19 de abril – São Leão IX: ascendendo ao ápice pela virtude

São Leão IX: ascendendo ao ápice pela virtude

Comentando uma biografia do Papa São Leão IX, Dr. Plinio analisa o importante papel da graça e da virtude, bem como os benfazejos perfumes da santidade.

 

Tendo-me sido fornecida uma sintética, porém atraente, biografia de São Leão IX(1), pediram-me para que tecesse a respeito dela alguns comentários, o que farei de bom grado.

Aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus

ão Leão IX nasceu no ano de 1002, nos confins de Alsácia. Seu pai era Conde de Ingersheim e primo-irmão do Imperador Conrado, o Sálico. Sua mãe lhe deu o nome de Bruno. Ao atingir a idade de 5 anos, foi confiado, por seus pais, à educação de Bertoldo, o venerável Bispo de Toul, o qual dirigia então uma escola no próprio palácio episcopal.

Como vemos por esses dados, São Leão viveu em plena Idade Média. Neste trecho já se encontra uma nota interessante e peculiarmente medieval, ou seja, o fato de haver uma escola dirigida pelo bispo e que funcionava no próprio palácio episcopal.

No colégio, Bruno foi confiado particularmente a um primo seu, chamado Aderico, filho do Príncipe de Luxemburgo; os dois se tomaram de uma íntima amizade. Seu primo foi-lhe modelo de todas as virtudes e serviu extraordinariamente para sua formação.

Havia na Idade Média, pessoas pertencentes à mais alta categoria social e que se destacavam, sobretudo, por sua extraordinária virtude. Formava-se assim uma aliança entre a grandeza terrena e o serviço de Deus.

A Igreja Católica como centro de tudo

Tendo recebido do Bispo de Toul as sagradas ordens, foi nomeado clérigo da Capela do palácio do Imperador Conrado, o Sálico.

Todos os Imperadores tinham sua própria capela, na qual um conjunto de capelães mantinha o culto. O fato de ser clérigo na capela imperial era, portanto, uma situação de alta confiança, pois conferia a oportunidade de estar em contato direto com o Imperador.

Por outro lado, é digno de nota o fato de o Imperador ter sua capela própria, donde decorre que o elemento central de sua vida de corte era a recitação do Ofício Divino, a Santa Missa e outras práticas de culto católicas.

Esse piedoso costume, por sua vez, provinha da convicção profunda e verdadeira que estava radicada na sociedade daquele tempo: a Igreja Católica deve estar no centro de todas as coisas. E, portanto, na Corte imperial o elemento central devia ser a capela, onde estava presente o Santíssimo Sacramento, ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei dos Reis. Também ali devia estar a imagem de Nossa Senhora Rainha e Mãe. Como isso é diferente dos costumes laicos e divorciados da verdadeira posição católica!

A virtude outrora era um título de ascensão

Bruno foi imediatamente bem visto pelo Imperador, que impressionado com suas virtudes passou a tratá-lo de “meu sobrinho”.

Ser tratado de primo e sobrinho do Rei era considerado pelas cortes daquele tempo uma honra extraordinária. Ele realmente era parente do Imperador, mas não em grau tão próximo; era filho de primos e não de irmãos do Imperador, portanto não era de fato seu sobrinho. Mas, o Imperador o tratava como sobrinho, elevando-o assim à categoria de Príncipe da Casa Imperial. A principal razão dessa honraria era a alta consideração do Imperador pelas virtudes de Bruno.

Como na Idade Média a maior parte das pessoas procurava a todo custo manter a posse do estado de graça, criava-se um ambiente onde a virtude era bem vista, e constituía um título de ascensão e não um título de perseguição como cada vez mais vem se tornando nos dias atuais.

Algum tempo depois, no ano de 1026, o Imperador recebeu a visita de clérigos da Diocese de Toul, que lhe anunciavam a morte do Bispo e o desejo de toda a população que Bruno fosse designado para a diocese vaga. Conrado acedeu, apesar de Bruno não ter ainda a idade canônica.

Aqui vemos um costume medieval que como outros é preciso ser bem entendido. É preciso levar em conta que a nomeação de um Bispo sempre foi privilégio papal. Porém, para isso o Papa pode receber indicações, as quais ele é livre de aceitar ou recusar. Ora, na Idade Média mantinha-se o costume proveniente dos primeiros tempos da Cristandade, pelo qual o povo da diocese podia aclamar ou propor um nome, mas cabia ao Papa ratificar ou não a proposta.

Com a implantação do Sacro Império, os Imperadores também tomaram o hábito de propor candidatos ao episcopado. Então se formava uma corrente de mediações, onde o povo propunha ao Imperador um nome e este, por sua vez, estando de acordo, propunha ao Papa. Mas, a palavra final sempre cabia ao Sumo Pontífice.

Apesar da pouca idade, Bruno imediatamente se destacou entre os Bispos da região por sua capacidade e pela virtude com que dirigia a diocese.

Note-se, portanto, a rapidez dessa ascensão, a qual se deve, acima de tudo, às suas notáveis virtudes.

Quem se humilhar será exaltado!

Durante 22 anos Bruno governou pacificamente e com brilho a Diocese de Toul. Com a morte do Papa Dâmaso II no ano de 1048, os romanos mandaram uma deputação ao Imperador Henrique III para pedir-lhe que designasse um novo Papa. O Imperador Henrique III reuniu, para esse efeito, uma Dieta em Worms, da qual participavam todos os Bispos do Império. Logo, todas as vozes designaram Bruno, Bispo de Toul, como futuro Papa. Tendo sido consultado, Bruno, por humildade, de nenhum modo queria aceitar o cargo; pediu então que lhe dessem alguns dias para refletir.

Pediu tempo para refletir, mas de fato, o que ele queria era escapar do encargo de ser Papa.

Terminado o prazo, apresentou-se diante de toda a Dieta de Worms reunida e disse que ele iria fazer uma confissão pública de todos os seus pecados, para fazer notar quanto ele era pecador e de nenhum modo digno do papado. Ajoelhou-se e fez sua confissão pública.

A confissão constava de matérias tão leves, que o fato que ele considerava mais grave e pavoroso, mal dava matéria de um pecado venial. Tendo terminado, todos se levantaram e o aclamaram.

Só um Bispo com tal limpeza de consciência poderia ser o Papa.

Como última tentativa, ele levantou um sério problema: o Imperador não tinha direito de nomeá-lo Papa. O Papa só pode ser eleito pelo clero de Roma, na forma canônica, ouvindo, quando queira, o povo de Roma.

Então ele iria a Roma a fim de lá consultar se o clero e o povo o queriam como Papa.

Retirou-se e, tomando o traje de peregrino, saiu a pé de Worms em direção a Roma.

Que extraordinária firmeza possuía esse homem, para tomar tal decisão, pois viajar a Roma supunha, entre outras dificuldades, a travessia dos Alpes, com suas neves eternas, montanhas escarpadíssimas e caminhos de cabras para transpor, pelo que essa viagem sempre foi considerada perigosa.

Ele poderia ter ido andando até o mar Adriático e lá tomar um barco. Mas ele quis, como um penitente, ir a pé até Roma, onde esperava ser recebido como um mero peregrino.

Ao chegar às cercanias de Roma, encontrou a população da cidade à sua espera.

A cidade de Roma naquele tempo deveria somar entre duzentos a trezentos mil habitantes.

Vestido como peregrino, com as vistas baixas e sem olhar nem dar atenção para ninguém, entrou em Roma, dirigindo-se diretamente ao túmulo de São Pedro para rezar.

É possível a abundância do estado de graça numa época

Este é realmente um homem reto, que faz as coisas como devem ser feitas.

O povo de Roma, aclamando-o, quis naquele mesmo dia entronizá-lo. Mas ele disse que esperassem até o dia seguinte, para ainda poderem pensar. Mas, por fim, chegou o dia seguinte e o povo estava de tal maneira decidido de que ele deveria ser o Pontífice, que ele acabou por aceitar, sendo então entronizado na Sé Romana.

Este apreço geral pela virtude daquele homem dá uma ideia do espírito que vigorava naquele tempo, e faz ver como é possível o estado de graça ser tão abundante em determinada época. Pois, sem ele, esses atos e gestos verdadeiramente extraordinários não se realizariam desta forma.

Por inspiração divina, tomou o título de Leão, considerando que devia, à testa da Igreja, lutar como verdadeiro leão. De fato, não tardou em começar a luta contra os verdadeiros inimigos da Igreja.

Um “Leão” em defesa da Igreja

Quais eram os verdadeiros inimigos da Igreja?

Naquele tempo, havia se difundido um abuso péssimo chamado simonia. Que consistia no seguinte: como a indicação dos cargos clericais era frequentemente feita pelo Imperador e pelo povo, acontecia que muitos homens vorazes, querendo ter cargos lucrativos, pagavam ao povo ou ao Imperador para serem indicados para o episcopado, ou então para que um parente ou alguém ligado a ele fosse nomeado Bispo, Abade e até mesmo Cardeal. Chegava-se até o absurdo de subornar os Cardeais e o povo de Roma, para elegerem determinado Papa, comprando assim até a Tiara romana.

Esse processo de escolha não podia deixar de trazer os piores inconvenientes. Através dele, muitas vezes, eram os mais ordinários que assumiam cargos eclesiásticos, dentre os quais estavam pessoas de costumes inteiramente desregrados, que por um lado constituíam um escândalo geral na Cristandade, e por outro um perigoso amolecimento ante as investidas de pagãos.

Estes vinham de todos os lados: os normandos vinham através do mar do Norte, penetravam pelo estreito de Gibraltar e atacavam o Sul da Itália; havia ainda restos de bárbaros que vinham dos países eslavos; e também os maometanos que atacavam por todas as partes.

Neste momento em que a Cristandade precisava lutar especialmente para defender-se, ela se apresentava extraordinariamente debilitada, pela decadência espiritual causada pela simonia.

Por isso, tendo assumido o papado, Leão IX começou a reunir diversos Sínodos e outros tipos de reuniões eclesiásticas, a fim de imediatamente punir e depor os Bispos que tinham tomado o cargo indignamente, nomeando bons para substituí-los. Isso causava, como é de se esperar, as mais acirradas indignações.

Zelo na defesa dos súditos

Ocupava-se ele com esse árduo trabalho, quando recebeu o aviso de que os normandos estavam por invadir a Apúlia, território do qual o Papa era Rei. Portanto, competia a ele defender seus súditos. Sem hesitação, foi a toda pressa à Alemanha a fim de pedir ao Imperador, seu parente, que mandasse um exército para defendê-lo.

Tendo o Imperador prometido enviar-lhe auxílio, o Papa desceu até a famosa Abadia beneditina de Monte Cassino, uma das mais célebres do mundo, a qual não ficava a muita distância de Roma, e lá permaneceu à espera da chegada do exército imperial. De fato, algum tempo depois chega o exército, porém, para sua surpresa, este era constituído por apenas 500 lorenos. Isto porque o exército imperial, quando chegou próximo aos Alpes, desistiu de descer.

A este punhado de combatentes tinham se incorporado pelo caminho alguns contingentes italianos, aos quais se somaram ainda alguns romanos, que eram senhores feudais da região. Assim constituiu-se o parco exército de resistência. Chegaram, por fim, os normandos, aos quais, apesar da desvantagem numérica, o exército do Papa ofereceu dura resistência que resultou numa tremenda carnificina.

Contudo, os normandos acabaram por vencer a batalha e levaram cativo o Papa, ao qual, devido à dignidade e respeitabilidade de sua pessoa, dispensaram toda forma de honras e cuidados.

Mas de todos os fatos da vida de Leão IX, nenhum me parece tão marcante da aprovação divina ao seu modo enérgico de agir, quanto às circunstâncias de sua morte.

