Cristo rei – novembro -OBEDIÊNCIA A CRISTO REI

OBEDIÊNCIA A CRISTO REI

Há séculos os católicos mantêm o belíssimo culto a Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Rei de todas as criaturas. Mas, além das orações e da veneração aos símbolos, é preciso fazer algo mais para honrar essa divina realeza. O quê? Dr. Plinio o diz neste artigo.

A doutrina da realeza de Jesus Cristo está intimamente ligada à antiga e belíssima prática da entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Se alguém entroniza a imagem do Sagrado Coração de Jesus no lugar mais rico e mais nobre do lar, é exatamente porque reconhece que Ele é rei. Entretanto — triste constatação! —essa piedosíssima prática acha-se em nossos dias quase completamente abandonada.

Nessas condições, talvez não seja supérfluo recordar aqui a doutrina tradicional da Igreja sobre a realeza de Cristo.

Na sua infinita misericórdia, Deus dignou-se comparar o amor infinito com que nos ama, ao amor que nos têm nossos pais. Evidentemente, não quer isto dizer que Ele tenha reduzido na comparação as insondáveis dimensões de seu amor, para as amesquinhar até as proporções exíguas dos afetos de que os homens são capazes. Se Ele se serviu dessa comparação do amor paterno, foi apenas para nos dar a entender, de longe, o quanto Ele nos ama.

Se dermos à palavra “pai” o sentido  que ela tem na ordem natural, Deus não é apenas nosso Pai, mas, muito mais do que isto, por ser nosso Criador. Porém, como a função de pai, na natureza, não é senão a de coadjuvar Deus na obra da criação, se alguém merece na realidade o nome de Pai, é Deus. E nosso pai segundo a natureza outra coisa não é senão o depositário de uma parcela da paternidade que Deus tem sobre nós.

O mesmo se dá com a realeza de Jesus Cristo. Para nos fazer compreender a autoridade absoluta que, como Deus, Ele tem sobre nós, Jesus Cristo dignou-se comparar-se com um rei. Entretanto, como é por Ele que reinam os reis, e a autoridade dos reis só é autêntica por provir d’Ele, na realidade o único Rei, Rei por excelência, é Ele. E os reis ou chefes de Estado não são senão seus  humildes acólitos, dos quais Ele se digna servir-se na obra da direção do mundo. Cristo é Rei por ser Deus. Chamando-O de Rei, queremos simplesmente afirmar a onipotência divina, e nossa obrigação de obedecer-Lhe.

Obediência! Eis aí um dos conceitos contidos essencialmente no conceito da realeza de Nosso Senhor. Cristo é Rei, e a um rei deve-se obediência. Festejar a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar seu poder sobre nós. E, implicitamente, nossa obediência em relação a Ele. Como é que se obedece a um rei?

A resposta é simples: conhecendo-lhe as vontades e cumprindo-as com amorosa e pormenorizada exatidão. Assim, pois, o único modo de obedecermos a Cristo Rei é conhecer sua vontade, e segui-la.

Dessa noção tão clara, tão simples, tão luminosa, segue-se um programa de vida, também ele claro, luminoso e simples.

Para conhecer a vontade de Cristo Rei, devemos conhecer o Catecismo. Porque é ali, através do estudo dos Mandamentos, estudo este que só será completo com o estudo de toda a doutrina católica, que conhecemos a vontade de Deus. E para seguir essa vontade, devemos pedir a graça de Deus pela oração, pela prática dos Sacramentos e por nossas boas obras. Finalmente, pela vida interior, isto é, pela devoção a Nossa Senhora — tesouro doutrinário e espiritual constituído pela Igreja ao longo dos séculos —, seguiremos a vontade de Deus.

Disse Nosso Senhor que o Reino de Deus está dentro de nós mesmos. Ora, este pequeno reino — pequeno como extensão mas infinito como valor, porque custou o Sangue de Cristo — cada um de nós deve conquistar para Nosso Senhor, destruindo tudo aquilo que, dentro de nós, se oponha ao cumprimento de sua Lei.

Finalmente, as leis de Cristo se aplicam, não apenas a um indivíduo em particular, mas aos povos e nações.

Que os povos conheçam e pratiquem na sua organização doméstica, social e política, os ensinamentos tradicionais da Igreja, que são a expressão da própria vontade de Deus, e Jesus Cristo será Rei.

Plinio Corrêa de Oliveira (Transcrito da “Última Hora”, de 8/1/1982. Título nosso.)

Cristo rei – novembro – O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo

O olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo

Se numa noite sem luar contemplarmos com espírito de Fé o céu estrelado, ele produzirá grande efeito sobre nós. E nos fará lembrar algo infinitamente superior: o olhar do Redentor, no qual há galáxias de santidade, de virtudes que pousam sobre nós como uma abóbada protetora.

Quando a pessoa se porta ordenadamente face à ordem do universo, pelo fato de seu próprio senso do ser procurar o maravilhoso nas coisas que constituem o universo que ela procura conhecer, tende ela a ver muito mais os aspectos espirituais do que os materiais nas criaturas que a circundam.

O sentido da vida terrena

Então, no exemplo tantas vezes utilizado da criança que busca o maravilhoso na teteia dourada, vermelha, azul, verde, etc., à medida que a criança vai se desenvolvendo, se ela tem, por exemplo, uma boa mãe, quando esta lhe oferece sorrindo a teteia, em certo momento, ela percebe estar querendo mais bem à mãe do que à teteia. Porque tomando contato, ao mesmo tempo, com dois seres excelentes — um relacionado mais diretamente ao corpo, como a teteia; outro dizendo respeito à alma, que é o carinho da mãe —, por aspirar ao mais maravilhoso, a criança deseja o carinho da mãe.

Ai da mãe que não tem com a criança esse carinho, e que não a ajude a sobrepor esse valor moral ao material! Porque essa é a missão de uma mãe, e ela tem obrigação de cumpri-la.

Mas ai também dos familiares que não criam em torno de seus pequenos um ambiente robusto, suculento e benfazejo de manifestação de qualidades do espírito, no qual a criança vá entendendo desde logo que esse convívio de alma é o fundamental da ordem do universo!

Este é um ponto muito importante, porque as criaturas de uma ordem mais elevada têm uma função normativa e orientadora em relação a todas as inferiores. E os espíritos são o que há de mais alto no universo. Conhecendo-os e estando voltados para eles, conhecemos melhor o que está abaixo.

Então, ser sensível às almas e querer encontrar para si uma ambientação, na qual o nosso senso do ser, do maravilhoso, nosso senso católico se sintam como o navio que atracou no cais e ali está na serenidade, longe das tormentas, este é o sentido da vida terrena.

O ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus

A alma encontra este sentido superior da existência quando é tocada pela graça a propósito de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora e de toda a ordem celeste propriamente dita. Quer dizer, ela “vê” espíritos — sobretudo um valor de alma —, almas de uma categoria, de uma beleza, de uma maravilha tais que ela fica compreendendo ser este o verdadeiro ponto em torno do qual tudo gravita, longe ou fora do qual tudo gira errado, e que a vida está em compreender e desejar isto, ou seja, mais especificamente, o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

As descrições que tenho feito do Sagrado Coração de Jesus, como deve ser visto, amado, dão inteira e linearmente isto. Ele é divinamente superior a qualquer consideração, por um lado. Por outro lado, na sua superioridade, Ele habita em nós mais do que nós mesmos. Ao mesmo tempo em que está no alto de um Céu inatingível por nós, Ele habita no fundo de cada um de nós e tem a possibilidade de tomar contato conosco, fazendo estremecerem cordas de nossas almas que não sabíamos existirem. Assim é Ele!

Para minha sensibilidade — não digo nem um pouco que seja uma coisa obrigatória —, o ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus traz isso. Existem na Europa milhares de igrejas de um valor artístico incomparavelmente maior do que o dela, mas há uma coisa qualquer nessa igreja por onde, estando lá, tenho a impressão de que os seus divinos olhos estão pousando sobre mim naquele momento, e me delicio em sentir-me visto e envolvido pela serenidade afetiva, doce e cheia de sabedoria de Nosso Senhor, mas ao mesmo tempo pelo império d’Ele, segundo o qual Jesus aceita quem for assim e rejeita quem não o for. E o pior que pode haver é ser rejeitado por Ele.

Mais alvos do que a neve

Tudo isso junto, formando um panorama que paira por cima. A sensação de grandeza que se tem, às vezes, quando se olha para o céu muito estrelado não é nada em comparação com essa impressão dos olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo — que eu imagino castanhos quase claros — pousando sobre nós, olhando-nos a fundo, e nos fazendo entrar nessas imensidades de serenidade, de força e de tudo o mais que há n’Ele, e que são verdadeiramente incomparáveis!

Para quem não tenha haurido isso tão fundamente na alma que, a bem dizer, quase nem precise ir à Igreja do Coração de Jesus, aconselho irem, e procurarem rezar ali, impregnar-se daquilo, porque há qualquer coisa ali que não é propriamente o olhar de Nosso Senhor para São Pedro, mas é um olhar d’Ele. Nessa igreja, todos os mistérios da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria vêm à tona.

Por exemplo, quanto nós gostaríamos de nos ver fisicamente olhados por Ele! Tenho a impressão de que “asperges me hyssopo et mundabor, lavabis me et super nivem dealbabor”(1); o olhar de Nosso Senhor lavar-me-ia completamente, e eu ficaria mais alvo do que a neve!

Ali, diante do olhar d’Ele, eu diria: “Anima Christi, sanctifica me!” Eu estaria tendo o que desejo, o ideal de minha vida! Aquele olhar meio interrogativo, ligeiramente reprobatório, enormemente amoroso, envolvente e, para dizer mais, encomiástico, no seguinte sentido: não há barreiras, venha; elogio é isto!

E tocando, não o grosso bordão dos sinos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas o sino leve e alegre de Nossa Senhora, a alegria do perdão. Ela põe junto dessa seriedade infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo uma nota qualquer de louçania que fala em perdão, em esperança, em alegria, que a completa admiravelmente. Tudo isso está e tem fundamento n’Ele, mas Nosso Senhor é grande demais para, num olhar só, podermos abarcá-Lo. Então, olha-se para Maria Santíssima, e Ela diz: “Meu filho!” Porque ao cabo de algum tempo aquela imensidade nos faz sentir tão pequenos, tão pequenos, tão pequenos, “petit vermisseau et misérable pécheur”(2), que se tem vontade de dizer: “Senhor, não me esmagues de tanto me amar!” Mas entra Ela e dá um repouso, uma distensão, está feito tudo na perfeição.

Portanto, não é que exista n’Ela e não n’Ele; mas é alguma coisa que existe n’Ele e, através d’Ela, se explicita melhor.

Conhecimento por conaturalidade

Esses estados de alma constituem o afeto que devemos procurar na vida. Não tendo esse afeto, não adianta nada, porque nenhuma forma de afeto é autêntica sem isso.

Por exemplo, se alguém me informar: “Fulano de tal quer muito bem a você porque foi educado com você desde pequeno…”, diz-me pouco, porque se nossas almas são diferentes nesse ponto, o que fazer?

