junho – Imaculado Coração de Maria – lições de santidade

Lições de santidade

Refletindo a respeito de uma piedosa invocação da Ladainha do Imaculado Coração de Maria, Dr. Plinio não se prende aos esquemas devotos tradicionais, mas tira conclusões inesperadas a respeito do materialismo que pode nos escravizar…

Como em geral acontece com as ladainhas compostas ao longo dos tempos pela piedade católica, as jaculatórias da Ladainha do Imaculado Coração de Maria sugerem, cada uma, desdobramentos e considerações que muito enriquecem nossa vida espiritual e nossa devoção à Santíssima Virgem.

Procuremos analisar, por exemplo, a invocação “Cor Mariae, in quo Jesus sibi bene complacuit”, que em português poderíamos traduzir assim: Coração de Maria, no qual o Coração de Jesus bem se compraz.

Plenitude de satisfação

Devemos começar por observar que este “bem” salienta a ideia do inteiro e perfeito comprazimento de que nos fala a jaculatória. Ou seja, o Coração de Maria possui uma tal excelência que, tanto quanto é possível à natureza criada, nada lhe falta, e por isso nele Nosso Senhor encontra uma satisfação completa, que não conhece névoa, que não tem limites nem máculas. Excetuando o fato de que o contentamento infinito de Jesus é e só pode ser com o próprio Deus, em tudo o mais Ele acha total alegria no coração e na pessoa de sua Mãe Santíssima.

Quer dizer, Nosso Senhor fita a Santíssima Virgem, olha-A, e ao vê-La, ao contemplá-La, ao analisá-La, experimenta o maior dos prazeres, um deleite indizível, que sobrepuja todas as outras delícias que Lhe proporciona a consideração de suas demais criaturas.

Não poderia ser diferente, em se tratando d’Aquela que foi escolhida, desde toda a eternidade, para engendrar em suas entranhas virginais o Filho e Deus; d’Aquela, portanto, em que tudo haveria de ser absolutamente puro e perfeitamente magnífico. Em todos os momentos de sua vida terrena, Ela não deixou de crescer em santidade, de um modo inimaginável. Cada graça que Deus lhe concedeu para se adiantar na virtude era correspondida com tal excelência que todo o progresso feito por Ela é insondável para a mente humana.

Assim, em todos os instantes da existência de Nossa Senhora neste mundo, Jesus teve com Ela um contentamento completo.

Mesmo nas ocasiões mais difíceis como, por exemplo, quando Ela se viu chamada a consentir na morte de seu Divino Filho, e através de uma anuência inteira, heroica, da qual não sobrasse nenhum resíduo, mesmo em situações como essa o procedimento de Maria foi perfeito, no sentido mais exato da palavra. Porque Ela era, enquanto mera criatura, absolutamente exímia. E, como reza a Ladainha, Nosso Senhor encontrou n’Ela a sua complacência.

Uma lição da sabedoria divina

Do fato desse comprazimento podemos tirar uma bela lição que Deus dá aos homens.

Com efeito, criou Ele magnificências materiais extraordinárias. Quantos mistérios haverá por todas as galáxias do universo? E quando nos detemos na análise dos micro organismos, dos seres pequenos, quantas novidades imensas se descobrem ao nosso maravilhamento! Todo esse fabuloso conjunto, incluindo os homens e os Anjos, constitui para Deus o objeto de uma eterna contemplação.

Ora, tendo Ele tanto a apreciar, todavia coloca acima de tudo, como fonte do supremo gáudio que pode tirar de suas criaturas, a consideração de Nossa Senhora. Ela que, enquanto ser criado, não é o mais alto pois na ordem da natureza o homem vem abaixo do espírito angélico -, porém, do ponto de vista graça, virtude e santidade, não só está acima de todos os Anjos, como é deles Rainha. É essa incomparável santidade, portanto, que Deus se compraz em considerar, e em auferir dela uma especial e completa felicidade.

Qual a lição que daí devemos colher?

É um ensinamento que combate o nosso fundamental materialismo. Infelizmente, a grande maioria dos homens está imbuída da ideia de que o verdadeiro prazer nesta vida consiste na posse de bens materiais, de qualquer natureza que seja: dinheiro, saúde e uma série de outras coisas que estão fora das vias da verdadeira felicidade do homem nesta terra.

Com efeito, sem engano podemos dizer que, nesta vida, encontra a felicidade autêntica quem é capaz de seguir o exemplo de Deus e fazer a sua alegria da consideração das outras almas e da virtude que nelas exista. O homem que passa pelo mundo procurando a virtude e a santidade para admirá-las, amá-las e servi-las, onde ele as encontra, aí se detém e põe seu prazer e seu júbilo. De maneira tal que ele tenha mais satisfação em estar numa choupana ou num leprosário conversando com um verdadeiro santo, do que no local mais magnífico em meio a pecadores.

Por quê? Porque o santo representa um particular reflexo, uma transparente manifestação de Deus. A alma de um santo possui uma perfeição que nenhuma beleza criada tem, e, por causa disso, aquele que sabe procurar os verdadeiros valores da vida, vai atrás da santidade, da perfeição moral dos seus semelhantes.

E quando a encontra, ele dá graças a Deus, eleva sua alma a Nossa Senhora e agradece também a Ela, porque é pelo seu maternal auxílio e intercessão que aquela santidade existe numa alma, e foi por meio d’Ela que ele, homem humilde e admirativo, teve a alegria e a honra de encontrar essa alma virtuosa. Ele teve a glória de experimentar um antegozo do céu, que é o conhecer, nesta vida, um verdadeiro santo.

Sigamos o exemplo de Nosso Senhor

Tratemos, então, de imitar a Deus, que se compraz na alma perfeitíssima de Maria.

Devemos procurar, em nossa existência terrena, as almas honestas, conhecê-las, amá-las e saber discernir nelas o esplendor do bem. Devemos nos alegrar com essa bondade, até mesmo comparando-a e contrastando-a com o que há de mal em torno dela. Devemos ter genuíno comprazimento ao ver que Nosso Senhor recompensa a virtude dessas almas que Lhe são tão diletas, assim como importa que compreendamos e aceitemos a reprovação que Ele, em sua infinita justiça, reserva à maldade impenitente. É o Deus três vezes santo, absolutamente puro e superior, que condena o que é errado, porque não é conforme a Ele.

Quantos ensinamentos a se tirar de apenas uma das mencionadas invocações! Essa é a beleza inexcedível de tudo o que é de Deus, é a insondável formosura de Nossa Senhora, é o maravilhoso tesouro dos princípios da doutrina católica!

Embora muito houvesse ainda por se aprender com as preciosas verdades contidas nessa jaculatória, creio não poder deixar de ressaltar o seguinte e importante aspecto: o enlevo de Jesus em relação à sua Mãe Santíssima, infinitamente inferior a Ele e por Ele amada com amor inexprimível, mostra-nos bem como devemos procurar ver a santidade até naqueles que são inferiores a nós. Amar essa perfeição, enlevar-se com ela, é, mais uma vez, imitar o exemplo de Deus olhando para Nossa Senhora.

E no fim dessas breves considerações, só nos resta elevarmos uma prece filial e confiante ao objeto da inteira complacência de Jesus:

“Ó Coração Imaculado de Maria, fazei o meu coração sem mancha, cheio de fé, de força, de heroísmo e santidade, como o vosso!”

junho – Sagrado Coração de Jesus – Uma vida inteira consagrada ao serviço de Deus, de Maria Santíssima e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Uma vida inteira consagrada ao serviço de Deus, de Maria Santíssima e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Há 25 anos entrava na eternidade um varão de Deus!

A TFP vem manifestar toda a sua gratidão a Deus, pela mediação da Santíssima Virgem, por ter feito surgir esta obra pela iniciativa providencial e bendita de Plinio Corrêa de Oliveira.

Por ter sido um Fundador, a dimensão de sua pessoa, de suas ideias, de sua atuação alcança um patamar que não se restringe aos dias de sua vida terrena.

E ele foi um autêntico Fundador e inspirador de uma grande família de almas, que deu origem a diversas correntes de opinião, associações e iniciativas de índole civil e religiosa pelo mundo afora.

Até hoje, passados 25 anos de sua entrada na eternidade, seu nome é uma verdadeira bandeira, um divisor de águas, porque “o fundador encontra-se na situação de ter que ir contra a corrente e ser sinal de contradição”, explica o Pe. Fabio Ciardi . E continua: “Denuncia frequentemente com a palavra uma determinada situação eclesial, como ocorre com o profeta do Antigo Testamento; mais ainda, é ele mesmo, feito palavra viva, que se converte em denúncia com sua própria vida e ação, atraindo o ódio e a perseguição dos que se sentem ameaçados no seu cômodo viver”. (F. CIARDI, Los fundadores, hombres del Espíritu, pp. 274-275)

Muito combatido e também elogiado em vida, a figura de Dr. Plinio vai se tornando com o correr dos anos mais compreendida por uma parcela crescente da opinião pública, inclusive porque muitas de suas previsões e análises – inverossímeis para tantos na ocasião de sua formulação – vão sendo confirmadas pelos fatos.

Nesse sentido, comenta um autor: “Ao aproximarmo-nos [dos fundadores] deparamo-nos com algo que não entendemos; e, inclusive, quando imaginamos conhecê-los bem, cada vez que refletimos sobre eles, descobrimos algo novo. Como explicar este mistério, esta riqueza inesgotável? Simplesmente pelo fato de que, ao encontrarmo-nos com um Fundador, nos achamos diante do mistério de Deus: no Fundador, e através dele, é o próprio Deus que atua”. (Il Carisma dei fondatori, Roma, 1974,p.11. Apud, Antonio Romano, Los Fundadores, Profetas de la Historia, pp. 63-64)

E no caso de Dr. Plinio, tendo em vista a sua vocação de fazer face à Revolução – movimento multissecular, que abrange todo o agir humano para levar a sociedade civil e a Santa Igreja a uma situação oposta à desejada por Deus –, o seu olhar abarcava, a bem dizer, todos os horizontes possíveis, conforme ele mesmo definiu a sua luz primordial:

“Uma visão arquitetônica e harmônica, monárquica e aristocrática de todo o universo material e espiritual criados, desde um grão de areia até o mais alto Anjo, ressaltados os pontos que a Revolução procura combater”.

Os Fundadores podem ser analisados e examinados sob muitos aspectos, mas só há uma maneira de compreender a fundo a sua pessoa: amando-a!

Foi, com efeito, o amor à Santa Igreja a característica da longa e heroica existência de Dr. Plinio, a ponto de ele se emocionar ao ouvir a referência à sua catolicidade.

Conforme seu desejo, sobre os seus restos mortais figura o significativo epitáfio:

Vir catholicus, et apostolicus, plene romanus 

Varão católico, apostólico, plenamente romano.

No momento em que se completa um quarto de século de seu encontro com Deus, a TFP quer celebrar esta data adaptando e aplicando a seu Fundador as palavras que um dia ele escreveu no jornal Legionário:

Plinio não dobrou nunca e nem sequer um só joelho diante da Revolução.

Plinio sempre teve a Lei de Deus escrita no bronze de sua alma. E não permitiu que as doutrinas deste século gravassem seus erros sobre esse bronze, que sagrado a Redenção tornou.

Plinio Corrêa de Oliveira amou, como o mais precioso dos tesouros, a imaculada pureza da ortodoxia e recusou qualquer pacto com a heresia, suas obras e infiltrações.

Na tormenta, na aparente desordem, na aparente aflição, na quebra aparente de tudo aquilo que para ele seria a vitória, Plinio é aquele que confiou, que jamais duvidou, mesmo quando o mal parecia ter vencido para sempre.

Plinio é o filho, o heroi e o paladino da confiança! Quanto mais os acontecimentos pareciam desmentir a voz da graça que lhe dizia — “vencerás” —, tanto mais ele acreditou na vitória de Maria!

Unida a ele, portanto, a TFP ecoa esta sua verdadeira proclamação de Fé:

 

“Estou certo de que os princípios a que consagrei minha vida são hoje mais atuais do que nunca e apontam o caminho que o mundo seguirá nos próximos séculos.

