papa, que antevira o terrível conflito e suas trágicas conseqüências para os povos nele envolvidos, via redobrarem suas responsabilidades de pastor e guia das almas, aumentando-lhe o já pesado fardo que trazia sobre os ombros. Contudo, a despeito das graves e constantes preocupações, da grande amargura que lhe causavam os horrores da Guerra, seu estado físico não inspirava maiores cuidados. Animava-o o mesmo vigor e o zelo de sempre, até a noite de 18 de agosto, quando, depois de encerrados os compromissos do dia, despediu-se de seus assistentes e se recolheu aos aposentos pontifícios. Antes de se deitar, tomou um remédio corriqueiro que os médicos lhe haviam receitado para uma ligeira indisposição catarral. Nada de maior importância, afirmaram eles. Segundo estes, tratava-se de um incômodo trivial, motivado pela temperatura excessivamente alta daquele verão de 1914.

Na manhã seguinte, porém, o Cardeal Merry del Val é chamado às pressas ao Vaticano: o Papa despertara com muita febre, e seu estado de saúde agravara-se de modo alarmante. Assim que o secretário entrou no quarto de São Pio X, este o reconheceu, estreitou-lhe as mãos com força, e apenas lhe pôde dizer: “Eminência… Eminência!”. Passaram-se alguns minutos, e as últimas palavras que o Cardeal ouviu de seus lábios foram um ato de entrega nas mãos da Providência: “Resigno-me totalmente”, disse o santo Vigário de Cristo. Pouco depois ele perdia a capacidade de falar, embora permanecesse consciente e dirigisse àqueles que o circundavam seu olhar sempre vigilante e perscrutador.

Como piorou durante o dia, Papa recebeu o Viático e a Extrema-Unção com as menores formalidades possíveis, pois todos temiam um rápido desenlace. Ali estavam suas fiéis irmãs, chorando em silêncio, o secretário de todas as horas, e alguns de seus mais próximos auxiliares. Subitamente, ouviu-se o timbre do grande sino de São Pedro, que começava a dobrar pro Pontífice agonizante. A este sinal, foi exposto o Santíssimo Sacramento em todas as basílicas patriarcais de Roma, dando início às rogações especiais. Os graves acentos do bronze subiam aos céus, juntamente com as preces do povo fiel que, na praça do Vaticano, pedia a Deus por seu Pastor moribundo.

Algumas horas depois, na madrugada do dia 20 de agosto, São Pio X suavemente adormeceu no Senhor. Nas páginas de suas famosas Memórias, o Cardeal Merry del Val, deixa transparecer certa estranheza em relação a essa misteriosa morte. “Ninguém”, escreve ele, “pôde explicar ainda a brusca mudança que se produziu na saúde do Papa, durante aquela noite…”

A Igreja chorou a perda de seu “Anjo guardião”, que por ela velara com tanta diligência. Modelo de Pontífice e de varão católico, foi elevado às honras dos altares quarenta anos depois de partir para a eternidade.

20 de agosto – São Bernado – Alma de fogo, de sofrimento e de luta

São Bernado – Alma de fogo, de sofrimento e de luta

São Bernardo era um monge da Ordem religiosa cisterciense, uma rama dos beneditinos, reformada por ele e destinada a praticar uma austeridade maior do que a imposta pelas regras monásticas  ais duras de seu tempo. Ele tinha a convicção de que, por meio do sofrimento, o homem expia os próprios pecados e os dos outros.

oi uma alma de fogo, que queria de todos os modos evitar o paganismo o qual ia ressuscitando ignobilmente de dentro de sua própria sepultura, para dar no neopaganismo moderno: era a  Revolução nascente.

São Bernardo resolveu ser um homem de sofrimento e de luta, e recolheu-se no claustro, para onde chamou muitas almas generosas.

A Europa encheu-se de conventos cistercienses, cujos monges começaram a praticar uma regra que até hoje é o espanto e a admiração dos homens.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/9/1989)

20 de agosto – São Bernardo – Venerado sobre os ombros do Imperador

São Bernardo – Venerado sobre os ombros do Imperador

São Bernardo é um dos sóis da Igreja Católica e da devoção mariana. É o “Doctor Mellifluus” – Doutor Melífluo – que como ninguém elogiou a bondade e a misericórdia de Nossa Senhora. Ele é, por excelência, o homem da penitência e da mortificação, como também da polêmica com os adversários da Igreja do seu tempo.

Este Santo Abade de Claraval era, ao mesmo tempo, um homem dulcíssimo e uma tocha ardente. Ninguém sabia falar da Santíssima Virgem com tanta unção quanto ele. De outro lado, era um polemista tremendo que alcançou sucessos extraordinários.