Entretanto, alguém que eu tenha conhecido, procedente de Chandernagor, em quem, olhando, percebo esse estado de alma no fundo, minha vontade é de abraçá-lo e dizer:
“Meu irmão ou — conforme a idade — meu filho, há quanto tempo nos esperávamos! Há quanto tempo nos pressentíamos!”

Eu falava há pouco do céu estrelado. Ele produz efeito muito grande, não tem dúvida. Mas se eu, ao contemplar esse céu estrelado, lembrar-me do olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo pousando sobre mim, é algo infinitamente superior ao céu estrelado, mas que tem certa analogia, cujo analogado primário é o Céu, a partir do qual, na imensidade de suas virtudes e qualidades, Ele olha para mim. Há n’Ele galáxias de santidade, de virtudes que pousam sobre minha cabeça como uma abóbada protetora!

A partir daí vem o desejo da boa amizade segundo Deus, amar o próximo como a si mesmo por amor de Deus, podendo dar origem a um relacionamento humano que, com tal plenitude, creio eu, talvez não tenha sido tão frequente na própria Idade Média.

Suponho que se a Idade Média tivesse continuado, o Sagrado Coração de Jesus teria revelado essa devoção de qualquer forma. A grande maravilha d’Ele foi perdoar as rupturas da Idade Média e, apesar disso, chamar para essa devoção.

Infelizmente, essa devoção, de modo geral, foi muito rejeitada ou aceita de uma maneira sentimental, completamente errada.

Quando me refiro à sensibilidade em relação ao ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, às graças, etc., entendo a sensibilidade reta, pela qual o homem tem um conhecimento por conaturalidade.

Em geral, quando se fala de conhecimento, tem-se em vista somente o racional — tão nobre, elevado, digno —, entretanto, julgo necessário frisar o conhecimento adquirido pela sensibilidade para entender que nesse conjunto — razão e sensibilidade — encontra-se a cognição completa. O querer bem é, portanto, ver e entender outrem assim, por conaturalidade.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/2/1986)

1) Do latim: Asperge-me com o hissopo e serei purificado, lava-me e ficarei mais alvo do que a neve.
2) Do francês: vermezinho e miserável pecador.

Cristo rei – novembro – Nosso Senhor Jesus Cristo deve reinar efetivamente sobre nós

Nosso Senhor Jesus Cristo deve reinar efetivamente sobre nós

Celebrar a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar seu poder sobre nós. E, implicitamente, nossa obediência em relação a Ele.
Há exatamente 70 anos, Dr. Plinio lembrava o profundo significado da Solenidade de Cristo Rei.

 

Neste domingo em que a Santa Igreja de Deus celebra a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, encher-se-ão, no mundo inteiro, os templos católicos com uma multidão piedosa que irá depositar aos pés dos altares suas súplicas e suas orações. Contemplando em espírito essa imensa multidão, composta de pessoas oriundas de todas as raças e de todos os pontos do globo, tão numerosa que, segundo a previsão do Apocalipse, “ninguém a pode recensear”, um pensamento se apodera de mim. E ao mesmo tempo eu experimento o desejo imperioso de o comunicar aos meus leitores.

Ai daqueles que, por covardia ou egoísmo, calaram os bons conselhos que poderiam ter dado

Ser-me-ia, sem dúvida, muito mais grato e mais fácil cingir-me exclusivamente a considerações de ordem geral sobre a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho, porém, a certeza de que tais considerações outros as farão. Mas o pensamento que está em mim, posso eu porventura ter a certeza de que todos os demais o tiveram, e de que em hipótese afirmativa o externarão? Uma dolorosa negativa me responde a esta pergunta. E, por isto, deixando a outros uma tarefa, aliás, incontestavelmente indispensável e fundamental, vou fazer a tarefa mais ingrata, mais obscura, mais desagradável, porém mais necessária: a de dizer uma verdade áspera e dolorosa, neste grande dia de festa.

Os bons pensamentos têm isto de característico: quando aproveitados, servem de remédio, tanto a nós mesmos quanto ao próximo. Quando, porém, nós os rejeitamos em nossa vida interior, ou os calamos em nossas relações com o próximo, eles se transformam, segundo São Paulo, em carvões ardentes que nos causticam e calcinam a alma. Ai dos que receberam e, por egoísmo ou covardia, não atenderam aos bons conselhos! Ai também dos que, por covardia ou egoísmo, calaram os bons conselhos que eles poderiam ter dado! Estes conselhos salutares, que eles não externaram, queimá-los-ão a eles próprios pelo interior, como brasas ardentes. E no dia do juízo serão levados à conta de talentos inaproveitados.

Aí vão minhas reflexões, portanto…

Quantos procuram implantar o Reino de Cristo no mundo, esquecidos de que devem começar por si mesmos…

Quando pronunciou, em Lisieux, sua magistral alocução, o então Cardeal Pacelli, já predestinado pelo Espírito Santo a reger futuramente a Igreja de Deus, fez uma queixa amarga, que nos cabe hoje recordar. Disse ele que entre os muitos homens que desobedecem hoje às palavras dos Pontífices, há uma categoria que causa especial mágoa ao Papa. Não se trata dos que não têm Fé, e nem dos que, tendo uma Fé morta e inoperante, não procuram ouvir o que o Papa lhes diz. Os que mais fazem sofrer o Papa — e este é o ponto que nos interessa — são os que, aos pés do púlpito, em atitude externa correta e reverente, ouvem a palavra do Vigário de Cristo comunicada pela Hierarquia Eclesiástica… mas não a compreendem; se a compreendem não a amam, e se a amam platonicamente não lhe dão execução!

Assim, no dia de hoje, quantos e quantos católicos, elevados pelo Batismo à dignidade de cidadãos do Reino de Deus, nem sequer cumprirão o preceito dominical! Quantos outros católicos, ainda, indo à igreja, ouvirão algum sermão sobre a Realeza de Jesus Cristo, sem saber, entretanto, e sem procurar saber em que sentido se deve atribuir a esta tão clara e tão litúrgica festa! Quantos católicos, finalmente, acompanhando até o próprio texto da Liturgia Sagrada, lerão as maravilhosas lições que ela contém sobre a Realeza de Jesus Cristo e não a compreenderão! Quantos os católicos que procuram implantar o Reino de Cristo no mundo inteiro, esquecidos ou ignorantes de que devem começar por implantar dentro de si mesmos! E quantos outros supõem que podem implantar realmente dentro de si o Reino de Cristo, sem sentir um desejo ardente e devorador de o implantar no mundo inteiro! Em outros termos, não são tais católicos do mesmo jaez daqueles que ouvem corretamente… porém, só com ouvidos do corpo e não com os da alma, o que lhes diz a Igreja pela voz dos Pontífices?

A doutrina da Realeza de Jesus Cristo está intimamente ligada à belíssima e piedosíssima prática da entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Se se entroniza a imagem do Sagrado Coração de Jesus no lugar mais rico e mais nobre do lar, é exatamente porque se reconhece que Ele é Rei. Entretanto, quanto lar há por aí, em que a imagem está entronizada na sala, mas em que Cristo não está entronizado nos corações!

Evidentemente, não quero exagerar a tristeza, já de per si tão grande, deste quadro, cometendo a injustiça de desprezar o que há de belo e de bom apesar destas lacunas. Qualquer ato de piedade, qualquer atitude de reverência para com a Igreja de Deus, por mais superficial e insignificante que seja, deve ser por nós, católicos, apreciado, amado e estimulado com um zelo imenso, reflexo direto de nosso amor a Deus. Longe de nós, pois, um pessimismo de sabor farisaico, que nos fizesse contestar todo e qualquer valor a estas práticas de piedade, desde que sejam sinceras, por mais que a frieza ou a ignorância lhes toldem o brilho sobrenatural.

Entretanto, feita esta reserva, a verdade aí está: a queixa de São João ainda hoje é muitas vezes procedente: “in propria venit et sui eum non receperunt”…

Jesus Cristo, o Rei por excelência

Não seria, aliás, difícil conhecer a doutrina da Igreja sobre a Realeza de Jesus Cristo.

Na sua infinita misericórdia, Deus Se dignou de comparar o amor infinito com que nos ama ao amor que nos têm nossos pais. Evidentemente, não quer isto dizer que Ele tenha reduzido na comparação as insondáveis dimensões de seu amor, para as amesquinhar até as proporções exíguas dos afetos de que os homens são capazes. Pelo contrário, se Ele se serviu dessa comparação do amor paterno, foi apenas para nos dar a entender, de longe, o quanto Ele nos ama. Se dermos à palavra “pai” o sentido que ela tem na ordem natural, Deus não é apenas nosso Pai, mas muito mais do que isto, por ser nosso Criador. Porém, como a função de pai, na natureza, não é senão de coadjuvar a Deus na obra da Criação, se alguém merece na realidade o nome de Pai, é Deus. E nosso pai, segundo a natureza, outra coisa não é senão o depositário de uma parcela da paternidade que Deus tem sobre nós.

O mesmo se dá com a Realeza de Jesus Cristo. Para nos fazer compreender a autoridade absoluta que, como Deus, Ele tem sobre nós, Jesus Cristo dignou-Se de Se comparar com um Rei. Entretanto, como é por Ele que reinam os reis — e a autoridade dos reis só é autêntica por provir d’Ele — na realidade, o único Rei, Rei por excelência, é Ele. E os reis ou chefes de Estado não são senão seus humildes acólitos, dos quais Ele se digna servir-Se na obra da direção do mundo. Cristo é Rei por ser Deus. Chamando-O de Rei, queremos simplesmente afirmar a Onipotência divina, e nossa obrigação de Lhe obedecer.

A um rei se deve obediência!

Obediência! Eis aí um dos conceitos contidos essencialmente no conceito da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo é Rei, e a um Rei se deve obediência. Festejar a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar Seu poder sobre nós. E, implicitamente, nossa obediência em relação a Ele.

Como é que se obedece a um rei? A resposta é simples: conhecendo-lhe as vontades e cumprindo-as com amorosa e pormenorizada exatidão.

Assim, pois, o único modo de obedecermos a Cristo Rei é conhecer sua vontade e segui-la. Dessa noção tão clara, tão simples, tão luminosa, um programa de vida, também ele claro, luminoso e simples, se segue.

Para conhecer a vontade de Cristo Rei, devemos conhecer o Catecismo. Porque é ali, através do estudo dos Mandamentos — estudo este que só será completo com o estudo de toda a Doutrina Católica — que conhecemos a vontade de Deus. E para seguir esta vontade, devemos pedir a graça de Deus pela oração, pela prática dos Sacramentos e por nossas boas obras; finalmente, pela vida interior, isto é, pela leitura espiritual, pela meditação. E pela vida vivida exclusivamente à luz do Catecismo, seguiremos a vontade de Deus.

Disse Nosso Senhor que o Reino de Deus está dentro de nós mesmos. Ora, este pequeno reino, pequeno como extensão, mas infinito como valor, porque custou o Sangue de Cristo, cada um de nós o deve conquistar para Nosso Senhor, destruindo tudo aquilo que, dentro de nós, se oponha ao cumprimento de sua lei.

