Só ama o bem quem odeia o mal

Só ama o bem quem odeia o mal

 

São Lázaro, monge do século IX, teve as mãos queimadas por ordem de um imperador iconoclasta porque fazia imagens sagradas. Os humanitários que hoje declamam contra as Cruzadas e a Inquisição não têm uma palavra de censura para com os imperadores romanos que martirizavam os católicos.

Temos para comentar alguns dados biográficos de um Santo extraordinário: São Lázaro, Confessor. Não é o amigo de Nosso Senhor, irmão de Marta e Maria. Monge e pintor de sagradas imagens, viveu no século IX. Queimaram lhe as mãos com ferro em brasa, mas foi curado pelo poder de Deus e pintou novamente imagens que haviam sido raspadas pelos iconoclastas. O Criador restaurou suas mãos e ele restaurou as pinturas.
Mãos queimadas até os ossos
Lázaro, nascido no Monte Cáucaso, deixou seu país na primeira juventude e veio para Constantinopla, onde abraçou a vida religiosa. Além dos exercícios ordinários do estado monástico, aprendeu pintura, arte que se cultivava nos claustros, sobretudo em Constantinopla, desde que a guerra contra as sagradas imagens tinha sido declarada pelos iconoclastas1.
Como os iconoclastas eram contra o uso das imagens, nos bons mosteiros os monges aprendiam a pintá-las como um meio de combatê-los. Naturalmente, depois eles difundiam essas pinturas.
Os imperadores, não contentes de quebrar as imagens e perseguir seus defensores, tinham ainda de tal modo intimidado os pintores com o rigor de seus editos, que o medo da morte, da prisão e do exílio os impedia de fazer qualquer quadro de Jesus Cristo ou dos Santos. Foi o que levou muitos superiores de mosteiros a querer reparar esse dano, apesar das ameaças e da indignação do soberano, introduzindo a arte da pintura em suas casas, para impedir que as santas imagens fossem abolidas pelos ímpios.
Lázaro tinha se tornado muito hábil nessa profissão, e a perpetuação, a reputação que adquiriu foi causa da perseguição particular que teve de sofrer.
O Imperador Teófilo, em 829, tendo ordenado a pena de morte para todos os pintores que recusassem a rasgar os quadros nos quais tivessem pintado os Santos, mandou buscar Lázaro em seu mosteiro, para executar o edito em sua presença. Não conseguiu levá-lo a isso pela doçura e recorreu à tortura. Fê-lo tão cruelmente que pensou que São Lázaro morreria no suplício. Mas, tendo recuperado suas forças algum tempo depois, continuou a pintar. O imperador mandou prendê-lo de novo e torturá-lo com brasas de ferro rubro nas mãos, queimando-as até os ossos.
A imperatriz Santa Teodora obteve do marido a sua libertação e o manteve oculto na Igreja de São João Batista, onde o fez curar. Quando Lázaro se restabeleceu, pintou, por reconhecimento, um quadro do Precursor, que se tornou um dos mais célebres de seu tempo.
Após a morte de Teófilo, a imperatriz Santa Teodora e seu filho Miguel III restabeleceram a honra das imagens. Lázaro elaborou um Salvador que colocou sobre uma coluna para ser exposto à veneração pública.
Vendo, então, o culto antigo bem fortalecido, entregou-se aos santos exercícios da vida monástica, não pensando senão em santificar-se nas obscuridades do claustro, onde morreu em 867.
Ódio contra os que defendem a Fé
Percebemos nesta narração, de modo muito notável, a fidelidade desse Santo à sua vocação, levando-o a enfrentar toda espécie de torturas. Mas me parece ser tal o número de mártires com essa fidelidade – isso é algo refulgente de tal maneira na Igreja que as nossas almas estão cheias dessa luz –, não sendo o caso de insistir sobre isso.
Talvez seria conveniente apontar, nesse conjunto de fatos, um aspecto não tão batido quanto o da glória insondável do martírio: a impiedade é fina e perspicaz no seu ódio, e devemos lamentar que nós, filhos da luz, não sejamos tão perspicazes e finos como ela.
Os humanitários declamam muito contra as Cruzadas, a Inquisição e toda forma de guerra de religião – porque, dizem eles, são torturas horrorosas, não se deve absolutamente permitir uma coisa dessas, é contra a caridade etc. – porém, não têm uma palavra de censura para com os imperadores romanos que martirizavam os católicos. Quando se diz a um deles:
— Você não fala contra Diocleciano, Nero? Só contra Torquemada2?
E num movimento temperamental de um ódio todo platônico, ele diz:
— Ah, também contra esses eu sou contra. Mas Torquemada… é preciso acabar com ele.
— E Nero não foi horroroso?
— Sim, sim. São coisas que se deve censurar, e – bocejando, acrescenta – eu censuro…
Mas o ódio dinâmico dos ímpios é contra aqueles que derramaram o sangue na defesa da Fé. Contra os que o fizeram verter para combater a Fé eles não têm ódio dinâmico nenhum. Isso prova que, no fundo, o ódio deles não é contra o derramamento de sangue, mas é contra a defesa da Fé.
Quanto se tem falado contra os Autos de Fé espanhóis! No que isso tem de diferente de um Auto contra a Fé, do ponto de vista sangue? Não tem nada de diferente. Tanto um quanto outro envolvem sangue, são opressões da liberdade. Entendamo-nos a esse respeito. O ódio dos humanitários, dos liberais vai exclusivamente contra aqueles que derramaram o sangue para defender a Fé.
Sanha de perseguição contra os bons
Isso vai mais longe. Se eles não têm ódio aos que promoveram o derramamento de sangue perseguindo os católicos, muitos dentre eles, podendo, também não verteriam o sangue dos católicos? Uma coisa traz a outra, como consequência. Se eu, diante de crimes atrozes como esse, me manifesto frio, no fundo acho que quem fez isso tem uma certa razão e eu, no caso, talvez o fizesse. Compreende-se, então, até onde chega a ferocidade dos ímpios: não só até a contradição, mas até uma sanha de perseguição que não revelam, mas que, no fundo, eles têm.
Reflexão muito útil quando estivermos em presença de pessoas como essas, pois quase todo mundo tem esse estado de espírito.
Façam um teste nos ambientes frequentados. Digam algo sobre a Inquisição e todo mundo se levanta para atacá-la. Falem contra as perseguições, por exemplo, dos iconoclastas no Império Romano do Oriente, e sai o tal ódio frio, platônico, que não é verdadeiro ódio.
Portanto, toda essa gente tem, no fundo – ao menos em algumas fibras da alma, quando não em todas –, uma complacência com a ideia de matar os autênticos católicos.
Então, em contato com pessoas desse naipe, devo pensar: “Esse indivíduo que está falando comigo quereria matar-me, se pudesse”. É preciso chegar até o caso pessoal, atingir a pele e o instinto de conservação. Não considerar apenas em tese a morte dos cristãos, dos católicos.
Não conhece nem ama o bem quem não conhece e não odeia o mal
Se esse indivíduo fosse meu familiar, eu poderia cogitar: “É verdade. Mas sendo ele meu parente, não me mataria”. Isso é falso. O ódio deles contra a Fé é tão grande que gostariam de matar os católicos e não poupariam ninguém.
Quem julgasse que o indivíduo não faria isso com ele porque é seu parente, pensaria como um ingênuo. Seria bom passar por um curso de “desingenuização” porque levou a ingenuidade até extremos muito grandes.
Peçamos, então, a São Lázaro esta graça penetrante: perceber e discernir nos ímpios com os quais tratamos o ódio que eles têm a nós.
Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, qual é a vantagem disso? Eu vivo tão bem com os meus parentes. São agradáveis, influentes, conversam bem. Agora está o senhor me fazendo ver um Nero ou um Calígula… O senhor desarranja tudo! E parece estar contente com o desarranjo produzido.”
A minha resposta é a seguinte: Não conhece nem ama o bem quem não conhece e não odeia o mal. O conhecimento do mal é indispensável para o conhecimento do bem, como contraste. Depois do pecado original, não se pode dispensar o conhecimento do mal. E é preciso medir o mal em toda a sua extensão, para conhecermos o bem em toda a sua nobreza.
Portanto, é necessário fazer esse exercício com as pessoas próximas de nós. Porque, ademais, seria uma atitude simplória achar que os parentes dos outros não prestam e são muito ingênuos quando acreditam neles, mas os nossos são diferentes.
Vale muito a pena nos compenetrarmos do ódio pessoal que eles têm a nós, porque enquanto não tivermos essa compenetração, um restinho de complacência com o mundo pode ficar. E se trata, exatamente, de dissipar toda e qualquer complacência com o mal. Então, fica isso indicado à nossa consideração a propósito da vida de São Lázaro.

