Junho – Sagrado Coração de Jesus (coletânea de documentos)

Sagrado Coração de Jesus (coletânea de documentos)

Legionário, 21 de julho de 1940 – Nossa Senhora do Sagrado Coração / A devoção ao Sagrado Coração de Jesus – O Sol do Amor de Deus

Legionário, 22 de junho de 1941 – O Sagrado Coração de Jesus / Esforcemo-nos por que essa devoção triunfe autenticamente (e não apenas através de alguns simbolismos da realidade) em todos os lares, em todos os ambientes e, sobretudo, em todos os corações. Só assim conseguiremos reformar o homem contemporâneo.

Catolicismo, junho de 1953 – Devoção ao Coração de Maria leva à plenitude o culto ao Sagrado Coração de Jesus

Catolicismo, agosto de 1956 – O culto ao Coração de Jesus: seu verdadeiro sentido, importância e atualidade / Apostolado não é ocultar às almas sua malícia, mas lavá-las na misericórdia de Deus

Artigo na revista espanhola “Cristiandad”, de novembro de 1958 – O sentido contra-revolucionário da obra de dois santos

Santo do Dia, 4 de junho de 1964 – Palavras de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque: promessas inexcogitáveis de tantas riquezas, tão simples de serem concretizadas… e tão desprezadas!

Santo do Dia, 4 de março de 1965 – A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Contra-Revolução

Santo do Dia, 24 de junho de 1965 – Comentários a invocações da ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 14 de abril de 1984 – Sagrado Coração de Jesus: procurar admirar e adorar Seus atributos mais diversos e harmônicos

Santo do Dia, 6 de fevereiro de 1987 – Santuário do Sagrado Coração de Jesus: recolhimento, proteção e difusão de bênçãos

Santo do Dia, 14 de março de 1993 – SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS: a imagem da certeza

Santo do Dia, 10 de julho de 1993 – As harmonias do Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 5 de março de 1994 – Como amar a Deus apaixonadamente? “Eis o Coração que tanto amou os homens”: o Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 12 de março de 1994 – A Santa Igreja Católica tem verdadeiras maravilhas, mas, sob certo ponto de vista, a maior delas é o amor do Sagrado Coração de Jesus

1997 – O importante papel que a igreja do Sagrado Coração de Jesus desempenhou na formação de Plinio Corrêa de Oliveira

“Nada temas – disse Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque. Eu reinarei apesar de Meus inimigos”. “Se tu crês, verás o poder de Meu Coração”. Abaixo, parte do altar na capela onde se encontram as relíquias de Santa Margarida Maria, no Santuário de Paray-le-Monial (França).

Abaixo, Imagem do Sagrado Coração de Jesus que se encontra em altar lateral, no homônimo Santuário na capital paulista

05 de junho – São Bonifácio, Bispo, lutador contra as heresias e mártir. Patrono da Alemanha

São Bonifácio, Bispo, lutador contra as heresias e mártir. Patrono da Alemanha

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Vigília da festa de Corpus Christi e festa de São Bonifácio, Mártir. Eu vou dar alguns dados tirados do livro “La vie des Saints”, de Rohrbacher:

“São Bonifácio viveu de 675 a 754 (portanto na alta Idade Média). Nasceu na Inglaterra, seu nome de batismo foi Winfried, mudado mais tarde pelo Papa para Bonifácio. Aos sete anos entrou no mosteiro de Nurslig, sentindo depois claramente que sua vocação era converter os povos pagãos. Dedicou-se especialmente a evangelizar os anglo-saxões da Germânia, disto sendo encarregado por Gregório II (Papa). Auxiliou Carlos Martelo na reforma da Igreja da França e convocou concílios para reprimir a simonia. Foi martirizado em Dokkum (Frísia). Seu corpo repousa em Fulda (Hesse), onde é objeto de veneração de toda a Alemanha católica, da qual ele é patrono”.

Para os senhores terem um pouco a ideia do papel deste santo na fundação da Idade Média, talvez valha a pena reunir um pouco, num só panorama, esses dados muito sumários que estão apresentados aqui nesta ficha.

Os senhores têm em primeiro lugar São Bonifácio como monge, numa época em que o que a Igreja tinha de mais dinâmico era o monaquismo, quer dizer, as instituições de grandes conventos e grandes conventos de frades que viviam recolhidos. O próprio do convento beneditino não era de se situar em cidades como hoje, mas era de situar-se em solidões e eles atraiam às solidões e as cidades se formavam em torno deles.

Ele participou ativamente da obra eclesiástica mais importante de seu tempo e da qual haveria de nascer futuramente a Idade Média. Os senhores têm visto, pelas conferências do Prof. Fernando Furquim, a importância de Cluny na Idade Média. São Bento é o “avô” de Cluny, se se pode dizer assim, é dele que nasceu Cluny.

Depois os senhores têm nele um outro aspecto: é o missionário. E uma das grandes obras da Idade Média foi a evangelização dos povos bárbaros. Antes da queda do Império do Ocidente os senhores têm toda a parte da Europa que fica para além do Danúbio que era bárbara. Mas bárbara como são bárbaros os índios que hoje podem existir ainda pela selva sul-americana.

Esta obra foi, portanto, uma obra grandiosa, porque foram povos enormes de grande valor etc. que foram incorporados à civilização e sobretudo à Cristandade. E esta obra foi, em grande parte, dos monges, mas de São Bonifácio maximamente. Os senhores estão vendo, portanto, um segundo aspecto.

Terceiro aspecto. Uma parte da Europa era católica: França, Itália, Inglaterra, um pouco a Espanha. Mas essa Cristandade estava podre de todas as podridões herdadas do Império Romano e a Idade Média remediou e sanou essa podridão.

Os senhores veem São Bonifácio atuando de um modo capital nesse ponto, pelo combate na mais importante nação católica, que era naquele tempo a França: ali ele combateu a heresia e a simonia. O que vem a ser a simonia? É a venda dos cargos eclesiásticos: vender dioceses, um bispo que vende nomeações de padres etc.

Os senhores estão vendo, portanto, que ele foi uma coluna e um luzeiro do seu tempo, um dos maiores homens de todas as épocas. Aqui os senhores têm uma ideia de conjunto da obra extraordinária de São Bonifácio.

A época dele foi uma das maiores da Igreja, em que Ela fez maiores coisas, primeiro dado. Segundo: em tudo quanto Ela realizou de grande, São Bonifácio colaborou. Terceiro: colaborou grandemente, capitalmente, foi uma figura capital nessa colaboração.

Depois de terem compreendido um pouco esta figura, os senhores vão ver então o alcance do juramento que fez ao Papa Gregório II quando foi sagrado bispo. Ele assinou esse juramento e colocou-o sobre as relíquias de São Pedro:

“Em nome do Senhor, Nosso Deus e Salvador Jesus Cristo. Ano VI do reinado do Imperador Leão e IV de seu filho Constantino, indicação VI. Eu, Bonifácio, bispo pela graça de Deus, prometo a Vós, bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos e a vosso Vigário, bem-aventurado Papa, bem como a seus sucessores, pela indivisível Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e por vosso Sagrado Corpo aqui presente, que conservarei sempre a pureza da fé católica na unidade da mesma crença, na qual, fora de dúvida, está a salvação de todos os cristãos; que não atentarei jamais contra a unidade da Igreja Universal, mas terei sempre uma fidelidade integral, um empenho sincero por Vós e pelos interesses de vossa Igreja, a quem o Senhor deu poder de ligar e desligar, bem como ao vosso Vigário e seus sucessores, que não terei jamais comunhão alguma com os bispos que vir se afastarem dos caminhos antigos traçados pelos Santos Padres; que se puder, impedirei sua ação, caso contrário, denunciá-los-ei ao Papa e meu Senhor.

“Se, o que não apraza Deus, agir de alguma forma contra essa promessa, seja eu considerado culpado no julgamento de Deus, recebendo o castigo de Ananias e Safira, que vos quiseram mentir. Eu, Bonifácio, humilde bispo, assinei de próprio punho o formulário desta promessa, e colocando-a sobre o Sagrado Corpo do bem-aventurado Pedro, como é prescrito, prestei este juramento na presença de Deus, que é testemunho e juiz e prometo guardá-lo bem”.

Esse juramento é lindíssimo, porque contém uma parte que é um ato de fé que faz na Igreja Católica e na Santa Sé romana. E contém um ato de fidelidade, quer dizer, ele se liga especialmente à Cátedra de Pedro por este juramento, como é seu dever de bispo.

Então, o que promete? Ele promete que será sempre fiel ao Papado. E que – isto que contém maior ensinamento para nós – jamais terá nada de comum com os bispos maus, que se desligam da obediência de Roma. Mais ainda: promete intervir e impedir a ação destes bispos. E mais ainda: se não consegui-lo, denunciará ao Papa. Ou seja, ele promete uma guerra total contra os bispos maus.

