Disse “sim” para a vocação e a realizou

Padre Damião, considerando a existência de pessoas imersas num infortúnio profundo, com a doença horrível da lepra, sentiu tanta compaixão e um tal desejo de ajudá-las a carregar essa infelicidade tremenda, que teve um movimento interno de alma de ir à Ilha Molokai, onde havia um imenso leprosário, para cuidar dos leprosos.
Certo dia, pregando um retiro para eles, disse-lhes: “Meus filhos, eu queria vos dizer que hoje, mais do que nunca, sou dos vossos, porque comecei a sentir em mim os primeiros sintomas da lepra.”
Morreu leproso, contente por ter ajudado aqueles coitados a suportar com alegria e resignação a doença da qual acabou contagiado, dando por bem empregado seus sofrimentos.
Foi a graça de Deus que deu a ele uma especial sensibilidade e clareza de vistas para perceber os padecimentos daquela gente e o quanto ele era dotado de recursos pessoais, de graça, de bondade, de consolação para atenuá-los. Então, por amor a Deus, decidiu renunciar a todas as alegrias desta vida para imergir naquele oceano de dor.
É uma vocação. Esta graça especial bateu em sua alma, como quem bate numa porta, e perguntou: “Meu filho, queres fazer esse sacrifício? Queres ir para o meio dos leprosos? Queres correr o risco de ficar leproso, para fazer o bem àqueles infelizes?”
Ele respondeu: “Sim!”
Nessa hora começou um caminho. Ele disse “sim” para a vocação e a realizou.
(Extraído de conferência de 24/8/1991)

Campeão da Fé, defensor da ortodoxia

São Basílio viveu num mundo minado pelos mais satânicos métodos de perseguição ao Catolicismo, precisamente por serem hipócritas e velados, numa época em que, humanamente falando, a causa da ortodoxia estava perdida.
Mais do que o Santo da ação social, devemos ver no grande Bispo de Cesareia o campeão da Fé, o defensor da ortodoxia, o homem da Igreja.
Sua pureza de doutrina, santa intransigência em matéria de Fé e de costumes são a chave de sua obra no setor social. Se o sumo bem que podemos aspirar para o próximo é a realização de sua missão sobre a Terra para atingir a bem-aventurança eterna, é claro que sem essa chama da vida interior seria vã toda a obra de assistência social desenvolvida pelo grande Santo.
São Basílio enfrentou o totalitarismo do Estado como os católicos de hoje terão de fazer perante os imperadores neopagãos e neocoroados, sem vacilações nem conivências, sem concessões ao erro, sem mutilações da Doutrina da Igreja, sob pretexto de proselitismo.
Só assim podemos imitar o grande e santo Doutor em sua desassombrada intervenção a favor dos humildes, dos fracos, de todas as vítimas da arbitrariedade, da tirania, das injustiças sociais.
Só com esse verdadeiro conceito de Caridade poderemos trazer à Igreja as multidões desgarradas que hoje se debatem no meio da mais completa miséria, principalmente espiritual.

(Extraído de O Legionário n. 718, 12/5/1946)

Esplendidamente atendidos por Deus

Segundo tradições antigas do Oriente e revelações privadas, São Joaquim e Santa Ana não tinham
filhos e já estavam numa idade avançada. Isso lhes causava um pesar muito grande
porque, entre os judeus, era uma vergonha não ter filhos, pois então não se podia ser antepassado
do Messias, a glória do judeu.
Apesar disso, o santo casal sempre pediu a Deus para ter um filho. Quando veio, era Nossa Senhora!
Se São Joaquim e Santa Ana raciocinassem como algumas pessoas: “Ah, eu estou pedindo
uma criança há cinco anos! Rezo todo dia meio minuto e não sou atendido! Já desanimei…” –
quanto menos a pessoa reza, mais depressa quer ser atendida – poderiam não ter sido os pais da
Santíssima Virgem, e a Mãe do Salvador nasceria de outro casal.
Assim se passa com as graças que nós pedimos: devemos rogar muito. Afinal, quando Deus
concede, Ele atende exuberante e esplendidamente, pelos rogos de Maria.
(Extraído de conferência de 31/1/1976)

O Profeta Elias e a Ordem do Carmo

O incomparável Elias deu à Ordem do Carmo riquíssima seiva espiritual, produzindo legiões de homens e mulheres que se coroaram com as rosas da santidade, com os astros da sabedor

ia, com os louros do martírio e com os lírios da virgindade.

Qualquer que seja a ideia que nós formemos de uma Ordem Religiosa, é mister reconhecer que os esplendores de suas futuras glórias dependem sempre dos princípios vitais sobre os quais se alicerça o seu organismo, e da seiva vivificante que em divinas difusões corre por todos os membros que compõem sua organização secular.

Espírito de fogo

A instituição religiosa assim formada, nutrida, vivificada, amará necessariamente o seu princípio, a sua origem, assim como os filhos amam aos pais, a Terra ao Sol que a fecunda, e os astros ao centro de gravidade em que repousam.

Posto isto, cumpre perguntar: Que seiva misteriosa tem conservado sempre a vida exuberante da Ordem Carmelitana? Que fator lhe proporciona os elementos da

sua organização sempre jovem e louçã, após tantos séculos de existência?

Não será difícil responder a essa pergunta se remontarmos a tempos remotíssimos, se buscarmos no Carmelo a formosa e celestial figura do Profeta de Deus, Elias de Tesbe. Foi este grande Profeta, o espírito de fogo, o incomparável Elias, quem deu à Ordem do Carmo a riquíssima seiva espiritual de que a mesma se tem alimentado através da sua existência multissecular, produzindo legiões de homens e mulheres que se coroaram com as rosas da santidade, com os astros da sabedoria, com os louros do martírio e com os lírios da virgindade!

Pai e Fundador da Ordem do Carmelo

a Igreja Universal, quem reconhece e venera o Santo Profeta Elias como o Pai e Fundador da Ordem do Carmelo. Não podemos resistir ao impulso de inserir, a este propósito, um brilhante testemunho do exímio teólogo Suárez1, que confirma esta verdade:
“É uma tradição geralmente recebida e muito antiga que a origem da Ordem Carmelitana remonta ao tempo dos Profetas, e especialmente ao tempo de Elias, e que deste mesmo provém a sucessão hereditária iniciada no Monte Carmelo, do qual monte a Ordem tira o seu nome, tradição esta que recebemos como verdadeira, tanto mais que os Sumos Pontífices Sixto IV, João XXII, Júlio II, Pio V, Gregório XIII, Sixto V e Clemente VIII, nas Bulas concedidas a esta Ordem, falam dos seus membros, os religiosos, nestes termos: Resplandecem na caridade como espelho e modelo, datando a sua origem do tempo dos Santos Profetas Elias e Eliseu e de outros Santos Padres, que habitaram a Montanha Santa do Carmelo. Por isso, Sixto V lhes permitiu honrassem a Elias e Eliseu como seus Patriarcas, celebrando suas festas e recitando seus ofícios próprios. Donde resulta que se reconhece a Elias como verdadeiro Pai e Fundador (Suárez, tom. 4, de Relig., tratado 9, cap. 9).
Eis, pois, segundo o testemunho dos pontífices e dos teólogos mais eminentes, o manancial riquíssimo donde tem brotado a seiva vivificante que anima o espírito do Carmelo!
Os carmelitas, por sua vez, não têm cessado de venerar aquele de quem receberam a vida espiritual. Desde os primeiros moradores do Carmelo até Santo Ângelo, mártir carmelita, que em nome de Elias dividiu como Moisés as águas do Jordão; e desde este Santo até à gloriosa Reformadora do Carmelo com quem se comunicou o Santo Profeta, e desde Santa Teresa até os nossos dias, nem um instante sequer se tem interrompido a cadeia de santos afetos, com que os carmelitas têm manifestado seu amor e gratidão a seu admirável Pai e Fundador.v

(Extraído de O Legionário n. 786, 31/8/1947)

1) Francisco Suárez de Toledo Vázquez de Utiel y González de la Torre (*1548 – †1617), teólogo, filósofo e jurista jesuíta espanhol, conhecido como Doutor Exímio.

