27 de junho – Glorificada em socorrer sempre

Glorificada em socorrer sempre

Na invocação de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o que se enaltece especialmente não é Maria Santíssima enquanto nos auxiliando com muita frequência, liberalidade e ternura, mas o fato de que esse auxílio é perpétuo.

Por pior que façamos, por mais que abusemos, por mais incríveis que sejam nossas ingratidões, por mais agudo que seja o risco, por mais extraordinário que seja o milagre implorado, por mais extremo e improvável que seja o auxílio pedido, desde que não seja uma coisa má em si, a Mãe do Perpétuo Socorro nos atenderá.
É, portanto, a Mãe que se glorifica em atender sempre, em acudir sempre, em acolher sempre, de maneira a não haver uma hipótese possível em que nós, rezando para Ela, não sejamos socorridos.

Ela pode até atrasar o momento de conceder aquilo que pedimos, mas é para nos dar, depois, o cêntuplo, vindo a nós com as mãos carregadas com dons multiplicados.
Felizes aqueles que Nossa Senhora demora em atender!

(Extraído de conferência de 18/11/1964)

27 de junho – São Cirilo de Alexandria – Execração até o último limite

São Cirilo de Alexandria – Execração até o último limite

Partindo do exemplo de São Cirilo de Alexandria, arrojado defensor da Maternidade Divina de Maria, Dr. Plinio faz uma penetrante análise sobre como Deus execra aqueles que, entre a verdade e o erro, tomam uma posição intermediária, como está consignado no Apocalipse: Se fosses frio ou quente, Eu te aceitaria; mas como és morno, começo a vomitar-te de minha boca. Os mornos são o melhor dispositivo de proteção do erro, mas os execrados do Coração de Jesus.

 

Sobre São Cirilo de Alexandria, cuja memória é celebrada em 27 de junho, diz Dom Guéranger:

Defensor da maternidade divina de Nossa Senhora

Por carta, São Cirilo tentou reconduzir Nestório, mas esse sectário aferrava-se a suas opiniões. Por falta de argumentos, Nestório queixava-se ao Patriarca da ingerência de São Cirilo. Como sempre em tais circunstâncias, Cirilo encontrou homens apaziguadores que, sem partilhar o erro nestoriano, considerava que o melhor, com efeito, era não responder, por temor de o irritar, de aumentar o escândalo e de ferir a caridade.

A esses homens, cuja singular virtude tinha a propriedade de se abalar menos das audácias da heresia que da afirmação da Fé cristã, a esses partidários da paz a qualquer preço, respondia Cirilo:

“Como Nestório ousa deixar dizer em sua presença, na assembleia dos fiéis, anátema seja quem chama Maria Mãe de Deus; pela noção de seus partidários, ele chama de anátemas nós e os outros bispos do universo e os antigos Padres que em todas as partes e em todas as épocas reconheceram e honraram unanimemente a Santa Mãe de Deus? E não estamos em nosso direito de devolver-lhe sua palavra e dizer: Se alguém nega que Maria seja a Mãe de Deus, seja anátema? Se o medo de qualquer aborrecimento afasta de nós o zelo pela glória de Deus e nos faz calar a verdade, com que rosto podemos celebrar em presença do povo cristão os santos mártires, quando o que faz o elogio desses que morreram é unicamente o cumprimento desta palavra: pela verdade combatiam até a morte?”(1)

O trecho é verdadeiramente magnífico. São Cirilo, que viveu no século V, combateu a heresia de Nestório afirmando a maternidade divina da Bem-aventurada Virgem Maria. Nos primeiros séculos da Igreja houve pessoas que, impugnando o dogma da divindade de Nosso Senhor, afirmavam que Ele era só homem e não Deus. Outros afirmavam que Ele era Deus, mas não homem, e que tomava o aspecto, a aparência de homem, como um fantasma, porém negavam que Ele fosse o Homem-Deus. Dos dois lados a heresia tentou abalar a crença católica de que Nosso Senhor Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, como professamos até hoje.

Os que mais atrapalham a Causa católica

A heresia de Nestório, ao negar a perfeita união entre as naturezas humana e divina em Nosso Senhor Jesus Cristo, constituindo uma só Pessoa divina, tinha uma consequência no que diz respeito a Nossa Senhora, pois afirmava ser Ela apenas mãe do homem Jesus, e não Mãe de Deus. Portanto, a maternidade divina de Maria não existia.

Estabeleceu, assim, a clássica distinção entre ortodoxos, que professavam haver em Nosso Senhor Jesus Cristo ambas as naturezas em uma Pessoa Divina, e heterodoxos, partidários de Nestório. Entre essas duas correntes havia os tais pseudo-equilibrados, querendo fazer ecumenismo e irenismo. Estes achavam, já no século V, ser melhor não fazer discussão porque irrita o adversário, tornando mais difícil a possibilidade de conversão, além de agir contra a caridade. Então, voltavam-se contra São Cirilo porque este Santo falava mal deles.