Pede para si mesmo um castigo, caso ele não proceda bem. Qual é o castigo? O de Ananias e Safira. Qual é o castigo de Ananias e Safira? Os senhores se lembram, os Atos dos Apóstolos contam isso: Ananias e Safira era um casal que tinha bens; eram católicos e se apresentaram a São Pedro entregando uma certa porção de seus bens e dizendo: “Aqui está tudo o que possuímos, isso nós damos à Igreja”. São Pedro diz: “Vós mentis ao Espírito Santo, porque eu sei que vós dais uma parte dizendo que é tudo, mas guardais ocultamente outra para vós”. E os dois caíram mortos.

Que relação há entre o juramento dele e o ato de Ananias e Safira, se fosse infiel? Nesse juramento ele está afirmando, portanto “Eu prometo tudo a Deus”. Se ele reservar alguma coisa para si, comete o pecado de Ananias e Safira. Então, pede que caia morto no momento em que tenha cometido esse pecado. Naturalmente, subentende-se que pede a penitência final, pede a salvação. Mas ele pede sobre si mesmo o castigo.

Gregório II, que era o Papa, escreveu uma carta recomendando-o ao clero e à nobreza da França. A missiva tem esse trecho:

“Se alguém, o que não apraza a Deus, vier opor-se aos seus trabalhos e estorvá-lo no ministério, a ele e a seus sucessores no apostolado, que seja anatematizado pela sentença divina e fique sujeito à condenação eterna”.

Os senhores estão vendo bem com que vigor se procedia naquele tempo. Quer dizer, errou, cai em cima a condenação e está acabado: fica sujeito à condenação eterna.

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, isso não importa numa certa cólera e, portanto, numa certa imperfeição?” Não. Não é a cólera contra o pecador, mas contra o pecado, que atinge o pecador, porque ele pecou. É um tempo de lógica e coerência, de severidade e de justiça.

Os senhores dirão: “Mas, Dr. Plinio, isso na nossa época não haverá…” Eu digo: meus caros, e as promessas dos castigos que Nossa Senhora fez em Fátima [a “Bagarre”, termo resumitivo de tais promessas e utilizado na linguagem corrente da TFP, n.d.c.], caso a humanidade não se convertesse? O que é a “Bagarre” senão isso? A “Bagarre”, na qual a gente tem tanta preguiça em crer?… A “Bagarre” é precisamente isso: num determinado momento a taça da ira de Deus, da cólera de Deus, está repleta e Deus descarrega o pulso dele sobre o mundo. É essa a teoria da “Bagarre”.

O que devemos considerar na “Bagarre”? A beleza, a santidade de Deus, porque a santidade não brilha só pelo fato de ela ser a fonte do bem, ou ser o próprio bem, mas brilha pelo horror que ela tem ao mal. É uma beleza a gente ver essa completa rejeição do mal que tem a santidade, de maneira tal que podemos e devemos amar estas fórmulas severas da Igreja que nos mostram o horror dEla ao mal e, portanto, o bem que há nEla.

03 de junho – as grandes vocações são belas como as flores dos cactos

Santa Clotilde e as grandes vocações são belas como as flores dos cactos

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Santa Clotilde (474-545) – Estátua da Igreja de São Germano de Auxerre (Saint Germain l´Auxerrois), em Paris. Feita em 1841 pelo escultor Louis Desprez. Foto de © Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons, CC BY 3.0

Hoje é 3 de junho, festa de Santa Clotilde, viúva. Da oração litúrgica na festa dela, nosso calendário tirou a seguinte frase: “Ela foi rainha da França, filha do rei Quilperico II, esposa do rei Clovis. Às suas orações, a França deve o dom da fé”.

Uma referência tirada de Dom Guéranger, de sua obra “L’Année Liturgique”:

“Santa Clotilde foi aureolada pela glória de uma maravilhosa maternidade espiritual, pois foi graças a essa rainha que, numa noite de Natal, nascia nas fontes batismais de Reims a nação primogênita da Igreja. Clotilde foi preparada pelo sofrimento para o grande destino que Deus lhe reservava. A morte violenta de seu pai, destronado por um usurpador fratricida, seus irmãos massacrados, sua mãe afogada no Ródano, seu novo cativeiro na corte ariana do carrasco que trazia consigo a heresia ao trono dos borguinhões, desenvolveram nela o heroísmo do martírio e a fizeram mãe de um povo”.

Dom Guéranger tem um estilo único, eu só não sei se é muito claro para os de gerações mais recentes…

Abreviadas as coisas, o fato é o seguinte: Santa Clotilde era filha do rei dos borguinhões. O pai dela era católico e o irmão do pai dela, portanto tio dela, era ariano. O arianismo constituía uma heresia terrível que infestou a Igreja durante séculos, uma coisa bárbara. E esse ariano matou o católico e dizimou toda a família de Santa Clotilde, o que os senhores acabaram de ouvir. A mãe foi jogada no Ródano, enfim, uma chacina completa, os irmãos foram mortos etc.

Nunca obtive uma explicação do motivo pelo qual Santa Clotilde não foi morta por esse mesmo sujeito. Ele a levou para sua corte e a tinha ali como uma espécie de sobrinha de segunda categoria, meio prisioneira, em cativeiro.

Clovis, que era o rei dos francos, uma nação vizinha dos borguinhões, quis se casar com ela, a qual perguntou então como é que seria a questão de sua fé. Clovis, apesar de pagão, garantiu que lhe daria liberdade de conservá-la. Santa Clotilde, então, se casou com Clovis, o qual respeitou sua fé.

Dom Guéranger mostra muito bem o contraste que havia no começo da vida dessa rainha e o fim. No começo opressa, perseguida etc. De repente, ela sobe ao trono, mas era de um rei pagão e bárbaro. Ela se casa com o bárbaro, mas este se converte, daí nascendo uma nação católica. Os senhores veem aí, portanto, a linda vocação de Santa Clotilde!

Todas as vocações muito bonitas começam de um modo tremendo: contra golpes, dificuldades, coisas impossíveis etc. etc. Mas é desses espinhos que nasce a vocação bonita. Fala-se muito da beleza da rosa, mas há uma outra que na minha opinião rivaliza com a rosa em beleza e talvez seja mais bonita: é a flor – o Dr. Eduardo pode dizer exatamente que for é, eu vou dar uma noção ultra imprecisa – mas é a flor do cactos.

Há um tipo de cactos que dá uma flor meio azul, meio vermelha – não sei se os senhores conhecem -, uma verdadeira maravilha! O cactos é uma planta horrenda, “de lo último”. Basta dizer que é “moderna”… É grossa, espinhada, sem cheiro, sem forma, de um jeito monstruoso, uma espécie de animal antediluviano em ponto vegetal. Porém disso nasce essa beleza que é a flor do cactos.

Assim também são as grandes vocações. Elas nascem de sofrimentos que não têm nome, nem palavras, nem eira nem beira, decepções, coisas que se entrecruzam, que derrocam, que não têm caminho etc., etc. No meio disso tudo, o “cactos” vai produzindo a sua flor. E, afinal de contas, acaba desabrochando em algo mais bonito, que é a vocação, cujo êxito não se deve a nenhuma mão de homem, não se deve a nada que tenha tido início no homem, mas se deve a Nossa Senhora!

É pena eu não ter a Epístola da Missa do Domingo passado aqui, para comentar com os senhores. Achei muito bonita! São Paulo diz isso: quem é que pode se gabar de ter dado a Deus algo, que depois não o tenha premiado? Ou seja, primeiro Deus nos dá algo, depois nós fazemos algo por Ele e aí Ele premeia em nós o próprio dom que Ele nos deu… Essa é a realidade, e que convém muito ter em vista.

Então aqui está Santa Clotilde: desde pequena preservada para isso, guiada para isso, não porque tenha feito algo, mas porque Deus quis e ela foi correspondendo ao que Deus quis. Aí está a santidade dela, seu mérito, mas o início foi todo ele de Deus.

Continua Dom Guéranger:
Deus quis que o homem, saindo de Suas mãos, ainda sem poder contemplar diretamente seu Autor, encontrasse como primeira tradução de Seu amor infinito a ternura de uma mãe. Isso dá às mães essa facilidade única de completar, pela educação, na alma do filho, a reprodução completa do ideal divino que deve nele imprimir-se”.

O pensamento de Dom Guéranger é belíssimo! Como Deus faz o filho nascer de sua mãe, esta tem uma intuição especial para completar no filho a obra de Deus. O que é verdade da mãe terrena, mas é muito mais verdade da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, na qual nós somos gerados e que tem, portanto, uma intuição materna para completar em nós a obra de Deus. E é também insondavelmente verdade em relação a Nossa Senhora.

“E se tão grande é a maternidade na ordem da natureza, muito mais sublime ainda o é na ordem da graça. É o exemplo da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e, como decorrência, mãe de todos os homens. E toda maternidade não foi, desde então, num verdadeiro sentido, senão uma decorrência da de Maria, uma delegação de seu amor e a comunicação de seu augusto privilégio de dar aos homens que devam ser seus filhos.

