24 de maio – Nossa Senhora Auxiliadora

Nossa Senhora Auxiliadora

Nossa Senhora é a Auxiliadora por excelência. É quem acode a todos, de todos os modos, em todas as circunstâncias e em todos os lugares. Para agir com tal largueza, só Alguém de uma riqueza fabulosa, e de uma bondade ainda mais extraordinária que essa riqueza, jamais se cansando de ajudar e de perdoar.

E o perdão é um dos seus dons imensamente preciosos, de tal modo que, depois de haver perdoado  muito, Ela ainda tem um sorriso de piedade para quem A ofendeu, quando este A invoca e suplica misericórdia.

Mais. Ela vem em auxilio da alma que não pede, da alma que não vê, da alma que não quer, e a socorre, a bem dizer, pelas costas, alcançando-lhe uma graça que a faz se sentir tocada de amor, de reverência, de gratidão, de força para  rogar novos auxílios. Sua maternal solicitude é uma espécie de roldana que leva até o Céu…

24 de maio – Auxílio dos pequeninos

Auxílio dos pequeninos

Nossa Senhora Auxiliadora Se apresenta a nós com o Menino Jesus no braço para indicar a relação materna que Ela tem com o Divino Infante. Relação de intimidade absoluta, com a disposição de atender as últimas e menores dificuldades de uma criança, com aquele afeto, aquela bondade que se tem para com o pequenino e o fraco.

Maria Santíssima é também a Mãe do Corpo Místico de Cristo e, portanto, de todos os cristãos. Em relação a cada um de nós, a posição d’Ela é de querer que sejamos como o filho carregado no colo a quem Ela dá muito mais do que pede, e até mesmo o que ele não sabe pedir.

Mas a condição para receber é pedir com essa intimidade e a certeza de ser atendido, como uma criança de colo. A esse título, Ela nos auxilia com aquela multidão de auxílios dados aos pequenos.

O maior dos auxílios que Nossa Senhora pode nos conceder é nos comunicar seu espírito de santidade, sua autenticidade de virtudes, sua força e a vitória contra o demônio.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/5/1966)

24 de maio – Invencível esperança na misericórdia de Maria

Invencível esperança na misericórdia de Maria

Evocando o momento em que, pela primeira vez, sentiu-se amparado pela misericórdia de Nossa Senhora, Dr. Plinio nos convida a nutrirmos uma ilimitada e constante confiança na bondade de Maria Santíssima, “em todas as ocasiões, em todas as circunstâncias e de todos os modos”.

Como já tive oportunidade de comentar, quando menino, estudando no Colégio São Luís, certa ocasião procedi mal. Eu atravessava, talvez, a pior época de minha vida, e estava descontente comigo mesmo. Ora, aconteceu-me de, por essa época, receber nota 6 em uma disciplina e, inconformado, no boletim escrevi sobre ela um “10”.

Julgava ser objeto de merecido castigo

Ao saber do fato, mamãe — sempre muito afetiva, mas também firme —, por mais que quisesse minha companhia, me disse:

— Se ficar provado que você não merecia a nota que escreveu, inabilmente, com seu próprio punho no boletim, mandarei você para o Caraça.

Tratava-se de um colégio muito bom de Minas Gerais, com regime de internato, mas cuja fama em São Paulo, por razões que ignoro, era a de uma penitenciária de crianças. Naturalmente, a ideia de ir para lá causava-me horror.

Afinal, verificou-se que um funcionário do colégio havia se enganado ao passar as notas no boletim, e que eu havia tirado 10, como constava no livro apropriado. Antes de se comprovar o fato, porém, passei por grande apuro. Como, a propósito de outras questões, eu também havia procedido mal, julguei-me objeto de merecido castigo.

Angustiado olhar para a imagem de Maria Auxiliadora

Sob o peso dessa apreensão, fui assistir à Missa dominical na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, grande edifício que, juntamente com o liceu dos salesianos, ocupa um quarteirão inteiro. Por coincidência, realizava-se naquela hora a celebração dedicada aos estudantes do liceu. Só estes enchiam o templo. Formados em fileiras, entoavam cânticos religiosos, e qualquer outra pessoa que estivesse ocupando algum lugar nos bancos devia ceder-lhe a eles. Foi o que aconteceu comigo. Tive de me deslocar para o fundo da igreja e, não encontrando espaço na nave central, fui para a lateral, à direita de quem olha para o altar, fazendo face à imagem de Nossa Senhora Auxiliadora.

Deu-se início à Missa. O contraste entre a situação daqueles meninos cantando, felizes, e meu apuro, era penoso. Em certo momento, olhei para a imagem e pedi a Nossa Senhora que me ajudasse. Pareceu-me, então, que os traços de seu rosto se moviam, e ela sorria para mim, afagava-me, como se dela partisse uma promessa de que tudo se arranjaria. Não se tratava de um milagre, mas de uma impressão.

“Pela primeira vez senti o sabor da Salve Rainha”

Durante esse fato eu rezava a Salve Rainha, prece conhecida por mim, mas que nunca me havia chamado especialmente a atenção. Não sabendo bem o latim, eu a recitava em português. Ora, no idioma latino, “salve” significa uma saudação. Contudo, eu entendia que tal palavra estivesse relacionada com “salvação”. Eu dizia, portanto, “Salve Rainha, Mãe de misericórdia”, no sentido de “Salvai-me Rainha”! Seja como for, naquela hora de aflição senti o sabor dessa oração pela primeira vez na vida.

Lembro-me de que ao dizer “Mãe de misericórdia”, eu pensava: “Mamãe é tão boa, mas eu não diria dela que é mãe de misericórdia. Nossa Senhora, sim, o é. E, por mais que mamãe me queira bem, sei que Nossa Senhora me quer insondavelmente mais. Com Ela, conseguirei safar-me dessa situação”.

Ponto por ponto, uma prece consoladora

Ao dizer: “Vida, doçura e esperança nossa, salve!”, vinha-me à mente: “É isso mesmo! Vida é com Ela, porque nos livra de apuros como este, e de precipícios nos quais nem nossa mãe pode nos escorar. É a doçura d’Ela que nessa apreensão me atende”.

“Esperança… Minha esperança é Nossa Senhora, porque, se Ela não olhar para mim, estou perdido.”

E o pensamento me voltava: “Já que sois assim, salvai-me! pois estou arrasado”.