Certa vez, estando na Alemanha, São Bernardo entrou numa cidade onde se encontrava também o Imperador do Sacro Império Romano Alemão, o mais alto dignatário temporal da Cristandade. A fama de santidade do Abade cisterciense era tal que todo o povo foi correndo de encontro a ele. E São Bernardo teria sido esmagado pela multidão se o próprio Imperador não o tivesse tomado nos braços e feito montar sobre seus ombros. Desta maneira, foi ele um Santo que se apresentou à veneração pública montado num imperador! Glória extraordinária para uma época que possuía, muito mais do que outras, o sentido do valor simbólico dessas coisas.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/4/1971)

20 de agosto – São Bernado

São Bernado

O aparecimento de São Bernardo na história foi como um esplendoroso nascer de sol. Ele é um dos sóis da Ordem Beneditina, é um dos sóis da Igreja Católica, é um dos sóis de toda a devoção mariana.

É, por excelência, o homem da penitência e da mortificação. Homem que se transformou numa tocha ardente, numa chama de fogo deambulando pela Cristandade, purificando todas as  coisas pela sua eloquência e seu espírito repassado de indomável fervor. Homem da polêmica, que enfrentou e venceu em luta estrênua os maiores adversários do catolicismo no seu tempo.

Ao mesmo tempo, é o varão dulcíssimo, o “Doctor Melifluus” — Doutor com palavras doces como o mel  — , que soube como ninguém louvar a bondade e a misericórdia insondáveis de Nossa Senhora. D’Ela falou com tanta unção e arrebatamento, que pode ser considerado o literato, o poeta de Maria Santíssima na Igreja do Ocidente.

Plinio Corrêa de Oliveira

19 de agosto – São João Eudes: Combate à tibieza e à heresia

São João Eudes: Combate à tibieza e à heresia

Para evitar as tragédias e as apostasias causadas pela Revolução Francesa, Deus suscitou grandes santos, como São João Eudes que difundiu com ardor a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria e fustigou energicamente os vícios e os erros doutrinários de seu tempo. Não se intimidou inclusive diante de Luís XIV, ao censurar os costumes da corte, em Versailles.

Ao tratarmos de São João Eudes, convém tomar em consideração que a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e Maria suscitou, nos séculos XVII e XVIII, toda espécie de movimentos destinados a evitar a Revolução Francesa. No século XIX, e durante uma parte do XX, foi também a devoção própria de to-dos os contrarrevolucionários.

É preciso notar que essa devoção, tão combatida pelos jansenistas, é de uma substância teológica extraordinária, muito recomendada pelos documentos pontifícios e por vários santos.

Grandes praças públicas se enchiam para ouvir suas prédicas

São João Eudes nasceu em Ery, pequena cidade da Normandia, a 14 de novembro de 1601. Era o filho mais velho do casal Isac Eudes e Maria Ruber. Depois dele, seus pais tiveram mais quatro filhas e dois filhos. Família profundamente religiosa, cresceram todos num ambiente sério, impregnado de vida sobrenatural. Receberam excelente educação, orientada pelos ensinamentos da Igreja.

Em 1615, sendo educado pelos jesuítas de Caen, fez voto de virgindade, doou-se a Maria e votou-Lhe, desde então, um culto fervoroso. Da Universidade de Caen entrou na Congregação do Oratório, fundada por Bérulle, onde permaneceu durante vinte anos.

Bérulle quisera restabelecer entre o clero a doutrina e a santidade, mas não havia pensado em seminários, e foi para instituí-los que São João Eudes, em 1643, deixou o Oratório e fundou a Congregação de Jesus e Maria; e com seus cinco companheiros padres abriu o primeiro seminário de Caen, logo seguido de muitos outros.

Para reconduzir os pecadores à vida cristã, fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade e, para evangelizar as almas desamparadas, fez-se missionário durante longos anos, pregando nos campos abandonados, nas cidades e até na corte, com uma liberdade e uma eloquência que tinham como suporte a sua eminente santidade.

Pai, apóstolo e doutor da devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, quando morreu já tinha conseguido a introdução dessa festa em um grande número de dioceses, não só da França, como de outros países. Foi ele também que compôs o seu primeiro ofício. Grande pregador, nas suas missões atraía multidões. E, muitas vezes, era obrigado a falar em grandes praças públicas completamente tomadas pelo povo. Novo São Vicente Ferrer, conquistava os ouvintes pelo ardor de sua fé, pela energia com que fustigava os vícios e pela caridade com que tratava os arrependidos e penitentes.

Existe um testemunho histórico de grande valor que comprova o seu êxito. É uma carta de São Vicente de Paula, comentando as missões que assistira. Diz ela:

“Alguns sacerdotes da Normandia, conduzidos pelo Padre Eudes, pregaram uma missão em Paris com uma bênção extraordinária. O pátio dos Quinze Ventos é muito grande, porém tornou-se pequeno, dado o grande número de pessoas que desejavam ouvi-lo.”

O Bispo pró jansenista, Ana d’Áustria e Luís XIV

Os hereges não lhe perdoavam o combate enérgico que movia contra os seus erros. Sendo a heresia o maior dos males, ele não compreendia ter, com os seus adeptos, nem a mais leve aparência de relações, chegando mesmo a não cumprimentá-los.

