26 de abril – Sublime intimidade entre o Menino e a Mãe

Sublime intimidade entre o Menino e a Mãe

Aplicando o senso católico e o discernimento dos espíritos ao comentar o afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, Dr. Plinio sonda as encantadoras profundidades do convívio entre o Menino Jesus e sua Mãe santíssima.

 

Nossa Senhora do Bom Conselho se apresenta a nós com uma invocação que, à primeira vista, talvez não pareça ter muita relação com o quadro. Este representa uma Rainha de um pequeno país balcânico, o que se nota na figura, nos ornamentos e, mais ainda, no tipo marcadamente oriental, com os olhos um pouco em amêndoa, e voltados para baixo.

Ela está com o Menino nos braços e numa atitude de muita intimidade, em que se tem impressão de que Ela esqueceu que é Rainha e Ele esqueceu que é Rei! Não que hajam pedido demissão ou abdicado da realeza. Mas, no momento, aquilo que está no fundo do espírito, na primeira plana da atenção e do modo de sentir, é o fato de que Ela é Mãe e Ele é Filho!

Profundeza de sentimento e de pensamento

Mais ainda — e é uma das coisas que mais me atrai no quadro —, há uma profundidade na intimidade de relacionamento, pela qual se sente até o fundo da alma d’Ela: Ela é Mãe, e Mãe daquele Filho, quer bem àquele Filho; e até o fundo da alma d’Ele: Ele é Filho, e Filho daquela Mãe! Há entre Eles uma união de alma, que explica a tranquilidade e quase a imobilidade daquele afeto.

Ou seja, é um afeto que chegou tão ao fundo, que Eles não têm nada para dizer entre Si. Estão quietos e apenas querendo-Se bem, mais nada, como quem nota que, de parte a parte, o conhecimento e o afeto mútuos chegaram até o fim. E que, portanto, não há mais o que considerar. É só fruir uma bem-aventurada delícia daquele mútuo entendimento e mútuo estar juntos!

Nesse ponto, o artista foi muito delicado porque, pintando o Menino com todas as feições de criança daquela idade, e nada de comum com o hominho precoce, vê-se n’Ele uma profundeza de sentimento e de pensamento, que o homem feito não tem. E que corresponde inteiramente à Doutrina Católica sobre o Homem-Deus.

A unidade das naturezas divina e humana na mesma Pessoa traz, como consequência, que aquele Menino, daquela idade, concebido sem pecado original, e que, portanto, não passou por nenhuma das debilidades e das — eu digo no sentido etimológico latino — imbecilidades, das fraquezas da infância, tenha a profundidade do sentir. Ele está tão consciente do que é uma mãe, do que é aquela Mãe, quais as profundezas de alma que Ela oferece a Ele; e Ele entra tão a fundo nessas profundezas que se põe na mão d’Ela como uma criança!

Quadro que tem um voo sobrenatural extraordinário

Com um sublime paradoxo: Ele é criança para tudo, exceto para entender e querer as coisas sublimes, extraordinárias. De maneira que não me espanta que Ele quisesse precisar d’Ela para os serviços mais modestos. Porque é assim que se compagina a condição de criança no Menino-Deus. E o quadro exprime isto admiravelmente. É uma obra de arte mediana, mas tem um voo sobrenatural extraordinário!

O afresco nos dá bem a noção da relação entre Eles. O modo como Nossa Senhora O carrega é o de uma pessoa que leva um tesouro de um valor infinito; mas é uma pessoa muito generosa. Se supusermos um indivíduo levando um tesouro, nós o imaginamos agarrado ao tesouro, e voltado a impedir que alguém o roube; e sua atitude é de quem diz para qualquer um: “Isto é meu, não é seu! Não chegue perto e não amole, porque é meu!”

Nossa Senhora não. Ela O segura com muito cuidado, muita delicadeza, de maneira tal que nada se passa n’Ele, ou em torno d’Ele, que Ela não note imediatamente; uma vigilância materna dulcíssima! Mas Ela não deixa ver a menor preocupação de que Lhe tirem o tesouro. Ela sabe que é desses tesouros que quando se compartem não se dividem. E uma vez dado, ele fica inteiramente com quem deu, e inteiramente a quem foi concedido. De maneira que, sem propriamente mostrar o Menino, a própria posição do rosto d’Ela foi calculada com cuidado para que não ocultasse nada da face do Menino. E que o Menino ficasse em primeiro plano e Ela no segundo.

E, pelo respeito e pela seriedade tranquila, distendida e afetuosa com que Ela O carrega, vê-se que Ela tem uma noção inteira de que está levando o Filho de Deus. E que O adora com o mais profundo respeito.

Mas, de outro lado, Ela tem a sensação de estar de tal modo penetrada pelo afeto d’Aquele a quem Ela respeita, que Se sente desembaraçada para, sem nenhuma vacilação, nenhum acanhamento, dar ordens ao seu próprio Deus. De maneira que Ela delibere quando é hora de deitá-Lo ou tirá-Lo do Presépio; se é hora de dormir ou não. E Ela, sabendo que é nada, ou como que nada, para o Deus d’Ela diz: “Meu Deus, chegou a hora de dormir!” E Ele, cuja natureza humana está hipostaticamente ligada à natureza divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, fecha os olhos e dorme, porque sua Mãe mandou.

Desdobramentos da Encarnação

Todas essas possibilidades estão contidas no “et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis”. Quando São João diz no prólogo de seu Evangelho: “O Verbo de Deus se fez carne, e habitou entre nós”(1), todo esse celeste turbilhão de relações vertiginosas, admiráveis e dulcíssimas será contido na Encarnação, são desdobramentos da Encarnação.

Não conhecemos detalhes do convívio entre Eles, mas é possível, por exemplo, que Ele, com um pouco mais de idade, na hora de brincar — e era Deus querendo brincar! — não tenha dito a Ela o que queria, como não diz uma criança que não sabe ainda falar. E que Ela, por amor, precisou adivinhar que Ele queria uma bola. E que tenha arranjado uma bola para Ele.

Podemos imaginar Nossa Senhora e São José confabulando sobre o tamanho, o diâmetro da bola, de que matéria seria, como fazer a bola oca, para não ficar muito pesada para a mãozinha d’Ele, etc. Mas ambos já imaginando em cima desta bola uma cruz, como se haveria de ver depois nas mãos de incontáveis reis da Terra!

Ou, então, Maria Santíssima prestando atenção para saber de que comida Ele gostava mais. Ou fazendo oração para pedir a Ele que Lhe desse o conhecimento de qual era a refeição que Ele queria comer naquele dia. E Ele talvez fazendo dificuldade para falar; de repente, dizendo a Ela uma palavra qualquer, própria de criança, mas na qual Ela percebia misteriosamente que queria dizer: “Não sabeis, minha Mãe, que Eu vim à Terra para sofrer?”

Ninguém pode calcular o que foram as relações dessa infância, os mistérios, as sublimidades… Deus brincando! A Escritura diz que, antes de todos os séculos, Deus, que é a Sabedoria, brincava na superfície de Terra(2). Mas daí a uma bolinha feita na oficina de Nazaré… Que diferença!

A Mãe que criei e da qual nasci

E Nossa Senhora falando com Ele… Assim como Ele se transfigurou para três Apóstolos no alto do Monte Tabor, quantas vezes Ele Se transfigurou para Ela? E em que atitudes? Dormindo, talvez… E no dormir, que poder, que majestade, que inocência, que delicadeza! Às vezes, de fugidio, de repente, é Deus que Ela vê!

Quem pode calcular isto?

Nós sabemos, pelo Gênesis, que Deus, no sétimo dia, repousou e considerou todas as coisas que tinha feito. Mas nenhuma delas era bonita como Nossa Senhora. E Jesus, como Criador, confabulando com sua natureza humana, por assim dizer, pensando: “Como é linda esta Mãe que Eu fiz e da qual nasci! Como a alma d’Ela é incomparável!

Ali no quarto — estando entreaberta a porta — vejo que Ela está rezando. É noite, e uma candeia dá uma luz indecisa. Vejo o perfil d’Ela e noto que Ela reza para Mim. Mas não entro no quarto. E percebo que Ela está orando para o Padre Eterno, para o Divino Espírito Santo. Eu — como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, diria Ele — conheço a oração d’Ela. Entretanto, é hora de chamá-La para tal coisa.” E grita: “Mamãe!”

Poder-se-iam multiplicar as situações, desenvolver isto ao infinito. Ele A vê, em certo momento, chorar. E Ele sabe, porque a Santíssima Trindade — Ele, portanto — está dando esclarecimentos a Ela sobre a Paixão, e depois sobre a morte d’Ele. E Ele nota a docilidade d’Ela, como Ela aceita, como Ela quer. Mas Ele vê desde já aquela espada que transpassa a alma d’Ela. E Ele Se deleita em considerar que, pelo amor que Ela tem aos homens, Ela quer que Ele morra. E no dia seguinte, quando Ela se levanta, Ele percebe um sulco de dor que dá uma majestade, uma gravidade, uma interioridade à fisionomia d’Ela, que é verdadeiramente indescritível.

Imaginemos Nossa Senhora tendo conhecimento profético dos milagres, dos ensinamentos, das parábolas d’Ele, vendo a figura d’Ele, num alto de um monte, que passa… A Paixão, a Cruz, a morte e a glória da Ressurreição. Quem poderia imaginar tudo isso adequadamente? Ninguém!

Quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, no Colégio São Luís

No Colégio São Luís havia um quadro da Mãe do Bom Conselho colocado no retábulo do único altar da modesta capela, que era uma sala transformada em capela. Inúmeras vezes entrei lá. Por exemplo, para celebrar o mês de maio em honra de Nossa Senhora, diariamente todos os alunos entravam na capela cantando. Eu olhava para a imagem, naturalmente, e minha atenção era solicitada por duas coisas muito desiguais: uma era a Mãe de Deus e outra o Menino Jesus, mas tomados em tese, como a Doutrina Católica os considera, e como a mente de uma criança pode alcançar.

E pensava: “É a Mãe de Deus, Maria Santíssima, que me deu aquela graça no Coração de Jesus(3) e está aqui sob outra invocação, outra roupagem. Mas é Ela! E vou rezar para Ela, porque já vi como é misericordiosa comigo. Sem a misericórdia d’Ela eu não me arranjo. Mas com a misericórdia d’Ela eu alcanço tudo. Portanto, é mais uma oportunidade de me unir bem a Ela, e rezar a Ela para alcançar esta união”.

Eu sabia que o título, a invocação d’Ela era “Mater Boni Consilii”, portanto, Mãe do Bom Conselho. E tentei, algumas vezes, rezar para esta invocação, que eu notava ser excelente, mas não me dizia grande coisa. A piedade é assim: às vezes uma invocação excelente não nos fala muito à alma.

De maneira que isto ficou assim, até eu ler um livro sobre Nossa Senhora de Genazzano, pouco antes de sofrer aquela crise de diabetes(4), e depois suceder tudo quanto sucedeu. Seria mais ou menos como um facho de luz que nasce pequenino, de uma lâmpada pequena, mas forte, e que depois se torna imenso. Assim seria essa primeira visualização minha de Nossa Senhora de Genazzano.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 26/4/1985)

1) Jo 1, 14.
2) Cf. Pr 8, 31.
3) Ver Revista Dr. Plinio, n. 1, p. 4-7.
4) Ver Revista Dr. Plinio, n. 21, p. 20-21.

26 de abril – Obra de cortesia e de arte

Obra de cortesia e de arte

Dr. Plinio descreve o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, mostrando, entre outros elevados e profundos aspectos, a cortesia de Maria Santíssima.

A fotografia mostra Nossa Senhora como Rainha. As coroas de Maria Santíssima e do Menino Jesus são de pedras preciosas, não propriamente do quadro, mas joias que foram nele presas posteriormente, em razão dos grandes milagres e graças de que o afresco de Genazzano tem sido ocasião.

Nossa Senhora está olhando para quem reza

Vemos os colares de pérola que estão suspensos no quadro, alguns adornos que dão uma ideia oriental, com uma espécie de meia-lua; são coisas muito legítimas, muito boas, mas nós podemos abstrair delas para compreendermos bem o afresco em si mesmo como pintura.