“A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva”. Eu não sabia exatamente o significado de “degredados filhos de Eva”, mas entendia que tal expressão indicava uma situação muito infeliz, como aquela na qual me encontrava. “Estou nessa dificuldade sem saída”, pensava eu. “Esta é a oração para resolver o meu caso”.

“A Vós suspiramos, gemendo e chorando…” Veja! Eu inteiro sou um gemido. “… Nesse vale de lágrimas”. É isso! Estou nadando nas minhas próprias lágrimas.

“Eia, pois, advogada nossa…” Maria Santíssima não vai me julgar. Deus é o Juiz; Ela é minha advogada, que me defende em qualquer situação. Sinto que, se Ela estiver do meu lado, sou atendido.

“Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. Eu olhava para a imagem e tinha a impressão de que sorria para mim. Tranquilizava-me essa ideia: “Ela me acompanha do Céu, com seus olhos de Mãe misericordiosa. Isso vai dar certo!”

“E depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Quer dizer, após sair dessa difícil circunstância, no fim da vida verei Jesus. Realmente! Esta oração foi feita para mim”.

A partir daquele momento, minha devoção a Nossa Senhora se tornou mais fervorosa. E com o passar do tempo, pelo favor d’Ela, continuou a crescer.

Nunca deixemos de confiar n’Aquela que é nossa esperança

Baseado nesse meu exemplo pessoal, seja-me permitido ressaltar a necessidade de nutrirmos uma confiança sem limites e constante na bondade de Maria Santíssima, em todas as ocasiões, em todas as circunstâncias e de todos os modos, dizendo a Ela: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!”

Ela é a nossa vida, porque, não fosse sua insondável misericórdia para conosco, estaríamos mortos. É nossa doçura, pois tudo quanto existe de doce em nossa existência nos vem pelo intermédio d’Ela. E a suavidade de Nossa Senhora para com seus filhos, ainda mesmo quando fracos e infiéis, é incomparável. Todas as formas materiais de doçura — a do mel, do açúcar, da brisa, ou a própria doçura dos corações maternos — não são senão pálida imagem dessa doçura das doçuras que vem a ser o Imaculado Coração de Maria, inundado da suavidade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Maria, vida, doçura, esperança nossa, salve. Esperemos sempre na intercessão d’Ela por nós, na sua misericórdia para conosco, com uma esperança invencível, pois quem possui tal Mãe, que de tal maneira induz os seus filhos a olharem para Ela, nunca pode deixar de esperar no seu maternal auxílio.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências em 6/5/1968 e 21/7/1990)

20 de maio – Olhar de fogo, grandeza e seriedade

Olhar de fogo, grandeza e seriedade

São Bernardino de Siena foi quem popularizou a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus. Não foi tanto um homem de estudos quanto um pregador, que reunia em torno de si multidões imensas, em praças muito grandes. Quando ele falava, a multidão ia se deslocando conforme o vento, para ouvir suas palavras. Notem seu rosto sério, do homem que se sente revestido de uma missão divina, chamado a dizer verdades duríssimas aos seus contemporâneos, e que as disse de fato.

Ele está cumprindo sua missão; e as brasas estarão acumuladas sobre a cabeça de quem não o ouvir. É uma alma povoada de ideias, de convicções a respeito da transcendência e da perfeição infinita de Deus, e do alto destino eterno.

Vejam como tudo está bem apanhado neste olhar de fogo. Não há clima para conversar com ele sobre bagatelas. Quanta grandeza e seriedade!

Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência de 1965)

19 de maio – A expansiva piedade de São Crispim de Viterbo

A expansiva piedade de São Crispim de Viterbo

Hino de exaltação à virtude da humildade, a vida deste santo italiano constitui uma iluminura na qual se retrata a inocência medieval aliada à santidade franciscana. Comentários de Dr.Plinio.

 

Alguns episódios da vida de São Crispim de Viterbo [ver quadro anexo], irmão leigo capuchinho, despertam nossa admiração pela extrema piedade que neles se revela.

Fez da cozinha conventual um lugar de devoção mariana

Nascido em 1668, foi consagrado desde a idade de 5 anos a Nossa Senhora, por quem teve especial devoção durante toda a sua existência. Tendo ingressado na Ordem dos capuchinhos, quis ficar entre os irmãos leigos, tomando como modelo São Félix de Cantalício.

No mosteiro, trabalhava nos jardins, fazia compras, cuidava dos doentes, passando as noites em oração e nas práticas de penitência. Ao ser encarregado da cozinha, nesta erigiu um altar à Santíssima Virgem. Aí era visitado por grandes senhores, cardeais e pelo próprio Papa Clemente XI que, certa vez, ali foi venerar a imagem da Mãe de Deus.

Chamo a atenção para a piedade contagiosa de um autêntico irmão leigo capuchinho. Era tão comunicativa que os grandes da época, tanto os da Igreja quanto os da sociedade temporal, dirigiam-se a esse altar erguido na cozinha do mosteiro, atraídos que eram pela devoção do santo.

Nossa Senhora concedeu-lhe o dom dos milagres. Certa vez, tendo curado uma pessoa chegada ao Sumo Pontífice, o médico afirmou: “Vossos remédios têm mais virtude que os nossos”. E o santo respondeu: “Senhor, sois um médico sábio e a cidade de Roma vos reconhece como tal. Mas, a Santíssima Virgem é muito mais sábia do que vós todos, médicos do mundo!”

O bom odor de Jesus Cristo, em Orvieto

Como irmão encarregado da despensa do convento, logo tornou-se estimado na cidade de Orvieto. O governador conversava com ele, e o Cardeal-Bispo da sua diocese detinha a carruagem em que ia para se entreter com o pobre frade na rua.

Imagine-se tais cenas encantadoras! Orvieto, já então cidade de certa importância na Itália, com sua linda catedral gótica, cuja fachada reluz ornada de lindos mosaicos coloridos. Fim de tarde, os trabalhos de todas as corporações encerrados, o movimento da cidade vai diminuindo, os sinos começam a tilintar, convidando os fiéis para a bênção do Santíssimo Sacramento ou para as Vésperas. Envolto numa penumbra azulada, ergue-se o palácio do Governo. Ali, também desobrigado de seus afazeres diários, o governador descansa e se entretém, sem empáfia, sem petulância, mas com naturalidade, com o humilde frade capuchinho. Embevecido, o magistrado dá graças a Deus por receber a visita do santo religioso.