Os céticos poderão sorrir. Mas o sorriso dos céticos jamais conseguiu deter a marcha vitoriosa dos que têm Fé.” 

(conclusão do Auto-retrato Filosófico)

junho – Sagrado Coração de Jesus – Variedades do modo de ser de Nosso Senhor

Variedades do modo de ser de Nosso Senhor

Em menino, Dr. Plinio analisava atentamente uma imagem de Nosso Senhor que havia no quarto de Dona Lucilia, bem como as existentes na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Contemplando-as ele foi discernindo a mentalidade do Divino Salvador, discernimento que depois seria confirmado ao conhecer os episódios narrados nos Evangelhos.

 

Percebe-se que os Apóstolos e todas aquelas pessoas que tinham o convívio com Nosso Senhor — exceto naturalmente Nossa Senhora — não O haviam entendido bem. Parece que com o curso do tempo, depois de equívocos primeiros, eles acabaram pelo menos não formando ideias erradas a respeito d’Ele, mas vê-se que eles não tinham formado uma ideia inteira a respeito de Jesus, exatamente como era a Pessoa d’Ele. E isso era de uma importância transcendental para eles amarem a Nosso Senhor como deviam ter amado.

Amar e compreender

Quer dizer, se eles tivessem amado como deviam, teriam compreendido como podiam; se tivessem compreendido como podiam, teriam amado como deviam.

Assim é o jogo entre o amor e a compreensão. E eles não tiveram esse amor assim. O resultado é que custou para reconhecerem a Nosso Senhor como Deus.

Consideremos que n’Ele há duas naturezas — a humana e a divina —, unidas na Pessoa do Verbo. Portanto, não existem duas pessoas, mas uma única Pessoa divina. Há, pois, n’Ele uma verdadeira alma e um verdadeiro corpo ligados entre si como em todos os seres humanos, mas essa alma e esse corpo estão unidos hipostaticamente à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Por isso, cada vez que Ele falava, era o Verbo de Deus Quem falava. Cada vez que Ele olhava, era o Verbo de Deus Quem olhava. Cada vez que Ele fazia qualquer gesto, era o reflexo mais perfeito que se possa imaginar da natureza divina na humana.

Portanto, manifestava uma santidade, uma perfeição, uma superioridade, da qual nós não podemos ter uma ideia, nem sequer remota, se não nos ajudar a graça de Deus. Se fizéssemos uma ideia tão exata quanto podemos e devemos de como foi Ele, então teríamos começado a amá-Lo como precisamos amar.

Fisionomia e ação de presença de Nosso Senhor

A voz, os olhares, os gestos d’Ele… Que espelho da Santíssima Trindade! Nós precisamos reconstituir um pouco disso para O amarmos como Ele merece ser amado, e não haver o equívoco de O amarmos como Ele não foi, com todo o perigo que isso traz consigo.

Esse é um trabalho muito delicado que, se não fosse a ajuda da graça, não se faria na alma de nenhum homem. Porque, primeiro, é muito mais alto do que a cogitação de qualquer homem. Em segundo lugar, seria preciso utilizar dados muito imponderáveis; ser um psicólogo do outro mundo para recompor.

Por exemplo, no que diz respeito à fisionomia de Nosso Senhor, um dia em que sentimos certo tipo de consolação sensível ao estar perto do Santíssimo Sacramento, isso produz um determinado efeito que nos deve levar a pensar sobre como era a fisionomia de Quem está causando sobre nós esse efeito. E como era, portanto, o divino rosto d’Ele e — coisa altamente própria ao Santíssimo Sacramento — sua ação de presença.

Então, devemos procurar analisar e entender o que Ele está comunicando. E, tomando os episódios do Evangelho, imaginando-O exercendo sobre nós — se presenciássemos um deles — um efeito daqueles relacionados com o fato, compreenderíamos um tanto o que foi o trato com Nosso Senhor.

Relacionando a fisionomia d’Ele com episódios de sua vida

Tenho a impressão de que, com o Batismo e as primeiras impressões religiosas, nos é dada uma certa primeira noção d’Ele, que vai se formando e aprimorando dentro de nós. Por exemplo, posso me lembrar de como isso foi se constituindo aos poucos na minha própria alma.

Graças a Deus, eu tomei como ponto de partida que a fisionomia apresentada habitualmente pelas imagens de Nosso Senhor era fiel, e que aquele era o semblante que Ele tivera em sua vida terrena.

Sempre dado a examinar as pessoas pelo rosto, instintivamente eu analisava por longo tempo a fisionomia d’Ele. Sobretudo naquela imagenzinha do Sagrado Coração de Jesus, presente no oratório do quarto de mamãe.

Longamente, atentamente, meditadamente — quanto possa caber numa criança — eu a analisava. E ela condizia com a imagem que há num altar lateral da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, também com a existente no teto dessa igreja, e formava assim uma resultante, uma espécie de figura central, que era o essencial dessas várias imagens, e como eu imaginava mais ou menos a Ele.

Então vinham os episódios da vida de Nosso Senhor, e eu procurava me perguntar se aqueles fatos estavam de acordo com aquilo que imaginava da mentalidade d’Ele. E percebia que não só estavam de acordo, mas que os episódios tomavam um realce extraordinário, imaginando-os praticados por aquele Varão, com aquele rosto e aquela atitude. Aquela fisionomia explicava o episódio, e o episódio explicava a fisionomia. E eu me sentia, portanto, na verdadeira pista de entender como Ele era.

Harmonia extraordinária entre as virtudes opostas

Depois, eu procurava também ver o reflexo disso na Igreja. Dado que Nosso Senhor tinha tal fisionomia e, portanto, devia ter tal personalidade, se Ele precisasse fazer uma obra como a Igreja, tê-la-ia feito como ela é? E chegava à conclusão que sim, que era inteiramente o que Ele devia fazer.

De onde, então, uma confirmação da Fé originária que, pela bondade de Nossa Senhora, recebi no Batismo.

Como O imagino?

Antes de tudo, contemplar a Humanidade santíssima de Nosso Senhor causa-me a impressão de cogitações enormemente superiores a tudo que se possa imaginar. Pensamentos de uma elevação, de uma altura, sem proporção com nada. Entretanto, sem podermos chegar nem de longe até onde Ele atingia, alguma luz desses pensamentos brilhavam em Jesus, e como que se via sua Alma inundada dessas luzes das quais Ele estava cheio.

Seria mais ou menos como um homem que não pode entrar numa catedral à noite, mas nota pelo lado de fora que as luzes estão acesas dentro. Ele vê, portanto, a coloração dos vitrais iluminados; aproxima-se e ouve a música; avizinha-se ainda mais, o perfume do incenso chega ao seu olfato. Ele se encanta com a catedral, onde não entrou. Os sinais da catedral o fazem perceber algo da sua beleza.

Assim se passava comigo em relação a Nosso Senhor. Percebia qualquer coisa de uma elevação prodigiosa, mas desde o primeiro momento, desde o ponto mais profundo onde eu O poderia compreender, com essa característica de uma fusão harmoniosa, em nível indizivelmente alto, das virtudes mais opostas, formando uma harmonia extraordinária.

De maneira que, por exemplo, uma força incomparável, mas de uma bondade incomparável também. Uma severidade inquebrantável, mas ao mesmo tempo um perdão de uma doçura sem fim. Um poder incomparável de tranquilizar, mas, de outro lado, também de mover para a luta e para a batalha. Uma superioridade divina, porém ao mesmo tempo uma possibilidade de descer, já não digo à última pessoa, mas a um cachorrinho, e fazer-lhe um benefício qualquer. Estou certo de que, se um cachorrinho se aproximasse de Nosso Senhor, Ele se alegraria com isso.

Seu sono e seus silêncios

Isso tudo indica a superioridade maravilhosa d’Ele, mas também sua imensidade, para que virtudes tão opostas, levadas a um grau tão alto, possam caber em Jesus com tanta harmonia, na qual estaria exatamente o que melhor o meu olhar pudesse pegar na sua natureza humana, como transparência da Divindade, da graça n’Ele.

E por isso, muita gravidade, uma seriedade enorme! Impossível é não só vê-Lo dizer algo que não seja muito elevado, mas falar algo atrás do qual não haja uma elevação infinita, uma coisa infinitamente perfeita.

Realmente, se tomarmos no Evangelho tudo quanto Nosso Senhor disse, já nas primeiras palavras adquire um tamanho que não se sabe o que pensar!

E mesmo quando Ele dormia, seu sono era um arqui-sono, de uma perfeição, um equilíbrio, uma doçura, uma força, um poder de manifestação, uma santidade tal que se uma pessoa, que entendesse Quem e como Ele era, pudesse apenas passar uma noite inteira vendo-O dormir, consideraria essa noite como a mais feliz de sua vida.

Os silêncios d’Ele! Há silêncios que cantam, outros feitos para a poesia, outros ainda para a prosa, para dizer, com afabilidade e intimidade, determinadas coisas que só o silêncio fala.

Por exemplo, o Santo Sudário tem um silêncio eminentemente eloquente. Jesus está ali morto e nada n’Ele pressagia uma palavra. Entretanto, o que Ele diz sem falar é uma enormidade!

Nosso Senhor, independentemente de falar, tinha uma imensidade de coisas dessas que explica porque os discípulos ficavam tão intrigados sobre Quem era Ele.

Construir uma catedral para abrigar uma varinha utilizada por Ele

Suponhamos que nesse silêncio Ele faça as coisas mais simples: colhe uma florzinha e a contempla, ou com uma varinha que tenha na mão risca um pouco o chão. Tem-se vontade de dizer:

— Não mexam nesse riscado, porque Ele riscou!

Alguém retrucará:

— Isso não quer dizer nada!

— Não mexam! As mãos de Nosso Senhor tocaram aqui e ficou alguma coisa que é sacrossanta, na qual não se deve mexer. Se você não entende vá embora, mas isto não sai daqui, ficará para sempre! Voltarei aqui todos os dias e me ajoelharei diante disto, e só não vou oscular o chão para não estragar o desenho que Ele fez.

Para abrigar aquela varinha mandaríamos construir uma catedral! Entretanto essas coisas são apenas símbolos de uma realidade muito superior: o chão riscado por Ele representa a alma de cada um de nós, e a varinha, nosso livre-arbítrio que Ele tentou inclinar de um lado para o outro.

Tenho a impressão de que a tintura-mãe do pensamento de Nosso Senhor era uma síntese harmônica, mas também frequentemente contrastante, entre o que Ele é, o que estava fazendo e aqueles para quem Ele estava agindo. Quer dizer, Jesus conhecia a imensidade de dons prodigalizados por Ele, via a indiferença com que esses dons eram recebidos, por vulgaridade de espírito, falta de senso metafísico, de senso sobrenatural, em uma palavra, falta de amor das pessoas beneficiadas. Contudo, Ele não se afastava daquelas almas, continuava a perceber o que tinham de bom e procurava ainda elevá-las, mas pensava a fundo sobre essa ingratidão e Se entristecia.

Ele, olhando para cada um de nós, conhece inteiramente como somos. Com o olhar Ele saberia tratar a cada indivíduo, de tal maneira que, conforme Ele quisesse, a pessoa se sentiria vista até o fundo da alma nos lados ruins, ou nos lados bons. Naqueles, com uma rejeição por onde o indivíduo teria vontade de fugir do seu próprio pecado; nestes, com uma atração tal que a pessoa teria vontade de multiplicar por cem quintilhões a sua virtude, logo de saída!

Mas, por uma bondosa condescendência para com os homens, Nosso Senhor não olharia inteiramente de um jeito nem de outro, a não ser nas situações excepcionais, para as pessoas poderem viver ao lado d’Ele.

Os episódios da vida d’Ele são todos maravilhosos. Mas não me impressiona tanto este ou aquele fato, quanto as variedades do modo de ser pessoal d’Ele, enquanto andava de um lado para outro.

Jesus chora pela morte de Lázaro e depois o ressuscita

Sempre me impressionou a cena diante do sepulcro de Lázaro. Primeiro, a bondade com a qual Jesus chora junto ao sepulcro, porque Lázaro morreu. E depois, como que não podendo conter a sua própria dor, brada: “Lázaro, vem para fora!”, com um brado que eu imagino majestoso e fendendo a sepultura! E a vida volta em Lázaro. É uma coisa majestosa!

