Nada é tão necessário, útil, doce e glorioso!

Na Idade Média, uma homilia sobre a Cruz e os novíssimos do homem comovia as pessoas, e muitas vezes os pecadores mudavam de vida. Entretanto, a Revolução instaurou nas almas tal forma de dureza, de frieza, que em nossos dias os homens não se interessam por esses temas fundamentais.

 

Continuação dos comentários sobre a “Carta-circular aos Amigos da Cruz”, de autoria de São Luís Maria Grignion de Montfort(1).

Se Deus nos tratasse apenas com justiça, mereceríamos o Inferno

[20] “Crucem”, a cruz; que ele a leve, pois nada existe que seja tão necessário, tão útil, tão doce ou tão glorioso quanto sofrer alguma coisa por Jesus Cristo.

Então, necessário, útil, doce e glorioso; são quatro proposições. São Luís Grignion vai começar por provar como é necessário.

  1. a) Nada tão necessário — para os pecadores!

[21] Com efeito, queridos Amigos da Cruz, sois todos pecadores; não há um só dentre vós que não mereça o Inferno, e eu mais que ninguém. É preciso que nossos pecados sejam castigados neste mundo ou no outro; se o forem neste, não o serão no outro.

Essa afirmação de que todos nós mereceríamos o Inferno pode parecer uma demasia, uma coisa maluca e, entretanto, não é. Ela se baseia na ideia de que nenhum homem é capaz, por si mesmo, de corresponder à graça de Deus, constantemente, durante a vida inteira. Não se trata aqui da possibilidade do homem agradar a Deus com a graça, mas é uma outra ideia: se a graça for dada ao homem parcimoniosamente, apenas a graça suficiente, ele faz dela um tão mal uso que acaba desmerecendo-a e, portanto, perde-a, e por isso merece o Inferno. Nesse sentido, só quem não teria merecido o Inferno seria Nossa Senhora, porque Ela, em todos os dias de sua vida, correspondeu de um modo perfeito às graças que Deus lhe dava. Então, isto coincide com a metáfora apresentada por São Luís, segundo a qual todo homem é como o sapo, a serpente, o porco(2).

Então, é coerente que ele ache que todos os homens mereceriam o Inferno se Deus os tratasse, não com misericórdia, mas apenas com justiça. Essa noção é fundamental numa visão contrarrevolucionária das coisas, como é fundamental na própria doutrina católica.

Trata-se da compreensão da maldade fundamental do homem e, portanto, de como devemos viver de pé atrás em relação aos outros, e em relação a nós mesmos. E isso vale também para os santos. Por essa razão, São Luís de Montfort diz que ele mesmo, se não fosse a misericórdia de Deus, teria ido para o Inferno.

Somos filhos da misericórdia

Alguém objetará: “Mas, Dr. Plinio, isso não está em contradição com as palavras de São Paulo, antes de morrer: ‘Combati o bom combate…’?(3)” A resposta é muito simples: não está nem um pouco em contradição. São Paulo não diz que ele conseguiu combater o bom combate e fazer o percurso todo da pista por mera justiça de Deus. Ele faz tal afirmação, mas sem entrar na indagação. É claro que o conseguiu pela misericórdia. Se Deus não tivesse sido misericordioso, ele não conseguiria preencher as condições que lhe davam, em justiça, o direito ao Céu. De maneira que o Paraíso é devido, em justiça, à alma que morre bem, mas é por causa da misericórdia que a alma morre bem, de maneira que todos nós somos filhos da misericórdia, e com a mera justiça nós nos perderíamos.

A esse propósito é preciso dizer — eu insisto um pouquinho nesse ponto — que não é uma doutrina muito esplanada, em geral. Creio que vale a pena desenvolver esse assunto. A doutrina que não se ensinava, mas ao menos se insinuava no meu tempo de aluno de colégio, era essa: Deus me dá a graça suficiente. Eu correspondendo inteiramente à graça — o que está inteiramente em meu poder — obtenho, em justiça, mais graças. Assim, vou merecendo do Altíssimo promoção e mais promoção, até o estado em que deverei ficar quando eu morrer. E aí eu me apresento perante Deus com um sorriso, de igual a igual, e com um cheque na mão. Quer dizer: “Eu fiz, eu mereci, agora cumpra sua palavra, honre sua promessa, porque realizei o que era de minha parte”.

Isso não é verdade. Eu sou filho da misericórdia. Com a graça suficiente — que é suficiente mesmo! — eu poderia corresponder bem; mas é certo que não vou corresponder, e fico, portanto, em débito perante Deus. E se não houver uma intervenção contínua da misericórdia, a restaurar aquilo que usei mal, não vou para o Céu. E isso comanda as minhas orações com o Criador. É um colorido que entra em todas as perspectivas de minhas relações com Deus. Estou continuamente precisando da misericórdia d’Ele. E é por isso que se veem os maiores santos morrerem, recomendando-se à misericórdia do Altíssimo. Não é por um ato de humildade.

Quer dizer, se no fundo de minha cabeça eu penso que vou me salvar por justiça mesmo — e me impondo à justiça de Deus, mas, em última análise, vou ser humilde e direi ao Criador que tenha compaixão de mim —, estou errado. Deus precisa ter compaixão de mim para que eu me salve, senão não me salvo. Ou seja, a salvação é uma obra da misericórdia de Deus.

Misericórdia e espírito conservador; o papel de Nossa Senhora

Alguém poderia perguntar: “Compreende-se que a justiça tenha fundamento em Deus, mas que fundamento tem no Criador a misericórdia?”

Não sei se os presentes neste auditório se lembram de uma conferência, na qual eu mostrava que a virtude da misericórdia e o espírito conservador são coisas conexas. Todo artista, por exemplo, gosta de conservar as suas obras de arte porque são reflexos dele; de maneira que, se uma delas se estraga, ele por amor a si mesmo trabalhará para conservar essa obra de arte. Ora, cada um de nós é uma obra de arte irrepetível de Deus. E Ele, por amor ao plano que teve ao criar aquela obra de arte, condescende em restaurá-la, e nisso está a misericórdia do Criador. Não é um direito da obra de arte ser restaurada por Ele.

E é por isso que Deus usa para conosco de um espírito conservador, na misericórdia. A misericórdia e o espírito conservador são a mesma coisa. E o homem, querendo que tudo que existe e possa continuar a existir, continue a existir, é conservador; quer dizer, essa espécie de amor a tudo quanto existe é uma perfeição, que no homem é análoga à perfeição de Deus enquanto misericordioso. De maneira que o verdadeiro misericordioso é conservador; e o verdadeiro conservador é o homem de misericórdia. Essas são noções conexas e que dão a ideia da misericórdia divina. É dessa misericórdia que eu vivo; não vivo da justiça de Deus.

Aí também se compreende melhor o papel de Nossa Senhora. Porque a misericórdia é um dom. Se é preciso ter esse dom, deve-se pedi-lo. Mas só poderei ser atendido por misericórdia. Como posso obter misericórdia se eu não pedir? A solução é rogar a Nossa Senhora, cuja oração é perfeita e imaculada, que reze por mim. E, se Ela rezar por mim, poderei ter certeza de que serei atendido. Então, Nossa Senhora é a ponte entre Deus e os homens; é o canal da misericórdia d’Ele; uma pessoa que o Altíssimo criou para que a misericórdia d’Ele se realizasse de um modo esplêndido. Ela é Mãe de misericórdia.

É melhor sermos castigados nesta vida do que na outra

Compreendemos, assim, como toda a nossa vida espiritual é filha da misericórdia. E uma vida espiritual que faça abstração disso se torna insuportavelmente pesada, dura, fria. Se tivermos apenas a ideia de um Deus justo em relação a nós, é-nos impossível amá-Lo. Precisamos compreender que Ele é um Deus misericordioso, que condescende conosco, tem pena de nós, perdoa as nossas faltas. É essa ideia de Deus misericordioso, que São Luís Grignion inculca e está subjacente nesse trecho.

Então, diz ele que é melhor sermos castigados nesta vida, do que na outra. Portanto, as cruzes afastam de nós o Inferno.

Se Deus os castigar neste mundo de concerto conosco, sua punição será amorosa. Quem há de castigar será a misericórdia, que reina neste mundo, e não a justiça rigorosa; o castigo será leve e passageiro, acompanhado de atenuantes e de mérito, seguido de recompensas no tempo e na eternidade.

Quando formos julgados no fim do mundo, termina o reino da misericórdia e começa o da justiça. As pessoas serão depois enviadas para o Inferno ou para o Céu, de acordo com o “veredictum” final, que é da justiça. Ora, afirma São Luís, se nós formos castigados neste mundo — ainda não é o reino da justiça, mas da misericórdia —, então, virão mil cruzes, mas consentidas por nós, com atenuantes, com mil provas de amor; enquanto que no Inferno o tormento é eterno, que nem sequer merece o nome de cruz.

[22] Mas, se o castigo necessário dos pecados que cometemos for reservado para o outro mundo, a punição caberá à justiça vingadora de Deus, que leva tudo a fogo e sangue! Castigo espantoso, “horrendum”, inefável, incompreensível: “quis novit potestatem iræ tuæ”? — Quem conhece o poder de tua cólera?(4) Castigo sem misericórdia, “judicium sine misericórdia”(5), sem piedade, sem alívio, sem méritos, sem limite e sem fim.

É o castigo do Inferno.

“Sim, sem fim: esse pecado mortal de um momento, que cometestes, esse pensamento mau e voluntário, que escapou a vosso conhecimento(6), essa palavra que o vento levou, essa açãozinha contra a Lei de Deus, que durou tão pouco, serão punidos eternamente, enquanto Deus for Deus, com os demônio no Inferno, sem que o Deus das vinganças tenha piedade de vossos soluços e de vossas lágrimas, capazes de fender as pedras! Sofrer para sempre sem mérito, sem misericórdia e sem fim!

Ele coloca esta antítese: os sofrimentos desta vida e os sofrimentos do Inferno.

O Purgatório

[23] Será que pensamos nisso, queridos irmãos e irmãs, quando sofremos alguma pena neste mundo? Como somos felizes por podermos trocar tão vantajosamente uma pena eterna e infrutífera por outra passageira e meritória, carregando nossa cruz com paciência!