 

Castidade comunicativa

São Casimiro era tão casto, que comunicava aos outros o desejo de serem puros. É bonito este fato, porque muitas vezes encontramos pessoas puras, mas a quem a Providência não deu esse dom de tornar comunicativa sua pureza. Sabe-se que são puros, admira-se, presta-se homenagem, mas sua virtude não é comunicativa.
Ora, uma das melhores formas de fazer apostolado é ter essa virtude comunicativa que passa de uma pessoa a outra como que por osmose. Às vezes isto acontece, e castidade comunicativa é um dom enormemente precioso para se fazer apostolado.
Mas como Deus está irado com o mundo, dons como esse se tornam raríssimos. Por isso precisamos recorrer a um São Casimiro no século XV para compreender o que é a pureza convidativa e irradiante, a qual atrai as pessoas para a virtude que é o contrário da impureza, da voluptuosidade também conquistadora, a qual arrasta para o mal.
A virtude arrastando para o bem é algo que pouco se vê em nossos dias e, no entanto, dá tanta glória a Nossa Senhora!

Perseverança incólume diante dos tormentos do corpo e do espírito

Santa Tecla demonstrou o vigor de sua alma tanto nos combates físicos travados durante os inúmeros suplícios a que foi submetida, quanto nas lutas espirituais, recusando tudo por amor a Nosso Senhor e compreendendo a inimizade do mundo para com os que são íntegros.

Dia 23 de setembro é festa de Santa Tecla, virgem e mártir. Godescard, em “La Vie des Saints”1, diz o seguinte:

Considerada a primeira mártir, embora tenha saído ilesa de todos os suplícios

Santa Tecla, cujo nome foi sempre muito celebrado na Igreja, é chamada a primeira mártir de seu sexo por Santo Isidoro de Pelúsio e por todos os gregos. Foi um dos mais belos ornamentos do século dos Apóstolos.
Nasceu ela na Isáuria ou na Licaônia. São Metódio diz, em seu “Banquete das Virgens”, que ela era profundamente versada na filosofia profana, que possuía imenso conhecimento das Letras e que se exprimia com tanta força e eloquência, como com doçura e afabilidade.
Foi convertida ao cristianismo por São Paulo e tornou-se hábil nos conhecimentos da Religião. Ele louva o ardor de seu amor por Jesus Cristo, que ela demonstrou em numerosas ocasiões e sobretudo nos combates que sustentou pela Fé, com uma coragem digna do vigor de sua alma.
Segundo Santo Agostinho, Santo Epifânio e Santo Ambrósio, foi em Nicônia que São Paulo a converteu com suas prédicas, no ano de 45.
Decidida a permanecer virgem, Santa Tecla sofreu toda sorte de pressões por parte de seu noivo e de seus familiares. Nem carinhos, nem ameaças a fizeram voltar atrás em sua decisão. E a santa passou a considerar como inimigos aqueles que mais lhe haviam demonstrado afeição. Tendo um dia ido procurar São Paulo para buscar algum consolo, Tecla foi perseguida por seu noivo, que a denunciou como cristã. Exposta às feras no anfiteatro, estas deitaram-se a seus pés, sem a tocarem. Levada à fogueira, dela também saiu ilesa. Vencendo ainda outras provas, foi posta em liberdade. Passou o resto de sua vida retirada do convívio mundano, morrendo em Isáuria e sendo enterrada em Selêucia”.

Sob os primeiros imperadores cristãos, construiu-se uma basílica sobre seu túmulo, local de peregrinações sem conta. A catedral de Milão é dedicada à invocação de Santa Tecla, que é invocada também para se obter uma boa morte.
A vida de Santa Tecla nos oferece um tema interessante de meditação a respeito das intenções que o mundo tem para com os que praticam a virtude. Este ponto é uma matéria sobre a qual jamais nos fartaremos de fazer comentários.

Duas categorias de demônios e de homens

 

Podemos afirmar que há dois graus ou duas categorias de pessoas ruins, assim como há duas espécies ou duas categorias de demônios.
O pecado dos anjos foi o mesmo para todos: eles se revoltaram contra Deus. Mas nem todos cometeram esse pecado do mesmo modo ou no mesmo grau. Alguns foram os líderes do movimento, outros se deixaram arrastar, não se rebelaram por iniciativa própria, mas uma vez que os primeiros começaram, eles se deixaram arrastar. Por causa disso, Deus condenou a todas à desgraça perpétua, expulsando-os do seu amor e do seu convívio.
Entretanto, estabeleceu uma diferença: enquanto os que iniciaram a revolta foram precipitados no Inferno, os que foram arrastados, a esses, permitiu que ficassem fora do Inferno, sofrendo, portanto, menos tormentos durante todo o tempo em que durar a História deste mundo. Eles, então, infestam a Terra. Não me lembro bem, mas houve um santo que afirmou que se nós pudéssemos ver os demônios que estão soltos pelos ares, veríamos que eles são tão numerosos que constituem como que uma capa em torno da Terra, que nos obnubilaria até de ver o céu, por assim dizer. É uma metáfora para nós entendermos o quanto são numerosos.
Segundo diz Catarina Emmerich – e é uma coisa muito arquitetônica –, enquanto os demônios do Inferno nos tentam para o pecado, os que andam pelos ares predispõem as nossas almas para o pecado. Eles não tentam diretamente, mas predispõem. Birras de certo tipo, fobias, antipatias, simpatias desregradas, preguiças, cóleras, tiques esquisitos, nervosos às vezes – é claro que nem sempre –, nevroses que conduzem ao pecado, tudo isto é uma ação que esses demônios que pairam pelos ares exercem sobre os homens, preparando profundamente as almas para as tentações.
Os homens se abrem muitas vezes largamente para esta ação e se abrem tanto que é quase impossível evitar que caiam no pecado. Por quê? Porque o demônio dos ares tomou conta deles e quando vem o do Inferno encontra uma casa aberta, em que as defesas foram quase completamente destruídas e, naturalmente, ele entra.

Nessa perspectiva, portanto, nós temos duas espécies de demônios e também de homens: os péssimos, são os líderes do movimento da Revolução e outros, que são arrastados pela Revolução, consentindo serem levados por ela. Estes são moleirões, molengos, são o que forem, vão seguindo a Revolução por fraqueza, por debilidade.