Finalmente, as leis de Cristo se aplicam não apenas a um indivíduo em particular, mas aos povos e nações. Que os povos conheçam e pratiquem na sua organização doméstica, social e política, as Encíclicas — que são a expressão da própria vontade de Deus —, e Jesus Cristo será Rei.

Em outros termos, sejamos bons católicos; sendo-o, seremos necessariamente apóstolos; e sendo apóstolos, seremos necessariamente soldados de Cristo Rei.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de “O Legionário”, Nº 372, de 29 de outubro de 1939)

Cristo rei – novembro – Majestade, ápice da grandeza

Majestade, ápice da grandeza

Em Nosso Senhor Jesus Cristo o equilíbrio entre a majestade e a bondade encantava a Dr. Plinio. O Sagrado Coração de Jesus tão majestoso, mas sempre com uma bondade levada ao último limite do excogitável, deu-lhe a ideia, desde pequeno, de que o padrão mais alto da majestade era Ele. E, por sua vez, havia ali um lugar naturalmente posto para a devoção a Nossa Senhora.

A majestade se distingue da grandeza, porque ela é o ápice da grandeza. Mas não é qualquer ápice dela que define a majestade.

Conjugação entre finalidade e perfeição

Tomem, por exemplo, algo banal como os quatro dentes de um garfo. Há uma razão para que sejam nesse número: corresponde às dimensões do bocado que a boca humana normalmente ingere, ao menos nos costumes do Ocidente. Eles foram calculados pelo costume, pela tradição e por um certo bom senso presente em tudo.
Entretanto, se o garfo perder um dente, não vale mais nada. Pode-se jogá-lo fora. Se for de prata, mandamos fundi-la para vender o metal, mas ele, enquanto instrumento, já não tem utilidade.
A imagem do garfo íntegro traz consigo uma ideia de perfeição. Aquilo que é completo é perfeito. Embora a perfeição possua graus, no seu gênero determinado, naquele seu estilo, tudo quanto é completo é perfeito.
A coisa perfeita é, então, aquela que por si mesma realiza toda a sua missão. O garfo não realiza a missão de alimentar o homem e, sim, de espetar alimentos, e isto é suficiente.
As noções de completo e suficiente se conjugam. E quando algo adquire esta suficiência, passa a ter, em linguagem filosófica, a perfeição. Possui um grau, pelo menos mínimo, de perfeição. Eu posso imaginar, por exemplo, um garfo de ouro pertencente à Rainha Elizabeth. Este seria, sem dúvida, mais perfeito.

 

Majestade: a grandeza daquele que tem o poder supremo

Ora, a majestade é a grandeza daquele que está colocado como primeiro, ou numa ordem de coisas, ou numa associação perfeita possuidora de todos os elementos necessários para subsistir como deve. Ele é a chave de cúpula fora da qual todo o resto se esvai.
Só há duas sociedades perfeitas, de fato: a Igreja e o Estado.
Este é o ensinamento da Igreja: Ela é uma sociedade perfeita, tem todos os elementos para realizar a sua missão, e tem o governo soberano, acima do qual não há nenhum.
A Igreja é destinada à ordem espiritual, o Estado à ordem temporal.
O Estado é aquela sociedade perfeita de um povo, ou de vários, colocados sob a direção de um mesmo poder público soberano, não há nenhum outro acima dele.
Alguém dirá: “Mas a família não é uma sociedade perfeita?”
Não, ela é a cellula mater da nação. Se quiserem, em certo sentido, do Estado. Mas não é uma sociedade perfeita.
Outro objetará: “Um partido político não pode ser tido como sociedade perfeita?” Chama-se partido, logo não é perfeito, porque é uma parte. A sociedade perfeita é um todo.
“Bem, mas uma Universidade não é uma sociedade perfeita?” Não. Porque ela existe dentro do Estado e precisa dele. O Estado não precisa dela, está por cima.
Então, a verdadeira majestade, no sentido pleno da palavra, é a grandeza daquele que tem o poder supremo na sociedade perfeita: É o Rei, ou é o Imperador.
Assim se compreende melhor a etimologia: majus stat1. É aquele maior do que todos. Este tem majestade.

A majestade é, antes de tudo, de Deus

A majestade é, antes de tudo, de Deus. Ele é a Majestade. Em comparação com Deus, quis sustinebit?2 Quem é qualquer coisa em comparação com Ele? E em união com Ele, logo abaixo d’Ele, Cristo Rei. Nosso Senhor Rei tanto da Igreja quanto do Estado. É evidente. O Estado tem obrigação, em suas leis, de conformar-se em tudo com os desígnios de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Abaixo de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora. Porque o governo de todo o universo foi entregue por Deus a Ela, que Se tornou a Imperatriz. Depois vem o Papa, e de modo sucessivo o Rei, o Imperador, o chefe de Estado.
Como se explica que chefes de Estado se constituam com um poder que nega a majestade?
Por erro deles. Porque mesmo numa nação independente, de índole republicana, se deveria reconhecer a grandeza daquele que ocupa, embora temporariamente, as funções supremas. O fato de elas serem provisórias diminui a grandeza da situação pessoal de quem as exerce. Porém, não diminui a função em si.
Por exemplo, o doge de Veneza era chefe de Estado provisório. Ele era eleito por dez anos. Mais tarde parece ter passado a ser vitalício. Enquanto era provisório, não era hereditário, ou seja, não pertencia à família dele aquele poder. Qual era a dignidade dele? Era a de ser doge. Doge quer dizer duque, em dialeto veneziano. Duque temporário, mas soberano de uma região riquíssima, mas pequena. Ficava ridículo ser imperador. Ninguém é imperador de Luxemburgo, por exemplo. No entanto, ele estava cercado de um fausto, do qual dá bem ideia o Palácio dos Doges. Ou seja, o poder público, de si, deve ter majestade.

Em Saint-Germain l’Auxerrois, um fato que ilustra a majestade

Alguém poderia dizer: “O senhor tratou da majestade enquanto ligada ao cargo. Uma pessoa não pode ter majestade por um dom natural?”
Pode, mas nesse caso ela tem um dos elementos da majestade e, por ampliação, se afirma que ela tem majestade. Quer dizer, se ela tem uma tal supremacia pessoal que, olhando-a se pensa na realeza, ela tem os elementos que caracterizam o rei. Ela não é um rei, mas é majestosa.

Certa vez, minha família ouviu Missa na Igreja de Saint-Germain l’Auxerrois, em Paris. E viram entrar a Princesa Isabel acompanhada de uma dama. Como ela era princesa, e a Primeira Guerra Mundial não tinha arrebentado ainda, se prestava, mesmo nas Repúblicas, a honra de dar-lhes um lugar no presbitério. Ela entrou e foi direto para lá, ocupando o lugar que lhe estava reservado.

 

Terminada a Missa, minha mãe e minha avó, que não a conheciam pessoalmente, viram a dama de honra da princesa se levantar e ir caminhando em direção a elas, dirigindo-lhes a palavra:
— Eu sou a Baronesa de Muritiba, dama de honra da Princesa Isabel. Ela viu as senhoras desde o presbitério, achou que fossem brasileiras. Então, me mandou manifestar seu desejo de conhecê-las. Se quiserem, ela as espera na sacristia.

 

Foram até lá: Cumprimentos, homenagens, e, na conversa, a princesa soube que minha mãe era casada com um parente do João Alfredo3, deputado no tempo do Império, muito chegado à Imperatriz. Soube também que meu avô era chefe monarquista em São Paulo, e uma porção de histórias assim. E o resultado foi um convite da Princesa Isabel para todos os membros de minha família irem tomar lanche na sua residência, em Boulogne-sur-Seine.
Foram todos, até as crianças, porque naquele tempo era costume conhecerem-se as famílias inteiras, e não algumas pessoas. Eu tenho certeza que a Princesa Isabel não se espantou nenhum pouco de ver umas dez ali. E para elas era uma ocasião de poder dizer a vida inteira: “Eu conheci a Princesa Isabel!”
Um dos meus tios tinha um filho surdo-mudo que aprendeu a falar com um sistema inventado em Viena, o que naquele tempo era novidade. Esse menino era meio détraqué4. Apesar disso o levaram, por medo de deixá-lo muito deprimido se todos os outros fossem e ele não. Acredito bem, aliás, ter Dona Lucilia, a grande favorecedora desse sobrinho, votado em favor da ida dele.

Chegamos, ficamos todos em pé esperando a princesa. Afinal, ela entrou, cumprimentos. Quando ela foi se aproximando, meu primo, que elevava a voz muito mais alto do que o natural, pois não ouvia, começou a falar:
— Essa é a princesa? Onde se viu? Princesa tem coroa, tem cetro, tem manto bonito! Ela está vestida como vovó!
A Princesa Isabel ouviu isto e, com muita bondade, disse-lhe sorrindo:
— Pois é, meu filho, não tenho nem o manto nem a coroa, mas eu sou a Princesa Isabel, e tenho gosto em conhecer você.
Ela era muito majestosa, um modelo de majestade!

Pendor para o excelente

É próprio do espírito humano reto, bem constituído, ver uma coisa boa e apetecê-la. Voltemos mais uma vez ao exemplo do garfo: O espírito humano bem formado apetece sempre a algo melhor. De maneira que, tendo se alegrado por algum tempo com um garfo bom, ele começa a pensar: “E como seria um garfo melhor?”
Assim, dependendo do pendor pessoal, o ser humano é atraído por mil outras coisas que o levam a cogitar na perspectiva de serem cada vez melhores, algumas delas atingindo o nível de perfeição. Esta, a seu modo, corresponde à majestade naquele gênero.
Por exemplo, existem milhares de idólatras de automóveis. Imaginem um indivíduo desses tão tacanho, que nunca tivesse ouvido falar numa Rolls-Royce. Mas quando ele encontra um veículo desses, numa propaganda, fica encantadíssimo. Lê os prospectos, contente por existir algo dessa categoria que jamais será dele, porque nunca terá o dinheiro para comprá-la e mantê-la. Qual é a razão dessa alegria? Ele viu a possibilidade de um exemplar melhor dentro da ordem de coisas de que ele gosta.
Contudo, se aparecesse um automóvel superior, mais perfeito, ele se alegraria ainda mais. Porque é natural que esse pendor para o excelente, para o supremo de determinadas coisas, e para o muito bom de várias outras, desabroche na alma humana.
Logo, é compreensível que, desde pequeno, eu tenha desejado, conhecido e voltado minha alma a certas majestades. Como isto se fez?

Coração de Jesus de majestade infinita

 

Na Igreja do Coração de Jesus5 havia todas as impressões ocasionadas pelo culto, pela liturgia, pelos cânticos, pelo órgão, pelo ambiente de recolhimento, mas, sobretudo, pela Pessoa de Nosso Senhor, enquanto mostrando o Seu Coração aos homens. Esta devoção, pelo próprio nome da Igreja, era inculcada nela por várias formas. Na torre, aquela imagem dourada do Coração de Jesus, com os braços abertos para toda a humanidade. Aquela majestade d’Ele com os braços abertos, me entusiasmava!