“A dignidade de mãe cristã foi acrescida por Maria a um ponto em que a natureza nunca poderia suspeitar. Como Clotilde, frequentemente a esposa, preparada pelo divino sofrimento, ver-se-á dotada de uma fecundidade mil vezes maior do que a terrena. Felizes os homens nascidos, pelo favor de Maria, dessa fecundidade sobrenatural, que resume todas as grandezas. Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência”.

Ele faz aqui uma linda comparação: o que Santa Clotilde foi para os franceses, Nossa Senhora o é para todo o gênero humano, Ela é a mãe de todos os católicos. E assim como da graça de Santa Clotilde, da beleza de Santa Clotilde, da fé de Santa Clotilde nasceu a nação que foi outrora a nação da fé, da graça e da beleza, assim também nisso temos um exemplo do que foi nascermos de Nossa Senhora. Quer dizer, Nossa Senhora nos comunica também a sua beleza espiritual, a sua graça e sua fé. Ou seja, somos filhos de Nossa Senhora porque tudo recebemos dEla, somos gerados dEla. Esse é o pensamento que está no restante da ficha.

(Extraído de O Legionário
n. 773, 1/6/1947)

 

09 de Junho – Santo Efrem, Doutor da Igreja

Santo Efrem (306-373). Mosaico no Mosteiro Novo de Quios, Grécia

Hoje é festa de Santa Teresa, viúva, filha de D. Sancho I, rei de Portugal, e irmã de duas outras Santas. Tendo sido declarado nulo seu casamento com o Rei de Leão, professou na Ordem de Cister, século XIII.

Amanhã teremos a festa de Santo Efrem sírio, Diácono, Confessor e Doutor da Igreja, chamado “cítara do Espírito Santo”, grande devoto da Virgem, lutou contra os hereges, século IV.

Há duas categorias de santos na devoção popular: alguns para os quais se reza e dos quais se fala, e outros santos que foram “arquivados” e postos em silêncio, a respeito dos quais não se fala e para os quais não se reza.

Até certo ponto isso é normal. Vamos dizer que de algum modo os santos, depois de mortos, têm sua história: são canonizados e alguns chamam a atenção durante muito tempo. Mas depois, no firmamento da Igreja, há tantos santos, que a atenção dos fiéis se volta para outros e aqueles vão ficando esquecidos. O que não é um fenômeno, mas é algo que corresponde à ordem da História da Providência. Ficam no calendário da Igreja, são lembrados pela Ordem Religiosa a que pertenceram, ou pela Diocese em que nasceram etc., mas cedem lugar a outros que passam, por assim dizer, no grande palco da História, até que terminado o tempo, terminadas todas as canonizações e encerrada a História da Humanidade, esses santos serão venerados pelas almas de uma santidade inferior que também foram admitidas no Reino dos Céus.

Portanto, isso é algo natural. Porém, não é normal que todo santo que incomode a “heresia branca” [uma piedade desvirtuada por um sentimentalismo que deforma, por exemplo, o verdadeiro conceito de caridade cristã, n.d.c.] entre logo nesse “arquivo”, enquanto outros que incomodam menos, custem mais ou nunca sejam “arquivados”…

E assim temos sistematicamente um silêncio a respeito dos reis santos, a rainha santa, a princesa santa…  Quem de nós ouviu falar nessa Santa Teresa, viúva? Eu não sabia que ela existia, mas estou sabendo agora. Quais são as duas outras irmãs que ela teve e que também foram santas? Por que seu casamento com o Rei de Leão foi declarado nulo? Como foi a vida que ela levou na Ordem de Cister?

No esquema resumido que temos não se diz, nem se poderia dizer, pois não temos um hagiógrafo capaz de responder a todas essas perguntas. Mas aqui fica o ponto: como seria bom que alguém se esmerasse em ir procurando a biografia desses santos…

Por exemplo, na enciclopédia “Espasa Calpe” deve haver alguma coisa sobre quase tudo isso. Se houvesse alguém com luz primordial, com um chamado especial para isso, e que, de acordo com nosso Departamento do Exterior, escrevesse para perguntar algo sobre tais biografias, fotografias, etc… Que beleza se algum dia pudéssemos inaugurar uma galeria de estampas bonitas, feitas pelo Dante e pelo Humberto, representando os reis e rainhas santos com a coroa na cabeça! Isso seria algo muito esplêndido!

A vida de todo santo é cheia de surpresas. Quando comecei a ler a vidas de Santos bem escritas e documentadas, comecei a me entusiasmar e compreendi que toda vida de santo é isso. Há um trecho da Sagrada Escritura inserida numa liturgia referente a um Santo e que diz o seguinte: “Não foi encontrado ninguém que seja parecido com ele”. E isso se pode dizer de cada Santo, mesmo daqueles que foram muito parecidos com outros. Há peculiaridades extraordinárias, há coisas lindíssimas!

O cerne, o eixo da História da Humanidade é a vida dos Santosé para eles que ela se ordena. E o creme dos cremes da História é saber como se tornaram Santos.

Se pudéssemos tomar essas vidas de Santos, uma por uma, veríamos verdadeiras maravilhas, teríamos, assim, o nosso ciclo santoral ultramontano para quebrar a “heresia branca”.

Vou pedir a Santa Teresa – e peço que se associem às minhas orações – para ver se ela toca alguém para fazer esse serviço. Se tocar alguém, quem sabe se não fazemos uma pequena comissão de estudos? Que beleza e que surpresa podermos ostentar no Congresso 2000 de “Catolicismo”, logo na entrada, um painel de Santos aos quais esse Congresso está recomendado!

Dizem – eu acho isto um pouco… mas não deixa de ter certa razão – que quando se pede a um santo esquecido somos atendidos, porque não têm muitas pessoas que rezem para eles. Há nisso algo de verdade. Quem sabe se pedindo a estes Santos nos ajudam e trabalhamos para a glória deles?

Aqui está um ponto de partida interessante: termos na sede um relicário só para as relíquias dos Santos que foram reis, príncipes da alta nobreza etc., com uma bonita coroa encimando o relicário. Podemos fazer esta pergunta a quem fôssemos mostrar a sede: “Você gosta de venerar Santos que foram reis? Aqui há várias relíquias…”.

Outra página, outro aspecto da hagiografia (vida dos santos): todos os Santos foram devotos de Nossa Senhora, mas nem todos tiveram uma missão mariana tão definida; e de algum modo podemos dizer que nem todos foram tão marianos do mesmo modo.

Santo Efrem, de quem tratamos hoje, Doutor da Igreja, foi um dos grandes inauguradores da Mariologia. Ele tinha uma coisa muito curiosa: como era missionário e gostava de pregar a Doutrina Católica para o povo, para fazer apostolado, compôs poesias que eram cantadas. Como São Luiz Maria Grignion de Montfort, ele ensinava o povo a entoá-las. Suas canções eram tão bonitas, tão harmoniosas, sua teologia, por outro lado, era tão poética e cabia tão bem para os ouvidos populares, que foi chamado de “citarista do Espírito Santo”!

Não posso imaginar nada mais bonito e evocativo do que Santo Efrem – com um perfil fortemente oriental – sentado numa pedra, com um grande vale estendendo-se a seus pés, uma árvore bonita, uma pequena fonte, ele reclinado sobre si mesmo pensando e compondo uma bonita canção sobre Nossa Senhora, para ser entoada com aquele lirismo pastoral muito simples do Oriente, e desenvolvendo a teologia sobre Nossa Senhora de modo muito poético e agradável… E naquelas aldeias, naquelas solidões, naquelas cidades de mercados, o povo aprendendo as canções, os camponeses voltando para casa com o cântaro à cabeça e cantando as canções de Santo Efrem. Depois, as crianças cantando essas canções nos mercados ou nas reuniões de família à noite. É a linda imagem de sua alma: “citarista do Espírito Santo”!

Imaginemos uma cítara colocada sobre uma mesa e, de repente, a cítara começa a tocar sozinha. É o Espírito Santo que compõe a música. É uma canção diretamente produzida pelo Divino Espírito. A alma dele foi essa cítara, e que cantou em honra de Nossa Senhora.

E agora aqui vai outro desejo… Como Danielacho que devemos ser “varões cheios de desejos”: que Nossa Senhora nos desse citaristas para a época das realizações das promessas de Nossa Senhora em Fátima, para cantarem canções guerreiras de Nossa Senhora, e desde já formando o espírito das pessoas em função dessa época. Canções cheias de sentido, teológicas, e ao mesmo tempo cantando a beleza do heroísmo católico, a beleza das belezas.

Quem sabe se o Divino Espírito Santo inspirasse na alma de algum de nós uma canção sobre a morte de Nossa Senhora e a morte do guerreiro, a união dos dois holocaustos e o entusiasmo com que o guerreiro marcha para esse holocausto…

junho – Corpus Christi – Equilíbrio por excelência

Equilíbrio por excelência

Comentando, a pedido de seus jovens discípulos, uma das últimas fotografias de Dona Lucilia, Dr. Plinio analisa um marcante e fundamental traço da personalidade de sua extremosa mãe: o equilíbrio.

O misto de seriedade, de gravidade, de bondade e até de meiguice que se exprimem na fisionomia dela são qualidades que existem nela de um modo tão excelente, e que se combinam para formar um todo tão agradável de ver no seu conjunto, que se fica com a vontade de olhar indefinidamente.