Percebe-se, nesse contato, a beleza da lei dos contrários harmônicos; regozija-nos ver um grande personagem enlevado na conversa com um pequeno, embora, do ponto de vista sobrenatural, este último seria talvez maior que aquele.

O frade sai do palácio e segue seu caminho pelas ­ruas tortuosas da cidade. De repente, um ruído de ferros e de ferraduras, e uma carruagem se detém ao lado dele. A carruagem do Cardeal. Distinguindo-a, o frade mantém os olhos baixos, em atitude de respeito e reverência. Porém, o Príncipe da Igreja abre a porta do carro e diz:

— Entre, Frei Crispim, vamos conversar um pouco…

— Oh! Eminência!

— Que notícias o senhor me conta?

O frade narra-lhe alguns fatos da vida do convento, ou então, com toda a naturalidade, comenta:

— Tive uma visão assim…

O Cardeal é todo ouvidos, imerso em admiração.

Creio não ser difícil compreender como nos aproveita à alma recompormos cenas como essas, pois constituem o sabor de um passado no qual, segundo expressão de São Paulo, sentia-se o “bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2Cor 2, 15), tão diferente dos cheiros perniciosos que vão se espraiando no mundo hodierno.

Na hora da morte, não quis “atrapalhar” a festa de seu padroeiro

O resultado dessa expansiva piedade foi que os habitantes de Orvieto não o deixavam ir-se embora. Nas vezes em que o transferiram de convento, o povo negou-se a dar esmolas para os religiosos. Quer dizer, era preciso fazer voltar Frei Crispim, senão os frades passariam fome…

Durante anos seguidos foi insultado por uma religiosa à porta da qual vinha bater. Dela, dizia sempre o santo: “Deus seja louvado, pois há em Orvieto uma pessoa que me conhece e me trata como mereço!”

Não vem a ser uma atitude “heresia branca”(1), mas um genuíno fioretti(2). Pois o justo cai sete vezes (Pr 24, 16) e, portanto, não se deve considerar isento de ouvir  rabugices e desaforos.

Frei Crispim ficou gravemente enfermo poucos dias antes da festa de São Félix de Cantalício, seu padroeiro. Como os frades lhe dissessem que logo compareceria diante de Deus, respondeu-lhes que isso só ocorreria após a comemoração de São Félix, pois sua morte atrapalharia a festa do santo.

Outro fioretti!

O santo irmão leigo capuchinho faleceu em Roma, em maio de 1750.

Contrastes que formam a beleza da Civilização Cristã

Sem dúvida, uma existência admirável, que nos proporciona não apenas um motivo de enlevo, um exemplo a ser imitado, mas também um ensinamento que merece ser ressaltado.

Com efeito, no ambiente em que ele viveu, houve toda uma floração de irmãos leigos capuchinhos, talvez não tão eminentes na virtude, mas todos daquela escola que engendrou São Félix de Cantalício e o nosso próprio santo, constituindo uma nota de exaltação da humildade.

Dir-se-ia que esses religiosos eram ecos da paz, da serenidade de alma, da bondade características da cristandade medieval, dessa Idade Média entretanto tão gloriosa pela sua pompa e por suas batalhas. E é justamente nesse encontro harmônico de contrastes que reside a quintessência da beleza. Se quisermos compreender o esplendor da Idade Média combativa, consideremos a serenidade de um São Crispim de Viterbo ou de um São Félix de Cantalício. Se desejarmos entender a bondade desses dois santos, contemplemos a pugnacidade peculiar àquela época histórica.

Desse conjunto de contrastes harmônicos depreende-se a grandiosa beleza da Civilização Cristã.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 22/5/1967)

 

1 ) Expressão empregada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental e adocicada que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc.

2 ) “Florzinhas”, em português. Significam pequenos propósitos a praticar, ou a descrição de algum fato edificante da vida de alguém. Célebres são os fioretti de São Francisco de Assis. Vale notar que em italiano o singular é fioretto. Dr. Plinio, porém, costumava usar o plural, atendo-se ao título da mencionada coletânea franciscana.

17 de maio – Fervoroso adorador do Santíssimo até depois da morte

São Simão Stock recebe a libré de Nossa Senhora

Contemplando a vida de São Pascoal Bailão, Dr. Plinio ressalta o quanto a ação apostólica de alguns Santos permanece mesmo após a morte.

 

São Pascoal Bailão foi um Santo franciscano que viveu no século XVI e se tornou famoso pela sua devoção ao Santíssimo Sacramento.

Fervoroso devoto da Transubstanciação

Para compreendemos bem o sentido da ficha que será lida, devemos saber o que é a Missa e, dentro dela, a Consagração.

A Missa é a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. É o maior ato de culto da Religião Católica, porque é Nosso Senhor Jesus Cristo que se oferece a Si mesmo ao Padre Eterno.

Quando o padre pronuncia as palavras da Consagração, a hóstia e o vinho se transubstanciam, passando a ser Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse é o momento no qual se dá a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário, um dos mais augustos mistérios da Religião Católica.

Assim, é compreensível que uma pessoa piedosa dê grande importância a estar presente à Missa. E todas as outras orações da Igreja se estruturam tendo em vista a parte mais importante da Missa.

Desse modo compreendemos como um Santo, com uma devoção eucarística acendrada, tenha o melhor de sua devoção voltada para a transubstanciação, na qual Nosso Senhor Jesus Cristo se oferece novamente.

Vejamos, então, a vida de São Pascoal Bailão(1).

Um ato de adoração no momento extremo da vida

São Pascoal Bailão, cujo corpo repousa no Convento dos Franciscanos de Valência, na Espanha, era nascido na província de Aragão. Tendo que apascentar seu rebanho, ele assistia à Missa sempre que podia, e se era impossível assisti-la, ele deitava ouvidos atentos ao som da sineta que tocava por ocasião da elevação.

Vê-se que o prado onde ele apascentava o rebanho, quando menino, era muito próximo a uma igreja e ele, de fora, podia ouvir a campainhazinha tocando no momento da elevação.

Assim que ouvia a sineta, ele se ajoelhava, e qualquer que fosse o lugar onde se encontrava, adorava com fervor o Santíssimo Sacramento, o Salvador descido do Céu para o altar.