Pergunto se não é exatamente o que se passa em nossos dias. Há uma raça de almas que correspondem àquilo que está dito na Escritura: Se fosses frio ou quente, Eu te aceitaria; mas como és morno, começo a vomitar-te de minha boca (cf. Ap 3, 15-16). Isto é, se tu aceitasses a verdade, Eu te aceitaria; se tu aceitasses o erro e te arrependesses, Eu te perdoaria. Mas como és daquela espécie de gente morna, que não está nem do lado da verdade, nem do lado do erro, tu Me causas a náusea que a água morna provoca. Sabe-se que a ingestão de água morna em certa quantidade é nauseante. É até usada para provocar a náusea, em determinadas doenças. São os execrados de Deus, que Ele vomita de sua boca, com aquele tipo especial de horror que é o nojo, que caracteriza a náusea. É isto que Nosso Senhor tem em relação a esses.

São eles os que mais atrapalham a Causa católica. Porque sempre se aproximam dos outros dizendo para não seguirem os defensores da verdade, porque eles, mornos, são católicos também, mas não tão exagerados quanto os outros. É por causa disso que as fileiras dos verdadeiros seguidores da Causa católica contam muito menos adeptos do que deveriam contar. O melhor dispositivo de proteção do erro não está entre aqueles que o professam, mas entre os que dizem professar a verdade, porém nas táticas protegem o erro; são verdadeiramente a quinta-coluna que sempre existiu nesse tipo de luta.

Isto nos deve levar a compreender que espécie de horror devemos ter a esse tipo de almas. E se queremos ser inteiramente conformes a Nosso Senhor, imaginem a náusea que essas almas nos devem dar! Quando ouvirmos tais argumentos, o que devemos sentir é náusea. Porque se devemos ser perfeitos como nosso Pai Celeste, e se é legítima aquela jaculatória “Sagrado Coração de Jesus, tornai meu coração semelhante ao vosso”, então precisamos também ter náusea daqueles de quem o Pai Celeste tem náusea. E se queremos ser como o Coração de Jesus, devemos ter horror àqueles de quem Ele tem horror.

Aí está o pedido que devemos fazer a Nossa Senhora: compreender de modo vivo o horror dessa posição e ter contra ela toda a execração infinita que Deus possui em relação a esse tipo de gente. Uma execração que vai até o último limite: é o nojo, o asco, o desprezo. Essa posição intermediária atrai mais a cólera divina do que a definida posição contrária.         

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/2/1966)

Revista Dr Plinio 255 (Junho de 2019)

 

1) Cf. GUÉRANGER, Prosper-Louis-Pascal. L’année liturgique. Septuagésime. p. 324.

25 de junho – São Guilherme: A beleza dos extremos harmônicos

São Guilherme: A beleza dos extremos harmônicos

Comentando a vida de São Guilherme, Dr. Plinio aponta o sublime modo de proceder da Igreja, encaminhando a sociedade e as almas por um determinado sentido, enquanto a algumas almas eleitas indica o rumo oposto, obtendo assim o equilíbrio e a harmonia social.

 

Gostaria de comentar uma ficha biográfica tirada do livro “La Vie des Saints”, de autoria de Daras.

São Guilherme nasceu no ano de 1085, numa cidade do Piemonte. Seus pais eram nobres e ricos.

Muito jovem ainda, decidido a viver para Deus, fez uma peregrinação a Roma, retirando-se depois a um monte abrupto e elevado, chamado Virgiliano, para lá viver como solitário.

Guilherme reuniu discípulos e ergueu no local um mosteiro e uma igreja a Nossa Senhora. O santuário deu um novo nome à montanha: o Monte da Virgem.

Um dia, os monges indispuseram-se contra seu superior por causa de sua liberalidade para com os pobres.

Guilherme não deixou de orar por eles. Fundou outra casa e visitou o reino de Nápoles, onde aconselhou sabiamente o soberano. Perto de morrer, voltou à sua primeira fundação, na qual encontrou grande disciplina e paz, devido, supõe-se, às suas infatigáveis preces.

Morreu no dia 25 de junho de 1142, em Guilhemeto. A Congregação chamada do Monte da Virgem não existe mais. Porém, o mosteiro não desapareceu. Pertence à reforma de Nossa Senhora do Monte Cassino. Os religiosos usam o hábito branco de São Guilherme para lembrar a sua união com esse grande santo.

A grande atividade da Idade Média

Esta ficha é muito bonita. Sobretudo quando vista em seu contexto, nela se notam admiráveis harmonias. Recordemos os tempos da Idade Média, onde esse santo constituiu seu mosteiro e onde levou a vida que passo a comentar.

A Idade Média, contrariamente ao que muitos imaginam, tinha uma vida de atividade intensa. Tal atividade era sobretudo agrícola, pois, apesar de o Império Romano ter conseguido aproveitar agricolamente boa parte de seu próprio território, restando somente algumas partes incultas devido à insuficiência de população, quando o Império foi invadido pelos bárbaros quase toda a agricultura sofreu grande ruína, a ponto de só restar o suficiente para manter miseravelmente a população local. Por outro lado, havia a parte selvagem e bárbara da Europa para ser cultivada.