No quadro, percebemos que há uma coerência admirável na figura mais expressiva, que é Nossa Senhora, porque o Menino Jesus é menos expressivo.

O que há de interessante na figura de Maria Santíssima?

A fisionomia d’Ela está completamente distendida. Não se nota um músculo que esteja contraído, que indique qualquer impressão, exceto a sensação de contentamento de estar com o Menino. Ela está toda voltada para a ideia de que segura o Menino Jesus nos braços e só está pensando n’Ele; não tem outra preocupação. O mundo inteiro não existe para Ela, há apenas o Menino Jesus.

O curioso é que Ela não está olhando propriamente para Ele, mas para quem reza. Percebe-se que o fato de a face de Nossa Senhora tocar na fronte e na face do Menino Jesus faz com que Ela tenha uma espécie de degustação da presença d’Ele, de alegria daquele contato do corpo que é, sobretudo, um contato de alma muito íntimo, que A deixa cheia de satisfação.

Esse contato, entretanto, é habitual e não de surpreender. Não é um êxtase, nem nada deste gênero, mas uma impressão, uma sensação como toda mãe tem com seu filho; quando ela está com seu filho, há momentos em que o amor materno se abre mais, floresce mais e o seu carinho se expande. Nossa Senhora é apresentada desta maneira aqui.

Bondade, ternura, proteção

A bondade, a ternura, a proteção d’Ela para com o Filho se fazem notar muito na posição do pescoço e da cabeça. O Menino está suspenso n’Ela e A agarra pelo pescoço — a ponta da mão direita d’Ele aparece por detrás —, e explica que Ela esteja com o pescoço ligeiramente inclinado pelo peso d’Ele. A intimidade d’Ele com Ela é extraordinária! O Menino agarra como algo que Ele está habituadíssimo a segurar, e Nossa Senhora se deixa agarrar como quem já foi segurada mil vezes. E até acha agradável sentir-Se curvada diante de um peso tão suave, tão doce, tão deleitável para Ela.

O Menino não está propriamente com medo, mas meio agarrado a Ela como quem, também Ele, não quer saber nada do mundo de fora. Ele está todo para Ela, como Ela está toda para Ele. Ele só tem alegria de estar ligado à Mãe d’Ele, mais nada, e na alegria de se sentir protegido e unido a Ela.

Nenhum dos dois pensa, nem cogita nem nota nada. Olhem para essa Criança: não está pensando em bola, em doce ou qualquer outra coisa. Está pensando apenas: “Mamãe”; e a Mãe está pensando somente: “Meu Filho”.

Nota-se, entretanto, uma coisa curiosa: na expressão d’Ele, apesar de ser menino, existe — é uma delicadeza do quadro — uma sensação de “doninho”. O Menino Jesus segura Nossa Senhora, está contente, protegido, mas Ele é um pouco “doninho” d’Ela, enquanto n’Ela existe uma veneração, respeito. Parece que Ela está procurando escutar o que se dá dentro d’Ele, se sai uma palavra desse Sacrário que Ela tem nos braços… E quando se presta atenção, vê-se o seguinte: Ela está rezando para Ele. Essa posição da cabeça, essa atitude, é de quem ausculta, no fundo está numa espécie de prece, não pedindo algo, mas fazendo uma contemplação da Pessoa d’Ele, querendo tomar contato com a Pessoa d’Ele. É uma meditação, uma contemplação muito alta.

Está subentendida a doutrina da mediação

Ele está nesta intimidade com Ela, mas, enquanto os olhos d’Ela vão para baixo, os olhos d’Ele vão para cima, dirigem-se a Deus. É a ideia da mediação. Ela olha para Ele e Ele olha para Deus. Nós olhamos para Nossa Senhora, Ela olha para Jesus e Ele olha para Deus.

É bonito que tanta doutrina tenha sido posta tão delicadamente neste quadro, que nem se sabe o que dizer.

Notem outra coisa: o olhar d’Ela é, curiosamente, bivalente. Não é verdade que Ela está olhando para Ele? E também olhando para quem fita o quadro?

Sente-se meio olhado por Ela quando se olha para o quadro, e é bem o papel d’Ela. Ela é nossa medianeira, recebe nossa oração, transmite para Ele e Ele é Deus e transmite a nossa oração às outras Pessoas da Santíssima Trindade.

De maneira que se tem a Doutrina Católica suavissimamente expressa, sem essa precisão dogmática que é própria à Teologia, mas com esse subentendido que é próprio à arte. Porque é agradável adivinhar isto no quadro, sem que se veja à primeira vista.

Os que se encontram neste auditório, não acham mais interessante descobrirem quando uma pessoa lhes mostra, do que estar escrito em baixo: “Mediação universal”? 

Que dizer, a coisa que se insinua é dada a entender de leve, não está afirmada de modo cortante, mas a pessoa vai assim descobrindo como atrás de um aroma delicado. Na arte, isso tem seu encanto. Para a arte, às vezes certo mistério aumenta o atrativo. Aqui temos, então, este mistério.

Sentir-se filho mais até do que adotivo

Há outro aspecto interessante: essa intimidade. Toda intimidade é fechada, exclui. O pintor soube — aliás, a meu ver, esse quadro foi pintado por Anjo — criar uma coisa curiosa, que é uma intimidade aberta. Tem-se a impressão de que se alguém for chegando perto, entra no circuito dessa intimidade; que é amado por Nossa Senhora, pelo Menino Jesus, é entendido pelos dois e que Eles socorrem a pessoa que se aproxima. Qualquer um que se achega a esse quadro pode sentir-se íntimo, sentir o aconchego da presença do quadro. Seja uma alma reta, seja um pecador, seja até um inimigo; se se aproxima sente esse aconchego.

Outra coisa curiosa: Nossa Senhora aqui está sorrindo? Olhando para os lábios, não. Não sei se notam que há um ligeiro sorriso indefinido espalhado por todo o rosto; e é um certo comprazimento para com o Filho. Mas de outro lado também é um comprazimento para com o devoto, com o fiel que chega aí perto, filho d’Ela como Este outro.

Está insinuado no quadro que quem olha para o quadro é irmão do Menino Jesus, é também filho d’Ela. Esse quadro poderia se chamar “Adoção”. Porque a pessoa se sente filho adotivo, ou mais até do que adotivo, simplesmente aproximando-se do quadro. Isso me parece ser o que o quadro tem de mais interessante.

Pergunto o seguinte: o quadro é de uma Rainha? Faço abstração da coroa. Não há nada que indique uma pessoa de alta categoria social, nem de categoria social modesta, nem média. Está à margem das categorias sociais. Apesar disto, há qualquer coisa n’Ela de Rainha, porque é sumamente venerável, sumamente respeitável. Se fôssemos abrir a boca para dizer uma palavra, teríamos vontade de nos ajoelhar.

Por quê? Tão ordenada, tudo tão direito dentro d’Ela, que qualquer palavra que partisse d’Ela seria uma palavra de sabedoria, de santidade. Quase que se imagina o timbre desta voz, seria um ensinamento. Imediatamente teríamos desejo de nos colocar genuflexos. Todas essas riquezas foram postas neste quadro.

Nossa Senhora está cortês com o Menino Jesus, nesse afresco? Eu diria que sumamente cortês. Notem com que respeito Ela está com Ele. É um enorme respeito, uma veneração. Mas, de outro lado, muito íntima. E Ele com Ela também, com que respeito! Como Ele está direitinho, nada está errado, nada como não deve ser. Jesus tem a sensação da sacralidade dos braços em que Ele está. Quer dizer, um menino dessa idade, rezando numa igreja, não podia ter uma atitude mais cheia de respeito do que está aí.

Temos aí uma verdadeira obra de cortesia e de arte.

No que está a cortesia nesse quadro? Os três elementos da cortesia estão presentes ali: o respeito mútuo, o amor mútuo e, como reflexo de ambos, um modo de tratar que deixa transluzir o bem-estar de permanecer ligado a algo de mais alto, e ao mesmo tempo um sorriso por estar ligado a algo que se quer muito. E essa é uma das definições de cortesia. Aí estaria a cortesia no quadro de Nossa Senhora de Genazzano.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/6/1974)

26 de abril – Intercâmbio de mentalidade entre Mãe e Filho

Intercâmbio de mentalidade entre Mãe e Filho

A cidade de Genazzano está construída numa montanha, no alto da qual se ergue a Basílica de Nossa Senhora do Bom Conselho, onde se encontra o belíssimo afresco, trazido no século XV pelos Anjos desde Scútari, na Albânia.

 

Temos aqui uma vista da cidadezinha de Genazzano. Bem no centro e no alto encontra-se o campanário e o corpo da igreja e, depois, vemos a cidade que se pendura nas encostas dessa pequena montanha. Eis uma das razões do pitoresco dessa cidade.

O extremo pitoresco do urbanismo “genazzaniano”

Genazzano foi, outrora, uma cidade fortificada e era uma espécie de feudo dos Príncipes Colonna. No período das guerras feudais, ela teve que enfrentar várias dificuldades, diversos cercos, e por causa disso a população procurava concentrar-se dentro da cidade, encostando-se as casas, umas nas outras, tanto quanto possível. O melhor meio para uma fortificação defender-se com facilidade era localizar-se no alto de uma montanha; ora, os altos das montanhas são naturalmente estreitos, pequenos. Daí a necessidade de fazer as ruas o mais possível estreitas e com um traçado sinuoso, pelo qual se adaptem ao modo com que cada casa consegue pendurar-se no morro. Aí está o extremo pitoresco do urbanismo “genazzaniano” — se assim podemos chamar —, que vamos examinar.

Veem-se restos de muralhas, pois com o desaparecimento das guerras feudais e do perigo de invasões normandas, árabes, etc., as muralhas foram caindo, mas a cidade continuou assim, agarradinha às encostas e deitando uns prolongamentos para o sopé da montanha.

Foi no alto desse local que uma ardorosa devota da Mãe do Bom Conselho, Petruccia Nora, quis construir uma igreja de acordo com revelações e visões recebidas, e que deveria ser num lugar onde havia uma capela, em estado de deterioração, em louvor de São Brás, bispo e protetor contra os males da garganta.

Aí pousou, em certo momento, em meio a coros angélicos cantando e nuvens luminosas, a imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho que tinha atravessado o Mar Adriático, acolitada pelos dois albaneses que a seguiram desde Scútari, na Albânia, caminhando milagrosamente sobre as águas.

É-nos grato tomar em consideração que no lugar onde está, na igreja, o altar de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, a imagem baixou, e imaginarmos a cena: esse burgozinho efervescendo de alegria com as graças todas que se derramavam do Céu, de um modo sensível através das músicas, das nuvens, etc., e o triunfo de Petruccia, posteriormente sepultada na igreja, na qual há uma lápide comemorando-a.

Elegância que tem poesia

À primeira vista, quem olhasse essas construções poderia fazer uma objeção: “Isso é um espaço mal aproveitado, a cidade não deveria ter sido construída aí, as casas ficam se encostando, por assim dizer “acotovelando-se” umas nas outras; a população fica mal servida de espaços; as ruas têm que ser sinuosas e, portanto, feias; não há um plano de conjunto. Pelo contrário, se se fizer uma cidade dividida como um tabuleiro de xadrez, em quadradinhos, com espaço horizontal bem amplo, grandes avenidas e um trânsito abundante passando por aí, fica muito mais bonito!”

Ora, isso daria nessa banalidade que todos conhecemos. Pensemos, por exemplo, em uma grande avenida de São Paulo e façamos a comparação: Genazzano é pitoresca, dá vontade de ir visitar. Pelo contrário, diante da grande avenida sentimos vontade de bocejar.

Vemos nesta outra fotografia, tirada de dentro de um restaurante, um panorama muito bonito, montanhoso, variado e, felizmente, pouco cultivado pelo homem. É curioso, mas às vezes a cultura do homem embeleza e às vezes torna sem graça uma determinada paisagem. Aqui se tem a impressão de que as coisas continuam como eram quando saíram das mãos de Deus.