Com a idade de 24 anos entrou, na qualidade de irmão leigo, no Convento dos Franciscanos Descalços de Valência, onde mostrou o mesmo fervor ardente pelo Santíssimo Sacramento.

Deus lhe recompensou esse fervor, chamando-o a Si no momento da elevação. Depois de ter recebido o Santo Viático, São Pascoal perguntou se a Missa solene já tinha começado na igreja do convento. E como lhe disseram que a elevação se aproximava, ele se tomou de uma alegria extraordinária, e deitou muita atenção para, do lugar onde estava, ouvir o tilintar da sineta. Quando ouviu, exclamou: “Meu Jesus! Meu Jesus!” e expirou.

O seu enterro foi marcado por um grande milagre: tinham colocado seu caixão na igreja e o Ofício dos mortos acabava de começar. Eis que na elevação da Hóstia, o cadáver se mexeu, abriu os olhos, e quando o padre levantou o cálice, fez o mesmo gesto do padre.

Isso não aconteceu uma única vez. Quando seu corpo foi colocado numa sepultura ao lado do altar-mor, deu muitas marcas de veneração pelo Santíssimo Sacramento cada vez que se celebrava a Missa nesse altar. Quando chegava o momento da elevação, ouvia-se um movimento no interior da sepultura como a convidar os fiéis a um ato de adoração mais ardoroso. Em nossos dias ainda se percebe, às vezes, esse movimento na sepultura. Vários santos padres, entre outros o piedoso Domenico Maso, que celebraram o Santo Sacrifício da Missa diante da sepultura de São Pascoal Bailão, informaram ter sido testemunhas desse milagre.

É algo lindíssimo, cuja beleza merece ser analisada num instante.

Nosso Senhor deu a este Santo, durante toda a sua vida, uma graça especial para adorar o Santíssimo Sacramento. Talis vita, finis ita: assim como foi a vida, assim também é o fim. Graças à fidelidade dele a essa graça, Nosso Senhor fez coincidir a morte dele com o momento da elevação. Nesse instante Deus colheu a sua alma, como para dizer que, durante toda a vida, a alma dele esteve se maturando para esse supremo ato de adoração ao Santíssimo Sacramento. E quando ele atingiu a santidade própria para o momento extremo, no qual ele fez essa adoração extrema, ele tinha chegado à plena maturidade para o Céu. Essa maturidade ele a tinha realizado num ato de adoração ao Santíssimo Sacramento. Veio a Providência, o colheu e o levou para o Céu.

Missão póstuma para maior glória de Deus

É frequente os Santos, quando vão para o Céu, terem certo pesar de não poderem mais fazer apostolado na Terra. Parece incrível que uma pessoa, indo para o Céu, tenha pesar de alguma coisa na Terra não ficar como queria. Vemos São Pascoal Bailão, ainda depois de morto, o cadáver dele fazer um ato de adoração ao Santíssimo Sacramento. Depois, na sepultura, ainda se remexe quando há uma celebração, para convidar os fiéis a adorarem o Santíssimo Sacramento. É um apostolado eminente feito por seu cadáver.

Nós podemos enunciar um desejo análogo? Podemos desejar alguma coisa desse gênero?

Eu desejaria para todos nós que, depois de mortos, quando alguém pronunciasse o nosso nome, ou se lembrasse de nós a qualquer propósito, ou passassem perto de nossa sepultura, recebessem, se forem filhos da luz, um aumento de devoção a Nossa Senhora, uma participação no espírito d’Ela. Se forem filhos das trevas, se sentissem incomodados, humilhados, combatidos, obstados e perseguidos no que tivessem de mau, de maneira a largar a sua maldade. Desejaria combater para converter os maus ou para evitar que eles prejudiquem os bons. De modo que o número dos eleitos se completasse exatamente como Deus quer.

Para isso devemos ser, até o fim da vida, duas coisas: primeiro, arautos de Nossa Senhora; segundo, pedras de contradição, de escândalo para salvação e perdição de muitos, exatamente como o Profeta Simeão disse a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Lc 2, 34).

Se eu souber que até o fim do mundo Nossa Senhora resolveu utilizar do nome de um de nós para isso, exultarei intimamente e super exultarei, porque assim a nossa obra se realizará.

Quer dizer, apenas quando — segundo a frase grandiosa da Escritura — tiver acabado o mundo e a abóbada celeste se enrolar como um pergaminho, e vier o Filho de Deus em grande pompa e majestade (cf. Ap 6, 14-17);  as contas todas estiverem acertadas e os adversários da Igreja liquidados; a Contra-Revolução estiver para sair da sepultura a caminho do Céu; os anjos malditos que circundam a Terra incitando os homens para a ação da Revolução estiverem prestes a ser acorrentados para irem ferver no Inferno por toda a eternidade; somente nesse momento a nossa missão acabe.

Esta seria a aplicação do mesmo princípio usado por Nossa Senhora com São Pascoal Bailão. O que se faz a vida inteira faz-se também na hora da morte. O que se faz na hora da morte, faz-se até o fim do mundo.

Podemos pedir a São Pascoal Bailão que nos dê essa grande graça.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/8/1974)

 

1) Não dispomos dos dados bibliográficos da referida ficha.

Errata: Na nota 2 da seção Hagiografia do n. 217, no lugar de “naturezas” leia-se “vontades”.

16 de maio – São Simão Stock recebe a libré de Nossa Senhora

São Simão Stock recebe a libré de Nossa Senhora

No momento em que tudo parecia perdido para a Ordem do Carmo, Maria Santíssima aparece a São Simão Stock e lhe concede o Escapulário, assegurando, assim, o florescimento e desenvolvimento da Ordem no Ocidente, e sua continuidade até os nossos dias.

 

Hoje é festa de São Simão Stock, confessor. Ele era da mais alta nobreza da Inglaterra, e foi Prior Geral da Ordem do Carmo. Recebeu o Santo Escapulário das mãos de Nossa Senhora, como sinal da predileção d’Ela pela Ordem. Deu o primeiro grande impulso à vida contemplativa carmelitana. Século XIII.

Ponte desde os primórdios da devoção mariana até o fim do mundo

A respeito de São Simão Stock e da Ordem do Carmo, é preciso termos bem em mente a importância da obra deste santo numa linha muito alta das coisas, para compreendermos bem quão grata nos deve ser a festa que hoje se comemora.