Dentro tem também uma imagem, no altar lateral à esquerda de quem olha para o Tabernáculo. Não pretendo dizer nem um pouco que ela tenha valor artístico, nem é uma obra de arte, é de artesanato. No entanto, muito tocante, muito nobre, e com o coração de Jesus exprimindo muita bondade, com uma grandeza misteriosa, parecendo emanar algo para mim, vindo do vermelho bem escolhido do seu manto, dos ornatos dourados… Mas, sobretudo, de sua cabeça, os cabelos… sobretudo, o olhar, os traços do rosto. Ele me parecia tão majestoso, e tão bom ao mesmo tempo! Tão infinitamente superior, e com tanta pena, tão voltado para mim, e tão misericordioso, que eu pensava: “Majestade é isto! E eu gosto desta majestade!”
Quando me deparei, na ladainha do Coração de Jesus, com aquela invocação “Cor Iesu majestatis infinitæ, miserere nobis”6, adotei-a e a inscrevi entre as minhas invocações prediletas, desde logo!
No teto do Coração de Jesus vem a mesma majestade expressa por uma pintura representando Nosso Senhor aparecendo a Santa Margarida Maria Alacoque. E há um letreiro, em caracteres dourados sob fundo verde, escrito em francês, pois essa Santa era francesa: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, e por eles foi tão pouco amado.”

Esse equilíbrio entre a majestade e a bondade me encantava! Ele, tão majestoso na aparição, mas sempre com uma bondade levada ao último limite do excogitável. Deu-me a ideia de que ali estava o padrão mais alto e pleno da majestade. Sendo Ele Rex regum et Dominus dominantium – Rei dos reis e Senhor de todos aqueles que têm domínio –, era natural que se concebesse n’Ele uma majestade dessa elevação.

Nossa Senhora preenche o hiato entre Nosso Senhor e o pecador

Donde, por sua vez, um lugar naturalmente posto para a devoção a Nossa Senhora. Porque o culto à majestade do Sagrado Coração cria a seguinte situação: Quando deitamos atenção, a majestade d’Ele é tão grande, que a pessoa se sente aniquilada: “Como me aproximar d’Ele? Como dizer-Lhe: Eis-me aqui? Quando sinto em mim o pecado original no qual fui concebido, experimento o primeiro impulso de todas as desordens que todo homem tem em si! Isso tudo me distancia d’Ele.”
Fazendo essas considerações, eu adorava a majestade d’Ele enquanto me recusando, olhando para aquilo que em mim causa-me desgosto e, se eu pudesse, jogaria fora. Esta exclusão, eu a adoro! De outro lado, porém, ela me apavora. Porque Ele é tudo. E, rejeitado por quem é tudo, o que eu sou? Se Ele não me rejeitasse, eu não O adoraria. Se Ele me rejeita, desapareço… Então, qual é a solução?

No hiato entre Ele e mim ‒ que, por alguns lados, deve ser visto como um abismo escuro ‒ há uma réstia de luz: Nossa Senhora, Mãe d’Ele e minha, a qual, como ensina a Igreja, quis a morte de seu Divino Filho para nos redimir, e a teria querido mesmo se fosse para salvar somente a mim ou a qualquer outro homem que há na Terra. Quanta misericórdia!

A superioridade de Maria Santíssima

Mas Nossa Senhora não é divina, não tem aquela superioridade Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é superior a mim a jardas, anos-luz, centúrias de séculos, não tem dúvida! Contudo, é uma criatura. Por isso, ouso me aproximar d’Ela e recitar o Memorare, a Salve Regina, e florescer! Porque Ela faz ponte entre Ele e mim. Este é o bem-estar de minha alma!
Naquele episódio do boletim do Colégio São Luís7, quando eu estava rezando aflito diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora e me sentia olhado por Ela com uma bondade, uma ternura, uma disposição para me perdoar, com uma pena de mim, uma coisa extraordinária, duas ideias vieram juntas, como num relâmpago. A primeira era: “Parece mamãe!”; a segunda: “Mamãe não chega, nem de longe, aos pés d’Ela!”
A maternalidade d’Ela comigo, não por ser eu, Plinio, não. É por um qualquer, um prequeté pecador, um cisco de menino pecador, aparecendo diante d’Ela, trêmulo, mais movido pela atrição do que pela contrição; a esse menino, Ela deixa cair a pétala de um sorriso!
Deste fato veio-me a convicção: Ou eu me agarro a Ela a vida inteira, ou eu me perco! Meu negócio é com Ela! Recorrendo a Ela, pedindo, querendo saber a respeito d’Ela, e girando em torno d’Ela, ao serviço d’Ela. Minha vida é para Ela!
Com frequência, rezando a Salve Regina, eu me lembro disso e, de algum modo, revivo bem exatamente aquela sensação. Quando vou ao Coração de Jesus, visito-A enquanto sendo a Mãe que me sorriu! É evidente. E o meu hábito é este mesmo: entro, inclino-me diante do Santíssimo, faço uma adoração rápida e vou direto para junto do altar d’Ela, para vê-La de perto.
E a imagem do Sagrado Coração de Jesus? É claro, vou vê-la, adoro ao Sagrado Coração de Jesus, venero a imagem d’Ele, sei que a maior homenagem, a primeira, se deve a Ele. Mas, em consideração à ideia da mediação d’Ela, sem a qual eu não me salvaria, creio ser mais respeitoso ir pedir primeiro a Ela para pôr minha alma em condições de aparecer diante d’Ele. E acredito que nenhum teólogo sério tenha alguma objeção a isto.

 

A admiração diante da grande majestade

Pelo velho hábito de lecionar, que leva à deformação de dar a muitas coisas o caráter de aula, apresentei o conceito de majestade tão claro no seu conteúdo abstrato. Entretanto, ao tratar do Sagrado Coração de Jesus, passou-se do abstrato para o concreto mais sublime, mais perfeito que possa haver, provocando uma impressão de majestade muito grande que convida ao silêncio na consideração das naturezas divina e humana na Pessoa d’Ele, sob a invocação do Sagrado Coração. Esta é a majestade das coisas postas por Deus na ordem do universo.
Desde quando eu era pequeno me intrigava ver certos líquidos que postos em recipientes de gargalo muito estreito não saíam, permanecendo retidos por uma rolha invisível. Passei anos sem entender o porquê, julgando que um dia compreenderia isso em função de algo mais alto. Meu professor de Física deu-me uma explicação, mas não me interessou.
Porém, essa velha imagem de meu curso de Física me veio ao espírito, de repente, quando foi abordado o tema a respeito da majestade. Pensei: “Está vendo? É como a admiração. Ela, diante da grande majestade, fica sem saber se expandir, como o líquido no gargalo, porque desperta movimentos de alma tão grandes, que o ‘gargalo’ da voz humana é insuficiente para transmitir.” E nós ficamos no mutismo de quem quisera ter outros meios de expressão e não os tem. Se fosse músico, tocaria uma melodia; se fosse poeta, comporia uma poesia, porque elas dizem muitas coisas que as palavras não exprimem. Não sendo músico nem poeta, admiro pelo silêncio.
No caso de Nosso Senhor Jesus Cristo, é muito mais do que uma admiração, é uma adoração, um ato de culto. Eis o que se deu. Fico feliz por minhas palavras terem conseguido despertar este ato de culto em relação a Ele.v

(Extraído de conferência 29/10/1985)

1) Do latim: (sentido literal) o maior está de pé.
2) Do latim: Quem subsistirá?
3) João Alfredo Corrêa de Oliveira, tio-avô de Dr. Plinio.
4) Do francês: desequilibrado, demente.
5) Santuário do Sagrado Coração de Jesus, igreja situada no Bairro Campos Elíseos, em São Paulo.
6) Do latim: Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
7) Sobre isso, ver Revista Dr. Plinio n. 122, p. 18-23.

30 de novembro – Santo André, Apóstolo: imitador do Divino Mestre em sua Paixão na Cruz

Santo André, Apóstolo: imitador do Divino Mestre em sua Paixão na Cruz

Ao ler a narração da morte de Santo André, Apóstolo, Dr. Plinio incentiva, uma vez mais, seus filhos espirituais ao amor à Cruz.

A Igreja comemora no dia 30 de novembro a festa do Apóstolo Santo André. Extraídas do Pe. Rohrbacher, como também do Abbé Daras, são as seguintes notas biográficas que passaremos a comentar.

“Santo André, primeiro Apóstolo a reconhecer Cristo, ao qual levou seu irmão Pedro, futuro primeiro chefe da Igreja, teve sempre um grande amor à Cruz. Na hora de sua morte, ao ver o madeiro no qual iriam pregá-lo, saudou-o com alegria.”

A saudação de Santo André à Cruz, feita neste momento, não deve ser considerada como pura literatura, pois cada palavra contém uma gravidade e um significado. Depois de açoitado, e ensanguentado, diante de sua cruz, a qual era em forma de “X” — por isto conhecida como Cruz de Santo André — está postado o Apóstolo mártir. Diante dela ele profere as seguintes palavras:

Cruz belíssima, desejada e amada com doçura

“Ó Cruz belíssima, que foste glorificada pelo contato que tiveste com o Corpo de Cristo! Grande Cruz, docemente desejada, ardentemente amada, sempre procurada, e afinal preparada para meu coração apressado, desejoso de ti.”

Eis a beleza da exclamação de um homem para a hora do sofrimento que Deus preparou para ele, e para a aceitação do cálice que ele tem de beber, a fim de obter sua glória no Céu. Cálice este, que, quando não sorvido, não alcança o prêmio celeste. Chega afinal a hora de seu máximo sofrimento, de seu martírio. Ele conhece o sofrimento, pois refletiu incontáveis vezes sobre a Paixão de Nosso Senhor, que assume sua alma nessa circunstância.

A cruz, que era um objeto de desprezo, um instrumento de punição para criminosos, contudo é por ele intitulada como “cruz belíssima”.

Por que belíssima? Ela foi glorificada pelo contato que teve com o Corpo de Cristo. Então ele acrescenta que a desejara com doçura.

Neste gesto é possível notar os inúmeros anos de amor ao martírio, que lhe tinha sido previsto e profetizado, a espera do momento em que ele faria por Deus este ato de holocausto desinteressado. Por amor a Jesus, ele deixou-se matar, assemelhando-se ao vaso de Santa Maria Madalena, quebrado com unguento junto aos pés do Senhor, sem utilidade prática, num ato de amor  desinteressado, em holocausto que não tinha outra razão de ser, senão seu próprio sacrifício. De forma tal que mesmo não sendo útil às almas, ou edificante para muitos, e ainda que não fosse uma humilhação para os adversários da Igreja, para manifestar a Deus que ele levava seu amor até aquele ponto, desejou a Cruz docemente, como algo suave.

Que beleza é a alma de um mártir, e quão belos sãos os esplendores existentes na alma de um mártir!

O que dá sentido à vida não é o prazer, mas a Cruz

“Grande Cruz, docemente desejada, ardentemente amada,…”

De todos os modos os homens fogem do sofrimento. O sofrimento é exatamente o que não desejam. Qualquer forma de luta contra as paixões, qualquer forma de renúncia ao mal, causa-lhe horror. A ideia predominante é de que a vida foi dada ao homem para que ele possa obter proveitos e vantagens, e que é preciso gozá-la, e o que não é fruir a vida, é morrer.