Conta-se um fato que, de um lado mostra o cuidado com que guardava a pureza de sua Fé, e de outro, a frivolidade, a prepotência dos eclesiásticos de então.

Um dia, o Bispo de Bayeux convidou-o a subir em sua carruagem na qual já se encontrava outro sacerdote. Quando ela se pôs em movimento, o bispo lhe perguntou se sabia com quem viajava.

Sendo um grande orador e um santo muito fogoso, ele fundou uma Congregação para ver se, com o prestígio de uma Ordem religiosa nova, essa devoção pegava na França.

Santos de fogo

Na vida de São João Eudes há uma coincidência entre a obra jurídica e a obra espiritual, que é muito bonito assinalar. Ele viveu num país católico, como era a França, e sua tarefa não foi a de combater os inimigos expressos e extrínsecos da Igreja. Ele estava num país corroído por uma profunda crise religiosa da qual haveria de nascer, afinal, a Revolução Francesa.

Essa crise religiosa provinha do fato de que o fervor tinha decaído inteiramente, o senso católico estava muito baixo. Para evitar as tragédias e, sobretudo, as apostasias provocadas pela Revolução, a Providência suscitava grandes almas que, de várias maneiras, procuravam reacender o fervor na França.

Todos os santos dos séculos XVII e XVIII foram santos de fogo. Não foram tanto grandes teólogos quanto santos que tomavam por intenção contaminar, com o amor de Deus, essa mecha que ainda fumegava, mas na qual havia apenas um fogo em estado de brasa e não mais em estado de chama.

Vemos, então, entre outros, São Vicente de Paula, que era um homem de um amor de Deus irradiante; São Francisco de Sales, que exercia uma penetração profunda de amor de Deus nas camadas da alta sociedade. Para essa obra de combustão de amor de Deus, de acender de caridade, encontramos, sobretudo, duas obras fundamentais: a de São Luís Grignion de Montfort, no século XVIII, na Vendeia e na Bretanha, da qual nasceu de-pois a Chouannerie; e a de São João Eudes, que devemos analisar mais especialmente hoje.

Quem lê as revelações de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque, nota que elas tiveram como intenção expressa enunciar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, dizendo que essa devoção, especificamente considerada, tinha um dom de tirar os tíbios de sua tibieza, de acender o amor de Deus nas almas frias. É a finalidade específica dessa devoção.

Quando se toma um tíbio, um homem que está mais amando suas coisas pessoais do que as de Deus, a devoção indicada para acender nele o amor de Deus desfalecente é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e naturalmente também ao Imaculado Coração de Maria. 

Luís XIV recusou acolher o pedido de Nosso Senhor

Santa Margarida Maria, portanto, recebeu essa devoção, mas era uma freira visitandina reclusa e não podia sair do convento. Ela não tinha como missão difundir essa devoção, mas sim registrá-la, praticá-la, e com isso ser canonizada o que significaria uma espécie de aprovação dessa nova devoção. Ela possuía como missão fazer conhecer essa devoção aos homens que poderiam difundi-la. Entre outros, Luís XIV.

Ela mandou pedir a Luís XIV que fizesse uma alteração na bandeira da França, incluindo a figura do Sagrado Coração de Jesus, e realizasse a consagração desse país ao Sagrado Coração de Jesus. Luís XIV recusou- se a isso. Como resultado dessa recusa, no que diz respeito ao poder real, foi água abaixo a monarquia francesa.

Luís XVI, na prisão do Templo, fez essa consagração e prometeu que, se fosse salvo dos perigos da morte que já o circundavam, ele a realizaria de modo solene. Mas já era tarde! Ele ainda tinha o poder de direito, porém não mais o de fato. E a França estava em tais condições que essa consagração não podia mais ser considerada um ato nacional — como o seria se feita por Luís XIV —, mas era o ato de um rei desacompanhado da população, que estava naquelas convulsões da Revolução e não podia acompanhar esse ato.

Além do rei, Santa Margarida Maria quis também fazer chegar essa devoção a missionários. E assim, espalhando-se nos círculos piedosos, tal devoção tocou São João Eudes que chamou sobre si a tarefa de difundi-la.

Um profeta não atendido que combateu tenazmente contra a tibieza

Sendo um grande orador e um santo muito fogoso, ele fundou uma Congregação para ver se, com o prestígio de uma Ordem religiosa nova, essa devoção pegava na França. E aí nós vemos uma outra recusa, já não do rei, mas do povo francês, pecador solidariamente com o monarca. A devoção impressionou pouco.

Os escritos de São João Eudes foram muito aproveitados para a generalização que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus teve, no século XIX. Mas no século XVIII não pegou.

Temos, então, um grande santo o qual é uma espécie de profeta não atendido, e que empregou todas as suas forças no campo espiritual para combater a tibieza francesa, por meio dessa devoção.