Tendo o Profeta Elias fundado os antecedentes da Ordem do Carmo, esta representou o primeiro filão da devoção marial no mundo. Elias simboliza o extremo da devoção a Nossa Senhora e lutará, no fim do mundo, contra o Anticristo e contra os últimos inimigos de Nosso Senhor. E constitui, portanto, uma espécie de ponte, desde o início da devoção a Maria Santíssima, séculos antes d’Ela ter nascido, até a luta contra os últimos inimigos de Nossa Senhora, que estarão acabando com o Reino de Maria, e contra os quais vai lutar precisamente Santo Elias.

Compreende-se, portanto, a importância dessa ponte que se estabelece desde os primórdios da devoção mariana até o fim do mundo, e dessa continuidade, para o espírito contrarrevolucionário e para a verdadeira piedade marial.

Ordem do Carmo transformada em destroços

Consideremos a emergência diante da qual São Simão Stock foi levado a realizar o seu apostolado.

Tinha havido as invasões dos sarracenos, e a Ordem do Carmo, que existia no Oriente, estava perseguida, enxotada e muitos religiosos passaram a viver no Ocidente.

Mas no Ocidente eles não se aclimatavam. Havia indiferença para com eles, não se compreendia o que eram, e estavam meio dispersos. São Simão Stock era o Geral deles, mas não exercia uma autoridade efetiva sobre uma Ordem propriamente constituída; podemos dizer que a Ordem do Carmo estava transformada em destroços que boiavam sobre um mar revolto, e não era mais um navio, com uma estrutura jurídica coesa e uniforme, capaz de conservar um espírito, de promovê-lo e transmiti-lo à posteridade.

E foi nessa situação que ele, rezando a Nossa Senhora com muita devoção, pediu que Ela não deixasse morrer a Ordem do Carmo.

No auge dessa aflição em que se encontrava o santo, a Mãe de Deus lhe apareceu e deu-lhe o Escapulário do Carmo. Não é propriamente esse bentinho que se usa comumente, mas aquele escapulário grande, à maneira de uma libré, que se colocava sobre a túnica.

Tratava-se de uma época em que ainda se usava muito a túnica, como traje civil comum. E os homens que pertenciam a alguém vestiam, por cima de sua túnica, uma espécie de túnica menor — com a forma do atual escapulário do Carmo — a qual indicava, pela cor e por outras características, o senhor a quem aquele homem servia. Portanto, a Virgem Santíssima indicou aquela veste como libré d’Ela, que os carmelitas deveriam portar sobre a batina.

Depois dessa intervenção de Nossa Senhora, a Ordem do Carmo começou a florescer e a se desenvolver extraordinariamente no Ocidente. E para falar apenas em três frutos desta Ordem, citemos Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus. Quer dizer, três sóis no firmamento da Igreja.

Lição de confiança

Entretanto, mais do que isso — e não hesito em afirmar que é mais —, assegurou a continuidade da Ordem até os nossos dias. Foi, portanto, uma missão enorme que esse santo cumpriu.

Ele foi o traço de união entre a vida ocidental e a vida oriental da Ordem. E no momento em que, nessa espécie de istmo entre esses dois continentes históricos, a Ordem se adelgaçava a ponto de parecer sumir, precisamente nesse momento, Maria Santíssima intervém para salvar e dar muito mais do que havia antes. A Ordem teve, no Ocidente, uma prosperidade muito maior do que tivera no Oriente.

Nas obras que Nossa Senhora ama, as coisas podem chegar a ponto de se despedaçarem, se estraçalharem quase completamente. Tudo parece perdido, mas é o momento que Ela reserva para intervir.

As grandes intervenções de Deus são precedidas por uma fase onde tudo parece destruído, para ficar inteiramente claro que nenhum socorro humano adianta de nada. Depois de provado que tudo quanto era humano fracassou, na hora da desolação e do caos, Deus intervém, por meio de Nossa Senhora, e salva a situação. Foi o que se deu com a história da Ordem do Carmo. Ou seja, uma lição de confiança magnífica dada para todos os carmelitas no decurso dos séculos.

Vamos, então, nos recomendar hoje a São Simão Stock.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/5/1966)

14 de maio – Contemplar o mundo maravilhoso das almas

Contemplar o mundo maravilhoso das almas

Comentando alguns aspectos da vida de Santo Ampélio, o Ferreiro, Dr. Plinio mostra a importância de se conhecer as almas para admirar em cada uma aquilo que é reto, segundo Deus, o que ela seria se fosse inteiramente fiel, e o grau de fidelidade que dentro dela existe e a torna um reflexo especial do Criador.

No dia 14 de maio celebra-se a memória de Santo Ampélio, o Ferreiro. Temos para comentar uma ficha sobre a biografia desse Santo1.

Com um ferro em brasa expulsou o demônio

Santo Ampélio, o Ferreiro, século V.
A vida de Santo Ampélio, apelidado “o Ferreiro”, é toda lendária. Conta-se que era originário do Egito, ferreiro de profissão. Desejando a perfeição, procurou os solitários da Tebaida, a eles prestando serviços variados, inclusive de sua profissão.
Certa vez, o demônio transformou-se numa jovem impudica e foi tentá-lo. O ferreiro com um ferro em brasa nas mãos avançou para queimá-la, espantou-a para sempre.
Já velho, deixou a Tebaida e foi para as imediações de Gênova, onde levou vida de santificação e contemplação. Santo Ampélio é o padroeiro dos ferreiros.
Bem entendido, afirmar ser a vida dele toda lendária é um modo de dizer… Se está canonizado pela Igreja, tem-se a certeza de que ele existiu e de fato foi Santo. Muitas vezes aquelas canonizações primeiras não eram feitas regularmente. Havia uma inspiração do Espírito Santo a todos, a qual fazia com que a voz do povo considerasse alguém como santo. E então era de fato santo. Mas aí estava também engajada a autoridade da Igreja, embora sem o processo regular de canonização que se faz hoje em dia.