A doce mensageira da felicidade eterna

A doença, doce mensageira da felicidade eterna… Como é linda esta expressão e contrária ao horror à doença que se tem em nossos dias. Claro que se deve combater a doença, mas com essa resignação deve-se aceitá-la. …a doença veio anunciar-lhe que sua hora tinha chegado. No dia 12 de fevereiro de 1054, ele celebrou por última vez o Santo Sacrifício da Missa onde dirigiu à multidão uma exortação comovedora.

No dia seguinte, sabendo que sua hora estava próxima, ele quis ser transportado da cidade de Benevento para Roma. Foram os próprios normandos que reivindicaram a honra de levá-lo numa liteira.

Que esplêndida glória ser carregado numa liteira pelo próprio “inimigo”!

Desta forma o Papa voltou ao Palácio de Latrão no mês de abril de 1054, época na qual habitualmente ele reunia o Sínodo dos Bispos das províncias eclesiásticas circunvizinhas de Roma. Ele então as convocou para o dia 17 de abril. Reunidos os Bispos, ele lhes disse: “Eu me recomendo à vossa fraternidade porque o tempo de minha dissolução chegou”.

Esta frase proferida pelo Papa é a reminiscência de uma citação de São Paulo, que manifestava o desejo de ser dissolvido, quer dizer, ter separada a alma do corpo, para subir a Jesus Cristo.

“Na última noite, em visão, a glória da Pátria celeste me foi manifestada. Eu reconheci entre os grupos de mártires aqueles que morreram na Apúlia, para defesa da Igreja”. Aqueles valentes lorenos que morreram na Apúlia, em defesa da Igreja, os quais eram mártires, estavam à espera que Leão IX fosse juntar-se a eles no Céu.

“Vem, nos disseram eles, e permanece entre nós, porque foi por teu intermédio que nós conseguimos as eternas felicidades. Mas uma voz, ao mesmo tempo, se fez ouvir, dizendo: ‘Não já, mas daqui a três dias somente’.”

No dia seguinte, ele reuniu de novo os Bispos, e sendo posto numa liteira foi conduzido pelos seus fiéis normandos em procissão até à Basílica de São Pedro, onde ele desejava morrer.

Hoje, carne e sangue; amanhã, poeira e cinza

Que lindo cortejo deve ter sido aquele! O Papa carregado numa liteira, os Bispos a seu lado, certamente cantando e portando círios, seguidos por um tropel de normandos armados, todos caminhando rumo à Basílica de São Pedro. Creio que não houve desfile militar que tenha superado em beleza aquela cena.

Prosternado diante da sepultura do Príncipe dos Apóstolos, Leão IX rezou pela Igreja e pela conversão dos pecadores. Assim que terminou, um delicioso aroma, superior ao perfume mais puro, se exalava da sepultura de São Pedro. Era o primeiro Papa manifestando seu agrado diante desse seu digno sucessor. Permaneceu então durante cerca de uma hora em silenciosa contemplação. Bispos, normandos e o povo em grande número estavam a sua volta.

Em certo momento ele mandou trazer pão e vinho. Os abençoou, comeu três pedaços de pão, bebeu um pouco de vinho e distribuiu o resto entre os assistentes. Ninguém comeu. Todo mundo guardou como relíquia os pedaços de pão que ele distribuiu.

Levantando-se então, dirigiu-se para o túmulo que ele mesmo tinha mandado preparar para si na Basílica. Lá, dirigindo-se aos Bispos, disse: “Vede, meus irmãos, como é miserável, frágil e efêmera a glória humana. Que esse exemplo jamais saia de vossa memória. Do nada eu fui um dia elevado ao que há de mais alto; e agora vou ser reduzido novamente a nada. Eu terei como moradia esse cárcere escuro e estreito. Hoje ainda convosco sou carne e sangue. Amanhã serei poeira e cinza”.

Que linda pregação! Qual terá sido a reação dos Bispos e mesmo dos normandos que estavam ao seu redor, vendo aquela cena grandiosa de um homem anunciando sua morte?

Adormeceu com uma calma indizível e acordou no Céu

Todos os assistentes se puseram aos prantos… O Papa então os despediu dizendo: Venham amanhã assistir a meu último suspiro.

São Leão retirou-se ao palácio próximo onde passou toda a noite em oração. Na manhã seguinte, sustentado por dois assistentes, voltou para a Basílica e veio prosternar-se diante do altar-mor. Estendeu-se sobre uma cama que tinham preparado junto ao altar, fez sinal com a mão para impor silêncio e dirigiu ao povo uma última exortação.

Depois, chamou para junto de si os Bispos e fez a confissão de seus pecados. Mediante uma ordem dele, um deles celebrou a Missa e deu a ele a Comunhão. Depois de ter comungado, o Papa disse: “Fazei silêncio, porque parece que eu vou dormir”. Inclinando a cabeça, adormeceu, com uma calma indescritível, para acordar no Céu.

Assim, diante do altar de São Pedro, no dia 19 de abril do ano da graça de 1054, faleceu o Santo Pontífice Leão IX.

Entre aqueles que o assistiam na hora de sua morte estava Hildebrando, que era a uma vez seu inspirador e secretário, e mais tarde viria a ser seu sucessor com o nome de São Gregório VII. Imagine ter como secretário um santo, o qual, a meu ver, foi “o Papa”, não comparando a santidade, mas sim a missão, e o papel na História da Igreja.

Que sublimidade, maravilha e grandeza devia ter aquela cena na qual um santo contempla outro expirar, onde São Gregório VII, ainda moço, permanece ao lado de São Leão IX, rezando até a hora em que a alma dele se desprende do corpo e sobe ao Céu!

A contemplação de fatos como este, e o deliciar-se com o perfume das virtudes de um tal santo, constitui um descanso da vida de todos os dias. Assim sendo, resta-nos pedir a São Leão IX que, do alto do Céu, reze e interceda por nós.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/10/1974)

1) Não possuímos referência da ficha utilizada por Dr. Plinio nessa ocasião.

17 de abril – O apóstata que se tornou Santo

O apóstata que se tornou Santo

São Guchiatazade era católico e ocupava alto cargo no Império Persa. Entretanto, por medo da perseguição, renunciou à Fé. Um bispo, seu grande amigo, ao ser conduzido à prisão, passou diante dele e, para não ver o apóstata, desviou os olhos com horror. Esta muda repreensão tocou-o profundamente e, pela graça divina, converteu-se inteiramente e foi martirizado. 

 

O nome do santo que vamos comentar hoje é Guchiatazade, mártir. Deve ser alguma coisa muito pouco comum essa biografia, tirada do livro Les Saints militaires – Os Santos militares –, do Abbé Profillet.

 

Um católico que ocupava alto cargo no Império persa

 

A Religião Católica fora pregada com êxito na Pérsia por São Mateus e São Bartolomeu. Os cristãos nesse país eram profundamente convictos. Assim, foram sem conta os mártires feitos pelo Rei Sapor II, quando este iniciou terrível perseguição contra seus súditos que não adoravam, como ele desejava, o disco solar.
O culto do Sol era a religião imemorial dos persas, desde os tempos da sua pré-História. De maneira que eles haviam de querer sujeitar os católicos à adoração do Sol.
Por esse motivo, o soberano mandou encarcerar o Bispo Simeon.
O prelado era amigo de Guchiatazade, um eunuco do palácio, homem que ocupava alto cargo e muito considerado no reino, mas que, temendo a perseguição, abjurara sua Fé. Ao ser conduzido à prisão, Simeon passou diante do eunuco que o saudou, mas o santo Bispo, para não ver o apóstata, desviou os olhos com horror. Esta muda repreensão tocou profundamente Guchiatazade, fazendo-o chorar dias seguidos e dizer de si para si: “Se um homem que foi meu amigo concebeu contra mim tal indignação, o que não fará Deus a Quem traí?”
Pensando desse modo, o eunuco abandonou suas roupas suntuosas e cobriu-se de luto, assim comparecendo ao palácio. Essa atitude encheu a todos de assombro e o soberano chamou-o logo à sua presença para perguntar porque lançava, daquele modo, presságios funestos sobre o reino, ao que o eunuco respondeu: “Enlutei-me por causa de minha dupla perfídia contra meu Deus e contra vós; contra meu Deus porque violei a Fé que jurara, preferi vossos favores à verdade; contra vós mesmo porque, obrigado a adorar o Sol, eu o fiz com hipocrisia; meu coração internamente protestava contra minha conduta.”
Ameaçado por Sapor II, Guchiatazade permaneceu inalterável em sua posição, sendo condenado à morte. Antes do suplício, contudo, pediu uma última graça ao Rei dizendo-lhe: “Vós sempre me elogiastes pelo zelo e devotamento com que servi a vós e a vosso pai. Agora eu vos rogo: concedei-me a mercê de um arauto bradar a todos que Guchiatazade é conduzido ao suplício não por ter traído os segredos do Rei, nem por se ter envolvido em alguma conspiração, mas porque é cristão e recusou renegar a seu Deus. Minha apostasia foi conhecida de toda a cidade, e talvez minha fraqueza tenha afetado a muitos. Se agora conhecerem meu suplício e ignorarem a causa, ele não servirá de exemplo aos fiéis. Mas, ao contrário, se souberem de minha penitência e de que eu morro por Cristo, eu os fortificarei; suas almas ficarão mais firmes e seu ardor reacendido. A voz do arauto será como uma trombeta de guerra, que dará aos atletas da justiça o sinal do combate e os prevenirá para que preparem as armas.”
Assim se fez e São Guchiatazade foi morto na Quinta-feira Santa do ano de 342.

 

Por medo de ser executado renegou a Fé

Lindíssima narração!

É conhecido o sistema bárbaro, contrário à Doutrina Católica, adotado em muitos países pagãos e na Antiguidade em geral, em que eram mutilados certos meninos, já na primeira infância, para que eles não tivessem a potência varonil, de maneira que pudessem tomar conta dos haréns, dos lugares onde estavam as várias esposas dos reis, sem que estes tivessem, assim, alguma preocupação. Só isso já mostra a debilidade das instituições pagãs antigas que alguns historiadores querem apresentar como tão fortes. Eram monarquias que se constituíam exclusivamente sobre o medo, a coerção. A esposa do rei só podia estar em segurança diante de homens mutilados. Se ela tivesse nas suas proximidades homens não-mutilados, o rei, apesar de todo o seu poder, podia dessa esposa recear tudo.

Compreende-se o clima de uma civilização que isso supõe e a repercussão lúgubre para todas as instituições políticas, sociais, econômicas. Quando nós estudamos a Idade Média vemos isto: o vínculo que propriamente une, coordena os elementos constitutivos de uma instituição medieval é o de fidelidade, a ideia de que é ponto de honra de ambas as partes, do menor como do maior, observarem as obrigações recíprocas, de maneira tal que invadir os direitos do outro é uma vergonha muito mais para quem lesa do que para quem é lesado. E se é uma coisa infamante para um homem que a sua esposa o logre, era considerado, a justo título, muito mais infamante lograr seu senhor ou o seu vassalo, roubando-lhe a esposa. Notem que outra elevação tem a Civilização Católica, e em que lodaçal de baixeza se afundava o mundo antigo.
De qualquer forma, acontece que esses homens assim mutilados tinham muita possibilidade de entrar em contato com os reis, os soberanos, por causa daquela intimidade de palácio. E como eram indivíduos que muitas vezes – mas não sempre – não se entregavam às orgias, nem às desordens dos homens comuns, eles liam muito mais, eram mais estudiosos e frequentemente mais inteligentes do que os outros. O resultado é que eles, com muita frequência, eram guindados aos mais altos postos do Estado: confidentes de reis, de governadores de província, generais – alguns deles famosos –, todos eles com muita projeção no respectivo país.
Temos, então, o caso desse personagem que, nessas condições, tornou-se eminente em um dos maiores impérios da Antiguidade, que foi o império persa. Ele era católico, tinha se convertido em razão da presença, séculos antes, de São Bartolomeu na Pérsia, e começou a praticar a Religião. Mas veio o Rei Sapor II que promulgou um decreto de condenação à morte de todos os católicos. E ele, de medo de ser executado, renegou a Religião. Um outro Santo que era Bispo, do qual tinha sido antigamente amigo, passou perto de Guchiatazade e nem o olhou. O apóstata o cumprimentou, mas o Prelado desviou os olhos e continuou caminhando para o martírio.