Profunda diferença entre Dona Lucília…

Combinam-se aí algumas qualidades que são difíceis de combinar porque têm qualquer coisa de antitético. Não é de contraditório, mas que poderia parecer à primeira vista. Qualquer coisa que, por outro lado, o espírito moderno recusa profundamente, mas que por causa disso mesmo agrada nossos espíritos também profundamente. Nós vemos nela uma espécie de corretivo para o espírito moderno; há qualquer coisa de equilibrado, de tal maneira que não se saberia dizer que pudesse ser maior nela.

Essa fisionomia é a do equilíbrio por excelência. Não há – pela graça de Deus, porque essas não são qualidades meramente humanas – nenhum perigo de sair, diante de um fato que a choque muito, uma palavra desequilibrada.

Digamos, por exemplo, uma coisa que a qualquer mãe chocaria no auge: imaginem que, estando ela numa sala de sua casa, entrasse uma pessoa e lhe dissesse:

— Dona Lucília, o Dr. Plinio acaba de ser assassinado aqui na sala ao lado.

Seria um choque imenso, ela era capaz de morrer. E o indivíduo acrescentasse:

— Quem o matou fui eu.

Ela poderia ter qualquer reação, menos a de insultar o assassino.

Qual seria a reação dela? Ela poderia ficar algum tempo desmaiada, chorar com um pranto muito longo e dolorido e até gemer alto:

— Ai, meu filho!

Poderia dizer ao homem:

— Mas, por que o senhor fez isso com o meu filho?

E como as mães são todas tendentes a se iludir com o filho, ela poderia acrescentar para ele:

— Ele era tão bom. Por que o senhor o matou?

…e muitas mães imbuídas da mentalidade moderna

Entretanto dizer a ele: “Cachorro! Bandido! Ponha-se fora daqui!”, não saía. Pegar um objeto e atirar nele, não tinha possibilidade; a reação seria equilibrada.

Mas digamos que o assassino quisesse, numa dessas atitudes desequilibradas de facínora, chegar perto dela para agradá-la e consolá-la. Ela tiraria o corpo, profundamente desagradada e afirmaria:

— Não toque em mim!

Infelizmente há muitas mães, imbuídas da mentalidade moderna, que agiriam com desequilíbrio nessa ocasião. Uma primeira atitude desequilibrada poderia ser de sentir pouco a morte do filho.

— Mataram? Mas o corpo dele onde está? Precisa avisar à polícia. Vamos arranjar, então precisa vestir o cadáver…

E a coisa iria por aí.

Poderia ocorrer – se fosse uma senhora com um feitio mais tradicional, mas dentro do desequilíbrio moderno – que ela pegasse um objeto e jogasse em cima do sujeito. Infelizmente, não estaria excluída a hipótese de ela falar um palavrão.

Dona Lucília poderia dizer ao indivíduo:

— Saia de minha casa já! Não a polua com a sua presença. Eu me arranjo na pior dor da minha vida. Saia!

Porém se o assassino dissesse, contrito:

— Minha senhora, eu não sou digno de estar na sua casa, mas lembre-se de que tive uma mãe que me quis bem como a senhora amou seu filho, e tenha pena de mim.

Ela era capaz de não chamar a polícia. Se alguém quisesse fazê-lo, ela não se oporia, mas ela poderia não chamar.

Ao cabo de um ano, digamos, depois desse episódio, mamãe estaria ainda “sangrando” pelo que acontecera nesse dia. Mas ao contar o fato e se referir ao assassino, poderia dizer “infeliz” ou “miserável”. Mas chamá-lo de cachorro, monstro, etc., não faria. Havia um equilíbrio, um limite para cada coisa.

Perda do patrimônio devido à omissão de um parente

De outro lado nota-se nela um fundo de tristeza. Mas não é uma tristeza que arranque dela expressões de revolta, nem de inconformidade com os causadores dessa tristeza. Ela está olhando para o passado, medindo mais uma vez o que foi feito e que não deveria ter sido realizado, e está chorando no interior de sua alma. Mas, no fundo, ela possui a calma de uma pessoa que almoçou e está descansando um pouco, depois da refeição. É o equilíbrio! O equilíbrio no bem, na verdade, no dever, mas sempre o equilíbrio. Este era o traçado contínuo da vida de Dona Lucília: em tudo e por tudo, em todos os aspectos da sua vida, acontecesse o que acontecesse, a atitude dela era de equilíbrio.

Passou-se com minha mãe o seguinte fato: Durante uma viagem que meu pai teve que fazer a Pernambuco, ele a aconselhou, e ela aceitou: dar uma procuração a um parente dela, para que este tomasse conta dos seus bens. Esse parente, entre outras “maravilhas”, fez a seguinte: ele devia renovar o seguro do edifício contra incêndio, mas deixou esgotar o prazo e o resultado foi que, no dia seguinte ao vencimento do seguro, o prédio pegou fogo e ela perdeu o patrimônio.

É ou não é verdade que os senhores conhecem senhoras que teriam atitude de desequilíbrio nesse caso? A começar por um conselho para o parente: “Não apareça tão cedo aqui!” E podia ser em termos muito mais quentes do que esses…

Dona Lucilia, na noite do próprio dia em que aconteceu isso, quando ela ainda estava “digerindo” a péssima notícia, ele aparece e a cumprimenta. Ela disse boa-noite para ele, com calma, com normalidade, fê-lo sentar e pediu:

— Fulano, explique-me um pouco como foi isso, porque eu não entendi bem.

Ele deu a explicação, e ela depois me contou:

— Coitado desse nosso parente, passou por um grande desgosto.

Uma outra pessoa diria:

— Que me importa o desgosto dele? Foi um relaxado. Se há uma coisa que um homem que tem uma procuração não pode fazer é deixar passar o prazo de vigência de um seguro contra incêndio. Ele está gravemente responsabilizado por isso, e agora deve entrar com o dinheiro dele para ressarcir o mal que me causou.

Mas a resposta de mamãe seria:

— Oh! coitado, ele tem muitos filhos. Nós podemos viver menos bem sem isso. Não vamos escangalhar a vida dele.

Sofrer na Terra para chegar ao Céu

É um equilíbrio com bondade, onde entra muito o coração, não um equilíbrio metálico; mas que não leva a bondade a dominar a justiça. Se esse procurador tivesse lesado terceiros em benefício dela, ela teria exigido que esse homem restituísse para a pessoa lesada tostão por tostão, inclusive com os juros devidos. Sem nenhuma dúvida.

Assim eu poderia contar cem episódios, se houvesse tempo e se não tratasse de pessoas às quais alguém que tome conhecimento desses fatos possa vir a identificar, pois não quero estar difamando ninguém. Tenho certeza de que no Céu, onde ela se encontra, mamãe está aprovando a minha conduta.

Vê-se, nesta fotografia, que é uma senhora que atingiu uma idade extrema. Ela estava com noventa e dois anos nessa ocasião, idade em que falecem os que morrem tarde. Foi uma pessoa que não exerceu nenhuma profissão. Entretanto percebe-se que ela carrega consigo um grande cansaço. Cansaço do quê? Em parte é o que nós poderíamos chamar o cansaço do equilíbrio.

Cansa estar procurando o equilíbrio em tudo, e cumprindo a justiça em tudo. Levar uma vida inteiramente dentro dos Mandamentos é preparar-se para o Céu, mas ainda não é o Céu. Pelo contrário, é o sofrer na Terra para chegar até lá.

Vemos aí o extremo cansaço de inúmeras dores, de incontáveis deveres cumpridos, de situações difíceis enfrentadas e vencidas sem a menor pretensão. Ninguém, olhando para ela, diria o seguinte: “Essa senhora se considera um colosso.” Nada, nem um pouco, nem passa pela cabeça dela isso. Por quê? Equilíbrio.      

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/1/1994)
Revista Dr Plinio 268 (Julho de 2020)

junho – Corpus Christi – A grandeza do dom da Sagrada Eucaristia

A grandeza do dom da Sagrada Eucaristia

Admirador da lógica de Santo Inácio de Loyola, Dr. Plinio fez uma série de reuniões, em 1973, sobre os exercícios espirituais inacianos, comentados pelo célebre jesuíta, Pe. João Pedro Pinamonti. Nestas linhas, Dr. Plinio comenta a grandeza do Sacramento da Eucaristia.

 

“Considera que três coisas podem concorrer para fazer um dom grandemente estimável: a grandeza do mesmo dom; o afeto de quem o dá; a utilidade de quem o recebe; as quais três coisas todas se acham maravilhosamente na diviníssima Eucaristia”(1).

Gostaria que analisassem o raciocínio para perceberem como é lógico.

Ele faz aqui consideração sobre o Santíssimo Sacramento enquanto dom, ou presente. Como preliminar do assunto, explicita uma teoria a respeito do valor de um presente, aplicável a todos os dons, em todas as épocas e sobre toda a face da Terra.