 

Os bons tendem a condescender com o homem menos péssimo, achando que no fundo ele é bom

Ora, acontece que na consideração de homens assim o contrarrevolucionário muitas vezes tem uma posição mole. Ele compara esses homens com os piores e, como estes não são dos piores, ele pensa: “Coitado, este aqui não tem culpa. Ele está sendo levado pela Revolução não porque queira, mas porque está sendo arrastado; no fundo ele é bom.”
Seria o mesmo dizer que os demônios que pairam pelos ares foram arrastados pelos piores, mas, no fundo, não são maus. Pelo contrário, eles são maus, de uma maldade autêntica, mesmo que essa maldade não os faça tão maus quanto os outros e, quando terminar a História, eles devem ser acorrentados no Inferno. Porque, como sabemos, no Inferno há gradações de mal, como no Céu existem gradações de bem.
O homem que se entrega ao mal de modo habitual, sem remorso ou pelo menos sem remorsos eficazes e úteis, chega a ter antipatia pelo bem, faz coro com os que lutam contra o bem; é, portanto, um homem mau e inimigo do bem. Ele odeia aqueles que se convertem.

 

Na vida de Santa Tecla vê-se isso. Ela era uma pessoa eminente. Tinha uma grande cultura, numa época em que isso era um prestígio quase igual ao que é, em nossos dias, jogar muito bem futebol ou então falar muito bem na rádio. Quer dizer, era uma pessoa verdadeiramente adornada. Ela tinha um noivo. Assim que se converteu, diz a biografia, ela percebeu que precisava romper com todos com os quais ela se dava antigamente. Por quê? Porque ela notou, naturalmente, que todos estavam postos no mal e que não há comunicação entre o bem e o mal, a luz e as trevas.
O que aconteceu com o noivo? Ele a persegue, procura arrancá-la do estado de virgindade, por um sentimento que humanamente se chamaria amor, mas que não é senão egoísmo e ódio. Ela resiste e não recua diante da felonia. Ele a acusa como cristã para ser morta. Aí vê-se o que é o ódio, o amor do mundo, o que são os sentimentos do mundo e até onde o ódio dos maus pode chegar em relação aos bons.

Diante de tantos milagres, ninguém se converteu

Ela é sujeita a vários tormentos e milagrosamente escapa. Essa biografia não entra nos pormenores, mas em geral esses tormentos eram infligidos aos fiéis em auditórios enormes – estádios, circos – nos quais havia um enorme número de pessoas presentes.
Ao presenciar os milagres sensíveis praticados a propósito dela, como seria natural que toda a multidão entusiasmada se convertesse! Aí está o mundo. Ele não abre os olhos nem ante os maiores milagres, nem diante das maiores maravilhas. Uns e outros – maus da gama “A” e da gama “B” – estão com os olhos fechados e são solidários com este noivo que perseguiu a sua noiva. Eles são solidários com o demônio, que não quer que eles vejam e se entreguem à evidência desses milagres. E por causa disto não se convertem.

A malícia do mundo, nesta biografia de Santa Tecla, está muito evidente e é muito oportuno que nós a lembremos.
Santa Tecla perseverou no seu caminho. Maravilhosamente salva de vários tormentos, ela, entretanto, é considerada mártir, embora não tenha morrido em defesa da Fé. E o que fez ela? Passou o resto de sua vida retirada do convívio mundano, morrendo em Isáuria e sendo enterrada na Selêucia. Ela não quis saber do mundo. Ela era dotada, prendada, poderia ter tido uma vida de realce, mas recusou tudo compreendendo a inimizade do mundo.
Eu considero muito importante pôr isto em realce, porque nós, do contrário, nos adocicamos numa glicerina. Devemos servir a Nossa Senhora sem olhar para nós, preocupados apenas neste ponto: que o reino d’Ela venha logo e venha por inteiro!v

(Extraído de conferência de 22/9/1966)

1) La vie des Saints. D’Alban Butler et de Godescard. Avec le martyrologe romain, un traité de la canonisation des Saints. Lille, 1855, p. 182-186, t. VIII.

 

Os Anjos da Guarda e a ordem do universo

A criança inocente sente o desejo de conhecer grandezas extraordinárias. Instintivamente ela faz um exercício de transcendência, pelo qual considera que todas as criaturas constituem meios de chegar até o Criador. O papel do Anjo é ajudar o espírito humano a ter cogitações que o elevem ao mais alto dos píncaros, ou seja, a Deus.

Para tratar da relação entre o estado de inocência, a ordem do universo e os Anjos, começo por mencionar uma dificuldade encontrada naquilo que costumamos chamar de exercício de transcendência.

 

Operação natural para a alma inocente

Até certo ponto, esse exercício dá a muitos a impressão de um ser um esforço hercúleo do pensamento para destacar-se das coisinhas corriqueiras a fim de elevar-se às realidades transcendentes. Mais ou menos como uma pessoa que ache atraente fazer alpinismo, porém não conseguiria passar a vida inteira subindo e descendo montanhas.
Os pesos de alma que tal dificuldade denuncia servem para contrastar melhor o que o estado de espírito da inocência tem de angélico com aquilo que se chama o “homem carnal”.
Eu sustento que esta operação, tão penosa depois das influências que degradam a alma – pecados, egoísmos, ingratidões, etc. –, é natural para a alma inocente. A primeira impostação da alma, embora concebida no pecado original e, portanto, com tendência para se resvalar, é o exercício de transcendência. Entretanto, há uma ação calculada para desviá-la, logo nos primeiros reflexos e levá-la para outro lado.
Esse exercício não seria feito propriamente de baixo para cima, peça por peça, mas de um modo diferente. Eu quero descrever para evitar ideias erradas.
Por exemplo, é justo, e respeito muito, que se faça uma distinção entre a introspecção e a extroversão. Mas isso é bom na medida em que não nos leve a perder de vista a seguinte verdade originária, a qual se encontra no estado da inocência: a alma vê a si mesma e o mundo fora com o mesmo olhar primeiro. Pode-se distinguir como alguém que, conversando com duas pessoas em uma sala, vê ambas sentadas em um sofá. Distingue-se uma da outra, mas essa distinção não impede que, com o mesmo olhar, esteja vendo as duas.
Assim também, na noção do ser entra o conhecimento do mundo exterior e do interior no mesmo olhar, e abarca a ideia de que eu sou e os outros são. Estas noções entram distintas, não separadas. Isto proporciona que o gáudio da inocência flua logo nos primeiros instantes da vida, e a transcendência se faça como um homem dotado de constituição física normal respira.

Ação angélica no indivíduo, na História

A criança inocente sente dentro de sua alma o desejo de grandezas extraordinárias a conhecer, de uma zona etérea e magnífica da realidade com a qual ela quer se relacionar e para a qual voa. Não sente o tempo inteiro, mas vai tomando conhecimento disso junto com o chocalho, a mamadeira, tudo misturado; entretanto, esse é o fundo de quadro que de vez em quando renasce e de algum modo está sempre presente, e à luz do qual a criança vai vendo as várias coisas com que toma contato.
Portanto, não é um pequeno filósofo, com as pernas trançadas no berço, mãozinha no queixo e pensando: cogito, ergo sum1. Absolutamente não é isso: a criança esperneia, tem vagidos, dorme fora de hora… Quando começa a tomar conhecimento, fá-lo nessa natural desordem: ora é o rosto da mãe, ora é o barulho da rua, ora o chocalho, ora o berço…
Não obstante, o fundo da própria alma que a criança conhece junto com as outras coisas vai orientando-a para o lado das grandezas e, de vez em quando, ela faz uma sucessão de imagens pela qual compara o que está conhecendo com aquilo para que sua alma tende. Assim, esses anseios da alma vão se robustecendo no mais alto e ela vai fazendo a transcendência de cima para baixo. É quase um exercício de descendência.
Mas, às vezes, a criança encontra coisas externas magníficas que despertam nela aquilo que a sua alma deseja. Por esta ação mútua, feita sem esforço no próprio viver e respirar, é que ela vai se tornando uma viajante, peregrina rumo às magnificências.
E aqui entra o lado angélico.