 

Isolamento, silêncio e estranhos visitantes

Nós podemos imaginar mais ou menos o que seria a vida de Santo Ampélio, como ferreiro ambulante na Tebaida do século V.
Nesse século precisamente a instituição eremítica estava ganhando o seu verdadeiro feitio. Porque durante os séculos anteriores, sobretudo o III e o IV, nos Impérios Romanos do Ocidente e do Oriente se perseguiam muito os católicos. A vida deles era extremamente difícil. E muitos fugiam para o deserto a fim de não serem presos, torturados. Ali eles passavam, às vezes, uma vida longa, até noventa anos ou mais, na tranquilidade absoluta do ermo, rezando a Deus e pedindo pela Igreja Católica de tal maneira perseguida.
Mas nesta Terra o Criador não permite que a vida de ninguém seja sem provações grandes. E até provações heroicas, sofridas por pessoas que Deus ama mais e destina a prestarem um serviço especial à Igreja. Não devemos supor que o único martírio que esses eremitas, indo para a Tebaida, sofriam era o do isolamento e do silêncio, o que constituía um martírio. Pode-se imaginar, no homem com instinto de sociabilidade e, portanto, tendência a comunicar-se, o que representa de sofrimento passar quarenta, cinquenta anos sem ver absolutamente ninguém, a não ser um ou outro raro visitante que aparecia de vez em quando, e que não se sabia bem quem era. Às vezes tratava-se de uma alma necessitada que ouvia falar daquele eremita e, então, empreendia uma viagem arriscada para lhe pedir orações. Porém muitas vezes era algum bandido ou criminoso político que estava fugindo da polícia ou das autoridades, algum lunático, algum maníaco ou até um possesso do demônio que estava correndo por aquelas zonas.

 

O homem é feito para a luta e para a dor

É preciso acrescentar esta coisa curiosa e real. Os lugares muito ermos, isolados, se não são bastante abençoados, às vezes são especialmente infestados pelos demônios. Por exemplo, certos baixios, certas grutas muito profundas, lugares aonde nunca vai ninguém, pântanos, locais malcheirosos, etc., são lugares que facilmente os demônios procuram como permanência habitual, de onde eles saem para fazer infestações. Esses eremitas se situavam onde podiam. Às vezes lugares lindos, às vezes feios, comuns. Eles estavam ali, portanto, sofrendo todos os inconvenientes do isolamento, inclusive certa presença preternatural.

 

Mas isso não é nada. O homem é de tal maneira feito para a luta e para a dor que quando ele foge delas e se põe no deserto, dentro de sua alma surgem os problemas, nascem a luta e a dor. E acaba, então, havendo as provações interiores que são, muitas vezes, mais terríveis que as provações exteriores.

 

O que é uma provação interior? Um eremita vai para o ermo; nos primeiros tempos uma alegria, uma consolação, as graças de Deus inundam sua alma. Aos poucos aquilo vai se afastando e perde toda a unção primeira, ele se sente isolado, triste, deprimido, abatido e com mal-estar. De repente, começam as tentações a zumbir dentro de sua alma. E com as tentações iniciam-se, às vezes, as infestações diabólicas.

A pior de todas as tentações é a tentação contra a Fé. Ele é convidado pelo demônio a pôr em dúvida a própria Religião Católica. Os demônios aparecem, às vezes, aos eremitas e fingem festins de Roma, de Alexandria e de outros lugares onde eles estão. Os eremitas têm alucinações. Tudo acontece.

Desejo de oferecer a Deus o holocausto e a solidão

No século V, o número de eremitas era muito grande, já não causado pelo medo das perseguições – que acabaram com Constantino, com a invasão de Roma pelos bárbaros –, mas determinado pelo temor de se perderem nas cidades e pela vontade de oferecerem a Deus o holocausto da sua solidão. E houve tantos e tantos nessa época que se chegou a dizer que o deserto estava formigando de eremitas.
Em todas as épocas da Civilização Cristã houve eremitas em grande quantidade. A nossa é a infeliz época sem verdadeiros eremitas.
Costumo ir com frequência, à tarde, na Igreja da Luz, fazendo minhas orações na ida e na volta. E nunca deixo de me lembrar que, nas histórias de São Paulo, se conta ter sido o bairro da Luz povoado por eremitas, que moravam nas voltas e contornos do Rio Tietê, tornadas particularmente poéticas pela névoa que, em certas épocas do ano, existia naquela zona mais úmida, e pela quantidade enorme de garças que voavam de um lado para outro e encantavam Frei Galvão, quando ele passava por lá. Quão diferente é o bairro da Luz de hoje em dia!

 

Conhecedor dos esplendores espirituais do deserto

 

Os eremitas, tão numerosos no século V, eram servidos, às vezes, por ambulantes que iam levar-lhes coisas, faziam caridade para eles, etc.
E Santo Ampélio, levava uma vida curiosa, com esta forma única de turismo: o das almas. Um homem que é ferreiro de profissão vai gratuitamente ajudar tal eremita; mais adiante há um que fez tal milagre, mais além um outro que se destaca por tal virtude. Assim ele vai conhecendo alma por alma, revisitando os itinerários conhecidos e prestando serviços de bater ferro, ou fazer alguma peça de que eles precisavam para facilitar sua vida material, etc.
Provavelmente sem falar, recebendo apenas do eremita algum conselho – se ele pedisse – para sua própria vida espiritual. E depois seguia adiante. Esse é um verdadeiro Guide Bleu – o grande guia de turismo da Europa – dos esplendores espirituais do deserto. “Se quer conhecer alguém que tem o dom da profecia, vire por ali e desça lá, naquela gruta há um velho que possui esse dom; se deseja conhecer um que é heroico nas penitências, suba até o alto daquele morro onde vive um jovem que se flagela de um modo admirável. Mais adiante um eremita que se levanta do solo, quando saúda Nossa Senhora, ao meio-dia. E ao chegar a noite, vai ver tal eremita dormir na serenidade, enquanto uivam as feras lá fora; trata-se do grande eremita tal, cujo sono é edificante e traz paz a todo mundo que o contempla.”