Bela e pitoresca teatralidade do Oriente

Vejam como são diferentes as vias da graça. Nosso Senhor encontrou São Pedro, deitou-lhe um olhar de bondade e o converteu para todo o sempre. Dir-se-ia que esse Santo Bispo deveria imitar o Divino Salvador e dirigir um olhar de bondade a este apóstata, pois assim o converteria. Mas o Espírito Santo sugere atitudes diferentes, de acordo com as diversas vias que Ele tem para conduzir essas ou aquelas almas. Aconteceu que o Santo passou perto do apóstata, se encheu de horror e desviou os olhos com indignação. O apóstata, em vez de ficar revoltado, foi tocado pela graça por causa desse gesto e fez este raciocínio: “Se esse homem que foi meu amigo me despreza e me odeia tanto pelo mal que eu fiz, que dirá Deus diante do Qual um dia vou ter que comparecer?” E então ele resolveu mudar de vida.
Uma primeira observação a que se presta esta ficha diz respeito à variedade pela qual Deus toca as almas e inspira o apostolado de cada um. A uns o Criador dá o amor contagioso, penetrante que, pela doçura, leva à união com Ele; a outros concede a cólera sacrossanta, sublime, que purifica como um fogo e ordena a Deus as almas que são objeto dessa cólera.

De qualquer forma, temos aqui uma bela e profundíssima conversão. Como São Pedro, embora por vias diferentes, ele chorou intensamente o seu pecado e caminhou para o martírio.
Como ele caminhou? A coisa tem aquela bela e pitoresca teatralidade do Oriente de que eu gosto tanto. Quer dizer, normalmente, em termos ocidentais, ele escreveria uma carta para o Rei, dizendo: “Vós sabeis onde eu moro, querendo podeis mandar pegar-me.” Ou deixava uma missiva em casa, fugia e desaparecia, o que no mundo antigo era relativamente fácil porque a polícia tinha muito mais dificuldade de se mover, e um criminoso ou um rebelde levava uma vida relativamente folgada. Assim, ele poderia ter entrado perfeitamente numa ermida, numa tebaida qualquer, ou passado para outro país onde a Religião Católica já estivesse estabelecida, portando riquezas, joias, e levar uma vida tranquila.
Não, ele resolveu enfrentar o martírio. Mas, em vez de escrever uma carta, sentiu, na sua alma de oriental, a necessidade de exprimir por símbolos aquilo que dizia também por palavras. Então, ele, o homem poderoso, apresenta-se diante do Rei todo trajado de luto. Não sei como seria o luto de um persa, se o traje era preto, violeta ou de outra cor; enfim, ele se apresentou todo vestido de luto para produzir efeito teatral. E produziu.

 

“Pequei contra Deus e contra ti!”

Vendo assim trajado o maior dignatário do Império, as pessoas, assombradas, perguntam-lhe: “Estás de luto? Como se explica isso?”
Podemos imaginá-lo com a fisionomia sinceramente compungida, porque teatro nem sempre é hipocrisia, muitas vezes é a manifestação bela, esplêndida, da verdade. Ele, então, solenemente, com os olhos encovados de dor e de tristeza, disse: “Eu quero falar com o Rei.”
Guchiatazade, então, penetra nos jardins do palácio imperial. Há um pátio com aquelas esculturas de touros – não propriamente touros alados, à maneira dos assírios, porém era mais ou menos desse gênero que usavam os persas –, leões, etc. Isso é muito mais bonito que a matéria plástica. Existe também uma fonte que jorra. Imaginem como romperia a poesia desse ambiente se um telefone tocasse…
Mais à frente, ouve-se o burburinho proveniente de uma antecâmara, onde as pessoas esperavam para ser chamadas pelo Imperador. Guchiatazade é introduzido no palácio do Sapor. Podemos imaginá-lo atravessando várias salas, com escravos se curvando à sua passagem, não olhando a nada e tendo apenas diante de si, enlevado, a sublimidade do furor do Bispo que não o olhou ao ser conduzido à prisão. Fascinado por aquela fisionomia de uma cólera fulgurante e deslumbrante, ele chega até o quarto do Rei, que lhe pergunta: “Que é isso? Tu prognosticas o luto no Império de teu senhor?”
Dito isto do alto de um trono, com uma voz cantante, diante de um homem que se apresenta de luto alguns degraus abaixo, numa sala magnífica, com alguns escravos segurando flabelli, mais adiante um tocador de flauta com uma serpente na sua frente e um incenso que sobe.
Há, então, o diálogo. Diante dos escravos estupefatos, ele diz a Sapor: “Eu pequei contra vós, ó meu Deus; mas pequei também contra ti, ó Rei, porque te menti quando fui adorar o Sol. Meu coração inteiro repelia aquela adoração que eu fazia.”
Pode-se imaginar a raiva do Sapor, que o condena à morte, e ele aceita a sentença com toda a serenidade, dignidade, placidez.

A graça suscitava heróis até mesmo da argila fraca de apóstatas

 

 

Vem, então, a última petição. Pode-se supor com que poesia, com que atitude, com que gestos foi dito: “Ó Rei, ainda tenho um pedido para te fazer!” Sapor treme de ódio, mas o Santo não treme

diante do ódio do Rei. Ele tremia face ao ódio daquele olhar que não via mais, daquele coração que não pulsava mais, tremia de entusiasmo diante da sublime intransigência do homem que o tinha repudiado.

São Guchiatazade disse: “Eu tenho um pedido a fazer.” Foi um pedido magnífico. Ele não rogou a vida. Alegou a sua antiga fidelidade, mostrou que não tinha feito nada contra o Rei, nem contra o

Império, e que até havia servido lealmente o pai do Sapor. E a esse título, pedia apenas uma coisa: que arautos percorressem toda a cidade de Susa, capital do Império, para comunicar que ele morria porque era cristão. Queria, por essa forma, desfazer o escândalo que muitos cristãos teriam tido pelo fato de saberem que Guchiatazade havia apostatado, logo ele que era a alegria e a honra de seus irmãos pela alta situação que ocupava nos momentos em que se celebrava a Santa Missa. E o Rei, apesar de todo o seu furor, atende esse pedido. Por fim, ele caminha para a morte, é estraçalhado.

Momentos depois, a cidade de Susa ouve os arautos que proclamam por toda parte: “Morreu o poderoso Ministro, o sustentáculo do trono foi derrubado porque perseverou em ser católico e não aceitou o culto do Sol que todos nós prestamos.” Podemos imaginar os católicos no meio da multidão, enlevados com o acontecimento, se olhando apenas e combinando secretamente encontros na primeira morada ou primeiro esconderijo, para comentarem o novo triunfo da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e se alimentarem nesse exemplo na certeza de que a Religião Católica não morreria, porque a graça suscitava heróis de tal maneira invencíveis, mesmo da argila fraca de apóstatas. Calculem o entusiasmo que isso deveria provocar.

Devemos caminhar para o nosso futuro com alegria, calma e confiança

Uma aplicação imediata desses fatos é esta: para as situações mais tristes e de maior debilidade da alma humana, há sempre um remédio, um auxílio da graça, desde que se peça. Com certeza Nossa Senhora rezou por esse homem que havia caído numa apostasia completa, tinha tantos liames que o prendiam ao mundo, era um ministro poderoso e fruía de uma porção de vantagens na codireção de um dos maiores impérios da Terra; ele, portanto, estava tão longe da Santíssima Virgem, mas por uma prece foi convertido.
O encontro dele com aquele mártir que caminhava para o último sacrifício e recusou olhá-lo evidentemente foi preparado pela Providência. O mártir teve aquela reação inspirado pela graça porque, nas condições em que Guchiatazade se encontrava, era o que lhe faria bem. Uma recusa de olhar bastou para regenerar um homem que tinha abusado de tantas graças anteriores. Vemos um miserável apóstata, que até pouco tempo antes despertava horror, transformado de repente em um Santo da Igreja Católica, cujo nome mencionamos com respeito.
Devemos ter, na nossa vida espiritual, uma confiança inquebrantável na misericórdia de Nossa Senhora, na onipotência das súplicas que Ela faz. E por essa forma nos mantermos sempre animados e perseverantes, como diz a Escritura: Ainda que caíssem mil à minha esquerda e dez mil à minha direita, eu continuaria a lutar (cf. Sl 90,7). O que no sentido espiritual quer dizer o seguinte: Ainda que apostatassem mil à minha esquerda e dez mil à minha direita, eu continuaria a esperar. E no nosso caso esperar que Maria Santíssima, em determinado momento, reze; e daquelas mesmas almas, a respeito das quais tivemos desapontamentos, tristeza, frustração, suba novamente para Deus o aroma da contrição e do louvor perfeito.
Assim, devemos caminhar para o nosso futuro com alegria, calma e confiança. Não sabemos o dia de amanhã, que provações e que batalhas trará para nós. Não sabemos se mesmo à nossa direita e à nossa esquerda teremos decepções. Não sabemos se seremos chamados para o martírio. Uma coisa sabemos: seremos chamados mais de uma vez para expormos a nossa vida. Não tenhamos medo de nosso medo. É um erro ter-se medo do medo. Devemos ter medo de não rezar, de não recorrer a Nossa Senhora. Se rezarmos e recorrermos à Santíssima Virgem, seremos apoiados, protegidos e cumpriremos nosso dever.

O único temor que devemos ter é de não estarmos unidos a Nossa Senhora

 

O único medo que devemos ter é de não estarmos unidos a Ela. Mesmo para esse medo há uma súplica que eu acho muito bonita, a oração Anima Christi, que se aplica inteiramente a nós: “Alma de Cristo, santificai-me; Corpo de Cristo, salvai-me…” Em certo momento, há este pedido belíssimo: “Não permitais que eu me separe de Vós” – Ne permittas me separari a Te. Então devemos dizer: “Minha Mãe, sei que sou tal que, se for só por mim, eu acabo me separando de Vós. Mas sei que sois tão insondavelmente boa e poderosa que podeis como que me proibir, me impedir de me separar de Vós. Então, a minha confiança em ser fiel resulta, minha Mãe, essencialmente disto: não permitais que jamais me separe de Vós. Tenho certeza de que, como nunca se ouviu dizer que tendo alguém recorrido à vossa proteção, implorado o vosso auxílio, fosse desamparado, essa minha súplica também não deixará de ser ouvida.”

E quanto mais os castigos se aproximarem, quanto mais sentirmos os perigos se avolumarem em torno de nós, tanto mais devemos dizer ao Imaculado Coração de Maria: “Não permitais que nos separemos de Vós!” Ela jamais o consentirá e, assim, nunca permitirá que nos apartemos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o Qual Ela é nosso traço de união.
Esta é a conclusão que devemos tirar à vista dessa manifestação de poder da graça. Nossa Senhora não permitiu que esse Santo se separasse d’Ela. Ele chegou a apostatar, mas num determinado momento Ela o chamou e ele brilha no Céu entre os Bem-aventurados. É um Santo canonizado pela Santa Igreja Católica que, mais do que apregoar a sua penitência para todos os habitantes de Susa, proclama, pelo seu exemplo, a confiança na misericórdia da Santíssima Virgem a todos os homens, enquanto o mundo for mundo. Peçamos a ele que reze por nós e que, quando chegarmos ao Céu, o encontremos lá bem unido a Nossa Senhora no resplendor de sua glória para, em união com ele, amarmos a Mãe de Deus e a Nosso Senhor Jesus Cristo por toda a eternidade.