A meu ver, quando e na medida em que faz isto, o homem torna-se como que o irmão mais moço, o caçula do Anjo da Guarda que o toma, o ajuda nesta trajetória mais importante e delicada do que todas as outras. E assim a alma vai caminhando nessa direção com uma regularidade e naturalidade inteiras porque esse é o viver dela. Ela poderá ter, em certos momentos, tentações, são as provas do caminho. No entanto, o mais importante não são as provas e sim o traçado da estrada. As provas, com a ajuda de Nossa Senhora, serão vencidas uma a uma quando se apresentarem, mas o traçado do caminho é a grande questão, e este corre por aí, de tal maneira que cem outras faculdades da alma afloram sob essa luz.
Também a ação angélica na História, embora seja extrínseca, não exclui afinidades, inter-relacionamentos possantes. Admitir a ação angélica como tão extrínseca que cada uma é quase como um milagre de Lourdes, o qual ocorre de vez em quando deixando as pessoas pasmas, também é errado. Por certo, há intervenções angélicas muito palpáveis, visíveis, notórias que são assim, mas tenho a impressão de que a ação real é uma espécie de quase atuação de irmão a irmão, porque o Anjo está junto de nós e nós juntos dele, ele se nos comunica e nós nos comunicamos a ele.

Interpenetração entre o mundo exterior e o interior…

Há em nós uma relação entre a nossa alma e a ação externa que praticamos. De maneira que, quando nossa alma deliberou por um determinado ato, ela gradua todas as suas energias, suas disposições para a efetivação daquela ação; entretanto a qualidade do ato – não me refiro apenas à qualidade moral, mas também à metafísica – de algum modo se reflete sobre a alma, porque o homem, ao praticar a ação, põe-se numa certa clave e fica passageiramente com esses reflexos. Isso faz parte dessa interpenetração entre o mundo exterior e o interior.
Julgo que nos Anjos isso é muito mais vigoroso, e que não só eles são chamados para ministérios especialmente adequados à natureza de cada um, mas ao realizarem as várias ações do seu ministério todos eles refulgem e vibram – se pudéssemos dizer “vibrar” de um ser espiritual – de um determinado modo.
De maneira que quando um Anjo tem aquele refulgir, todos os espíritos angélicos que estão participando com ele daquela ação possuem isso entre si, em coro; e depois os outros do Céu recebem, há um reluzir recíproco.
Também uma pessoa devota de um determinado Anjo recebe essa refulgência ou ao menos pode receber. Mas como o Anjo é muito mais possante do que o homem, ele comunica a jorros o que nós transmitimos a conta-gotas; a natureza dele se enche com as graças esplêndidas que ele recebe e se comunicam a nós de cheio.
A inocência leva a ter comunhão com os Anjos. E o estado normal do batizado é ter esta comunhão, embora subconsciente.

…o natural e o sobrenatural

Entre o sobrenatural e o angélico há uma distinção. Um dos modos de a graça agir é através dos Anjos, e a pessoa pode ter um certo discernimento do sobrenatural em si sem perceber que é angélico. No mais das vezes, as coisas se interpenetram de tal maneira que não creio que uma pessoa consiga distinguir.
Aliás, devemos considerar que o natural e o sobrenatural não formam gavetas no ser humano. São campos distintos para a cogitação científica do homem; em quem tem ambas as coisas psicologicamente elas não formam gavetas, mas se interpenetram a todo momento como o sangue na carne.
Sou propenso a achar – salvo ensinamento em sentido contrário da Igreja – que se os homens tiverem noção clara dessa interpenetração angélica, e esta for uma verdade bem realçada por ocasião do Reino de Maria, haverá uma grande elevação, e a ideia desta ação dos Anjos na inocência produzirá um fulgor e um esplendor incalculáveis.

Uma pergunta que se põe é a seguinte: Se o universo criado e ordenado por Deus é tão perfeito, por que existe Anjo da Guarda? Este evita, de fato, coisas ruins que aconteceriam e, portanto, o universo é imperfeito?
Alguém dirá: “Tem a imperfeição humana.” Entretanto é preciso andar com cuidado. Nossa Senhora tinha milhões de Anjos da Guarda. Para quê, se Ela fazia tudo perfeito?

Então, a perfeição específica do universo não é a de uma máquina, como o comum das pessoas imagina. Tenho a impressão de que o universo não funcionaria sem Anjos da Guarda e, portanto, eles não são superfluidades. Por certo, intercorrem muitos fatores que não conhecemos, os quais poderiam perturbar a ordem do universo, e que os Anjos da Guarda evitam. Ademais, eles não apenas evitam o mal, mas promovem o bem.

 

Estalactite e estalagmite

Contudo, a respeito do papel do Anjo da Guarda no universo e junto às almas, há um elemento que me parece importante. Para o normal progresso da inocência são necessárias duas circunstâncias: de um lado, o isolamento interior, de outro, a comunicação.
Na medida em que a alma é fiel a essa impostação primeira, é fácil para ela fazer exercícios de transcendência, talvez à maneira de estalactite e estalagmite, ou seja, a pessoa vai relacionando as coisas que vê com o que vem de cima, encantando-se e se endireitando em função disso, e notando na coisa inferior um símile do que está em cima.
Por exemplo, antigamente era normal um menino gostar de espada. Gostava por ver nela um modo de dar corpo a uma porção de impressões, desejos, ideias, estados de espírito que vibravam na sua inocência, mas que ele precisava de algo material para simbolizar.

Isso corresponde a uma disposição de alma vinda do olhar conjunto que a pessoa tem sobre si e o universo; olhar inspirado pelo senso do ser e por meio do qual, na linha metafísica e sobrenatural, a alma é apetente de grandes coisas e nelas cogita.

No menino cuja alma esteja nessas condições e a quem tudo quanto se refira ao heroísmo diz muito, a espada desencadeia o processo e a relação simbólica que dá corpo àquilo que ainda não atingira toda a maturação humana porque faltava um símbolo. Ao encontrar o símbolo, o processo mental e da inocência dele se encerra com gáudio.

Assim, a criança vai vendo uma série de coisas de cima para baixo, porque o analogado primário2 do símbolo existe vivo no espírito dela, por onde tende a ver de modo simbólico uma quantidade incontável de criaturas.
Seria um movimento natural do senso do ser, portanto metafísico, no qual a graça penetra e atua muitas vezes pelo Anjo. A semelhança do Anjo com o seu protegido, a afinidade existente entre eles desempenha o seu papel na moção que o Anjo exerce sobre o homem.

Mesmo porque, sendo o homem sociável por natureza, o é com os Anjos também. O instinto de sociabilidade seria incompleto se o considerássemos existente apenas entre os homens. Dessa analogia entre o Anjo da Guarda e seu custodiado, este instinto toma misteriosamente um movimento do qual Deus se serve para a realização de seus planos.