Por isso, a atividade agrícola na Idade Média precisou ser muito intensa, e o foi de tal maneira, que de uma ponta a outra da Europa havia plantações, as quais se estendiam até mesmo pela Rússia, Suécia, Noruega, Dinamarca, Norte das Ilhas Britânicas, e outras regiões de cuja existência os romanos nem sequer tinham noção.

Naturalmente, a agricultura trouxe consigo o comércio. A abundância das plantações traz consigo a exportação e a permuta de seus frutos com outros artigos. Assim, iniciou-se também uma indústria caseira, a qual se transformou mais tarde numa indústria verdadeira, dotada de estabelecimentos especiais, desligados da atmosfera doméstica.

Abriam-se, então, estradas, iniciava-se uma organização à maneira de polícia, como os cavaleiros andantes e outras forças locais, as quais se encarregavam de manter a segurança das vias, impedindo roubos e assassinatos. Os medievais viajavam muito. Para só analisar as peregrinações que então se faziam, consideremos o seguinte:

De toda a Europa, peregrinos acorriam a Santiago de Compostela a ponto de, em certas épocas do ano, alguns trechos tornavam-se verdadeiras ruas, devido à intensidade do tráfego.

De outro lado, havia na Idade Média a atividade intelectual, da qual muito já se conhece. Mas havia também a atividade guerreira, sumamente glorificada por alguns historiadores, do ponto de vista das Cruzadas, mas tão denegrida e exagerada por outros no que diz respeito a guerras domésticas entre famílias, casas e feudos.

Isso tudo forma a verdadeira imagem da Idade Média: uma época borbulhante de vida.

A Igreja, centro e ponto de equilíbrio da Idade Média

Na raiz dessa vida estava a Igreja, enquanto fonte de toda harmonia e perfeição. Seu modo de proceder consistia em impulsionar a sociedade em determinada direção, o que fazia com tanta serenidade, sabedoria e naturalidade, que poderia até mesmo causar a impressão de irrefletida. Contudo, era ainda capaz de, ao mesmo tempo, incentivar alguns a seguirem o rumo extremamente oposto dos demais, conservando assim a harmonia do corpo social.

Um claro exemplo disso encontra-se no fato da Igreja ter estimulado extraordinariamente o desenvolvimento intelectual na Idade Média, ao mesmo tempo que impulsionava vigorosamente o trabalho manual, o extremo harmônico daquele.

Assim, toda a movimentação do corpo social na Idade Média era largamente estimulada pela Igreja; mas também, Ela estava constantemente suscitando a formação de grandes famílias de almas, as quais procuravam retirar-se a lugares ermos, a fim de viverem no completo isolamento.

A Igreja inspirava algumas almas a se afastarem inteiramente do convívio humano, vivendo a sós. Desta forma, perpetuava-se na sociedade o hermetismo absoluto, surgido na antiguidade e mantido, de certa forma, até os dias atuais.

Era grande o contraste entre o borbulhar de vitalidade que havia na sociedade medieval, e a vida tranquila, serena e meditativa de um número impressionante de eremitas, os quais abandonando tudo, iam viver em lugares distantes, na exclusiva consideração das coisas de Deus enquanto Motor imóvel, da eternidade e de outros assuntos cuja cogitação é geralmente evitada pela superficialidade de espírito de muitos homens.

Desta forma, como fruto da verdadeira Igreja, constituiu-se o ponto de equilíbrio da sociedade medieval, bem como de cada alma individualmente.

Pelo contrário, a atitude de uma igreja falsa seria a de estimular exclusivamente o hermetismo, ou a atividade, causando assim a desestabilização.

Do auge da atividade ao máximo recolhimento

São Guilherme é um característico exemplo deste modo de proceder da Igreja, enquanto propulsora dos contrários harmônicos. Ele, por sua condição de nobre, era naturalmente destinado a uma vida de guerra, de corte, de governo e de movimento. No entanto, com o consentimento de seus pais, ele abandonou tudo e se retirou para um lugar ermo e solitário a fim de glorificar Nossa Senhora. Para ter garantia de não ser importunado por ninguém, dirigiu-se a uma alta e fria montanha, onde pretendia levar vida de penitência. Porém, é admirável verificar como as almas que se isolam por amor a Deus, acabam tendo muito mais poder de atração.

Assim, como tantas vezes aconteceu ao longo da História da Igreja, em torno dos eremitas se constituem comunidades, a ponto de, muitas vezes, aqueles que tinham deixado tudo para viver isolados acabam por se transformar em cenobitas, levando vida comunitária.

Tal foi o que se deu com São Guilherme, cujo exemplo atraiu muitos outros.

Certamente, muitas pessoas passavam aos pés daquela montanha: cavaleiros, estudantes que caminhavam conversando, rindo e cantando, peregrinos entoando canções sacras. Pode-se supor que no alto do monte houvesse um cruzeiro junto ao qual se encontrava a choupanazinha de São Guilherme.

Os que por lá passavam, inevitavelmente, deviam procurar saber quem vivia no cume daquela montanha, sendo-lhes respondido tratar-se de Guilherme, um nobre, que deixou tudo para viver em oração.