Com esse objetivo, São João Eudes utilizou dois métodos: um de caráter espiritual, fundando uma Congregação destinada a difundir tal devoção; outro de cunho jurídico, erigindo um tipo de organização de ensino, os seminários, já existentes em tese, mas ainda não de fato na França, e que ele constituiu dando-lhes as características atuais.

Os seminários eram destinados a tirar os seminaristas das respectivas famílias e educá-los num ambiente fervoroso, de maneira tal que, quando eles fossem padres, tivessem verdadeiro entusiasmo, verdadeira consagração à sua vocação e não ficassem presos às coisas do mundo. Os seminários constituíram um elemento realmente admirável para a formação do clero, e uma das grandes alavancas para a restauração religiosa da Europa, no século XIX.

Repulsa ao herege e respeito à autoridade eclesiástica

Eu gostaria de lembrar três aspectos mencionados por essa ficha biográfica de São João Eudes: a presença do herege na carruagem, o mal-estar do santo com esta presença e a atitude do bispo. Vê-se que o bispo, pregando ao santo aquela cilada, não era inimigo dos jansenistas. Para ter um jansenista viajando com ele, evidentemente é porque não sentia esse mal-estar.

O bispo tratava São João Eudes com a atitude com a qual a impiedade trata quem é verdadeiramente piedoso, ou seja, divertindo-se durante a viagem com o mal-estar de São João Eudes, pela vizinhança daquele herege. Enquanto o prelado, naturalmente, bancava que se encontrava com muito bem-estar com o herege, São João Eudes manifestava uma espécie de repulsa, de horror, de aversão, como se houvesse uma possibilidade de contágio. E o bispo, então, caçoando do santo, divertia-se com o fato. É a velha atitude do ímpio em relação ao piedoso que se recata e, por isso, defende-se contra coisas dessas, e é tido como imaginoso, fantasioso, medroso, homem sem coragem, sem decisão.

E, por se tratar de um bispo, São João Eudes, que era um homem tão enérgico, não queria tomar a atitude enérgica que adotara com Luís XIV. Nota-se o grande respeito de São João Eudes pela autoridade do bispo. Porque, quem era capaz de dizer ao maior rei da Terra o que ele afirmou, evidentemente teria facilidade também de dizer para o bispo. Não lhe faltava personalidade nem coragem.

Mas, uma é a autoridade eclesiástica, outra é a autoridade civil. E sempre que se pode tomar uma atitude submissa em relação à autoridade eclesiástica, a melhor via é a da submissão. De maneira que, diante da má atitude do bispo e do outro jansenista, a posição de São João Eudes nos mostra bem qual é o amor que o católico deve ter à obediência, sempre que, em consciência, lhe seja possível manter essa obediência. E, de outro lado, em que alta conta se deve ter a autoridade eclesiástica.

Pecados que preparavam as monstruosidades de hoje

O episódio com Ana d’Áustria mereceria ser narrado depois do fato ocorrido com Luís XIV.

Não pensem que a atitude dele elogiando Luís XIV, como vem narrada na ficha, não ia sem uma censura ao rei, porque era óbvio que Luís XIV sabia o que estava se passando ali, pois eram esses os costumes da corte precedida pelo monarca.

Havia, portanto, ao lado do modo cortês de começar por elogiar o rei, uma verdadeira censura. E, de fato, o mal que podia ser ali removido, de tal forma dependia do soberano, que bastou o rei olhar para os fidalgos que todos se ajoelharam.

Mas não é este o único fato da vida de Luís XIV em que ele ouviu — humildemente, como filho da Igreja — uma porção de verdades do alto do púlpito. Ele era, sem dúvida, um pecador público e prestou à Igreja, ao lado de alguns serviços, alguns desserviços insignes. Mas a profundidade e o modo de ser do pecado — e até do pecado grave — nas almas daquele tempo, não era a profundidade nem o modo de ser do pecado nas almas de hoje em dia.

Se considerarmos pecadores daquela época, às vezes de má vida, encontraremos neles restos de moralidade, de piedade, de fé, de humildade que, no pecador de hoje, absolutamente não se encontram.

Isso indica bem que naqueles tempos, em que se preparavam as monstruosidades de hoje, havia ainda muita seiva, muita possibilidade de resistência, a qual só não foi levada a cabo inteiramente por um conjunto de circunstâncias históricas, que não vem ao caso narrar no momento. Mas era, em todo caso, uma época muito mais católica do que a nossa.

Característico também é o caso com Ana d’Áustria, mãe de Luís XIV. Ela era uma soberana que, embora tivesse um oratório em seu palácio, absolutamente não se distinguia por uma piedade saliente nem deu uma educação muito piedosa a seus filhos. Entretanto, quando toma conhecimento de que São João Eudes falou fortemente na corte contra a imoralidade, ela o apoia e manda dizer-lhe que gostou. Ela mesma tinha como seu conselheiro São Vicente de Paula.