E indica os três pontos que tornam um presente muito apreciado:

  1. a) a grandeza do dom;
  2. b) o afeto de quem o dá;
  3. c) a utilidade de quem o recebe.

É uma ordem perfeita e reduzida à sua expressão mais simples!

Para compreender o valor de um dom, devo analisar o objeto, a pessoa que o dá e quem o recebe. Creio ser bem perceptível a limpidez de espírito que há nesta operação mental. Desta maneira como é apresentada não há nada que escape.

Esta é uma ordem hierárquica de valores muito diversa da usada em nossos dias.

Hoje, quando se dá um presente, grande parte dos indivíduos o recebe marcusianamente(2): fazem relambórios, não sabem analisá-lo, nem dizer qual o seu valor; afirmam que gostaram etc. É uma massaroca de impressões confusas. A pessoa de espírito católico analisa seus próprios sentimentos para verificar, no que são bons ou ruins, qual a razão deles, etc. Este é o verdadeiro espírito da Igreja.

Conhece-se o caso de Santo Inácio de Loyola em que ele afirmava ser capaz de escrever as dezesseis razões — pró e contra — pelas quais cumprimentou de certa maneira algum noviço da Companhia, quando este passou perto dele em determinado momento. Quer dizer, nele tudo era bem pensado, bem calculado.

Caso dois de meus ouvintes, por exemplo, se cumprimentassem, eu gostaria de vê-los escrever três razões pelas quais o cumprimento foi daquele jeito. Creio que haveria muita dificuldade em redigir alguma coisa…

A Escritura diz que todas as obras de Deus têm conta, peso e medida. Neste comentário — que muito reflete a mente de Santo Inácio — vê-se que tudo tinha conta, peso e medida.

Tendo penetrado no firmamento do espírito inaciano, entendamos que é um firmamento ordenado, no qual tudo tem conta, peso e medida.

A primeira coisa, pois, que ele considera é o valor do dom (hoje considerar-se-ia a utilidade de quem o recebe); a segunda, quem o deu; e a terceira, a utilidade de quem o recebe. Esta é a verdadeira hierarquia.

Se alguém, recebe, por exemplo, um brilhante, numa linda caixa, primeiramente indaga qual seu valor. Depois, quem o deu. Suponhamos que lhe informem: “Foi a Rainha da Inglaterra… Ouviu falar de suas singulares virtudes e resolveu mandar-lhe este presente. Sua reação imediata: “Que psicóloga essa rainha! Ela, de longe, percebeu minhas qualidades!” E manda logo colocar na caixa um cartãozinho: “Brilhante que a rainha da Inglaterra enviou-me.”

A terceira pergunta: “O que vou fazer com este brilhante?”.

Está tudo, portanto, magnificamente pensado. Assim eu quisera que fosse cada um de nós. É um convite para um firmamento que se abre.

Continua o Pe. Pinamonti:

“Considera, pois, em primeiro lugar a grandeza do dom. Grandes coisas tinha o Senhor já dado aos homens: tinha-nos dado a nós mesmos, e juntamente nos tinha dado inumeráveis criaturas para o benefício da nossa criação e conservação: estas coisas, ainda que muito estimáveis, eram limitadas. Deu, pois, o Senhor aos homens na Encarnação um dom infinito; porém este dom foi imediatamente dado à humanidade de Jesus Cristo, e a nós por ela só mediatamente; e por isso podia ainda o Senhor dar-se a si mesmo a cada um dos fiéis em particular, estendendo desta forma o benefício da mesma Encarnação”(3).

O pensamento dele aqui é o seguinte: para cada homem, Deus deu uma série de coisas.

Em primeiro lugar o ser, pois de nada adiantaria dar-lhe todo o resto se o homem não existisse.

Além disso, criou o Céu para a Humanidade no seu conjunto e para cada homem individualmente. Porque, se um só homem se salvasse, o Céu brilharia para ele da mesma forma.

Ademais deu-nos saúde, inteligência; em síntese deu-nos todas as coisas que existem.

Sobretudo, deu a Encarnação do Verbo: Ele se fez carne para nos salvar. É um dom enorme!

Imaginemos que uma pessoa empreendesse uma viagem a outro planeta para, chegando lá, fazer a doação de um olho a alguém necessitado; consideraríamos tal gesto de uma extrema generosidade. Se fizéssemos tal coisa, acharíamos que o beneficiado deveria a vida inteira cantar louvores a nossa bondade.

Ora, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade percorreu um espaço muito mais que planetário para vir a nós. Deus verdadeiro, abaixou-se, condescendeu em fazer-se, não anjo, mas homem, para nos salvar.

São Luís, Rei da França, introduziu o costume de inclinar-se quando, no Credo, se diz: “et Homo factus est”. Porque é um dom tão extraordinário, que temos de fazer vênia para agradecê-lo a Deus.

Mais ainda: fazendo-se Homem, passou trinta anos em vida oculta com Nossa Senhora, para glorificar a Deus e rezar pelo gênero humano. Durante todo esse tempo passou orando pela missão que posteriormente haveria de exercer.

Depois, durante três anos operou tais maravilhas, que São João chega a dizer que se as fosse narrar,  encheria a Terra com os escritos de Seus feitos. Os Evangelhos contam-nos apenas parte deles, e já são tão magníficos que nem se sabe o que dizer.

E Jesus além de todos os ensinamentos, o exemplo, de toda a manifestação de paciência, de carinho, e de perdão, ainda fez mais: como coroa de todos os dons anteriores, Ele deu a Sagrada Eucaristia.

Fazendo eco ao espírito de Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais, o Pe. Pinamonti irá mostrar adiante que, dar a Sagrada Eucaristia é de algum modo mais do que ter-Se feito Homem: através dela Ele adquiriu uma união mais íntima conosco do que pelo fato de ter-Se encarnado. A Sagrada Eucaristia é um dom, fruto da própria Encarnação; compreende-se portanto quão prodigioso ele é.

Continua o Pe. Pinamonti:

“Isto, pois, é o que Ele faz na Eucaristia, comunicando-nos quanto tem de riquezas e de bens: o seu corpo, o seu sangue, os seus merecimentos, as suas virtudes, a sua alma,e a sua divindade, com uma invenção tão admirável, que por toda a eternidade não viria jamais ao pensamento dos serafins. Não se pode, pois, pedir outra coisa maior ao nosso Salvador nesta vida; e, se lha pedíssemos, poderia ele responder que, mesmo sendo Senhor de todos os bens, agora não tem mais que nos dar, tendo-nos dado tudo no pão dos escolhidos, e no vinho que gera virgens”(4).

É um pensamento admirável! Nosso Senhor, na Eucaristia, dá-Se a nós de um modo tão esplêndido como ninguém poderia inventar. Os mais altos anjos — os serafins —, se pensassem sobre o assunto por toda a eternidade, não poderiam excogitar a ideia de um Deus que Se dá ao homem sob as espécies de pão e de vinho, de modo a penetrar nesse homem e assumí-lo.

Não há na Terra, por exemplo, nas relações de pessoa a pessoa, nenhuma forma de união tão íntima como a existente entre Nosso Senhor Jesus Cristo, na Eucaristia, e nós.

E Pe. Pinamonti enumera os dons que isto representa: Seu corpo, Seu sangue e todos os Seus méritos.

Os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo são tais que, por cada gota de Seu sangue, Ele resgataria o mundo inteiro. Ora, Ele derramou todo o sangue no alto da Cruz. Como, pois, haveríamos de calcular esse mérito? Ele é infinito!

Na Eucaristia recebemos o precioso dom: todo seu sangue derramado! Também todas as Suas virtudes. Quer dizer, toda a Sua santidade, por assim dizer toca-nos, contagia-nos santamente.

A santidade de Nossa Senhora é incomensurável, mas ela não é infinita. A de Nosso Senhor é estritamente infinita. Ele é “a” santidade.

Pois bem, Aquele que é “a” santidade condescende em vir a mim na Sagrada Eucaristia.

Que dom formidável Ele ficar no sacrário, trancado, até a hora em que chego para comungar! Nesse momento por mim escolhido, Ele vem e me visita, mais intimamente do que à casa de Lázaro e de Maria, enquanto estava vivo na terra. Porque, naquela ocasião, Ele não entrava em Lázaro nem em Maria. Aqui, Ele entra em mim.

É um dom verdadeiramente inestimável! Glória, saúde, todas as riquezas do mundo, nada são comparadas a uma comunhão. E nós que recebemos o chamado para comungar diariamente!

Alguns de nosso movimento, há dez, vinte anos comungam todos os dias; eu, há quarenta anos. Quantas comunhões isto representa! Quantos dons foram se acumulando ao longo desses anos em tais comunhões diárias! É verdadeiramente inimaginável! Esta é a amplitude do dom que Deus nos dá.

Como aproveitarmos esta meditação?

Podemos aproveitá-la, por exemplo, lendo ao menos um destes pontos, a fim de prepararmo-nos para a comunhão.

Suponhamos que uma pessoa esteja, com problemas de inveja. Deve ela considerar que vai receber Aquele que é a suma generosidade, a suma bondade, que nunca invejou ninguém; pelo contrário, alegrou-Se com o bem que fez a todos os outros.