Com isso, cada vez mais pessoas desejavam poder um dia subir aquela escarpada montanha a fim de conhecer o nobre Guilherme.

Além disso, deviam circular notícias de que alguns, estando em dificuldades, foram ter com Guilherme, e este rezando por eles obteve-lhes imediata solução.

Assim crescia o número de pessoas que subiam ao monte para rezar. Em baixo havia o bulício próprio às estradas medievais, enquanto em cima se gozava da quietude e da serenidade da companhia de Guilherme.

Ao longe, talvez alguns permanecessem contemplando São Guilherme rezar ou preparar lenha para fazer sua refeição, após a qual começa a varrer sua pobre habitação. Tudo isso feito de modo tão direito, sábio, calmo, piedoso e composto, que devia dar às pessoas uma indizível paz, ânimo e arrojo interior.

Aprendendo pela contemplação

Conta-se a respeito do Bem-aventurado Miguel Rua, segundo Superior Geral dos salesianos, sucedendo a São João Bosco, que sendo ainda seminarista, este frequentemente era destacado para servir de secretário a São João Bosco. Perguntaram-lhe, então, certa vez, se não lhe incomodava o fato de não poder estudar durante esses dias. Ele respondeu: “Em três dias que passo servindo a D. Bosco eu aprendo mais Teologia do que estudando em livros o ano inteiro”.

Do mesmo modo, quantos podiam contemplar por alguns momentos a São Guilherme, deviam em sua presença aprender mais a respeito da Igreja do que através de muitos estudos e pregações.

Então começaram a surgir alguns que decidiam permanecer na companhia do santo. Estes talvez dissessem aos que os tinham acompanhado: “Ficarei aqui. Diga àqueles com quem tenho relações que eu fiquei ao lado de Guilherme, mas que no Céu nos encontraremos. Aqui estarei rezando por eles.”

Desta forma, aos poucos foi se constituindo um cenóbio, depois uma Ordem Religiosa, e começavam então as maravilhas de Guilherme.

A força de um santo

Porém, não tardou em acontecer-lhe algo de muito trágico e doloroso. Sendo pai de uma família religiosa, dela foi expulso por seus próprios filhos espirituais, os quais certamente andavam mal e não davam contentamento a ele. Porque, sobretudo o que é muito mais sério, eles não davam a glória devida a Nossa Senhora. São Guilherme, aos olhos de seus discípulos, devia atrapalhá-los na vida torta que tinham adotado. Apesar de terem vindo morar no alto da montanha a fim de gozar da companhia de São Guilherme, chegaram ao desvario de expulsá-lo.

Então, o santo desce sozinho a estrada, apoiado num bordão. Enquanto a porta se bate à sua saída e um monge revoltado grita: “Afinal, estamos sós e independentes desse homem demasiado severo!” São Guilherme, tranquilo e rezando, vai descendo por caminhos desconhecidos, até chegar a uma estrada que o conduziria a Nápoles.

Mas, quem pode expulsar um santo quando este quer ficar? Qual a força que nessa vida é comparável à de um santo?

São Guilherme não quer a perdição daqueles monges; por isso, ao andar pelas estradas, ele vai rezando por eles. Ele pede a Nossa Senhora, sob cuja égide o mosteiro estava construído, a expulsão dos demônios que ali entraram, promovendo assim a volta de seus discípulos ao bom caminho.

Rejeitado pelos discípulos e acolhido pelo Rei

Tranquila e serenamente, por alguma razão ignota, o santo vai a Nápoles. Lá ele encontra um cenário muito diverso. Antes de tudo pela vista da célebre baía de Nápoles, tendo ao fundo o Vesúvio fumegando; depois, por ser uma cidade populosa, com um porto movimentado, donde se vislumbra o palácio do Rei de Nápoles, um dos potentados da Península Itálica, essa cidade era um centro de cultura e de civilização, certamente uma corte em franco progresso e expansão da arte e do bom gosto.

Não tardou para o Rei ser informado da presença deste santo. Mais uma vez sua vida passaria por uma transformação: de abade tornou-se peregrino, agora passaria a ser conselheiro do Rei.

Porém, com a mesma serenidade, tranquilidade e sabedoria, ele continua rezando, mas também aconselhando o Rei, o qual nutria grande apreço por aquele que a loucura de uns monges desvairados tinha sido a causa de sua presença junto a ele. Muitos tiveram que galgar uma alta montanha para encontrar Guilherme, enquanto o Rei o encontrou ao lado de seu trono.

Em meio ao esplendor do cenário da corte de Nápoles, com suas belas tapeçarias, feéricos vitrais e magníficas construções em granito, pode-se imaginar o Rei despachando, com os olhos postos em Guilherme, atento a seus conselhos. Quando, em certo momento, surge-lhe uma dúvida, apressa-se em perguntar a opinião de Guilherme. Assim, aquele santo humilde, apagado e posto de lado, reina por sua influência sobre o soberano.