É uma atitude completamente diferente do afastamento sistemático de todo contrarrevolucionário, de todo aquele que reage e procura ser séria e sinceramente católico, nos dias de hoje.

Quer dizer, não havia o boicote completo do católico verdadeiro, como existe atualmente. O que indica, exatamente, que o vício, o erro, o mal ainda estavam num estado de debilidade, e não se permitiam as insolências, os despotismos que se permitem hoje.

Isso nos faz ver, com toda clareza, o tamanho de nossa decadência e acende em nós a esperança de um castigo, bem como de um auxílio de Nossa Senhora para nos tirar desta triste era histórica
na qual estamos.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 19/8/1965, 18/8/1966 e 19/8/1970)

19 de agosto – “Vi, decidi e entrei!”

"Vi, decidi e entrei!”

Analisem a fisionomia do Santo Ezequiel Moreno Díaz. É um rosto inteiramente distendido, sem a menor contração. Porém, não é a distensão comum do homem que dorme. Há algo  nesse modo de estar distendido que corresponde àquela espécie de distensão que os irresolutos não possuem. Estes têm a distensão da moleza.

Nele vemos a distensão das grandes resoluções tomadas, do homem que resolveu tudo e entrou rijo no caminho por onde tinha de entrar e disse: “Eu vi, decidi e entrei. Agora vamos até o fim!”

As dúvidas ficaram para trás e todos os sacrifícios que esse caminho trouxesse consigo, de algum modo ele os mediu, aceitou e pediu a Nossa Senhora que o ajudasse a não recuar.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/11/1980)

19 de agosto – O Bem-aventurado da grande resolução

O Bem-aventurado da grande resolução

Por meio de seus Santos, Deus faz brilhar de mil maneiras a fortaleza católica. Em Santo Ezequiel Moreno y Díaz essa virtude reluz de modo enlevante, por sua vontade resoluta em cumprir a vontade divina, disposto aos maiores sacrifícios.

Mandaram-me um quadro de um Bem-aventurado colombiano, famoso por seu antiliberalismo, Ezequiel Moreno y Díaz1. Sua fisionomia me agrada muito.

Batalhador destemido contra o liberalismo

A expressão fisionômica é digna, forte, nobre, dentro de uma grande serenidade. Nota-se uma determinação e uma resolução que não precisa de fogachos para se firmar. Ele é calmo, tranquilo, mas o que ele resolveu, resolveu.

Parece-me uma fisionomia que, a seu modo, pode emular, ser colocada à altura do semblante de Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Olinda e Recife no tempo do Império. Com a diferença de que o Beato Ezequiel é espanhol, o que se percebe considerando algo no rosto que dá essa ideia. Dom Vital é tipicamente brasileiro, inclusive a vivacidade no olhar é do estilo de vivacidade brasileira.

Fizeram-me um pequeno relato sobre esse Bem-aventurado, que passo a ler.

O Bem-aventurado Ezequiel Moreno y Díaz foi Bispo da cidade de Pasto, que faz fronteira com o Equador, onde está o Santuário de Nossa Senhora de Las Lajas, grande devoto d’Ela e importante promotor da construção do atual santuário.

Um dado que chama especialmente a atenção é seu combate ao liberalismo que nessa época – fins do século XIX –, tanto na Colômbia quanto no Equador, estava atacando fortemente a Igreja, desapropriando os bens eclesiásticos e perseguindo o clero.

Ele levou a luta contra o liberalismo ao ponto de escrever pastorais, nas quais chamava os católicos a se levantarem em armas contra o liberalismo, inclusive citando-lhes o exemplo dos Macabeus: Mais vale morrer do que viver numa terra devastada e sem honra (cf. I Mac 3, 59).

A prédica desse prelado deu calor aos católicos especialmente durante uma guerra havida na Colômbia entre exércitos católicos e liberais, que se desenrolou ao longo de três anos, intitulada a “Guerra dos Mil Dias”.

Outro traço da firmeza deste Bem-aventurado foi o fato de ele ter lançado uma excomunhão contra todos os pais de família que enviassem os seus filhos a um colégio, cujo diretor era uma pessoa de doutrinas liberais. O tal diretor se transladou para o outro lado da fronteira e, com a anuência de um bispo equatoriano de ideologia liberal, começou a funcionar ali uma escola.

Alguns pais colombianos mandaram seus filhos a esse colégio do Equador. Então, o Beato Ezequiel renovou a excomunhão, o que levou o bispo equatoriano a se queixar junto à Santa Sé. Resultado: a Sagrada Congregação dos Bispos desautorou o Bem-aventurado. Este foi a Roma – viagem que naquela época durava vários meses –, fez revisar todos os documentos no Vaticano e obteve que Leão XIII levantasse a condenação que havia recebido.