Imaginá-Lo recebendo a censura de Maria Madalena: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”.(1) É, portanto, uma censura. Parecia estar insinuando que, pela relação de amizade existente entre os dois, Ele tinha obrigação de ter salvado Lázaro da morte. E, naquele momento, talvez Ele tivesse parecido a Maria Madalena ligeiramente tisnado de culpa.

E como Jesus se portou nessa ocasião em que Ele não lhe deu nenhuma justificação? Foi para a sepultura, e quase pareceu justificar a censura, chorando. Então, por que deixou morrer? Por que não veio mais cedo? Ela disse que Ele poderia tê-lo salvo! Ele chora a morte que poderia ter evitado? Que pranto é este?!

Nosso Senhor deu algo melhor do que salvá-lo da morte: foi tirá-lo da morte! Ele fez Lázaro ressuscitar! Não há o que dizer…

Podemos imaginá-Lo vendo Maria Madalena, com certeza prostrada diante d’Ele, chorando com emoção dulcíssima, e Ele atendê-la como quem diz: “Minha filha, Eu te perdoo. Tu deverias ter compreendido que Eu não tenho falta! Mas dei-te um dom que não esperavas.”

Depois, sabendo que a partir daquele milagre os fariseus tomariam a deliberação de matá-Lo, passar perto deles e fitá-los… Que olhar!

Pensemos na sucessão de atitudes de Jesus, por exemplo, indo a Betânia descansar. Pode-se imaginar alguém mais adorável do que Ele, repousando no convívio afável com Marta, Maria, Lázaro e os Apóstolos? Ou com Nossa Senhora, certamente na vida cotidiana, ou na residência de Lázaro, recebendo as honras, conversando na intimidade, etc.?

Como Nosso Senhor Se sentiria consolado de tanta infâmia, ao ver o que havia de maravilhoso naquelas almas que Ele estava formando na virtude! É uma coisa maravilhosa!

Tudo isso junto, as várias atitudes d’Ele se sucedendo, sobretudo no momento de passar de uma posição para outra, me deixam especialmente encantado.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 6/9/1984 e 11/7/1991)

 

1) Jo 11, 32.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Sagrado Coração de Jesus:: Desejo de admirar e contempla

Sagrado Coração de Jesus:: Desejo de admirar e contempla

Revelando aspectos íntimos de seu relacionamento com o Sagrado Coração de Jesus e com Maria Santíssima, Dr. Plinio manifesta o caráter anti-igualitário dessas devoções em sua alma e na de sua extremosa mãe.

 

Outro dia veio-me ao espírito a seguinte ideia: Há pessoas que, ao rezarem, têm toda a impressão de que estão falando com um Santo, ou com Nossa Senhora, ou com Nosso Senhor Jesus Cristo, e que eles estão ouvindo e considerando, como um de nós, o que dizem. Outras têm a impressão de que há um vidro entre elas e os Santos, e que não se podem pôr propriamente na presença deles.

Profunda humildade ao rezar a Nossa Senhora

Comigo dá-se uma coisa curiosa: sinto uma superioridade muito grande dos seres celestes. E com Nossa Senhora nem se fale! Eu A sinto como no alto de uma ogiva a uma distância colossal de mim, e que assim mesmo existe certo atrevimento de minha parte em me aproximar. Aquilo que São Luís Maria Grignion diz, “petit vermisseau et misérable pécheur”(1), é bem a impressão que eu tenho.

Estou certo de que Ela me ouve, mas numa impassibilidade de ícone, e aquilo que eu digo chega lá por um eco amortecido, fraco, distante. Maria Santíssima toma conhecimento completo, mas da parte d’Ela não procede nada para mim porque não sou digno disso. É a impressão. Eu sei, teologicamente, que não é assim, e rezo com a certeza de que não é, mas a impressão é esta.

Numa ou noutra rara ocasião tenho a sensação de que Nossa Senhora, daquela distância, sorri com uma afabilidade muito grande. Mas não sei bem se sou eu que subo ou Ela que baixa. Mas sinto que a distância diminui e é como se eu falasse muito de perto com Ela. Mas é de relance. Depois restabelece aquela distância…

Não é uma distância in oblíquo, mas como se houvesse um vidro grossíssimo entre a Santíssima Virgem e eu.

Contudo, gosto muito dessa distância, porque satisfaz o meu desejo de admirar e contemplar.

Alegria em sentir-se insignificante

A tendência de minha piedade é de imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus, Nossa Senhora, todos os Anjos e Santos enormes, com distância extraordinária, por assim dizer fabulosa. E, sentindo-me muito pequeno, de algum modo nessa separação sinto uma união. É o prazer de me sentir insignificante. Aquilo me enche de contentamento, de uma alegria, de uma dedicação, de espírito filial que corresponde a um modo de ser.

Sei, teologicamente, que não há essa distância. Ela é Mãe de misericórdia, e se eu tivesse uma dúvida neste ponto, me desintegrava na hora; então nada é nada na terra de ninguém. Mas, enfim, é o modo de ser de cada um.

Por exemplo, confiança. Quando eu falo da confiança, e até de senti-la, é como se partisse daquele alto nicho um verão suave, perfumado, mas a distância continua a mesma.

Isso pode ser visto de modos diferentes, mas creio que para mim, provavelmente, é uma via.

Tudo o que estou dizendo é muito natural, não tem nada de extraordinário, é comum. Mas outro dia eu estava rezando o Rosário e isso sobreveio assim: pela primeira vez ocorreu-me rezar os mistérios do Rosário como quem estivesse junto a Nossa Senhora, comentando com Ela o que eu pensava de cada um daqueles fatos que se passaram. E um pouco como quem pergunta o que Ela teria sentido naquela ocasião. Mas achei que essa era uma situação diferente das habituais. Rezei até muito bem o Rosário assim.

Digo isso para mostrar como é uma coisa individual, que não deve ser tomada como padrão.

Desde então tenho rezado o Rosário assim, com proveito. Neste caso, vem certa impressão de proximidade d’Ela, fazendo contraste com o que acabo de dizer.

A vida consiste em cumprir os desígnios de Deus

Um corolário saudável disso é a ideia preconcebida e preestabelecida de que Deus, Nossa Senhora têm o direito de nos tratar — se pudéssemos nos exprimir assim, sem blasfêmia — do modo mais “despótico” que se possa imaginar, permitindo que nos aconteçam as coisas aparentemente mais irracionais, mais arbitrárias e mais pungentes. Isso é inteiramente natural, porque corresponde a essa desproporção. Portanto, não temos que reclamar, nem estranhar, nem alegar direitos, nem nada disso.

Um aspecto que me impressionava em mamãe era notar como se davam os acontecimentos mais imprevistos e, debaixo de certo ponto de vista, mais ilógicos, e ela os tomava como se fossem a coisa mais natural do mundo.

Mamãe não tinha direitos a alegar perante Deus. Ele era Senhor dela, como de todas as criaturas, podendo fazer o que bem entendesse. Ela sabia que isso correspondia a desígnios de misericórdia d’Ele. Mas existe aquele mistério: Nosso Senhor Jesus Cristo pediu para se afastar o cálice d’Ele “se possível”. Ora, para Deus tudo é possível! É um mistério, porque Deus quis que o holocausto fosse até lá. E da parte do Divino Redentor, a plena submissão, como quem dissesse: “Diante de vossos desígnios absolutos, de vossos direitos, de vossa sabedoria Eu Me dobro. Dai-Me apenas forças”. Isso eu notava em Dona Lucilia muitíssimo.

Ela rezava com muito afeto, e sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora, era muito impregnada de ternura. Mas ela rezava com muito empenho quando queria obter as coisas. Entretanto se não as obtivesse, era com uma naturalidade, uma paz de alma, a maior do mundo!

Naquela fotografia em que mamãe tem aproximadamente 50 anos de idade, ela está cheia disso. Encontra-se na voragem da dor, mas não pergunta a Deus por quê. É assim e deve ser assim. Há um desígnio de Deus e a vida consiste em cumprir os desígnios de Deus. E, portanto, se é assim não se discute. O que é uma posição fundamentalmente anti-igualitária.

Estado de espírito de Dona Lucilia em relação a Deus

Mas eu tenho visto gente que é protuberantemente o contrário disso, e em quem percebo laivos de atitudes deste gênero: “Eu peço a Deus, mas Ele, lá nas coisas d’Ele, a mim não atende. Atende a todo mundo, mas não a mim. Ele comigo faz o contrário do que eu queria que acontecesse”.

Não era esse, absolutamente, o estado de espírito de Dona Lucilia. Esse estado de espírito de um terceiro em relação a Deus, que cobra, invectiva, alega direitos, não está naquela fotografia, em nada!

Mais ainda: no fundo, essa paz que vemos no Quadrinho(2), sob o qual se poderia escrever a frase: “Ite vita est”, é como quem diz: “Eu fiz a vontade d’Ele até o último elemento, bebi todo o cálice de fel, até a última gota. Mas está bebido, e agora chegou minha hora de ajudar os outros”.

Sem dúvida, uma das coisas mais tocantes para mim naquela fotografia, em que mamãe tem cerca de 50 anos, é essa resignação dela no meio da dor. Vê-se que ela não entende e há qualquer coisa de uma pergunta ansiosa: “Como será, por que será?”, mas sem o menor laivo de revolta, de inconformidade, nem nada. É como alguém que adora o mistério do sofrimento que está tendo.

Isso partia de uma ideia altíssima que mamãe tinha de Deus.

Aliás, uma coisa curiosa: ela nos ensinou o Pai-Nosso de um modo um pouquinho diferente da fórmula corrente. Não sei se no tempo dela se tinha introduzido, talvez no hábito brasileiro ou pelo menos de Pirassununga, um acréscimo que era: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor…” Este “Senhor” não está na oração dominical. Durante algum tempo eu rezei o Pai-Nosso assim. Depois, por conformidade com a Igreja, suprimi o “Senhor”. Mas a minha alma se regozijava de poder dizer este “Senhor”. O “Senhor” calha ali com uma precisão, no ritmo da oração, muito bem. Suprimi, porque a Igreja ensina de um modo diferente. Quando mamãe rezava alto, conosco, nas Sextas-feiras Santas, não saía o “Senhor”. Eu acho que ela, em certo momento, se deu conta também e suprimiu.

Mas era a ideia do “Dominus” cheio de bondade, de misericórdia, de carinho, que estava no espírito dela. Ela tinha muito isso, mas muito!

Doçura dentro na majestade

No tocante ao meu relacionamento com Nosso Senhor, com Nossa Senhora, eu sempre tive e continuo a ter aquela certeza, que a graça de Genazzano(3) corroborou, de ser atendido diante de problemas que envolvem a Causa Católica. Por exemplo, quando recebi a graça de Genazzano, eu me lembro perfeitamente da impressão que tive de Nossa Senhora tomando aquela atitude, fazendo-me entender o que Ela quis que eu compreendesse. Ali sim, não tenho dúvida nenhuma de que foi uma graça, uma promessa.

Depois me contaram que o provincial dos agostinianos do Santuário, a quem haviam narrado o fato, disse que esse tipo de graça era característico da Mãe do Bom Conselho de Genazzano. Para mim, não tem dúvida nenhuma: Nossa Senhora me concedeu essa graça.

Lembro-me de que o quadro d’Ela como que se animou. Não tive nem um pouco a impressão de que Ela estivesse falando comigo. Mas o quadro como que adquiriu uma vida dulcíssima, revelando um interior d’Ela, mas com uma suavidade inexprimível. Porém, conservando sempre essa superioridade. De maneira que era um sorriso materno dentro do esplendor e da majestade.

Segundo meu modo de ser, essa doçura que se manifesta dentro da majestade é mais doce do que fora da majestade.

Naquele hino a Nossa Senhora do qual gosto muito, “Si quæris cœlum, anima, Mariæ nomen invoca…”, há uma estrofe que é assim: “Pelo nome d’Ela fogem as culpas e as trevas, as dores da doença e as úlceras. Aos vencidos se desatam os pés, e para os navegantes as águas se tornam mansas.”