Contudo, as saudades vibram no coração de Guilherme e o fazem tomar a resolução de ir visitar seus monges. Perdoando-os como o Bom Pastor que ama suas ovelhas, a ponto de ir à procura das que se desviaram, e mais ainda se revoltaram contra ele, expulsando-o do meio delas, ele, como uma espécie de anjo da guarda, paira sobre o convento, para que ele não desapareça.

Alegria do superior pelo progresso dos subalternos

Assim, após algum tempo, ele volta para visitar os monges ingratos. Suas preces venceram a dureza daqueles corações, encontrando-os, cheios de fervor. O contentamento que Santa Mônica terá sentido ao ver seu filho convertido deve ter sido muito menor do que a deste abade e fundador ao ver convertida toda a sua Ordem Religiosa. Algum tempo depois, ele morreu naquele monte onde tinha constituído seu convento.

Dir-se-ia estar terminada a história. No entanto ela continua, pois a Ordem fundada por São Guilherme, por diversas razões, não consegue manter-se sozinha, acabando por extinguir-se, enquanto o convento foi dado aos beneditinos, cuja sede principal, o Monte Cassino, ficava a pouca distância de lá.

O suave perfume de uma flor conservada pela Tradição

Os padres beneditinos deram uma prova da boa recordação que conservaram de São Guilherme. Pois os beneditinos que foram morar no monte onde este santo fundou seu mosteiro, continuaram usando o hábito da Ordem Religiosa fundada por São Guilherme, manifestando assim um lindo espírito de tradição. Deviam ter a ideia de que lá não se podia usar outro hábito a não ser o de São Guilherme, para dar a entender que os que lá vivem estão como hospedes, pois o dono da casa é São Guilherme; por isso, eles só residem lá para manter a ordem do local, à espera do dia em que filhos do dono, suscitados pela graça, venham para restaurar a Ordem e reocupar a casa paterna.

Como seria bonito que, em meio aos desvarios do mundo moderno, um europeu suscitado por Nossa Senhora, tomasse a resolução de restaurar a Ordem Religiosa de São Guilherme, fazendo reviver dentro da Igreja essa flor conservada pela piedade beneditina dos grandes tempos.

Morrer sob o amparo de Maria

Os dados biográficos não narram a morte de São Guilherme. Alguns poderão imaginá-la como tendo sido repentina, a qual para um santo tem sua beleza, pois ele de repente passa das agruras desta Terra para a visão direta de Deus.

Porém, outros podem figurar uma morte lenta e longa, na qual o santo passa para o Céu, mais ou menos como um grande rio entra no oceano, vagarosamente, até exalar o último suspiro.

Pode-se também conceber um tipo de morte, o qual sempre me impressionou, e que vi representada num vitral do Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Nele estava São Bento, em pé, acabando de dar a seus discípulos uma última lição, a qual alguns ouviam entusiasmados, outros recolhidos. Na legenda embaixo, lia-se: “Eflavit spiritum — Ele rendeu seu espírito”. Após as últimas palavras de edificação ele foi para Deus!

Enfim, a morte de São Guilherme pode ser imaginada de múltiplas formas, porém, certo é que, tendo ele fundado um convento dedicado a Nossa Senhora, Ela o protegeu especialmente na hora de sua morte.

Por isso, nós não devemos nos importar como morreremos, mas somente devemos desejar neste momento estarmos postos nas mãos de Maria Santíssima. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/6/1976)

24 de junho – Combateu os vícios propulsores da Revolução

Combateu os vícios propulsores da Revolução

São João Batista disse a Herodes aquilo que hoje ninguém tem coragem de dizer à Revolução: “A ti não é lícito!”
Aquele que era o modelo da penitência foi chamado a preparar as almas para receber Nosso Senhor, abatendo as colinas, isto é, quebrando o orgulho, e preenchendo os vales, ou seja, eliminando a impureza. Portanto, suprimindo os dois vícios que são as causas da Revolução: orgulho e sensualidade.
Quem de tal maneira calcou aos pés a soberba e a luxúria foi também uma magnífica manifestação do destemor.


Sem dúvida, o homem que abateu o orgulho, lutou contra a impureza, disse as verdades e cortou o caminho à impiedade, era digno de ser o precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Deveríamos nos inspirar nesse modelo para ser varões sérios, altaneiros, intrépidos, corajosos, que falam em nome de uma verdade eterna e, por isso, não se sentem intimidados nem diminuídos diante de ninguém.
Rezemos a São João Batista pedindo-lhe que nos obtenha o ódio aos dois vícios propulsores da Revolução e a coragem de dizer a verdade integral em face de quem quer que seja.

(Extraído de conferências de
24/6/1965 e 20/9/1965)

24 de junho – São João Batista, percursor do Cordeiro de Deus

São João Batista, percursor do Cordeiro de Deus

No mês de junho a Igreja comemora a festa de São João Batista, o Precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Apresentamos a nossos leitores um eloquente comentário tecido  por Dr. Plinio, pelo qual conheceremos mais profundamente a vida e a personalidade daquele santo varão cuja voz clamou no deserto, preparando os caminhos do Senhor.

 

A vida e missão profética de São João Batista, marcadas pela vigorosa personalidade do Precursor, teve um início que nos enche de admiração e enlevo, por nele estar envolvida a própria Mãe de Deus.