A correia de São Tomé, característica dos agostinianos

Isso é saber lutar bem! Notem a analogia com Dom Vital que, desautorado por uma carta de Pio IX, inspirada pelo Cardeal Antonelli, foi a Roma, obteve o julgamento do caso dele e a afirmação de Pio IX de que ele tinha andado bem. Portanto, a intriga havia subido até dentro do Vaticano.

Passo a comentar o quadro. Estamos na presença de um religioso da Ordem de Santo Agostinho. Notam-se as insígnias episcopais: o solidéu roxo, a cruz peitoral e o anel pastoral. Em seu hábito ele traz a correia característica dos agostinianos, a qual, segundo me disseram, é uma reminiscência do cinto que Nossa Senhora levava consigo e que atirou a São Tomé, enquanto Ela subia ao Céu.

Como sabemos, São Tomé foi o único Apóstolo que não assistiu à dormição e Assunção da Santíssima Virgem, no que se poderia ver uma severidade por causa daquela dúvida dele a respeito da Ressurreição de Nosso Senhor. E o que Nosso Senhor disse a ele: “Tu creste, Tomé, porque Me viste; bem-aventurados os que não viram e creram.” (Jo 20, 29); é uma censura. Santo Agostinho diz sobre essa censura uma coisa extraordinária: que a Fé de milhões de homens pelo futuro pendeu do dedo de São Tomé, porque como há muita gente com a mentalidade que São Tomé tinha antes de tocar nas Chagas de Jesus, essas pessoas se sentem tranquilizadas com tal narração.

Mais uma vez entram os desígnios ocultos, misteriosos e superiores da Providência. Em última análise, São Tomé teve um momento de dúvida, mas desta dúvida a Providência tirou uma vantagem tão grande que nos perguntamos como Ela Se teria arranjado para produzir esse efeito, se São Tomé não tivesse duvidado. Tal é a complexidade dos fatos considerados do ponto de vista da Providência.

São Tomé chegou atrasado, quando Nossa Senhora já ia subindo, e ficou naquele encantamento por vê-La. Ela sorriu, desprendeu de Si o cinto e atirou para ele. Onde, uma vez mais, entram os tais desígnios da Providência. O único Apóstolo que não esteve presente foi ele; entretanto, pelo que conste, o único a receber uma lembrança d’Ela, quando já Se destacava da vida terrena e ia subindo ao Céu, foi ele. Tem-se vontade de dizer: “Bem-aventurado Tomé!”

Distensão das grandes resoluções tomadas

Mas voltando ao quadro, o olhar do Bem-aventurado Ezequiel Moreno está fitando alto no horizonte. Esta atitude do olhar, uma pessoa romântica não tem. Porque ele está olhando para um ponto fixo, e o romântico não gosta de olhar nada de fixo, é um olhar “melado” que não se crava em nada porque fita sonhos interiores.

O rosto dele está inteiramente distendido, não se nota nele a menor contração. Entretanto, não é a distensão comum do homem que dorme, mas é aquela forma de distensão que os irresolutos não têm. Estes possuem a distensão da moleza, parecem carnudos ainda que sejam magros. Aqui ele tem a distensão das grandes resoluções tomadas, do homem que resolveu tudo, entrou rijo no caminho por onde tinha que entrar e disse: “Vi, decidi e entrei! Haja o que houver, venha o que vier e custe o que custar, eu resolvi, aquilo eu faço!”

Alguém poderia me perguntar: “Como o senhor nota isso?”

Como notaria numa fisionomia viva. Quando o homem tomou uma grande resolução, algo fica marcado no rosto, onde a musculatura é definida e rija, mas ao mesmo tempo distendida, porque as dúvidas ficaram para trás e todos os sacrifícios que esse caminho traga consigo, vê-se que de algum modo ele os mediu, aceitou e pede a Nossa Senhora que o ajude a não recuar.

Resolução absoluta do Redentor e de sua Mãe Santíssima durante a Paixão

Creio que o modelo transcendental e infinito dessa resolução deveria estampar-se na face de Nosso Senhor depois que o Anjo O consolou, considerando etimologicamente o termo, ou seja, deu-Lhe força. No Horto das Oliveiras Ele pediu: “Meu Pai, se for possível afaste-se de Mim este cálice, mas faça-se a tua vontade e não a minha” (Mt 26, 39). Veio o Anjo e O fortaleceu (cf. Lc 22, 43). Ele que nunca estivera irresoluto, entretanto estava com toda a natureza humana d’Ele posta diante da previsão terrível da Paixão, mas com a determinação: “Deus Me ajuda, Eu aguento, agora vou.”

Podemos notar essa resolução de um modo divino no Santo Sudário. Uma das notas que a Sagrada Face dá é precisamente de uma resolução absoluta: ela está machucada, cuspida, nota-se que o nariz sofreu uma pancada. Nosso Senhor morreu no auge de todas as dores, mas Ele deliberou resgatar o gênero humano e resgatou.