E então dizer: “Senhor, vinde, e dai-me Vossa bondade. Lavai-me do defeito de inveja que noto em mim”.

E se a dificuldade for praticar a castidade, pensar: Nosso Senhor Jesus Cristo é a própria pureza. O sangue d’Ele é chamado vinho que gera virgens. Quem não tiver parte com Ele não consegue a pureza.

E pedir: “Senhor, vinde à minha alma para comunicar-me a Vossa pureza. Por meio de Maria Vos peço que me torneis puro, de uma pureza que lembre a d’Ela, o melhor espelho de Vossa própria pureza”.

Estes pensamentos são tão profundos que não há possibilidade de deter-se em todos antes da comunhão; basta um tomado a sério, para fazer uma comunhão bem feita.

Prossegue o Pe. Pinamonti:

“Em comparação pois duma liberalidade tão excessiva de teu Deus com a tua alma, quão enorme será a tua avareza para com Ele, se não lhe ofereces, pelo menos, aquela liberdade que te resta? Tens até agora feito resistências aos outros dons; mas poderás ainda resistir a um Deus que te dá a si mesmo?” 5

Imaginem que entrasse na casa de um de nós uma pessoa de suma importância e dissesse: “Fulano, vim aqui porque quero ser seu amigo e dar-lhe tudo o que possuo”.

Normalmente a reação seria perguntar-se a si mesmo: “O que tenho para retribuir-lhe? É um presente tão grande que ele me concede: sua fortuna, dinheiro, automóveis, aviões, tudo ele está me dando nesse momento! Alguma coisa deverei fazer por ele”.

Toma então um objeto fino que tenha em sua residência e diz: “Não está de modo algum na proporção do seu dom. Mas, para lhe manifestar o quanto estou grato, leve isto”.

Ou, uma bebida excelente que possua: “Sei que isto não paga em nada, mas peço-lhe aceitar esta bebida. É uma magra expressão daquilo que eu gostaria de fazer”.

A mais elementar das gratidões levaria a tais atitudes.

O Pe. Pinamonti, a respeito da Eucaristia, faz dessas perguntas sumamente lógicas, próprias a levar a alma quase que de elevador para o caminho da virtude.

“Estás recebendo tal dom: o que pretendes fazer? Tens resistido a outras graças: resistirás também a esta? Deus Se dá a ti, e tu não te darás a Ele? Que propósito tem não te ofereceres a Ele por inteiro nesta comunhão?”

Porque na verdade Nosso Senhor dá muito e pede pouco. O que sou para Deus Nosso Senhor? Nada! E eu não me ofereço a Ele?

Portanto, o corolário normal de uma comunhão é fazer um oferecimento: “Senhor, não sou digno de Vos receber, mas suplico que entreis em minha alma. Concedei-me a graça do desejo de dar-me a Vós, e de que um dia, o mais breve possível, eu efetivamente me dê a Vós inteiramente, isto é, abandone o pecado, deixe de Vos ofender, pratique a virtude inteiramente, seja um perfeito soldado de Vossa Causa; por meio de Maria, Vô-lo suplico”.

Esta é a retribuição forçosa. Quem recebe tanto, deve ao menos pagar um pouco pelo que recebeu. E, se Deus Se dá inteiramente a nós, tal será que não nos entreguemos completamente a Ele!

São reflexões que penetram até o fundo! Se a pessoa as tomar um pouco a sério, não pode deixar de persuadir-se. Porque, se em última análise eu acredito na Eucaristia, que é o corpo e o sangue de Cristo, como posso negar a validade de tal raciocínio? É o mais evidente que há!

Coisa muito boa é ter em mente durante o dia determinado pensamento. Por exemplo: de que, hoje, Nosso Senhor Se deu a mim. Pedir-Lhe-ei, portanto, a graça de me entregar a Ele em tal ponto. E farei nessa intenção algum sacrifício, entregarei algo que me custa, oferecerei a Ele tal tarefa difícil, etc.

Ou, então, se percebo que terei uma grande aflição certa coisa muito difícil diante de mim devo refletir: se Deus deu-Se a mim hoje, e novamente Se dará amanhã, não vou confiar n’Ele? Não irá ajudar-me nessa ocasião, sorrir para mim em tal oportunidade? É evidente que sim! Viverei esse dia com confiança, porque Deus Nosso Senhor me auxiliará.

Essas são atitudes normais de alma, de quem vive em função da comunhão que fez hoje e fará amanhã. É assim que se prepara uma alma verdadeiramente eucarística.

Os raciocínios do Pe. Pinamonti para os que praticam os exercícios de Santo Inácio pedem muita seriedade.

Porém, estas são meditações profundamente lógicas.

Imaginemos uma pessoa que resida num país aonde haja um rei, o qual lhe deu um principado. Em certa circunstância, ela precisa de um pequeno favor do monarca, por exemplo, que mande a outrem fornecer-lhe um certificado de vacina.

Não é razoável que ela tenha medo de fazer esse pedido ao rei, pois quem deu-lhe o muito mais dar-lhe-á o menos. Deve, entretanto, pedir muito não só coisas pequenas, mas grandes.

Assim precisamos ser com Nosso Senhor; preparar nossa vida em função d’Ele na Eucaristia.

Tudo isso é profundamente sério e estas conferências são um convite à seriedade. Se não formos sérios nessa vida, ao morrer teremos o maior choque que se possa imaginar: defrontar-nos-emos com a infinita seriedade de Deus.

Ele então nos dirá:

“Diariamente durante tantos anos dei-te a graça de desejardes a minha visita; e correspondeste a ela. Mas, em todas essas visitas não foste sério. Recebeste-me não refletindo no que o ato significava, nem tirando as consequência dele”.

O que iremos dizer-Lhe?  Compreende-se a importância de meditar sobre isto?

O ideal seria fazer um recolhimento com base nesse texto. Se tivéssemos um local onde pudessem revê-lo, com alguém encarregado de dar um desenvolvimento mais amplo à matéria… E meditar aos poucos, tomando notas para prepararem um “manual do comungante” a fim de ajudar a terem estas considerações no espírito, na hora de receberem a Eucaristia. Esta é a verdadeira seiva da vida espiritual. v

 

Continua no próximo número.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 15 de setembro de 1973).

 

 

1) Exercícios de Santo Inácio e Leituras Espirituais. 3ª ed. corr. Edições A.J. Porto, 1934, p. 170

2) Conforme Marcuse. Herbert Marcuse (1898-1979), filósofo de origem alemã, que se radicou nos EEUU, propugnador de uma filosofia baseada em Freud e Marx. Exerceu forte influência nos movimentos revolucionários estudantis que eclodiram a partir da Sorbonne, em 1968.

3) Pinamonti, op. cit. p. 170.

4) Ídem. p. 171

5) Ídem. p. 171

junho – Corpus Christi – Lamparinas de Deus…

Lamparinas de Deus…

Dr. Plinio, arauto da Eucaristia, teve sempre especial apreço pelo valor simbólico das lamparinas que, junto ao tabernáculo, indicam a Presença Real de Jesus nas Sagradas Espécies. Acompanhemos uma analogia feita por ele, ao recordar o dia de seu próprio Batismo.

 

A lamparina acesa durante a noite diante do tabernáculo, até o momento em que raie o sol é a luz! E, quem passa toda a noite em adoração tem naquela fagulha um elemento de esperança do sol que vai nascer!

Em algumas almas percebemos a chama da graça que arde. De certo modo, cada alma humana é uma lamparina para a vida espiritual.

Imaginem uma igreja com uma lamparina em cada um de seus vários altares. Em algumas delas as chamas sobem, engrandecem, depois diminuem; parecem mover-se dentro da escuridão. Em outras são fixas, calmas, serenas, como que se imolam sem nenhuma excitação, até o ponto final. Às vezes crescem de um lado e parecem querer subir ao céu por uma via própria.

Imaginemos o universo das lamparinas de todas as igrejas! Como seria encantador, no silêncio da noite, observarmos a história de cada uma. Se tivéssemos o dom do discernimento dos espíritos, perceberíamos em cada alma como a lamparina da graça de Deus se move: ora se acende, ora pelo contrário enlanguesce, helas, às vezes toma vento, deita fumaça, suja o teto… E estende-se a mão meiga de Nossa Senhora que a limpa e, a lamparina continua a brilhar.

Se tivéssemos os olhos voltados para isso, compreenderíamos o que o Batismo deu a cada um de nós: ser algo à maneira de uma lamparina dentro da casa de Deus, mas com pavio aceso e não apagado; pavio que brilha e não pavio morto! E a história da alma de cada de um de nós poderia ser comparada à de uma lamparina.

Aqui está uma lamparina que, tendo demorado seis meses para acender-se , deveria arder pelo menos até setenta anos.

Quanto ao resto do tempo, Deus o saberá.

Se eu fosse estudar a história dessa lamparina, diria que no meio de mil provações e desventuras, uma alegria a manteve ereta como um gládio. E a alegria provinha deste fato: sou lamparina na casa de meu Deus, aos olhos de minha Mãe! De minha Mãe celeste e também aos olhos, tão insondavelmente menores, mas tão insondavelmente carinhosos, de minha mãe terrena.