Quantas dívidas temos a pagar! Quantos pecados temos, para cuja expiação, mesmo após amarga contrição e confissão sincera, será preciso que soframos no Purgatório durante séculos inteiros, porque nos contentamos, neste mundo, de penitências leves demais!

Então, ele passa a falar do Purgatório.

Ah! paguemos neste mundo, de forma amigável, levando bem nossa cruz! Tudo deverá ser pago rigorosamente no outro, até o último ceitil, mesmo uma palavra ociosa(7). Se pudéssemos arrebatar ao demônio o livro de morte, onde anotou os nossos pecados todos e a pena que lhes corresponde, que grande “debet”(8) verificaríamos, e como nos sentiríamos encantados em sofrer durante anos inteiros neste mundo, para não sofrer um só dia no outro!

Esse é um pensamento que a pessoa deve ter quando sofre. A maior parte dos homens, quando tem um sofrimento, sofre inconformada; não se lembra do Inferno, do Purgatório. Entretanto, a pessoa deve dizer: “Como me alegro de sofrer! Estou padecendo agora, mas esse sofrimento vai me tirar outro, mil vezes pior. Esse padecimento, por pior que seja, afinal de contas acaba. E o sofrimento nesta Terra é menos ruim do que no Purgatório, para não falar no Inferno”.

Então, com espírito de Fé, com amor, devemos abraçar esse pensamento, e cada vez que sofremos precisamos aceitar de bom grado esse sofrimento.

Modorra do homem contemporâneo diante dessas verdades

A respeito disso, há uma coisa curiosa e que faz parte da crise religiosa do Ocidente. Quando um pregador dizia coisas dessas, na Idade Média, as pessoas se comoviam, os pecadores muitas vezes se arrependiam, mudavam de vida. Eu não sei o que aconteceu, o que caiu sobre o gênero humano, mas essas verdades tão fundamentais — que todos nós deveríamos amar — encontram uma espécie de modorra no homem contemporâneo, e mesmo nos homens piedosos. Enquanto que os santos meditavam essas verdades com delícias.

E eu tenho uma certa vergonha de desenvolver isso aqui, com a sensação de estar tratando de uma coisa tão banal, tão sabida, que as pessoas se espantam ao ouvir o que estou dizendo. Entretanto, se formos analisar, o proveito que tiramos para a nossa vida espiritual é muito bom. “Meditai em vossos novíssimos e não pecareis eternamente”(9). Os novíssimos do homem, as últimas coisas que lhe sucederão, são quatro: a morte, o Juízo, o Céu e o Inferno.

Não sei o que há, mas a meditação sobre a bem-aventurança do Céu, a visão beatífica, com todos os mil enlevos que deveriam decorrer daí, tudo isso acabou ficando como fonte estancada; procura-se tirar dela alguma água para a vida espiritual, porém as almas não se abeberam nem se dessedentam com isso.

Entretanto, pensamentos às vezes menos importantes, menos nobres, produzem um efeito maior do que o causado por tal meditação.

Ora, para quem tem Fé não é razoável que isso seja assim. O que pode mover mais alguém a aceitar a cruz do que isso? Entretanto, acaba sendo — e tenho impressão que os presentes neste auditório sentem isso na própria pele — que isso não move as pessoas; parece que a fonte está seca, se estancou.

Vemos aqui o mistério da dureza que a Revolução fez cair sobre os homens. Porque essa atitude de alma do homem contemporâneo é a mesma com relação à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, à meditação sobre o amor misericordioso d’Ele, sobre a Sagrada Eucaristia. Por exemplo, Deus está na Sagrada Eucaristia, continuamente oferecendo reparações por nós, mas não há quase ninguém que vá adorá-Lo.

Essas meditações dizem pouco às pessoas. Entretanto, isto é o melhor suco, o melhor leite da vida espiritual, a flor de trigo da piedade. São os pensamentos inspirados por Nosso Senhor para nos salvar. Nossa Senhora ditou a Santo Inácio, em Manresa, meditações a respeito desses temas sobre os quais acabo de falar. Entretanto, qualquer coisa secou.

Cogitações ao passar em frente da Igreja da Consolação, à noite

Às vezes, por exemplo, quando estou voltando à noite de um restaurante, o automóvel passa em frente da Igreja da Consolação e a pequena distância das janelas da capela do Santíssimo; ali dentro está o tabernáculo. E faço pequenos comentários: que maravilha deve estar se passando dentro dessa capela!

É uma capela qualquer do Santíssimo Sacramento, à noite, no auge da solidão. Pensar nas coisas inenarráveis que Nosso Senhor está dizendo para as outras Pessoas da Santíssima Trindade! Nos Anjos e nos Santos que estão ali presentes, pelo menos pela atenção e pelo espírito, adorando-O! E aquela lamparina vermelha com a luzinha acesa; aquele silêncio próprio de capela do Santíssimo, onde os menores estalidos se ouvem, os ruídos da rua passam cortando o ar, como se fossem profanações, mas cessam também e continua um longo silêncio grosso de abandono, de recolhimento, de soledade — que coisa magnífica a soledade! É um silêncio assim que impregna a capela.

Como eu gostaria de poder abrir àquela hora da noite a igreja, entrar sozinho na capela do Santíssimo Sacramento e ficar o resto da noite rezando lá. E o ideal é ir sozinho, sem mais ninguém, para termos a sensação de que Nosso Senhor está ali só para nós, de que Ele não presta atenção em mais ninguém, e de que penetramos, a bem dizer, no Coração de Jesus. E ter ali uma imagem de Nossa Senhora, diante da qual possamos rezar. E até às primeiras claridades da aurora, ficarmos envoltos nesse mistério, nesse fluxo de orações que há ali dentro. Isso é uma coisa verdadeiramente celeste. Ainda que seja algo insensível, sabemos que é assim.

Alguém dirá: “Mas Dr. Plinio, que diferença faz noite e dia? O senhor pensa que Nosso Senhor adora menos ao Padre Eterno durante o dia do que à noite? E que nossos miseráveis barulhinhos terrenos são capazes de perturbar a Ele?”

Certas coisas não se sofismam assim… Por exemplo, São João Batista e Nosso Senhor iam para o deserto rezar. Deus está tão presente nos desertos quanto nas cidades. Mas há uma graça da solidão total no deserto, onde se tem a impressão de que o Altíssimo, na solidão d’Ele, se manifesta melhor ao homem que está só. E que o Criador abraça o homem, e o homem como que pode também abraçá-Lo melhor. E este é exatamente o deserto eucarístico, que é uma capela do Santíssimo Sacramento à noite.

E se não fosse chamar a atenção, eu teria vontade de, numa noite, mandar parar o automóvel bem junto à parede da capela do Santíssimo, e ficar adorando Nosso Senhor do lado de fora. São coisas tão verdadeiras e tão evidentes!

Se prestarmos atenção nos automóveis que passam por ali a toda velocidade, podemos perguntar qual é a alma que se lembra de Deus e seja capaz de fazer, pelo menos, uma jaculatória ao Santíssimo Sacramento.

Pior! Muitas daquelas pessoas estão voltando do pecado, ou indo para o pecado; vão descansar para pecar, ou descansar do pecado. E no meio daquela praça, com aquele trânsito todo, está a Igreja da Consolação; então, o abandono de Nosso Senhor fica ainda mais pungente!

Por que isso ocorre? Porque essas coisas acabaram um tanto gastas. Mas o gasto não está nelas e sim em nós, porque elas são insondáveis, eternas. Por que isto está gasto em nós? Que mistério houve para que essas coisas sumamente tocantes tenham deixado de tocar?

E é claro que este gasto é o resultado do pecado de Revolução. Quer dizer, a Revolução instaurou na alma humana uma forma de dureza, de frieza, que gastou essas coisas e fechou as almas para isso.

(Continua no próximo número)

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 26/8/1967)

 

1) Outros trechos comentados por Dr. Plinio encontram-se nos números 109, 112, 113, 114, 115, 116, 118, 122, 123, 127, 184, 186 desta Revista.

2) Cf. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 79.

3) 2Tm 4, 7.

4) Sl 89, 11.

5) Tg, 2, 13.

6) Nota da edição de 1954: Isto é, que esquecestes por falta de exame.

7) Mt 12, 36.

8) Do latim: dívida.

9) Eclo 7, 40.

Castidade comunicativa

São Casimiro era tão casto, que comunicava aos outros o desejo de serem puros. É bonito este fato, porque muitas vezes encontramos pessoas puras, mas a quem a Providência não deu esse dom de tornar comunicativa sua pureza. Sabe-se que são puros, admira-se, presta-se homenagem, mas sua virtude não é comunicativa.

Ora, uma das melhores formas de fazer apostolado é ter essa virtude comunicativa que passa de uma pessoa a outra como que por osmose. Às vezes isto acontece, e castidade comunicativa é um dom enormemente precioso para se fazer apostolado.

Mas como Deus está irado com o mundo, dons como esse se tornam raríssimos. Por isso precisamos recorrer a um São Casimiro no século XV para compreender o que é a pureza convidativa e irradiante, a qual atrai as pessoas para a virtude que é o contrário da impureza, da voluptuosidade também conquistadora, a qual arrasta para o mal.

A virtude arrastando para o bem é algo que pouco se vê em nossos dias e, no entanto, dá tanta glória a Nossa Senhora!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/3/1967)

São Romão, doçura e força de oração

Pregar apenas a misericórdia e silenciar a justiça é tão errado quanto fazer o contrário, pois ambas as virtudes são necessárias para as almas. Dois irmãos santos, Romão e Lupicino, nos deram significativo exemplo de como a justiça e a misericórdia se harmonizam.

 

Em 28 de fevereiro, comemora-se a festa de São Romão, abade. A ficha biográfica que irei comentar é tirada do Pe. Édouard Daras, “Les vies des Saints”(1).

Chuvas de pedras cortantes provocadas pelo demônio

São Romão, nascido em 399 na Borgonha, foi fundador de um famoso convento na região do Franco Condado. Desde jovem retirou-se para a solidão, sendo mais tarde seguido por seu irmão, São Lupicino. Conta-se que levavam uma vida que consideravam de paz e felicidade, quando o demônio resolveu interrompê-la. Cada vez que se punham de joelhos para rezar, o demônio fazia cair sobre eles uma chuva de pedras cortantes, que os feria e impediam de continuar. Ambos resistiram por algum tempo, mas vendo que nada conseguiam decidiram abandonar o retiro. Ao chegarem a uma aldeia, foram hospedados por uma pobre mulher, que lhes perguntou de onde vinham. Não sem alguma vergonha, narraram toda a verdade.