 

(Extraído de conferência de 22/2/1967)

1) Não dispomos dos dados da ficha utilizada por Dr. Plinio.
2) Tomás de Torquemada (*1420 – †1498), sacerdote dominicano espanhol, confessor da Rainha Isabel, a Católica, e do Rei Fernando de Aragão. Foi também grande Inquisidor de Espanha.

 

Majestade, ápice da grandeza

Em Nosso Senhor Jesus Cristo o equilíbrio entre a majestade e a bondade encantava a Dr. Plinio. O Sagrado Coração de Jesus tão majestoso, mas sempre com uma bondade levada ao último limite do excogitável, deu-lhe a ideia, desde pequeno, de que o padrão mais alto da majestade era Ele. E, por sua vez, havia ali um lugar naturalmente posto para a devoção a Nossa Senhora.

A majestade se distingue da grandeza, porque ela é o ápice da grandeza. Mas não é qualquer ápice dela que define a majestade.

Conjugação entre finalidade e perfeição

Tomem, por exemplo, algo banal como os quatro dentes de um garfo. Há uma razão para que sejam nesse número: corresponde às dimensões do bocado que a boca humana normalmente ingere, ao menos nos costumes do Ocidente. Eles foram calculados pelo costume, pela tradição e por um certo bom senso presente em tudo.
Entretanto, se o garfo perder um dente, não vale mais nada. Pode-se jogá-lo fora. Se for de prata, mandamos fundi-la para vender o metal, mas ele, enquanto instrumento, já não tem utilidade.
A imagem do garfo íntegro traz consigo uma ideia de perfeição. Aquilo que é completo é perfeito. Embora a perfeição possua graus, no seu gênero determinado, naquele seu estilo, tudo quanto é completo é perfeito.
A coisa perfeita é, então, aquela que por si mesma realiza toda a sua missão. O garfo não realiza a missão de alimentar o homem e, sim, de espetar alimentos, e isto é suficiente.
As noções de completo e suficiente se conjugam. E quando algo adquire esta suficiência, passa a ter, em linguagem filosófica, a perfeição. Possui um grau, pelo menos mínimo, de perfeição. Eu posso imaginar, por exemplo, um garfo de ouro pertencente à Rainha Elizabeth. Este seria, sem dúvida, mais perfeito.

Majestade: a grandeza daquele que tem o poder supremo

Ora, a majestade é a grandeza daquele que está colocado como primeiro, ou numa ordem de coisas, ou numa associação perfeita possuidora de todos os elementos necessários para subsistir como deve. Ele é a chave de cúpula fora da qual todo o resto se esvai.
Só há duas sociedades perfeitas, de fato: a Igreja e o Estado.
Este é o ensinamento da Igreja: Ela é uma sociedade perfeita, tem todos os elementos para realizar a sua missão, e tem o governo soberano, acima do qual não há nenhum.
A Igreja é destinada à ordem espiritual, o Estado à ordem temporal.
O Estado é aquela sociedade perfeita de um povo, ou de vários, colocados sob a direção de um mesmo poder público soberano, não há nenhum outro acima dele.
Alguém dirá: “Mas a família não é uma sociedade perfeita?”
Não, ela é a cellula mater da nação. Se quiserem, em certo sentido, do Estado. Mas não é uma sociedade perfeita.
Outro objetará: “Um partido político não pode ser tido como sociedade perfeita?” Chama-se partido, logo não é perfeito, porque é uma parte. A sociedade perfeita é um todo.
“Bem, mas uma Universidade não é uma sociedade perfeita?” Não. Porque ela existe dentro do Estado e precisa dele. O Estado não precisa dela, está por cima.
Então, a verdadeira majestade, no sentido pleno da palavra, é a grandeza daquele que tem o poder supremo na sociedade perfeita: É o Rei, ou é o Imperador.
Assim se compreende melhor a etimologia: majus stat1. É aquele maior do que todos. Este tem majestade.

A majestade é, antes de tudo, de Deus

A majestade é, antes de tudo, de Deus. Ele é a Majestade. Em comparação com Deus, quis sustinebit?2 Quem é qualquer coisa em comparação com Ele? E em união com Ele, logo abaixo d’Ele, Cristo Rei. Nosso Senhor Rei tanto da Igreja quanto do Estado. É evidente. O Estado tem obrigação, em suas leis, de conformar-se em tudo com os desígnios de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Abaixo de Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora. Porque o governo de todo o universo foi entregue por Deus a Ela, que Se tornou a Imperatriz. Depois vem o Papa, e de modo sucessivo o Rei, o Imperador, o chefe de Estado.
Como se explica que chefes de Estado se constituam com um poder que nega a majestade?
Por erro deles. Porque mesmo numa nação independente, de índole republicana, se deveria reconhecer a grandeza daquele que ocupa, embora temporariamente, as funções supremas. O fato de elas serem provisórias diminui a grandeza da situação pessoal de quem as exerce. Porém, não diminui a função em si.
Por exemplo, o doge de Veneza era chefe de Estado provisório. Ele era eleito por dez anos. Mais tarde parece ter passado a ser vitalício. Enquanto era provisório, não era hereditário, ou seja, não pertencia à família dele aquele poder. Qual era a dignidade dele? Era a de ser doge. Doge quer dizer duque, em dialeto veneziano. Duque temporário, mas soberano de uma região riquíssima, mas pequena. Ficava ridículo ser imperador. Ninguém é imperador de Luxemburgo, por exemplo. No entanto, ele estava cercado de um fausto, do qual dá bem ideia o Palácio dos Doges. Ou seja, o poder público, de si, deve ter majestade.

Em Saint-Germain l’Auxerrois, um fato que ilustra a majestade

Alguém poderia dizer: “O senhor tratou da majestade enquanto ligada ao cargo. Uma pessoa não pode ter majestade por um dom natural?”
Pode, mas nesse caso ela tem um dos elementos da majestade e, por ampliação, se afirma que ela tem majestade. Quer dizer, se ela tem uma tal supremacia pessoal que, olhando-a se pensa na realeza, ela tem os elementos que caracterizam o rei. Ela não é um rei, mas é majestosa.

Certa vez, minha família ouviu Missa na Igreja de Saint-Germain l’Auxerrois, em Paris. E viram entrar a Princesa Isabel acompanhada de uma dama. Como ela era princesa, e a Primeira Guerra Mundial não tinha arrebentado ainda, se prestava, mesmo nas Repúblicas, a honra de dar-lhes um lugar no presbitério. Ela entrou e foi direto para lá, ocupando o lugar que lhe estava reservado.