(Extraído de conferência de 12/6/1971)

16 de abril – Santa Bernadete Soubirous: a virtude atesta o milagre

Santa Bernadete Soubirous: a virtude atesta o milagre

Na vida apagada e silenciosa de um convento, Santa Bernadete ratifica com sua santidade a veracidade das aparições de Lourdes, local tão prodigioso em curas de corpos. Mas, como nos ensina Dr. Plinio nesses seus comentários, de Nossa Senhora devemos esperar também, e com maior razão, a cura das almas.

 

É universal a fama do Santuário de Lourdes, local onde Nossa Senhora apareceu por 18 vezes a Santa Bernadete Soubirous, em 1854, e que se tornou nos anos sucessivos um dos maiores centros de peregrinações do mundo. Sobre o intenso amor que a piedosa vidente nutriu para com a Mãe de Deus ao longo de sua vida, escreve o Pe. Trochu:
“Eu A levo no coração!”

A devoção à Santíssima Virgem tinha de ser particularmente terna e filial. Maria, seu ideal vivo, ocupava em seu coração um lugar muito próximo a Nossa Senhora, declarou sua enfermeira, Irmã Marta. “Era preciso ouvi-la quando pronunciava a Ave-Maria. Que acento de piedade, especialmente quando pronunciava as palavras ‘pobres pecadores’! E quando dizia ‘Minha Mãe celestial’, nada mais podia acrescentar”.

Alguém se atreveu a perguntar-lhe se a lembrança da aparição se tinha apagado em sua memória. “Apagado? — exclamou em tom de censura. Oh! não, jamais!”. E levando a mão direita sobre sua fronte, dizia: “Está aqui”. “Deveria nos fazer — lhe sugeriu uma companheira — uma descrição de como era a Virgem, posto que a senhora sabe como era Ela”. “Não poderia nem saberia fazê-lo — foi a única resposta que deu. Eu para mim não necessito, pois A levo no coração”.

A devoção mariana encheu de certo modo toda sua vida. Tinha necessidade de meditar sobre a Virgem. Via Maria em tudo e por tudo com seu coração e entendimento. Quando rezava à Santíssima Virgem, atesta Irmã Gonzaga, parecia ainda que A estava vendo. Se alguém lhe pedia alcançasse alguma graça, imediatamente respondia que rogaria à Santíssima Virgem.

Santa Bernadete se comprazia em louvá-La, fazê-La conhecer, amá-La e servi-La. Esforçava-se em imitar suas virtudes, especialmente sua humildade e renúncia. Dedicou-se, para sua devoção, a compor acrósticos — escritos poéticos em que as letras iniciais, reunidas, formam verticalmente uma palavra ou frase — em homenagem a Nossa Senhora, e o primeiro deles tinha o nome de MARIA, a partir dos termos: mortificação, amor, regularidade, inocência, abandono.

Toda sua vida desfiou o Rosário como tinha feito em Lourdes. Esta era sua devoção preferida, disse uma superiora geral. Mais de uma vez, na enfermaria, a Irmã Gonzaga Champi alternou as Ave-Marias com ela. “Então, recorda essa freira, os olhos escuros, profundos e brilhantes de Bernadete, pareciam como se estivessem vendo Nossa Senhora”. Pela noite, quando se ia dormir, recomendava a uma companheira: “Toma o Rosário e durma rezando. Farás o mesmo que fazem as crianças pequenas que adormecem dizendo ‘mamãe, mamãe’…”.

As virtudes da vidente abonam a autenticidade das aparições

Essas notas sobre Santa Bernadete atestam sua ardente devoção a Nossa Senhora, e nos mostram como seu filial e terno relacionamento com a Santíssima Virgem era motivo de grande edificação para suas irmãs de hábito.

É interessante observar que Santa Bernadete teve uma vocação bastante similar à da Irmã Lúcia. A esta foi confiada a missão de revelar ao mundo as aparições de Fátima, e àquela, as de Lourdes. Uma vez cumprida a tarefa, Bernadete — assim como Lúcia — prestigiou as aparições de Massabielle tornando-se freira, santificando-se no convento e, posteriormente, sendo elevada à honra dos altares.

Embora a Igreja não determine, sob pena de pecado, acreditar-se nas aparições de Lourdes — pois são de caráter privado, e em matéria de fatos sobrenaturais somos obrigados apenas a crer nos oficiais —, na realidade roça pela heresia quem as conteste. Porque seria preciso admitir que uma santa canonizada tivesse tido tais ilusões.

Ora, isso não se pode fazer. De maneira que a vida e as virtudes de Santa Bernadete de algum modo atestam a autenticidade das aparições de Lourdes. Aliás, elas estão também exuberantemente corroboradas pelos milagres que ali se operam, os quais constituem uma prova de que em Lourdes realmente é a graça que atua.

Durante uma das visões de Santa Bernadete, a Santíssima Virgem lhe disse: “Revolva a terra com suas mãos, que dela nascerá uma fonte”. A menina, uma camponesa, não teve dificuldade em escavar o solo no local indicado por Nossa Senhora. E ali, onde ninguém supunha existir água, esta começou a brotar. Assim surgiu a fonte de Lourdes, manancial de curas e conversões miraculosas, conforme prometera a Rainha do Céu.

Portanto, a santidade de vida de Bernadete atesta a sinceridade de suas visões, seu equilíbrio mental e contribui, de certa forma, para demonstrar a veracidade dos fatos milagrosos ocorridos em Lourdes.

Fora desses acontecimentos públicos, ela permaneceu silenciosa, cumprindo sua missão privada. E nisso podemos aquilatar a beleza e a riqueza extraordinárias da Igreja, em cujo universo a Providência suscita diferentes vocações. Este tem uma tarefa, aquele outra, e aquele outra. Nossa Senhora distribui a cada pessoa uma determinada missão, que ela deve cumprir inteiramente, sem se imiscuir na função para a qual não foi chamada.

Em três grandes aparições, importantes mensagens

A propósito desses breves comentários, seja-me permitido ainda fazer notar um pormenor interessante. Em Lourdes Nossa Senhora comunicou também a Santa Bernadete um segredo, que deveria chegar ao Papa Pio IX.

De maneira que temos uma série de mensagens transmitidas pela Santíssima Virgem, desde meados do século XIX até 1917, em três grandes aparições — La Salette, Lourdes e Fátima — que deveriam ser reveladas aos homens gradualmente, com as devidas cautelas.

Isso nos leva a pedir a Santa Bernadete, verdadeira precursora da Irmã Lúcia, que disponha nossas almas para, com todo fervor, seriedade e recolhimento, estarmos prontos a conhecer e dar ouvidos a essas mensagens, de modo muito particular à de Fátima, cujas partes divulgadas já tiveram impressionantes confirmações.

Devemos pedir a cura de nossas almas

Por fim, vale ainda refletirmos no seguinte ponto. Nossa Senhora de Lourdes opera muitas curas. Que é mais difícil: sanar o corpo ou a alma?

Evidentemente, para a Rainha do Céu e da Terra não há dificuldade em fazer uma ou outra coisa. Tudo aquilo que a Santíssima Virgem pedir a Deus, Ela obtém. Ora, se Ela restituiu a saúde a tantos corpos, peçamos-Lhe que o faça igualmente em relação às nossas almas.E supliquemos à Mãe do Criador transmudar nossos corações, de maneira tal que chagas ocultas, defeitos ignorados às vezes por nós mesmos, apegos, desordens de todo tipo desapareçam maravilhosamente pela ação d’Ela.

Sabemos que as moléstias físicas curadas por Nosso Senhor, como narra o Evangelho, simbolizam enfermidades morais. Assim como há cegueira ou paralisia no corpo, existem as das almas. E segundo os comentaristas da Sagrada Escritura, o Redentor curava os corpos para atestar seu poder de operar curas morais.

Quiçá alguns de nós terão um estado de alma simbolizado pelos cegos, surdos, mudos, paralíticos, epilépticos e, infelizmente, até pelos leprosos. Peçamos, pois, a Nossa Senhora, pela intercessão de Santa Bernadete Soubirous, que nos cure de tudo isso e nos obtenha a graça de ficarmos com a alma verdadeiramente renovada e pura, semelhante à d’Ela.

Plinio Corrêa de Oliveira

16 de abril – Santa Bernadete Soubirous

Santa Bernadete Soubirous

Aos olhos de um século orgulhoso e cheio de incredulidade, Santa Bernadete Soubirous não passava de uma camponesa pequena e miserável, insignificante e pobre. Aos olhos da Providência, porém, ela era a escolhida para ser o arco através do qual um raio de sol das maravilhas divinas iluminaria o mundo inteiro.

Aceitando sua humilde condição e suportando o desprezo e o descaso de seus semelhantes, soube ela conduzir sua alma até os limites da sublimidade. E seu amor ao sofrimento, aceito como algo mais precioso que as próprias aparições de Lourdes, transformou-a numa das mais rutilantes estrelas do firmamento católico.

14 de abril – Quando o Céu e a Terra estavam próximos…

Quando o Céu e a Terra estavam próximos…

O jovem cônego Pedro González estava penetrado pelo pior dos mundanismos: o das coisas sagradas. Tocado pela graça divina, rompeu com o mundo e entrou para a Ordem dos dominicanos. Tornou-se célebre pregador e influenciou, com seus conselhos, o Rei São Fernando.

 

No dia 14 de abril comemora-se a festa de São Pedro González, dominicano, do qual tiramos umas notas do livro Vida dos Santos, do Padre Rohrbacher(1).

Gritos de admiração se transformaram em vaias e zombarias

Eis a síntese histórica:

Pedro González nasceu no ano de 1190 na cidade de Astorga, na Espanha, da qual seu tio era bispo. Após brilhantes estudos, foi nomeado, ainda jovem, cônego da catedral.

O tio lhe obteve de Roma a dignidade de deão do capítulo. Pedro devia tomar posse do cargo na festa do Natal. Jovem vaidoso, quis que tudo lhe ocorresse com pompa, e que toda a cidade assistisse ao ato.

Montado em um cavalo magnificamente ajaezado, atravessava as ruas da cidade. Chegando a um lugar repleto de pessoas, ferroou o animal para fazê-lo trotar com mais graça e assim aumentar a admiração do povo. Mas o cavalo deu um passo em falso e atirou o cavaleiro numa poça cheia de lama. Os gritos de admiração se transformaram imediatamente em vaias e zombarias.

Pode-se imaginar a confusão que sentiu González. Esta, porém, lhe foi salutar. No mesmo lugar exclamou bem alto: “Como! Este mesmo mundo que eu procurava agradar ri-se de mim? Pois bem, zombarei dele por meu turno. De hoje em diante dar-lhe-ei as costas para começar uma vida melhor.”

E, de fato, abandonou o mundo e entrou para a Ordem de São Domingos. Foi um ótimo religioso e mais tarde não menos excelente pregador.

Sua fama chegou até o Rei São Fernando, que lhe pediu um conselho a respeito da guerra contra os sarracenos. Mais tarde foi evangelizador dos pobres e particularmente dos marinheiros, tendo sido agraciado com o dom dos milagres. Pregou sem cessar, até seus últimos dias.

Predisse sua morte, falecendo em Tuy, assistido pelo bispo da cidade que muito o estimava. Os marujos de Espanha e Portugal o invocavam em todas as tempestades sob o nome de Santo Elmo.

Uma tradição muito razoável, pitoresca e psicológica

A vida dele é realmente pitoresca a começar por essa manifestação de mundanismo canonical. Era sobrinho do bispo que conseguira que ele fosse nomeado deão do capítulo, quer dizer, a principal figura do cabido.

Fazia parte dos costumes do tempo que quando uma pessoa assumia uma dignidade nova passeava pela cidade, revestida das insígnias de sua dignidade. Por exemplo, quando alguém era nomeado professor de universidade passeava pela cidade, com foguetório, alunos, etc., vestindo a beca e os trajes de mestre, montado a cavalo. Naturalmente era preciso saber montar a cavalo, porque a coisa não deixa de comportar alguns riscos.