“Vós deveríeis, disse a mulher, lutar corajosamente contra o demônio e não temer os embustes e ódio daquele que tão frequentemente foi vencido pelos amigos de Deus. Se ele ataca os homens, é por medo de que eles, por suas virtudes, subam ao lugar de onde a perfídia diabólica os fez cair.”

Ao saírem dessa casa, consideraram a sua fraqueza e quão pouco haviam combatido. Voltaram sobre seus passos e, com orações e paciência, venceram o inimigo.

Dois métodos diferentes no trato com as almas

Mais tarde, tendo já fundado numerosos mosteiros, os dois irmãos visitavam essas fundações com frequência. São Lupicino era severíssimo, não perdoando o menor deslize. São Romão, ao contrário, era bem mais misericordioso.

Aconteceu que São Lupicino, visitando um convento na Alemanha, encontrou na cozinha excessiva quantidade de legumes e peixe. Escandalizado com aquilo, fez cozinhar tudo junto para castigo dos monges. A comida saiu tão repugnante que doze religiosos deixaram a casa, não suportando a penitência. São Romão teve uma visão sobre esse acontecimento, e quando Lupicino voltou, disse-lhe:
— Meu irmão, é melhor não visitar as ovelhas do que ir vê-las para dispersá-las.

Resposta de São Lupicino:
— Não tenhais pena, meu caro irmão. Não é preciso purificar o campo do Senhor e separar a palha do bom grão? Os que foram eram doze orgulhosos em quem o Senhor não mais habitava. São Romão concordou. Mas daí em diante chorava tão profundamente, magoado com a partida dos monges, que Deus, atendendo suas preces, reconduziu mais tarde os doze recalcitrantes ao convento. E a ele se apresentaram voluntariamente para fazer penitência.

Num ambiente sereno, surge a provação

Aqui há uma série de fatos interessantes para considerar, e cada um deles, portanto, vai ter um comentário à parte. Em primeiro lugar, nos encontramos em face dessa admirável floração de santos, depois da queda do Império Romano do Ocidente. Vemos aqui dois irmãos que levam uma vida de grande santidade. E aparece esse episódio deles residindo no ermo, sem amolação nenhuma, sem ver nada das coisas da cidade, nem do mundo, numa natureza amena, bucólica, vivendo felizes.

Então podemos imaginar, nas horas de oração, os irmãos ajoelhados bem direitinho, um ao lado do outro — assim é que os representaria uma iluminura —, e rezando a Nossa Senhora que aparece no alto, sorrindo para eles. Esse seria o primeiro ato. É o ato da felicidade eremítica e bucólica desses dois irmãos que vivem numa atmosfera terrena, encimada por um céu parecido com o ar diáfano daqueles céus azuis de Fra Angelico, o qual poderia perfeitamente ter pintado essa cena.

Vem depois a provação. O demônio tem ódio deles e o modo de castigá-los também é muito interessante: a chuva de pedras cortantes. Sobre eles, tão bonzinhos, tão direitinhos, cai uma chuva medonha de pedras cortantes que os molesta. Os irmãos então procuram rezar direito, mas afinal de contas as pedras caem em tal quantidade que eles resolvem sair.

Lição de uma virtuosa mulher

Por fim, surge uma mulher, a qual é, naturalmente, uma boa mulher, que habita no campo, numa choupana. Ela perdeu o marido e tem apenas um filho, que é monge e reside num lugar distante, e de quem, de vez em quando, recebe uma carta; essa mulher é reumática, tem uma perna inchada, mas reza o tempo inteiro e vive só para Deus. Assim poderíamos imaginar a mulher, pois esse era o ambiente pitoresco da época, o modo pelo qual a graça operava. Não é lenda. É o estilo da ação de Deus naquele tempo.

Então a mulher, provada em dores e cheia de sabedoria, recebe os dois. Naturalmente, primeiro oferece a eles alguma coisa para comer. Ajuda a curar alguma ferida provocada pelas pedras. Depois pergunta o que há. Fora está chovendo torrencialmente, eles estão abrigados na casinha da mulher e contam para ela o ocorrido. A mulher suspira, põe os olhos num Crucifixo e diz: “Irmãos, mui errados andais!” E fala a verdade.

Compungidos, eles passam a noite em prece. Na manhã seguinte, voltam para o ermo e vão lutar contra o demônio. São dois cavaleiros, dois guerreiros contra o demônio, que emergem dessa atmosfera azul-claro, rosa-claro, ouro-rutilante, e que a partir desse momento se transformam em lutadores varonis. É a formação deles que assim se enuncia.

Severidade e brandura

Depois se saltam vários anéis intermediários, e eles nos aparecem numa posição pomposa, majestosa. São dois santos veneráveis, cuja fama de santidade reuniu em torno de si vários monges que lhes obedeciam. Eles são patriarcas, provavelmente já de barba branca, mais sábios e mais provados na vida do que aquela mulher, derrotaram os demônios, enfrentaram os adversários, fizeram viagens perigosas passando por lugares onde havia feras, pontes mal construídas, bandidos, tempestades, tudo enfrentaram por causa de Deus Nosso Senhor. Os dois estão no zênite da vida deles. Porém, mais uma vez, um episódio entre eles se dará.

Há certa medida de severidade e de brandura que deve ser utilizada de acordo com o sopro da graça, e com o modo pelo qual Deus Nosso Senhor quer conduzir os espíritos. Existem certos espíritos que só sabem fazer bem por meio da severidade suma, e realizam um bem admirável. Há outros espíritos que, dentro da medida do razoável, quase se diria que estão no extremo oposto: são muito brandos, muito suaves, e fazem bem pela sua brandura e suavidade. Uns imitam mais Nosso Senhor enquanto expulsava os vendilhões do Templo; outros O imitam mais enquanto perdoava Santa Maria Madalena.

De qualquer forma, ei-los que começam a governar esses mosteiros. E um deles, São Lupicino, muito severo, muito duro, vai ao mosteiro e faz o que todos os instintos de minha alma me pediriam para fazer, se estivesse em situação análoga: “Isso aqui não está direito? Está bem, eu vou ensinar.” É reto, rápido, não faz os outros perderem tempo, resolve as coisas diretamente e resolve mesmo. Erradica e põe fora. Está acabado.

Mas exatamente a Igreja é multíplice, e São Romão, o qual tinha o espírito diverso, começa a lamentar o que fez São Lupicino.

Notem a sutileza e o conteúdo teológico interessantíssimo do fato: São Romão começa a lamentar o que realizou São Lupicino e lhe faz uma censura. Este dá uma resposta à sua maneira, esplêndida, e explica tudo. São Romão dá um suspiro e concorda, teve boa-fé. Isso é verdade.

A justiça e a misericórdia se oscularam

Mas a Providência quis que a misericórdia não saísse derrotada. E onde São Lupicino tinha feito bem em expulsar, São Romão fez bem em pedir que os monges voltassem. Este se pôs a chorar. Vê-se, então, o velho com as barbas brancas numa atitude enternecida, pensando naquelas almas, as lágrimas cristalinas de olhos cristalinos que correm ao longo de uma face alva e emaciada, chegam a cair no chão e enternecem o Anjo da Guarda, encontram eco diante de Nossa Senhora, a qual, por sua vez, tem sempre eco diante de Deus. E Maria Santíssima pede pelos monges.

Resultado: o pessoal, que São Lupicino com tão boa vassoura varrera, volta. Mas não regressa como era quando foi varrido. Volta emendado por uma ação excepcional da graça, uma ação que está para além das vias normais da graça; que não é o corretivo de São Lupicino, mas é uma bela superação desse santo. A graça conseguiu a conversão daqueles que a justiça, a tão bom título e tão oportunamente, tinha castigado.

A justiça e a paz se oscularam, diz o Salmo(2). Aqui se poderia dizer que a justiça e a misericórdia se oscularam. E termina assim, num encantador “happy end”, esta ficha.

Que São Romão nos consiga um pouco dessa candura de alma; que no interior de nossas almas haja um pouco desse rosa-claro, desse verde, desse florilégio que é tão extraordinariamente agradável para carregarmos a virtude. E que tenhamos a compreensão dos métodos de São Lupicino, e não apenas a ternura para com os modos de agir de São Romão. Que ambos nos façam parecidos com eles. Que São Lupicino nos dê toda a sua braveza. E São Romão nos conceda sua doçura com sua força de oração; porque, sem sua força de oração, nada faria com sua doçura.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/2/1967)

1) Cf. DARAS, Édouard. Les vies des Saints. Volume II. 7ª edição. Paris: Louis Vivès, 1872. p. 465-471.
2) Cf. Sl 85, 11.

A obediência e o espírito de epopeia

A virtude da obediência faz com que o homem vença a si mesmo. Quem pratica essa virtude na perfeição adquire o espírito de epopeia, pronto a enfrentar os maiores obstáculos.

Temos para comentar uma ficha tirada do livro de Emanuel Dalzon, “La Vie des Saints”, a respeito de São Dositeu.

Conversão a partir de uma terrível ameaça do Inferno

Este santo, cuja vida é pouco conhecida, viveu nos primeiros séculos da Idade Média, sendo um exemplo perfeito de santidade conquistada pela renúncia à própria vontade. Educado de forma mundana, talvez tivesse se desviado do reto caminho se um acontecimento não o levasse à conversão.

Percorrendo um dia a Palestina, viu em Getsêmani um quadro que representava o Inferno. Contemplava-o aterrorizado, quando uma Senhora de surpreendente majestade e beleza lhe apareceu, explicando-lhe o que via. Impressionado com a terrível ameaça do castigo eterno, Dositeu perguntou à desconhecida o que ele deveria fazer para nele não cair.

“É preciso — respondeu a Senhora — fugir do pecado e rezar”. E desapareceu.

O jovem buscou o mosteiro dirigido por São Sérido, um dos mais florescentes da Palestina. O abade entregou o neófito a um de seus melhores religiosos, São Doroteu. Este percebeu logo que o  noviço não fora chamado para acompanhar as austeridades do convento, então decidiu inspirar-lhe o sacrifício completo da vontade.