Terminada a Missa, minha mãe e minha avó, que não a conheciam pessoalmente, viram a dama de honra da princesa se levantar e ir caminhando em direção a elas, dirigindo-lhes a palavra:
— Eu sou a Baronesa de Muritiba, dama de honra da Princesa Isabel. Ela viu as senhoras desde o presbitério, achou que fossem brasileiras. Então, me mandou manifestar seu desejo de conhecê-las. Se quiserem, ela as espera na sacristia.

Foram até lá: Cumprimentos, homenagens, e, na conversa, a princesa soube que minha mãe era casada com um parente do João Alfredo3, deputado no tempo do Império, muito chegado à Imperatriz. Soube também que meu avô era chefe monarquista em São Paulo, e uma porção de histórias assim. E o resultado foi um convite da Princesa Isabel para todos os membros de minha família irem tomar lanche na sua residência, em Boulogne-sur-Seine.
Foram todos, até as crianças, porque naquele tempo era costume conhecerem-se as famílias inteiras, e não algumas pessoas. Eu tenho certeza que a Princesa Isabel não se espantou nenhum pouco de ver umas dez ali. E para elas era uma ocasião de poder dizer a vida inteira: “Eu conheci a Princesa Isabel!”
Um dos meus tios tinha um filho surdo-mudo que aprendeu a falar com um sistema inventado em Viena, o que naquele tempo era novidade. Esse menino era meio détraqué4. Apesar disso o levaram, por medo de deixá-lo muito deprimido se todos os outros fossem e ele não. Acredito bem, aliás, ter Dona Lucilia, a grande favorecedora desse sobrinho, votado em favor da ida dele.

Chegamos, ficamos todos em pé esperando a princesa. Afinal, ela entrou, cumprimentos. Quando ela foi se aproximando, meu primo, que elevava a voz muito mais alto do que o natural, pois não ouvia, começou a falar:
— Essa é a princesa? Onde se viu? Princesa tem coroa, tem cetro, tem manto bonito! Ela está vestida como vovó!
A Princesa Isabel ouviu isto e, com muita bondade, disse-lhe sorrindo:
— Pois é, meu filho, não tenho nem o manto nem a coroa, mas eu sou a Princesa Isabel, e tenho gosto em conhecer você.
Ela era muito majestosa, um modelo de majestade!

Pendor para o excelente

É próprio do espírito humano reto, bem constituído, ver uma coisa boa e apetecê-la. Voltemos mais uma vez ao exemplo do garfo: O espírito humano bem formado apetece sempre a algo melhor. De maneira que, tendo se alegrado por algum tempo com um garfo bom, ele começa a pensar: “E como seria um garfo melhor?”
Assim, dependendo do pendor pessoal, o ser humano é atraído por mil outras coisas que o levam a cogitar na perspectiva de serem cada vez melhores, algumas delas atingindo o nível de perfeição. Esta, a seu modo, corresponde à majestade naquele gênero.
Por exemplo, existem milhares de idólatras de automóveis. Imaginem um indivíduo desses tão tacanho, que nunca tivesse ouvido falar numa Rolls-Royce. Mas quando ele encontra um veículo desses, numa propaganda, fica encantadíssimo. Lê os prospectos, contente por existir algo dessa categoria que jamais será dele, porque nunca terá o dinheiro para comprá-la e mantê-la. Qual é a razão dessa alegria? Ele viu a possibilidade de um exemplar melhor dentro da ordem de coisas de que ele gosta.
Contudo, se aparecesse um automóvel superior, mais perfeito, ele se alegraria ainda mais. Porque é natural que esse pendor para o excelente, para o supremo de determinadas coisas, e para o muito bom de várias outras, desabroche na alma humana.
Logo, é compreensível que, desde pequeno, eu tenha desejado, conhecido e voltado minha alma a certas majestades. Como isto se fez?

Coração de Jesus de majestade infinita

Na Igreja do Coração de Jesus5 havia todas as impressões ocasionadas pelo culto, pela liturgia, pelos cânticos, pelo órgão, pelo ambiente de recolhimento, mas, sobretudo, pela Pessoa de Nosso Senhor, enquanto mostrando o Seu Coração aos homens. Esta devoção, pelo próprio nome da Igreja, era inculcada nela por várias formas. Na torre, aquela imagem dourada do Coração de Jesus, com os braços abertos para toda a humanidade. Aquela majestade d’Ele com os braços abertos, me entusiasmava!

Dentro tem também uma imagem, no altar lateral à esquerda de quem olha para o Tabernáculo. Não pretendo dizer nem um pouco que ela tenha valor artístico, nem é uma obra de arte, é de artesanato. No entanto, muito tocante, muito nobre, e com o coração de Jesus exprimindo muita bondade, com uma grandeza misteriosa, parecendo emanar algo para mim, vindo do vermelho bem escolhido do seu manto, dos ornatos dourados… Mas, sobretudo, de sua cabeça, os cabelos… sobretudo, o olhar, os traços do rosto. Ele me parecia tão majestoso, e tão bom ao mesmo tempo! Tão infinitamente superior, e com tanta pena, tão voltado para mim, e tão misericordioso, que eu pensava: “Majestade é isto! E eu gosto desta majestade!”
Quando me deparei, na ladainha do Coração de Jesus, com aquela invocação “Cor Iesu majestatis infinitæ, miserere nobis”6, adotei-a e a inscrevi entre as minhas invocações prediletas, desde logo!
No teto do Coração de Jesus vem a mesma majestade expressa por uma pintura representando Nosso Senhor aparecendo a Santa Margarida Maria Alacoque. E há um letreiro, em caracteres dourados sob fundo verde, escrito em francês, pois essa Santa era francesa: “Eis aqui o Coração que tanto amou os homens, e por eles foi tão pouco amado.”

Esse equilíbrio entre a majestade e a bondade me encantava! Ele, tão majestoso na aparição, mas sempre com uma bondade levada ao último limite do excogitável. Deu-me a ideia de que ali estava o padrão mais alto e pleno da majestade. Sendo Ele Rex regum et Dominus dominantium – Rei dos reis e Senhor de todos aqueles que têm domínio –, era natural que se concebesse n’Ele uma majestade dessa elevação.

Nossa Senhora preenche o hiato entre Nosso Senhor e o pecador

Donde, por sua vez, um lugar naturalmente posto para a devoção a Nossa Senhora. Porque o culto à majestade do Sagrado Coração cria a seguinte situação: Quando deitamos atenção, a majestade d’Ele é tão grande, que a pessoa se sente aniquilada: “Como me aproximar d’Ele? Como dizer-Lhe: Eis-me aqui? Quando sinto em mim o pecado original no qual fui concebido, experimento o primeiro impulso de todas as desordens que todo homem tem em si! Isso tudo me distancia d’Ele.”
Fazendo essas considerações, eu adorava a majestade d’Ele enquanto me recusando, olhando para aquilo que em mim causa-me desgosto e, se eu pudesse, jogaria fora. Esta exclusão, eu a adoro! De outro lado, porém, ela me apavora. Porque Ele é tudo. E, rejeitado por quem é tudo, o que eu sou? Se Ele não me rejeitasse, eu não O adoraria. Se Ele me rejeita, desapareço… Então, qual é a solução?

No hiato entre Ele e mim ‒ que, por alguns lados, deve ser visto como um abismo escuro ‒ há uma réstia de luz: Nossa Senhora, Mãe d’Ele e minha, a qual, como ensina a Igreja, quis a morte de seu Divino Filho para nos redimir, e a teria querido mesmo se fosse para salvar somente a mim ou a qualquer outro homem que há na Terra. Quanta misericórdia!