Reino de Maria e devoção aos Anjos

Estou tratando de um processo que conheço melhor em mim do que num outro. Por isso, ao falar do processo humano, tenho que dar o meu depoimento. Sustento que esse processo se dá com todos os homens, uns mais outros menos, mas todos têm meios e graças para isso. Aliás, a própria noção do Reino de Maria vem da retidão desse processo em todos os homens, criando as condições para esse Reino.
Nesta perspectiva, o acender o amor a Deus na alma humana não pode ser concebido sem a assistência dos Anjos. O papel próprio do Anjo é ajudar o espírito humano a ter aquelas cogitações que o elevem ao mais alto dos píncaros, ou seja, Deus.
Então, o exercício de transcendência, pelo qual todas as criaturas constituem meios de chegar até o Criador e, portanto, a visualização do universo enquanto caminho para Deus, parece impossível sem o ministério dos Anjos.

Há uma ação santificante da Igreja Católica que é o vaso espiritual no qual se derrama, para as almas subirem até Deus, a ação angélica exercida por cima do Magistério eclesiástico, nunca em desacordo com ele, pois este é infalível. Assim, com uma vida que o mero ensino não tem, a graça faz germinar no homem os impulsos para a elevação suprema. Portanto, a missão santificante da Igreja, que nos une a Deus através dos sacramentos, acende em nós o amor a Deus com o ministério dos Anjos.
Estas verdades suporiam para o Reino de Maria uma intensidade extremamente grande da devoção aos Anjos.v

(Extraído de conferência de 27/11/1980)

1) Do latim: penso, logo existo.
2) Termo utilizado em Filosofia, significando matriz, padrão.

Magníficos Príncipes celestes

Desde toda a eternidade, foi designado para cada homem um Anjo Custódio a velar incansavelmente, dia e noite, por seu protegido, inspirando os bons pensamentos, defendendo dos assaltos inimigos. Aos Anjos devemos rogar em todos momentos difíceis da vida.

 

Deus dispensa a água às criaturas em condições muito diferentes. Se considerarmos o globo terrestre, notaremos como a água nos é concedida aos borbotões. Em primeiro lugar o oceano, depois

todos os rios que saem de dentro da terra e correm para o mar e o enchem continuamente, além de tudo aquilo que na natureza está colocado em estado gasoso nas nuvens. Com esta criatura água quantas coisas maravilhosas Deus fez!

Uma gota de orvalho

Entretanto, Ele realizou também com a água uma pequena joia e a multiplicou indefinidamente por todos lugares onde há plantas. Quem não viu e não se encantou com uma gota de orvalho, contemplando-a tão pura, tão límpida e com um tal modo de guardar a luz que bate sobre ela, que a luz parece passear dentro da gotinha e se regalar de imergir naquela pureza?!

De tal maneira a gota de orvalho me encanta que me lembro, em pequeno – quando estava sozinho porque não queria passar por extravagante –, de que, vendo o orvalho numa folha, eu a aproximava dos lábios e sorvia uma gota. Porque, sendo menininho, não podia me convencer de que uma coisa tão linda não tivesse um sabor muito gostoso.
Quando punha aquilo nos lábios percebia que não era saboroso, mas arranjava um pretexto para mim mesmo a fim de conservar minha ilusão. E pensava: “Quando for adulto – sem essa gente que está por aí e não entende nem vê nada –, algum dia irei com um copo numa mata e o encherei de orvalho. Só essa gota não me faz sentir o inteiro sabor, mas se eu tivesse um copo cheio, que beleza e delícia seria! Mais gostosa do que o champanhe”.
Algo semelhante ocorre com relação aos discursos, às conferências, à oratória…
No momento, só tenho a oferecer uma gota de orvalho. É uma pequena reflexão sobre matéria piedosa. Embora tenha tratado desse assunto em diversas ocasiões, é um tema tão bonito, tão admirável, que merece ser aprofundado um pouco: os Anjos da Guarda.

Anjos que regem os corpos celestes

Como ensina a Teologia, os Anjos são divididos em nove categorias sobrepostas umas às outras. A mais alta é a dos Serafins, que veem Deus mais direta e plenamente, conhecem maravilhas que as categorias inferiores não chegam a ver, e lhes contam aquilo que eles contemplaram.
Muita coisa que em Deus é mistério, Ele quer, na sua bondade, que os Anjos superiores entendam e contem para os que lhes estão abaixo. E assim as noções a respeito do Criador vão descendo e chegam à categoria menos excelsa, básica, que são exatamente os Anjos da Guarda.
Entretanto, esses também são tão esplendorosos, tão magníficos, que, às vezes, os Santos aos quais aparecem pensam que eles são Deus. E os Anjos precisam dizer-lhes: “Não, Deus é excelsamente mais alto, não tem comparação!” Eles veem Deus face a face e contam um pouco a respeito do Criador.

Deus outorgou para cada criatura humana um Anjo da Guarda. Como também se admite, cada estrela tem um Anjo especial para regê-la, de maneira que se tudo anda tão certo é porque os espíritos celestes estão conduzindo aquilo a funcionar direito. Os Anjos têm meios para isto porque são puros espíritos e recebem de Deus diretamente as ordens de como fazer. Então tudo sai perfeito.
Recentemente, Júpiter foi perfurado por um outro corpo celeste. Isso sucedeu por ordem de Deus, pois tudo se dá porque o Criador quer e na medida em que Ele quer. É possível que de futuro aquilo tenha uma explicação, foi um aviso misericordioso para os homens: “Prestem atenção, aí vem o castigo, qualquer hora pode acontecer isto com a Terra!”
Nossos Anjos da Guarda, que não nos perdem de vista de dia nem de noite, pois quando dormimos eles velam por nós, veem que estamos lendo a notícia sobre Júpiter e obtêm a graça de Deus de poderem sussurrar à alma de cada um de nós – sem que percebamos que estão sussurrando, temos a impressão que é pensamento nosso – o seguinte: “Pense nisto porque, de repente, se houver um castigo, a ponta de um outro planeta poderá tocar na Terra e atingirá você; tenha medo, arrependa-se!” É o Anjo da Guarda que fala para a alma com carinho, bondade e, se diz com força, faz como o bom pai quando, às vezes, chicoteia o seu filho.
Afirma a Sagrada Escritura: “O pai que poupa a vara ao seu filho odeia seu filho” (cf. Pr 13, 24). Poupar aqui quer dizer não chicotear quando é necessário. É a palavra de Deus, ditada pelo Espírito Santo.