Em outra foto aparece uma parte da muralha, uma fontezinha com chafariz, que está ao lado de uma espécie de reservatório. Nota-se na muralha certa preocupação de elegância. Vejam as ameias, cuja finalidade é permitir que o defensor da cidade se proteja dos projéteis lançados pelo adversário, escondendo-se atrás disso que poderíamos chamar vagamente uns “Vs”; e na hora de ele mesmo atirar, aparece depressa e joga qualquer coisa, depois volta para trás.

Entretanto, esses “Vs” são mais altos do que costumam habitualmente ser em fortificações dessa natureza, para tomar assim uma forma de elegância que tem certa poesia.

Observem as paredes. São fortificações belíssimas. A vegetação se introduziu em todas as frinchas que separam uma pedra da outra. Onde um pouco de terra pousou, uma semente se deitou, uma planta nasceu e assim aquela que poderíamos chamar quase de torre é felpuda de vegetação.

Do lado de cá, há uma porta que outrora fora aberta, mas provavelmente por razões de defesa resolveram fechar. Junto a ela está tudo ajardinado e arranjadinho, a fonte está bem conservadinha sobre uma bonita coluna que sustenta a bacia, e tem-se aí um golpe de vista muito interessante.

Ruas estreitas em zigue-zague, terraços floridos

É especialmente interessante o fato de terem conservado a muralha e, com o desaparecimento das guerras, ter-se formado um pouco de cidade de um lado e do outro dela; e, para maior comodidade, foram retirados os batentes da porta, que não é mais necessário fechar, pois os inimigos desapareceram. Contudo, a muralha permanece. Vejam como é interessante esta “piazzetta” localizada logo depois da muralha, em cujo andar térreo vê-se uma janela com cortininhas e um toldo. Trata-se, provavelmente, de um restaurante muito barato, de comida nada “raffinée”, mas saborosa, onde o povo engorda tanto quanto pode, comendo e bebendo, conversando, exclamando e, pela vocação um pouco oratória do povo italiano, declamando também.

Neste outro aspecto da cidade, vemos um claro exemplo do que falávamos há pouco sobre as ruas apertadas, estreitas. Aqui foi concedido ao fator “rua” o menor espaço possível, para poder caber dentro das muralhas o maior número possível de habitantes.

Vejam como a rua se torna, assim, sinuosa, desenvolvendo-se numa espécie de zigue-zague. E, para aproveitar mais o espaço, por cima da própria rua constroem pontes onde deve haver quartos com gente habitando.

Como habitação, não é muito diferente de uma favela de pedra. Entretanto, não se tem a impressão de miséria e para lá vão turistas para ver o pitoresco dessas mansões humildes. Notem como as ruas são limpas, os lugares arejados e como as pessoas moram um pouco ou muito apertadas ali dentro, mas alegres e com o espírito gaiato, satisfeito, cantam, evidentemente.

Isso aqui está fotografado à luz do dia, porém é ainda mais bonito sob o luar. Exatamente, nós visitamos isso ao luar, e fica um verdadeiro encanto! Não é só quando a Lua nasce “por detrás da verde mata”, que ela é muito bonita. Ela é bela em todas as circunstâncias: “pulchra ut luna, electa ut sol”(1), diz a Escritura num trecho aplicado pela Igreja a Nossa Senhora. Sob o luar essa paisagem urbana adquire certo ar de mistério, e um transeunte que anda sozinho por essas ruas, à noite, com uma capa, o rosto meio embuçado e com um passo apressado, não se sabe se é um mensageiro que está trazendo uma mensagem secreta, um aventureiro a fugir de uma polícia, ou simplesmente um habitante do lugar, um pouco teatral… É a poesia de Genazzano.

Na Itália, como em outros países da Europa, existe a preocupação frequente de florir os terraços. Vemos nessa residência como tudo está enfeitadinho, indicando o prazer e a alegria de viver, o gosto de ter uma vida razoável e alegremente ornada, dentro de certa pobreza. É o contrário da revolução social marxista, com os punhos fechados, ameaçando revolta e morte.

Aqui vemos uma porta e, no alto, um brasão com uma coroa.

Nos edifícios antigos era comum porem-se coroas, escudos, ainda que não pertencessem às famílias nobres, mas, por exemplo, à municipalidade. Elas ostentavam uma coroa, não feita de ouro e prata, mas de pedra, representando, em ponto pequeno, a muralha, símbolo da autonomia da cidade. Tanto quanto a minha vista me permite discernir, não há sobre esta porta uma coroa nobiliárquica, mas municipal. Entretanto, vejam como ela ficou agradável de ver em cima dessa entrada. É a pequena e modesta pompa de um vilarejo consciente de sua dignidade.

O teto, a mesa de Comunhão e o quadro da Mãe do Bom Conselho

Vemos aqui o interior da igreja. O afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano está à esquerda. Nota-se do lado esquerdo alguns arcos grandes que, à primeira vista, parecem vedados por um grande cortinado; mas não é cortina, e sim um gradeado muito bonito, sólido e bem desenhado, que defende por todos os lados a imagem de eventuais atentados durante a noite. Assim, a sagrada imagem fica ao resguardo de qualquer ladrão que queira vendê-la, de qualquer devoto indiscreto que deseje fazer com ela uma extravagância, inspirado por alguma piedade mal entendida, ou de qualquer blasfêmia de algum profanador.

A igreja tem um tom de seriedade que lembra a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo. Na parte do fundo, vê-se a capela-mor, o presbitério e dois altares — o altar onde estão as velas, e aquele onde se encontra o Crucifixo é o altar antigo.

O teto não cai perpendicularmente, mas à maneira de uma semi abóboda, cujo desenho é mais ou menos entrevisto pelo arco que há no alto, na entrada do presbitério, e que se repete depois. Aqueles losangos e os desenhos dentro deles não são pintados, e sim feitos em alto-relevo muito fino, muito bonito e distinto, sem aqueles transbordamentos demagógicos e um tanto cafajestes que o Renascimento tem, mesmo quando procura ser aristocrático. Aqui não: esse adorno é muito discreto e distinto, como convém às coisas sacrais.

A mesa de Comunhão é de um mármore de muito boa qualidade, concebida segundo uma inspiração muito justa e verdadeira, do ponto de vista teológico. Dado que o Santíssimo Sacramento é Nosso Senhor realmente presente sob as espécies eucarísticas, o padre dar a Comunhão e o fiel recebê-la constituem um ato tão alto, de uma elevação infinita — porque Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, é Aquele que é dado e recebido — que seria próprio aos Anjos segurarem o pano da mesa de Comunhão.

Por isso, é muito bonita a ideia de representar a mesa de Comunhão como um pano improvisado, sustentado poeticamente por anjos, não esticado, mas com umas ondulações bonitas esculpidas no mármore.

Desagrada, entretanto, o fato de serem representados uns anjos travessos, sem seriedade, nada daquilo que se pode imaginar de um Príncipe na presença de Deus por toda a eternidade. Isso desdoura e entra em contraste com toda a respeitabilidade autêntica, muito maternal e afável da igreja.

Ao fundo da nave esquerda, na capela guarnecida de grades fortes e distintas, de que falamos há pouco, e cujas paredes estão revestidas de mármores particularmente bonitos, encontra-se o nicho com o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho.

A imagem é altamente expressiva e deixando transparecer esse convívio maternal, silencioso, de longas e longas horas entre Ela e o Menino Jesus, e uma espécie de consenso mudo entre ambos a respeito de toda espécie de coisas, de temas, indicando a união intimíssima de almas da mais alta das meras criaturas, que é Maria Santíssima, com Aquele que, enquanto Homem é criatura, e na sua natureza divina é o Criador. Isso tudo vivido na simplicidade das relações, Mãe e Filho. É o tipo de relação mais simples, mais espontânea, mais natural e mais íntima que o espírito humano pode conceber.

Há nessas duas figuras uma espécie de silêncio vivo pelo qual não dão a impressão, nem um pouco, de meras pinturas. Não se pode retratar melhor o intercâmbio de afeto, de mentalidade e quase de vitalidade entre Mãe e Filho do que essa imagem representa.

Imagem do Beato Stefano Bellesini

Em uma capela contígua à igreja encontra-se um altar com os restos mortais do Bem-aventurado Stefano Bellesini, sacerdote agostiniano que viveu em meados do século XIX(2). É o grande devoto de Nossa Senhora de Genazzano.

Tanto quanto a minha experiência faz notar, essa devoção tem como que eclipses. Quer dizer, há momentos em que ela é muito sensível, e a esperança de ser atendido pela intercessão de Nossa Senhora do Bom Conselho é fácil, alegre e luminosa. Em outras ocasiões fica difícil, essa esperança não é sensível e torna-se necessária uma grande força de alma para se perseverar na confiança.

Para praticar esta virtude com este grau enérgico de confiar, quando todas as impressões de caráter sobrenatural se apagam em nós para nos provar, a intercessão do Beato Stefano Bellesini que, com certeza, foi exímio nisso, nos é muito favorável. Eu rezo a ele mais de uma vez por dia, e recomendo muito que rezem também.

A atitude dele nessa imagem de cera que reveste suas relíquias é muito calma, tranquila, de quem já está elevado às tranquilidades eternas do Céu.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/11/1988)

1) Do latim: bela como a Lua, incomparável como o Sol (Ct 6, 10).
2) * 1774 – † 1840.

25 de abril – São Marcos e o apostolado no mundo contemporâneo

São Marcos e o apostolado no mundo contemporâneo

Ensinando a doutrina de Cristo numa das mais importantes cidades da Antiguidade, São Marcos conseguiu converter pessoas mergulhadas numa vida de prazeres, atraindo-as mais pelo seu exemplo do que por sua pregação.  No mundo de hoje, incomparavelmente mais depravado do que o daquela época, o apostolado é mais difícil e, por isso, mais nobre do que o realizado pelo Evangelista.

 

Comentarei uma ficha a respeito de São Marcos Evangelista, tirada da obra de Jacques de Voragine: “La Légende Dorée”(1).

Enviado por São Pedro para pregar em Alexandria

O Evangelista Marcos, sacerdote da tribo de Levi, foi, pelo Batismo, filho do Apóstolo Pedro de quem era discípulo na palavra divina. Quando ele acompanhou o bem-aventurado Pedro a Roma, onde este pregava, os fiéis da cidade pediram ao beato Marcos que escrevesse o Evangelho de forma a perpetuá-lo na memória de todos.  Ele pôs por escrito tudo o que ouvira de seu mestre, o beato Pedro, que examinou o relato com cuidado e, vendo que era pleno de verdade, aprovou-o e julgou-o digno de ser recebido por todos os fiéis. […]

Marcos foi enviado pelo beato Pedro a Alexandria para pregar a palavra de Deus. Logo depois de entrar na cidade, conforme relata Fílon, judeu muito eloquente, juntou-se uma multidão unida pela fé, pela devoção e pela continência. […] Pedro Damiano(2) diz a seu respeito: “Tão grande foi sua influência em Alexandria, que todos os que acorriam para ser instruídos nos rudimentos da fé logo estavam praticando a continência e todo gênero de boas obras, parecendo uma comunidade de monges. Esse resultado devia-se menos aos milagres e à eloquência de suas prédicas do que a seus exemplos”. E acrescenta que, após a morte, o corpo dele foi levado de volta para a Itália, a fim de que a terra na qual escrevera o Evangelho tivesse a honra de possuir seus sagrados despojos. “Feliz Alexandria, que foi banhada por seu sangue glorioso, feliz Itália, por possuir o tesouro de seu corpo!”

Conta-se que Marcos era dotado de tamanha humildade, que cortou o polegar para que não pudesse ser ordenado sacerdote, mas prevaleceu a autoridade de São Pedro que o escolheu para Bispo de Alexandria. […]

Seu glorioso martírio

Os sacerdotes dos templos planejaram prendê-lo, e no dia de Páscoa, quando o bem-aventurado Marcos celebrava Missa, entraram na igreja, amarraram-lhe uma corda no pescoço e arrastaram-no por toda a cidade, dizendo: “Levemos o búfalo ao Matadouro”. Sua carne e seu sangue espalharam-se pelo chão e cobriram as pedras. Em seguida, foi colocado numa prisão, onde um anjo o consolou e o próprio Senhor Jesus Cristo dignou-se visitá-lo, dizendo para confortá-lo: “A paz esteja contigo! Marcos, meu Evangelista, nada temas, porque estou aqui para levar-te comigo”.