A superioridade de Maria Santíssima

Mas Nossa Senhora não é divina, não tem aquela superioridade Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é superior a mim a jardas, anos-luz, centúrias de séculos, não tem dúvida! Contudo, é uma criatura. Por isso, ouso me aproximar d’Ela e recitar o Memorare, a Salve Regina, e florescer! Porque Ela faz ponte entre Ele e mim. Este é o bem-estar de minha alma!
Naquele episódio do boletim do Colégio São Luís7, quando eu estava rezando aflito diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora e me sentia olhado por Ela com uma bondade, uma ternura, uma disposição para me perdoar, com uma pena de mim, uma coisa extraordinária, duas ideias vieram juntas, como num relâmpago. A primeira era: “Parece mamãe!”; a segunda: “Mamãe não chega, nem de longe, aos pés d’Ela!”
A maternalidade d’Ela comigo, não por ser eu, Plinio, não. É por um qualquer, um prequeté pecador, um cisco de menino pecador, aparecendo diante d’Ela, trêmulo, mais movido pela atrição do que pela contrição; a esse menino, Ela deixa cair a pétala de um sorriso!
Deste fato veio-me a convicção: Ou eu me agarro a Ela a vida inteira, ou eu me perco! Meu negócio é com Ela! Recorrendo a Ela, pedindo, querendo saber a respeito d’Ela, e girando em torno d’Ela, ao serviço d’Ela. Minha vida é para Ela!
Com frequência, rezando a Salve Regina, eu me lembro disso e, de algum modo, revivo bem exatamente aquela sensação. Quando vou ao Coração de Jesus, visito-A enquanto sendo a Mãe que me sorriu! É evidente. E o meu hábito é este mesmo: entro, inclino-me diante do Santíssimo, faço uma adoração rápida e vou direto para junto do altar d’Ela, para vê-La de perto.
E a imagem do Sagrado Coração de Jesus? É claro, vou vê-la, adoro ao Sagrado Coração de Jesus, venero a imagem d’Ele, sei que a maior homenagem, a primeira, se deve a Ele. Mas, em consideração à ideia da mediação d’Ela, sem a qual eu não me salvaria, creio ser mais respeitoso ir pedir primeiro a Ela para pôr minha alma em condições de aparecer diante d’Ele. E acredito que nenhum teólogo sério tenha alguma objeção a isto.

A admiração diante da grande majestade

Pelo velho hábito de lecionar, que leva à deformação de dar a muitas coisas o caráter de aula, apresentei o conceito de majestade tão claro no seu conteúdo abstrato. Entretanto, ao tratar do Sagrado Coração de Jesus, passou-se do abstrato para o concreto mais sublime, mais perfeito que possa haver, provocando uma impressão de majestade muito grande que convida ao silêncio na consideração das naturezas divina e humana na Pessoa d’Ele, sob a invocação do Sagrado Coração. Esta é a majestade das coisas postas por Deus na ordem do universo.
Desde quando eu era pequeno me intrigava ver certos líquidos que postos em recipientes de gargalo muito estreito não saíam, permanecendo retidos por uma rolha invisível. Passei anos sem entender o porquê, julgando que um dia compreenderia isso em função de algo mais alto. Meu professor de Física deu-me uma explicação, mas não me interessou.
Porém, essa velha imagem de meu curso de Física me veio ao espírito, de repente, quando foi abordado o tema a respeito da majestade. Pensei: “Está vendo? É como a admiração. Ela, diante da grande majestade, fica sem saber se expandir, como o líquido no gargalo, porque desperta movimentos de alma tão grandes, que o ‘gargalo’ da voz humana é insuficiente para transmitir.” E nós ficamos no mutismo de quem quisera ter outros meios de expressão e não os tem. Se fosse músico, tocaria uma melodia; se fosse poeta, comporia uma poesia, porque elas dizem muitas coisas que as palavras não exprimem. Não sendo músico nem poeta, admiro pelo silêncio.
No caso de Nosso Senhor Jesus Cristo, é muito mais do que uma admiração, é uma adoração, um ato de culto. Eis o que se deu. Fico feliz por minhas palavras terem conseguido despertar este ato de culto em relação a Ele.v

(Extraído de conferência 29/10/1985)

1) Do latim: (sentido literal) o maior está de pé.
2) Do latim: Quem subsistirá?
3) João Alfredo Corrêa de Oliveira, tio-avô de Dr. Plinio.
4) Do francês: desequilibrado, demente.
5) Santuário do Sagrado Coração de Jesus, igreja situada no Bairro Campos Elíseos, em São Paulo.
6) Do latim: Coração de Jesus, de majestade infinita, tende piedade de nós.
7) Sobre isso, ver Revista Dr. Plinio n. 122, p. 18-23.

Significado da Realeza de Jesus Cristo

O Reino de Deus está dentro de nós. Ora, apesar de pequeno como extensão, ele possui um valor infinito porque custou o Sangue de Cristo. Por isso, cada um de nós deve conquistá-lo para Nosso Senhor, destruindo tudo aquilo que, em nosso interior, se oponha ao cumprimento de sua Lei.

 

o domingo em que a Santa Igreja de Deus celebra a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, encher-se-ão, no mundo inteiro, os templos católicos com uma multidão piedosa, que irá depositar aos pés dos altares suas súplicas e suas orações. Contemplando em espírito essa imensa multidão, composta de pessoas oriundas de todas as raças e de todos os pontos do globo, tão numerosa que, segundo a previsão do Apocalipse, “ninguém a pode recensear” (Ap 7, 9), um pensamento se apodera de mim. E ao mesmo tempo experimento o desejo imperioso de o comunicar aos meus leitores.

Uma verdade áspera e dolorosa

Ser-me-ia, sem dúvida, muito mais grato e fácil cingir-me exclusivamente a considerações de ordem geral sobre a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho, porém, a certeza de que tais considerações outros as farão. Mas o pensamento que está em mim, posso eu porventura ter a certeza de que todos os demais o tiveram, e de que, em hipótese afirmativa, o externarão? Uma dolorosa negativa me responde a esta pergunta. E por isso, deixando a outros uma tarefa, aliás, incontestavelmente indispensável e fundamental, vou fazer a mais ingrata, obscura e desagradável, porém mais necessária: a de dizer uma verdade áspera e dolorosa neste grande dia de festa.

Os bons pensamentos têm isto de característico que, quando aproveitados, servem de remédio tanto a nós mesmos quanto ao próximo. Quando, porém, nós os rejeitamos em nossa vida interior, ou os calamos em nossas relações com o próximo, eles se transformam, segundo São Paulo, em carvões ardentes que nos causticam e calcinam a alma. Ai dos que receberam e, por egoísmo ou covardia, não atenderam aos bons conselhos! Ai também dos que, por covardia ou egoísmo, calaram os bons conselhos que poderiam ter dado! Estes conselhos salutares, que eles não externaram, queimá-los-ão a eles próprios pelo interior, como brasas ardentes. E no dia do Juízo serão levados à conta de talentos inaproveitados.

Quando pronunciou, em Lisieux, sua magistral alocução, o então Cardeal Pacelli, já predestinado pelo Espírito Santo a reger futuramente a Igreja de Deus, fez uma queixa amarga que nos cabe recordar. Disse ele que, entre os muitos homens que desobedecem hoje às palavras dos Pontífices, há uma categoria que causa especial mágoa ao Papa. Não se trata dos que não têm Fé e nem dos que, tendo uma Fé morta e inoperante, não procuram ouvir o que o Papa lhes diz. Os que mais fazem sofrer o Papa – e este é o ponto que nos interessa – são os que, aos pés do púlpito, em atitude externa correta e reverente, ouvem a palavra do Vigário de Cristo comunicada pela hierarquia eclesiástica, mas não a compreendem, se a compreendem não a amam, e se a amam platonicamente não lhe dão execução!

“Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam”

Assim, no dia de hoje, quantos e quantos católicos, elevados pelo Batismo à dignidade de cidadãos do Reino de Deus, nem sequer cumprirão o preceito dominical! Quantos outros católicos ainda, indo à igreja, ouvirão algum sermão sobre a Realeza de Jesus Cristo, sem saber, entretanto, e sem procurar saber em que sentido se deve atribuir a esta tão clara e tão litúrgica festa!
Quantos católicos, finalmente, acompanhando até o próprio texto da Liturgia Sagrada, lerão as maravilhosas lições que ela contém sobre a Realeza de Jesus Cristo e não a compreenderão! Quantos católicos que procuram implantar o Reino de Cristo no mundo inteiro, esquecidos ou ignorantes de que devem começar por implantar dentro de si mesmos! E quantos outros supõem que podem implantar realmente dentro de si o Reino de Cristo, sem sentir um desejo ardente e devorador de o implantar no mundo inteiro! Em outros termos, não são tais católicos do mesmo jaez daqueles que ouvem corretamente, porém só com ouvidos do corpo e não com os da alma, o que lhes diz a Igreja pela voz dos Pontífices?

A doutrina da Realeza de Jesus Cristo está intimamente ligada à belíssima e piedosíssima prática da entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares. Se se entroniza a imagem do Sagrado Coração de Jesus no lugar mais nobre do lar, é exatamente porque se reconhece que Ele é Rei. Entretanto, quanto lar há por aí em que a imagem está entronizada na sala, mas Cristo não está entronizado nos corações!
Evidentemente, não quero exagerar a tristeza já, de si, tão grande deste quadro, cometendo a injustiça de desprezar o que há de belo e de bom, apesar dessas lacunas. Qualquer ato de piedade, qualquer atitude de reverência para com a Igreja de Deus, por mais superficial e insignificante que seja, deve ser por nós, católicos, apreciado, amado e estimulado com um zelo imenso, reflexo direto de nosso amor a Deus. Longe de nós, pois, um pessimismo de sabor farisaico que nos fizesse contestar todo e qualquer valor a essas práticas de piedade, desde que sejam sinceras, por mais que a frieza ou a ignorância lhes toldem o brilho sobrenatural.
Entretanto, feita esta reserva, a verdade aí está: a queixa de São João ainda hoje é muitas vezes procedente: in propria venit et sui eum non receperunt… (Jo 1, 11)1

Cristo é Rei por ser Deus

Não seria, aliás, difícil conhecer a Doutrina da Igreja sobre a Realeza de Jesus Cristo. Na sua infinita misericórdia, Deus Se dignou de comparar o amor infinito com que nos ama ao amor que nos têm nossos pais. Evidentemente, não quer isto dizer que Ele tenha reduzido na comparação as insondáveis dimensões de seu amor, para as amesquinhar até as proporções exíguas dos afetos de que os homens são capazes. Pelo contrário, se Ele serviu-Se dessa comparação do amor paterno foi apenas para nos dar a entender, de longe, o quanto Ele nos ama. Se dermos à palavra “pai” o sentido que ela tem na ordem natural, Deus não é apenas nosso Pai, mas muito mais do que isto, por ser nosso Criador. Porém, como a função de pai, na natureza, não é senão de coadjuvar a Deus na obra da Criação, se alguém merece na realidade o nome de Pai é Deus. E nosso pai segundo a natureza outra coisa não é senão o depositário de uma parcela da paternidade que Deus tem sobre nós.

O mesmo se dá com a Realeza de Jesus Cristo. Para nos fazer compreender a autoridade absoluta que, como Deus, Ele tem sobre nós, Jesus Cristo dignou-Se de Se comparar com um rei. Entretanto, como é por Ele que reinam os reis, e a autoridade dos reis só é autêntica por provir d’Ele, na realidade, o único Rei, Rei por excelência, é Ele. E os reis ou chefes de Estado não são senão seus humildes acólitos, dos quais Ele Se digna servir-Se na obra da direção do mundo. Cristo é Rei por ser Deus. Chamando-O de Rei queremos simplesmente afirmar a onipotência divina, e nossa obrigação de Lhe obedecer.
Obediência! Eis aí um dos conceitos contidos essencialmente no conceito da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo é Rei, e a um rei se deve obediência. Festejar a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar seu poder sobre nós. E, implicitamente, nossa obediência em relação a Ele.
Como é que se obedece a um rei? A resposta é simples: conhecendo-lhe as vontades e cumprindo-as com amorosa e pormenorizada exatidão. Assim, pois, o único modo de obedecermos a Cristo Rei é conhecer sua vontade e segui-la.

 

Sejamos soldados de Cristo Rei

Desta noção tão clara, simples e luminosa um programa de vida, também ele claro, luminoso e simples, se segue.
Para conhecer a vontade de Cristo Rei devemos conhecer o Catecismo. Porque é ali, através do estudo dos Mandamentos, estudo este que só será completo com o de toda a Doutrina Católica, que conhecemos a vontade de Deus. E para seguir esta vontade devemos pedir a graça de Deus pela oração, pela prática dos Sacramentos e por nossas boas obras. Finalmente, pela vida interior, isto é, pela leitura espiritual, pela meditação e pela vida vivida exclusivamente à luz do Catecismo, seguiremos a vontade de Deus.
Disse Nosso Senhor que o Reino de Deus está dentro de nós mesmos. Ora, este pequeno Reino, pequeno como extensão, mas infinito como valor porque custou o Sangue de Cristo, cada um de nós o deve conquistar para Nosso Senhor, destruindo tudo aquilo que, dentro de nós, se oponha ao cumprimento de sua Lei.
Finalmente, as Leis de Cristo se aplicam não apenas a um indivíduo em particular, mas aos povos e nações. Que os povos conheçam e pratiquem na sua organização doméstica, social e política, as encíclicas que são a expressão da própria vontade de Deus, e Jesus Cristo será Rei.
Em outros termos, sejamos bons católicos; sendo-o, seremos necessariamente apóstolos; e sendo apóstolos, seremos necessariamente soldados de Cristo Rei.v

(Extraído de O Legionário n. 372, 29/10/1939)

1) “Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam”.

 

Beleza divina do Reino de Cristo

O reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo se exerce sobre
as almas. Cada indivíduo, nação, Ordem religiosa, forma
como que uma província, um céu. A harmonia dessas
almas individuais e desses grupos humanos constitui no
seu todo a beleza divina do Reino do Divino Salvador.

 

A primeira vez que fui à Europa, o avião que me conduziu chamava-se Ciel de Lorraine. Notei depois que havia uma série de aviões com títulos assim: Céu disto, Céu daquilo…

Encontra-se envolta nisso a ideia de que o céu da Lorena não é o mesmo da Île-de-France e este não é o céu de Auvergne. Portanto, a cada província, com suas características regionais e sua forma de cultura, corresponde um céu, já não o atmosférico, mas outra espécie que não é também o sobrenatural. Trata-se de um céu de cultura. Embora a partir da terra vejamos o mesmo azul na Lorraine ou na Champagne, há qualquer coisa que os diferencia entre si como também da doçura do céu da Île-de-France, por exemplo.