Começou por ensinar-lhe o jejum gradativamente. Depois, encarregou-o da enfermaria. Nesse trabalho, Dositeu irritava-se às vezes com os enfermos.

Era então tomado de enormes escrúpulos. Ia para a cela chorar, e aí permanecia dias se São Doroteu não aparecesse e o acalmasse. Imediatamente o santo confiava na palavra do diretor e  reiniciava o trabalho, afastando suas dúvidas.

São Doroteu nunca lhe impôs rudes penitências corporais, mas o repreendeu continuamente, humilhava- -o sempre que podia, e o obrigava a renunciar às menores coisas.

Aprendendo a renunciar à própria vontade

Um dia em que Doroteu visitava a enfermaria, o noviço perguntou-lhe: “Estais contente, meu pai, com os leitos dos doentes, em ordem e limpos?”

— É verdade — replicou o religioso — que vós sois bom enfermeiro. Mas não sei se sereis um dia bom religioso. Quando nosso Santo precisava de uma roupa, seu mestre dava-lhe o tecido para fazê-la. Mas quando ele a terminava, obrigava-o a dá-la para um de seus irmãos, e fazer outra para si.

Em certa ocasião, um monge deu a São Dositeu uma faca que ele achou muito boa para seu trabalho na enfermaria. Ao pedir permissão para usá-la, o diretor respondeu: “É assim que colocais  vossa satisfação na posse dessas bagatelas?

Quereis ser senhor de uma faca ou servidor de um Deus? Não vos envergonhais, Dositeu, de fazer de um objeto o senhor de vosso coração?”

E o obrigou a desfazer-se do presente. São Dositeu gostava muito de ler as Escrituras, e sua alma muito reta fazia com que compreendesse trechos muito obscuros. Mesmo assim, quando tinha dúvidas, recorria a seu superior que não perdia ocasião de repreendê-lo rudemente e não responder às suas perguntas. Um dia, em vez de atendê-lo, enviou-o a São Sérido. O abade, já prevenido, olhou o discípulo severamente.

“Não vos compete — disse — ignorante que sois, falar sobre coisas tão elevadas. Refleti antes em vossos pecados e na vida mundana que levastes.” E o despediu com duas bofetadas. E Dositeu,  após essa humilhação, voltou tranquilamente ao seu trabalho.

Após cinco anos de noviciado, o Santo adoeceu gravemente dos pulmões. Recebendo a visita de São Barnassufo, um dos religiosos mais eminentes do convento, como estivesse sofrendo demais, implorou ao visitante:
“Meu pai, ordenai-me que morra, porque não posso mais”.

“Tenha ainda paciência” — respondeu o ancião. Após alguns dias, pediu novamente Dositeu: “Meu pai, não posso mais viver”.

E o religioso respondeu: “Ide então agora em paz, meu caro filho, apresentar- vos ante o trono da Santíssima Trindade”. Então, diz a vida dos Padres do deserto, esse bem-aventurado filho da  obediência adormeceu o sono dos justos, no seio desta bela virtude que fora como sua mãe no caminho da perfeição.

Modo errôneo de escrever hagiografias

Creio que para a grande maioria dos meus ouvintes essa vida deve ser rica em conotações um pouco estranhas. Com efeito, vemos aqui um jovem que olha para um quadro representando o Inferno, e temos a impressão de um rapaz um pouco embasbacado, tímido, que se assusta com qualquer coisa. Vem uma linda Senhora e aparece para ele. Extasiado e perplexo, ele fala com a  Senhora que, em seguida, desaparece. Então, o jovem, todo tímido e fugitivo,  vai correndo para um convento e se mete ali dentro.

Não é um homem que enfrenta a vida. No convento, ele se introduz num casulosinho, numa coisinha, numa vidinha que é a vidinha interna do convento. E vai tratar de doentes.

Então há uma transposição da vida que ele levava para uma vida muito suave, muito tranquila… Toda manhã ele entra na enfermaria, onde os doentes esticados na cama o olham com alegria. Então vai dar papinha para um, remedinho para outro; ele os agrada e todos o agradam também, deixando- o tão contente! Quando acaba o serviço, ele fica esperando o almoço, alegrinho,  satisfeito até à tarde.

Depois trata de mais uns doentinhos e acabou-se. Ele tem, é verdade, uns superiores que assustam um pouco. O episódio das bofetadas, por exemplo, é um pouco desconcertante. Mas também é verdade que aquilo entra um pouco nas regras do jogo, ele sabe que os superiores são muito bons, que fazem aquilo para quebrar sua vontade; ele então ficou com a vontade quebradinha, um  bobinho que a gente leva pela ponta do nariz.

E depois, na hora de morrer, pediu licença para expirar; deram a licença, ele foi para o Céu e está acabado. Orientarei meus comentários no  sentido de mostrar que essas conotações são erradas,  mas não em sua globalidade. A questão é que o modo pelo qual certas hagiografias são redigidas, de fato suscita essas conotações.

Trata-se de uma biografia que não tem nada de errado, exceto o seguinte: o essencial, o essencialíssimo, aquilo que explica todo o resto e lhe confere sua beleza e sua verdadeira grandeza, vem  contado tão de passagem, quase de contrabando, que se o leitor não atinar bem para isso, a perspectiva toda da vida do Santo fica errada.

Todo verdadeiro católico deve ser pessoa de profunda reflexão

Como diz a ficha, embora fosse um rapaz de poucos estudos, São Dositeu se interessava muito pela Sagrada Escritura e considerava os seus mistérios, a ponto de, às vezes, interpretar trechos   muito obscuros com uma sabedoria que espantava, porque mesmo os melhores especialistas na Bíblia não tinham alcançado aquela interpretação.

Aqui está a chave dessa alma e a explicação dessa vida religiosa. O resto é muito bonito, mas o é por causa disto, e encontra sua explicação nisto. Isto ilumina todo o resto. O que isto quer dizer? Interpretar a Sagrada Escritura retamente, penetrando nas suas profundidades,  encontrando um sentido que não ocorre muitas vezes a exegetas, cientistas experimentados, é um carisma. Para que a pessoa tenha esse carisma, é preciso um alto grau da virtude da contemplação.

Quer dizer, que seja um espírito muito profundo, sempre voltado para a cogitação das coisas elevadas e  profundas, e cuja mente está, portanto, sempre posta a considerar tudo quanto faz do modo mais elevado, a não pensar principalmente no que realiza, mas nas grandes verdades eternas e ter o seu espírito fixado nelas.

Quer dizer, devemos antes de tudo ver nele uma pessoa que, depois de ter fixado a sua atenção num quadro representando o Inferno e ter recebido uma visão de Nossa Senhora que o confirmou na virtude do temor de Deus — que São Bento considera o começo de toda sabedoria —, com um ato de reflexão lucidíssima, compreendendo quanto as coisas do mundo são traiçoeiras, quanto elas podem levar o homem para o Inferno, resolveu, por um chamado especial, abster-se de todas as coisas da Terra para levar uma vida de contemplação.

E entrou nesse mosteiro para ser eminente e fundamentalmente um homem de contemplação como, aliás — é preciso que notem bem —, deve ser todo religioso e, acrescento mais, todo bom  católico. A vida interior de que D. Chautard fala é uma vida de contemplação, de reflexão sobre as verdades eternas e sobre as coisas desta Terra à luz das verdades eternas. E todo religioso, todo sacerdote, deveria ser, antes de tudo, um homem deste tipo de reflexão, um homem de contemplação neste sentido da palavra. Todo verdadeiro católico praticante, em qualquer função, deve ser  primeiro um homem de profunda reflexão.

No nosso caso concreto, temos uma vocação diferente da de São Dositeu e, consideradas as circunstâncias, os matizes individuais que possa haver, devemos ter continuamente diante dos olhos as verdades eternas, o problema da Revolução e da Contra-Revolução. Precisamos saber ver a virtude e o pecado; quer dizer, a Lei de Deus e a violação dessa Lei, as vias de Deus e as vias do demônio  em todos os fatos que nos cercam, desde uma nova forma de microfone até uma chuva que cai e o simbolismo que a chuva tem na ordem do universo. Tudo isso devemos considerar em meditações que não são obsessiva e exclusivamente sobre a Revolução e a Contra-Revolução,

mas que, quando se fixam sobre as coisas terrenas, têm como polo natural, espontâneo, harmônico de atração a Revolução e a Contra-Revolução.

Uma vida de altíssima contemplação

São Dositeu era um homem assim. E por causa disto ele, no convento, tratando dos doentes, levava uma vida de altíssima contemplação. E, com certeza, mil e mil vezes, cuidando dos enfermos, ele teve ocasião de refletir a respeito do simbolismo moral das várias doenças, como as enfermidades do corpo simbolizam as da alma; como, de outro lado, a saúde do corpo simboliza a da alma, qual é o valor penitencial da doença  para a formação espiritual do homem; como ela pode enobrecer, formar os caracteres, e mil outras coisas desse gênero; como as almas dos doentes, ou dos monges, se iam santificando; como eles eram chamados, quer os doentes, quer os monges, a irem se transformando para cada vez mais ficarem semelhantes a Deus, obedecendo ao preceito dado por Nosso Senhor Jesus Cristo: “Sede  perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

Tudo isso povoava o espírito de São Dositeu. E enquanto ele desempenhava a mais humilde das funções, como dar um remédio, trocar um travesseiro, aprontar uma cama limpa, não devemos  imaginá-lo monoliticamente absorto nisto, mas fazendo  tais trabalhos na perfeição, não desdenhando esta função, mas achando-a muito bela porque era uma obra de misericórdia. Contudo, longe de ficar só nisto, elevava-se aos mais altos graus da cogitação e da meditação, unindo-se com Deus Nosso Senhor.

Então, o verdadeiro perfil moral dele não é o de um bobinho que ao ser agradado fica tão contentinho, mas é o de um espírito recolhido, interior, em cujo olhar se perceberia todo um universo de  pensamento, e que, ao fazer as menores coisas, tinha em vista a grandeza a que essas coisas se dirigem, como elas de algum modo estão ordenadas a algo de mais nobre, de mais nobre, de mais  nobre, até a última perfeição que é Deus Nosso Senhor.