Sob a tutela de fiéis custódios

O Anjo da Guarda está continuamente debruçado sobre a pessoa. E quando um de nós, por exemplo, precisar andar sozinho pelas ruas das cidades contemporâneas, tão cheias de poluição e imorais, peça ao Anjo da Guarda na hora de sair de casa:
“Meu Santo Anjo, acompanhai-me, protegei-me, falai à minha alma, livrai-me dos maus olhares, evitai os inimigos que possivelmente querem me liquidar, os desastres que podem me massacrar, trazei-me todo o bem, fazei acontecer isto, aquilo e aquilo outro”.
E quando estiver caminhando, lembre-se de uma coisa reconfortante: o Anjo da Guarda nunca abandona o seu protegido. De maneira que, à medida que avança ouvindo os próprios passos ressoarem sobre o cimento da rua, pode pensar: “Meu Anjo da Guarda está me vendo”. E se alguém está tentado, diga: “Meu Santo Anjo, protegei-me, afastai esse demônio de mim!”
Sem dúvida, todos nós quereríamos muito conhecer nossos Anjos da Guarda. Sabemos que existem, a Teologia nos dá informações sobre eles, mas não os vemos. Entretanto, eles nos veem. Ao mesmo tempo em que estão velando por nós, contemplam a Deus face a face e conversam uns com os outros sobre o que eles veem na Terra, o andamento da Revolução e da Contra-Revolução e os desígnios divinos. E como Deus não lhes conta muita coisa que vai fazer, eles examinam o que o Criador realiza para ver se deduzem pela inteligência o que Ele fará, e conversam uns com os outros sobre isso mas, à maneira de um cântico, porque são superiores a nós em toda linha.
O que vou dizer agora apresento como uma impressão exclusivamente pessoal, de maneira que se a Igreja disser que não é assim, rejeito imediatamente, porque Ela é infalível, eu sou falível.
Tenho a impressão de que, desde toda a eternidade, cada um de nós foi escolhido para ser beneficiado com a tutela, a proteção de um Anjo. E cada Anjo Custódio tem uma certa parecença com seu custodiado. Se nós o conhecêssemos ficaríamos pasmos de ver como ele “sente” como nós, quer aquilo que os nossos lados bons desejam, gosta do que gostamos, a ponto de nos sentirmos um parente próximo de um Príncipe celeste tão magnífico como aquele.

 

Anjos da Excelsa Rainha

Nossa Senhora, segundo muitos místicos, foi acompanhada na Terra por milhares de Anjos que A protegiam e A defendiam. Entre as meras criaturas, não há nenhuma que tenha, debaixo de nenhum ponto de vista, nenhuma medida, proporção com Nossa Senhora.
A Virgem Maria é de uma perfeição, santidade, até de uma formosura incomparável, que ninguém é capaz de conceber. E se tal é a excelcitude de Nossa Senhora, como imaginar a estatura dos Anjos que A custodiaram e que A circundam agora no Céu? É algo a perder de vista!
Pois bem, Ela é a Rainha dos Anjos; Ela tem pena de nós, olha-nos como para filhos doentes, de uma doença chamada pecado original, e reza por nós e nos obtém o que não poderíamos conseguir por nós mesmos. Daí o fato de dizermos na Salve Rainha: “Vida, doçura, esperança nossa, salve!”
Assim, sugiro que, quando tiverem dificuldades, tentações, façam uma jaculatória rápida: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, já que a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina”. E voltem o olhar para Aquela que é nossa e dos Anjos Rainha.
Eis a gota de orvalho que eu tinha a oferecer.v

(Extraído de conferência de 30/7/1994)

Assunção de Maria: triunfo de Deus, glória da Criação

Os homens costumam realizar magníficas cerimônias de triunfo para festejar seus heróis. De modo superexcelente, por ocasião da Assunção, Nosso Senhor Jesus Cristo preparou para sua Mãe momentos de glória inexcogitáveis.

A Assunção de Nossa Senhora foi constituída em dogma pelo Papa Pio XII há poucos anos. Esse dogma foi ardentemente desejado pelas almas católicas do mundo inteiro, por ser mais uma das afirmações a respeito d’Ela que A coloca fora de paralelo com qualquer outra mera criatura, justificando o culto de hiperdulia que a Igreja Lhe tributa.

Suave morte seguida da ressurreição

Nossa Senhora, depois de uma morte suavíssima, qualificada com uma linguagem muito bonita pelos autores como a “dormição”, para indicar que, apesar de ter sido uma morte verdadeira, entretanto, mais pareceu um simples sono; Ela, depois da morte, ressuscitou como Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi chamada à vida por Deus e subiu depois aos Céus, na presença de todos os Apóstolos ali reunidos, e de uma quantidade muito grande de fiéis.
A Assunção representa para a Santíssima Virgem uma verdadeira glorificação aos olhos de toda a humanidade até o fim do mundo, e o prêmio que Ela deveria receber no Céu.

Momento sublime, espetáculo incomparável

 

Seria interessante se pudéssemos fazer uma recomposição de lugar para imaginarmos, à nossa maneira e de acordo com nossa piedade, como a Assunção se passou, uma vez que a respeito dela não existem descrições, havendo uma multidão de aspectos que poderiam ser representados.
Nossa Senhora subindo e, em baixo, os Apóstolos ajoelhados, rezando, com algo de inefavelmente nobre, sublime, recolhido, interior; todos eles com as expressões dos personagens de Fra Angélico. Em cima, o céu enchendo-se gradualmente de Anjos, também ao modo de Fra Angélico. O céu material tomando coloridos os mais diversos, com matizações, irradiações magníficas, de maneira tal a apresentar um espetáculo absolutamente incomparável.
Se Nossa Senhora pôde dar ao céu um colorido tão magnífico, tão diverso e produzir fenômenos tão excepcionais em Fátima, por que o mesmo não se teria dado por ocasião de sua Assunção ao Céu?
Ela, em oração, Se coloca de pé; o respeito e recolhimento tomam conta de todos os que estão ao redor; a semelhança física d’Ela com Nosso Senhor Jesus Cristo vai crescendo, vai se acentuando cada vez mais.

A glória de Nosso Senhor transfigurado vai se comunicando a Ela, cada vez mais Rainha, cada vez mais majestosa, cada vez mais Mãe também. Todo o seu íntimo se manifestando de modo supremo nesta hora de despedida. Alguns Anjos se aproximam, talvez os mais esplêndidos do Céu, e acompanham Nossa Senhora. Ela vai subindo…

Aos poucos o Céu vai se transformando, aquela maravilha vai mudando. A terra volta ao aspecto primitivo, os homens retornam às suas casas com a sensação que tiveram após a Ascensão de Nosso Senhor: ao mesmo tempo maravilhados e com uma saudade sem nome; desolados por algum lado, mas levando na retina algo que nunca tinham visto, nem podiam ter imaginado a respeito de Nossa Senhora.
É impossível pensar neste triunfo terreno, sem pensar no celeste que veio logo depois.

A glória da Rainha, prelúdio do Reino de Maria

 

O triunfo de Nossa Senhora começa no Céu! A Igreja Gloriosa inteira vai recebê-La, todos os coros de Anjos, São José, Nosso Senhor Jesus Cristo A acolhe, Ela é coroada pela Santíssima Trindade.
É a glorificação de Nossa Senhora aos olhos de toda a Igreja Triunfante e Militante. Com certeza, neste dia a Igreja Padecente teve uma efusão de graças extraordinárias, e não é temerário pensar que quase todas as almas do Purgatório tenham sido libertadas por Ela. De maneira que também ali houve uma alegria enorme. Assim podemos imaginar como foi a glória dessa nossa Rainha.
Algo disso se repetirá, creio eu, quando vier o Reino de Maria.
No momento em que o mundo estiver transformado e a glória de Nossa Senhora brilhar sobre a Terra, terá começado o reinado d’Ela de modo efetivo, e os dias maravilhosos de graças, como nunca houve antes, começam a se anunciar.
Antes de contemplarmos a glória de Nossa Senhora no Céu, nós haveremos de contemplá-la na Terra, certamente, com algo que poderá nos dar, com uma tal ou qual analogia, com alguma semelhança desse triunfo sem nome que deve ter sido, mesmo aos olhos dos homens, a glória de Maria.
Houve triunfos que os homens prepararam para seus grandes batalhadores, por exemplo, quando as tropas francesas, que venceram os alemães, desfilaram sob o Arco do Triunfo, depois da Guerra de 1914-1918. Quando pensamos no triunfo preparado para o MacArthur1; em tantos triunfos que os romanos preparavam para os seus generais vencedores. Assim, devemos compreender que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é infinitamente mais generoso, deve ter premiado Nossa Senhora, no triunfo d’Ela aos olhos dos homens, de um modo incomensuravelmente maior, e que deve ter havido tudo quanto há de mais glorioso e triunfal nesta hora da Assunção de Nossa Senhora.