Assim, quando o estudante se formava e voltava para a cidade de origem, tomava o traje da profissão que exerceria e passeava pelo meio da cidade. E o povo todo ficava vendo o novo profissional graduado, novo doutor, que iria adornar os meios sociais e intelectuais da cidadezinha à qual pertencia.

Algo disso conservou-se durante algum tempo no interior do Brasil. Até 1920, mais ou menos, se não me engano, quando um rapaz do interior se formava em São Paulo, ele ia para sua cidade e era acolhido, com banda de música, pelas autoridades municipais, e todos os que estavam na estação para recebê-lo acompanhavam-no até a casa, onde havia uma coisa horrendamente chamada “boca livre”, quer dizer a família oferecia, ao menos quando podia, uma refeição para todo mundo que quisesse comer quanto quisesse. E assim ficava entronizado o novo doutor.

Essa tradição que, aliás, é muito razoável, pitoresca e psicológica, aplicava-se até aos reis. A rainha, quando se casava com o rei e ia pela primeira vez à sua capital, tinha a “joyeuse entrée”, a alegre entrada, em que havia recebimentos e pompas.

Por exemplo, Luís XVI e Maria Antonieta, depois de casados, fizeram uma “joyeuse entrée” em Paris, porque era a primeira vez que ela ia àquela cidade oficialmente. Então, grande recebimento, grande reboliço. Isso é muito conforme à ordem natural das coisas.

No momento do sumo mundanismo, a hora da graça

Então, o novo cônego estava para entrar a cavalo na cidade, e este acontecimento deveria ser envolto em grande pompa e circunstância. Imaginem um homem guapo, montado num belo cavalo, com aqueles trajes bonitos de cônego, deão do cabido. Provavelmente havia clérigos acompanhando e confrarias fazendo coro.

Era uma época em que não existia anticlericalismo. Hoje não há mais propriamente anticlericalismo, mas é meio secundário aos olhos da opinião pública ter um cargo eclesiástico. É melhor um cargo eclesiástico do que não ter nenhum cargo, nem civil. Mas é muito melhor ter um cargo civil do que um eclesiástico, mais ou menos em igualdade de condições. Mas naquele tempo, não. Os cargos eclesiásticos eram de uma alta atração mundana.

Entra, pois, nosso cônego elegante a esporear o cavalo para trotar com mais graça. É que não havia ainda a “heresia branca”2. Esta não gostaria de um cônego que trotasse depressa. No conceito “heresia branca”, isso seria contra a caridade, não ter bom coração. Um homem que anda depressa a cavalo não tem pena nem das viúvas, nem dos pobres, nem do cavalo. Segundo esta ideia deturpada da piedade, o cônego, mesmo quando moço, deveria montar um bicho bem manso, largar as rédeas e seguir lentamente pelas ruas. Então todos diriam: “Como ele é bom!”

Mas vê-se que não havia ainda “heresia branca” e ficava bonito um cônego mostrar que montava bem a cavalo. Então a hora da graça o esperava nesse momento de sumo mundanismo, e o pior dos mundanismos que é o mundanismo das coisas sagradas. Ele monta a cavalo, esporeia o animal que começa a trotar, e espera os aplausos que principiam a se delinear. De repente, ele cai num monte de lama.

Modo da graça operar em um espanhol

Certa vez, Napoleão andava a cavalo pelo “Bois de Boulogne” ou “Champs Élysées” e o povo começou a aplaudi-lo. Então, o embaixador da Dinamarca que estava ao lado dele lhe disse:

— Majestade, que trono sólido!

Ao que ele respondeu:

— Senhor Embaixador, é um engano. Os povos se vingam dos aplausos que nos dão.

De fato, quem aplaude está pronto para vaiar. Esta é a miséria humana. Resultado: estavam aplaudindo, escarrapachou-se, irrompe a vaia. Neste momento vem a graça de Deus e converte o homem. Toca-o mostrando o vazio de todas essas vaidades, e dando-lhe um sentido de desafio àquele povo: “Como é, esse pessoal que me aplaudia, agora está vaiando? Romperei e não terei mais nada que ver com eles.”

Esse é um modo da graça operar em um espanhol. Porque a coisa se converte imediatamente em desafio tendente à tourada. Atitude sumamente bonita, que me agrada muito. Se rompeu, faça o desafio e pule em cima; e vá logo ao fim, seja radical! É bom que as coisas se passem dessa maneira, e assim fez o nosso Santo. Ele foi tocado pela graça e entrou para uma Ordem religiosa. Tornou-se dominicano e se celebrizou como pregador. Aliás, é bonito vê-lo influenciar, com seus conselhos a respeito da Cruzada, o Rei São Fernando.

Evocando um fato com saudade

Vejam que cena bonita: um chefe de Estado santo que manda chamar um pregador santo para confabularem a respeito da luta contra os infiéis. Como tudo isso está longe! Onde se encontra hoje o pregador santo? E o rei santo? Tudo isso se dissipou. E que nostalgia devemos ter desses valores que dizem tanto às nossas almas!

Imaginemos esse encontro: um rei sentado numa cadeira de espaldar alto, com braços, sobre um pequeno estrado na sala; o santo pregador entra e lhe faz uma profunda reverência desde a entrada, e o monarca lhe diz com amenidade:

— Frei Pedro, entre, esteja à vontade.

Então começam a falar e, de repente, a conversa sobe de ponto e dali a pouco estão tratando a respeito de Religião, de temas elevados, e isso dentro do palácio real.

Qual é o palácio onde hoje uma cena como essa se dá? Como isso nos faz sentir a desgraça do nosso distanciamento em relação a tantas coisas magníficas que, por essa forma, podemos entrever dentro da luz do passado. E como é útil, portanto, uma ficha biográfica que nos dê a possibilidade de nos recordarmos de toda essa felicidade.

Dante diz que nenhuma tristeza é maior do que no dia da miséria lembrar-se da ventura que se foi. Nós sofremos em parte isso. Estamos no dia da miséria e nos lembramos desses dias que se foram. Mas pelo menos ficamos sabendo que houve isso e que as coisas voltarão a ser assim. E nesse vale profundo, tão longe do que foi e – ao menos na ordem real das coisas, não cronologicamente – tão distante do que vem, nós evocamos isso com saudade.

Um modo de morrer na doçura e na paz de Deus

Depois, esse Santo exerce vários ofícios: evangelizador dos pobres e, sobretudo, dos marinheiros. Estes constituíam, então, uma ralé sem Fé nem lei, eram aventureiros. Ele se mete nesse ambiente e, sem nenhuma necessidade de ser padre operário nem de fazer concessões malucas, move essas almas porque é um Santo.

Até o fim de seus dias ele pregou, e previu a sua própria morte. É uma das graças especiais que Deus dá a alguns de seus servos: preverem a chegada da própria morte. É um modo de morrer na doçura e na paz de Deus. Isso não lhes causa pânico, porque lhes dá a esperança precisamente de chegarem ao Céu. Antigamente, isso se fazia com tal naturalidade que se conta que o Padre Anchieta, no vilarejo de São Paulo, soube com antecedência o dia de sua morte e avisou várias famílias, despedindo-se e explicando com toda a candura: “Eu vou morrer no dia tanto, tive uma comunicação a esse respeito, e queria agradecer-lhes tanta gentileza”.

É o modo mesureiro e cortesão, no sentido nobre da palavra, de se fazer visita de despedida no século XVI: “Vou morrer, preciso me despedir dos amigos”.

Podemos imaginar o assombro! Entretanto, não causava tanto espanto assim porque muitas vezes pessoas que nem eram tidas como santas viam-se favorecidas com essa graça, e anunciavam a própria morte. E quem as ouvia achava meio provável que acontecesse. Essas comunicações entre o Céu e a Terra não eram excepcionais.

Conaturalidade magnífica com o sobrenatural

Que susto se um padre hoje tocasse a campainha de nossa Sede e dissesse:

— Dr. Plinio, eu vim me despedir do senhor porque vou morrer.

Eu me sentiria, no primeiro momento, tão desconcertado que me julgaria obrigado a dizer:

— Não! O senhor ainda vai ter uma longa vida…

É o “happy end” idiota das coisas modernas.

Naquele tempo, não:

— Ah, o senhor vai morrer? Não diga… O senhor teve uma visão? Olhe, muito obrigado por ter vindo se despedir. Quando chegar no Céu lembre-se de nós. Diga de minha parte a Nossa Senhora tal coisa, fale com meu Anjo da Guarda tal outra, por obséquio não se esqueça.

— Ah, pois não, não tem dúvida, não esquecerei. Até logo.

— Até logo.

Quer dizer, é exatamente a conaturalidade magnífica com o sobrenatural. A harmonia com o celeste, o hábito do convívio com o sobrenatural que cria coisas magníficas como essas.

Por exemplo, no convento, o Santo caminhando de um lado para outro, de repente diz para o Prior:

— Padre Prior, eu julgava necessário que Vossa Reverência provesse alguém que me substituísse no apostolado dos marinheiros.

— Mas por que isso?

— Porque recebi um aviso de que vou morrer.

— Ah, então, está bem.

Já deixa o substituto indicado. O Santo morre na hora marcada, a comunidade está presente e assiste à morte. Ele adormece no Senhor, enterram-no em paz. Uma alegria geral, uma unção no pequeno local onde a morte se dá; o próprio bispo era muito amigo dele e assistiu a sua morte. Assim, ele morre sob as bênçãos e as vistas de seu pastor e com essa naturalidade vai para o Céu.

Como o Céu e a Terra ficam próximos! Que abismos se suprimem dentro desse florilégio da civilização católica! E quanta coisa bonita desapareceu também, as quais vamos rever no Reino de Maria!

Creio que no Reino de Maria não vai ser raro pessoas saberem com antecipação a data de sua própria morte. Quem sabe? Resta-me augurar que essa graça seja dada a todos nós.               v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/4/1967)

Revista Dr Plinio 253 (Abril de 2019)

 

1) Cf. ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959. Volume VI, p. 360-362.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na arte e na cultura em geral. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

13 de abril – Exemplo de constância e de fortaleza

Exemplo de constância e de fortaleza

Varão de espírito nobre, muito inteligente e culto, São Martinho I foi sujeito a uma das maiores humilhações a que um Papa tenha sido exposto, desde o começo da história do Pontificado.

 

Vamos analisar uma nota biográfica referente a São Martinho, Papa e mártir(1).

Condenado à morte por defender a verdade

São Martinho I sucedeu a Teodoro, no ano 649.

A alma do novo Papa deveria ser grande para suplantar as grandes dificuldades do momento. Para salvar especialmente as Igrejas do Oriente, devia anatematizar a heresia monotelista(2). E foi o que fez o novo Papa.

Imediatamente, por ordem do Imperador Constante II, foi preso numa emboscada e transportado num navio para o Oriente. Sofreu horrivelmente durante a viagem. Ao chegar a Constantinopla estava em extremo grau de debilidade; mesmo assim, manietado, arrastaram-no ao tribunal, chamaram testemunhas falsas que depuseram contra o Pontífice acusando-o de traidor e herético. Depois de condená-lo, carregaram-no para junto das cavalariças imperiais, onde se reunia incontável multidão.

São Martinho foi alçado a um terraço para que Constante pudesse vê-lo da sacada de seu palácio; depois o juiz que havia presidido o tribunal aproximou-se do ancião mofando: 

— Viste como Deus te livrou de nossas mãos, eras contra o imperador. Deus te abandonou.

Em seguida ordenou aos soldados que rasgassem as vestes do Papa e lhe arrancassem os calçados. Entregando-o ao prefeito, recomendou-lhe que o fizesse em pedaços. Como a multidão se mantivesse calada, o juiz incitou-a a anatematizar o condenado, mas ouviu-se somente a voz de umas vinte pessoas. As demais, olhos baixos, dispersavam-se silenciosamente.