E é assim que devemos imaginar, na sala ou dormitório dos doentes desse convento, nosso Santo passando como uma espécie de turíbulo queimando um incenso perfeitíssimo, que elevasse todas as almas para o Céu. Assim ele deixava um sulco de recolhimento, de piedade, de vontade de sofrer, de generosidade, de conformidade com as intenções de Deus, em todos os doentes.

É desse modo que precisamos considerar este homem. Assim também o devemos observar na hora da obediência. Quando se leem essas histórias, tem-se a impressão de que são historietas. De fato são coisas sublimes. Porque não se trata de um ato isolado, de uma vez na vida de um homem um superior dizer-lhe que faça tal coisa, a qual ele não tem vontade de fazer. Estas são pequenas amostragens de uma vida inteira vivida sob a obediência, e a obediência de superiores sábios, que sabem, por causa disso, ser necessário contrariar a vontade do homem naquilo que o afasta de  Deus.

Creio ter sido São Nicolau de Flue, um santo suíço, que rezava uma jaculatória que outrora comentamos juntos: “Ó meu Deus, dai-me tudo que me une a Vós e tirai tudo que de Vós me separa.”  Esta é a obediência. O superior verdadeiro, que tem a felicidade de mandar no súdito verdadeiro — porque não basta só o superior verdadeiro —, deve a toda hora afastar do súdito as coisas que o separam de Deus, e aproximá-lo das coisas que o unem a Ele.

Despojar-se completamente do apego a si mesmo

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, haverá uma bagatela maior do que uma faca? Que importância tem tirar uma faca de um homem?” Tirar facas de um homem a vida inteira, ou coisas à maneira de  faca, de modo que sempre que se percebe que um homem tomou, ou pode vir a tomar, capricho por uma coisa dizer-lhe: — Fulano, venha cá! — Pois não, Padre Superior, o que deseja? — O que você iria fazer agora?

— Tal coisa.
— Está bom, então faça o contrário: se ia subir, desça! Embaixo eu lhe dou instruções sobre o que deve fazer.

O homem fica cinco horas embaixo esperando, sem receber as instruções, mas recolhido e sem resmungar.

Passa o Superior por lá e diz, para prová-lo:
— Oh, é verdade, você está esperando aqui! Não preciso mais de você, faça agora outra coisa.
— Pois não, Padre Superior. E sobe a escada…

Qual é o valor disso? O valor é exatamente a pessoa praticar o seguinte ato contínuo: subir ou descer, esperar ou não esperar, ter a faca ou não ter a faca, são coisas boas na medida em que me unem a Deus. E se a vontade de meu superior, que é a voz de Deus para mim, me manda fazer uma coisa, eu, que não tenho vontade própria, fazendo a de meu superior, me uno a Deus.

Quando um homem destes se levanta de manhã, ele sabe que o dia inteiro lhe vão mandar executar coisas que ele não quer. Mas ele sabe também que é Deus que está querendo.

Porque Deus o chama para o estado sublime de não ter vontade própria. E de, por causa disso, a toda hora conhecer a vontade de Deus. Isso, evidentemente, é uma verdadeira maravilha, porque significa despojar-se completamente do apego a si, e estar vivendo apenas para a vontade de Deus.

Mas, para aguentar isso, é preciso ter um espírito elevadíssimo. Não ver nisso as birras e manias de um superior, mas o desígnio da Providência, e obedecer constantemente, constantemente, constantemente.

Encontramos um exemplo admirável disso em Santa Teresinha do Menino Jesus, com aquela obediência contínua aos superiores, e uma superiora como a Madre Maria de Gonzaga… Para obter  uma licença dela, era preciso agradar o seu gato.

Santa Teresinha não agradava o gato. Mas é para compreenderem quanta injustiça de um superior é preciso aguentar, de vez em quando. Porque não é só o superior santo para o discípulo santo, mas o bonito às vezes é ver o superior não santo ridicularizando o pobre discípulo santo, e com isso crucificando o discípulo santo e levando-o para o Céu.

Há nisso uma trituração de si mesmo e um exercício de energia e de força de vontade, que tempera os homens mais fortes.

Homens capazes de derrotar a Revolução

Alguém me dirá: “Mas, Dr. Plinio, isso tem alguma relação com o espírito de epopeia que o senhor tanto admira?

Não seria muito mais razoável que esse homem fosse fazer apostolado, saísse às ruas, enfrentasse os adversários?” A única coisa razoável seria que  ele fizesse o que Deus lhe mandou fazer. E se Deus lhe deu uma atração santa e verdadeira para a vida contemplativa, é porque Ele queria que aquele homem, na contemplação, ensinasse aos outros, fizesse aos outros o admirável apostolado que é de alguém ver que alguns renunciam a tudo. Não podemos ter ideia do bem que faz a alguém, que é apegado, ver que alguns renunciam palpável e materialmente a tudo, e vivem numa vida  de renúncia contínua. Isso é um verdadeiro guindaste que leva as almas para o Céu!

Tenho notado este fato curioso: vão pessoas conversando pela rua e quando passam em frente a um convento, muitas vezes não olham; e nem dá muito para observar porque o muro é alto; e,  exceto na hora de passar diante da porta, só se vê o alto do prédio.

Mas há uma influência qualquer que parece obrigar todo mundo a falar mais baixo, a andar mais devagar, a se recolher até chegar ao outro lado. Quer dizer, há uma irradiação, uma graça que vai e volta daquilo tudo, e que unge as cercanias. Todas aquelas almas levam uma certa quietude nas paixões agitadas, depois de terem passado ali por perto.

E é apenas a carcaça, o vulto externo de um prédio que abriga uma Ordem religiosa que não se conhece, mas que se têm razões para recear que genericamente sofra dos males de que tantas outras Ordens sofrem.

São Dositeu recebeu esta vocação; portanto, era levado a cumpri-la. Mas — e isto é o que acho capital notarem —, sendo um Santo, é fora de dúvida que se a vontade de Deus exigisse a saída dele do convento para lutar contra o respeito humano, contra o mundo, contra a Revolução — que, aliás, naquele contexto histórico ainda não tinha aparecido — para lutar contra o pecado, para  batalhar de armas na mão, como um cruzado contra os maometanos, ele o faria como os homens mais vigorosos o fazem.

Como tenho certeza de que, se Nossa Senhora tivesse querido que Santa Teresinha saísse do convento para capitanear uma sublime “Chouannerie”, ela não teria estado atrás de Joana d’Arc nos  êxitos militares. Porque a alma capaz de, com profundidade de espírito, com enlevo, dominar-se a si própria, ela é capaz de tudo. E são os homens capazes de tudo que têm capacidade de derrotar a Revolução.

O espírito de epopeia nasce da vitória do homem sobre si

Por que afirmo isto? Porque quando um homem não consegue fazer o que deve, não é porque o obstáculo foi grande, mas porque ele não conseguiu vencer em si os obstáculos proporcionados àquela obra. Tomem um homem que não consegue subir uma montanha: se é um homem normalmente constituído, ele não sobe a montanha porque é alta, mas porque sua preguiça é alta. Porque se ele tem pernas e vontade de subir, sendo normalmente constituído, ele chega ao alto.

Isto se dá também com as batalhas e com as lutas de toda ordem. “Ah! eu fiquei muito acabrunhado e não pude lutar… Sabe como é… o ambiente era muito contrário…” Então me diga direito: você  não lutou, não contra o ambiente, mas contra o respeito humano que estava dentro de você, não lutou contra seu apego, sua vaidade, seu egoísmo. O segredo de sua luta era você, e como não quis lutar contra si, você diz que o adversário foi forte. Não seja hipócrita, e diga pelo menos a verdade: o adversário foi forte porque você foi fraco. A sua fraqueza é a causa de sua derrota.

Se você soubesse vencer-se com o auxílio do sobrenatural, se rezasse — e não rezou por preguiça, por espírito naturalista de que tem culpa —, se confiasse como deveria confiar, se você lutasse  contra si seria tudo completamente diferente.

O espírito de epopeia não se realiza por meio de arrancos: o indivíduo que, de repente, dá a louca e faz uma coisa extraordinária. Isto é epopeia decadente do século XV. O espírito de epopeia nasce da vitória do homem sobre si. E esta vitória o homem alcança por esta via. Deveríamos compreender bem o que é não fazer a vontade própria desde a manhã até a noite, não ter ideias esdrúxulas nem caprichos: “Agora, vou deixar esse serviço para tal hora; deram-me recado pelo telefone, mas eu esqueci porque não anotei; tal serviço deixarei para o dia seguinte…”

Por quê? Vem a resposta com a boca mole, miolo mole, dedo mole: “Ah! É porque eu achei que dava tempo…”

Precisamos estar adestrados à ideia de que devemos fazer sempre e imediatamente o dever inteiro, nunca deixá-lo para depois porque pode não dar tempo, porque pode haver preguiça. Devemos saltar como um leão em cima das obrigações desagradáveis, e fazê-las logo, desde que elas sejam inevitáveis, porque, do contrário, podemos perder o ânimo e a coragem de cumpri-las. Não se adia um trabalho só porque não se teve vontade de fazê-lo; isso é uma concessão para a preguiça. Só se adia um trabalho por causa de oração ou de saúde.

A vontade daquele que dirige os serviços aos quais estamos sujeitos é para nós a vontade de Deus. Ainda que ele esteja errado, Deus quer que obedeçamos a ele. Se compreendêssemos isto, o nosso Instituto Secular nasceria como um lírio magnífico pode nascer de um terreno abençoado. Mas, sem esse espírito de obediência, que é um espírito de luta abrangendo tudo — porque não fazer a  vontade própria é lutar em todos os campos —, estar radicado em nós, não estamos à altura do sublime ideal de um Instituto Secular. Por quê? Porque para isto não estamos ainda prontos.

Muitos me falam em preparação para os castigos prenunciados em Fátima. Se todos fôssemos homens de estar sempre nos perguntando só isto: “Qual é o sentido mais alto daquilo que devemos fazer? No que serve à causa da Revolução e da Contra-Revolução?”