O senso da glória de Maria

Meditando nisso, aproximamo-nos da festa da Assunção, pensando qual virtude devemos pedir a Nossa Senhora. É claro que cada um deve pedir aquela de que mais carece. Mas não haveria demasia em pedirmos a Ela uma virtude em específico: o senso da glória d’Ela, para compreendermos bem tudo quanto representa sua glória na ordem da Criação, e o quanto esta é a mais alta expressão criada da glória de Deus. Devemos ser sedentos de afirmar e defender – por uma virtude de combatividade levada ao seu último extremo –, a glória de Nossa Senhora na Terra.
Que Ela faça de nós verdadeiros cavaleiros, verdadeiros cruzados d’Ela, lutando por sua glória na Terra. Essa me parece a virtude mais adequada a pedir nesta festa de glória, que é a Assunção de Nossa Senhora.v
(Conferência de 14/8/1964)

1) Douglas MacArthur, oficial militar norte-americano (*1880 – †1964) que desempenhou um papel preponderante durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Mãos para confortar quem sofre e esmagar as heresias

São Pio X era para todos os que o visitavam o pai por excelência, de coração inexprimivelmente suave e compassivo. Aconselhou a Comunhão quotidiana e a das crianças, incentivou a devoção a Nossa Senhora e também condenou o modernismo. Fez ver a todos os fiéis que se as mãos de um Papa e de um Santo são maternais para cicatrizar as feridas de quem sofre, sabem esmagar os erros e as heresias.

De origem humilde e não tendo passado pela admirável escola de formação política que é a carreira da diplomacia pontifícia, o Santo Padre Pio X teve de arcar com a sucessão do Papa Leão XIII.

Igreja ameaçada por uma das crises mais complexas e graves

 

Quando este último ascendeu ao trono pontifício, encontrou a Igreja em situação delicadíssima, ameaçada de todos os lados por uma das crises mais complexas e graves de sua História. Desenvolvendo qualidades de inteligência, habilidade e zelo que assombraram o mundo inteiro, Leão XIII, durante um longo pontificado que foi uma série ininterrupta de triunfos, alterou profundamente esta situação crítica.
Com tudo isto, sua personalidade marcantíssima de tal maneira assombrou os contemporâneos que, quando o velho Pontífice expirou, era impressão unânime que o pontificado de seu sucessor ficaria irremediavelmente esmagado pelo confronto inevitável com as glórias dos dias em que reinara Leão XIII. Esta impressão cresceu de ponto quando se soube da eleição de Pio X, cuja personalidade parecia despojada de todos os predicados que em Leão XIII haviam brilhado com tão intenso fulgor. Neste sentido, a imprensa declaradamente ímpia ou simplesmente neutra explorou com uma insistência insolente o contraste entre Leão XIII e Pio X.
Na realidade, não faltavam a Pio X altos predicados de inteligência e cultura, porém, inútil tentar equipará-los ao de seu imortal antecessor. Entretanto, aos poucos, da personalidade do novo Pontífice começou a se irradiar uma luz suavíssima que atraía e iluminava o mundo inteiro. De uma bondade verdadeiramente angélica, de uma piedade que deixava transparecer o mais vivo e ardente espírito sobrenatural, Pio X era para todos os peregrinos que o visitavam, bem como para toda Cristandade, o Pai por excelência, de coração inexprimivelmente suave e compassivo, sempre disposto a acolher a expansão de todas as mágoas, de todos os sofrimentos, de todas as dores que pungem o homem neste vale de tristezas. E para cada qual encontrava sempre a palavra adequada, escolhida com uma finura de tato que só os corações de escol possuem, e revestida de uma eficácia verdadeiramente carismática.
Um rápido conselho, uma palavra, até um sorriso do Papa enchia de luz os corações mais desditosos; mais ainda: sua virtude era comunicativa aos

que dele se aproximavam. Pio X foi típica e caracteristicamente o homem de Deus descrito por Dom Chautard1, estuante de vida interior e irradiando de todos os modos, em sua maneira de rezar, de falar, de agir e até de olhar, a graça de Deus que subjugava os corações mais rebeldes. E, aos poucos, notícias singulares começavam a correr entre os fiéis. Eram curas obtidas pela intercessão decisiva do Servo de Deus. Eram atos e gestos que revelavam um conhecimento sobrenatural dos fatos. Pio X era um verdadeiro Santo. Era esta a voz corrente em toda a Cristandade.

 

Tarefa soberanamente difícil, quase inexequível

Deus governa com sabedoria infinita a sua Santa Igreja, dando-lhe para as ocasiões de crise os Pontífices adequados para o momento. Desbastando o campo doutrinário em que pululavam os erros mais grosseiros, Leão XIII, dotado de zelo apostólico admirável e relevantes virtudes, precisou e definiu os contornos da ortodoxia, ameaçados e a todo momento transgredidos por fautores de ideias novas que quereriam, entretanto, continuar a se dizer católicos. Restaurando os estudos do tomismo; refutando os erros pestilenciais do liberalismo, do socialismo e do comunismo, ele imprimiu ao pensamento católico rumos definitivos e, além disto, lhes indicou as normas de ação adequadas, na imortal encíclica Rerum novarum.
Mas isto não bastava. O erro que deprava a inteligência arrasta a vontade para o mal. A debelação radical de toda a pestilência dos erros que, desde o Humanismo e a Renascença, passando pelo jansenismo, o pombalismo ou josefismo, o filosofismo, etc., se haviam atirado sobre a Cristandade infeliz, exigia uma obra mais profunda.
Era preciso reanimar as vontades tíbias, chamar à virtude as pessoas mal-intencionadas, arrancar o pecador ao seu pecado e inspirar no homem um verdadeiro horror às veredas ímpias seguidas por seus contemporâneos. Um erro se define, se refuta e se condena. É tarefa árdua, mas francamente realizável. Porém retificar uma vontade sinuosa, dar novo calor a uma alma enregelada pela tibieza, avivar a chama do bem que bruxuleava até na alma de muitos católicos retos, eis aí tarefa difícil, soberanamente difícil, quase inexequível. Foi a obra que a Divina Providência confiou a quem com inexcedível eficácia a poderia realizar: a um Santo, a Pio X. E, por isso, disse certo historiador da Igreja que o reinado de Pio X foi dos mais gloriosos e difíceis que tenhamos visto.

Condenação da música profana nas cerimônias religiosas

Para que essa obra fosse levada a cabo era preciso, antes de tudo, que do Santuário fossem eliminadas as escórias de todas as influências meramente naturais e profanas. Pio X se imortalizou por sua obra de reerguimento dos estudos e da piedade dos fiéis acerca da Sagrada Liturgia, com o que concorreu notavelmente para o aperfeiçoamento do senso católico. A Sagrada Liturgia é a própria voz da Igreja que ora. Estudá-la, conhecê-la, amá-la, inserir-se na vida sobrenatural que ela comunica, corresponder generosamente, com a mortificação e a vida interior, às graças que ela transmite, com isto só podia lucrar imensamente a piedade dos fiéis.
Entretanto, havia um obstáculo, além do desinteresse, desconhecimento e ignorância em que em não raros lugares estavam os conhecimentos litúrgicos. Era a música profana que se associava às celebrações religiosas, roubando-lhes sua dignidade, seu caráter sobrenatural, toda a sua austeridade.