Os verdadeiros monumentos deste mundo são as almas

 

Provavelmente Santo Ampélio, com seus dons de ferreiro, foi um visitador, um turista da santidade pelos desertos. E era movido, com certeza, pelo encanto, pelo entusiasmo que lhe causava o contato com almas tão extraordinárias.
Se essa hipótese – perfeitamente plausível – é verdadeira, então nós sabemos qual virtude podemos imitar de um Santo tão desconhecido no geral de sua biografia. Devemos pedir-lhe que nos obtenha uma dupla graça: termos discernimento para perceber como são as almas, e admirar em cada alma aquilo que é reto, segundo Deus, o que ela seria se fosse inteiramente fiel e o grau de fidelidade que dentro dela existe e a torna um reflexo especial do Criador. Saber também discernir nas almas o que é ruim e, a contrario sensu, ficar amando o que é bom.
Eu lhes garanto que se uma pessoa passasse sua vida apenas estudando e conhecendo as almas, levaria uma vida muito mais entretida do que se fizesse qualquer outra coisa. Certamente mais do que tomar um avião e ir para Nova Deli, de lá para Xangai, depois a algum ponto da América do Sul, do Norte ou da Suécia, entrando em aeroportos, hospedando-se em hotéis, vendo monumentos e ficando com a alma vazia. Os verdadeiros monumentos deste mundo são as almas dos homens. E não há nada mais belo, mais interessante, mais atraente do que conhecer as almas.

 

Conhecer os homens “sem alma”

Confesso que o pouquinho que a experiência do contato com as almas me tem proporcionado faz com que, nas poucas viagens que fiz, o que me interessa mais é conhecer as almas; inclusive as almas dos homens “sem alma”, pois até essas são interessantes de conhecer, a contrario sensu.
Lembro-me que uma vez viajei do Rio para Paris, ao lado de um holandês que vinha da Indonésia e ia descer em Londres, e que não tinha alma.
Olhei para ele de soslaio e pensei: “Mas que horrível. Isso é uma longilínea posta de carne, ele não tem alma! O que é esse homem?!”
Deve ser interessante conversar para conhecer a alma de um homem “sem alma”. Então eu fiz um comentário com ele a respeito de qualquer coisa sobre a rapidez do avião, e conversamos em alguns trechos da viagem. Fiquei vendo o vazio de um homem completamente sem alma que se sentia bem no corpo – porque era evidente que ele tinha uma invejável saúde, e fazia disso sua alegria –, mas ficava sempre comprimindo uma alma que persistia em voltar e dizer-lhe que não estava satisfeita. De maneira que havia nele, ao lado de muita saúde, horas de tanta tristeza, de tanta amargura e de tanto vazio, que disso fiz para mim um tema de meditação e – eu lhes garanto – entretenimento.
Mais ainda, quando converso com uma pessoa, com duas, às vezes com duzentas, eu me entretenho em olhar para as almas. Sempre aprendo alguma coisa e saio com melhor capacidade de conhecer a minha alma, conhecendo a alma dos outros.
Então, aqui está um convite para todos começarem a ser amatoris animarum, da categoria de gente que ama as almas, gostando de conhecê-las.

 

Alegria de Nosso Senhor quando olhava para a Santíssima Virgem

 

Haveria algo na vida de Nosso Senhor que seria um exemplo adequado para isso?
Toda a vida do Redentor é isso. Em todas as coisas que fazia, nota-se um conhecimento perfeito das almas com as quais Ele tratava, e tudo ajustado às condições e às necessidades dessas almas.
Quer dizer, Ele estava continuamente com a mente posta no Padre Eterno e nas almas com as quais tratava, considerando-as logo no primeiro olhar, como, por exemplo, aquele moço rico. Diz o Evangelho que Nosso Senhor o olhou e o amou. Quer dizer, viu a alma dele e o amou por causa da sua fidelidade. Quando Jesus tratava com os fariseus, era a alma que Ele via e conhecia até o fundo. E por isso, com sua sabedoria, sua santidade infinita, remexia até o fundo os acontecimentos dos povos com que Ele tomava contato.
Podemos imaginar qual era a alegria de Nosso Senhor quando olhava para Nossa Senhora e via a alma perfeitíssima d’Ela. Não conseguimos ter ideia do gáudio que Ele tinha com isto. Entretanto, podemos ter uma noção indireta ao ver a imagem de Nossa Senhora de Fátima peregrina na Sede de seu Reino, quando reflete algo da alma da Santíssima Virgem. De tal maneira ela encanta que atrai multidões. Na Venezuela, quarenta mil pessoas foram ver a imagem, não certamente para olhá-la na sua materialidade, mas para observarem uma expressão de alma numa imagem.

 

Devemos amar as almas desinteressadamente e acabar com o “eu, eu, eu”

 

Se víssemos Nossa Senhora pessoalmente, qual seria nossa impressão, nossa sensação? É algo simplesmente incalculável!

Isso – num grau levado a que auge? – Nosso Senhor tinha quando olhava para a Santíssima Virgem. E Nossa Senhora tinha também quando olhava para Ele. E quando os olhares se encontravam, Ele dizia: “Minha Mãe!” e Ela: “Meu Filho!” O que entrava ali de comércio de almas! É a relação mais nobre, mais alta, mais perfeita havida em toda a História. Foi essencialmente uma relação de almas.
Então, procurem conhecer as almas, interessar-se por elas.

Existe um obstáculo para isto? Existe. É quando estamos tratando com os outros e não pensamos nas almas deles, mas em nós mesmos; aí ficamos incapazes de conhecê-los. Quando a pessoa analisa os outros, não para ver como são, mas para observar que efeito está produzindo neles, se a estão considerando prestigiosa, fina, inteligente, enfim a cavalcata das vaidades, ela desce um véu, só olha para si e não conhece ninguém.
É preciso amar as almas desinteressadamente, querer conhecê-las como reflexo de Deus, acabar com o “eu, eu, eu”, com a ideia fixa de si mesmo. Contemplar esse maravilhoso mundo das almas, do qual Santo Ampélio, o Ferreiro, foi muito presumivelmente um modelo, é o tema da meditação de hoje.

(Extraído de conferência de 14/5/1976)

14 de maio – São Matias – Apóstolo da fidelidade

São Matias – Apóstolo da fidelidade

Houve um rombo no Colégio Apostólico, o mais doloroso da História: um Apóstolo traiu. O lugar ficava vazio e era preciso alguém que, por suas virtudes, reparasse junto à justiça divina o mal feito por Judas, tivesse de admirável tudo quanto Judas teve de abominável e fosse, portanto, um anti-Judas.