E depois fizéssemos tudo por amor à causa da Contra-Revolução, e por ódio à Revolução. Se compreendêssemos que todo ato de obediência quebra o poder do demônio, lhe arranca as garras,  facilita a descida dos Anjos e transforma o aspecto da Terra, se fôssemos duros conosco no cumprimento da vontade de nossos superiores, estaríamos inteiramente preparados para os  acontecimentos  futuros. Porque o adversário jamais poderá com um punhado de homens inteiramente recolhidos e obedientes, inteiramente sobrenaturais. Esses são os homens invencíveis.

A vida de obediência faz do homem um herói

Montalembert, no prefácio da “Vida de Santa Isabel da Hungria”, conta um fato que já comentei várias vezes: um  daqueles maometanos, preso durante as guerras de Cruzadas e outras, viajando pela França, começou a observar as catedrais com aquelas torres magníficas e altivas e perguntou quem construía  esses edifícios.

Responderam que eram os irmãos  leigos de tal convento. Ele os olhou… eram homens tão humildes… E perguntou: “Mas como podem construir monumentos tão altivos homens de alma tão humilde?”

Esse maometano não tinha acertado com a solução, mas tinha compreendido o problema. A altivez perfeita, a altaneria completa e sacral como a torre de uma catedral ou de um castelo gótico dos grandes estilos, esta altaneria só as almas que  têm essa forma de humildade são capazes dela. Esses são os verdadeiros heróis das verdadeiras epopeias.

Aqui está um dado a mais para compreendermos o espírito de epopeia. Por detrás ou dentro do conceito “tempo inteiro e alma inteira”, há o seguinte elemento: vontade inteira, sem divisão, que não hesita e não vacila; que se entregou uma vez com firmeza e que frutifica na direção em que ela se deu. Esta é a raiz do espírito de epopeia. Quando se tem vontade assim não se recua diante de nada. Aquela frase de Santa Teresinha: “Para o amor nada é impossível”, diz o seguinte: Para uma alma que quer mesmo — porque amar é querer; amor não é sentimento — e a quem Deus ajuda,  nada é impossível.

Isto é o suco da epopeia. São Dositeu praticou a mais absoluta e heroica obediência, o que também é um modo de adquirir a força de vontade própria aos verdadeiros heróis das verdadeiras  epopeias.

Fazer continuamente a vontade de outros, ou seja, dos superiores para obedecer a Deus, é desapegar-se continuamente de manias, fobias, venetas e caprichos, o que supõe uma força de vontade  sobrenatural.

A vitória de um homem contra obstáculos é, principalmente, uma vitória contra si mesmo, ou seja, contra todos esses defeitos. Quando um homem não leva a cabo uma tarefa que Deus quer dele,  não é porque o obstáculo foi grande, nem porque o inimigo foi forte, ele é que foi pequeno.

Conclusão: a vida de obediência faz do homem um herói porque, vencendo-se a si próprio, com o auxílio de Deus, não há o que ele não vença. No dia em que tivermos essa plenitude de orientação   de espírito para a Revolução e a Contra-Revolução, a escravidão a Nossa Senhora, saberemos obedecer como São Dositeu, e estaremos preparados para todas as epopeias.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/2/1972)

Santo Edelberto, Rei de Kent

A história da conversão e santificação do primeiro rei católico inglês oferece a Dr. Plinio oportunidade de nos aconselhar a prática da prudência e da sabedoria semelhantes às exercitadas por Santo Edelberto, pelas quais seremos sempre capazes de escolher o bem e rejeitar o mal.

 

No dia 24 de fevereiro a Igreja celebra a festa de Santo Edelberto, Rei de Kent, na Inglaterra. Segundo nos relata o Martirológio, foi o primeiro dos príncipes dos anglos que se converteu ao cristianismo, pela evangelização do Bispo Santo Agostinho, em Canterbury, no ano de 616.

Os missionários do Papa recebidos com procissão

Sobre Santo Edelberto, diz Rohrbacher, na sua Vida dos Santos:

Em 596, o Papa São Gregório Magno enviou, sob a chefia de Santo Agostinho, um grupo de missionários à Inglaterra, então pagã. Aportando à ilha, os apóstolos fizeram saber ao Rei Edelberto de sua chegada e que lhes traziam uma mensagem de vida eterna. O soberano, que por intermédio de sua esposa já ouvira falar da religião católica, prometeu recebê-los numa entrevista pública.

Os monges chegaram em procissão, trazendo como estandarte uma cruz de prata e a imagem do Salvador pintada num quadro, entoando ladainha a Deus em prol da salvação deles e do povo pelo qual haviam se dirigido à Inglaterra. Mandou o soberano que se sentassem e eles começaram a lhe anunciar o Evangelho.

Prudente atitude do Rei Edelberto

Respondeu Edelberto: “As vossas palavras e promessas são belíssimas. Mas por serem novas e incertas, não me é dado aquiescer e deixar o que tenho observado há tão longo tempo com a nação dos ingleses. Todavia, como viestes de longe e como se me afigura perceber que desejais participar-me aquilo que julgais ser mais verdadeiro e melhor, em vez de vos opor obstáculo, vos recebemos bem e vos damos o que é necessário à vossa subsistência. Não vos impediremos de atrair para vossa religião todos quantos puderdes persuadir”.

Protegeu os cristãos, converteu príncipes e edificou igrejas

Cedeu-lhes, então, um abrigo na ilha que receberia, no futuro, o nome de Cantuária. Algum tempo depois, impressionado com o exemplo dos monges e com sua doutrina, o rei converteu-se e foi batizado. E dos vinte anos em que ainda viveu, dedicou-os à propagação da fé entre seus súditos, apoiado e exortado pelo pontífice Gregório Magno.

Protegeu os cristãos, levantou templos, fez leis admiradas e imitadas durante séculos, aplicou-se também à conversão dos príncipes vizinhos e conduziu dois deles ao cristianismo.
Faleceu Santo Edelberto em 606. Seu exemplo frutificou, pois nunca nação alguma deu à Igreja tantos reis santos quanto a Inglaterra.

Grandes figuras de fundadores da Idade Média

Aparecem-nos aqui duas grandes figuras de impulsionadores da Idade Média. Por essa breve e bela narração, podemos conceber o encontro de um insigne missionário, que é Santo Agostinho da Cantuária, com um extraordinário monarca fundador, Santo Edelberto.

Refiro-me a ele como fundador, porque da Inglaterra anterior à conversão pode-se dizer não passava senão de uma nação ainda em seus primórdios. Não havia uma civilização britânica, nem uma Inglaterra propriamente dita. Existiam apenas os germes da futura Inglaterra que, em contato com Santo Agostinho, floresceram e deram na nação em que ela se tornou posteriormente.

Magnífico preâmbulo de evangelização

A solenidade que o historiador nos descreve é, na verdade, maravilhosa. Podemos imaginar aquele rei e seus guerreiros semi-bárbaros, congregados na clareira de uma floresta, e, admirados uns, céticos outros, vêem chegando ao longe, entoando cânticos e ladainhas, Santo Agostinho com os seus monges e seguidores. Os enviados do Papa São Gregório Magno se aproximam, cumprimentam-se, são convidados a se sentar e começam as conversas entre apóstolos e futuros convertidos.

Sabedoria e simpatia

Percebe-se claramente a atitude ao mesmo tempo sábia e simpática do Rei Edelberto. Com efeito, embora se veja o coração dele tocado pela doutrina e exemplos de Santo Agostinho, ele responde com muita liberdade de movimentos e de palavras, dizendo: “Tudo o que vós nos dizeis é muito belo, mas não posso mudar de ideia tão depressa, abandonando as crenças que herdei de meus maiores. Desejo estudar melhor essas novidades que nos trazeis”.

Porém, ele o disse com notória benevolência e inclinação para aceitar o Evangelho, pois em seguida, ele agradece a Santo Agostinho e aos que o acompanhavam por terem vindo de tão longe para lhes falar, oferece-lhes um bom abrigo e lhes concede liberdade para pregarem e converterem à religião deles quantos o quisessem.

Ou seja, a posição dele em relação a Santo Agostinho revela um primeiro passo de sua alma em direção àquela verdade cujo precônio ele estava ouvindo naquele momento.

Confirmando essa sua intenção, ele facilita todas as coisas para a missão apostólica de Santo Agostinho, e este logo dá início à tarefa de evangelizar o povo e instaurar a religião católica na Inglaterra. Santo Edelberto, depois de examinar devidamente a nova doutrina, como homem consciencioso que era, abraçou-a de toda a alma. Converteu-se, tornou-se um modelo de soberano cristão, edificou igrejas, trouxe para o catolicismo outros príncipes ingleses e protegeu os súditos que foram acolhidos no grêmio da Santa Igreja Católica.

Pela ação da graça, discernimos a religião autêntica

O exemplo da conversão de Santo Edelberto nos faz deitar a atenção sobre um ponto que merece ser considerado. Trata-se de que, as condescendências primeiras que manifestamos em relação a alguma doutrina, revelam nossa simpatia: boa, quando para o bem; má, se tende para o mal.

Assim, quando alguém, de bom espírito, estranho à religião católica toma contato com esta, ver-se-á sob uma especial ação da graça, pela qual lhe é dada a possibilidade de vislumbrar — de propósito não afirmo que é dada uma certeza absoluta, mas um vislumbre — que ela tomou conhecimento da religião verdadeira. Donde, será bom todo movimento que essa pessoa faça no sentido de abraçar essa religião.

Pelo contrário, quando um católico trata com uma religião falsa, tem todos os elementos para se saber em presença de uma doutrina errônea. E, por conseguinte, todo movimento de simpatia para com tal doutrina será ruim.

Peçamos a Nossa Senhora, pelos rogos de Santo Edelberto, que nos conceda uma prudência e uma sabedoria semelhantes àquelas de que ele nos deu exemplo, e saibamos desse modo sempre escolher o bem e rejeitar o mal.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 23/2/1966)

Beato Fra Angélico, o São Tomás da pintura

“Minha maior glória foi pintar a ti, ó Cristo!” — Assim reza um dos epitáfios do Bem-aventurado Frei Angélico, cujo incomparável talento logrou estampar, em luminosos afrescos, as maravilhas celestes. Neste mês de fevereiro, Dr. Plinio nos convida a conhecer a vida e a arte deste filho de São Domingos.