Acho muito bonito! Aliás, toda essa cançãozinha é linda! “Se tu queres o Céu, ó alma, invoca o nome de Maria. Pois aos que invocam Nossa Senhora as portas do Céu se abrem”.

São grupos de quatro estrofes. É como se houvesse asteriscos entre elas:

“Glória a Maria, Filha do Padre e Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Esposa do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos, amém.”

“Pelo nome de Maria os Céus se alegram, os Infernos estremecem. O céu, a terra e os mares, o mundo inteiro se rejubila.”

Tem muita candura.

Por exemplo, estou falando disso, mas não se dissocia de Nossa Senhora no Céu, altíssima, puríssima e, por causa disso, exercendo sobre a Terra essa ação benfazeja, enorme! Não há mares, não há trevas, não há coisas que Ela não domine, em razão de ser tão boa e estar tão alta.

Sensibilidade eucarística diante do Santíssimo Sacramento exposto

Já minhas Comunhões não costumam ser sensíveis. Aliás, tenho, por assim dizer, mais sensibilidade eucarística quando estou diante do Santíssimo Sacramento exposto do que quando comungo.

Em geral, quando estou diante do Santíssimo Sacramento, fico muito, mas muito tocado. A noção da presença d’Ele me comove muito. Mas na Comunhão, paradoxalmente, de um modo habitual, menos sensível. O que predomina é a presença de um Visitante desmedidamente grande, a Quem se trata de pedir. Daí calhar inteiramente, no meu modo de ser, o método de Comunhão sugerido por São Luís Maria Grignion de Montfort: pedir que Nossa Senhora venha à minha alma para recebê-Lo. E Ele encontrando-A como dona desta casa e fazendo-Lhe as honras por mim, tenho então muito comprazimento. Donde dirigir a Ele, por meio d’Ela, os atos de adoração, reparação, ação de graças e petição. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/7/1985)
Revista Dr Plinio 211 (Outubro de 2015)

 

1) Do francês: vermezinho e miserável pecador.

2) Quadro a óleo, que muito agradou a Dr. Plinio, pintado por um de seus discípulos, com base em uma das últimas fotografias de Dona Lucilia. Ver Revista Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

3) Ver Revista Dr. Plinio n. 21, p. 16-23.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Opto pelo Sagrado Coração de Jesus

Opto pelo Sagrado Coração de Jesus

Ainda menino, em suas cogitações a respeito do contraste entre dois mundos e duas mentalidades, Dr. Plinio viu-se diante de uma alternativa, cuja escolha orientaria toda a sua existência. Nossa Senhora o ajudou a fazer a opção certa e a adotar o verdadeiro caminho.

 

Quem me conhece pode ter a impressão de que sou compreensivo e sinto atração apenas pela classe aristocrática, e que não dou importância, não tenho zelo, estima nem desvelo pelas outras classes. Porque quando falo a respeito da classe aristocrática tenho um fogo especial, e isso indica certamente uma preferência; e em vez de uma “opção preferencial pelos pobres”, decorreria daí uma “opção preferencial pelos nobres”.

A vida em torno da Igreja do Coração de Jesus

Para verem o quanto essa impressão não é verdadeira, conto a tentação que para mim chegou a constituir o antigo Largo do Coração de Jesus(1).

Eu tinha entre 10 e 13 anos. A primeira nota que esse Largo apresentava era de muito pouco movimento, porque naquele tempo o automóvel ainda era artigo de luxo e não constituía transporte para qualquer pessoa com um pouquinho de conforto, como é atualmente. Por causa disso, o número de automóveis que transitavam por lá era bem menor do que hoje. Também não havia ônibus, o transporte coletivo era o bonde.

Uma linha de bonde percorria a Rua Barão de Piracicaba, que atravessa o Largo do Coração de Jesus. Os bondes iam e vinham, mas eram também raros, pois a população da cidade era pequena.

Por isso, o Largo era, antes de tudo, muito tranquilo e, eminentemente, habitado por uma pequena burguesia ou um proletariado aburguesado, com uma camada de operários — suponho que filhos de imigrantes — que tinham feito algum dinheirinho e comprado casinhas em torno daquele local.

Toda essa gente formava quase uma vida de aldeia muito aconchegada, em torno da igreja a qual, para a São Paulo daquele tempo, parecia enorme, com aquela torre muito alta que também parecia colossal, cujo carrilhão, ao meio-dia e às seis horas da tarde, tocava a melodia: “Louvando a Maria, o povo fiel, a voz repetia, de São Gabriel: Ave, ave, ave Maria…” Uma canção popular muito simpática e respeitável.

A atenção se voltava, então, para a imagem do Sagrado Coração de Jesus dourada, em cima da torre, com os braços abertos, indicando a receptividade do Coração d’Ele para todo o mundo. Aquele som enchia a praça.

Tinha-se a impressão de cada badalada ser uma nota de cristal que, quebrando-se em mil pequenas bolhas, penetrava em tudo.

Busto de Dom José de Camargo Barros

No centro do Largo há um busto do Bispo Dom José de Camargo Barros, que se tornou célebre por ter participado do naufrágio de um navio de passageiros chamado “Sirius”, vindo da Europa para o Brasil. Ele era um prelado de São Paulo e viajava com um colega de Pindamonhangaba(2), que fora sagrado bispo por São Pio X e nomeado arcebispo de um Estado do Norte do Brasil.

Em certo momento houve o naufrágio, e o número de salva-vidas era insuficiente para os passageiros. Dom José de Camargo Barros ficou com um salva-vidas, mas, não havendo outro para o futuro arcebispo, exigiu que este, absolutamente, aceitasse o seu. Ele o tomou e, com isso, conseguiu sobreviver ao naufrágio. Mas Dom José de Camargo Barros morreu.

Fizeram-lhe, então, no alto de uma coluna, um busto que a meu ver não dá a ideia de seu “martírio”, mas de um bispo muito bem assentado na vida, plácido, olhando o movimento que passa. Mas tinha-se a impressão de que, quando os sons das badaladas desciam sobre a praça e se multiplicavam sob a forma de bolhazinhas de luz e de cristal, Dom José de Camargo Barros, do alto de seu pedestal, dava uma bênção.

Quando anoitecia, às vezes pelas seis horas, a farmácia chamada “Farmácia Coração de Jesus” — o armazém parece que se denominava “Empório Coração de Jesus”, tudo se chamava “Coração de Jesus” ali em volta; eram outros tempos… — tinha, como em geral nas farmácias daquele tempo, uns globos de cristal enormes com matéria corante, vermelha, verde, azul, dourada, e atrás um foco de luz; aquilo formava uma luz ampliada que a mim, assaz colorista, impressionava muito; eu achava interessante ver aqueles focos de luz.

Bênção do Santíssimo Sacramento

Um pouco mais tarde, o sino do Coração de Jesus, que soava todas as horas, começava a dar outro sinal: era a bênção do Santíssimo Sacramento.

Quem estivesse no Largo poderia ver certo número de moradores que, das casas em volta, vinham chegando para a bênção. Formavam propriamente aquilo que se poderia chamar o “beatério”, o conjunto de beatos e beatas que caminhavam muito devagarzinho, conversando uma conversota que nunca acabava e nem se interrompia.

As beatas, senhoras sofridas na vida, com uns “xalezinhos”, uns arranjinhos, de quem tem suas economias… Os beatos, ou era gente que não trabalhava mais e vivia de rendazinhas, ou ainda exercia um trabalhinho metódico, pequenininho, que os esmagava um pouquinho mais a cada dia. Via-se que eles estavam sujeitos a um processo de achatamento, com o tempo iam ficando mais baixinhos, sumidinhos, as roupas mais rapadinhas, mas com a alminha contente e a vidinha arranjada.

Quando chegava a hora marcada, entrava o padre na igreja, expunha o Santíssimo, começava o “Tantum ergo” e por fim dava a bênção, enquanto tocava o sino; era um momento de muito recolhimento, muita piedade e elevação espiritual.

Depois, todos saíam. Tratava-se de um mundo que não era o meu, fechado para mim, mas eu queria saber como era e, por isso, ficava prestando atenção neles.

Sempre me interessou soberanamente a análise, a observação da vida. Saber como é esse, aquele, como vive, como pensa, para onde vai, como se relaciona com aquele, com aquela, com aquilo, como aconteceu tal coisa, como vai acontecer… Isso me atraía a atenção fabulosamente!

Não sei o que pensariam daquele menino curioso. Eu não contava a ninguém em casa, porque julgariam extravagância dedicar-me a essas cogitações sociais.

Eu percebia que, quando os beatos e as beatas entravam, eles eram como descrevi, mas quando deixavam a igreja, saíam com uma dimensão de ­alma muito maior. Certos reservatórios interiores de resignação, de sublimidade, de elevação de espírito, estavam reabastecidos até o dia seguinte.

O Sagrado Coração de Jesus os tinha dessedentado, a rogos de Nossa Senhora Auxiliadora, e eles saíam super-saciados; e se desfaziam na bruma ainda violácea do dia que estava se pondo.

A alta classe rural tradicional de São Paulo

E o menino curioso ia sozinho para casa fazendo reflexões… Eu andava três ou quatro quarteirões e chegava a minha casa, onde encontrava um outro mundo, que não o da pequena burguesia do Largo do Coração de Jesus.

Aos domingos, na Missa das onze horas, o aspecto do público da igreja era inteiramente diferente. As pessoas que, mais ou menos, representavam uma aristocracia local em São Paulo frequentavam essa Missa.

Viam-se chegar os bonitos automóveis, as senhoras de idade madura em bonitas toilettes, muitos dos homens ainda usando fraque e cartola por homenagem a Deus, Senhor de todas as coisas, a Quem eles iam visitar.

Quando eu era bem pequeno, meu pai com frequência ia de fraque à Igreja do Coração de Jesus. Ele dizia que em Pernambuco chamavam o fraque “a roupa de ver a Deus”.

Era um mundo em que aparecia muito do antigo donaire, algo de corte dessa espécie de aristocracia constituída pela alta classe rural tradicional de São Paulo.

Havia uma rua limítrofe que marcava o começo do mundo da antiga aristocracia rural: um mundo europeizado, aberto às ideias novas, com bastante dinheiro, e até luxo, com preocupações de progresso para si mesmo, de conforto, etc.; e com toda a agitação política, mundana, cultural, toda a alegria, todo o tom “hollywoodiano” que caracterizava aquele tempo.

Antipatia pelo jazz e amor ao órgão

O jazz era o grande escândalo sonoro de então. É preciso dizer que antipatizei com o jazz desde o primeiro momento em que o ouvi, assim como amei o órgão desde que tomei consciência de sua existência.

Meu ambiente doméstico era um misto de órgão e de jazz. A tradição, que inegavelmente havia, tocava o órgão. Mas assim como as badaladas desciam no Largo Coração de Jesus, também as cacofonias do jazz cobriam o mundo e entravam também na residência da Rua Barão de Limeira, 77, onde havia espíritos “aggiornati”(3) segundo o jazz, e outros ajustados à tradição, entre os quais Dona Lucilia e eu.

Eu estava inserido em toda aquela sarabanda, à qual não se pode negar certo brilho e o deleite da vida. E eu era sensível a esse brilho e a esse deleite. Quer dizer, a vida com luxo, as viagens para a Europa em navios-palácio com salões de dois andares, o turismo pelo Velho Continente, o palacete enorme em São Paulo, automóveis de luxo vindos da Europa, dos Estados Unidos…

Tudo isso me atraía muitíssimo, mas constituía um polo de atração inteiramente diferente do Largo Coração de Jesus. E, sem cogitar de minha vocação — pois eu ainda não tinha noção dela —, do ponto de vista meramente individual, cheguei a me pôr esta pergunta:

“O que me convém mais para levar uma vida agradável: integrar-me nesse mundo agitado e brilhante, mas trabalhoso, ou no mundo do Largo Coração de Jesus, nessa vidinha, vivendo à luz ou à sombra do Santuário, sem aventuras nem riscos, nem problemas, nem complexidades; simplesmente afundar-me no anonimato, destacando-me do meu meio como uma figura que some e afunda na penumbra agradável do Largo Coração de Jesus?”