Chegada a manhã, puseram outra vez uma corda no seu pescoço e o arrastaram de um lado para outro, gritando: “Levemos o búfalo ao Matadouro”. No meio desse suplício, Marcos dava graças a Deus dizendo: “Entrego meu espírito em tuas mãos”. E pronunciando estas palavras, expirou. […]

Como os pagãos queriam queimar seu corpo, de repente o ar ficou turvo, começou uma tempestade, caiu granizo, explodiram trovoadas, faiscaram relâmpagos. Todo mundo fugiu, deixando intacto o corpo do santo, que os cristãos recolheram e sepultaram na igreja com toda a reverência.

O beato Marcos tinha nariz comprido, sobrancelhas baixas, belos olhos, ligeiras entradas no cabelo, barba espessa. Era homem de boas maneiras e de meia-idade. Seus cabelos começavam a branquear. Era afetuoso, comedido e cheio da graça de Deus.

O paganismo daquela época e o neopaganismo de hoje

Alexandria era uma das maiores cidades da Antiguidade, famosa por sua cultura, sua riqueza, sua importância política e também pela pompa e pelo luxo da vida que ali se levava.

O paganismo daquele tempo era bem diferente do nosso neopaganismo. Este último está centrado na vulgaridade, na banalidade, no igualitarismo. O paganismo de outrora tinha seu lado vulgar, enquanto era estruturado de tal maneira que as maiores riquezas iam parar, com frequência, nas mãos de pessoas menos dotadas de porte pessoal para ostentá-las. Mas a mania de um luxo desordenado, fabuloso, com orgias extraordinárias, e a ostentação de uma cultura muito requintada davam, ao mesmo tempo, às cidades mais pagãs uma espécie de importância que fazia com que elas brilhassem aos olhos de todo o universo.

Porém essas cidades mais importantes eram também as mais difíceis de converter, precisamente como no mundo contemporâneo. Converter uma aldeia, digamos… Mas obter a conversão de uma grande cidade, ainda que não seja converter a cidade inteira, é uma obra insigne do ponto de vista do apostolado.

Foi, entretanto, o que São Marcos conseguiu. Ele mal chegou a Alexandria e já obteve um número enorme de conversões exímias, porque todas as pessoas convertidas por ele adotaram um estilo de vida quase monástico. Vemos o choque natural entre a postura casta, austera, séria, digna dessa gente e, por outro lado, a atitude depravada das pessoas das elites do Império Romano, que se misturavam com as elites locais para levar aquela vida de prazer exorbitante do paganismo romano.

Eficácia de seu apostolado

Imaginemos chegando a Alexandria — cidade opulenta, magnífica — São Marcos, esse varão assim retratado:

O beato Marcos tinha nariz comprido, sobrancelhas baixas, belos olhos, ligeiras entradas no cabelo, barba espessa. Era homem de boas maneiras e de meia-idade. Seus cabelos começavam a branquear. Era afetuoso, comedido e cheio da graça de Deus.

Alexandria, às quatro horas da tarde, quando o Sol ainda brilha com todas as suas luzes. Pela porta da cidade, entra esse judeu com a sua barba, o seu porte, a sua santidade, a sua piedade, o seu recolhimento, o seu gênio e o Sol vai se pondo…

Ele encontra as primeiras pessoas e começa a pregar. Umas dão risada, outras ficam indiferentes, um outro para e procura ouvir, depois mais outro para também. Dali a pouco está formada uma roda. Ele vai para uma estalagem, hospeda-se, vem mais gente.

Ao cabo de algum tempo, engrossou o contingente e essas pessoas começam a dizer o contrário do que diziam antes. Passam a falar de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos sacrifícios e da Cruz do Redentor, da necessidade que têm todos os homens de imitá-Lo, de seguir um caminho de austeridade, de castidade, de dignidade, condenando os costumes vigentes.

Devemos imaginar um beberrão, uma esposa abandonada, um moço que está abrindo os olhos para todas essas imundícies da sociedade e que talvez esteja seduzido ou horrorizado por elas, uma jovem que está a pique de perder a sua castidade e que passa por ali; todos param e a graça penetra aos borbotões! E aquelas pessoas adquirem, então, a noção de um mundo completamente novo, de uma concepção da vida totalmente diferente que, por isso mesmo, lhes dá tudo o que eles não possuíam.

O dinamismo do apego aos bens terrenos

Todas essas pompas da vida, para quem não as possui, parecem sumamente aprazíveis e dignas de serem cobiçadas. Nós temos em nossa época esta ilusão tão viva. Os povos que não têm progresso se sentem propensos às maiores concessões para consegui-lo. As pessoas que não possuem automóvel se predispõem às maiores loucuras ou aos trabalhos mais árduos, para chegarem a ter um. E depois fazem o mesmo para conseguir um bom emprego, a fim de adquirir uma fortuna média e, em seguida, lançam-se como loucas para ter uma fortuna grande. E, afinal de contas, as pessoas que têm uma fortuna grande acabam sabendo que existe no mundo um grupo de mais ou menos dois ou três mil milionários, os quais residem em grandes hotéis da Europa, dos Estados Unidos e de outros lugares, e que levam uma vida super faustosa, de cuja essência nem as pessoas mais ricas muitas vezes têm noção. Cada um joga-se como louco para o escalão superior e tem a impressão de que, se conseguir alcançá-lo, terá a felicidade. De maneira que tende para aquilo com um dinamismo extraordinário.

E ao adquirirem o que procuravam, as pessoas ficam apegadíssimas e depois depravadíssimas. Por quê? Porque em relação a todas as coisas terrenas, quando as possuímos, o primeiro movimento é o apego, e depois uma espécie de náusea, compreendendo que não dão o resultado esperado. Então, segue-se o desejo de uma depravação maior, que também desinteressa e deixa de nos causar apetência.

A fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo atrai seguidores e suscita ódios

Compreendemos, então, que a palavra de São Marcos abra a perspectiva dos bens eternos, fale de uma felicidade sem fim, de um espírito que sobrevive à matéria, de uma ressurreição dos corpos, de um Inferno, de um Purgatório, de um Deus boníssimo, justíssimo, sapientíssimo, a Quem rezamos e que nos ajuda. Fale de Nossa Senhora e prometa os esplendores da Eucaristia. Aos que conhecem um pouco mais a doutrina, mencione essa coisa incomparável que é a Confissão e a certeza de ter os pecados perdoados. Tudo isso, para um homem que frequentava as orgias de Alexandria, produzia ao mesmo tempo os efeitos mais contrários: desde a suma atração até a suma repulsa. Entende-se, então, que com a ação da graça muitas pessoas se tenham convertido, e que com isso São Marcos se tenha tornado para a cidade de Alexandria um verdadeiro problema.

Surgiram muitos seguidores a ponto de ficar implantada, para todo o sempre, uma cristandade lá. Havia também muitos que o odiavam, e estes, em determinado momento, o prenderam e o mataram. Quer dizer, a questão é clara, explicável: ele dividia, separava, criava para aqueles que não queriam segui-lo uma situação insustentável. O resultado era matá-lo.

Temos, assim, até a consumação dos séculos, o drama de todos aqueles que querem ser fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles existem, se apresentam, falam, atraem, deslumbram, criam o ódio. Criando o ódio, sai a luta. E na luta, podem morrer. É natural.

Somos tão inferiores a São Marcos, entretanto chamados a um apostolado ainda mais nobre!

Podemos nos perguntar se é possível comparar o mundo em que viveu São Marcos e o de hoje.

Para termos um pouco a ideia da comparação do nosso pobre apostolado com o grande apostolado de São Marcos, o mundo contemporâneo é incomparavelmente mais depravado do que o do Evangelista. Porque se ele viesse hoje ao mundo, tudo leva a crer que não obteria o mesmo resultado. E uma das provas disso é a insensibilidade deste mundo aos milagres de Lourdes e de Fátima; as pessoas não se incomodam, tudo fica na mesma.

Contudo, São Marcos deve ter tido santa inveja de nós. Porque quanto mais difícil é o trabalho que temos a felicidade de realizar por Nossa Senhora, tanto mais ele é nobre. E quanto mais nobre, mais é invejável.

Se no mundo de hoje é mais difícil propagarmos a doutrina de Nosso Senhor, fazê-lo atualmente é ainda mais nobre do que naquele tempo. E a nossa vocação é mais bela do que a de outrora. E, então, devemos nos dar conta do imenso valor de termos nascido nessa época de luta, de contradição e de perseguição.

Entretanto, somos tão inferiores a São Marcos, a perder de vista completamente, a ponto de não poder haver comparação! Nisto há uma beleza especial. Nossa Senhora elegeu para aqueles tempos um São Marcos; para a nossa época, uns pigmeus. Isso significa que Ela quer fazer através de nós um milagre muito maior do que o operado por meio de São Marcos. A nossa miséria é um atestado de grandeza da ação d’Ela.

Quando vier o Reino de Maria, nos lembraremos desta meditação e compreenderemos como éramos pequenos e desproporcionados, e como, portanto, aquilo que saiu de nós foi obra exclusiva da misericórdia de Nossa Senhora.

São Marcos, cuja fortaleza é tal que ele entra numa cidade, enfrenta-a de peito aberto e cria nela um rio de luz e de graças santificantes magníficas, nos serve de contraste!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1971)

1) VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea­: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 371-373.

2) São Pedro Damião, Doutor da Igreja.

24 de abril – Homem que lutou arduamente contra a Revolução

Homem que lutou arduamente contra a Revolução

Orador brilhante, São Fidélis de Sigmaringa evangelizou cidades alemãs e foi enviado para a região dos grisões, na Suíça, a fim de pregar contra o protestantismo. Alcançou sucessos importantes, o que levou os hereges a martirizarem-no. Foi um verdadeiro contrarrevolucionário porque a heresia protestante era a Revolução no seu tempo.

o dia 24 de abril, a Igreja comemora a festa de São Fidélis de Sigmaringa. Sua ficha biográfica apresenta alguns dados tirados da Vida dos Santos, de Reindenberg, e da História da Igreja Católica, de Rohrbacher.

Chefe de uma missão para combater o protestantismo

Marcos Roi, o rei que viveu de 1577 a 1622, tomou o nome de Fidélis quando entrou para os capuchinhos, aos 35 anos de idade.
Nascido em Sigmaringa, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito em Friburgo de Brisgóvia. A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante três anos. Depois de ter exercido a profissão de advogado em Colmar, resolveu abandonar o mundo.
No testamento que fez nesta altura, diz o seguinte: “Quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para me entregar aos braços do Salvador.”
O Padre Fidélis possuía grandes dotes oratórios. Nomeado guardião (superior) do Convento de Feldkirch, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e numerosas igrejas do campo.
A cidade de Feldkirch foi de todo transformada por ele. Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente entre os grisões, a Congregação da Propaganda encarregou os capuchinhos de irem combatê-lo. O Padre Fidélis foi nomeado chefe dessa missão.
“Dentro em breve não me tornareis a ver, disse ele a seus amigos em Feldkirch, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. E desde então passou a assinar suas cartas da seguinte maneira: “Padre Fidélis, prope diem esca vermium” – que em breve será pasto dos vermes.
Em janeiro de 1622, entrou na região ocupada pela Áustria e lá começou a pregar a Fé com grande êxito.
Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta e o missionário avisou os austríacos. Os grisões levantaram-se então em massa.
No dia 24 de abril, estando o Padre Fidélis a pregar em Seewis, ouviu-se o grito: “Às armas!”
Os grisões saíram ao encontro das tropas imperiais que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidélis é quem chamara os austríacos.
Ainda o deixaram sair da cidade. Mas como daí a pouco regressasse a Grächen, 20 soldados caíram sobre ele, trataram-no de sedutor e queriam forçá-lo a abraçar a sua seita.
“Que me propondes? – perguntou Fidélis – Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos, não a renunciarei. Ademais, sabei que não temo a morte.”
Eles então mataram-no a sabre.