Os carrascos então despojaram São Martinho de seus farrapos e do pálio sacerdotal. Revestiram-no com uma túnica aberta de ambos os lados, grotesca e humilhante. Rodearam-lhe o pescoço com uma argola de ferro, puxaram-no por uma corrente pela cidade até a prisão, que era a mesma dos criminosos comuns. Sob o frio intenso, tiritava. Permaneceu preso esperando a morte, mas sua pena foi comutada por prisão perpétua.

No exílio da Crimeia, seu martírio aumentou dia a dia até que o Criador o chamou para Si, no ano de 655.

Esse pontífice deixou cartas notavelmente bem escritas, cheias de vigor e sabedoria, bem como as respostas dadas no tribunal de Bizâncio. Seu estilo é nobre e sublime, digno da majestade da Sé Apostólica.

Constância e fortaleza em meio a injustos tormentos

Encontramos nessa narração vários aspectos desse martírio que são instrutivos para nós.

Em primeiro lugar, a suma respeitabilidade desse Pontífice e a forma especial de tormento a que ele foi sujeito. Por ser um santo, tinha na mais alta conta a dignidade do trono pontifício por ele ocupado, compreendendo perfeitamente tratar-se do maior cargo da Terra.

Não há dignidade de rei, nem de imperador, nem de nenhum outro que se possa comparar sequer de longe à dignidade do Vigário de Cristo na Terra, daquele que é sucessor de São Pedro, a quem Jesus Cristo deu as chaves do Reino do Céu, de maneira que aquilo que ele abrir estará aberto e aquilo que fechar permanecerá fechado.

Além disso, São Martinho era um homem de um espírito nobre, muito inteligente e culto, em cujas cartas se expressava com nobreza e elevação. Portanto, uma pessoa que gostava de tudo quanto é alto, sublime, digno.

Pois bem, ele foi sujeito a uma das maiores humilhações a que um Papa tenha sido exposto, desde o começo da história do Pontificado.

São Pedro, crucificado de cabeça para baixo, foi tão humilhado ou mais do que ele. Mas poucos foram os Papas que sofreram um martírio tão terrível como São Martinho.

Trata-se de um Pontífice romano, que se sabe Vigário de Cristo, e que é jogado no porão de um navio daquele tempo, desce na cidade de Constantinopla, é arrastado ao tribunal por hereges monotelistas, para ser condenado; depois é levado diante de uma imensa multidão, vestido de um modo ridículo, colocam-lhe no pescoço uma argola de ferro atada a uma corda, e o conduzem como se fosse um animal; encontrando-se já na iminência de ser morto, ele é arrastado, a pé e descalço, pela cidade até a outra ponta, para ser preso entre os prisioneiros comuns. Imaginem a humilhação de um homem que se preza, sofrendo tudo isso!

Mais ainda: fazia um frio intenso, ele já estava idoso e tiritava. Naturalmente tomavam o tremor dele como sendo por medo, e muitos terão caçoado dele.

Vê-se a crueldade desse Imperador Constâncio e dos hereges monotelistas, que o arrastaram. Depois ele foi mandado para a Crimeia e ali, submetido a trabalhos forçados, morreu por causa das intempéries, da idade, mas em consequência dos maus tratos. Por isso a Igreja o considera mártir. Até o fim ele não cedeu e, diante do interrogatório do imperador e do juiz, ele suportou com altivez e soube dizer ao juiz as verdades que deveriam ser ditas. É um nobre exemplo de constância e de fortaleza.

Crueldade e indolência, sintomas de um império que caía

Por outro lado, vemos o Império Romano que caminhava para seu fim. Haveria ainda alguns séculos para o termo final do Império Romano do Oriente, mas esse fim vinha sendo preparado de longe por sinais manifestos de decadência. Esse crime praticado pelo imperador na presença de todo o povo é um sintoma disso. O imperador manda expor o Papa num terraço onde ele o pudesse ver e, naturalmente, zombando do Pontífice sacrilegamente.

Todo o povo também presenciou a cena e o juiz estava querendo induzi-lo a vaiar o Papa. Mas a atitude do povo foi esta: ficou quieto e depois foi se dispersando. De dentro da multidão, apenas umas vinte pessoas — provavelmente pagas — vaiaram o Pontífice. A vaia não teve a menor repercussão, ninguém acompanhou, e as pessoas se dispersaram lentamente.

Há uma frase famosa que diz: “O silêncio dos povos é a lição dos reis”. Quer dizer, os povos não vaiam, não agridem, mas quando eles não aplaudem, os reis ficam compreendendo haver uma censura. Essa é uma frase do “Ancien Régime”(3), e isso era verdade antes da Revolução Francesa.

Quer dizer, resta sempre aos povos um recurso que ninguém tem o poder de lhes tirar: é o de não aplaudir. Como obrigar o povo a aplaudir? Uma multidão imensa, se não quiser aplaudir não aplaude, e não se pode matar a multidão por causa disso.

Entretanto, nota-se de um lado o prurido de independência dos imperadores do Oriente contra o Papa, o que acabaria desfechando no cisma e, posteriormente, na queda do Império Romano do Oriente. De outro lado, constata-se também a maldade do povo. À primeira vista, tem-se uma boa impressão do povo porque se recusou a aplaudir; era, portanto, menos corrupto do que o imperador. Contudo, não deixava de ser um povo corrompido também, porque se ele sabia que aquele ancião, sendo o Vigário de Cristo, não deveria ser tratado assim e merecia todo o respeito, o que fez esse povo que não se revoltou contra os algozes, não protestou e não vaiou aquele juiz?

Evidentemente, dispersando-se, a multidão se condenou porque provou saber que aquilo era mau, e mostrou que se tinha intrepidez de não aplaudir, entretanto, não possuía coragem de libertar. Ora, o Papa tinha o direito de ser liberto. Isso mostra o profundo apodrecimento do povo; era um império que caía de podre.

Rechaçados pela Justiça de Deus

Resultado: durante séculos essa rivalidade entre Constantinopla e Roma, as duas maiores cidades de cultura latina daquele tempo, foi aumentando. Quando no século XV os turcos assediavam Constantinopla, estava ali um personagem que pôde até assistir à queda da cidade e conseguiu fugir a tempo.

Nas cartas que esse personagem escreveu, ele pôs a seguinte nota: “O povo de Constantinopla, que era herege, tinha rompido com a Santa Sé, estava apavorado com aquela entrada feroz dos turcos, que fizeram uma carnificina, reduziram inúmeros indivíduos a escravos, entraram em conventos, destroçaram tudo”.

E fez este comentário: “Se se desse aos constantinopolitanos a opção entre salvar a cidade, voltando a aderir à Igreja Católica, ou continuar na heresia e serem destroçados pelos turcos, eles prefeririam a heresia e a morte a se unirem novamente à Igreja Católica”.

Quer dizer, um ódio tão cego à verdade que eles só queriam saber de aderir à heresia, e preferiam a morte com a heresia à vida, à dignidade e à honra. Vemos, por aí, como os adversários da Igreja podem ser fanáticos, a ponto de gostarem mais daquilo que representa o seu próprio destroçamento do que a união com o que significa a verdade integral.

Lembro-me de uma frase de Donoso Cortés(4), grande pensador espanhol, que dizia o seguinte: Os homens gostam de verdades, mas nenhum homem, a não ser pela graça de Deus, gosta da verdade inteira, da verdade global.

A Doutrina Católica oferece a verdade global. Esta, os inimigos da Igreja odeiam mais do que tudo, preferindo qualquer erro à verdade total. Assim eram os monotelistas, como também os cismáticos de Constantinopla séculos depois, e os modernistas do tempo de São Pio X. Tudo menos a verdade global. Resultado: serão rechaçados pela Justiça de Deus.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/9/1973)

 

1) Não dispomos das referências bibliográficas nas quais se baseia Dr. Plinio.
2) Monotelismo: heresia que nega a existência de duas naturezas — a humana e a divina — em Nosso Senhor Jesus Cristo.
3) Do francês: Antigo Regime. Sistema social e político aristocrático em vigor na França entre os séculos XVI e XVIII.
4) Juan Francisco María de la Salud Donoso Cortés y Fernández Canedo. Filósofo, político e diplomata espanhol (* 1809 – † 1853).

11 de abril – Santa Gemma Galgani

Santa Gemma Galgani

Com traços harmônicos e ar de profunda reflexão, a fisionomia de Santa Gemma Galgani expressa algo de extraterreno. Ela possui uma espécie de altivez e pureza angélicas; sua cútis, impalpavelmente resplandecente e luminosa, exprime a pureza virginal que há nesta santa.

O olhar é de quem tem cogitações que não são desta Terra. E não é tanto o olhar de um pensador, mas é o olhar da mística que está embebida do que vê.

Percebe-se nela a virtude da fortaleza muito saliente: o que ela quer, quer mesmo. Mas, o que ela quer? Servir a Deus e a Nossa Senhora. E esse rumo, sejam quais forem os obstáculos, ela o seguirá!

Eu diria que Santa Gemma é uma representação física, corpórea, da mulher forte do Evangelho: uma pérola rara, de preço incomparável, que compensa ir até os confins do universo para encontrar.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/1/1986)

07 de abril – São João Batista de la Salle e o sofrimento pelo autêntico apostolado

São João Batista de la Salle e o sofrimento pelo autêntico apostolado

“O verdadeiro apóstolo tem de sofrer e dar sangue de alma pela obra que deseja realizar” — afirma Dr. Plinio, ao comentar os mais salientes aspectos da vida de São João Batista de la Salle, cujos esforços e padecimentos para estabelecer o ensino religioso nas escolas primárias, redundaram em preciosos frutos de santidade e de virtude para católicos do mundo inteiro.

Sobre a vida de São João Batista de la Salle nos são apresentados alguns dados biográficos, colhidos no livro Saints de France (Santos da França), de Henri Pourrat.

Organizador do ensino primário católico gratuito

São João Batista nasceu em Reims em 1651, de uma família de magistrados. Menino ainda, em meio a uma festa, sentiu uma náusea profunda de tudo quanto o rodeava. Dirigiu‑se a uma prima, que só conseguiu consolá‑lo, lendo para ele uma vida dos Santos. Com 17 anos, tornou‑se cônego, colocando‑se sob a direção de M. Tronson, conhecido como excelente diretor espiritual. Perdendo seus pais, precisou cuidar de seus irmãos.

Nesse época, em Rouen, uma senhora fundara uma escola gratuita para meninas órfãs. Em Reims, quiseram imitar esse exemplo, mas para os meninos. M. Nyel, encarregado de iniciar as suas funções de educador nessa cidade, foi hospedado por São João Batista, que escreveu então:“Se, [antes de abraçar minha vocação], eu soubesse que a simples caridade que eu tomava para com os mestres de escola, transformar‑se‑ia no dever de morar com eles, eu os teria abandonado. Porque como eu colocava abaixo de meus criados as pessoas que trabalhavam em escolas, o único pensamento de que seria obrigado a viver com eles me pareceria insuportável”.

E assim começou a missão de São João Batista. A organização do ensino primário católico gratuito, e dos Irmãos das Escolas Cristãs.

Sofrimentos e injúrias

E com isso, seus sofrimentos. Sua cidade natal, seus parentes, puseram‑se contra ele. Escrevendo suas regras para seus irmãos, quis que vivessem confiados na Providência. Seus companheiros murmuraram que isso era fácil para ele, cônego. Abandonou então a sua posição e distribuiu seus bens. Os discípulos murmuraram agora ser crime distribuir bens senão entre eles mesmos.

Organizado o Instituto e as escolas, começaram as perseguições dos mestres‑leigos. Seu hábito simples mereceu‑lhe vaias na rua e a injúria de lhe lançarem lama no rosto.