Algo disso se deveria notar também em Nossa Senhora, no momento e depois do consummatum est: “Eu resolvi, Ele é meu Filho, Eu O ofereci ao Padre Eterno para isto. Aconteceu que meu oferecimento foi aceito e Ele morreu. Era o que Eu queria. Vamos para a frente!” É indizível isso, mas é assim. Esta é uma das razões pelas quais, sem ter nem de longe o atrevimento de negar o valor artístico da Pietà de Michelangelo, nego o valor religioso. A Pietà é um conjunto lindo; entretanto, o jeito de Nossa Senhora olhar para Ele não é aquela compaixão de quem contempla o fruto doloroso de sua própria resolução. Há qualquer coisa de mole, que não corresponde a quem acaba de beber a derradeira gota de fel e ver a última consequência da resolução tomada: “É terrível, é trágico, porém é o que Eu queria!” Compaixão é ter dor, sem dúvida, mas é participar da intenção sacrifical d’Ele.

Diversidades de brilho da graça nas almas dos Santos

Na fisionomia do Beato Ezequiel Moreno y Díaz notamos algo que eu poderia dizer que está à altura de alguém que adorou e se embebeu profundamente do consummatum est. Vê-se que ele está para além dos sacrifícios, das resoluções e das dúvidas. A atitude dele é de como quem diz: “Já sofri muito e talvez tenha muito por padecer, mas resolvi sofrer isso para atender à vontade de Deus. Nossa Senhora obteve d’Ele esta força, e eu sigo até o fim.”

Percebe-se isso na postura do corpo. A cabeça não está nem um pouco numa atitude de galo de briga; é uma posição normal, mas alta, não tem nada de cabeça “heresia branca”2, de nenhum modo. O corpo não está arqueado nem é preguiçoso, mas tem qualquer coisa de quem diz: “Não estou sequer fazendo força, porque todas as forças foram feitas. Está tudo consumado, chegarei até o fim.”

Ele poderia se chamar “o Bem-aventurado da grande resolução”.

É bonito compararmos um Santo com outro, não para saber qual é o maior, mas para ver as diversidades de brilho da graça conforme a alma. Considerem este Santo em face de seus adversários. A atitude dele é: “Eu vos combato, mas estou muito além de vós! Meus olhos pousam em outros horizontes e minha alma ama outras grandezas.”

Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, o Bispo de Olinda e Recife, é diferente. Ele olha para o adversário como quem diz: “Atrevido, que ousaste levantar-te contra o Senhor Deus dos Exércitos e contra a Imaculada Conceição de Maria. Eu te enfrento! Estou te combatendo e tenho o gáudio de estar te derrotando.”

O Beato Ezequiel polemiza, mas paira acima das polêmicas. Dom Vital não. Ele entra na polêmica como um tufão que leva tudo consigo. É outro modo de ser.

A Igreja se exprime assim, e ainda de muitos outros modos. Por exemplo, a face triste, inabalável, resoluta e angelical de São Pio X; a fisionomia batalhadora, desconfiada, férrea e dulcíssima de Santa Bernadete Soubirous. E assim poderíamos ir comparando as mil maneiras de brilhar a fortaleza católica. A do Bem-aventurado Ezequiel Moreno y Díaz é uma maneira altamente enlevante.    

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/11/1980)
Revista Dr Plinio 257 (Agosto de 2019)

1) Canonizado em 11/10/1992.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na arte e na cultura em geral. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

18 de agosto – Santa Helena

Santa Helena

Santa Helena, Imperatriz e mãe de Constantino Magno, foi o grande tipo de mulher que vive só para Nosso Senhor Jesus Cristo.

Matrona de alma elevada, de horizonte largo, compreendendo as coisas a partir dos seus aspectos mais sublimes, e que, com sua extraordinária influência, contribuiu para transformar um Império pagão em ordem temporal católica. Acima de tudo, foi a santa que encontrou e deu ao mundo um presente imensamente grandioso: a verdadeira Cruz de Cristo.

Plinio Corrêa de Oliveira

18 de agosto – Santa Helena, Imperatriz

Santa Helena, Imperatriz

Para Dr. Plinio, não se pode deixar de reconhecer “com muita alegria” o trabalho realizado pela Imperatriz Santa Helena, cuja boa presença junto a seu filho, o Imperador Constantino, não só o converteu como o fez conceder a liberdade à Santa Igreja Católica. E além de estar na origem da irradiação do cristianismo, a partir de Roma, por todo o Ocidente, devemos a Santa Helena esse inestimável presente: a descoberta da verdadeira Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Celebra-se no dia 18 de agosto a festa de Santa Helena, Imperatriz e viúva, mãe de Constantino Magno. A ela se deve a invenção, isto é, a descoberta da verdadeira Cruz na qual Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.