Pelo contrário, Santo André amava ardentemente sua cruz, compreendendo que o verdadeiro sentido da vida de um homem não é o gozo ou o prazer que tem, mas o sacrifício que pratica. Isto dá sentido à vida de um homem e, portanto, todo homem verdadeiramente sobrenatural, verdadeiramente homem, almeja o encontro com sua grande Cruz, com seu grande martírio.

Este é o filho da Cruz, o amigo da Cruz, como fala São Luís Grignion de Montfort.

Amar a Cruz, da qual todos fogem

“… sempre procurada…”

Não são muitos os homens que no momento de prestar contas a Deus, podem dizer que sempre buscaram a Cruz, e que em todos os acontecimentos de sua vida procuraram o sacrifício. Pelo contrário, geralmente os homens fogem da Cruz, pois não desejam de forma alguma o sacrifício. Entretanto, Santo André pôde dar de si mesmo o testemunho: “sempre procurada”. Assim, no instante de ele aproximar-se de sua cruz, estava disposto ao sacrifício.

Continua:
“… e afinal preparada para meu coração apressado, desejoso de ti.”

Manifesta-se aqui que Deus afinal concedera a Cruz para o coração que tinha grande afã da crucifixão.

O martírio significa o último holocausto. Nosso Senhor afirmou: “Ninguém tem um maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

Ninguém pode dar maior prova do amor de Deus, do que desejar desta forma a Cruz.

“Cruz preparada para o meu coração, desejoso de ti, recolhe-me, ó cruz! Realmente abraça-me, retira-me dos homens, leva-me depressa, diligentemente, ao Mestre. Por ti Ele me receberá, Ele que por ti me resgatou.”

Pode haver uma oração mais bela do que esta? Existirá uma alma mais pronta para a visão beatífica do que uma alma que no momento da morte fala de tal forma?

Pode haver cátedra semelhante à Cruz?

“Por três dias esteve pregado na cruz, e durante três dias, do alto da cruz, ensinou aos homens”.

O fato é tão impressionante que pertence àqueles aos quais não competem comentários… Ficar dias preso à cruz, pregando ao povo, e ao cabo desses dias morrer, é um milagre extraordinário.

Apresenta a cruz como a mais grandiosa e augusta de todas as cátedras, cátedra do homem que sofre e, em nome de seu sofrimento, fala ao povo e produz enorme impressão. É uma tão grande plenitude de apostolado, que verdadeiramente não se sabe o que dizer.

Imaginemos um homem que era idoso, atado à cruz, no desconforto tremendo daquela situação, com açoites marcando seu corpo, possivelmente com as mãos e os pés perfurados. Nessa dor tremenda é mantido em vida por um verdadeiro milagre. Continua pregando ao povo, e a um povo ardoroso, contrito, provavelmente genuflexo, que lhe “bebia” as palavras, uma por uma. É uma das mais belas cenas de pregação católica de todos os tempos e de todos os lugares.

Pode-se imaginar quais foram as palavras, os ensinamentos, as graças, enfim, o martírio de Santo André? Que cátedra! Quem durante a vida possuiu uma cátedra semelhante à Cruz?

“Senhor, Rei Eterno da glória, recebei-me assim pendido como estou ao madeiro, à Cruz tão doce. Vós sois meu Deus, Vós a quem vi. Não permitais que me desliguem da Cruz; fazei isto por mim, Senhor, que conheci a virtude da Vossa Santa Cruz.”

E com estas palavras expirou.

Prêmio no Céu e nesta terra

Uma morte tão pulcra, da qual poder-se-ia dizer que apenas a de Nosso Senhor superou em beleza, era merecedora das maiores honras por parte da Santa Igreja, como de fato constatou-se séculos depois.

“Santo André foi sempre objeto de grande devoção por parte dos católicos. Assim foi, com indescritível entusiasmo, que a cabeça do santo foi recebida em Roma por Pio II, a 11 de abril de 1462. O Papa dirigiu-se ao encontro da preciosa relíquia. O cardeal grego, Besarion apresentou-lhe a caixa que a continha, e que estava colocada sobre um estrado. Antes de receber o sagrado depósito, Pio II pronunciou tocante alocução. Depois, beijou, chorando, a cabeça do Apóstolo, rezou diante dela; em seguida tomou-a nas mãos, segurando-a bem no alto, fez a volta no estrado para mostrá-la a todos os assistentes. Neste ponto, cantos e gritos dessa imensa multidão elevaram-se de todas as partes como uma única e grande voz, implorando a misericórdia de Deus.

A cabeça do Apóstolo foi depositada em São Pedro.”

Vê-se a descrição da linda cerimônia com que o Papa Pio II recebeu a relíquia de Santo André. O crânio de Santo André estava no Império Bizantino, infelizmente cismático. E à medida que os turcos invadiam o Império, algumas das relíquias insignes foram sendo retiradas do Império e levadas por mãos fiéis para terras católicas, onde pudessem ser adequadamente veneradas. Assim ocorreu com o crânio sagrado de Santo André.

Esse crânio foi recebido pelo Papa com toda a veneração narrada. Ele mesmo toma o relicário onde estava o crânio, e dá a volta no estrado para mostrar ao povo que o crânio de Santo André estava em Roma. Depois, o crânio, com enorme veneração, é levado até à Basílica de São Pedro e é colocado num relicário embutido numa das colunas da Basílica Vaticana.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 30/11/1964 e 29/11/65)

30 de novembro – Santo André Apóstolo

Santo André Apóstolo

Quando lemos a narração evangélica sobre o encontro de Jesus com seus primeiros discípulos, não podemos deixar de louvar a fidelidade de Santo André.

Fiel a São João Batista, ele não hesitou um instante em obedecer à orientação do Precursor que lhes apontava o Cordeiro de Deus a ser seguido. Nosso Senhor era a realização da profecia do Batista. E Santo André, dócil à voz da graça, teve a glória de dar início à grandiosa história dos apóstolos.

Plinio Corrêa de Oliveira

30 de novembro – A mais augusta das cátedras

A mais augusta das cátedras

Santo André amava ardentemente a sua cruz, compreendendo que não é o gozo e o prazer que dão sentido à vida de um homem, mas o sacrifício que ele realiza. Portanto, todo homem verdadeiramente sobrenatural deseja carregar sua própria cruz.

Nosso Senhor disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Ninguém pode dar maior prova do amor de Deus, do que desejar, por esta forma, a cruz.

A cruz é a mais grandiosa e augusta de todas as cátedras. É a cátedra do homem que sofre e que, em nome e com os acentos de seu sofrimento, fala ao povo. Isso representa uma tal plenitude de apostolado, que verdadeiramente não se sabe o que dizer!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 30/11/1964 e 29/11/1965)

Revista Dr Plinio 188 (Novembro de 2013)     

29 de novembro – Presença que emudecia os ídolos

“Vinde, a Santíssima Virgem vos espera!”

São Saturnino possuía uma ação de presença pela qual o simples fato de passar diante dos ídolos, através dos quais os demônios falavam, fazia com que os espíritos maus fugissem e os falsos deuses emudecessem. Porque em face do varão de Deus o demônio se acovarda e foge realmente, e os ídolos não falam mais. Peçamos a Nossa Senhora, por intermédio deste Santo, que nos consiga a abreviação destes dias terríveis nos quais vivemos, para que possamos ter a alegria de ver os demônios fugirem envergonhados diante dos olhos de Deus.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/11/1968)
Revista Dr Plinio 260 (Novembro de 2019)

27 de novembro – “Vinde, a Santíssima Virgem vos espera!”

“Vinde, a Santíssima Virgem vos espera!”

Ao contemplar as aparições de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré, Dr. Plinio ressalta o caráter profético de suas mensagens e a afabilidade e a inocência que transparecem nas narrações da Santa.

Devemos começar agora o comentário dos fatos que se relacionam com a aparição de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré.

Ângulo de análise dos fatos precedentes às aparições

Para acompanhar bem o assunto é preciso conhecer a situação geral da França e da Europa naquele tempo, porque se trata de uma série de revelações de caráter profético, neste sentido da  palavra: elas se deram em 1830 e Nossa Senhora previu fatos — naquele tempo mais ou menos improváveis — que se dariam em 1870, quarenta anos depois, exatamente.

Os fatos tinham muita relação um com o outro e, debaixo desse ponto de vista, essas aparições interessam de um modo todo particular, porque a revolução de 1830 é apresentada por Nossa Senhora como sendo  o primeiro sinal de um conjunto de desordens na França, que haveria de culminar com uma revolução em 1870.

A revolução de 1830 foi liberal. A de 1870 foi a chamada Comuna de Paris, e talvez se possa dizer a primeira revolução comunista na Europa, se não se considerar a Revolução Francesa como uma revolução comunista.

Isso é outra questão. Habitualmente não era tida como comunista. Hoje muitos historiadores reconhecem que ela, chegando ao seu auge, tomou o caráter, o espírito comunista pelo menos.

Enfim, deixando isso de lado, é, portanto, a ideia do liberalismo gerando o comunismo que é apresentada de algum modo pelas revelações. Ideia que se relaciona tanto com a RCR e com as  preocupações habituais do Grupo, que eu não poderia deixar de realçar isto desde o começo.

Tática revolucionária de Napoleão

Qual era a situação da França e da Europa em 1830? Era a seguinte. A Revolução Francesa deve ser considerada como um grande movimento revolucionário que começou em 1789,  simbolicamente, com a queda da Bastilha e que, verdadeiramente, teve seu fim em 1815, quando Napoleão caiu pela segunda vez.

Napoleão é tido por muitos como  o contrário da revolução, porque ele impôs ordem à França quando ela estava no caos e na desordem. Mas a questão é que Revolução não é apenas desordem,   caos, é também uma ordem material na qual se impõe que as coisas fiquem de cabeça para baixo. E foi exatamente o que Napoleão fez.

Ele aproveitou a ordem que ele impôs e aproveitou o prestígio das vitórias militares que alcançou para impor à França, de modo estável, uma série de transformações que a Revolução Francesa introduziu, mas  que eram mal aceitas pelo povo. Em algumas coisas Napoleão recuou em relação à Revolução Francesa, em outras coisas ele impôs. E isto fazia parte do jogo: ceder algo, mas tornar  algo definitivo e irremediável.

Revanche da Revolução

Em 1815 se dá a Batalha do Waterloo, Napoleão é mandado para Santa Helena, e a ordem na França gira: os Bourbons são restaurados e reinam de 1815 a 1830.

A restauração dos Bourbons se deu na pessoa de Luís XVIII, um irmão de Luís XVI. Ele foi sucedido por Carlos X, que reinou de 1824 até 1830, um reinado rápido. Em 1830 houve uma revolução  de caráter liberal que destituiu Carlos X, tido como um rei reacionário e ultramontano.

Em seu lugar foi colocado um parente deles, o Duque de Orleans, que não tinha direito à sucessão ao trono e que reinaria de 1830 a 1848. A introdução de um rei ilegítimo, de ideias  conhecidamente liberais, representava uma revanche da Revolução.