Na presença deles ardi, procurando o teto o tempo inteiro e dessa maneira procurando dar a glória que dei! Sei que não foi o que deveria, Ela que perdoe; mas, algo está feito, algo está dado, algo resta para dar. 

 

(Extraído de conversa em 7 de junho de 1979)

junho – Corpus Christi – EUCARISTIA E A PAZ NA TERRA

EUCARISTIA E A PAZ NA TERRA

Nestes dias em que as tensões armadas se avolumam em tantos pontos do globo, vem ecoar novamente a voz de Dr. Plinio, apontando o único caminho para a obtenção da paz: a Eucaristia. Solução “plinianamente”  original e ousada (e bem colada na realidade), como eram as desse líder católico.

 

Não é difícil (encontrar) conseqüência entre os Congressos Eucarísticos e a paz das nações. Guerras são sempre frutos de paixões exacerbadas. E como, entre os indivíduos, a virtude das partes domina os ímpetos do amor-próprio e conserva em harmonia as relações recíprocas, também entre as nações é mister reine a virtude cristã que impeça os excessos das paixões nacionais. Ora, para tanto, muito concorrem os Congressos Eucarísticos. Primeiramente, porque neles há uma consagração da realeza transcendente de Nosso Senhor Jesus Cristo. Reúnem-se representantes dos mais diversos países para, prostrados, reconhecerem a soberania suprema do Rei dos reis, de quem procede todo o poder na terra. Este espetáculo não pode não impressionar os soberanos deste mundo. […]

Sentirão a precariedade de sua soberania, perceberão que sua autoridade não é absoluta ou ilimitada, mas que deve curvar-se diante de outra mais excelsa, a que peça normas por que se regular.  […]

Esta humildade por parte dos governantes, este temor de Deus é o primeiro elemento de ordem e paz entre [as nações]. Pois na Soberania Divina encontrarão os soberanos o limite necessário às demasias do orgulho nacional. Depois, os Congressos Eucarísticos favorecem um conhecimento mais profundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele já não aparece apenas como o Redentor que uma vez se sacrificou pelos homens para merecer-lhes uma coroa de glória na vida de além-túmulo. Sua vida eucarística, perpetuando o sacrifício, convida os homens a uma reflexão sobre a perenidade e sua Paixão, os motivos que a determinam, seu influxo diuturno nas almas. E vem à luz a vida da graça, a vida estabelecida por Nosso Senhor, como uma realidade que deve ser vivida, intensamente. Daí os frutos mais ocultos, que amadurecem no íntimo dos corações: a reforma dos indivíduos. Uma vida na qual a religião não é um acréscimo acidental, mas o móvel único que dá vitalidade sobrenatural a todas as ações do indivíduo. Um revestimento de Cristo, na frase de São Paulo.

Não se diga que, todos espirituais, estes frutos na sociedade são valores somenos. Absolutamente. Não é possível uma separação real entre os indivíduos e a sociedade. Não há uma sociedade abstrata à qual se apliquem normas e reformas sem considerar os homens que a compõem. Estes são sempre os membros daquela na qual ingressam inteiros, corpo e alma, vícios e virtudes que porventura possuam. E como os vícios concorrem para a desordem e intranquilidade, as virtudes são elementos de ordem e de paz.

A paz social depende, pois, e muito, da paz interna de seus membros. Esta só se obterá quando se compenetrem os homens de sua finalidade extraterrena, sobrenatural, e saibam que ela se subordina ao cumprimento exato de seus deveres para com Deus e para com o próximo. Tal compreensão, proporcionam os ensinamentos de Nosso Senhor; executá-la, facilitam os exemplos de Nosso Senhor: uma e outra coisa se obtêm nos Congressos Eucarísticos.

Há, pois, estreita relação entre os Congressos Eucarísticos e a paz na terra. Já o atual Pontífice gloriosamente reinante, apontava este benéfico influxo dos Congressos Eucarísticos, ao reatar a série dos mesmos, interrompida pela Grande Guerra. E realmente, a paz de Cristo só se pode obter com o reinado de Cristo nos indivíduos e na sociedade.

Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito do “Legionário”, nº 156, de 14/10/1934)

Revista Dr Plinio 41 (Agosto de 2001)

junho – Corpus Christi – Preparação para receber a Eucaristia

Preparação para receber a Eucaristia

Minha Mãe e Senhora do Santíssimo Sacramento, preparai-me Vós mesma para receber Nosso Senhor, dando-me todos os bons movimentos de alma, os bons impulsos para que eu tenha presente o que vai acontecer de extraordinário, a honra imensa que vou ter porque rezastes por mim e, por isso, vosso Divino Filho vem a mim.

Quando comungáveis, Vós compreendíeis inteiramente a grandeza desse ato. Peço-Vos, pois, que adoreis a Deus em meu lugar, porque não sou suficientemente grande para O adorar. Vinde espiritualmente à minha alma e cuidai de vosso Divino Filho como O tratáveis na Terra, porque não sou capaz de fazê-lo devidamente.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 5/1/1974 e 6/2/1981)

junho – Corpus Christi – Grande lição de combatividade

Grande lição de combatividade

Tendo fraquejado a coragem de proclamar os dogmas, houve uma diminuição da Fé em incontáveis pessoas que se dizem católicas. A Solenidade de “Corpus Christi” nos ensina a ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração à Sagrada Eucaristia.

 

Deverei falar alguma coisa a respeito de “Corpus Christi”. Os aspectos da instituição do Santíssimo Sacramento e da presença da Eucaristia na Igreja já têm de tal maneira sido estudados por nós, que se fica um pouco embaraçado em dizer algo de novo. Mas uma vez que não estamos propriamente na festa da instituição do Santíssimo Sacramento, que é na Quinta-feira Santa, mas na solenidade de “Corpus Christi”, eu gostaria de dizer algo sobre a razão pela qual ela foi instituída.

Um dos maiores escândalos na Igreja, no século XVI

Todos sabem que os protestantes, hereges, negaram e negam a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. E esse foi um dos maiores escândalos sentidos ou realizados na Igreja, no século XVI, no qual houve tantos escândalos.

Os medievais tinham uma profunda Fé no Santíssimo Sacramento, na presença real e, portanto, uma devoção enorme à Santa Missa, à adoração do Santíssimo Sacramento. E a negação brutal da presença real, feita pelos protestantes, foi um dos pontos de fratura entre eles e os católicos, tendo sido recebida por estes como um dos piores ultrajes que jamais se tenham cometido contra Nosso Senhor.

Qual foi então a política – porque se pode aqui falar em política, no sentido elevado do termo –, quer dizer, a tática pastoral usada pela Igreja em face desse fato?

A Igreja tinha dois caminhos. Um seria o de dizer: “Nossos irmãos separados protestantes estão negando a presença real. Se formos afirmar de modo protuberante essa presença, nós sustentamos a separação. Como eles não querem saber de nenhum modo desse dogma, na medida em que nós o afirmamos, eles se afastam. Vale a pena, então, repensarmos o dogma da presença real. E tomando em consideração que os tempos mudaram – porque o ano de 1500 estava afinal de contas bem longe do ano I da era Cristã –, era muito natural que nós agora exprimíssemos a presença real num vocabulário diferente, que agradasse aos protestantes”.

“Não seria uma negação da presença real, pois é um dogma definido por Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas em vez de afirmar de forma tão acentuada que Ele está realmente presente, debaixo das aparências eucarísticas, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, nós poderíamos dizer que há a presença de Cristo no pão aqui consagrado. O que essa presença significa? Deus está presente por toda parte, e os bons amigos protestantes podem entender que Ele se encontra ali como está, por exemplo, numa flor ou num pão qualquer. Nós compreendemos que não é isso, mas sim que Ele está realmente presente com Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Porém, não vamos declarar isso para não criar uma cisão. Vamos usar um termo confuso, equívoco e assim eles ficam unidos conosco. Depois, vamos começar o diálogo, no qual dizemos para eles: ‘Que tal seria se nós reestudássemos os fundamentos do dogma da presença real, para verificarmos em conjunto até que ponto ele tem ou não seu fundamento da Sagrada Escritura?’”

O protestante diria: “A sua dúvida é irmã da minha. E tenho vontade de re-pesquisar o assunto, como você tem também”. Eu não lhe iria afirmar que duvido, porque destruiria a Fé. Então eu lhe falaria: “Se você tem dúvidas, era bom estudar”. Ele fica com uma certa  impressão de que eu tenho dúvidas, mas eu não disse que tenho dúvidas.