Amarguras até “entrar na terra prometida dos eleitos”

Mais tarde, difundindo a comunhão freqüente, e recebendo cheio de alegria e submissão a bula “Unigenitus”, João Batista é atacado pelos jansenistas, e abandonado pelos próprios irmãos. Idoso e alquebrado por suas austeridades, em 1717, la Salle pensa em descansar no noviciado de Saint Yon, mas o padre que o serve em suas doenças, o maltrata. E dois dias antes de sua morte, em suas querelas religiosas, o arcebispo de Rouen tira‑lhe todos os poderes, como a um padre indigno.

“Espere — diz João Batista com um sorriso — que logo serei libertado do Egito, para ser introduzido na verdadeira terra prometida dos eleitos”. E ele conseguiu isso, na Sexta‑Feira Santa de 1719.

Relaxamento do empenho apostólico

Para bem situarmos a pessoa de São João Batista de la Salle em meio às vicissitudes por ele vividas, devemos considerar que, naquela época, em virtude das guerras de religião — muito exacerbadas na França — entre protestantes e católicos, que desorganizaram profundamente a estrutura eclesiástica da Igreja Católica, de um lado; de outro, em virtude do fato de que os efeitos salutares da Contra‑ Reforma haviam passado, estava se reintroduzindo nos fiéis, e também no clero, um grave relaxamento de costumes e de empenho apostólico.

Como resultado dessa tibieza, procurava-se muito o apostolado junto aos mais ricos, aos nobres, às pessoas importantes da corte, aos magistrados, enfim, às pessoas que, a qualquer título, tivessem um situação social. Em contrapartida, desdenhava‑se o apostolado junto aos pobres e, especialmente, os meninos carentes. Noutros termos, favorecia-se antes as relações que pudessem trazer vantagens, com detrimento para a gente desprovida de recursos.

Resultado, imensa quantidade de crianças do povo crescia sem ter formação ou ensino religioso.

À procura dos abandonados

Ora, São João Batista de la Salle nascera numa família de magistrados e, portanto, de certa categoria. Além disso, tornou-se cônego, e os cônegos naquele tempo possuíam rendas. Poderia ele, portanto, seguir o movimento geral e candidatar‑se com seu título de cônego para frequentar meios mais gabaritados que os dele. Poderia almejar uma boa carreira eclesiástica, eventualmente como bispo, talvez cardeal. Entretanto, São João Batista de la Salle segue uma orientação diversa.

Pessoa modelar que era, abnegado, desinteressado dos bens desse mundo, vai procurar aqueles que estão sendo abandonados, e constituiu uma congregação religiosa de irmãos leigos, especialmente destinados a ensinar a religião para as crianças.

Catequista primoroso

Há outro aspecto que merece ainda mais nossa consideração. São João Batista de la Salle foi um exímio professor de catecismo, e desempenhou essa função santamente, ou seja, perfeitamente. Existem modos de lecionar o catecismo em nível primário, de maneira que se marque o rumo da alma para a vida inteira. E pessoas há que se mantiveram firmes na virtude e no ideal católico, ao longo de toda a sua existência, por causa de uma catequese bem dada. São João Batista de la Salle foi desses primorosos catequistas, ensinando os fundamentos do catolicismo com toda a atenção, o recolhimento e a influência que pode haver na lição de catecismo proferida por um santo.

Mas, fez ele coisa muito melhor. Não apenas deu aulas, como fundou uma congregação religiosa voltada para a catequese no ensino primário. Ou seja, suscitou vocações de homens que deixaram o mundo para se consagrar exclusivamente ao ensino do catecismo. Portanto, milhares de pessoas que, desde aquela época, têm passado a maior parte de suas vidas nessa nobre tarefa.

Admirável baluarte de Contra-Revolução

A congregação de São João Batista de la Salle se estendeu por inúmeros países e, ainda hoje, é uma das pujantes instituições da Igreja Católica, tornando-se a esse título um admirável baluarte de Contra‑Revolução.

Digna de todo louvor é a pessoa que realiza de modo altíssimo aquilo a que foi chamada. São João Batista de la Salle é uma delas. Esforçou-se, empenhou-se, obteve êxito no seu apostolado. Sua congregação prosperou e fez o bem pelo mundo afora. Essa é a linha mestra do apostolado dele. Um homem chamado por Deus, atendeu ao apelo divino e realizou sua vocação.

Sofrimentos e contrariedades

Agora, em torno dessa linha mestra, de um traçado límpido como um canal, aparecem as sinuosidades dos sofrimentos, das dificuldades, das oposições que ele encontrou à sua frente. Cumpre tê-las presente, para se contemplar, na sua verdadeira perspectiva, a vida e a obra de São João Batista de la Salle. É bela a luta que ele teve de enfrentar contra tantas incompreensões, das quais as mais dolorosas vieram da parte dos seus próximos.

Uns se arrepiaram diante de um quotidiano confiado apenas à Providência, sem rendas nem patrimônios garantidos: “O senhor é cônego, tem bom ordenado, é fácil confiar na Providência quando, todos os meses, cai um montante na sua bolsa. Mas, para nós, coitados, onde está o nosso dinheiro? Queremos patrimônio!”

São João Batista de la Salle renuncia ao seus próprios bens, e a reclamação passa a ser outra. Ele diz:

— Pronto. Estou pobre como vocês.

— Que loucura! Dispensar esse dinheiro! Era só o que tínhamos! É um crime!

Ou seja, aqueles mesmos que deviam apoiá-lo e ajudá-lo na sua obra, não compreendiam todo o alcance do que ele desejava fazer. Muito lhe terá custado passar por essas adversidades, até que os horizontes se clareassem e seus seguidores se pusessem à altura do santo.

Outra contrariedade a vencer: tornar-se professor primário. Percebe-se pela narração que ele, em virtude da formação que recebera na família, não tinha em grande conta a figura de mestre-escola, “colocando-a abaixo de seus criados”. A Providência bate à porta de sua alma e lhe chama: “Meu filho, convido-o para ser professor primário e catequista”. Sem hesitação, ele deixa as honrarias e antigos hábitos, aceita o chamado e passa a viver no meio dos professores primários. Pode-se bem conjecturar que São João Batista esperasse encontrar, entre esses últimos, uma acolhida amável e um trato afetuoso. Não! Mais incompreensões, vistas limitadas, estupidezes.

Regou com o próprio sangue a árvore de sua obra

Ele adota uma vestimenta muito simples, para indicar a modéstia da profissão e das suas condições. Em lugar de respeito, as pessoas o vaiam na rua e chegam a jogar-lhe lama no rosto. Para onde se voltasse, encontrava ele recusa e maus tratos. Apesar de tudo, sua obra caminhava e prosperava.

Quer dizer, a Providência quis que ele sofresse tanto para, com os méritos dos seus padecimentos, com seu sangue, regar a semente que lhe fora confiada plantar e fazer vicejar.

Permitam-me chamar a atenção para essa regra da qual não se esquiva nenhuma obra apostólica: o apóstolo autêntico, ou sofre e dá o sangue de alma — mais dolorido e precioso que o do corpo — pelo que deseja realizar, ou absolutamente não é apóstolo.

Todo apóstolo tem de sofrer. E uma das suas aflições mais pungentes é a de se sentir, de um lado, chamado a empreender uma obra, e, de outro, perceber as ondas contrárias que parecem tornar sem sentido o chamado que recebeu. Essa coarctação da vocação, esse enfrentar obstáculos que parecem opor‑se à via do Espírito Santo, constitui uma das dilacerações mais penosas que uma alma pode sofrer.

De maneira que São João Batista de la Salle agiu como verdadeiro homem de Deus, suportando todas essas contrariedades. Por fim, a morte o libertou de tudo, e ele encontrou a sua coroa no Paraíso.

A nós cabe admirar e imitar esse modelo de santidade, de confiança e de resolução que levou a bom termo a obra para a qual a Providência o suscitou. Obra cujos frutos enriquecem e torna mais digna de nosso amor a Igreja Católica Apostólica Romana.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 15/5/1971)

07 de abril – Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus

Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus

Em plena Idade Média — a era das grandes batalhas travadas em defesa da Fé — pode-se contemplar uma alma repleta de respeito pelo sobrenatural ao lado de uma ternura e candura ímpares: Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus!

 

Embora pareça paradoxal, há um princípio de ordem pelo qual uma virtude, quando integramente observada, atrai a si a prática de outra, muitas vezes oposta e simétrica à primeira. Como no-lo demonstra a Idade Média — que sob diversos aspectos, fora um período de combatividade, de luta, e de seriedade —, apesar de ser a era da piedade, nutrida de grande respeito, adoração, e humílima veneração ao divino e ao religioso, não obstante, foi também a idade da ternura e da candura. Embora pareça paradoxal, há um princípio de ordem pelo qual uma virtude, quando integramente observada, atrai a si a prática de outra, muitas vezes oposta e simétrica à primeira.

Como no-lo demonstra a Idade Média — que sob diversos aspectos, fora um período de combatividade, de luta, e de seriedade —, apesar de ser a era da piedade, nutrida de grande respeito, adoração, e humílima veneração ao divino e ao religioso, não obstante, foi também a idade da ternura e da candura. Aparentemente contraditórios, esses aspectos são, em realidade, apenas opostos, e demonstram a riqueza da alma medieval enquanto observante da Lei de Deus.    

Em meio à era das grandes batalhas, duramente travadas em defesa da Fé, pode-se entrever uma vida modelar, cheia de ternura e graça, que prenunciava de modo maravilhoso a Pequena Via idealizada por Santa Teresinha do Menino Jesus, pois esta via de santificação seria mais compreensível para os horizontes do homem medieval, do que para as espiritualidades posteriores, enregeladas pela Renascença e pelo processo revolucionário então nascente.  

Amigo e companheiro do Menino-Deus

A vida de um humílimo sacerdote premonstratense — o qual brilhou intensamente por sua virtude, delicadeza e ternura — foi expressão encantadora da espiritualidade medieval. Trata-se de Santo Hermano José.

Seus traços biográficos foram retirados da “Vida de Santos” de Englebert, como também de “Na Luz Perpétua” de Lehmann:  “Este bem-aventurado foi não somente um dos maiores devotos de Nossa Senhora, como um dos grandes contemplativos medievais”. É necessário, para bem compreender sua vida, considerar que ele fora grande escritor, redigindo obras de Teologia, além de outros tratados, e, portanto, um homem de alta cultura.

Todavia, sua vida sobrenatural iniciou-se quando era apenas menino. “Nasceu em Colônia, em ano desconhecido, no século XII, de uma rica família que empobrecera.”Nasceu, portanto, no apogeu da Idade Média, assemelhando-se com o Menino Jesus, que era de uma grande família que empobrecera“. Desde muito criança, procurava os altares da Santíssima Virgem e com Ela conversava longo tempo”. Certamente numa igrejinha do campo, ou na própria Catedral de Colônia, o pequeno Hermano, no altar de Nossa Senhora, aos pés da imagem, conversava por longo tempo com Ela.

Este fato faz sentir uma atmosfera delicadíssima da biografia dele.“Sua simplicidade era encantadora. Certa ocasião, trouxe uma maçã e pediu à Mãe de Deus que a aceitasse; a imagem da Virgem moveu-se e estendeu a mão para receber a oferta”. Para a Europa, a maçã é uma fruta banal, como a laranja para as nossas terras. Por isso mesmo vê-se a inocência dele, ante a grande bondade de Nossa Senhora. 

Por simples e comum que seja a oferta, é oferecida por um filho, e Ela toma aquele gesto cheia de encanto e amor.  “Outra ocasião, ao chegar à igreja, viu a Rainha do Céu em meio a grande esplendor, tendo a seu lado São João, que brincava com o Menino Jesus. Hermano ficou contemplando a cena, quando a Virgem o chamou.