Podemos dizer que a Revolução deu um grande passo para trás com a restauração dos Bourbons; fez meio passo para frente com a implantação da monarquia burguesa de Luís Felipe, e daí para a frente os fatos se foram dando até a Comuna de Paris em 1870.

Carlos X era católico, mas via uma série de coisas muito estrabicamente. Apesar disso, por causa da onda da opinião contrarrevolucionária, a Religião fez muitos progressos na França, restaurou uma porção de coisas,  de instituições que tinham caído, foi uma ocasião de recatolicização.

Nesse período os adversários da Religião também se levantaram e houve motins, agressões, um desenvolvimento grande do anticlericalismo. Isso era um bom sinal do ponto de vista religioso, porque sempre que a Igreja é atacada por seus inimigos, quer dizer que ela está fiel a si mesma.

Devemo-nos situar nessa atmosfera para compreendermos o ambiente no  qual se deram as revelações de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré, religiosa de São Vicente de Paulo.

As Irmãs da Caridade

O hábito das Irmãs de Caridade era preto, como são os hábitos das religiosas, mas com uma espécie de grande gola engomada branca. A cabeça era adornada por uma toca bretã um tanto estilizada pela inspiração  e pelas mãos da Igreja. Naturalmente, um rosário pendente da cintura.

Eu não tive muito contato com essas freiras, mas conheci muitas e muitas delas. Eram, em geral, pessoas robustas, fortes e prontas para o trabalho. Algumas — isso não as desdourava em nada — um pouco  camponesas. Olhar límpido, reto, atitude despretensiosa de quem preferia passar despercebida.

Elas eram destinadas muito frequentemente a tomar conta dos hospitais, atender os doentes, e a outras obras de caridade material. Obras de misericórdia temporal, que elas aproveitavam como ocasião para obras de misericórdia espiritual: aproveitavam para chamar um padre para o agonizante, convidavam uma criança para ir ao catecismo da paróquia ou no convento delas. Se  encontravam alguém desventurado pela rua, paravam, perguntavam o que queria, ajudavam a pessoa, etc. Enfim, faziam tudo quanto pudessem para atender aos infortúnios, às carências  materiais, mas, sobretudo, às necessidades espirituais dos mais variados ambientes por onde elas costumavam se infiltrar. A elevação desse apostolado que elas realizavam era tão grande e elas eram de tal maneira admiradas por isso que uma irmã de São Vicente de Paulo costumava ser tida como o próprio símbolo da Religião numa das suas expressões mais belas e mais comovedoras.

Quando Nossa Senhora deseja…

Catarina Labouré nasceu em 1806. Era filha de um casal de proprietários rurais. Sua mãe faleceu quando tinha apenas nove anos.

Catarina pediu autorização do pai para ser freira. Este se opôs terminantemente e julgou bom, para distraí-la, mandá-la para um lugar de prazer, um emprego onde ela podia se distrair, ter  prazeres.

Paris já era, para as proporções da França e do mundo daquele tempo, uma cidade de luxo, uma cidade-turbilhão da alegria, do contentamento de viver mundano. O pai queria conduzi-la até Paris para a vocação desaparecer.

Mas quando Nossa Senhora quer, quer: Catarina acabou indo para Paris, tornou-se freira e recebeu as revelações.

Nos subúrbios de Paris

Catarina Labouré, no ano de 1828 foi posta pelo pai ajudando seu irmão num pequeno  restaurante para operários, num dos bairros mais populosos de Paris.

Era um restaurante só de homens. Com certeza  estes homens comiam ali porque não tinham tempo de ir para casa comer. Imaginem a beberagem, as conversas imorais, as canções. E a futura santa obrigada pelo pai a servir ali. Vejam o contraste e o “rio chinês” que o desígnio da Providência percorreu nesta ocasião.

Ela tinha nessa ocasião 22 anos, uma idade inteiramente inadequada para esse tipo de serviço. Ela ficava — era a defesa dela — quieta, e durante o serviço nunca descerrava os lábios. Falassem com ela o que fosse, perguntassem o que quisesse, ela servia sem dizer uma palavra. Era o meio de, naquele ambiente, se isolar e proteger a sua própria pureza, a sua piedade.

Ela se sentia supliciada em um ambiente tão livre como esse, onde os gracejos e até os galanteios a ela evidentemente não faltavam.

O operário daquele tempo era, em geral, muito corpulento, porque a indústria era muito menos mecanizada do que hoje em dia, exigia muito mais força no trabalho manual. Imaginem um    restaurante pequeno  cheio de homenzarrões. Entra uma donzela que não tem outra coisa senão seu Anjo da Guarda para defendê-la e que acaba domando o ambiente.

Brincadeira de cá, gracejo de lá, galanteios de acolá. Ela tem apenas a defesa do repúdio e dos lábios errados. Ela domina. Vê-se a virtude dominando o vício, o espírito dominando a matéria. Que bela vitória e como isso nos ajuda a conhecer o perfil moral da santa.

Em Châtillon-sur-Seine Esse martírio durou cerca de um ano. Em 1829 Santa Catarina Labouré passou a residir com uma cunhada, que mantinha um pensionato para moças em Châtillon-sur-Seine, no departamento de Côte d’Or. Era aí que uma parte da nobreza da Borgonha enviava suas filhas.

Catarina viveu com mais liberdade e pôde melhorar algum tanto sua escrita. Mas a ortografia dela foi sempre muito irregular.

Em janeiro de 1830 ela entrava no hospital de caridade dirigido pelas irmãs de São Vicente de Paulo em Châtillon-sur-Seine.

Ela, que tinha vergado os operários do botequim, vergou também o pai. Depois de três meses de postulantado, seguiu, enfim, para Paris. E em 1830, no mês de abril, pela primeira vez entrou no noviciado da Rue du Bac, onde as aparições se deram. Ela era, portanto, noviça quando essas aparições se verificaram.

Junto ao coração de São Vicente Três dias depois da chegada de Catarina, deu-se a solene transladação dos despojos de São Vicente de Paulo para a capela da Rue du Sèvre, grande cerimônia à qual assistiam o Rei Carlos X e o arcebispo de Paris, Mons. Quélan.

Que cena linda: o arcebispo de Paris com certeza presidindo a cerimônia, é provável que o pálio cobrisse os restos mortais de São Vicente de Paulo e ali fosse o rei também. Tudo leva a crer que antecedendo e fechando  o cortejo das relíquias, havia personalidades do clero, da família real, da corte, povo em quantidade, provavelmente tropas apresentando armas, etc. Assim se deu a transladação do corpo de São Vicente de Paulo, que era o fundador da congregação religiosa para onde ela estava entrando e que era, naturalmente, venerado por todo o povo francês.

Santa Catarina, como noviça, frequentou várias vezes a capela de Saint-Lazare, onde foi colocado o corpo de São Vicente de Paulo. Conta ela:

O coração de São Vicente aparecia todas as vezes que eu voltava de Saint-Lazare. Apareceu-me três vezes de modo diferente, três dias seguidos: branco, cor de carne, o que anunciava a paz, a calma, inocência e a união; depois o vi vermelho, cor de fogo o que indicava o incêndio de caridade de seu coração; parecia-me que a comunidade devia se renovar, estender-se até as extremidades da Terra, o que de fato se deu. Por fim o vi vermelho  negro, o que indicava tristeza. Vinham-me tristezas que tinha muita dificuldade em dominar. Não sei porque nem como essa tristeza se  relacionava  com a mudança de governo que havia proximamente na França.

São Vicente de Paulo, como santo, amando a França, a civilização cristã e sobretudo a Igreja, dava a conhecer a ela, antes da queda do governo, que o rei cairia. Exprimia a sua dor profunda  fazendo ver o próprio coração nesses coloridos diferentes. Um vermelho quase preto que indicava tristeza, o que iria acontecer?

Por que é que ela sabia de antemão?

Para que nós soubéssemos, é claro. Mas também para rezar e para ir pedindo pela causa católica na França antes mesmo da causa ser golpeada, de maneira a  conseguir que o golpe não fosse tão grande e alguma coisa sobrevivesse.

Vemos a Providência que permite o golpe, mas prepara também algo que atenua. Vê-se aí a bondade e a misericórdia de Nossa Senhora.

Graças de perseverança

Certo dia uma voz interior disse à vidente: “O coração de São Vicente está um pouco consolado, porque obteve de Deus, por mediação de Maria, que suas famílias não pereceriam no meio dessas infelicidades e que Deus se serviria delas para reanimar a fé”. Quer dizer, seria normal que o ramo masculino e feminino da obra de São Vicente de Paulo desaparecessem, mas Nossa Senhora obteve e pediu antes da revolução que essas duas famílias — eu interpreto assim, sendo ramo masculino e feminino — sobrevivessem para espalhar a fé pelo mundo inteiro. O que em larga medida aconteceu.

Revolução de julho

Os mais negros e tristes pensamentos ocorreram no dia da Santíssima Trindade, 6 de junho. A revolução foi em julho. “Nosso Senhor me apareceu como um rei com a cruz sobre o peito no Santíssimo Sacramento. Isto se passava durante a Santa Missa, no momento do Evangelho. Pareceu-me que Nosso Senhor era despojado de todos os seus ornamentos, caindo tudo por terra”. Isto  se relacionava com a revolução que haveria daí.

“Foi então que tive o pensamento que o rei da terra seria despojado de suas vestes reais”. Foi o que aconteceu nos últimos dias de julho.

“Daí os pensamentos que tive, que não saberia explicar, sobre a perda que se fazia.” Como ela era uma pessoa pouco culta, não compreendia todo o alcance desse acontecimento, o que a Religião perdia com isso.

Ela estava com o espírito pouco afeito a medir os vais-e-vens da Revolução e da Contra-Revolução, mas Nosso Senhor Jesus Cristo lhe dava a entender uma profunda tristeza com esses fatos.

Aí os senhores têm uma coisa curiosa, que é o relacionamento direto… Eu não me lembro de ter visto uma coisa parecida — talvez houvesse — de uma revelação tão altamente provável, eu no meu foro interno a tomo como certa, com um fato político. Mas assim, um fato político determinado: “A fulano vai acontecer tal coisa, e por isso Deus está triste”. Eu não me lembro de uma coisa  dessas, é um fato único — único ao menos para minha memória — e que eu gostaria de ressaltar.

O sobrenatural começa a manifestar-se

Imaginemos a cidade de Paris, naquele tempo enormemente menor do que ela é hoje, silenciosa, tranquila, ainda sem motores. Os automóveis ainda não existiam, o silêncio de toda a população que dormia era  apenas de vez em quando interrompido pelas patas de um cavalo que batia sobre a pedra da rua e que ia puxando algum carrinho ou alguma carruagem depressa durante a noite
para um lugar.

Não havia ainda luz elétrica e o dormitório das religiosas era iluminado por candeeiros. Todos dormiam, inclusive Catarina. Ali, completamente diferente do mundo fora, o maravilhoso sobrenatural começa a se desenrolar e Nossa Senhora faz a primeira das suas diversas grandes mensagens para o mundo no século XIX.