Então, embora se saiba que as nuvens e o céu, realmente com algumas variantes, mas afinal de contas são os mesmos por toda a parte, tem um sentido em se falar de um céu de Lorena, um céu de Auvergne, etc., e esta teoria da variedade dos céus inclui uma espécie de teoria da diversidade dos céus culturais, e de uma projeção para o céu físico de valores culturais da Terra e de uma impregnação destes por elementos vindos do céu astronômico-celeste, conforme se apresenta num lugar, constituindo um todo só que forma cada província a bem dizer um céu. O luar do Ceará, por exemplo, compõe um céu, pelo menos noturno, inteiramente especial.

Cada província é uma espécie de valor de alma que tem um significado próprio, e cuja posse é um elemento capital para a integridade do reino. Este, perdendo uma província, mais do que ficar privado de uns tantos territórios, perde algo que é um valor moral, cultural, o qual, desmembrado do reino, faz com que este perca a sua integridade e fique como, por exemplo, uma imagem sagrada da qual se cortasse uma parte. Quer dizer, algo de irremediavelmente mutilado, enquanto aquela unidade não se reintegrar.

Por causa disso, por exemplo, os franceses, com muito senso para as coisas, fizeram o seguinte: Quando a Alsácia e metade da Lorena foram tomadas na Guerra de 1870, eles envolveram com crepe de luto as estátuas que representavam em Paris essas províncias, significando que o crepe seria tirado quando aquelas províncias fossem reconquistadas.
Era um luto da França e da província. Um luto de alma por causa dessa unidade ideal que é a substância da verdadeira unidade do reino.

Cada indivíduo é como uma província do Reino de Nosso Senhor

A que propósito vêm essas considerações na festa do Reinado de Cristo?
Tenho a impressão de que quem não deteve a sua atenção sobre essa realidade de que acabo de falar, não possui toda facilidade desejável para compreender bem o que é o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É o Reino sobre pessoas e não territórios. Um Reino sobre almas em que cada indivíduo, grupo humano, nação, Ordem religiosa, família, constitui como que uma província, um céu. É a harmonia de todos esses grupos humanos, todas essas famílias de alma, todas essas almas individuais que constitui no seu todo a beleza divina do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. E o Redentor, como Rei, defende cada alma contra o ataque do adversário com um amor, um conhecimento do valor daquela alma e do que ela significa para a unidade do seu Reino, muito maior do que o Rei da França defenderia a Auvergne, a Lorena ou qualquer outra coisa.
Cada um de nós é a Lorena, a Alsácia, a Île-de-France de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele sabe que, assim como há o céu de uma província, existe o céu de um indivíduo o qual corresponde à sua luz primordial objetiva e subjetiva1. Isso no seu todo é uma espécie de firmamento de beleza espiritual próprio a cada um de nós, que o Divino Salvador ama com um empenho com que um verdadeiro francês deve, por exemplo, amar a Lorena ou o céu da Lorena.
Quer dizer, é este valor de caráter moral e espiritual que se deve amar. Isto nos leva, então, a considerar o seguinte: As províncias ou os municípios do Reino de Cristo Rei são os homens. Cada vez que Nosso Senhor perde ou diminui o exercício efetivo de sua realeza sobre uma alma, dá-se n’Ele, na sua vida terrena, uma tristeza parecida com a do rei que perde sua província; uma espécie de ordem de beleza ideal se perde. Mas cada vez que se volta a Ele, o Divino Salvador tem todas as alegrias dessa recondução. É isto que se joga continuamente na festa de Cristo Rei.

O céu para o qual Nosso Senhor nos chamou…

Existem céus para as várias famílias de alma. Qual será o que corresponde à nossa? Na harmonia de valores espirituais, que é o Reino de Cristo Rei, o que representa nossa família espiritual? Que valores morais, que vocação, que apelo para a virtude, para o heroísmo, para a dedicação incondicional, para enfrentar todas as formas de risco, de trabalho, de despesa, de humilhação, enfim tudo quanto está contido neste valor especial que Nosso Senhor Jesus Cristo criou para esta época, e para o qual Ele nos chamou!

Então nós devemos ter, na festa de Cristo Rei, a seguinte preocupação: o desígnio do Redentor a nosso respeito está se realizando e, portanto, o Reino d’Ele é efetivo em nós, como tem o direito de ser? Nós somos aquilo que Ele quereria que fôssemos?
É preciso dizer que, embora não se possa responder pura e simplesmente sim, sobretudo, graças a Deus, não se pode responder pura e simplesmente não. Devemos, ao formular esta pergunta, ter a alegria de dizer que o fundo de quadro é uma afirmação. E graças a Deus nós somos para Nosso Senhor Jesus Cristo, nessa época em que Ele é tão perseguido e tão flagelado, uma grande consolação.

Mas, por outro lado, isso nos deve dar o desejo de ser e dar ainda mais, para que se integre sobre nós o exercício efetivo do poder d’Ele. De maneira tal que tenhamos toda aquela beleza de alma, a qual seria propriamente o nosso céu nesse conjunto de formosuras que deveria ser, nos dias de hoje – e de fato é –, a Santa Igreja Católica. Porque esta, por mais desfigurada e conspurcada que esteja, é um jardim onde continuamente desabrocham flores para Nosso Senhor. E nós, talvez só no dia do Juízo Final, poderemos saber quantos santos florescem no desconhecimento, na ignorância, no abandono, isolados e odiados aqui, lá e acolá, dando a Deus uma glória completa e magnífica.

…e cuja estrela central é o Imaculado Coração de Maria

É assim que cada um de nós deve ver a atual situação e, quando for comungar, perguntar com que disposição o Redentor me recebe. Que graças, que generosidade Ele está disposto a me conceder?
Essas coisas na vida são uma espécie de regra de três. Nosso Senhor recebe a cada um de nós na Eucaristia com uma alegria, uma certa medida de tristeza e muita esperança. Isto no conjunto constitui a incompleta realeza de Cristo sobre cada um de nós, mas que, marchando para ser completa, é uma razão contínua de gáudio para Ele.
Assim, peçamos ao Redentor, por meio do Imaculado Coração de Maria, que nos dê a compreensão de todos esses céus da Igreja Católica, do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, de que nós somos individualmente e como família de almas uma espécie de céu dentro desse conjunto de céus. Um céu preciosíssimo porque sua estrela central é o Imaculado Coração de Maria. Estrela mais preciosa não poderia haver.
Que compreendamos as graças recebidas, quanto motivo temos para esperar perdão, misericórdia, e roguemos muitos favores com grande empenho e desembaraço, com uma respeitosa desenvoltura. A isso nos conduzem essas altíssimas considerações.v

(Extraído de conferência de 21/10/1964)

1) Luz primordial é o aspecto de Deus que cada alma deve refletir e contemplar, em função do qual precisa ordenar toda a sua existência, a sua vocação pessoal. A luz primordial objetiva está no Criador e a subjetiva se encontra na alma da pessoa.

 

 

Santa Catarina de Alexandria

Sobre a morte da Santa Catarina, virgem e mártir,  o Abbé Daras, na “Vida dos Santos”, tem essa narração:

“Maximiliano, imperador, ordenou a morte de santa Catarina. Foi ela conduzida ao lugar do suplício em meio a uma multidão, sobretudo de mulheres de alta condição, que choravam a sua sorte.