Rapidamente ele subiu os degraus do presbitério, mas a grade fechada impediu sua passagem. ‘Não posso subir – disse a Maria Santíssima –; a porta está fechada e não há escada para eu trepar por cima da grade’. Maria ensinou-lhe, então, a fazer do gradil escada e subir. Penetrando assim no coro, recebeu licença para brincar com o Menino-Deus.” 

Era por certo São João Batista que brincava com o Menino Jesus, do qual ele era parente.Não seria difícil imaginar a bondade da Rainha do Céu indicando ao pequeno Hermano: coloque os pés aqui, segure ali, e então desça pelo outro lado. E por ser inocente, ele tomava com inteira naturalidade tudo o que se passava, sendo nada menos que companheiro do Menino Jesus e de São João Batista! Todos estes fatos fazem sentir de algum modo o sabor da Pequena Via.    

Por que andas descalço?

“Num dia de inverno, dirigiu-se descalço à igreja, e enquanto rezava no altar da Virgem, esta lhe perguntou: ‘Hermano, por que andas descalço neste frio?’ E a resposta de Hermano: ‘Porque não tenho calçado.’ A Virgem, então, deu-lhe a quantia necessária para comprar sapato”. Até a estes aspectos chegava a preocupação e a ternura de Nossa Senhora, para que ele não andasse descalço.

Todos estes tocantes fatos da vida de Santo Hermano José prestam-se perfeitamente para a pintura das inocentes iluminuras medievais.“Toda a vida desse santo foi assim povoada de visões e êxtases. Aos 12 anos entrou para a Ordem dos premonstratenses de Steinfeld”. Pode-se entrever a familiaridade contínua com o sobrenatural que o marcou por toda a vida. 

Homem preso a Deus

Ordenado sacerdote, foi encarregado de dirigir alguns conventos de religiosas, para as quais escreveu diversos tratados de piedade e um comentário do “ântico dos Cânticos.

Quão valiosas deverão ser essas meditações sobre o Cântico dos Cânticos, comentadas por um homem de tão grande alma. Entretanto, não raras vezes, são estes livros repletos de preciosidades que inexplicavelmente desaparecem aos olhos dos homens, sendo descobertos apenas por uma longínqua posteridade. “Compôs vários hinos, sendo de sua autoria o mais antigo hino ao Coração de Jesus: “Summus Regis, cor aveto!” Sua vida foi de ininterrupta penitência, atacado de tentações e doenças. 

Sofria de contínuas enxaquecas que só cessavam quando subia os degraus do altar para celebrar, mas que redobravam de violência quando se aproximavam as solenidades litúrgicas.  Jogando com as palavras, ele dizia a propósito: “Festae sunt mihi infestae” – as festas são para mim nefastas. Seu pensamento estava sempre tão preso a Deus, diz seu biógrafo, que lhe era indiferente o curso do mundo.  No entanto, seu coração era como um hospital geral, onde, a começar pelos aflitos e confrades, todos os homens encontravam terno acolhimento e seguro refúgio”. A melodia desses hinos compostos por ele deve ser de grande beleza e piedade, e a letra, de riqueza sobrenatural. 

Tal a vida, tal a morte“Morreu Hermano, que adotara o nome de José por permissão especial da Virgem, em 1241. Seu corpo foi, mais tarde, encontrado intacto.”Há coisa mais bela que, anos após a morte de alguém, abrir-se o caixão e encontrá-lo intacto? Pois bem, lá estava Santo Hermano revestido de seu hábito premonstratense, reclinado no caixão, com ar de quem ainda está compondo seu último hino ou tendo sua última visão. Seria altamente repousante conhecer este santo e com ele poder conversar. E aproximando-se de joelhos pedir: “Por favor, poderia contar-nos como foram as suas visões?” Ele, então, recolhido e luminoso responde: “Com quanto gosto! Qual delas quer?” 

Certamente não conseguiríamos encerrar o diálogo antes de, maravilhados, conhecermos todos aqueles tocantes encontros dele com a Santíssima Virgem e seu Divino Filho. Pode-se compreender, através desta cogitação, o que será o convívio celeste, pois haverá inumeráveis almas como a de Hermano. E figurativamente, ao passar pela primeira “esquina” do Paraíso Celeste, deparando com um ancião de muitos dias, perguntar: — Quem sois vós? — Sou Hermano. 

E sentando-se em uma nuvem, ou em uma pedra preciosa diante de um rio, onde cantam os pássaros, ele calmamente descreve toda a sua vida. Se houvesse tempo no Céu, se lá houvesse minutos, o quanto não se daria para ver, por apenas um minuto, o sorriso e contemplar a santidade de Santo Hermano! 

Em meio às coisas horrorosas, disformes e incongruentes do mundo hodierno, Santo Hermano passa diante de nós como um anjo em meio às chamas do Purgatório. Lendo a sua vida é possível… é possível pensar: “Afinal, um consolo: um dia irei ao Céu. E lá encontrarei Santo Hermano”. Aqui fica um orvalho de esperança do Céu, enquanto tem de se batalhar na fornalha de nossos dias.

Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência em 6/4/1967)

05 de abril – A festa da seriedade triunfante

A festa da seriedade triunfante

A paz de alma é uma disposição pela qual a pessoa, colocada diante das piores dores, não sofre fratura em seu princípio axiológico. Ela compreende que a vida é assim e tem de ser assim. Portanto, não se agita, não se convulsiona, não se entrega a frenesis ou manifestações de inconformidade sem propósito. Pelo contrário, sabe que tudo se passa dentro das normas.

O ideal é quando a pessoa possui um temperamento tão dócil que não precisa fazer esforço para manter-se nesse estado de espírito. Para outros, de temperamento agitado, será necessário lutar, e nisso há um mérito especial.

Este é o primeiro ponto: considerar que o sofrimento é normal e parte integrante da vida, faz bem às almas e dá glória a Deus.


A dor, um “nonsense”?

A esperança de passar uma vida sem sofrimento é das mais mentirosas que possa haver. Segundo a concepção mundana, “coitado” é aquele a quem acontecem habitualmente infelicidades. Ele deve se conformar, porque “não tem remédio”.

É como alguém que nasceu, por exemplo, com uma doença na espinha dorsal, é paralítico, passa a vida numa cama. Não há o que fazer. A ideia que fica é: “Há gente que nasce assim, mas não sou desses, nem sequer posso pensar nisso. Isso é um absurdo.”

Então, a dor apresenta-se como o grande nonsense¹ e a alegria como o único sentido da vida. Resultado: a pessoa se apega enormemente a essa noção.

Olha, por exemplo, para seus próprios parentes: são todos ricos, bem instalados, não enfrentam contrariedades, os negócios dão certo, os planos de viagem não são perturbados, têm as relações que querem e evitam as que não desejam. Enfim, fazem a vida como lhes apetece. São “felizes”.


Mania do riso, negação da seriedade

Se considerarmos verdadeira essa teoria – que, na realidade, é infame –, o riso torna-se a atitude habitual do homem. Tudo quanto leva a pensamentos tristes é absurdo, porque perturba a alegria, considerada a finalidade da vida.

Nesse sentido, a seriedade seria irmã, filha ou mãe da melancolia. Logo, é preciso não ser sério, mas brincalhão, engraçado, viver rindo o dia inteiro. Se, durante o dia, houver vinte oportunidades de rir e de estar contente, tem-se um “bom dia”. Fora disso, nenhum dia seria bom.

Não é preciso ser adulto para ter essa mentalidade. Muitos meninos estudam pouco porque acham absurdo ter de estudar, pois isso “rouba” a alegria. Querem apenas uma vida de eterno feriado.

E, se alguém pergunta a um deles:

— Mas você não pensa que se tornará um adulto ignorante?

Ele responde:

— Não tem problema.
Desde que eu seja rico e possa me divertir, cultura, talento e todos os outros atributos humanos não têm importância nenhuma. É preciso ter dinheiro, vestir-me bem, frequentar o meio social que eu quero e rir, rir, rir o tempo inteiro.

Essa se torna a finalidade da vida. A seriedade torna-se impossível, pois tal mentalidade é a negação mais rotunda dessa virtude. O homem contemporâneo foi habituado a esse estado de espírito.

Ora, exatamente o contrário disso nós devemos adquirir.


Qualidade de sub-homem

Qual é o oposto desse estado de espírito? Antes de tudo, é compreender quão desprezível é uma pessoa que não possui as qualidades verdadeiras do homem.

O seu pensamento é como uma cartilagem inconsistente: só pensa asneiras. Sua vontade é como um leme quebrado: incapaz de indicar o rumo do navio. Sua sensibilidade é como a de uma pele doente: dolorida ao mínimo toque, incapaz de suportar o menor sofrimento.

Quem não é capaz de entender, admirar, querer ou fazer qualquer coisa um pouco acima do nível do chão não é um homem, mas um sub-homem, um bicho. Os passarinhos levam essa vida: se é agradável voar de um galho a outro, lá vão; se querem esvoaçar perto de um tanque, lá estão. Fazem apenas o que é deleitável, guiados pelos instintos.

Pois bem, assim agem certos homens. Uma pessoa que recebeu essa formação desde pequeno, e não foi habituada a reagir adquirindo um estado de espírito oposto, inevitavelmente desemboca na quarta Revolução, cuja essência está expressa num dos slogans da Revolução da Sorbonne: “É proibido proibir.”


Necessidade do árduo

Entretanto, isso se liga a outra realidade: o espírito humano bem construído possui tendências pelas quais, em certo momento, deseja realizar grandes ações.

É como um jovem que, de vez em quando, quer subir uma montanha, atravessar a nado uma baía, participar de um torneio de esgrima, fazer algo difícil. Seu corpo e sua sensibilidade têm necessidade do árduo, do grande, para se sentirem proporcionados às potências que não podem permanecer adormecidas.

Daí a existência de campeonatos — alguns medíocres — mas que, afinal, exprimem de algum modo essa necessidade. Daí também a nobreza do risco bem calculado. Se, diante de um risco, o indivíduo percebe ser capaz de enfrentá-lo e sair-se bem, e então se lança, essa atitude é nobre, elevada. A própria palavra “nobre” começa a ter sentido para ele.

Mesmo a melancolia e a tristeza podem acrescentar algo à sua alma. Por exemplo, a tragédia grega, com tudo o que tem de horrível, acaba sendo bela; e o homem, ao lê-la, acrescenta algo ao seu espírito.


Páscoa: seriedade gloriosa e triunfante

Esse mesmo homem, colocado diante da leitura da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e das cerimônias da Semana Santa, tem a alma naturalmente disposta a corresponder à graça específica desses Mistérios da Vida do Redentor.

Ele vê o que Nosso Senhor fez de insigne e admirável e, estimulado por isso, diz:
“Eu também quero! Ainda que me venha um sofrimento tremendo, desde que eu O imite e seja um só com Ele, eu quero!” — É algo admirável!

Só então o homem começa a conceber o encanto das coisas vistas em profundidade, a compreender o aspecto do universo que conduz a Deus; aprende a elevar o espírito para os destinos eternos, para a adoração, para o serviço e para a glória de Deus.

Isso confere ao homem a solidez e a seriedade devidas. Ele introduziu em seu “mobiliário” mental o mais belo dos ornatos: a Cruz de Cristo. Porque compreendeu que nunca se fez coisa mais bela do que o Homem-Deus ter querido sofrer tudo quanto sofreu, da parte de homens que não tinham nenhum direito de fazer o que fizeram — homens infames, grosseiros, sem-vergonha. Nosso Senhor aceitou isso imediatamente, por um povo ingrato e por discípulos infiéis. Um nonsense aparente, mas sustentado no peito! Assim é: vitorioso!

Neste sentido, pode-se dizer que a Páscoa da Ressurreição é a festa da seriedade triunfante — não a seriedade esmagada, melancólica e triste, mas gloriosa, brilhando com todas as luzes de Deus.


¹ Do inglês: disparate.
(Extraído de conferência de 26/1/1989)