 

Homem sobrenatural e indômito que enfrentou a morte

É interessante notarmos qual foi a atuação deste grande pregador para que o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente. Ele era um missionário famoso que pregava em vários lugares. E a Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça denominada dos grisões, incumbiu a Ordem religiosa da qual ele fazia parte – os capuchinhos – de mandar para aquela zona pregadores, bons oradores, a fim de converterem os que se tinham pervertido para o protestantismo, e impedir que novos católicos fossem objeto com êxito do proselitismo protestante.
Então ele, que já havia transformado por inteiro uma cidade importante da Alemanha – Feldkirch – pelos seus sermões, se dirigiu à Suíça sabendo que ia morrer, pois recebeu uma revelação de que lá seria martirizado. Mas, homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte.
E tinha uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima, e até assinava “Frei Fidélis que em breve será pasto dos vermes.” Quer dizer, sabia que seria mártir e iria para o Céu o que lhe dava uma grande alegria.
A essa prova de tenacidade, ele juntou outra demonstração de força, de valor: o fato de ter irritado sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra este. São Fidélis alcançou sucessos tão importantes contra a heresia, que os protestantes prepararam um encontro no qual ele foi morto.
Foi um orador audacioso, valoroso, forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. Um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza, que leva a abnegação de sua própria vida e o desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua existência.

Sentimentalismo religioso do século XIX

Consideremos a fórmula utilizada por São Fidélis:
Quero viver para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me nos braços do Salvador.
Se uma pessoa hoje empregasse essa fórmula, seríamos levados a achar que ela é “heresia branca”1. Diria isto suspirando, com tanta moleza, que afirmaríamos: “Qual! Você é um pulha e não tomamos a sério a sua vida espiritual.”
Ele assinava suas cartas com as palavras: “Frei Fidélis, que em breve será pasto dos vermes.”
Compreende-se o equívoco tremendo que o sentimentalismo religioso do século XIX criou em torno dessas fórmulas, e precisamos não nos deixar vencer pelo equívoco.
O estado de espírito que apontei é muito ruim, mas a fórmula é muito boa em si mesma considerada. Ela foi empregada por um Santo e, portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto o Santo faz é bom. Se essa fórmula não fosse boa, ele não teria sido canonizado.
Precisamos compreender que essa fórmula é susceptível de ser pronunciada, ser vista de outro modo, e não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século XIX nos tolde a visão da coerência que ela tem com as virtudes as quais somos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução, a combatividade. Entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isso tem de ser virtude porque foi pronunciado por um santo.
O valor dessa fórmula é muito grande. Evidentemente, um homem que tem a verdadeira virtude da sabedoria, compreendendo, portanto, que todas a coisas desta Terra são um nada – desde que elas obstem à aquisição da virtude, ao pleno conhecimento da sabedoria e ao amor de Deus –, precisa afastar-se delas.

Quem tem vocação religiosa deve abraçá-la

Quando Nossa Senhora quer que alguém tenha uma vocação, torna-lhe difícil a vida fora da vocação a qual deve abraçar. E um santo nessas condições, em geral, é levado pelas circunstâncias a uma alternativa: ou se perde ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.
Depois, independente do perigo de perder-se, ele tem o atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria e, por amor de Deus, assume aquela fórmula.
Então, ele fez-se capuchinho. Isso significa abraçar a pobreza completa, renunciar a toda forma de sinarquia2. É despreocupar-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas pelo fato de os possuírem. Não admirando ninguém porque tem um bonito automóvel, um formoso apartamento ou, suprema ventura, possui uma fábrica importante, Mas dando valor aos homens e às coisas na medida em que se aproximam, praticam a sabedoria.
Uma pessoa assim, com um estado de espírito varonil, combativo, fazendo um ato de imolação inteiramente inaciano, pode dizer: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições. Desejo imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo que sofreu, e por isso vou ser um lutador, agredir o adversário; sofrerei porque na guerra se sofre.”
É o sentimentalismo religioso do século XIX que dá a isso um aspecto de “heresia branca”. Mas não tem nada de “heresia branca”. É a piedade de boa lei que o homem mais valoroso e combativo deve ufanar-se em possuir.

Verdadeiro contrarrevolucionário

Assim também, dizer que dali a pouco ele vai ser o pasto dos vermes é ter coragem, uma prova de que não tem medo de morrer. São Fidélis poderia acrescentar, apontando para seu corpo: “Esta carne vai ser comida pelos vermes. Através destas órbitas eles entrarão – como que engendrados pelo meu próprio corpo – que comerão os olhos, sairão pelos ouvidos e pela boca. Mas eu não me incomodo porque a minha alma vai para o Paraíso. Terei a glória do martírio que vale muito mais do que essa decomposição do meu corpo. E no último dia ele ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu.”
É uma atitude de força de alma que o faniquito do liberal, do sentimental, não dá.
Compreendemos, assim, como uma fórmula como essa, sendo bem interpretada e entendida, nada tem de “heresia branca”; é uma fórmula esplêndida.

A “heresia branca” se encontra no estado temperamental do estúpido com que os sentimentais repetiam isso.
Temos a prova concreta: um homem que empregava tais fórmulas é um mártir de uma admirável coragem, o qual viu chegar a morte com a serenidade que os maiores heróis não teriam. Que lutou arduamente contra a Revolução, foi um verdadeiro contrarrevolucionário – porque o protestantismo era a Revolução no seu tempo –, homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.
A relíquia de São Fidélis se encontra em nossa capela. Faremos uma boa coisa pedindo a ele que nos obtenha a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século XIX vivo até nossos dias, infelizmente.
Tal sentimentalismo, sendo uma coisa má, como é evidente, não houve na obra de nenhum santo daquele tempo. São deformações que existiram à margem do santo e de modo contrário ao exemplo dado por ele. Naquele século, houve santos admiráveis que estavam isentos e até eram o contrário disso, como Santa Teresinha do Menino Jesus.
A pequena via ensinada por ela, tão cheia de candura, de suavidade, é uma via de grande força e combatividade para quem sabe ler um livro de Santa Teresinha.
Percebe-se isso nos seus desejos. Ela dizia que possuía anseios infinitos, queria ser missionária, brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja, etc. É uma manifestação de uma combatividade que chega até o Cruzado, e inclusive o desejo de derramar o sangue. E isto da parte dessa santa tão suave na sua pequena via. Vê-se, portanto, como as duas coisas são compatíveis.v

(Extraído de conferência de 24/4/1967)

1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.
2) Diferentemente do sentido político que lhe é dado habitualmente, Dr. Plinio usava a palavra “sinarquia” para caracterizar a mentalidade ateia, segundo a qual a finalidade suprema de uma sociedade é o trabalho e a produção material.

24 de abril – São Fidelis de Sigmaringa: Coragem e serenidade diante da morte

São Fidelis de Sigmaringa: Coragem e serenidade diante da morte

Pela palavra e pelo exemplo, esse heroico missionário combateu tenazmente os erros espalhados pela primeira Revolução.

Tais foram seus êxitos que os inimigos da Igreja, consumidos pelo ódio, o martirizaram.

Em 24 de abril comemora-se a festa de São Fidelis de Sigmaringa, sobre o qual me enviaram uma ficha com alguns dados biográficos.

Viveu de 1577 a 1622. Ingressou nos capuchinhos aos 35 anos de idade.

Nascido em Sigmaringa, Alemanha, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito, em Friburgo.

A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante seis anos, e, depois de ter exercido a profissão de advogado, resolveu abandonar o mundo.

No testamento que fez, a certa altura, diz o seguinte: “Quero viver, daqui para o futuro, na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me aos braços do Salvador”.

O Padre Fidelis possuía grandes dotes oratórios, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e em muitas igrejas do campo.

Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente nos Grisões(1), a Santa Sé encarregou os capuchinhos de combatê-lo. O Padre Fidelis foi nomeado chefe dessa missão.

“Dentro em breve não me tornareis a ver — disse ele aos seus amigos —, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. Ao escrever uma carta a seu superior, encerrou-a assim: “Seu amigo Fidelis, que em breve será pasto dos vermes”.

Em janeiro de 1622, entrou na região ocupada pela Áustria e começou a pregar a Fé, com grande êxito.

Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta, e o missionário avisou os austríacos. Os Grisões levantaram-se, então, em massa.

No dia de 24 de abril, estando o Padre Fidelis a pregar, ouviu-se o grito: “Às armas!” Os Grisões saíram ao encontro das tropas imperiais, que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidelis fora quem chamara os austríacos. Ainda o deixaram sair da cidade, mas, como daí a pouco regressasse, vinte soldados caíram sobre ele. Trataram-no de sedutor e quiseram forçá-lo a abraçar a sua seita.

“Que me propondes? — respondeu Fidelis. Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos. Não renunciarei! Ademais, sabei que não temo a morte.”

Eles, então, mataram-no a golpes de sabre.

Varão sobrenatural, enérgico e batalhador

É interessante notarmos bem qual foi a atuação deste Padre, deste grande pregador, para que depois o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente.

Ele era um missionário famoso, um grande orador que pregava em vários lugares. A Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça, denominada Grisões, incumbiu a Ordem religiosa da qual ele fazia parte, que era a dos capuchinhos, de mandar pregadores para aquela zona bons oradores, a fim de converterem os que se tinham pervertido para o protestantismo, e para impedir que novos católicos fossem objeto do proselitismo protestante.

Então nosso Santo, que já transformara inteiramente uma cidade importante da Alemanha por seus sermões, dirigiu-se à Suíça, sabendo que iria morrer, pois teve uma revelação de que lá seria martirizado.

Mas, homem sobrenatural, enérgico e batalhador, ele não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a martírio com uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima. Ele até assinava: “Frei Fidelis, que em breve será pasto dos vermes”. Quer dizer, sabendo que seria mártir e a sua alma iria para o Céu, isto lhe dava então uma grande alegria.

A essa demonstração de tenacidade, ele juntou outra prova de força, de valor, que foi o fato de ter irritado sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra ele. Portanto, ele alcançou resultados importantes como, aliás, se refere na nossa ficha. A tal ponto, que os protestantes resolveram assassiná-lo, e prepararam um encontro em que ele, afinal de contas, acabou morto.

Foi, portanto, um orador audacioso, valoroso, forte; um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio; um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza, porque esta virtude atinge um alto grau em cada mártir que leva a abnegação e o desejo de lutar até o ponto de imolar efetivamente a sua existência.

Devemos nos precaver contra o sentimentalismo religioso do século XIX

Por outro lado, considerem esta fórmula que São Fidelis empregou:

“Quero viver, para o futuro, na maior pobreza, na castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me aos braços de Nosso Salvador.”

Isso poderia ser pronunciado, segundo um estilo sentimental de piedade difundido principalmente no século XIX, entre suspiros e com tanta moleza que seríamos levados a não tomar a sério essas palavras.

Compreendemos, assim, o equívoco tremendo que a piedade eivada de sentimentalismo do século XIX criou em torno de fórmulas como essa, e o quanto é necessário que não nos deixemos vencer por esse engano. Porque, embora o estado de espírito que eu apontei seja muito ruim, a fórmula é muito boa, em si mesma considerada. É uma fórmula empregada por um santo e, portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto um santo faz é bom.

De maneira que, sendo essa fórmula susceptível de ser pronunciada e considerada de outro modo, não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século XIX nos torça a visão do que ela tem de bom, e de sua coerência com algumas das virtudes que nós fomos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução e a combatividade.

É um engano pensar que quem pronuncia essa fórmula é incompatível com essas virtudes que nós tanto apreciamos. Não pode ser, porque entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isto tem que ser virtude, porque foi pronunciado por um santo. Logo, não pode haver incompatibilidade.

Por isso, o valor dessa fórmula é muito grande. É evidente que um homem dotado da verdadeira virtude da sabedoria, que compreenda como todas as coisas deste mundo são nada — na medida em que obstem a aquisição da virtude e o amor de Deus —, deseje retirar-se desta Terra.

Fidelidade à vocação religiosa

Quando Nossa Senhora deseja que alguém abrace uma vocação, em geral Ela torna difícil a vida para essa pessoa fora da vocação. Portanto, um santo, nessas condições, é levado pelas circunstâncias à seguinte alternativa: ou se perde, ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.