 

Uma das mais altas expressões da piedade e do bom espírito na pintura e iconografia católica, retratista exímio de Nossa Senhora e dos santos, o bem-aventurado João de Fiesole, chamado Beato Angélico, é festejado pela Igreja no dia 18 deste mês. Dele possuímos alguns traços biográficos, que compõem de forma tocante sua figura de artista e varão virtuoso.

Um santo de genialidade inimitável

Guidorino di Pietro nasceu por volta de 1387, em Florença. Aos 20 anos, tendo ouvido numa noite de Natal um sermão do grande dominicano Fra Giovanni, decidiu ingressar na Ordem dos Pregadores, tendo sido admitido como noviço no convento de São Domenico, de Fiesole, e mudado seu nome também para Giovanni.

O jovem já demonstrava grande aptidão artística, mas julgou dever sacrificá-la a Deus. Seus irmãos de hábito dissuadiram-no da ideia, encorajando-o a desenvolver seus dons. Para isso, o prior ordenou logo que ele ornasse os livros de horas da biblioteca conventual.

Sua vida, inicialmente tranquila, foi alterada cerca de três vezes por mudanças de mosteiro. Na primeira ocasião por motivo do Cisma do Ocidente, pois o superior de Fiesole, o beato Jean Dominici não aceitava o Papa que a república de Florença admitira. Essas mudanças, contudo, contribuíram para o enriquecimento espiritual e artístico de Fra Giovanni, principalmente o período passado em Foligno, perto de Assis, que o santo frade visitava com freqüência.

Como bom dominicano, tinha um grande entusiasmo pela obra de São Tomás de Aquino. Conhecia-a perfeitamente, com ela nutria sua piedade e sobre a mesma, inconscientemente, lançava os fundamentos de sua própria obra futura. A “Suma Teológica” o levara a descobrir sua nova razão de viver e seu ideal estético.

É preciso três qualidades para se ter a beleza, dizia São Tomás. Em primeiro lugar, a integridade, pois as coisas inacabadas, como tais, são deformadas. Depois, a proporção de harmonias entre as partes. Enfim, a claridade, posto considerarmos como belas as coisas de cores claras e brilhantes.

E Fra Giovanni fez desta lei sua regra de ouro. Em 1418, os dominicanos de Fiesole voltaram ao seu convento e o santo frade entregava-se agora, cheio de satisfação, à sua arte. Sua primeira grande obra foi um quadro destinado à cartuxa de Florença. Seguem-se outras, cada vez mais numerosas. Os monges estão cheios de admiração. “Fra Giovanni não pinta, ele reza”, diz um deles. Sua arte com efeito era cântico, prece. Jamais tomava seus pincéis sem invocar o Todo-Poderoso, e é em estado de graça que ele colocava seus anjos nos jardins floridos do Céu. Seu anjos, tão belos e puros, dir-se-ia executarem uma música que se difundia em notas cristalinas sobre as arcadas do convento, enquanto ele lhes dava vida.

De tempos em tempos, um velho frade abria a porta da cela do pintor, olhava maravilhado e voltava sem rui­do, escondido em seu capuz. Foi esse admirador secreto e esquecido que lhe deu o nome de glória: o de Angélico. Um único religioso, antes dele, fora digno de usá-lo: São Tomás, seu guia e mestre. A partir desse dia, Fra Angélico só teve um cuidado na Terra: merecer o epíteto divino e tornar-se o São Tomás da pintura.

Em 1435, Fra Angélico foi encarregado de pintar os afrescos do velho convento de São Marcos, em Florença. Entregou-se de corpo e alma ao trabalho e, todos os dias, antes da aurora, um espetáculo tornou-se familiar aos monges de São Marcos. De pé, sobre o andaime que o fazia tocar no teto da estreita cela, um especial penitente recitava seu rosário: Fra Angélico rezava antes de começar a pintura. Ajoelhados no solo, dois jovens monges oravam também. Três pobres lâmpadas a óleo iluminavam a casa, fazendo tremer as sombras e brilhar as tonsuras. Depois, o pincel do Angélico, que se diria feito com cabelos de anjos, começava a correr e a colorir. Seu azul era inigualável. “Pinto como o céu do Paraíso”, costumava dizer sorrindo.

Fra Giovanni obteve em Roma a estima e a amizade do Santo Padre. Um dia, este o julgou digno do arcebispado de Florença, que estava vago. Mas o Angélico suplicou ao Pontífice que designasse em seu lugar um dos irmãos de sua Ordem, seu amigo, religioso cheio de ciência e humildade. E foi assim que Fra Angélico nomeou um arcebispo que seria canonizado cem anos mais tarde, Santo Antonino.

O humilde religioso, que se tornara um dos artistas mais célebres de seu tempo, ainda estava em Roma quando a doença veio surpreendê-lo no convento dos frades pregadores de Santa Maria Sopra Minerva. À tarde do dia 18 de fevereiro de 1455, o mosteiro estava envolto por um silêncio cortante. Cada religioso esperava, seja em sua cela, seja no coro, o instante em que o sino soaria para anunciar o último suspiro de Fra Angélico. Às 8 horas da noite, o breve e doloroso sinal tocou. Em alguns minutos, a cela e o corredor encheram-se de monges ajoelhados. A melodia da Salve Regina elevou-se no silêncio, enquanto o rosto de Fra Giovanni se iluminava com um calmo sorriso.

A lenda conta que, neste momento, uma lágrima deslizou sobre a face de todos os anjos dos quadros pintados por ele, sem saber que trariam a auréola de seu inimitável gênio e de sua santidade.

Uma civilização de “Angélicos”…

Trata-se de uma linda ficha biográfica, pois se refere a uma belíssima vida, tornando-se difícil até selecionar algum aspecto dela a ser comentado.

Antes de tudo, é bonito notar um dos princípios da civilização católica que aqui se afirma: o da reversibilidade dos planos.

Com efeito, toda forma de ordem, beleza e virtude que existe num plano é suscetível de ser revertida num outro. Assim, se houve um Tomás de Aquino no âmbito da filosofia, da metafísica, devem existir outros no campo da pintura, da música e demais artes.

O resumo biográfico observa muito bem que São Tomás de Aquino e o Beato Giovanni de Fiesole foram chamados, respectivamente, o Doutor e o pintor Angélicos. Seja nos dado considerar que, não fosse a Idade Média interrompida prematuramente em sua caminhada rumo a um esplendor de realizações católicas, teríamos tido “Angélicos” em vários terrenos. Pois houve guerreiros angélicos como São Luís IX e São Fernando de Castela, assim como estadistas angélicos, etc. Surgiria, então, uma ordem Angélica no mundo, sobrenatural, luminosa, coerente, profundamente lógica, que seria a da Civilização Cristã e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Uma ordem mais própria para anjos do que para homens, conduzindo estes ao Paraíso.

Sabedoria e desejo das coisas harmônicas

Por trás de tudo isso existe algo que cumpre mencionar, embora não diga respeito diretamente à obra de Fra Angélico, mas do qual esta é uma fulguração. Quer a produção de Fra Angélico, quer a de São Tomás de Aquino são manifestações da virtude da sabedoria, por onde o homem apetece a coerência e a profunda harmonia interior das coisas, muito mais do que as trivialidades ou bens menores do existir humano. Primeiro, porque sua natureza encontra plena expansão nessa harmonia. Porém, há outra razão, mais alta: essa consonância exprime algo de inefável, total, que é a melhor representação de Deus.

O Criador é simbolizado nessa harmonia de todas as coisas. E quem a ama, ama o símbolo e, portanto, o próprio Deus, predispondo assim sua alma para o Céu.

Convém ressaltar que essa harmonia não é igualitária, mas hierárquica, tendo seu cume no sublime, no ponto supremo da ordem criada, do qual todas as harmonias derivam.

Nosso Senhor e Nossa Senhora, ápices da harmonia

Assim, na ordem meramente criada, essa harmonia se revelou de forma mais perfeita em Nossa Senhora. Ela é a mais excelente entre as simples criaturas, pois, segundo essa concepção, o expoente é aquele que contém em si as qualidades de todos os outros inferiores, por ele capituladas, compendiadas e contidas. Nossa Senhora, portanto, reunia em si todas as formas e graus de perfeição de todas as meras criaturas, n’Ela elevadas a um grau de sublimidade sem paralelo.

Quer dizer, entra a Virgem Maria e nós não há somente um abismo insondável, mas uma série deles, de tal maneira Ela sobrepuja o resto dos homens.

Claro está, Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua humanidade santíssima, é o único acima de sua Mãe. Aliás, algumas revelações de Sóror Maria de Ágreda a respeito de ambos, nos dão a conhecer aspectos tocantes. Segundo a vidente, o Divino Redentor era sumamente parecido com Nossa Senhora, cujo rosto seria a transposição para um semblante feminino do semblante masculino de Jesus. Então, a perfeição de todas as perfeições tinha de ser, forçosamente, a Sagrada Face de nosso Salvador.

Por quê? Pelo olhar e fisionomia, Ele espelhava todas as formas e graus de excelência de alma possíveis no homem, além de sua natureza divina inefável. Por outro lado, sendo perfeito, o que Nosso Senhor deveria ter de mais sublime era a face, pois esta é a condensação de todas as riquezas do corpo.

Certo estou de que se alguém conseguisse conhecer essa Face em seu estado normal (não, portanto, desfigurada pelas torturas da Paixão), na sua integridade, compreenderia que as proporções de seus traços tinha de conter as regras de harmonias do universo, cuja beleza nos seria dado decifrar, em se estudando o mesmo sagrado semblante.

Uma preparação para a visão beatífica

Assim como entenderíamos outra coisa, tão raramente encontrada unida à beleza: a graça, o charme, o encanto. Freqüentemente se acham modalidades de encanto, mas separadas da verdadeira beleza. Ora, em Nosso Senhor essas qualidades se uniam na sua plenitude. E como Ele era atraente! Era a majestade mais empolgante e arrebatadora aliada à graciosidade mais meiga, afável, acessível, capaz de se fazer pequena e nos acariciar; era o charme incomparável por trás da beleza perfeita, somado à expressão de uma inteligência infinita e uma santidade transcendente. Tudo isso nos faria ter a ideia da esplendorosa fisionomia d’Ele.