A virgem caminhava com grande calma. Antes de morrer, fez a seguinte oração: ‘Senhor Jesus Cristo, meu Deus, eu vos agradeço terdes firmado meus pés sobre o rochedo da fé e terdes dirigido meus passos na via da salvação. Abri agora vossos braços feridos sobre a cruz, para receber minha alma, que eu sacrifico à glória de Vosso Nome. Lembrai-vos, Senhor, que somos feitos de carne e sangue. Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância e lavai minha alma no sangue que vou derramar por vós. Não deixeis meu corpo, martirizado por vosso amor, em poder dos que me odeiam. Baixai vosso olhar sobre esse povo e dai-lhe o conhecimento da verdade. Enfim, Senhor, exaltai em vossa infinita misericórdia aqueles que Vos invocarão por meu intermédio, para que Vosso Nome seja para sempre bendito’.

“Em seguida mandou que os soldados cumprissem as ordens, e sua cabeça foi decepada de um só golpe. Era o dia 25 de novembro. Numerosos milagres logo foram constatados. Os anjos, como ela o desejara, transportaram seu corpo para a santa montanha do Sinai, a fim de que repousasse onde Deus escrevera sobre pedra sua Lei, que ela guardava tão fielmente escrita em seu coração.”

Esse trecho é de uma tal elevação que quase se lamenta ter que comentá-lo. Ficaria mais satisfeito deixando assim o texto brilhando no céu, no horizonte, suspenso, sem apoio nenhum na realidade, emitindo luzes. Mas já que é preciso comentar, vamos aos pormenores.

“Ela foi conduzida ao lugar do suplício em meio a uma multidão, sobretudo de mulheres de alta condição, que choravam a sua sorte.”

Se os senhores pensarem que são sobretudo as senhoras de alta condição que encabeçam as extravagâncias hoje em dia, os senhores vêem como as situações têm mudado. E quanto ainda tem de possibilidades um país onde as senhoras de alta condição acompanham, ao lugar do suplício, solidarizando-se com ela, chorando junto com ela, uma mártir que foi fulminada pela cólera do imperador. Um imperador onipotente, que pode mandar matar todos aqueles que se desagradarem de alguma atitude dele. Entretanto, essas damas vão todas, com Santa Catarina, e vão chorando.

O bonito, para verem a diversidade dos dons do Espírito Santo e dos efeitos da graça, é que elas vão chorando e está bem que elas vão chorando. Mas contrasta, pela sublimidade, com isso, com esse dom das lágrimas que as mulheres tiveram nesse momento, o fato de que Santa Catarina não chorava. Ela permanecia quieta, e com uma grande calma. Ela caminhava de encontro à morte, inundada de graças do Espírito Santo de outra natureza, por onde ela não chorava para si aquilo que a graça queria que as outras chorassem para ela. E como deveria ser impressionante esse cortejo de damas, andando, no meio dos soldados, e ela no meio, a única calma, a aconselhar a todas que tivessem tranqüilidade, que tivessem consolação, até chegar o momento em que ela devia morrer.

Aí, no fim da vida, ela faz uma oração. Essa oração é muito bonita e tem aquela forma especial de beleza que tem certas coisas muito bonitas quando não são inteiramente consequentes na sua lógica. São um conjunto de afirmações, como raios de luz que procedem de um mesmo foco, mas que brilham com uma beleza própria no horizonte. Então, os senhores vêem aqui a ideia dela:

“Senhor Jesus Cristo, meu Deus”…

… é para afirmar que Ele era o Deus dela e que ela não reconhecia outro Deus senão Ele. Então, a primeira coisa que ela diz, no momento de morrer, a primeira graça, a primeira palavra, o primeiro pensamento dela é para essa primeira graça:

“Eu vos agradeço por terdes firmado meus pés sobre os rochedos da fé, e terdes dirigido meus passos na via da salvação.”

Quer dizer, eu vos agradeço por ter pertencido a vós. Vós que sois a fonte de minha salvação, Vós que sois o ponto de partida de todo o bem que pode haver em mim, Vós que, se eu sou boa, é porque Vós sois bom e porque Vós me destes o ser boa: eu vos agradeço a fé que me destes e a firmeza que me destes na fé; eu vos agradeço o amor à virtude que me destes e a firmeza que vós me destes no amor à virtude. Isso é o primeiro que vos agradeço, reconhecendo que tudo que em mim há, à vossa iniciativa eu devo.

“Abri agora vossos braços feridos sobre a cruz para receber minha alma que eu sacrifico à glória de Vosso Nome.”

Pode haver uma coisa mais bela do que isso? O Divino Crucificado, com os braços todos sangrando, que os desprende da cruz para receber a alma dela que sai também inundada do sangue do martírio, para ser recebida por Ele. Que maravilhosa intimidade! Que encontro do Mártir dos mártires com uma mártir heroica e grandiosa! Que ideia do sangue dela misturando-se ao Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo! Que noção do Corpo Místico de Cristo há nisso! Que sacratíssima e augustíssima intimidade com Nosso Senhor! Ela tinha de tal maneira a ideia de que a alma dela estava unida a Ele, que a morte selava essa união, que ela pedia que Ele a abraçasse, logo que ela entrasse na eternidade. Que certeza de ir para o Céu!

Depois dizia:

“Lembrai-vos, Senhor, que somos feitos de carne e sangue. Perdoai-me as faltas …” – ou seja, que somos feitos os dois! – “Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância e lavai minha alma no sangue que vou derramar por vós”.

Quer dizer, ela tinha medo de, por ignorância, ter cometido alguma falta: era o que ela tinha para se acusar. Então, lavai a minha alma no vosso Sangue. Antes de ir para o Céu, antes de derramar o meu sangue por vós, eu quero que vós laveis a minha alma no vosso Sangue.

“Perdoai-me as faltas que cometi por ignorância… Não deixeis meu corpo, martirizado por vosso amor, em poder dos que me odeiam. Baixai vosso olhar sobre esse povo..Agora outro pensamento. Ela, depois de ter pensado em sua alma – pede que seja recebida por Nosso Senhor, que seja lavada das faltas que tenha, – pensa no corpo dela. Então pede que o corpo dela não seja deixado em mãos dos inimigos dela, daqueles que a odeiam porque odeiam a Ele.”

Vejam que respeito pelo corpo próprio! Que respeito pela santidade do corpo que foi um conosco na realização da virtude! Também, que atendimento magnífico dessa oração! Foi só ela morrer, que os anjos vieram e levaram o seu corpo. Para onde? Para a montanha mais augusta que há na terra, depois do Gólgota, depois do monte Calvário, e que é o Sinai, aonde a Lei de Deus foi dada aos homens. A coisa mais bela do Sinai é, certamente, a Lei de Deus, e para ali seu corpo foi levado. Os senhores sabem que até hoje o corpo dela está lá, e há um mosteiro de monjas contemplativas, no deserto do Sinai, que guardam esse corpo, e que meditam sobre a Lei de Deus que ali foi concedida aos homens.

“Baixai vossos olhos sobre esse povo e dai-lhe o conhecimento da verdade.”

Ela já não pensa em si, mas nos circunstantes.

“Enfim, Senhor, exaltai em vossa infinita misericórdia, aqueles que Vos invocarão por meu intermédio, para que vosso Nome seja para sempre bendito”.

Ela pede desde já a Deus que atenda a todo mundo que por meio dela pedir alguma coisa.

“Em seguida mandou que os soldados cumprissem as ordens, e sua cabeça foi decepada de um só golpe. Era o dia 25 de novembro.”

A calma e a resolução! Feita a oração, nenhum tremor, nenhum desejo de contemporizar um pouco. Também nenhuma precipitação de quem tem medo de enfrentar a morte correndo em direção a ela. Não, ela diz tudo quanto tem que dizer. E terminado isso, ela se entrega às mãos de Deus. Os soldados a matam e a oração dela se atende.