São Matias nos aparece, assim, como sendo o Apóstolo da fidelidade, do desapego, da honestidade, da lealdade. Talvez só no Juízo Final saberemos alguma coisa de sua vida. Então conheceremos como esse homem bem-amado de Deus e de Nossa Senhora realizou a tremenda missão de ser aquele que, pela luz de sua virtude, apagaria a mancha de Judas na História da Igreja.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/2/1966)

14 de maio – São Matias, Apóstolo Modelo de fidelidade, honestidade e desapego

São Matias, Apóstolo Modelo de fidelidade, honestidade e desapego

Não obstante a breve referência que dele se faz no texto sagrado, a figura do Apóstolo São Matias sugere a Dr. Plinio o perfil de um “varão bem-amado de Deus”, suscitado pela Providência para, com o exemplo de suas virtudes, apagar a mancha que o discípulo traidor deixara na história da Igreja.

 

Como se sabe, São Matias foi escolhido por meio de um sorteio, para substituir Judas Iscariotes no colégio apostólico. Sobre ele podemos ler alguns comentários, primeiramente em Dom Guéranger, abade de Solesmes. Escreve este:

Pouco se sabe sobre São Matias. Somente que foi escolhido, após a Ascensão do Senhor, para substituir o traidor Judas Iscariotes. De acordo com uma antiga tradição grega, pregou o Evangelho na Capadócia e nas costas do Mar Cáspio e foi martirizado na atual Etiópia.

Alguns traços de sua doutrina foram conservados por São Clemente de Alexandria, entre eles uma sentença que parece ter sido característica desse apóstolo em sua pregação:“É preciso combater a carne e servir-se dela sem deleitá-la com culpáveis satisfações. Quanto à alma, devemos desenvolvê-la pela fé e pela inteligência”.

“Dom de Deus”

Outra biografia assim nos apresenta a pessoa e a vida do jovem Apóstolo:

Matias é nome freqüente entre os judeus e quer dizer “dom de Deus”. É o apóstolo que recebeu o dom do grande privilégio de ser agregado aos doze, tomando o lugar vago deixado pela deserção de Judas Iscariotes. Sua eleição foi mediante sorteio, após a Ascensão do Senhor, pela proposta de Simão Pedro, que em poucas palavras fixou os três requisitos para o ministério apostólico: pertencer aos que seguiam Jesus desde o começo, ser chamado e enviado: “É necessário, pois, que, destes homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, a começar pelo batismo de João até o dia em que nos foi arrebatado, haja um que se torne conosco testemunha de sua ressurreição”.

Espectador da vida e obra de Jesus

Matias esteve, portanto, constantemente próximo de Jesus desde o início até o fim de sua vida pública. Testemunha de Cristo e mais precisamente da sua ressurreição, pois a ressurreição do Salvador é a própria razão de ser do cristianismo. Matias, portanto, viveu com os onze o milagre da Páscoa e poderá com todo o direito anunciar Cristo ao mundo, como espectador da vida e da obra de Jesus “desde o batismo de João”.

Também as segunda e terceira condições — ser divinamente chamado e enviado — estão claramente expressas pela oração do colégio apostólico: “Senhor, tu que conheces o coração de todos, mostra qual destes dois escolhestes”.

A eleição de Matias por sorteio pode nos causar espanto. Tirar a sorte para conhecer a vontade divina é método muito conhecido na Sagrada Escritura. A própria divisão da Terra Prometida foi mediante sorteio, e os Apóstolos julgaram oportuna a conformidade com esse costume. Entre os dois candidatos propostos pela comunidade cristã — José, filho de Sabá, cognominado o Justo, e Matias — a escolha caiu sobre o último. O novo Apóstolo, cujo nome brilha na Escritura somente no instante da eleição, viveu com os onze a fulgurante experiência de Pentecostes antes de se encaminhar, como os outros, pelo mundo afora a anunciar “a glória do Senhor”.

Nada se sabe de suas atividades apostólicas, nem se morreu mártir ou de morte natural, pois as narrações a seu respeito pertencem aos escritos apócrifos. À tradição da morte por decapitação com machado se liga o seu patrocínio especial aos açougueiros e carpinteiros(1).

Atraente e intuída personalidade

Essas curtas descrições nos levam a  imaginar o que poderia ter sido a pessoa e a vida de São Matias. Quem era ele, afinal?

A narração do Evangelho, em geral sucinta, nos revela diversas personalidades, das quais o texto diz muito pouco, mas, pela natureza da missão delas, nos é dado delinear o perfil que tinham. Então, a respeito delas, adivinha-se algo que é quase mais saboroso em sua intuição do que nos traços biográficos propriamente ditos.

Tal se verifica, por exemplo, com a figura de São José. Deste só conhecemos a missão que lhe foi confiada e a correção com que a desempenhou. Entretanto, a respeito da sua personalidade, na letra sagrada, há apenas a afirmação de que era um varão justo. Nada mais. Ora, há mil coisas que se pode adivinhar dele, pelo simples fato de ter sido esposo condigno de Nossa Senhora, escolhido pela Providência, com a conseqüente paridade em relação à esposa que o perfeito casamento exige. Portanto, de São José compreendemos coisas indizíveis, embora não o revele a narração evangélica.

Aquele que apagou a mancha deixada pelo traidor

Imaginemos, então, quem foi São Matias.

Uma imensa lacuna se produzira no colégio apostólico. E o mais doloroso da história de todos os tempos: essa lacuna foi causada por um apóstolo traidor, que prevaricou a troco de dinheiro. O lugar dele ficou vazio, e era preciso alguém que, por suas reconhecidas virtudes, reparasse perante a justiça Divina o mal praticado por Judas Iscariotes. Necessário se fazia que o escolhido fosse um “anti-Judas”, alguém excelente na linha em que aquele foi péssimo, um homem que se demonstrasse admirável em tudo quanto Judas se mostrou abominável e execrável.

Assim, através dessas características, nos aparece São Matias, o discípulo da fidelidade e do desapego, o apóstolo da honestidade e da lealdade.

Um comentário a respeito dessa sentença que lhe atribuem: “É preciso combater a carne e servir-se dela sem deleitá-la com culpáveis satisfações. Quanto à alma, devemos desenvolvê-la pela fé e pela inteligência”. Por bela que seja, essa afirmação não rompe inteiramente o silêncio que pesa sobre São Matias. De maneira que, acredito, somente no Juízo Final provavelmente saberemos algo sobre a vida dele. Então conheceremos como terá sido de fato esse varão bem-amado de Deus, que realizou a extraordinária missão de ser aquele que, pela luz de sua virtude, apagaria a mancha de Judas na história da Igreja.

 

(Extraído de conferência em 23/2/1966)

 

1) Um santo para cada dia, Editora Paulus, 406 páginas.