Seriamente hesitei entre uma coisa e outra. De tal modo a atração nobiliárquica não é uma mania em mim, que os meus lados fracos ter-me-iam levado a me afundar na vidinha: “Ah! deixe ‘correr o marfim’… Eles que se arranjem! Vou levar uma vida sossegada, rezando e depois fazendo mais ou menos nada. Para que fazer alguma coisa? Desde que eu viva bem, nada mais me incomoda!”

O que me impediu de me deixar levar por essa hipótese foi uma noção do dever. Volto a dizer, não era a ideia da vocação, que ainda não se tinha esboçado em meu espírito; mas a noção de que cada pessoa que levasse consigo um nome histórico, e se afundasse nessa bruma, era como uma estrela que se apagaria no céu. Embora seja menos trabalhoso para uma estrela afundar na bruma a ficar cintilando pelos séculos dos séculos, a obrigação da estrela é cintilar.

Eu, Plinio Corrêa de Oliveira, tinha o direito de me afundar? Não! Essa opção, eu a exerci, portanto, não em virtude de uma ideia de comodismo, de vantagens, de prazer, mas do dever, vencendo o meu pendor naturalmente indolente.

Aristocracia paulista: trato cerimonioso e mobiliário das residências

Eu notava, entretanto, também nas pessoas da aristocracia, o conflito de duas influências. De um lado, a velha tradição portuguesa, muito afim em alguns pontos com a tradição francesa, pela qual a nota distintiva do homem educado era uma seriedade amável, até afável, mas principalmente seriedade. Secundariamente, como um ornato complementar, vinham a afabilidade e a amabilidade.

De maneira que se víssemos um desses senhores ou uma dessas senhoras andando sozinhos na rua, a fisionomia que faziam era séria, de quem estava cônscio de sua importância.

Se um menino ou um rapaz conhecido deles passasse perto, tinha a obrigação de cumprimentá-los, tirando o chapéu. O senhor respondia amavelmente o cumprimento, com um sorriso e erguendo discretamente seu chapéu-coco.  Às vezes puxava uma conversa, sempre composta e cerimoniosa: “Como vão os seus? Ouvi dizer que a Dona tal está adoentada… Já melhorou? Será que vamos nos encontrar de novo este ano em tal estação de águas? Eu gostaria tanto… Diga lá em casa…”

Por mais afável que tivesse sido a conversa, ao final, novo cumprimento tirando os chapéus de parte a parte. Quando o senhor, e mesmo as senhoras, tinham mais intimidade, batiam ligeiramente com a ponta dos dedos nos ombros do mais jovem, o que representava, simbolicamente, um abraço.

Esse trato cerimonioso encontrava seu correlato no ambiente e no mobiliário das residências.

Toda casa que se prezasse tinha um salão com móveis dourados estilo Luís XIV, XV, XVI, ou um pouco mais longe, Luís XIII, e a parede revestida de damasco, ou de papel vindo da Europa, também dourados, ou painéis de damasco de outras cores. Lustres de cristal.

Se as posses da família permitiam, o hall era de mármore. Cortinas de damasco, sedas, veludos, quadros a óleo, tapetes felpudos que abafavam o som de quem entrava nas salas.

Mesmo na intimidade do lar, o modo de as pessoas se dirigirem umas às outras era repleto dessa seriedade. Até a brincadeira era com um tom cheio de respeito, o qual constituía uma espécie de atmosfera de gás ou de líquido, no qual a vida inteira estava imersa.

Influência de Hollywood

Entretanto, tudo isso se foi abrindo para a influência de Hollywood. As músicas tocadas pelos discos nas vitrolas, as canções que se cantarolavam, as senhoras dedilhavam no piano ou os rapazes executavam no violino, tudo isso era “hollywoodiano”.

O resultado era a difusão de uma gargalhada superficial, agitada, estridente e sem significado profundo. Porque a influência de Hollywood era a da gargalhada, da brincadeirada, da semi-imoralidade sedenta da imoralidade completa, da aventura sôfrega: “cowboy”, tiros no teto, motocicletas, torcidas…

Eu percebia essas duas influências que se combatiam. Aquela seriedade sacral de outrora ia sendo enxotada pela superficialidade trivial, adoradora da máquina, do dinheiro, da corrupção. Tinha que dar na civilização moderna.

Muitas daquelas pessoas respeitáveis, que estavam com seus filhos e netos na Missa pela manhã, iam levá-los na sessão de cinema, à tarde.

Observei o seguinte: quando se encontravam na Missa do Sagrado Coração de Jesus, todo o lado tradicional deles vinha à tona e os dominava; quando estavam no cinema, ficavam cheios do espírito de Hollywood.

De onde me vinham ideias meditadas no meu silêncio, como esta: “Se esse aspecto tradicional floresce na Igreja do Coração de Jesus e em outras igrejas de São Paulo — aonde às vezes também vou à Missa —, mas não se desenvolve no cinema, há uma relação de aliança, de afinidade entre esse ambiente, essa Religião e esse lado bom; e existe uma relação, não de aliança, mas de antagonismo, entre a Igreja e esse lado ruim que se patenteia quando eles vão ao cinema”.

Para ilustrar esse pensamento, imaginemos o jazz sendo tocado na Igreja do Coração de Jesus. Uma blasfêmia! Ou um órgão executando música religiosa, para acompanhar certas fitas de cinema: parava o órgão ou a fita, porque os dois não iam juntos!

Donde eu concluía haver no cinema um princípio hostil ao Sagrado Coração de Jesus, enquanto que na vida tradicional, um princípio que procede d’Ele.

Eu olhava em torno de mim e pensava: “Que reação teriam essas pessoas se eu lhes dissesse que estou cogitando isso? Afirmariam que não é assim, que não estou entendendo nada, que esse antagonismo não se põe…” Porque eles não queriam fazer a opção, a escolha e, portanto, não desejavam confessar o antagonismo. O resultado é que eles deixavam a parte boa ser devorada pela má, como um câncer.

Eu dizia no meu íntimo: “Opto pelo Sagrado Coração de Jesus!”

Horror ao mofo e desejo de uma alegria sã e casta

Por tê-Lo conhecido e me deixado modelar por Ele, tanto quanto minha miséria permitia, eu estranhava uma coisa dissonante de Nosso Senhor. Por isso também, eu reconhecia n’Ele a regra a ser seguida qualquer que fosse o sacrifício, a batalha. E o critério para diferenciar o bem e o mal, a verdade e o erro, é estar consonante com o Sagrado Coração.

Isso é um ato de adoração, de devoção e supõe, evidentemente, rezar a Ele, visitar sua imagem na igreja d’Ele, tê-Lo em vista na imagem d’Ele em minha casa, e dirigir-me a Nosso Senhor por meio da Mãe d’Ele. Quer dizer, ser devoto, devotíssimo de Nossa Senhora, como canal necessário para chegar até Ele.

Estou cônscio, deliciosamente cônscio, até o fundo de minha alma, de que eu nunca teria chegado a nada disso se não fosse a intercessão de Nossa Senhora.

O que aconteceu com alguns outros que conheci, aparentemente grandes rezadores? De manhã, rezavam num manual, mas não tinham suficiente amor para, na hora do cinema, estar se lembrando d’Aquele a Quem tinham rezado; e evitavam a opção. Logo, cada vez mais a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tornava-se uma fórmula, e a entrega à mentalidade do cinema, uma realidade.

Havia, ademais, um problema na dualidade jazz e tradição. É que a tradição aparecia tristonha, incapaz de suscitar alegria, vida, verdadeiro espírito de luta e algo que não fosse mofo. Era preciso um ato de Fé para acreditar que essa tradição tinha inspirado coisas como as Cruzadas, de tal maneira ela estava carregada de mofo.

Como a única forma de alegria estereotipada era a “hollywoodiana”, não havia uma fórmula para dar escoamento psicológico ao júbilo, para o qual a alma tem tendência, senão os padrões “hollywoodianos” daquele tempo. Por isso, para um católico, ser alegre era uma espécie de infidelidade. Em sentido contrário, ser tradicional, fiel à Igreja de sempre, parecia trazer como corolário ser tristonho, abatido. E eu tinha horror ao mofo e a tudo quanto não é vida.

Quando entrei para o Movimento Mariano, uma das metas que tive foi de fazer sentir que eu não renunciava nem um pouco à alegria sã e casta de viver.

Está assim, de um modo muito sumário, narrado, tanto quanto me é possível, um dos itinerários de minha alma rumo ao Sagrado Coração de Jesus. v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/12/1985)
Revista Dr Plinio 199 (Outubro de 2014)

 

1) Situado no Bairro Campos Elíseos, zona central de São Paulo.

2) Município da Região Metropolitana do Vale do Paraíba, ao Norte do Estado de São Paulo.

3) Do italiano: atualizados. Aqui tem o sentido de “estar na moda”.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Rei e centro de todas as coisas

Rei e centro de todas as coisas

Quem se dedica ao apostolado, ou qualquer outra atividade em prol da Igreja e da civilização cristã, deve compenetrar-se de que Nosso Senhor é o centro de todas as coisas e jamais poderá ser derrotado. Se tivermos sempre em vista essa verdade, compreenderemos como são pequenos os fatos que às vezes nos angustiam e nos fecham o horizonte.

 

Segundo fotografias que vi de desenhos e pinturas nas catacumbas, não há nada que indique terem os católicos daquela época uma ideia clara de como foi a face de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seria natural que, considerada a grande importância d’Ele, houvesse alguém de seu tempo — ou cem, duzentos anos depois de sua Morte — que tivesse feito uma representação de Nosso Senhor, pintada ou de qualquer outra forma.

Arquetipização da figura de Nosso Senhor

Entretanto, apesar da carência desses documentos, de repente — não sei bem em que século da História da Igreja —, começam a aparecer imagens com a fisionomia que está no Santo Sudário.

Como foi preenchido esse hiato?

Alguém dirá: “Pela tradição.”

Sem dúvida, mas como é que a tradição se exprimiu? Como se transmite pela tradição a figura de um rosto que não se pintou, não se esculpiu, e nem sequer documentadamente se descreveu?

O Evangelho é uma espécie de autorretrato de Nosso Senhor, não feito por Ele, mas com fatos de sua vida que dão a ideia de como Ele era, entretanto não são suficientes para compor o rosto de Jesus. Depois de composta a face, lendo o Evangelho dizemos: “Não há dúvida, esse é o rosto d’Ele mesmo!” O Evangelho autentica a face, mas não dá os elementos para sua composição.

Vê-se que a graça continuou a fazer nas almas uma arquetipização(1) válida da figura do Redentor, à vista da iconografia muito insuficiente que havia, e essa arquetipização floresceu, de repente, no rosto d’Ele o qual conhecemos e que o Santo Sudário vem documentar.

Isso me parece uma prova criteriológica muito bonita do valor dessas sublimações movidas pela graça.

O Rei da glória é o vencedor

Tomando Nosso Senhor como Ele foi, com toda aquela elevação, bondade, calma, distância, intimidade e tudo o mais, deduz-se que, ou o gênero humano é uma pagodeira sinistra, uma espécie de sarabanda do Inferno prenunciativa da que lá existe, ou tem que haver no centro e no ápice uma figura em torno da qual todos os homens se ordenem.

Quer dizer, há uma espécie de senso profundo do ser que, diante da Revelação, exulta e nos leva a exclamar: “Sem dúvida, esse centro tinha que existir, não pode desaparecer; é Nosso Senhor. Ele tem que vencer, é o Rei da glória e as suas derrotas são aparentes, pois, no fundo delas, Ele é o vencedor, e sempre reaparecerá!”

O senso de que a História deve ter um futuro diferente, o porvir da ordem contrária à Revolução, vem deste senso de que Ele é o centro e não pode ser deslocado deste centro. E, como não pode ser deslocado, a vez d’Ele chegará. Por isso, quando virmos uma pessoa inteiramente fiel a Ele — ainda que seja o último ser humano que se conheça — podemos afirmar com segurança: “Vai vencer!”

A mulher que não tinha nariz

Conheci uma mulher sem nariz, uma beata da Igreja de Santa Ifigênia(2), que todos os dias, em qualquer tempo que fosse, ia lá com o guarda-chuva na mão; não sei por que ela não segurava no cabo, mas em cima, onde se reúnem as varetas. Feia, baixa, e com um lenço sempre limpo e de qualidade ordinária, cobrindo a cavidade do nariz, amarrado de tal modo que não atrapalhava a respiração ­dela. Ela andava, falava, vestia-se normalmente e tinha algum trabalho. Vivia no meio das beatas, porque era assídua em Comunhões na Igreja de Santa Ifigênia.