Como se sabe, na mesma ocasião em que o Verbo Eterno se encarnava no seu seio puríssimo, Nossa Senhora recebeu do Anjo a revelação de que sua prima Isabel também esperava uma criança. Ciente dessa feliz circunstância, Maria decidiu atravessar as estradas e montanhas da Judeia para se encontrar com sua parente e compartilhar com ela as alegrias daquela futura e tão ansiada maternidade.

O encontro entre as duas é uma das mais lindas páginas da História Sagrada, magistralmente imaginado e retratado pelos maiores artistas da iconografia católica.

Além disso, foi nesse momento que Nossa Senhora entoou o único hino que se tem notícia haver brotado de seus lábios virginais — o “Magnificat” jubilosa do Batista, conforme o exprimiu Santa Isabel: “Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio” (Lc 1, 43-44).

Nossa Senhora falou, e um frêmito de contentamento percorreu o frágil corpo do menino no claustro materno. Por quê?

Segundo conceituados autores — não se trata, portanto, de opinião imposta pela Igreja —, São João Batista, sendo o último dos profetas do Antigo Testamento, podia aquilatar o que representava a Mãe de Deus e o significado da Encarnação que n’Ela se operara, tão intimamente relacionada com sua missão. Afinal, ele iria anunciar o advento iminente do Salvador do mundo. Assim, ao ouvir a voz da Virgem Bendita, ao sentir a presença de Deus, o menino estremeceu de alegria. E, também de acordo com os teólogos, nesse momento, ainda no seio materno, ele foi santificado por Maria.

Podemos conjecturar que Nossa Senhora comunicou, de um modo misterioso, algo do espírito d’Ela a São João Batista. E tudo quanto este fez em sua vida, era uma decorrência dessa graça inicial recebida pela intercessão de Maria, constantemente intensificada até atingir uma plenitude no momento de seu martírio. Então, o São João Batista asceta e austero, o pregador do Cordeiro Deus, o herói que enfrenta Herodes e morre como testemunha da Fé, sublime de grandeza e de serenidade, nos revela reflexos da própria alma de Nossa Senhora que lhe foram participados no encontro das duas primas.

Desse fato maravilhoso decorre uma importante aplicação para nossa vida espiritual. Pois nele discernimos o poder insondável de Nossa Senhora como Medianeira de todas as graças e onipotência suplicante em nosso favor. O eco da voz d’Ela santificou um homem de um momento para outro, infundiu-lhe um grau eminente de perfeição moral.

Ora, isso é o que devemos esperar que a Santíssima Virgem obtenha para cada um de nós. Peçamos a Ela, com inteira confiança, que fale no íntimo de nossa alma, e que esse timbre imaculado nos santifique de um instante para outro, concedendo-nos uma virtude que anos de lutas e de trabalhos não nos proporcionaram. Por isso, todo aquele que tenha algum desânimo, tristeza ou perplexidade na vida espiritual, pode fazer sua a prece que a liturgia tomou das palavras do centurião a Jesus, e dirigir-se a Maria Santíssima: “Senhora, eu não sou digno de ouvir a vossa voz, mas dizei uma só palavra e a minha alma será transformada, se Vós assim o quiserdes”.

Portanto, devemos desejar que a voz de Nossa Senhora nos toque a alma e a faça estremecer de júbilo, como o fez com a alma de São João Batista.

Semelhança física com Jesus

A par desse extraordinário acontecimento ocorrido nos primórdios de sua existência, é sobremaneira belo considerarmos o papel de São João na vida do Filho de Deus. Basta imaginarmos quantas vezes Nosso Senhor não terá louvado e glorificado São João Batista no interior de sua alma! Quanto vezes, pregando para as multidões, observando a alma deste, daquele ou daquele outro, preparada pela “voz que clamava no deserto”, terá pensado: “Aqui passou o meu dileto, meu precursor, o homem nascido do mesmo sangue que eu, descendente de David, abrindo os caminhos dos corações para Mim. E naquele lampejo de virtude, naquele olhar de simpatia, naquele ato de adoração, naquela maior facilidade para tal conversão, naquela pureza expressa em tal outra alma, vejo o fruto da pregação do meu dileto!”

Quantas e quantas vezes assim se encontraram as almas do Precursor e de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Agora, qual era o aspecto físico e o semblante moral desse homem?

As descrições no-lo apresenta um tanto parecido com Nosso Senhor. Jesus era de estatura elevada, de uma compleição harmoniosa e forte, com uma plenitude de varonilidade unida a uma delicadeza e a uma nota de sobrenatural, constituindo um todo do qual podemos ter ideia contemplando o Santo Sudário de Turim.

Assim também seria São João Batista, porém com uma característica diferente. O Precursor representa a penitência, o jejum, a flagelação, a solidão no deserto, a mortificação. Por causa disso, seu corpo tinha a pele bronzeada por mil sóis, pelos calores ardentes do Oriente Médio. Além disso, apesar de forte, sem ser esquelético nem de natureza doentia, era entretanto muito magro, de tal maneira os jejuns o haviam consumido.