Ademais, independentemente do perigo de se perder, ele tem um atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria, para unir-se a Deus por essa forma, naquele estado de vida e, por amor do Altíssimo, ele adota aquela fórmula. Então se faz, como São Fidelis, um capuchinho, por exemplo.

O que quer dizer fazer-se capuchinho?

É adotar a pobreza completa, renunciando a toda forma de apego às coisas materiais, despreocupando-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas pelo fato de os possuírem. Não admira ninguém porque tem um bonito automóvel, um bom apartamento ou uma fábrica importante. Absolutamente não! Mas, dá valor aos homens e às coisas, na medida em que se aproximam da sabedoria.

Uma pessoa assim possui um estado de espírito varonil, combativo, e poderia dizer: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, porque quero imitar Nosso Senhor Jesus Cristo que sofre; e, por isso, serei um lutador, vou batalhar e sofrer, porque na guerra se sofre”.

Isso nada tem de “heresia branca”(2). É piedade de boa lei que o homem mais valoroso e mais combativo deve ufanar-se em ter.

Assim também, dizer com coragem que daqui a pouco vai ser pasto dos vermes, é uma prova de que ele não tinha medo de morrer e ria a respeito disso: “Eu agora estou vivo, esta carne que estou vendo vai ser comida pelos vermes; através destas órbitas vão entrar vermes e comer estes olhos; destes ouvidos, desta boca, sairão vermes como que engendrados pelo meu próprio corpo. Mas não me incomodo, porque a minha alma vai para o Céu. Terei o martírio, que vale muito mais. E, no último dia, o meu corpo ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu”.

É uma atitude de força de alma completamente oposta ao faniquito que o sentimental tem diante da morte.

Lutou arduamente contra a Revolução de seu tempo

Portanto, bem interpretada, bem entendida, essa fórmula nada tem de “heresia branca”. É uma fórmula esplêndida! É “heresia branca” estar no estado temperamental estúpido com que a escola dos sentimentais do século XIX repetia isso; escola essa que está, mais ou menos, viva até nossos dias.

Em São Fidelis temos a prova concreta: um homem que empregava fórmulas dessas deu exemplo de uma admirável coragem, vendo chegar até ele a morte com a serenidade que os maiores heróis não saberiam sobrepujar, e que lutou arduamente contra a Revolução em seu tempo, foi um verdadeiro contrarrevolucionário, porque o protestantismo era a Revolução em sua época. Homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.

Uma relíquia deste santo se encontra em nossa capela; de maneira que faremos uma boa coisa pedindo-lhe que nos dê a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século XIX, vivo até hoje, infelizmente.

O século XIX foi um século de grandes santos, santos admiráveis, mas que estavam isentos disso, e até eram modelos do contrário.

É bem o que se poderia dizer de Santa Teresinha do Menino Jesus. A pequena via, inaugurada por ela, tão cheia de candura, de suavidade, é uma via de grande força e combatividade, para quem sabe ver a vida de Santa Teresinha.

Percebe-se isso nos desejos da Santa de Lisieux. Ela dizia que tinha desejos infinitos, entre os quais o de brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja. Vê-se nisso uma manifestação de combatividade que chega até o cruzado. E isso da parte desta Santa tão suave na sua pequena via.

Vemos, portanto, como as virtudes são inteiramente compatíveis entre si.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1971)

 

1) Um dos cantões da Suíça, o de maior extensão territorial.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor. São Fidelis deu exemplo de uma admirável coragem: vendo chegar a morte com a serenidade que os maiores heróis não saberiam sobrepujar, foi um verdadeiro contrarrevolucionário.

24 de abril – São Fidelis: Admirável exemplo de fortaleza

São Fidelis: Admirável exemplo de fortaleza

São Fidelis de Sigmaringa era um missionário famoso, grande orador enviado à região da Suíça para impedir a expansão do protestantismo.

Homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, tendo recebido a revelação de que seria martirizado,  não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte com alegria.

A essa prova de tenacidade ele juntou a de força, valor e eficácia, pois irritou sobremaneira os protestantes, que resolveram então matá-lo. Ninguém se torna de tal maneira irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos importantes contra ele.

Eis, portanto, um orador audacioso, valoroso, forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. São Fidelis nos dá um admirável exemplo de fortaleza levada à abnegação de sua própria existência, e ao desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua vida.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1967)

22 de abril – Santa Maria Egipcíaca, exemplo de contrição

Santa Maria Egipcíaca, exemplo de contrição

Após levar uma vida pecaminosa, aos 29 anos Santa Maria Egipcíaca foi tocada pela graça de um modo inusitado… Então, converteu-se e viveu no isolamento, sujeitando-se à mais austera penitência.

 

Tenho em mãos um texto da Légende Dorée, de Jaques de Voragine, sobre Santa Maria Egipcíaca, que passarei a ler e comentar. Há quem pergunte se tal fonte é histórica. Ora, o mundo necessita da existência de coisas dessas, as quais realmente alimentam a alma, sem indagações históricas nem outras preocupações dessa natureza, pela beleza intrínseca que elas contêm.

Santa Maria Egipcíaca, também chamada a Pecadora, durante 47 anos levou no deserto uma vida de arrependimento e privações. Sua história foi por ela mesma contada ao Abade Zózimo, que certo dia a encontrou.

Ao pedir o religioso que lhe dissesse quem era e de onde vinha, aquela estranha figura de mulher, negra e curtida pelo sol, respondeu:

“Pai, perdoai-me, mas se vos revelar quem sou, fugireis como à vista de uma serpente e vossos ouvidos serão manchados por minhas palavras e vós sereis empestado por minha impureza. Eu me chamo Maria e nasci no Egito. Vim para Alexandria com 12 anos de idade, e durante 17 anos aí levei má vida. Mas um dia, como alguns habitantes dessa cidade fariam uma peregrinação para adorar a Santa Cruz, em Jerusalém, pedi aos marinheiros que me deixassem embarcar também.

“E assim se fez a viagem. Mas eis que em Jerusalém, como eu me apresentasse com os outros peregrinos na porta da igreja, senti-me repelida por uma força invisível que não me permitiu entrar no templo. Vinte vezes aproximei-me das portas e vinte vezes essa força invisível me reteve, enquanto que todos os outros entravam livremente, sem que nada os impedisse. De tal sorte que, voltando ao albergue, compreendi que aquilo era uma consequência da minha vida criminosa. Então comecei a ferir-me, a verter lágrimas amargas, a suspirar do mais profundo do meu coração.

Depois, vendo na parede uma imagem da Bem-aventurada Virgem Maria, supliquei-Lhe que me obtivesse o perdão dos pecados e a permissão de entrar na igreja para adorar a Santa Cruz. Em troca, prometi renunciar ao mundo e viver na castidade.

“Essa oração me deu confiança e de novo me apresentei às portas da igreja; então pude entrar sem nenhum impedimento. E enquanto adorava piedosamente a Santa Cruz, um desconhecido deu-me três moedas, com as quais comprei três pães. E ouvi uma voz que dizia para atravessar o Jordão e vir para este deserto, onde vivo há 46 anos, sem jamais ter visto figura humana, alimentando-me dos três pães que trouxe comigo, os quais, tendo-se tornado duros como pedra, ainda são suficientes para minha alimentação. Quanto aos meus vestidos, há muito que se fizeram em pedaços, e durante os primeiros 17 anos de minha permanência no deserto fui atormentada por tentações. Mas no momento, pela graça de Deus, eu as venci inteiramente. Eis minha história. Eu a contei para que peçais a Deus por mim”.

Então, o ancião, prostrando-se em terra, bendisse ao Senhor na pessoa de sua serva. E esta lhe disse: “Ouvi o que vou pedir-vos: no dia da Páscoa, atravessai novamente o Jordão, trazendo convosco uma hóstia consagrada. Eu esperarei na margem e receberei de vossas mãos o Corpo do Senhor, porque não mais comunguei, desde que aqui cheguei”.

O ancião voltou ao seu mosteiro e no ano seguinte, estando próxima a festa da Páscoa, voltou ao Jordão levando consigo uma hóstia consagrada. Eis que percebeu a mulher, de pé, na outra margem e, tendo feito o sinal da Cruz sobre as águas, ela andou sobre as mesmas e assim chegou até o ancião. Este, maravilhado, quis se prostrar humildemente a seus pés, mas ela lhe disse: “Meu pai, guardai-vos de vos prosternar diante de mim, sobretudo agora que trazeis o Corpo de Cristo. Mas dignai-vos voltar ainda o ano que vem”.

No ano seguinte, Zózimo não a encontrou na margem. Ele atravessou o rio e se dirigiu ao local onde a vira pela primeira vez. E lá a encontrou morta, estendida sobre a areia. Então, ele chorou amargamente e não ousava tocar seus restos. E, enquanto pensava como enterrá-la, leu uma inscrição sobre a areia: “Zózimo, enterrai meu corpo, dê minhas cinzas à terra e pedi por mim ao Senhor, pois fui liberta do mundo no segundo dia de abril”. Assim, o ancião abriu-lhe uma cova, sendo para isso milagrosamente auxiliado por um leão, que aí apareceu. E o ancião voltou ao mosteiro glorificando a Deus.

Pulcritude do contraste entre o pecado e a penitência

A Légende Dorée está inteira nessa narração. Podemos analisá-la ponto por ponto. Preliminarmente, consideremos a pulcritude do contraste aqui estabelecido entre o pecado e a penitência. Ela era uma pecadora péssima, uma mulher que durante 17 anos tinha vivido na pior das situações. Mas de repente, ela é tocada por vias imprevisíveis da Providência, e chega até o momento da conversão. Sabendo que haveria uma festa em Jerusalém, ela viaja por curiosidade e chega até à igreja; então à noção do pecado — do pecado escancarado e com sua hediondez — opõe-se a visão de um Deus três vezes santo e que tem horror ao pecado. Por vinte vezes, ela procura entrar na igreja, mas uma força invisível a impede: é Deus, infinitamente puro, infinitamente santo, que tendo horror ao pecado não quer a presença do pecador maculado em seu santuário.

Entretanto, há ao mesmo tempo a graça e a misericórdia de Deus. Ela volta para a hospedaria e começa então a cair em si, na solidão de seu quarto. Ela pensa:

“O que fiz eu? Ah! o meu crime é o meu pecado: “peccatum meum contra me est semper”, eu pequei contra Ti só e o meu pecado está continuamente de pé, increpando-me e censurando-me. Então percebo o mal que fiz; a cólera do Céu me aparta do resto das criaturas. E enquanto as portas do santuário estão abertas misericordiosamente para todo mundo, a mim Deus rejeita. Como eu caí baixo!”

Notamos como isso é teológico e explica o grande arrependimento e a grande penitência que vieram depois.

Providencialmente há uma efígie de Nossa Senhora em seu quarto; Maria Egipcíaca encontra então a Mãe de Misericórdia e a Porta do Céu, reza para obter o perdão e é convidada para uma penitência extraordinária: ela se afasta completamente dos homens e vai fazer uma dessas penitências de assustar. O pecado de assustar recebeu uma prevenção ou advertência de assustar, que é um convite admirável e de deslumbrar para uma penitência de assustar: ela atravessa o rio Jordão e se coloca num deserto, onde passa 47 anos sem ver ninguém. Então sua beleza de pecadora se esfuma no sol; ela está torrada, preta, causticada, endurecida, os seus trajes caem como andrajos. Ela está continuamente a rezar, numa solidão cheia de amor de Deus.

Para receber a Comunhão, Santa Maria Egipcíaca caminha sobre as águas

Numa primeira fase, Maria teve tentações, mas depois as tentações se retiram e ela fica fazendo uma penitência que é mais a penitência da inocência do que a do pecado. Porque ela se colocou num nível tão alto de virtude, que o perdão é inteiro. Quer dizer, faz uma penitência que já não é só por ela, mas naturalmente por todos os pecadores. E Deus queria que, antes de morrer, ela recebesse essa suprema prova da reconciliação: a Comunhão.