Humanamente falando, era uma derrotada, mas ela ia para a frente com uma firmeza, um ar de segurança da vitória que destoava de toda a melúria piedosa que a cercava e da qual ela não tinha bem noção. Ela possuía um triunfo, e andava naquelas ruas já neopagãs da São Paulinho, com ar de vencedora, pois participava dessa noção de vitória de que falei há pouco. E, por exemplo, a mim, essa mulher muitas vezes fez bem porque, olhando para ela, eu pensava: “Quem suscita almas assim, está vivo, não pode morrer e isto vai para a frente!”

Aquela pobre senhora era bem mais velha do que eu, e certamente terá morrido. Eu gostaria que no Céu, onde ela se encontra, essas palavras de saudades, de homenagem chegassem.

Ela me olhava muito, não sei por quê; eu também dirigia meus olhos a ela, mas os formalismos justos daquele tempo levavam a que, sendo ela uma pessoa de uma classe muito inferior à minha e de outro sexo, não nos abordássemos. É muito legítimo. Eu teria muita alegria de saber que fiz algum bem à alma dela.

Fonte perene que nunca deixa de jorrar a água viva

Uma vez que tivemos a graça e a alegria de poder expor esse pensamento sobre o Sagrado Coração de Jesus, creio que se não fizermos remontar todas as nossas doutrinas a isso, não compreendemos em toda a sua profundidade, exatidão, força cogente, aquilo que dizemos. Quer dizer, olhando para Ele, seriamente, compreendemos que Nosso Senhor é o centro e tem que vencer.

É, por exemplo, o pensamento que animava a Nossa Senhora na hora do “consummatum est”(3), em que Ela O teve sobre o colo, enquanto punham aromas no Corpo divino, e tudo o mais. E também A confortava durante o tempo em que Ele esteve sepultado.

Porque os Apóstolos, Santa Maria Madalena e os discípulos de Emaús tinham isso de um modo incompleto, não O reconheceram quando Jesus ressurrecto apareceu, a não ser em certo momento. Não possuíam a noção de que Ele não podia ser derrotado. E nisto estava o ponto fraco deles.

Ora, quando se conhece uma obra que resiste à Revolução e conserva, contra toda a ordem de coisas, um certo viço, percebe-se que ali a Fonte perene nunca deixa de jorrar a água viva, e que isso ninguém vence.

Se tivéssemos isto em vista, possuiríamos, por exemplo, um outro ânimo em tocar o apostolado, porque compreenderíamos como são pequenas diante dessa verdade as coisas que às vezes nos angustiam e nos fecham o horizonte.

Às vezes, vem falar comigo alguém com muito mais empenho em resolver o casinho de seu apostolado do que em tratar deste tema. É porque a pessoa perdeu de vista que a água viva é outra, o centro é outro, e todas essas coisinhas devem ser tratadas, pois têm o seu papel na vida, mas de nenhum modo podem lotar a nossa atenção.

O chinês que chega à Terra Santa à procura de um Ser perfeito

A respeito de Nosso Senhor, pode-se imaginar uma pessoa do tempo d’Ele que O conheceu em sua vida terrena e, por assim dizer, tivesse explodido de adoração a Jesus, tocada pela sua presença.

Mas seria possível dar-se um outro fato de pessoas que, levadas pela inocência, pela retidão, pelo senso do ser, fizessem um prognóstico mudo, não explicitado, de que algo como Ele deveria haver. E que se pusessem a procurá-Lo, sem saber que era a Nosso Senhor que estavam procurando. Então, por exemplo, poder-se-ia imaginar o seguinte caso irreal, mas daria um lindo conto.

Um chinês que tivesse saído da China, em linha reta, rumo ao Mediterrâneo, sem ter noção desse mar, e atravessando os mais variados povos, levado pela ideia confusa de que, à força de ver gente, ele encontraria algo que não sabia o que era, mas lhe preencheria a alma.

Chegando à Terra Santa, teria ouvido narrar os acontecimentos passados com Nosso Senhor, enquanto seu Corpo sagrado estivesse sepultado. E o chinês, numa explosão de Fé, houvesse dito: “Esse Homem não pode ficar na sepultura, Ele tem que aparecer!” E tivesse cantado o “Hosanna”, no próprio momento em que Nossa Senhora estava na soledade.

Essa alma teria feito esse outro caminho para encontrar a Nosso Senhor: levada por um misterioso sentimento de que Ele era o Rei e o centro de todas as coisas, sem saber explicitar, procuraria a Ele. E, encontrando-O morto, veria que o caso não poderia se liquidar assim.

Não é verdade que essa alma mereceria ter assistido à Ressurreição?

Movimento metafísico fortíssimo

Em pequeno, tive a felicidade indizível de ser batizado, conhecer Nosso Senhor, de ser tocado pela graça da devoção a Ele, especialmente na atitude de mostrar o seu Coração. Foi como um encontro pessoal que me fez conhecer coisas as quais eu não conheceria se não tivesse encontrado a Ele. Isso é verdade.

Mas também é verdade que Nossa Senhora obteve que fosse posto em minha alma, pela inocência, um movimento metafísico fortíssimo para buscar o centro de todas as coisas, e que quando encontrou a Ele, de algum modo já estava aberto para ver isso n’Ele.

Não sei como agradecer à Santíssima Virgem de ter pedido e obtido isso para mim! Mas vejo bem que se esta devoção a Ele vingou em mim, de um modo tão profundo e tão pouco vulgar para um menino daquela idade, foi porque já havia em minha alma um movimento para um maravilhoso, um absoluto, para uma coisa que a inocência me dava. E houve um encontro.

Seria, portanto, um pouco o homem que encontrou Nosso Senhor, e um pouco o chinês levado por aquele movimento metafísico. E, se não me engano a esse respeito, uma pessoa que queira me conhecer, deve notar esses dois movimentos na minha alma.

E daí ela mesma pode, através do conhecer-me, ser estimulada para uma e outra coisa. Não direta e exclusivamente para ver isso n’Ele, mas perceber a Contra-Revolução. No ver a Contra-Revolução, contemplar a Ele; e no ver a Ele, contemplar a vitória da Contra-Revolução e concluir: “Isso não pode ser derrotado!”

Contaram-me que no maremoto o mar recua, recua, e depois a fúria com que ele volta e a força de invasão é proporcionada ao poder de retração.

Podemos comparar isso à ausência de Deus no panorama moderno. Também Nossa Senhora faz assim com seus seguidores perseguidos, chamados à bem-aventurança de sofrer perseguição por amor à justiça: Ela recua, recua… Tomem cuidado, porque Ela deixa aqueles a seco, como um navio parado que ficou fazendo o papel ridículo de fantasma no meio de uma terra árida; mas quando o mar voltar, deve chegar onde nunca atingiria numa época comum!

Consideremos que Nosso Senhor disse o “Eli, Eli, lamá sabactâni”(4) depois de ter previsto a glorificação d’Ele ao Bom Ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso.” 5 Portanto, no meio daquela dor, Ele sabia que iria para a glória do Paraíso, e levaria São Dimas.

Ele foi, como Rei do Céu, abrindo as portas, absolvendo, perdoando o Bom Ladrão. Assim, a primeira canonização que houve na Igreja foi do alto da Cruz, feita por Nosso Senhor diretamente. Depois veio a Ressurreição, e todo o resto. 

(Extraído de conferência de 14/12/1985)

 

 

1) Termo cunhado por Dr. Plinio para significar a procura da perfeição em todas as coisas.

2) Localizada no bairro de mesmo nome, na região central de São Paulo.

3) Do latim: “Está consumado” (Jo 19, 30).

4) Mt 27, 46.

5) Lc 23, 43.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Sagrado Coração de Jesus

Sagrado Coração de Jesus

Em todas as imagens do Sagrado Coração de Jesus podemos perceber uma nota de suave tristeza, pois em meio à harmonia e formosura da alma d’Ele estavam presentes a cruz e o sofrimento.

Homem-Deus, Nosso Senhor possuía em grau insondável, todos os títulos para ser amado e venerado, aos quais acrescentou as maravilhas de seus milagres e doutrinas.

Jesus realizou o inimaginável, e por certo despertou imensa admiração. Porém, seus admiradores se cansaram d’Ele. Essa rejeição, por ser imerecida e constituir um grande pecado, causava profunda dor à sua humanidade santíssima. No fundo do seu Coração Sagrado havia, pois, habitualmente uma nota de pesar, devido a essa  incorrespondência em relação a quem se dava com tanto amor.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

junho – Sagrado Coração de Jesus – Novena irresistível ao Sagrado Coração de Jesus

Novena irresistível ao Sagrado Coração de Jesus

Esta novena merece este título por ser uma oração na qual a pessoa se dirige ao Sagrado Coração de Jesus apresentando-Lhe as razões mais fortes para alcançar as graças temporais e, sobretudo, espirituais desejadas.

Assim como o melhor dos pais atende com maior solicitude a um filho, de acordo com o pedido e o modo de pedir, também o Sagrado Coração de Jesus é mais propenso a nos conceder o que precisamos quando, por meio do Imaculado Coração de Maria, alegamos altas razões em nosso favor.

E as alegações indicadas nesta novena tornam-na irresistível.

Passo a comentá-la:

Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo: pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e ser-vos-á aberto”. Eis que eu bato, procuro e peço… (fazer o pedido).

É um pedido admirável e inteiramente racional. Tomando as palavras do Sagrado Coração de Jesus, que jamais mente, invoca esta promessa de misericórdia diante d’Ele. Então, quando tivermos problemas espirituais, sobretudo, dizer isto a Ele, na Comunhão ou em outras ocasiões, é soberanamente eficiente.

Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo: qualquer coisa que peçais a meu Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá!” Eis que a vosso Pai, no vosso nome, eu Vos peço… (fazer o pedido).

Realmente, é outra promessa d’Ele que se deve invocar. Quem pedir ao Pai Eterno algo em nome de Jesus e, consequentemente, quem pedir a Nosso Senhor em nome de Nossa Senhora, obterá.

Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade vos digo: passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais!” Eis que, apoiado na infalibilidade de vossas santas palavras, eu Vos peço… (fazer o pedido).

Primeiro vêm duas palavras d’Ele, em seguida, lembramos-Lhe que essas palavras são infalíveis.

É um modo de rezar altamente piedoso e benfazejo, próprio de uma piedade raciocinada e clara, que realmente arrasta o Sagrado Coração de Jesus: “Vós dissestes isto e aquilo, garantindo-me que serei atendido. Ora, Vós nunca mentis, e eu Vos peço, portanto, que realmente me atendais”.

Depois vem a parte final que é muito bonita:

Ó Sagrado Coração de Jesus, a quem uma única coisa é impossível, isto é, não ter compaixão dos infelizes, tende piedade de nós, míseros pecadores, e concedei-nos as graças que Vos pedimos, por intermédio do Coração Imaculado de vossa e nossa terna Mãe.

Sobretudo é impossível ao Sagrado Coração de Jesus, quando solicitado por Nossa Senhora, não ter compaixão daqueles que sofrem as dificuldades, as agruras, as tentações e, diríamos até, as misérias da vida espiritual.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Rei e centro de todos os corações

Rei e centro de todos os corações

Era a festa do Sagrado Coração de Jesus. No auditório Nossa Senhora Auxiliadora(1), sob o comprazido olhar de Dr. Plinio, um grupo de jovens discípulos entra em cortejo portando uma bela imagem de Nosso Senhor, enquanto entoava-se a ladainha com invocações a Ele dirigidas. Ao final do cântico, pronunciou Dr. Plinio as palavras aqui recordadas.

 

A celebração de hoje possui tantos aspectos quantas as invocações desta ladainha, tão ricas que sobre cada uma delas se poderia fazer uma conferência.