Retidão e severidade

Quanto ao feitio moral, é inegável que São João Batista, embora repassado de bondade e compaixão, era a própria representação da severidade. Ele peregrinava por todas as partes clamando: “Fazei penitência, porque o Senhor está próximo!”, e sua única preocupação era a de cumprir a vocação para a qual fora suscitado: levar os corações a se purificarem, para receber dignamente o Messias.

Ora, fazer penitência não é coisa simples. Só se convence alguém a se mortificar, quando o convencemos de que pecou. E nisso estava o cerne da missão de São João Batista. Quer dizer, ele se entregara ao jejum e aos sacrifícios, para pagar pelas faltas do povo. Para que Deus, em atenção à penitência que ele próprio praticara, concedesse eficácia às suas palavras e perdoasse aqueles aos quais pregaria.

Porém, para aquela gente em grande parte tomada pela ganância, voltada para as coisas terrenas, adoradora do conforto e da vida agradável (na medida que as condições daquele tempo o permitiam), aparece um homem que era o contrário de tudo isso. Desprendido, desapegado, um facho ardente de amor de Deus, vivendo apenas para realizar sua tarefa. Àqueles que esperavam um Messias temporal, um rei poderoso, este era anunciado, não por um guerreiro nem por um potentado, mas por um homem penitente.

O Batista produziu um choque nas pessoas. E o contraste do homem sensual, ganancioso, com aquele varão reto, simples, eloquente, que o tempo inteiro bradava: “Fazei penitência!”, deixava as consciências profundamente abaladas. Ele produzia uma grande vergonha. As pessoas compreendiam, no contato com São João, que não deviam ser ruins. E o Precursor completava esse efeito, dizendo-lhes: “Endireitai os caminhos do Senhor. Aí vem o Messias. O dia de Deus está próximo”, etc.

Ele era, portanto, a própria expressão da limpeza de alma, porque o puro detesta o sujo, o reto detesta o sinuoso, o corajoso aborrece o covarde. Nisso ele era a severidade, essa virtude pela qual se rejeita o que deve ser rejeitado. Diante das suas admoestações, os outros sentiam e reconheciam seus próprios defeitos. Ele passava e todos o respeitavam, todos os obedeciam. E assim ia preparando os caminhos de Deus.

Até o desenlace de sua intensa trajetória neste mundo, interrompida de modo criminoso pela poltronice e luxúria de um rei infame, incapaz de resistir às artimanhas da mulher que desposara ilegitimamente. A pedido dela, São João Batista morreu decapitado, vertendo seu sangue em união com o do Cordeiro de Deus, que logo seria também imolado no Calvário.

Graça a pedir a São João Batista

Uma pergunta que acredito muito interessante é esta: se São João Batista passasse por uma cidade de hoje, que efeito ele produziria? Se, de repente, em nosso bairro, em nossa rua, em nossa própria casa, surgisse esse homem com a sua fisionomia austera e bondosa, dizendo-nos: “Fazei penitência!”, que sentimentos despertaria em nós?

Imaginemos que, ao vê-lo, sentíssemos com maior agudeza todos os nossos defeitos e o mal que há neles; penetrássemos nossa consciência no mais fundo, permitindo que se realizasse conosco o que David exprime no Salmo: “Peccatum meum contra me est semper”. Ou seja, os meus pecados, minhas faltas como que se destacaram de mim e se puseram à minha frente como um outro homem, onde permanecem continuamente me censurando. Ali estou eu com todos os meus defeitos.

Achar-nos-íamos preparados para receber esta presença celeste, cheia de severidade e de bondade? Amaríamos aquele que nos apontasse os nossos defeitos por inteiro? Seríamos ávidos dessa revelação e dispostos a aproveitá-la? Nós o agradeceríamos? O que nos aconteceria?

A melhor reação que poderíamos manifestar não é outra senão de reconhecido enlevo, de humildade e sincera contrição perante as justas censuras que ele nos dirigiria. Nossa atitude deveria ser a de quem se sente feliz e aliviado por lhe terem sido reveladas as faltas que o impedem de trilhar as vias da perfeição. E exclamar: “Que maravilha de homem! Veja como ele detesta os meus pecados! Como ele é puro, íntegro, sem nada dessa mazela horrorosa que há em mim! Como ele aponta com clareza o que tenho de ruim, e me deixa contente porque alguém me admoesta como mereço!”

Em seguida, ajoelharíamos e oscularíamos os pés dele, rogando-lhe: “Ó enviado de Deus, dizei-me tudo. Necessito dessa repreensão que me tire de meu letargo espiritual e me dê vontade, finalmente, de ser bom. Fazei descer sobre mim as torrentes regeneradoras e purificadoras de vossa severidade. Falai, que eu vos escuto!”

E assim, como outrora preparou ele os caminhos do Senhor em Israel, São João Batista também aplainaria em nossas almas as veredas que a conduzem ao Reino de Deus.

Peçamos, pois, ao santo Precursor que, pela intercessão de Maria Virgem, alcance-nos da misericórdia divina essa insigne graça de reconhecermos e vencermos nossos defeitos, para nos tornarmos dignos da bem-aventurança eterna.