Então acontece que um santo varão — varão como era comum naquele tempo: de barba branca, todo vestido de preto, com um capuz comprido e pontudo, usando um bordão — vai andando pelo deserto, parando para abençoar uma coisa, exprobar um crime, condenar um tirano, fazer um milagre, curando um doente, rezar diante de um ícone. E depois continua a caminhar sozinho pelas estradas. Eu só encontrei, em nossa época, algo de semelhante na vida do Bem-aventurado Charbel Makhlouf, cuja leitura recomendo. É admirável, toda feita desse encanto primitivo, magnífica!

Então, o santo varão chega até o outro lado do deserto e a vê; pergunta quem ela era, e sua resposta é bem no tom sentencioso e grave daquele tempo: “Pai, perdoai-me, mas se vos revelar quem sou, fugireis como à vista de uma serpente, vossos ouvidos serão manchados por minhas palavras e vós sereis empestado por minha impureza. Eu me chamo Maria e nasci no Egito”.

“Eu me chamo Maria e nasci no Egito”. Essa introdução da biografia dela tem uma grandeza e um senso literário verdadeiramente extraordinários.

Santa Maria Egipcíaca está de tal maneira elevada no amor de Deus que, para receber a Comunhão, ela caminha sobre as águas. Deus perdoou tudo, esqueceu tudo, Se fez completamente amor para ela, a qual vive num conúbio com a graça divina o mais íntimo que se possa imaginar.

No ano seguinte, o santo varão volta e ela não está à margem do rio. Ele atravessa o Jordão e encontra o corpo dela estirado no chão; sobre a areia ela escreveu algumas palavras, recomendando-lhe que a enterrasse.

Para os funerais dessa espécie de anjo do deserto, vem o rei do deserto. Quer dizer, é altamente poético e arquitetônico que também um leão ali apareça. O leão, que domina o deserto, é a glória e o brilho do deserto, vem para ajudar os funerais. O santo varão velho e o leão cavam a sepultura, na qual ela é colocada; mais nada. Resta apenas essa história de Santa Maria Egipcíaca, um “apenas” que é uma página de ouro dentro da Légende Dorée. Notamos que maravilha se pode fazer através de uma narração de um grande acontecimento referente a uma grande alma.

Contrição e amor de Deus

Vemos também aí a beleza da contrição, a respeito da qual nossa época faz uma ideia completamente falseada, julgando que a contrição nos vem exclusivamente do temor de Deus, o qual nos afasta do seu amor; de onde a contrição é, debaixo de certo ponto de vista, o contrário do amor de Deus.

Nada mais mal pensado do que isso. Em primeiro lugar, porque o autêntico temor de Deus é um dom do Espírito Santo. E o que procede do Espírito Santo não pode nos afastar do amor de Deus; pelo contrário, só nos une a Ele. Quem tem, portanto, verdadeiramente a graça de um saliente temor de Deus encontra nele um meio para subir ao amor. E notamos pela narração como, pelo arrependimento de seu pecado, Santa Maria Egipcíaca chegou até o auge do amor.

Além disso, precisamos considerar que a atrição é provocada pelo temor, o qual é, aliás, um sentimento salutar. Mas é o amor de Deus que provoca a contrição. E uma pessoa pode passar a vida inteira contrita pelo pecado que cometeu, até crescendo em contrição e, ao mesmo tempo, em amor e em sagrada intimidade com Deus, Nosso Senhor.

Por exemplo, São Pedro. Diz-se que até velho ainda chorava o pecado cometido ao negar Nosso Senhor, e que lágrimas percorriam sua face de maneira a abrir nela dois sulcos. Por quê? Com certeza, porque o olhar de Jesus permaneceu diante de seus olhos a vida inteira. E ele foi crescendo no amor a Nosso Senhor, na consideração daquele olhar, até extremos inimagináveis. Era a contrição que aumentava o amor, e o amor que aumentava a contrição e a intimidade com o Redentor.

Quer dizer, essas coisas se entrelaçam. E a vida de Santa Maria Egipcíaca não nos deve causar terror, mas enlevo pela figura patriarcal e primitiva dessa grande penitente. A Igreja é mais ou menos como um dia luminoso: o sol tem seu colorido da aurora e de todas as horas do dia. E todas essas cores são bonitas. A Esposa de Cristo possui um colorido para cada era de sua vida. E aqui é o colorido da Igreja primitiva: das grandes mortificações, das grandes penitências, dos grandes pecados, das grandes contrições, das inocências virginais, da austeridade requintada. É o velho som de um sino que nos vem do passado, lembrando-nos exatamente aquela velha gravidade, aquela seriedade da Igreja primitiva, tão capaz de empolgar as almas que verdadeiramente procuram amar a Nossa Senhora.

Assim, pensar em Santa Maria Egipcíaca é um refrigério para nós. E devemos pedir a ela que nos dê uma contrição verdadeira de nossos pecados, mas uma contrição na paz, sem escrúpulos; uma contrição verdadeiramente santa, que aproxime nossas almas de Nossa Senhora.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/3/1967)

21 de abril – Fortaleza formidável – Santo Anselmo

Fortaleza formidável – Santo Anselmo

Santo Anselmo marcou o século XI por sua ciência, piedade e pelas lutas que travou. Olhando para a sua vida, tem-se a impressão de uma fortaleza formidável, um homem que encheu o seu tempo e cuja glória perdura por todos os séculos graças às vitórias obtidas por ele em favor da Fé.

A solidez, a força, a grandeza da Idade Média se mostram na estatura dos grandes homens que a marcaram. Com efeito, se não tivesse havido campeões como ele, a Igreja teria afundado. Portanto, a solidez não consistia em não haver luta, mas na existência de homens dispostos a combater em todos os sentidos.

É preciso estar lutando sempre, com uma energia inquebrantável, uma atividade contínua, um inteiro desprendimento de si, com os olhos postos completamente na Santíssima Virgem, para que a batalha seja levada a bom termo. Encontrando combatentes verdadeiramente dependentes de Nossa Senhora, a causa é solidíssima, vence mesmo.

Hoje, como durante o Reino de Maria, a nossa vida de luta deve ser constante. Precisamos nos compenetrar de que no dia em que não tivermos lutado, não teremos carregado a cruz. Ora, para um católico, um dia passado longe da Cruz de Cristo e de Nossa Senhora é um dia frustrado. Peçamos a Ela que nunca permita um dia assim em nossas vidas.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/4/1966)

21 de abril – Santo Anselmo, varão de muitas lutas

Santo Anselmo, varão de muitas lutas

Os grandes homens que marcaram a Idade Média — entre os quais se destaca Santo Anselmo — patenteiam a solidez, a força, a grandeza dessa época histórica, que contrastam com a pequenez, o efêmero, a índole de “matéria plástica” de todas as coisas de nossos dias.

Dia 21 de abril comemora-se a festa de Santo Anselmo de Cantuária, bispo, confessor e Doutor da Igreja, cuja biografia apresenta os seguintes traços(1):

Mansidão do cordeiro e vigor do leão

Anselmo nasceu em Aosta, no Piemonte, de família nobre. Como o pai o afastasse da vida religiosa, entregou-se aos prazeres durante alguns anos. Mas aos 26 anos entrou na abadia de Bec, na Normandia, onde se entregou à pratica das virtudes religiosas e ao estudo das Escrituras. Aos 30 anos, tornou-se prior e em seguida abade.

 Governou sua abadia com uma bondade incansável que lhe permitiu triunfar de todas as dificuldades. Os Papas Gregório VII e Urbano II manifestaram-lhe grande estima. “O bom odor de vossas virtudes chegou até nós”, escrevia-lhe Gregório, e Urbano II diz: “Vinde cá o mais depressa possível a fim de podermos gozar juntos da afeição que nos une”.

Chamado à Inglaterra em 1092, não pôde voltar à França, pois foi nomeado Arcebispo de Cantuária. Nesse cargo muito sofreu do Rei Guilherme o Ruivo pela defesa dos direitos e liberdade da Igreja. Exilado, foi a Roma, onde o Papa o cumulou de honras e lhe deu ocasião, no Concilio de Bari, de convencer do seu erro os gregos que negavam que o Espírito Santo procedesse do Filho como do Pai.

Voltando à Inglaterra após a morte de Guilherme, Santo Anselmo morreu a 21 de abril de 1109. Clemente XI, em 1720, o declarou Doutor da Igreja.

Monge, bispo, Doutor, Anselmo reuniu em sua pessoa os grandes apanágios do cristão privilegiado. E se a auréola do martírio não veio completar tanta glória, pode-se dizer que a palma faltou a Anselmo, mas que ele não faltou à sua palma. Sua vida foi toda entregue às lutas pela liberdade da Igreja. Nele o cordeiro revestiu-se do vigor do leão. “Cristo, dizia, não quer uma escrava para esposa. Nada Ele ama tanto no mundo quanto a liberdade de sua Igreja”. O nome de Anselmo lembra a mansidão do homem do claustro unida à firmeza episcopal, a ciência junto com a piedade. Nenhuma memória foi mais suave e, ao mesmo tempo, mais brilhante do que a sua.

Um varão que marcou o século XI

Notem as lutas que esse santo precisou enfrentar em plena Idade Média. Ele parece não ter tido — ao menos segundo esses traços biográficos — especiais lutas em seu convento. Mas ele teve dois grandes inimigos a vencer: um rei prepotente que queria sujeitar a Igreja à sua autoridade; e os cismáticos gregos que, reunidos no Concílio de Bari com os católicos, ele conseguiu persuadir, mas de maneira efêmera, de que a doutrina católica era verdadeira.

Ele ao mesmo tempo foi um homem que viajou muito. Era italiano, depois foi para a Normandia, Inglaterra, Bari, Roma. E numa época em que essas viagens representavam empreender um enorme esforço. Eram feitas em estradas péssimas, com riscos de toda ordem, muita dificuldade, lentidão, etc.

Um homem favorecido por Nosso Senhor por especiais graças, e que levou a bom termo tudo aquilo de que foi incumbido: como abade foi muitíssimo estimado; Arcebispo de Cantuária, ele empreendeu uma luta rigorosa contra o rei e acabou sendo reintegrado na sua sede episcopal; lutando contra os cismáticos, conseguiu persuadi-los de seus erros. Depois, extinguiu-se na alegria e no amor de todos pela vida que tinha levado, porque a morte dos santos é muito mais uma alegria do que uma fonte de tristeza.

Vemos, entretanto, qual a natureza da verdadeira grandeza da Idade Média: esse homem marca o século XI pela sua ciência, sua piedade, pelas suas lutas, e leva a Causa Católica à vitória.

Então, considerando a vida dele, tem-se a impressão de uma fortaleza formidável, de um homem que encheu o seu tempo, venceu, e cuja glória perdura por todos os séculos por causa das vitórias que ele obteve em favor da Fé. Quando se olha isso, fica-se com a sensação da solidez, da força, da grandeza de toda a Idade Média, que contrasta com a pequenez, o efêmero, a índole de “matéria plástica” de todas as coisas de nossos dias. E essa impressão não é falsa; é verdadeira porque nos mostra a solidez da estatura dos grandes homens que marcaram a Idade Média.

Precisamos lutar sempre, com os olhos postos em Nossa Senhora

Mas de fato ele teve muitas lutas. E se não tivesse havido campeões como ele, a Igreja teria perecido. Na Idade Média havia uma batalha contínua; a solidez não consistia em não haver luta, mas em que a boa reação vencia sempre e era, portanto, nesse sentido, sólida. Entretanto, por um pouco que os homens fraquejassem, a coisa poderia cair.

Podemos vislumbrar, de antemão, qual vai ser a solidez e a precariedade do Reino de Maria. A solidez será enorme enquanto houver homens de uma grande firmeza, dispostos a lutar em todos os sentidos. Então, o Reino de Maria poderá durar séculos e séculos.

Se encontrar homens fracos, ele soçobrará imediatamente, porque o reino do demônio se tornará forte, pois estamos numa humanidade marcada pelo pecado original e num mundo imerso na presença dos tais demônios dos ares de que falava São Paulo(2).

Portanto, é preciso estar lutando sempre, com uma energia inquebrantável, uma atividade contínua, um desprendimento de si inteiro, tendo os olhos postos completamente em Nossa Senhora, para que a luta seja levada a bom termo. Mas encontrando autênticos lutadores, verdadeiramente dependentes da Santíssima Virgem, a causa é solidíssima, ela vence mesmo. A questão é haver quem lute por Ela. 