Benéfica e salutar influência materna

Em vez de considerar este ou aquele aspecto da vida de Santa Helena, gostaria de ressaltar a impressão que o todo de sua personalidade nos comunica. Nesse sentido, eu diria que se trata de uma santa cuja importância para o panorama da Igreja redunda, não apenas do fato de ter sido imperatriz, mas também porque teve sobre Constantino uma evidente e salutar influência.

Quer dizer, temos Constantino, o primeiro imperador que faz uma promessa de dar livre curso ao culto católico no Ocidente, caso se visse auxiliado por Nosso Senhor Jesus Cristo na batalha de Ponte Mílvia. Ele recebe a célebre visão do “in hoc signo vinces” — “com este sinal vencereis” —, portanto uma confirmação do socorro divino, conquista a vitória e cumpre sua promessa. Com o Edito de Milão ele concede liberdade à Igreja Católica, e a partir daí começaria a ruir o paganismo sobre o qual o estado se assentava.

Diante desse acontecimento de fundamental importância para a Cristandade, não se pode deixar de reconhecer a materna e católica influência de Santa Helena sobre o filho. Quando nos lembramos de Santa Mônica rezando por Santo Agostinho e obtendo do Céu a conversão dele, ou quando recordamos o papel de Santa Clotilde junto a seu esposo, Clóvis, trazendo-o igualmente para o seio da Igreja Católica e, com ele, o povo franco, é difícil não pensar que Santa Helena impressionou a fundo Constantino, e que a atitude dele foi motivada, em grande medida, pela ascendência da mãe.

Na raiz da ordem social e temporal católica

Ora, se, católicos que somos, desejamos de toda a alma uma restauração da ordem social e temporal católica como a que vigorou nos dias áureos da Civilização Cristã, não podemos deixar de reconhecer, com muita alegria, o trabalho feito por Santa Helena com esse objetivo: não só fazer cessar as perseguições à Igreja no império romano pagão, mas também fazer com que o imperador começasse a edificar uma ordem temporal católica, prólogo da plenitude de catolicidade que alcançaria o Estado medieval.

Início este, diga-se, por vários lados verdadeiramente glorioso. Pela liberdade franqueada à Igreja, pelo fim dos cultos pagãos, e por esse ideal de unidade social católica que desabrocharia nos esplendores da Cristandade européia, os quais perdurariam ao longo de séculos.

Portanto, pela sua oração, pelo exemplo de suas virtudes, Santa Helena esteve na raiz de uma série de realizações gloriosas, de idéias grandiosas, de princípios que repercutiriam mesmo após o ocaso do Sacro Império Romano Alemão, até os nossos dias. Razão pela qual nos é particularmente cara a devoção a essa grande santa.

Oração que conduz à ação eficaz

Chamo a atenção para esse ponto acima mencionado: as orações de Santa Helena. É necessário compreender aqui o equilibrado do papel dessa oração.

Com efeito, seria equivocado imaginar que, uma vez recitadas as preces, não adianta fazer coisa alguma. Basta rezar e deixar as realizações concretas ao beneplácito da Providência. Às vezes, quando as vicissitudes o impõem, não se pode pretender outra coisa. Porém, é apropriado esperar que a oração nos mova à ação que realiza o fim almejado. E desse teor foram as preces de Santa Helena.

Enquanto a mãe rezava, o filho lutava e agia. Constantino, protegido pelo socorro do céu, levando no seu lábaro o emblema de Nosso Senhor Jesus Cristo, combateu e alcançou a vitória. Em seguida, agiu vigorosamente, com a força temporal do Estado, para libertar a Igreja e extinguir os restos do paganismo.

Creio ver nessa circunstância o equilíbrio perfeito entre oração e ação. Santa Helena reza, e sua oração é acompanhada certamente de atitudes e palavras evangelizadoras junto ao filho, e este cuida dos meios materiais para concretizar aquilo que, sem dúvida, sua mãe desejava realizar. A oração é a razão mais fecunda do desencadear dos fatos; os fatos produzem os frutos da prece atendida.

Aquela que tirou das entranhas da terra o Santo Lenho

Cumpre considerar, ainda, este outro e não menos belo florão na vida de Santa Helena: foi ela que encontrou a verdadeira Cruz, um acontecimento cercado de milagres e dádivas especiais de Deus.

É o Santo Lenho do qual se espalharam relíquias para serem veneradas pelos fiéis do mundo inteiro.

Que glória para essa mulher ter sido, ao mesmo tempo, a mãe do primeiro imperador cristão e aquela que tirou das entranhas da terra a verdadeira Cruz, com todos os benefícios espirituais oriundos dessa descoberta!

Então admiramos ainda mais o vulto dessa Santa, conhecemos melhor a estatura dessa alma, um grande tipo de mulher que vive só para Nosso Senhor. Matrona de espírito elevado e de horizonte largo, compreendendo as coisas a partir dos seus aspectos mais sublimes e de maior alcance. E que, por causa dessa envergadura espiritual, transforma um Império e dá ao mundo o presente imensamente grandioso da verdadeira Cruz de Cristo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 18/8/1964)