Se satanás fizesse uso da palavra…

Então, começa uma conversa a respeito do Santíssimo Sacramento em que digo: “Seria mais interessante, em vez de eu tomar uma posição endurecida e você também, nós estudarmos qual é o modo pelo qual poderíamos chegar a um acordo. De maneira tal que, da tese ‘Jesus Cristo não está presente realmente na Eucaristia’, nós conseguíssemos deduzir uma terceira posição que não seria inteiramente uma coisa nem outra. Você cede um pouco e eu também. E nós afirmaremos juntos que Jesus Cristo está presente de fato na Eucaristia. Porém, se ele está presente apenas enquanto Deus, ou enquanto Homem-Deus, é um pormenor a respeito do qual cada um de nós reserva sua liberdade de posição. Então, teremos chegado finalmente a uma síntese”.

Por essa forma poder-se-ia evitar uma ruptura entre protestantes e católicos, e o mundo cristão seria hoje unanimemente católico. Essa unidade teria dado à Religião Católica um vigor, uma magnitude muito diferente da tristeza dessa bipartição que está aí.

“Vocês católicos – argumentaria um protestante – quando veem, do alto e de dentro de sua unidade, as seitas protestantes pulverizadas, riem dessa pulverização, imaginam bem de que desgraça, de que infortúnio estão escarnecendo? Vocês têm uma ideia de quanto isso representou para o rebaixamento moral desse mundo protestante assim dividido? Quanto significou de lutas, de divisões, de dores, de sofrimentos? A primeira cisão partiu de vocês, quando rejeitaram a nossa novidade. Depois, as outras cisões vieram em cadeia, por causa exatamente da rejeição que vocês praticaram. Vocês são os autores dos males dos quais se queixam.”

Se satanás tivesse que fazer uso da palavra, diria – com mais inteligência e mais charme – mais ou menos a mesma coisa.

O ensino deve ter clareza

Ora, os Santos, os teólogos, os papas daquele tempo seguiram uma política inteiramente diversa. Eles pensaram o seguinte: a Igreja Católica foi instituída por Jesus Cristo para ensinar a verdade. E ela não tem o direito de dar um ensinamento confuso porque não é um ensinamento digno desse nome. É indigno o ensinamento confuso, mesmo de um professor que, involuntariamente, por incompetência, deixe a confusão reinar sobre o conteúdo do que ele está ensinando. Porque a clareza é a primeira das qualidades do professor, ou seja, o ensino exige como pressuposto a clareza. Um homem pode ser sábio e não ser claro. Mas não pode ser professor e não ser claro. Seria mais ou menos como um fabricante de binóculos que os faz com um cristal excelente, com uma montagem muito boa, mas os cristais que ele usa são um pouco embaçados: é uma porcaria. Porque o binóculo foi feito para se ver à distância com clareza. Se não dá para ver com clareza, é uma porcaria, o resto não interessa.

Portanto, a primeira exigência do ensino é de ser claro. Se aquele que ensina não o faz com clareza intencionalmente, ele é pior do que um incompetente: é um desonesto. Porque é uma desonestidade, uma fraude, apresentar-se alguém a um outro com a segunda intenção de não lhe transmitir a verdade inteira, quando este supõe que a verdade inteira lhe será dada.

Em termos mais definidos: há uma questão a respeito de saber se os portugueses já conheciam ou não o caminho do Brasil, quando aqui chegou Pedro Álvares Cabral, e se o descobrimento do Brasil foi, portanto, realmente um descobrimento ou uma expedição mandada pelo Rei de Portugal para oficialmente descobrir o Brasil. Os portugueses julgaram que era o momento de revelar ao mundo a posse desta terra que eles já conheciam, mas não queriam que fosse habitada ainda, porque não sentiam ainda a nação portuguesa bastante pujante para iniciar o povoamento deste mundo que estava diante deles.

Há uma discussão sobre esse assunto na História do Brasil. Um professor tem o direito de sustentar uma dessas duas teses, que se apoiam em argumentos prováveis; tem o direito de dizer que não aceita nenhuma delas como demonstradas ainda, porque não as acha suficientemente elucidadas. O que ele não tem é o direito de, numa aula de História tratando da questão, tirar o corpo da solução e não dar a posição dele. Se, por uma razão política qualquer, ele evita tomar posição, não é honesto porque tem a obrigação de dizer a verdade a respeito das coisas.

Pode-se até compreender – não chego a dizer que se possa escusar – que um ou outro faça silêncio a respeito de um determinado ponto de História. Contudo, segundo pensaram aqueles grandes teólogos e doutores, se a Igreja fizesse o silêncio a respeito da Eucaristia, ela estaria fraudando os fiéis que receberiam dela um ensinamento confuso sobre uma verdade indispensável à salvação. E ela, assim, faltaria com a sua missão.

Necessidade de levar os princípios até suas últimas consequências

Ademais, se a Igreja silenciasse a respeito da Eucaristia faria com que os fiéis comungassem mal, porque eles, não tendo o ensinamento claro sobre o que estão recebendo, não podiam recebê-lo bem. Como fazer um ato de adoração ao Santíssimo Sacramento se não se tem certeza que ali está Nosso Senhor Jesus Cristo? Não é possível. Quer dizer, para manter uma unidade pútrida, a Igreja sacrificaria a vida espiritual de seus fiéis.

Por fim, viria um princípio que, embora não seja o mais forte, é o menos realçado, e por isso desejo salientá-lo: A força de toda instituição consiste em levar às últimas consequências seus próprios princípios. A partir do momento no qual ela julga que, para sobreviver, deve adoçar os seus princípios, reconhece que já morreu.

Tomem, por exemplo, o estado militar. As forças armadas constituem uma instituição do país. O próprio delas, na sua pujança, é deduzir da condição militar o estilo de vida militar levado tão longe quanto possível. A partir do momento em que, por exemplo, um ministro da guerra dissesse que o Brasil é um país ao qual repugna tanto o estado militar que, ou o militar toma ares de civil, ou não haverá mais militares, as forças armadas morreram no Brasil. Porque se a coerência do estado militar é inaceitável pelo país, afugenta as vocações; então é preciso reconhecer que o estado militar morreu.

Vocações clericais: um padre deve ser, pensar, vestir-se e viver como padre. Se alguém diz que em determinado país é preciso trajar os padres de macacão para atrair vocações, então esse país não quer ter mais padres, ficou pagão. 

Aplico o mesmo princípio à instituição da família. Alguém dirá: “Dr. Plinio, se não for aprovado o divórcio, muita gente começa a não se casar mais e a viver no amor livre.” A resposta é: “Então diga que morreu a instituição da família. Não vale a pena fazer uma familiazinha moribunda, caricatura abastardada daquilo que deve ser”.

Vamos, então, tomar a questão de frente e dizer logo: tal país morreu. Porque uma nação onde não há compreensão para o estado militar, para o estado eclesiástico e nem apreço pela família é uma nação morta.

Política de enfrentar, lutar, afirmar, proclamar 

Os padres do Concílio de Trento entenderam ser preciso fazer o contrário. E em oposição ao protestantismo, acentuar o culto ao Santíssimo Sacramento. Então, o Concílio fortaleceu o decreto da instituição da festa de “Corpus Christi”, prescrevendo ao clero a realização de uma procissão na qual o Santíssimo Sacramento saísse à rua, para se ver que as multidões O adoram de joelhos postos em terra, reconhecendo que debaixo das aparências eucarísticas está Nosso Senhor Jesus Cristo. Desde então, impulsionou-se o culto ao Santíssimo Sacramento de todos os modos, chegando a essa plenitude que era a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento, instituída por São Pedro Julião Eymard.

Era a política de enfrentar, não conceder, lutar, afirmar, proclamar. A política da honestidade, da lealdade, da integridade, da coerência, de onde veio para a Igreja uma torrente de graças, exatamente as graças da Contra-Reforma, que representaram uma das maiores chuvas de bênçãos que a Igreja tem recebido.

Acentuar o culto ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e a devoção ao Papa foi a resposta da Igreja ao protestantismo. Uma longa resposta de trezentos anos. No século XIX ainda, a proclamação da infalibilidade papal, do dogma da Imaculada Conceição; no século XX, o dogma da Assunção. Enfim, tivemos uma série de afirmações e instituições desdobrando e afirmando aquilo que o protestantismo negava. De maneira que quanto mais eles persistam no seu erro, tanto mais nós íamos proclamando alto a nossa verdade. Quanto mais eles se esfarelavam, tanto mais a nossa unidade se afirmava. Quanto mais eles morriam, tanto mais a nossa vitalidade se multiplicava.

Até que outros ventos sopraram… Vejamos a verdade de frente: há incontáveis católicos que não têm mais a coerência de sua Fé. Não possuem mais a pugnacidade, aquela integridade que caracteriza uma instituição quando está viva. A Igreja nunca diminui de vitalidade porque é imortal, sobrenatural, divina, mas a correspondência de seus filhos a ela pode diminuir e, portanto, a densidade de Fé minguar também no espírito de muitos deles.

Como, em nossos dias, a coragem de proclamar os dogmas diminuiu, há, portanto, uma diminuição da Fé em incontáveis daqueles que se dizem católicos!

A solenidade de “Corpus Christi” é a festa do Santíssimo Sacramento, mas também uma grande lição de combatividade. Aprendamos essa lição e procuremos ser cada vez mais combativos por amor a Nossa Senhora e por adoração à Eucaristia.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/5/1970)