Com efeito, todo católico que permanece fiel aos mandamentos da Lei de Deus precisa admirar as virtudes suplicadas nessa prece, pois são essenciais para a vida espiritual. Em sua existência terrena, Nosso Senhor deu exemplos salientes, flagrantes e belíssimos dessas virtudes; exemplos indeléveis que iluminarão o mundo durante toda a História da humanidade na Terra, e os bem-aventurados no Céu, por toda a eternidade.

Mais do que reinar sobre pessoas

Há, porém, uma invocação especialmente digna de nota e sobre a qual tecerei alguns comentários: Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações.

Na Igreja, todas as coisas, por mais que toquem no sentimento — e isso é bom —, têm razão de ser profunda, porque baseadas na Teologia e, portanto, numa doutrina muito sólida e segura.

Devemos nos perguntar, então, qual a diferença entre ser Rei e centro de todos os corações.

Sendo Nosso Senhor verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é Rei de todas as coisas e, por conseguinte, dos homens. Mas, há diferenças entre governar um povo e reinar nos corações dos súditos.

Um monarca é capaz de exercer efetivamente o poder por direito, entretanto se não manifestar as virtudes e qualidades próprias à realeza, poderá ser malquisto e até detestado pelo seu povo. Donde, reinar nos corações é muito superior a imperar apenas sobre as pessoas.

Senhor da nossa vontade

Estendamos a análise. Segundo antiga simbologia, o coração representa a afetividade do homem. Assim, a mencionada invocação significa que Jesus tem o direito e, de fato, o poder de atrair o afeto e o carinho de todos os homens.

Porém, tais sentimentos fazem parte de um todo, a vontade humana, maior do que as partes, da qual Nosso Senhor é, pois, o Rei e o centro. Assim, cumpre que essa vontade reconheça o dever de amá-Lo, e cabe a nós praticar o ato volitivo ordenado a esse amor, embora às vezes nos encontremos na aridez e numa completa falta de sensibilidade de carinho e afeição (provação, aliás, freqüente na vida espiritual). Seja como for, importa termos a vontade firme, de têmpera, séria, a qual se acha convicta de que Jesus tem o direito de ser este seu Rei, centro de todos os corações.

Na prática, uma realeza não reconhecida

Tal verdade, considerada e compreendida desse modo, é realmente irretorquível e bela. Mas, poder-se-ia perguntar, na prática, no quotidiano dos homens, será efetiva?

Recordemos as cenas da Paixão do Redentor. No Horto das Oliveiras, Jesus se queixou dos Apóstolos que O acompanhavam, porque não vigiaram com Ele durante uma hora. Enquanto isso, Judas se apressava em traí-Lo. Por duas vezes veio ao encontro dos discípulos, banhado em sangue que transudara por causa do seu estado de aflição e pavor, e que deveria incutir neles compaixão pelo Mestre. Porém, suas sensibilidades não se moveram. Apenas despertaram, viram-No e continuaram a dormir…

Mas, o pior consistiu em que eles não tinham firme vontade e resolução de Lhe fazer companhia, de consolá-Lo e depois segui-Lo até o alto do Calvário. Os episódios subsequentes o demonstram de forma dolorosamente clara.

Ora, como acima entendemos, Nosso Senhor tinha o direito de ser Rei daqueles corações. Entretanto, não o era de fato, porque aquelas vontades não reconheciam a sua realeza, não era desejado nem querido como deveria sê-lo.

Toda a falta de responsabilidade dos Apóstolos nos acontecimentos culminantes da Paixão mostram do que é capaz o homem, quando tem para com o Redentor apenas um carinho sensível, e não a força de vontade a qual, na aridez e até na desolação, o torna fiel.

Reino de Maria, Reino do Coração de Jesus

Então, nos indagamos: quando o reinado do Sagrado Coração de Jesus será efetivo na Terra?

Respondemos com o grande São Luís Grignion de Montfort: no Reino de Maria.

Compreende-se. Nossa Senhora está sempre voltada para Cristo. Estabelecer o reino d’Ela é instaurar o do Sagrado Coração de Jesus.

Pelas preces insistentes da Santíssima Virgem, já agora e, sobretudo, no seu reino, será concedido aos homens, não apenas os maiores graus de sensibilidade para com o Coração de Jesus, mas uma extraordinária firmeza de vontade em relação aos seus régios desígnios. Quer dizer, sendo Ele nosso Rei por direito, auxiliados pela graça tomaremos sempre a atitude de súditos diante de seu monarca, não recuando sequer face à necessidade de dar a vida em defesa de seu reinado, batalhando nos degraus do trono.

O papel das firmes convicções

É necessário acrescentar que ninguém terá vontade firme se não possuir igualmente convicções sólidas. Quem não estiver persuadido, por uma fé inabalável, da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, será incapaz de grandes resoluções. Chegada a hora do sacrifício e do holocausto, haverá um choque. O instinto de conservação da vida ou dos bens que lhe convêm — como a riqueza, a reputação, a posição social, a saúde, etc. — estando ameaçados, a tendência será poupá-los em benefício do interessado. O egoísmo é a hipertrofia desse instinto.

Nesse momento, surgirá uma pergunta soprada pelo próprio instinto: “O motivo pelo qual me vou sacrificar a Ele, resistirá verdadeiramente ao raciocínio?”

Tal indagação será um jeito que a covardia humana encontrará para fugir do dever, sem ter a sensação de o estar violando: “Afinal, eu me examinei naquela circunstância, e me dei conta de que minhas razões não eram suficientemente definidas e vigorosas; portanto, não tenho obrigação de me sacrificar. Não estou persuadido da necessidade de semelhante atitude”.

Compreendemos, então, como a persuasão é um elemento fundamental desse conjunto de fatores por onde Nosso Senhor Jesus Cristo é aceito como autêntico Rei dos corações.

Assim, nossas certezas precisam ser tão firmes ou mais quanto nossas resoluções. O católico deve dizer para si mesmo: “Tenho uma fé inabalável, a qual exclui qualquer dúvida de que Jesus Cristo é meu Deus e Redentor, esteve na Terra, realizou todas as ações narradas no Evangelho, entre outras a de fundar a Igreja, ensinou a doutrina e fez os milagres ali descritos; provou por meio de sua Ressurreição e Ascensão, a veracidade de tudo quanto Ele é e disse. Convicto dessas razões, estou disposto a morrer por Nosso Senhor”.

Corações feitos à imagem do de Jesus

Ora, não raramente observamos o contrário dessa certeza: o relativismo. “Jesus Cristo foi tão bom e santo, uma figura extraordinária que, provavelmente, tenha existido. Certeza disso não tenho, porque não estou habituado a ter certezas. Meu espírito vagabundo, relaxado e cínico, que não diferencia claramente a verdade do erro, mas baila num terreno pantanoso, não possui convicções. E, por mais que estudasse a questão — não o farei, porque não costumo estudar nada — sou incapaz de formar uma certeza, a qual supõe um coração firme”.

Percebemos, portanto, que na raiz da convicção encontra-se uma vontade segura e séria: “Verdade, eu te quero. Por causa disso, meu espírito à tua procura deve ser como um gládio que corta em duas partes as trevas e obtém a luz!”

Estes são os corações feitos segundo o Coração de Jesus. Ele nos deu todas as provas possíveis de ser o nosso arqui modelo, tendo feito seu sacrifício a ponto de bradar no alto da Cruz: “Meu Pai, meu Pai, por que me abandonaste?”, e, em seguida, expirar. Vale recordar que tal brado é o início de um salmo profético (cf. Sl 21, 2). Além disso, a frase de Nosso Senhor para o bom ladrão — “Hoje estarás comigo no Paraíso” — manifesta sua certeza e determinação de ir até o fim, através dos piores escolhos e das maiores dificuldades. O Coração de Jesus é, pois, nosso exemplo arqui perfeito da fé, da vontade e das convicções inabaláveis.

Manancial de graças e misericórdias

Mais ainda. É a própria fonte de onde irradiam as graças pelas quais somos capazes de adquirir essa certeza e a força de vontade que o homem, por si mesmo, é incapaz de possuir quando tem em vista fins sobrenaturais. Somente o consegue mediante o auxílio das graças do Céu.

Compreendamos então o aspecto sensível do símbolo: o Coração de Jesus é o receptáculo repleto de misericórdia e afeto para quem Lhe rogue essas graças. Ele deseja concedê-las e está à espera, na infinidade de suas riquezas, de alguém que Lhe peça uma parte ou a plenitude delas — conforme caiba na alma de cada pessoa — para atender com inimaginável abundância.

Acredito serem tais considerações extremamente propícias a nos secundar em nosso progresso na vida espiritual, pois nos apresentam os elementos necessários para vencermos a tibieza e a indolência que eventualmente nos assaltem nas vias de piedade que devemos trilhar.

Observados esses princípios que acabamos de analisar, Nosso Senhor, Rei de direito, torna-se Rei de fato. Se os homens forem assim — e não importa que o sejam todos numericamente falando, mas a parte de maior influência e irradiação na sociedade, aquela capaz de conduzir as vontades conforme o Sagrado Coração de Jesus — o Reino de Maria estará implantado.

junho – Sagrado Coração de Jesus – Multiplicidade de aspectos da devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Multiplicidade de aspectos da devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Enquanto a Revolução quer que as pessoas não tenham amor autêntico umas às outras, mas sejam completamente egoístas, a Contra-Revolução promove um relacionamento humano fundamentado no verdadeiro amor, o qual converge para o Sagrado Coração de Jesus, que é o centro de tudo. Portanto, Ele é o centro da Contra-Revolução.

 

O fenômeno revolucionário, examinado como ele está descrito em meu livro Revolução e Contra-Revolução, é antes de tudo um problema espiritual. O resto é secundário, colateral, por maior importância que tenha.

Portanto, o aspecto mais importante é a atitude que o fiel toma em relação a Nosso Senhor Jesus Cristo, e mais especialmente ao Sagrado Coração d’Ele, que é a quintessência de tudo quanto há n’Ele de perfeição e de amor.

Por que esse é um ponto fundamental?

A relação dos homens com o Sagrado Coração de Jesus é o centro do relacionamento humano

O centro das relações humanas é o amor que as pessoas tenham entre si. É uma coisa evidente.

Se nas relações de duas pessoas o centro é a simpatia e a antipatia existente entre elas, tomando em consideração uma qualidade muito maior do que essas meras disposições humanas, a observação é válida do mesmo modo, ou até vale mais acentuadamente.

É por esta razão que uma senhora, por exemplo, afeita a considerar a devoção como centro da vida espiritual, e o Coração de Jesus centro dessa devoção, pode ser o ponto de partida e o centro de toda a Contra-Revolução.

Assim, em última análise, aquele dito de Dona Lucilia “viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem” indica o centro da vida do homem na Terra.

De fato, na medida em que um homem tem pessoas a quem ame, com as quais conviva, às quais queira bem e das quais é, por seu turno, bem-querido, ele pode ser o centro de um entrelaçamento enorme de relações, em que tudo corre retamente, porque esta é a própria definição da retidão das relações dos seres humanos entre si.

E para que tudo corra bem e retamente nessas inter-relações, é preciso compreender que se deve ter como ponto de partida o próprio homem, e tudo aquilo que ele faz. Por causa disso, a relação dos homens com o Sagrado Coração de Jesus é o centro de tudo. Logo, o centro da Contra-Revolução.

No caso concreto, a Revolução quer, sobretudo, que as pessoas não tenham amor autêntico umas às outras, amor a nada nem a ninguém, mas sejam completamente frias, egoístas.

Por outro lado, ela quer que esse enregelamento de volições e de apetências seja durável e perpétuo. Então nós temos todo um relacionamento humano errado, enquanto que se considerarmos o relacionamento humano voltado inteiramente para o bem, veremos como a situação muda completamente de aspecto.

Então, o ponto principal é saber por que os homens devem amar especialmente o Sagrado Coração de Jesus e se, de fato, O amam. Se não amam, como devem fazer para adquirir esse amor? Esse é o centro da espiritualidade católica.

Uma das formas de retidão do Reino de Maria

Essa devoção marcou a vida inteira de Dona Lucilia e foi certamente neste ponto que ela mais atuou sobre mim. Quer dizer, as relações de mamãe com as pessoas a quem ela quis bem eram desenvolvimentos desse relacionamento com o Sagrado Coração de Jesus.