No fundo, o que São Tomás entendeu e escreveu, o que o Beato Angélico discerniu e pintou, é o que no Reino de Maria se verá. Contemplar-se-á através de todas essas harmonias, algo que nos faça pensar no semblante imaculado, sacratíssimo, régio, maternal e meiguíssimo de Nossa Senhora. E naquilo para o qual não há palavras, cessam os adjetivos, tudo é silêncio e adoração reverente: a Face de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Compreendendo essas harmonias nos preparamos para entender a Sagrada Face e para a visão beatífica, por toda a eternidade.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Misericórdia

Na gloriosa corrente constituída pela Santíssima Trindade, Nossa Senhora e o Papado, este último vem a ser o elo menos vigoroso: porque mais terreno, mais humano e, em certo sentido, estando envolto por aspectos que o podem menoscabar.

Costuma-se dizer que o valor de uma corrente se mede exatamente pelo seu elo mais frágil. Assim, o modo mais excelente de amarmos essa extraordinária cadeia é oscular o seu elo menos forte: o Papado. É devotar à Cátedra de Pedro, em relação à qual esmorecem tantas fidelidades, a nossa fidelidade inteira!

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Senso da hierarquia e da Contra-Revolução

A Ordem dos Servitas é uma das mais antigas entre as especialmente fundadas para propagar a devoção à Mãe de Deus. O título de Servos ou Escravos de Maria, que os sete fundadores quiseram dar a esta Ordem, prenuncia a devoção de São Luís Grignion de Montfort, que é a da escravidão a Nossa Senhora. Quer dizer, um despojamento completo de todos os bens materiais e espirituais, e até dos méritos de nossas boas obras, presentes, passados e futuros para serem postos nas mãos da Santíssima Virgem.

Com a canonização dos sete fundadores e a aprovação desta Ordem, a Igreja indica que, em relação a Nossa Senhora, devemos ser servos.

Peçamos aos Santos Fundadores dos Servitas que intervenham na Terra e ajudem a estabelecer uma verdadeira devoção a Maria Santíssima entre os homens, e com ela o senso da hierarquia e da  Contra-Revolução.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 11/2/1965)

Revista Dr Plinio 215 – Fevereiro de 2016

Cátedra de São Pedro

Uma lenda antiga nos conta que à beira de certo lago havia um rochedo que crescia à medida que as ondas o acometiam, de sorte a nunca ser submergido, ainda nas maiores tempestades. Hoje em dia, este rochedo é a Pedra, é a Cátedra de Pedro, que tem avultado com as revoluções, zombando das heresias, crescendo em vigor à medida que seus adversários crescem em rancor.

Há já vinte séculos, ela vem espargindo água benta sobre os adversários prostrados no caminho. (…) Neste mar revolto do século XX, naufragam homens, idéias e fortunas. Só ela continua e será “via, veritas et vita”, devendo ser aceita pela humanidade, para levantar um voo salvador sobre o próprio abismo que ameaça tragá-la…

Plinio Corrêa de Oliveira (Do “Legionário”, nº 130, de 15/10/1933)

São Cirilo e São Metódio

A vocação dos irmãos Cirilo e Metódio estava intimamente ligada à evangelização e conversão do povo eslavo. Para isso dedicaram inteiramente suas vidas, obtendo assim a glória dos altares.

A respeito de São Cirilo e São Metódio, tenho em mãos o seguinte trecho extraído do “Ano litúrgico”, de Dom Gueranger(1):

Cirilo e Metódio eram filhos de um alto funcionário de Tessalônica.

Metódio obteve o governo de uma colônia eslava, na Macedônia.

Cirilo, depois de ter estudado e ensinado, recebeu as ordens, e se fez monge na Bitínia; posteriormente foi encarregado da missão junto aos cazares, que eram os bárbaros da Rússia meridional, e nessa região ele deveria exercer com seu irmão uma missão político religiosa, em 862.

Tendo o Príncipe da Morávia pedido a Bizâncio missionários que falassem a língua do país, Fócio lhe enviou, em 863, os dois irmãos. Eles compuseram um alfabeto novo, chamado ciríaco — que ainda se usa entre os russos —, e ensinaram os morávios a escrever. Depois traduziram a Bíblia e a Liturgia para o eslavônio, que era a forma de língua eslava falada por aqueles povos, e organizaram numerosas cristandades na Boêmia e na Hungria.

Em 869, chegaram eles a Roma, onde Adriano II os tratou com honra, permitiu que celebrassem a Missa em eslavônio e ordenou-os Bispos. Mas Cirilo morreu logo depois, com a idade de 42 anos. Metódio voltou à Morávia e foi nomeado Arcebispo de Cirinium, na Sérvia, onde ele encontrou uma situação muito perturbada, contrária a ele. Seus inimigos mandaram encarcerá-lo, e o Papa interveio várias vezes em seu favor, tendo São Metódio finalmente triunfado sobre seus adversários. Morreu em 877, com pesar de todos. Seus magníficos funerais foram celebrados em grego, latim e eslavônio. Pio IX autorizou, em 1863, o culto aos Santos Cirilo e Metódio.

Ponto de partida para verdadeiros baluartes católicos

Nessa síntese biográfica, há várias notas muito curiosas. Em primeiro lugar, São Cirilo e São Metódio, como irmãos, fizeram uma obra da Providência que glorifica a instituição familiar. Deus não realiza isto habitualmente, mas, às vezes, escolhe dois irmãos, ou toda uma família, para fazer determinada obra pia. Esses dois foram enviados para uma obra extraordinária: a conversão dos povos de língua eslava, dos Bálcãs, que haveriam de irradiar a Fé, preparando a futura conversão da Rússia.

Por isso a Divina Providência escolheu dois irmãos de certa categoria; um deles foi governador de Província e o outro se tornou monge.

Outra nota curiosa é a seguinte: quem mandou estes dois irmãos fazerem esta evangelização tão extraordinária foi Fócio, precisamente um dos responsáveis pelo Cisma do Oriente; antes de cair em heresia, ele ainda deu esse impulso. O apostolado deles haveria de ser, nos Bálcãs, o ponto de partida de verdadeiros baluartes católicos no Oriente.

Se até hoje há católicos nos Bálcãs, isso se deve exatamente a este “erro” estratégico de Fócio.

Dando expressão escrita à mentalidade de um povo

É interessante acompanharmos o papel desses Santos fundadores de povos, que é uma coisa tão extraordinária. Deus envia homens de sua destra para fazerem obras que constituem um povo. Ou seja, tomam pessoas que são como uma nebulosa, alguma coisa completamente anorgânica, sem vida própria, e as transformam num povo com todos os seus elementos.

Vejamos o que eles fizeram para que nascesse o povo. Primeiro ensinaram os morávios a escrever, compondo para eles um alfabeto novo, chamado ciríaco. Quer dizer, o povo era tão analfabeto que nem tinha formas de caracteres próprios para exprimir a língua que falava. Os dois Santos inventaram os caracteres adequados, e o dialeto se radicou de tal maneira que até o tempo em que foi escrita a ficha lida há pouco era usado na Rússia. Portanto, durante aproximadamente mil anos, mais ou menos, o ciríaco esteve em vigor.

Eles deram a expressão escrita do pensamento de um povo. A nota de fundador vai mais longe: São Cirilo e São Metódio traduziram a Bíblia e a Liturgia para o eslavônio; foi uma grandíssima obra literária, que fez com que aquela língua de um povo tão hostil adquirisse toda a dignidade de um idioma.

Fundadores da Liturgia eslava

Além disso, eles organizaram numerosas cristandades na Boêmia e na Hungria, ou seja, núcleos de povos vivendo como cristãos, que depois haveriam de se irradiar e cristianizar aquelas regiões. Ora, quando se trata de povos semibárbaros, cristianizar equivale a civilizar. Eles estavam dando os fundamentos da civilização — e, já de uma vez, uma civilização cristã — a povos que não ficavam apenas nos Bálcãs, mas entravam pela Europa Central, a Hungria. Vemos, portanto, a graça triunfante da Fé.

Depois eles se dirigiram a Roma para apresentar a sua inteira submissão a Adriano II, o que, naquele tempo de luta entre o Oriente e o Ocidente, era muito significativo. Foram os fundadores da Liturgia eslava, porque obtiveram do Papa a licença para rezar a Missa em eslavônio.

São Cirilo morreu em 869; São Metódio voltou ao Oriente, foi nomeado Arcebispo — é a Hierarquia eclesiástica que começava a nascer — e tornou-se objeto de uma oposição violenta. Vemos isso na vida de quase todos os fundadores: fundam a obra, têm triunfos e de repente estala uma tremenda revolta contra eles. A obra muitas vezes cai, outras vezes não, como sucedeu a São Metódio: ele venceu e morreu cercado de honra.

“Emitte Spiritum tuum”…

Para a glória de sua Igreja, ao longo da História, Nosso Senhor suscitou Santos que agiram nos campos mais variados. Porém, depois que a Revolução começou a triunfar, houve uma retração das bênçãos de Deus, e a civilização católica não prosperou. Toda a ordem temporal ficou afetada por uma espécie de raquitismo religioso; foi um castigo decorrente da Revolução.

Isso continuará até que a Revolução produza os seus últimos e amargos frutos, e a Humanidade tenha comido as bolotas dos porcos. A Providência então restaurará a Humanidade.

Nesta ocasião aparecerão os Santos fundadores que vão fundar o Reino de Maria. E na aurora desse Reino convém lembrar-nos de São Cirilo e São Metódio. Pode nos parecer muito difícil organizar o Reino de Maria; não pensemos nisso, mas procuremos compreender esse ensinamento.

Os varões da destra de Deus podem fazer tudo. São Cirilo e São Metódio não eram sociólogos, economistas, nem psicólogos, porém eram incomparavelmente mais do que isto: Santos da destra de Deus. Eles surgiram e tudo nasceu. Lembremo-nos, então, daquela oração feita ao Divino Espírito Santo “Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae — Enviai o vosso Espírito e renovareis a face da Terra”. Poderíamos dizer: “Enviai o vosso Espírito, presente nos homens de vossa destra, e todas as coisas serão novamente criadas e se renovará a face da Terra”. É isto que devemos pedir.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/7/1965)

1) Cfr. http://www.abbaye-saint-benoit.ch/gueranger/anneliturgique/pentecote/pentecote03/040.htm