Como fazer? Atraídas por toda sorte de diversões novas, as massas fugiam ao santuário. Se a Igreja lhes tirasse a música profana, muito mais acessível ao gosto moderno do que o cantochão ou até polifônico, as igrejas se esvaziariam de vez. Não seria melhor contemporizar? É o eterno problema dos que julgam que o melhor meio de propagar verdades consiste em as diluir e ocultar, como se o mais eficaz modo de disseminar a luz fosse quebrá-la com um abat-jour…
Pio X pensou de modo radicalmente diverso. No seu famoso Motu Proprio2, condenou formalmente a música profana nas igrejas e, desembaraçando dessa floração inconveniente e às vezes até má o ambiente do santuário, reeducou os fiéis para a apreciação do verdadeiro canto sacro. O que se lucrou com isto é fácil vê-lo em nossos dias, quando já ninguém suporta de bom grado a música profana que, por vezes, tenta reintroduzir-se pertinazmente no lugar santo.
Seria preciso todo um artigo de jornal para falar a respeito dos atos pelos quais o Santo Padre Pio X, abrindo mais francamente as fontes da graça que a obstinação dos jansenistas pretendera fechar, inaugurou na Santa Igreja uma era nova de fervor eucarístico. Aconselhando a comunhão assídua e até quotidiana, o Santo Padre determinou uma admirável eclosão de espírito eucarístico, que se manifestou pelas mais variadas obras. Por outro lado, aproximando da Sagrada mesa desde os albores da idade da razão as crianças, Pio X opôs à expansão da imoralidade e da impiedade fortíssima barreira, robustecendo as vontades e as inteligências com a graça de Deus ainda na idade da inocência.
De tudo isto decorreu um aumento de piedade em toda a Cristandade, que iluminou o reinado de Pio X com uma glória inextinguível. Devotíssimo da Mãe de Deus e Senhora nossa, Maria Santíssima, o Santo Padre Pio X incentivou notavelmente a devoção para com Aquela que a Igreja ainda proclamará solenemente a Medianeira universal de todas as graças. E, por isto, foi imensa a torrente de benefícios espirituais com que se enriqueceu a Santa Igreja.

Modernismo, “súmula de todas as heresias”

 

Mas havia um grave erro, de nenhum valor intelectual é certo, pois que não consiste senão em uma indecorosa coleção de subterfúgios, de sofismas e de mentiras, que a socapa, como serpente insidiosa, se havia insinuado entre os fiéis. Era o modernismo. Ele exprimia em última análise o esforço desesperado de certos espíritos de, conservando embora certas formas e exterioridades católicas com que não ousavam romper, aceitar ao mesmo tempo todos os erros do século.
A primeira característica do modernismo era que todas as palavras que na Igreja tem um sentido definido e tradicional valiam como índices de outro sentido no vocabulário dos modernistas. Usavam a mesma linguagem que nós, mas com outro espírito e com um segundo sentido que só com habilidade deixavam entrever em seus escritos, e apenas aos poucos iam revelando oralmente aos seus adeptos. Daí uma confiança ilimitada de espíritos ingênuos, mas às vezes retos e bem intencionados, que, vendo as aparências, julgavam salvas as realidades. E o mal circulava impune.
Em uma encíclica famosa, Pio X condenou violentamente este mal e fez ver a todos os fiéis que se as mãos de um Papa e de um Santo sabem ser maternais para cicatrizar as feridas dos que sofrem, sabem ser pesadas como montanhas para esmagar erros e matar heresias.
A Encíclica Pascendi Dominici gregis, contra o modernismo, é dos documentos mais edificantes de Pio X. Suas páginas ardem e vibram de santa indignação. Tomado de um zelo sobrenatural pela Casa de Deus, o Santo Padre denuncia com palavras de fogo o veneno que escorria sub-reptício “dentro das próprias veias da Cristandade”, e com uma precisão admirável, ponto por ponto, denunciava os subterfúgios, esmagando as alegações falsas e deixando a nu toda a vileza dessa corrente que era, segundo suas expressões, a “súmula de todas as heresias”.

Heresia que defendia os regimes sociais e políticos igualitários

Um dos lances sem dúvida mais fortes da luta de Pio X contra o modernismo se encontra na condenação do “Sillon”3. Essa organização de jovens franceses tinha tomado orientações perigosas. Apaixonadamente amiga de todas as novidades , odiando sem distinção todas as tradições, partidária sistemática dos regimes sociais e políticos igualitários e condenando os aristocráticos como anticristãos (contra o expresso ensinamento de Leão XIII), inimiga de toda autoridade a ponto de não admitir que existissem professores nem cursos organizados para seus sócios, e admitindo apenas cooperativas intelectuais, inimiga de toda seleção de membros, de um interconfessionalismo tipicamente liberal, o “Sillon” gostava de se afirmar “revolucionário” e de apontar em Jesus Cristo, Senhor nosso, um grande “revolucionário”. Pode-se imaginar a indignação de Pio X contra uma tal série de erros. Ele os condenou e fustigou em uma encíclica4 que deveria estar nas mãos de todos, de tal maneira esclarece pontos doutrinários importantíssimos, que hão de interessar os fiéis até a consumação dos séculos.

O esplendor das virtudes de Pio X havia, por fim, abafado na sua totalidade o ruído estúpido dos que, inteiramente naturalistas, julgavam que o fator mais importante do apostolado está na inteligência e não na virtude. E, por isto, o ambiente criado pela admirável figura do Papa era de verdadeiro e universal enlevo.
Infelizmente, porém, veio a guerra. E como todos sabem, não resistindo ao golpe bem como às inúmeras lutas de seu árduo pontificado, Pio X morreu.
No Céu mais um Santo se sentou no número dos eleitos e na Terra sua memória continua a embalsamar todos os corações, a edificar todas as almas e a consolar inúmeras dores. Até hoje chegam ao Vaticano cartas endereçadas a Pio X em que dos mais variados pontos da Terra os fiéis pedem ao grande Papa, cujos restos mortais sabem estar ali sepultados, que reze por eles e lhes obtenha as graças espirituais ou temporais necessárias.

A cripta em que seu corpo repousa é visitada constantemente por peregrinos. E como não está sempre aberta, no lajedo de mármore da Basílica do Vaticano, exatamente sobre a lápide embaixo da qual está o lugar em que, os restos mortais de Pio X dormem no Senhor, se fixou um sinal de metal. Em torno dele rezam os fiéis nas horas em que o local não está exposto à visitação pública.

(Extraído de O Legionário n. 553, 14/3/1943)

1) Jean-Baptiste Chautard (*1858 – †1935). Abade de Sept-Fons, França, autor da obra A alma de todo apostolado.
2) Tra le sollecitudini, 22 de novembro de 1903, sobre a música sacra.
3) Le Sillon, movimento político-religioso francês que pretendia unir o catolicismo aos ideais socialistas e republicanos franceses.
4) Encíclica Notre charge apostolique, de 25 de agosto de 1910.