Quando eu era pequeno, tinha o defeito de ser muito volúvel em minhas relações de amizade. Fazia relações boas e, de repente, aquilo me cansava, eu metia um “pontapé” naquele amigo como se nunca tivesse existido e pegava outro. E Dona Lucilia não gostava nada disso.

— Onde é que está tal amigo seu? — perguntava ela.

— Mamãe, ele está por aí — eu já tinha dado o “pontapé” nele e não queria saber.

— Mas por aí aonde? Ele saiu da Terra?

— Não, meu bem, quer dizer, ele…

— Olha, Plinio, eu já estou vendo o que aconteceu. Você já se enfarou dele e já lhe meteu um “pontapé”. É uma pessoa que lhe queria bem e a quem você não podia fazer uma coisa dessas.

— Mamãe, ele é muito sem graça… 

— Você lá sabe se outras pessoas não acham você sem graça e, entretanto, devem querer bem a você? Queira bem aos outros…

Vê-se que para ela as relações afetuosas, bem centradas sobre os temas em que deviam ser, era uma coisa inestimável. É compreensível que Dona Lucilia queira nos obter isto de Nossa Senhora e fazer disto uma das formas da retidão no próprio Reino de Maria na Terra.

De fato, nas revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, o Sagrado Coração de Jesus dava a entender que a devoção a Ele traria ao mundo uma era que os devotos do Sagrado Coração de Jesus chamaram de “o reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo”, o qual corresponde ao Reino de Maria. 

Em determinado momento virá, sem dúvida, uma graça excepcional de devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e tem-se a impressão de que surgirão almas privilegiadas que deverão espelhar, cada uma a seu modo, a multiplicidade de aspectos da devoção ao Sagrado Coração, e por esta forma dar a Ele uma glória especial.

Erros que avançavam à maneira da lava que escorre das montanhas

Por outro lado, quando vemos Nosso Senhor falar a respeito da consagração ao seu Sagrado Coração, tem-se a impressão de que Ele considera a batalha entre a piedade e a impiedade, o bem e o mal, a verdade e o erro, um combate que se porá sempre, em termos gerais, na linha em que ele estava posto já no tempo de Santa Margarida Maria Alacoque.

Sem que esta visão deixe de ser exata, é preciso considerar, entretanto, que um aspecto dessa batalha foi mudando com o passar dos séculos, a ponto de merecer ser analisado separadamente. É o modo pelo qual o erro começou a combater a verdade, disfarçando-se de tal maneira, primeiro no modernismo, e depois, cortado o modernismo por São Pio X, em erros congêneres até nossos dias.

Dir-se-ia que o erro passou a ser tão envolvente, penetrante e dominador, dentro da própria Igreja, que o curso das coisas mudou na perspectiva do Sagrado Coração de Jesus — o que seria um absurdo —, e que se inaugurou um clima de luta onde nem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tinha muita coisa a fazer, porque já não é mais o erro contra a verdade, mas a pseudo verdade contra a verdade, o pseudo bem contra o bem.

De tal maneira que a luta principal passou a ser interna e produziu na Igreja movimentos tão desastrados, que devoções como a do Sagrado Coração de Jesus e a do Imaculado Coração de Maria saíram da ordem do dia na piedade corrente.

Sempre me chamou muito a atenção, na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a noção de que Ele estava sendo ofendido, traído, abandonado de um modo horrível pelo ateísmo, pelas formas expressas de combate contra a Igreja, mas também por uma espécie de moleza dos católicos em reagirem contra todas essas ações anticatólicas.

Parecia-me que o conjunto da luta da impiedade declarada e o relaxamento, a moleza e a indiferença de pessoas que se diziam católicas — e o eram, mas católicos relaxados na miserável força do termo — constituía um pecado, uma ofensa enorme a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tanto quanto eu percebia, esse movimento vinha de muito antes, avançando à maneira da lava que escorre das montanhas: um líquido espesso, viscoso que vai indo com um jeito meio pesadão, cobrindo e dominando tudo. Nosso Senhor Jesus Cristo, portanto, nessa perspectiva era ofendido.

Ademais, eu notava outra coisa que também me chocava muito: falava-se, certamente, da devoção reparadora à apostasia social em relação a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao reinado de seu Sagrado Coração. Contudo, não era o ponto sensível das cogitações sobre o Sagrado Coração de Jesus.

O ponto sensível — aliás, ponto adorável, admirável que, se bem orientado, faz prever a vitória d’Ele de um modo muito assinalado — era a ideia de que Nosso Senhor Jesus Cristo era a personificação da misericórdia.

Na simbologia do tempo, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era a devoção do pecador ao qual pesa andar mal, mas não tem coragem nem força para tomar a resolução de passar a andar bem e que, portanto, só teria razões para se desesperar.

Entretanto, esse pecador nessas condições, tomando em consideração a misericórdia infinita do Sagrado Coração de Jesus, se implorasse essa misericórdia e recebesse graças intensas e fortes, se realizariam nele as palavras do Salmo: “Asperges me hyssopo, et mundabor; lavabis me, et super nivem dealbabor” (Sl 50, 9) — aspergi-me e ficarei puro; lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve.

Devoção que cessava na emoção e não gerava frutos de verdadeira conversão

Tudo isso é verdadeiro. Entretanto, o desvio estava na difusão da ideia de que essa transformação se dava sem esforço do pecador, por um movimento concebido como partindo do Sagrado Coração de Jesus e mais nada, e trazendo automaticamente uma correção, uma retificação da posição moral do pecador, quase por encanto, e muitas vezes consistindo em uma graça recebida na hora da morte.

Quer dizer, pessoas que se consideravam tão más que sabiam não adiantar vir com correções durante a vida, mas, na hora da morte, receberiam uma graça assim. E a pessoa, nesse último instante, ganhava o Céu.

Essa concepção dava a inúmeros católicos um desejo de acabar se salvando, mas não um desejo muito ardente de correção moral nesta vida. É uma espécie de loteria para, nas vésperas ou no dia da morte, ser ganha e ir para o Céu. O resto do tempo, a pessoa levou vida gostosa na Terra.

No modo de tratarem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e de falarem dela ao pecador, poucas coisas estimulavam o desejo de uma retificação e de um bom andamento espiritual diante de Jesus ofendidíssimo querendo uma reparação.

Estimulava-se um movimento emotivo diante de tanta misericórdia. Mas esse movimento emotivo cessava na emoção, a qual não era geradora de penitência, em grande número de casos, mas apenas de uma piedosa tristeza que não dava em nada, conservando-se inteiramente estéril.

Então, essa devoção, insinuada assim, com essas supressões de determinados aspectos inerentes a ela, acabaria sendo uma forma de piedade que era a melhor possível para o pecador, considerados os interesses meramente terrenos dele.

Porque, em última análise, ele recebia graças inefáveis, e não era obrigado, e nem sequer estimulado, a uma contrapartida, mas simplesmente a chorar: “Ah! como eu tenho pena de estar nessa vida de pecado, ofendendo a Deus… Que pena! Mas afinal, continuarei nessa vida… Posso até usar um escapulário do Coração de Jesus, conservar um detente, com a efígie de Jesus mostrando seu Sagrado Coração, para evitar que tiros possam bater em mim…”

Isso contribuía para dar ao pecador uma presunção temerária de salvar-se sem estar, de fato, tocado por uma autêntica devoção.

Conheci incontáveis pessoas nas quais essa devoção era vivida assim.

Para esse tipo de gente, não havia a preocupação da globalidade da sociedade que está se perdendo, nem da batalha em favor de conservar ou não uma Civilização Cristã no mundo. Tinham a questão da salvação, sobretudo, como uma preocupação individual: para si, a esposa, os filhos, e acabou-se.

Entre essas pessoas não vi um caso de alguém que quisesse converter outro por ser este capaz de converter um grande número de pessoas. Esse horizonte maior, de converter muita gente, se esfumaçava na concepção dessa atitude devocional e isso desaparecia.

Desvio provocado pelo sentimentalismo

Notava-se muito isso nas orações compostas ao Sagrado Coração, que giravam, na imensa maioria dos casos, em torno de problemas pessoais. Eram, em geral, muito sentimentais.

Para os adeptos desse tipo de devoção, a lógica parecia uma coisa dura, inflexível, contrária à bondade. De maneira que até mesmo o uso de argumentos muito lógicos para propagar a devoção não era visto como o melhor meio. O melhor meio era apresentar Nosso Senhor nos fazendo grande bem, sem a preocupação de retribuir-Lhe adequadamente. Porque, afinal, que mal havia em não Lhe retribuir adequadamente? Não existia a noção clara, definida, de um pecado contra a justiça.

O principal era incutir a ideia de que o pranto do Sagrado Coração, em rigor de sentimentalismo, deveria provocar um pranto nosso que fosse o eco do d’Ele, mas o eco afetivo.

Assim, o coração era apresentado como sendo a impressionabilidade sentimental, e não a mentalidade, o propósito, o ânimo, a decisão do homem.

Por causa disso a pessoa, não sendo sentimental, ficava meio exilada desse campo. E, como tal, embora não fosse malvista nem perseguida, também não era promovida; ela ficava no ‘bas-fond’ do mundo das associações religiosas, quer dizer, na parte dos ignorados, dos não influentes dentro dessas associações.

Não quero fazer a mínima censura — porque isso estaria longe da boa doutrina — ao uso largo do sentimento como elemento da piedade. A minha ideia é essa: quantum potes tantum aude — quanto se possa tanto se ouse — utilizar o sentimento como elemento indispensável e complementar da piedade. Mas fazendo entender bem que sem o raciocínio iluminado pela Fé, sem a decisão firme e forte da vontade motivada por razões doutrinárias específicas e adequadas, o resto não está bem. E é exatamente neste ponto em que entramos em desacordo com essa concepção equivocada de devoção.

Cheguei a ouvir críticas a essa devoção no sentido de que o amor amolece, é uma espécie de ópio que anestesia as firmezas, as vitalidades da alma e, portanto, era preciso deixar de lado, para dar lugar ao raciocínio. Contra isto eu protesto com toda a força de minha alma. Mas que esteja ausente, ou fora do lugar que lhe é devido na hierarquia das coisas, a parte intelectiva e a volitiva, com isso não posso concordar de nenhum modo.

Quando Nosso Senhor deseja vencer pela misericórdia e quando pela punição?

Há outro aspecto importante a considerar na devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Quando Nosso Senhor disse a Santa Margarida Maria Alacoque “vencerei”, o tom que está presente objetivamente, não como uma elucubração, é o de que, em muitos casos, a misericórdia d’Ele chegará a tal extremo que vai tocar os mais miseráveis e os mais infames, e alcançará, por esta via, conversões fulgurantes. Portanto, a vitória é sobre os improváveis, os inimagináveis, por meio dessa misericórdia que vai até o fim, por onde Nosso Senhor venceu, por exemplo, o Bom Ladrão.

Uma questão muito bonita seria: quando é que Nosso Senhor deseja vencer pela misericórdia e quando Ele quer vencer pela punição?

Eu tive um manualzinho, um tratadinho de devoção ao Coração de Jesus, que comprei exclusivamente pelo seguinte: folheando, antes de comprar, vi que o título do primeiro capítulo era “As iras do Coração de Jesus”.

O capítulo sustentava a tese de que Nosso Senhor, tendo a natureza humana perfeita, não podia deixar de ter iras também. O livro indicava os episódios da vida de Jesus nos quais Ele manifestou essas iras. E concluía que uma devoção ao Coração irado de Jesus teria todo o cabimento teológico.

Mas eu não ouvi falar de um caso no mundo de devoção ao Coração irado de Jesus, que pedisse aos outros corações a ira santa tão necessária para bem conduzir o bom combate.

Vê-se nisso um combate à combatividade que, por silêncio e ablação, criavam um ambiente devocional falso. Ora, esse silêncio é próprio a despertar as iras do Coração de Jesus.

Como reparação por esses equívocos, poder-se-ia rezar, por exemplo, a seguinte jaculatória: “Ó Coração irado de Jesus, comunicai-me a vossa ira santa, de maneira a fazer de mim um competente batalhador por Vós.”

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 24/4/1994 e 22/1/995)