Vale a pena ler o próprio texto da santa contando o que se passou então. É um pouco longo, mas são suas próprias palavras. Isso fará um desenvolvimento do tema.

“A Santíssima Virgem vos espera…”

Ela diz o seguinte:

“Veio depois a festa de São Vicente.

Na véspera, nossa boa Madre Marta nos fez uma instrução sobre a devoção à Santíssima Virgem, o que me deu desejo de vê-La. Deitei-me, pois, com o pensamento de que naquela noite mesmo eu veria a minha boa Mãe. Havia tanto tempo já que eu desejava vê-La”.

A inocência e a ingenuidade desse pensamento e o caráter filial são muito bonitos.

Enfim, às onze e meia da noite… Para aquele tempo era alta noite. “…ouvi me chamarem pelo nome:

‘Irmã Labouré! Irmã Labouré!’. Acordando, olhei do lado de onde vinha a voz, que era do lado da passagem”.

Deveria ser uma passagem no dormitório.

“Corro a cortina e vejo um menino de 4 ou 5 anos que me dizia: ‘Vinde à capela, a Santíssima Virgem vos espera’. Devemos imaginar um ambiente com uma paz, tranquilidade, todas as freiras dormindo, esse menino aparece — ela depois descreve o menino — e diz: “A Santíssima Virgem vos espera”. Quer dizer, uma afabilidade de Nossa Senhora à espera dela.

“Logo me veio o pensamento: ‘Irão perceber’. O menino me respondeu: ‘Ficai tranquila. São onze e meia da noite, todo o mundo está dormindo. Vinde, eu vos espero’. Quem é esse menino que diz “eu” aí?

“Vesti-me depressa e me dirigi para o lado do menino. Este tinha permanecido de pé sem avançar além da cabeceira de minha cama. Ele me seguiu, ou melhor, eu o segui, sempre à minha  esquerda.”

“Por todos os lugares onde passamos as luzes estavam acesas, do que me admirava muito…”

Naturalmente ninguém via, era milagre. Tudo isso já é dado para causar impressão.

“Porém, muito mais surpresa fiquei quando entrei na capela. A porta se abriu mal o menino a tocou com a ponta do dedo e minha surpresa foi ainda mais completa quando vi todas as velas e   castiçais acesos, o que me  recordava a Missa de meia-noite”.

Como se fosse a Missa do Galo.

“Entretanto, nada vejo da Santíssima Virgem. O menino me conduziu ao presbitério, ao lado da cadeira de braços do senhor vigário. Ali me ajoelhei e o menino permaneceu de pé todo o tempo. Eu achava o tempo longo e olhava para ver se as vigilantes não passavam pela tribuna.”

No fundo, onde fica o órgão. Ela tinha medo que pudessem perceber, alguma coisa violasse o segredo. Seria bonita a cena. Ela ajoelhada junto à cadeira do senhor vigário, as luzes todas acesas e pensando o que diria à vigilante sobre essa completa irregularidade.

“Ali se passou o momento mais doce de minha vida”

Por fim chegou a hora. O menino  me preveniu. Ele me disse: ‘Ei-la, a Santíssima Virgem’. Ouvi como um roçar de vestido de seda que vinha do
lado da tribuna…

Era o frou-frou de quem está com um vestido de seda que, naquele tempo, ia até o chão. Produzia aquele ruído agradável e muito peculiar. … perto do quadro de São José e que passava sobre os degraus do altar do lado do Evangelho sobre uma cadeira igual à de Santa Ana. O que seria essa cadeira de Santa Ana?

“Eu estava em dúvida se seria a Santíssima Virgem. Nesse preciso momento o menino que estava ali me disse: ‘Eis a Santíssima Virgem’. “Ser-me-ia impossível dizer o que senti nesse momento, o que se passava dentro de mim. Parecia-me que não via a Santíssima Virgem.

“Então o menino me falou não mais como uma criança, mas como um homem dos mais fortes e com as palavras mais fortes.

“Nesse momento, olhando para a Santíssima Virgem, dei um salto para junto d’Ela, pondo-me de joelhos sobre os degraus do altar e com as mãos apoiadas sobre os joelhos da Santíssima Virgem”.

Nossa Senhora estava sentada na cadeira do vigário. Santa Catarina apoiou as mãos sobre os joelhos de Nossa Senhora. Vejam a afabilidade dessa aparição, uma coisa extraordinária.

Depois, para quem for São Tomé, que pôs a mão no flanco de Nosso Senhor, ela também tocou. “Ali se passou o momento mais doce de minha vida. Ser-me-ia impossível dizer tudo o que senti.

Ela me disse  como deveria me conduzir em relação ao meu diretor espiritual, e várias coisas que não devo dizer. A maneira de me conduzir em meus sofrimentos, vir lançar-me aos pés do altar, e me mostrava  com a mão esquerda o pé do altar, e ali fundir o meu coração. Aí eu receberia todas as consolações de que tivesse necessidade”.

Quer dizer, quando ela tivesse sofrimentos, não comentasse com ninguém,  fosse ao altar e desabafasse ali, mas num lugar indicado por Nossa Senhora para ela: “Aqui, nesse ponto, você venha”. Os senhores compreendem quanto ela voltou a esse lugar fisicamente indicado por Nossa Senhora. Uma verdadeira maravilha. “Então lhe perguntei o que significavam todas as coisas que eu tinha visto e ela me explicou tudo”.

Mas ela não disse o que era. Aqui não está. “Fiquei não sei quanto tempo. Tudo o que sei é que quando Ela partiu não percebi senão que alguma coisa se extinguia. Enfim, mais uma sombra que se dirigia para o lado da tribuna pelo caminho  pelo qual Ela tinha chegado”.

“Levantei-me dos degraus do altar e percebi o menino onde o tinha deixado. Ele me disse: ‘Ela se retirou’. Nós retomamos o mesmo caminho, sempre todo iluminado. O menino estava sempre à minha esquerda.

Creio que este menino era meu Anjo da Guarda que se havia tornado visível para me fazer ver a Santíssima Virgem, porque havia rezado muito a ele para que me obtivesse esse favor. Estava vestido de branco trazendo consigo uma luz miraculosa, isto é, ele era esplandecente de luz. Tinha a idade  mais ou menos de 4 ou 5 anos. De volta ao meu leito eram duas horas da manhã, pois ouvi tocar as horas.

Não tornei mais a dormir. Está terminada a revelação.

Um veludo precioso

Não me consta que lá, na Rue de Bac, se indique qual foi o lugar mostrado por Nossa Senhora a ela. Evidentemente, qualquer um de nós que ali estivesse não deixaria de rezar, oscular o chão. A cadeira está ali sobre um estradozinho e todo mundo que entra vai oscular a cadeira. Quando eu a osculei, deitei o olhar sobre o veludo e este pareceu-me novo. Fiquei desagradado, porque, se é novo, não é o veludo sobre o qual Nossa Senhora se sentou.

Na saída, perguntei à freira:

Irmã, me faz favor. Esse veludo da cadeira é o próprio no qual Nossa Senhora Se sentou?

Ela disse:

— Não. Nós, há pouco, o substituímos por um veludo novo.

Eu pensei em ficar com o veludo para mim, e disse:

— Irmã, eu não poderia ter esse veludo? Ou ao menos um pedacinho dele?

Ela disse:

— Não.

Não me lembro se ela disse que foi jogado fora ou queimado. Eu não pude conter a minha surpresa e disse a ela:

— Mas, irmã! A senhora já pensou o que seria esse… Se a armação de madeira da cadeira se oscula, por que não oscular o veludo? Por que não guardar? A senhora já pensou que isto é uma relíquia.

— É…

Eu disse:

— A senhora já pensou quantas

pessoas viriam aqui para receber das senhoras um pedacinho deste veludo? Ela ficou assim meio surpresa e eu disse:

— Irmã, eu sou da América do Sul, sou do Brasil. Eu lhe garanto que a América do Sul desfilaria aqui para receber pedaços desse veludo! — Nous n’avons guère songé — nem sequer pensamos  nisso.

Uma promessa feita por Nossa Senhora

1830, julho. Colóquio com a Santíssima Virgem. “Minha filha, o bom Deus quer encarregar- vos de uma missão. Tereis muitos sofrimentos, mas superareis estes sofrimentos pensando que o fareis para a  glória do bom Deus. Conhecereis que é do bom Deus e sereis atormentada até que o tenhais dito àquele que é encarregado de vos conduzir. Sereis contraditada, mas tereis a graça e por isso não temais. Dizei com confiança tudo o que se passa em vós, dizei-o com simplicidade, tende confiança, não temais”.

Vemos quanto medo ela tinha do próprio confessor com o qual ela se deveria abrir.

“‘Vereis certas coisas. Prestai conta do que virdes e ouvirdes. Sereis inspirada na vossa oração. Prestai conta do que virdes em vossas orações.’”

Os tempos são muito maus. Os males virão precipitar-se sobre a França; o trono será derrubado, o mundo inteiro será transtornado por males de toda ordem — ao dizer isto, a Santíssima Virgem
tinha um ar muito penalizado  —, mas vinde ao pé deste altar; aí as graças serão derramadas sobre todas as pessoas que as pedirem.

É uma promessa magnífica. “‘Minha filha, gosto de derramar graças sobre a comunidade em particular. Eu aprecio muito. Sofro porque há grandes abusos contra a regra’”.

Nossa Senhora gostava da comunidade enquanto instituição, mas já naquele tempo havia muitos abusos no cumprimento da regra.

“‘As regras não são observadas, há grande relaxamento nas duas comunidades. Dizei àquele que está encarregado de uma maneira particular da comunidade. Ele deve fazer tudo o que lhe seja   possível para repor a regra em vigor. Dizei-lhe de minha parte vigiar sobre as leituras, as perdas de tempo e as visitas.’”

“‘A comunidade gozará de uma grande paz, ela tornar-se-á grande. Momento virá em que o perigo será grande, acreditar-se-á tudo perdido.”

É curioso que este momento não é em 1830. Por que, como vai haver uma grande paz e se corrigirá os abusos, etc., etc., quando ela já está em julho e a revolução foi em julho? Esses fatos não cabem aí, mas depois.

“‘Eu estarei convosco, tende confiança. “Mas não se dará o mesmo com as  outras comunidades: haverá vítimas — ao dizer isto, a Santíssima Virgem tinha lágrimas nos olhos. Para o clero de Paris haverá vítimas. Mons. Arcebispo —  a essa palavra lágrimas de novo”. Eu creio que não foi Mons. Quélan. Talvez aí seja uma profecia de 1870, não sei.

“Minha filha, a cruz será desprezada e derrubada por terra. O sangue  correrá, abrir-se-á de novo o lado de Nosso Senhor, as ruas estarão cheias de sangue, Mons. Arcebispo será despojado de suas vestes — aqui a Santíssima  Virgem não podia mais falar:

o sofrimento estava estampado sob a sua face. ‘Minha filha, dizia Ela, o mundo todo estará em tristeza’”.

A essas palavras pensei quando isto se daria: compreendi bem daí a quarenta anos.