24 de junho – São João Batista – Modelo de Alma

São João Batista – Modelo de Alma

Modelo de alma admirativa, São João Batista anunciou a vinda do Messias e, por isso, foi seguido pelas multidões.

Contudo, ao avistar Nosso Senhor, ele proclamou: “Eis aquele que é superior a mim, eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, e do qual não sou digno de desatar suas sandálias”.

E logo depois, essa afirmação de extrema beleza: “Convém que Ele cresça; a mim me compete minguar”. Como se dissesse: “Terminou minha missão, que era de preparar os caminhos do Filho de Deus. Eu não sou nada; Ele é tudo. Importa que eu diminua, e Ele exista”.

Esplêndida expressão de quem admira e se enleva com o que lhe é superior!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 10/6/1967)

24 de junho – Uma das facetas do Imaculado Coração de Maria

Uma das facetas do Imaculado Coração de Maria

Um dos meios bonitos de conhecermos o espírito e o Imaculado Coração de Maria consiste em estudar a vida de São João Batista. Por ter sido ele santificado no seio de Santa Isabel pela palavra de Nossa Senhora, vê-se que Ela comunicou-lhe ali, misteriosamente, o espírito d’Ela. E tudo quanto o Precursor realizou em sua vida era uma decorrência dessa graça inicial recebida e constantemente intensificada, pelos rogos d’Ela.

Podemos, então, ver São João Batista enquanto asceta austero, pregador do Cordeiro de Deus que viria, e como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir, sublime de grandeza e de serenidade. É uma das facetas do espírito de Nossa Senhora.

(Extraído de conferência de 11/7/1967)

24 de junho – São João Batista

São João Batista – Modelo do perfeito devoto de Maria

Um dos meios mais belos de conhecer algo do Imaculado Coração de Nossa Senhora consiste em contemplar a vida de São João Batista.

Ele foi santificado no seio materno, assim que ouviu a voz de Maria saudando Santa Isabel.

Vê-se que, naquele momento, a Mãe de Deus comunicou misteriosamente o espírito d’Ela à criatura chamada a preparar os caminhos do Messias. E tudo quanto São João Batista realizou e cumpriu foi uma decorrência desta graça inicial que ele recebeu ainda antes de nascer. Graça esta que, pelos rogos de Nossa Senhora, foi constantemente intensificada, até atingir o auge na hora em que ele morreu.

Então podemos ver São João Batista enquanto asceta austero, enquanto pregador do Cordeiro de Deus que viria, e depois como herói que enfrenta Herodes e morre como mártir, sublime de grandeza e de serenidade. São facetas do espírito de Nossa Senhora.

24 de junho – São João Batista – Modelo do perfeito devoto de Maria

São João Batista – Modelo do perfeito devoto de Maria

São João Batista é uma alma tão ardentemente mariana que, ainda no seio materno, prestou a Nossa Senhora um ato de devoção intensíssimo. Ele é o apóstolo, o discípulo fiel, o devoto perfeito da Santíssima Virgem, que ouve sua voz, nela discerne os primeiros ecos da voz do Cordeiro de Deus que ele devia anunciar e estremece inteiramente de gáudio.

Devemos, portanto, venerar em São João Batista o modelo do verdadeiro e perfeito devoto de Nossa Senhora, pedindo-lhe que faça de nós perfeitos devotos d’Ela e tenhamos um ouvido interior por onde, quando ouvirmos a voz de Maria Santíssima, estremeçamos de gáudio também, de maneira a nunca um pedido d’Ela nos encontrar de má vontade, tristes, aborrecidos, com desejo de não atendê-La. Pelo contrário, sua voz nos faça estremecer de alegria até quando diga uma palavra austera de renúncia, de sacrifício e sofrimento.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/6/1964)

Revista Dr Plinio 255 (Junho de 2019)

22 de junho – Fruto da santidade da Igreja

Fruto da santidade da Igreja

Na história da Inglaterra, vemos os grandes processos de atonia, de tibieza, de indiferentismo que preparam depois toda a massa católica para as maiores defecções que deram no protestantismo.

Mas, ao lado disso, nos deparamos com uma coisa bonita: a permanência da nota da santidade da Igreja. Porque, apesar de todas essas tristezas, é na Igreja que se vão encontrar os mártires, os homens de um caráter admirável, que preferem tudo a ceder diante do adversário, e que expõem tudo quanto têm, e até a própria vida, para se manterem fiéis à verdadeira tradição e à continuidade eclesiástica.

Quer dizer, mesmo quando a putrefação invade os meios católicos, a santidade da Igreja produz frutos excepcionais e tão maravilhosos como fora da Igreja não se encontram.

Assim, ao mesmo tempo em que a Igreja é traída, renegada, vemo-la deitar uns lampejos memoráveis que provam a divindade dela. Nisto está uma espécie de afirmação contínua da assistência do Divino Espírito Santo na Igreja.

Esta me parece ser a reflexão mais oportuna que podemos fazer sobre o martírio de São João Fisher.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/6/1965)