Peçamos a Nossa Senhora que nos dê forças e nos compenetre da verdade, para entendermos bem o seguinte: agora, como durante o Reino de Maria, a nossa vida deve ser de luta constante, e no dia em que não tivermos lutado precisamos nos compenetrar de que não carregamos a Cruz de Cristo, e que esse foi um dia frustrado em nossa existência.

Não lutar é não sofrer; não sofrer é não carregar a Cruz de Cristo. Para um católico, um dia passado longe da Cruz de Cristo, longe de Maria Santíssima, é um dia cancelado, um dia em branco.

Ordenado arcebispo, apesar de seus protestos

Temos agora uma nota sobre a sagração de Santo Anselmo, extraída da “Vida dos Santos”, do Padre Rohrbacher(3).

Decidiram os bispos ingleses sagrar Santo Anselmo Arcebispo de Cantuária, mas ele recusou terminantemente porque sabia da intromissão real neste cargo.

Mostraram-lhe os prelados as consequências de sua negativa para a Inglaterra. Replicou o Santo que conhecia tais problemas, mas que era velho, mal conseguindo carregar a si próprio; como poderia levar o fardo de toda uma Igreja? Por outro lado, não era de sua índole cuidar de negócios temporais.

“Conduzi-vos somente nos caminhos de Deus, nós nos encarregamos dos negócios temporais”, replicaram os prelados.

Alegou Anselmo suas múltiplas obrigações e a impossibilidade de abandoná-las. Resistindo ainda, levaram-no ao soberano que se encontrava gravemente enfermo.

O rei aflito disse-lhe: “Anselmo, que fazes? Por que me envias ao Inferno? Lembra-te da amizade que meus pais tinham por ti e não me deixes perecer, porque sei que estou condenado a morrer conservando este Arcebispado”. Todos os assistentes, comovidos, insistiam com Santo Anselmo acusando-o de matar o rei.

O Santo voltou-se para os dois monges que o acompanhavam e disse: “Meus irmãos, por que não me socorreis?”

Um deles respondeu: “Se esta é a vontade de Deus, quem somos nós para resistir-Lhe?”

“Ai! — disse Anselmo — Vós vos rendestes mui prontamente”.

Vendo-o assim obstinado, acusaram-no de covardia. Buscaram uma cruz, tomaram-lhe o braço direito e o aproximaram do leito. O rei lhe apresentou a cruz, mas ele fechou a mão. Os bispos empenharam-se em abri-la até fazê-lo gritar. Por fim seguram-lhe a mão com a cruz dizendo: “Viva o bispo!”; e entoaram o “Te Deum”. Levaram-no à igreja vizinha e, sob seus protestos, sagraram-no.

Fato estranho e magnífico ao mesmo tempo!

Maus reis queriam eliminar a liberdade da Igreja

Para compreender um pouquinho o conjunto dos acontecimentos, é preciso tomar em consideração o seguinte: Cantuária é a mais antiga diocese, portanto a sede primacial, da Inglaterra. E naquele tempo, mais do que hoje, os arcebispos e os primazes tinham certa jurisdição, certa influência sobre os bispos de seu país.

Estava-se num período de comunicações com Roma, devido à distância, muito difíceis, e não havia um corpo de núncios apostólicos inteiramente organizado. De maneira que se fazia sentir, mais do que hoje em dia, a necessidade dos bispos de um determinado país se apoiarem sobre um que fosse a pedra de ângulo de todos, e este era o Arcebispo de Cantuária.

Esse arcebispo tinha muita importância; por outro lado, estava-se num período em que a Revolução — em sua forma absolutamente ancestral e original; nem se pode ainda falar de Revolução —, ou melhor, os germes dos quais futuramente a Revolução nasceria, se exprimiam sob a forma de um desejo do poder temporal. Quer dizer, dos chefes de Estado, em concreto dos reis, de se apoderarem da liberdade, dos atributos da Igreja, transformando-a num instrumento de dominação material.

Os soberanos não queriam, por exemplo, que os bispos os censurassem, porque havia naquele tempo muitos bispos que repreendiam os reis e os poderosos. Eles queriam se assenhorear dos bens com que a Igreja socorria inúmeros pobres e mantinha o esplendor do culto divino.

O medo do Inferno leva muitas pessoas para o Céu

Por outro lado, os bispos eram muitas vezes senhores feudais e constituíam um elemento de imparcialidade dentro do jogo da vida feudal. Certos reis, movidos por mau espírito, queriam se assenhorear dos feudos eclesiásticos para, por esta forma, combater os outros senhores feudais.

E isto tudo fazia com que os reis tivessem uma preocupação constante de nomear, para os cargos importantes, bispos que fossem seus instrumentos.

Então, Santo Anselmo, monge já idoso, com inúmeros serviços prestados à Igreja, era desejado ardentemente pelo rei e pelos bispos para ser Arcebispo de Cantuária.

Pelos bispos porque era um líder natural para defendê-los contra o rei. Pelo rei, porque este já tinha tido dificuldades com a Igreja, mas estava doente e temia morrer. E ele achava que ia para o Inferno se, antes de falecer, não evitasse para a Igreja a catástrofe de uma má nomeação; por isso ele queria nomear um bom arcebispo para Cantuária.

Quer dizer, o rei estava com a espada da ameaça do Inferno colocada no peito, e nós sabemos que o medo do Inferno tem levado muita gente para o Céu. Para a grande maioria dos homens, poucas coisas fecham tanto a porta do Inferno quanto o medo de ir para lá. 

Então todos queriam que Santo Anselmo ficasse Arcebispo de Cantuária.

Uma violência tipicamente medieval

Aí se dá a cena muito curiosa. Os bispos pedem, ele recusa dando um argumento que está à altura de um Santo. Não é um argumento baseado em falsa modéstia, mas é uma coisa verdadeira. Sendo um homem velho, que mal se carrega a si próprio, exausto por anteriores serviços à Igreja, é natural que ele tenha receio de não conseguir desempenhar satisfatoriamente um cargo tão pesado; e, portanto, procure tirar o corpo.

Tanto mais que ele devia conhecer bem o rei e sua entourage, e o Santo poderia conjecturar que o rei, tendo já criado encrenca com a Igreja, criaria outra, caso ficasse curado — como diz o ditado: cesteiro que faz um cesto, faz um cento.

Os sucessores do monarca, que faziam parte daquela entourage do palácio, tinham a mesma mentalidade. Santo Anselmo teria que travar uma luta, portanto, contra o poder temporal, coisa muito mais difícil do que qualquer outra batalha. E ele naturalmente temia por sua própria fraqueza; achava que um homem moço estaria mais em condições de conduzir essa luta.

Mas tal era a força da virtude dele, a confiança que tinham no auxílio que a graça lhe prestaria, que todos queriam que ele ficasse arcebispo.

Então se dá esta cena: Os bispos, não conseguindo nada, levam Santo Anselmo ao quarto onde o rei estava doente. Depois de muita insistência, acaba havendo uma espécie de violência bem medieval.

Pegam uma cruz e dizem ao rei: “Põe na mão dele!” O Santo declara: “Não, não quero!”

Com força, abrem a mão dele, a ponto de doer; ele segura a cruz e levam-no, então, para ser sagrado.

Por meio dessa violência material, que talvez tivesse tido um caráter afetuoso e feita no meio de sorrisos — a crônica é muda a respeito deste particular —, o que houve foi isto. Mas o fato é tão estranho que não é de se repelir como absurda a hipótese deste ter sido feito no meio de sorrisos.

Houve um momento em que Santo Anselmo, pelo extremo desejo dos outros, que chegou até à violência, resolveu ceder. Ceder não mais coagido fisicamente, mas moralmente persuadido de que ele não deveria resistir a um anseio tão unânime.

E, então, ele mesmo aceitou a sagração, a qual não aceitaria se estivesse convencido de que outra era a vontade de Deus. Ele teria certamente — sendo um Santo — morrido mártir, mas não se deixaria sagrar, se tal fosse a vontade do Altíssimo. Seria o primeiro caso de martírio de um padre que se faz matar para não ser bispo.

Uma vez que Santo Anselmo está no Céu, devemos estar persuadidos de que ele de fato quis, em determinado momento e por esta forma, ele foi Arcebispo de Cantuária.

Devemos ser insistentes em nossas orações

Podíamos nos perguntar se essa violência feita na pessoa dele é censurável. Às vezes a graça, na sua sabedoria e imensa liberdade de movimentos, se serve de meios muito estranhos. Meios imorais ou ilegítimos jamais. Meios surpreendentes e desconcertantes, bem possivelmente.

Quem sabe se a graça quis que a insistência chegasse até esse ponto para mostrar o desapego deste homem, e depois lhe dar mais liberdade de lutar contra o rei, mostrando que ele tinha sido forçado a aceitar o cargo?

De qualquer forma, lembramo-nos das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho: “O Reino dos Céus padece violência”(4). É preciso fazer violência para se entrar no Céu.

Às vezes é necessário fazer até uma santa violência com Deus. O próprio Redentor contou aquela parábola admirável de um homem que está deitado na cama junto com seus filhos,

 e um indivíduo cacete bate do lado de fora pedindo pão.

O dono da casa explica que já está deitado e não pode atender. Afinal, o outro é tão cacete que o primeiro se levanta, abre a porta e lhe dá os pães.

E Nosso Senhor afirma que o dono da casa atendeu por causa da importunidade do outro; e acrescenta que isto é o modelo daquele que reza.

Quer dizer, quando não temos méritos, devemos ser muito insistentes. Porque à força de insistência, como que caceteamos a Deus Nosso Senhor e obtemos aquilo que nós queremos.

No caso ocorrido com Santo Anselmo, houve qualquer coisa de parecido com isso, e vemos as vias superiores de Deus, insondáveis, nem sempre inteiramente explicáveis e que formam uma das belezas da História da Igreja.

Mistérios de Deus e da vida da Igreja

Se na História da Igreja tudo fosse explicavelzinho, clarinho, limpinho, não seria a História da Igreja de Deus. Faltaria a ela uma das notas daquilo que é verdadeiramente divino.

Naquilo que é autenticamente divino precisaria haver mistério. E vou dizer mais, quanto mais claro que determinada coisa é divina, tanto mais convém que nela haja mistérios. Porque a presença do mistério é uma marca de superioridade divina, que impõe respeito aos homens.

Aqui também, são os mistérios da vida da Igreja, os fatos misteriosos por onde Deus mostra a sua divina grandeza. Depois as coisas se explicam.

Com certeza, para alguns contemporâneos de Nosso Senhor, a Paixão há de ter parecido um mistério inexplicável, e foi preciso a Ressurreição para que se compreendesse esse mistério.

Atualmente, nós estamos em presença do maior mistério dentro de vinte séculos de vida da Igreja. Creiamos na divindade dela e amemos a Santa Igreja Católica mais do que nunca… eu jamais diria apesar do mistério, mas sim por causa deste mistério.

Só uma Igreja santa e divina pode ter uma fortaleza, uma grandeza tal que nela caiba um mistério tão profundo, tão tenebroso. É preciso ser uma Igreja divina para não morrer deste mistério, para atravessar a era de mistério e, do outro lado, se mostrar gloriosa e resplandecente como se tivesse ressuscitado.

Nós, desse pequeno fato misterioso da vida de Santo Anselmo, devemos voar para regiões muito mais altas dos grandes mistérios da Igreja Católica. E então façamos hoje à noite, a Nossa Senhora, um ato de amor pelo mistério tremendo diante do qual nós vivemos, certos de que os grandes mistérios têm depois as suas grandes explicações.

Nunca um homem se defrontou com um mistério tão terrível quanto São José, mas depois, que explicação, que esclarecimento! É a explicação das explicações.# v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 20/4/1966 e 20/4/1967)

1) Não dispomos dos dados bibliográficos da obra citada por Dr. Plinio.

2) Cf. Ef 6, 12.

3) Cf. ROHRBACHER, René François. Vies des Saints pour tous les jours de l’année. Volume II. Paris: Gaume frères, libraires-éditeurs, 1853. p. 401-410.

4) Mt 11, 12.