Em 1870, onde realmente o arcebispo foi fuzilado abençoando os revolucionários e duas balas cortaram os dedos dele. Ele morreu abençoando. Disse-me uma pessoa, muito competente nesses assuntos de História do século XIX, que o arcebispo era de tendência liberal. Ele teve de algum modo um castigo, porque os liberais o fuzilaram. Mas vejam como Nossa Senhora sofreu com o fato porque ele era arcebispo e, na pessoa dele, era a Igreja que sofria uma violência.

Vejam como Nossa Senhora ama as instituições eclesiásticas. Ela ama tanto uma congregação religiosa na qual Ela, entretanto, denuncia graves abusos. E Ela sofre tanto com o padecimento de um arcebispo.

É a congregação enquanto congregação, o arcebispo enquanto arcebispo. Isso deve nos fazer compreender o amor que nós devemos ter às instituições eclesiásticas, por mais que as vicissitudes humanas façam com que dentro delas se passem coisas que são contrárias ao que se poderia querer.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/11/1980)

27 de novembro – Excelsas benevolências da Mãe da Divina Graça

Excelsas benevolências da Mãe da Divina Graça

Embora não seja ainda dogma definido pelo supremo Magistério da Igreja, grande parte dos católicos aceita como verdade que Maria Santíssima é a medianeira universal de todas as graças. Dr. Plinio estava convencido disto, e o comentou com fervor diversas vezes, como na conferência que o leitor agora poderá acompanhar.

 

A invocação de Nossa Senhora das Graças, cuja a festa se prende à aparição da Santíssima Virgem a Santa Catarina Labouré, em 27 de Novembro de 1830, muito fala às nossas almas de filhos devotos d’Ela, porém não diz tudo. Já o titulo de “Mãe da Divina Graças”, rezado na Ladainha Lauretana, exprime de modo extraordinário a augusta prerrogativa de Mãe enquanto medianeira e dispensadora universal dos dons de Deus.

Significados da palavra “graça”

Para melhor compreendermos e amarmos esse atributo de Nossa Senhora, todo voltado a nosso favor, devemos antes analisar os dois sentidos da palavra “graça” na linguagem católica.

Numa primeira acepção, ela quer dizer favor.

Por exemplo, se alguém sofre de uma doença, suplica ao Céu a cura e a obtém, pode afirmar: “Recebi uma graça”. É um favor que pediu e no qual foi atendido.

Outra pessoa se encontrará em grave apuro econômico, precisando de auxílio para financiar urgentes necessidades de sua família, e roga a Nossa Senhora que lhe dê a oportunidade de ganhar o dinheiro indispensável. A ocasião se apresenta, ele alcança a soma desejada e resolve seus problemas. Foi uma graça, um favor que lhe foi proporcionado pela Divina Providência.

Há contudo, um sentido muito mais elevado da palavra “graça”. Refere-se a uma dádiva tão imensa, tão suprema, que é a graça por excelência. O que vem a ser?

Na sua infinita misericórdia, e sempre a rogos de Nossa Senhora, Deus concede a todas as almas uma força espiritual que é uma participação na própria vida incriada d’Ele. Essa poderosa assistência divina é a graça santificante, que Ele infunde nas almas no momento do batismo, e que pode ser enriquecida pelo homem ao longo da vida, mediante reiterados atos de virtude, a freqüência aos Sacramentos, etc.

Recebendo essa participação na própria vida de Deus, a criatura humana é favorecida por um vigor, uma elevação e uma coragem de alma que caracterizam os santos e santas, beatos e beatas que, em grande quantidade, reluzem no firmamento da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Se procedêssemos a um recenseamento de quantos bem-aventurados existem no Céu, tomando apenas em consideração o calendário litúrgico, o resultado já seria de milhares. Na verdade, porém, o número de santos é muito maior do que o registrado nas hagiografias.

Com efeito, por santo deve-se entender não só aquele que a Igreja proclamou como tal, elevando-o à honra dos  altares, mas também todas as almas que, embora desconhecidas, praticaram em vida a perfeição heroica.

Passaram pelo mundo de maneira humilde e apagada, não deixaram vestígios pelas veredas da terra. Contudo, ao chegar ao Céu, brilham com luz extraordinária, porque observaram  a  virtude de um modo igualmente extraordinário.

Esses santos serão por todos conhecidos no dia do Juízo Final, e muitos deles nos aparecerão como estrelas de primeiríssima grandeza. Talvez surpreendidos pela formosura de algum deles, perguntemos ao nosso Anjo da Guarda:

Mas, aquele admirável que está lá, quem é?

Ah,  aquele?  Foi   um   lixeiro   na   Terra. Porém, teve tanta resignação carregando o lixo, desempenhou tão bem sua missão de limpar  a cidade em que trabalhava, era tão atencioso para com as pessoas com quem tinha de tratar, e de tal maneira fazia isto só por amor de Deus, que toda vez que punha uma carreta de lixo no caminhão da limpeza era como se acendesse uma estrela no Céu. Ou seja, colecionava méritos para a eternidade…

Outro terá sido um homem cheio de poder, riquezas, talentos e posições, recebendo a todo momento elogios e referências às suas grandes qualidades, e a todo instante exposto à tentação do orgulho e da vanglória. Era-lhe fácil tornar-se ébrio de tanto entusiasmo por sua pessoa e posição, Assim, se era preciso debelar uma peste que assolava certa região de seu país, ele mandava procurar os melhores médicos, conhecedores das melhores técnicas, a fim de que combatessem com toda a rapidez possível aquele mal. Era um homem, enfim, possante em idéias e realizações, mas, sobretudo, em amor de Deus e em caridade fraterna. Virtuoso, ele passou por esta terra sem sujar-se com enlevos e comprazimentos consigo mesmo, faleceu santamente e subiu para o Céu como uma estrela. E ali refulgirá por toda a eternidade.

Dr. Plinio, num momento de distensão, durante uma reunião de trabalho feita sob o celestial olhar de Nossa Senhora das Graças

Como um enxerto da vida divina no homem

Todos esses santos, canonizados ou não, todas essas vitórias do espírito sobre a carne, da virtude sobre o pecado, todos os atos meritórios que qualquer fiel pratica, são frutos desta participação criada na vida incriada de Deus, ou seja, da graça. Uma participação altíssima, que poderia ser comparada, vagamente, a um enxerto.

Tome-se uma árvore comum, na qual é enxertada a muda de uma outra árvore que dá frutos preciosíssimos. Quando chegar a hora da frutificação, esses valiosos rebentos nascerão na árvore que recebeu o enxerto. Assim também é a graça, um como que enxerto da vida incriada de Deus em cada um de nós. Se lhe correspondemos, ela frutifica em nós, elevando-nos a inimagináveis alturas.

todavia compreendeu que o homem nada possui do que se orgulhar: tudo o que lhe pertenceu, recebeu de Deus e se destinava a servir a seu Eterno Benfeitor. Se não tivessem sido empregados em vista deste fim supremo, seus dotes e tesouros não teriam valido coisa alguma. Por isso, aceitando essa verdade, ele nunca consentiu num movimento de presunção e de amor-próprio, levando toda a sua existência na mais perfeita humildade e no desprendimento dos bens terrenos. Santificou-se.

Um terceiro foi, digamos, um governante magnífico. À passagem dele, as multidões se desatavam em cânticos e entusiasmos por suas realizações e seus triunfos. Ele venceu batalhas nas quais lutou pelo bem, pela justiça; construiu cidades, socorreu populações castigadas por inundações, epidemias, e as mais diversas catástrofes. A isto era levado não só pelo fato de ser o chefe da nação, com meios de fazê-lo, mas também porque o movia um intenso amor ao próximo e uma grande sabedoria.

A santidade, fruto da correspondência à graça

Essa correspondência à graça significa praticar a virtude, significa evitar a todo custo o pecado. Não deve nos preocupar, neste mundo, se somos muita ou pouca coisa. O único que importa é saber se cumprimos ou não os Mandamentos de Deus, e os desígnios d’Ele a nosso respeito.

Ainda há alguns anos, a Igreja inteira celebrou a glorificação de mais uma heroína da Fé: Santa Ana Maria Taigi. Quem foi ela? Uma distinta senhora, conceituada na sociedade em que viveu, generosa nas esmolas que distribuía? Não. Foi uma cozinheira, uma modesta doméstica no palácio dos príncipes Colona de Roma, no século XIX. Desempenhou de modo perfeito as suas humildes funções, trabalhou incentivada por um ardente amor a Deus, e teve uma vida semeada de dificuldades e sofrimentos pois ninguém vai para o Céu sem padecer santamente suportados. Carregou de modo admirável a sua cruz, tornou-se santa e hoje está na bem-aventurança eterna. Uma simples cozinheira, diante de cuja alma, se lhes fosse dado contemplá-la, se poriam de joelhos os maiores potentados da terra…

Tal é o valor e tais são os frutos de nossa correspondência à graça divina.

O excelso papel de Nossa Senhora das Graças

E aqui se faz notória a gloriosa prerrogativa de Nossa Senhora que hoje recordamos.

Como acima entendida, a graça é um imensíssimo favor de Deus que nos é outorgado a todos, desde o momento do batismo, e que não nos é negado ao longo de nossa existência inteira. Até o derradeiro instante do homem, na hora de ele exalar seu último suspiro, a graça o acompanha, o convida, chama e atrai. Mesmo no fundo dos piores pecados, ainda lhe é dado ouvir o solícito apelo da graça, incitando-o à conversão.

Ora, a recepção desse grandíssimo favor e nossa correspondência a ele, não nos é possível sem que nos venha pelas maternais e misericordiosas mãos de Maria.

Ela é a Mãe da Divina Graça, porque Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, fonte, princípio e autor de toda graça. Além disso, por disposição da Providência, Ela é também a dispensadora dos dons e favores celestiais, cuja totalidade constitui inexaurível tesouro que Deus confiou à gerência d’Ela. Nossa Senhora é, portanto, a tesoureira das riquezas divinas.

Esse magnífico predicado mariano nos faz desfrutar, junto a Deus, de uma privilegiada posição. Pois temos a interceder por nós, continuamente, aos pés d’Ele Aquela que detém a chave de todas as graças, Aquela que é a onipotência suplicante e sempre nos obtém aquilo que, por nossos próprios méritos, jamais alcançaríamos. O valor de Nossa Senhora é tal que todas as nossas orações feitas por meio d’Ela são atendidas, de modo particular as preces e os pedidos que se referem à nossa santificação.

Por outro lado, Ela é especialmente Mãe dos que necessitam das preciosas dádivas do Céu. Mãe dos que pugnam sob o estandarte da fé, Mãe dos que se debatem contra as tentações, Mãe dos miseráveis, Mãe dos pecadores, Mãe dos desamparados, Mãe daqueles que quase perderam a esperança da salvação eterna e para todos, sem exceção, obtém Ela o poderoso auxílio dos dons de Deus.

Essa é Nossa Senhora das Graças, essa é a Mãe da Divina Graça, que tem para com cada um de seus filhos solicitudes e bondades inimagináveis!         

 

Plinio Corrêa de Oliveira – Revista Dr Plinio 32 (Novembro de 2000)