“Era o dia 25 de novembro. E numerosos milagres foram logo constatados..

Fala dos anjos que foram lá. E assim nós temos as considerações dessa grande santa, mártir, para algum efeito de caráter espiritual em nós.

Qual é o efeito que nós devemos pedir? Devemos pedir a ela que se, na luta ideológica contra o comunismo, contra outros adversários da Igreja, tivermos que sofrer riscos, ou talvez perder a vida, tenhamos aquela serenidade perante a morte que só a graça dá.

Porque perante a morte só há duas espécies de pessoas serenas: o cretino ou o homem movido pela graça de Deus. A morte é uma coisa tão tremenda – a separação entre a alma e o corpo, a liquidação do ser, o aparente afundar no nada -, que a gente só compreende a serenidade diante da morte ou do cretino, que está cronicamente habituado a não medir a importância do que lhe vai acontecer, ou então do homem que está dominado pela graça.

Vamos pedir, pois, que em todas as ocasiões da vida, tenhamos essa calma diante do risco; e calma que seja levada até o sacrifício extremo, caso essa seja a vontade de Nossa Senhora.

Plínio Corrêa de Oliveira (extraído da conferência de 24 de novembro de 1965)

Vinde, a Santíssima Virgem vos espera!

Ao contemplar as aparições de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré, Dr. Plinio ressalta o caráter profético de suas mensagens e a afabilidade e a inocência que transparecem nas narrações da Santa.

Devemos começar agora o comentário dos fatos que se relacionam com a aparição de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré.

Ângulo de análise dos fatos precedentes às aparições

Para acompanhar bem o assunto é preciso conhecer a situação geral da França e da Europa naquele tempo, porque se trata de uma série de revelações de caráter profético, neste sentido da palavra: elas se deram em 1830 e Nossa Senhora previu fatos — naquele tempo mais ou menos improváveis — que se dariam em 1870, quarenta anos depois, exatamente.

Os fatos tinham muita relação um com o outro e, debaixo desse ponto de vista, essas aparições interessam de um modo todo particular, porque a revolução de 1830 é apresentada por Nossa Senhora como sendo o primeiro sinal de um conjunto de desordens na França, que haveria de culminar com uma revolução em 1870.

A revolução de 1830 foi liberal. A de 1870 foi a chamada Comuna de Paris, e talvez se possa dizer a primeira revolução comunista na Europa, se não se considerar a Revolução Francesa como uma revolução comunista. Isso é outra questão. Habitualmente não era tida como comunista. Hoje muitos historiadores reconhecem que ela, chegando ao seu auge, tomou o caráter, o espírito comunista pelo menos.

Enfim, deixando isso de lado, é, portanto, a ideia do liberalismo gerando o comunismo que é apresentada de algum modo pelas revelações. Ideia que se relaciona tanto com a RCR e com as preocupações habituais do Grupo, que eu não poderia deixar de realçar isto desde o começo.

Tática revolucionária de Napoleão

Qual era a situação da França e da Europa em 1830? Era a seguinte.

A Revolução Francesa deve ser considerada como um grande movimento revolucionário que começou em 1789, simbolicamente, com a queda da Bastilha e que, verdadeiramente, teve seu fim em 1815, quando Napoleão caiu pela segunda vez.

Napoleão é tido por muitos como o contrário da revolução, porque ele impôs ordem à França quando ela estava no caos e na desordem. Mas a questão é que Revolução não é apenas desordem, caos, é também uma ordem material na qual se impõe que as coisas fiquem de cabeça para baixo. E foi exatamente o que Napoleão fez.

Ele aproveitou a ordem que ele impôs e aproveitou o prestígio das vitórias militares que alcançou para impor à França, de modo estável, uma série de transformações que a Revolução Francesa introduziu, mas que eram mal aceitas pelo povo. Em algumas coisas Napoleão recuou em relação à Revolução Francesa, em outras coisas ele impôs. E isto fazia parte do jogo: ceder algo, mas tornar algo definitivo e irremediável.

Revanche da Revolução

Em 1815 se dá a Batalha do Waterloo, Napoleão é mandado para Santa Helena, e a ordem na França gira: os Bourbons são restaurados e reinam de 1815 a 1830.

A restauração dos Bourbons se deu na pessoa de Luís XVIII, um irmão de Luís XVI. Ele foi sucedido por Carlos X, que reinou de 1824 até 1830, um reinado rápido. Em 1830 houve uma revolução de caráter liberal que destituiu Carlos X, tido como um rei reacionário e ultramontano. Em seu lugar foi colocado um parente deles, o Duque de Orleans, que não tinha direito à sucessão ao trono e que reinaria de 1830 a 1848.

A introdução de um rei ilegítimo, de ideias conhecidamente liberais, representava uma revanche da Revolução. Podemos dizer que a Revolução deu um grande passo para trás com a restauração dos Bourbons; fez meio passo para frente com a implantação da monarquia burguesa de Luís Felipe, e daí para a frente os fatos se foram dando até a Comuna de Paris em 1870.

Carlos X era católico, mas via uma série de coisas muito estrabicamente. Apesar disso, por causa da onda da opinião contrarrevolucionária, a Religião fez muitos progressos na França, restaurou uma porção de coisas, de instituições que tinham caído, foi uma ocasião de re-catolicização.  Nesse período os adversários da Religião também se levantaram e houve motins, agressões, um desenvolvi-mento grande do anticlericalismo. Isso era um bom sinal do ponto de vista religioso, porque sempre que a Igreja é atacada por seus inimigos, quer dizer que ela está fiel a si mesma.

Devemo-nos situar nessa atmosfera para compreendermos o ambiente no qual se deram as revelações de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré, religiosa de São Vicente de Paulo.

As Irmãs da Caridade

O hábito das Irmãs de Caridade era preto, como são os hábitos das religiosas, mas com uma espécie de grande gola engomada branca. A cabeça era adornada por uma toca bretã um tanto estilizada pela inspiração e pelas mãos da Igreja. Naturalmente, um rosário pendente da cintura.

Eu não tive muito contato com essas freiras, mas conheci muitas e muitas delas. Eram, em geral, pessoas robustas, fortes e prontas para o trabalho. Algumas — isso não as desdourava em nada — um pouco camponesas. Olhar límpido, reto, atitude despretensiosa de quem preferia passar despercebida.

Elas eram destinadas muito frequentemente a tomar conta dos hospitais, atender os doentes, e a outras obras de caridade material. Obras de misericórdia temporal, que elas aproveitavam como ocasião para obras de misericórdia espiritual: aproveitavam para chamar um padre para o agonizante, convidavam uma criança para ir ao catecismo da paróquia ou no convento delas. Se encontravam alguém desventurado pela rua, paravam, perguntavam o que queria, ajudavam a pessoa, etc. Enfim, faziam tudo quanto pudessem para atender aos infortúnios, às carências materiais, mas, sobretudo, às necessidades espirituais dos mais variados ambientes por onde elas costumavam se infiltrar.

A elevação desse apostolado que elas realizavam era tão grande e elas eram de tal maneira admiradas por isso que uma irmã de São Vicente de Paulo costumava ser tida como próprio símbolo da Religião numa das suas expressões mais belas e mais comovedoras.

Quando Nossa Senhora deseja…

Catarina Labouré nasceu em 1806. Era filha de um casal de proprietários rurais. Sua mãe faleceu quando tinha apenas nove anos.

Catarina pediu autorização do pai para ser freira. Este se opôs terminantemente e julgou bom, para distraí-la, mandá-la para um lugar de prazer, um emprego onde ela podia se distrair, ter prazeres.

Paris já era, para as proporções da França e do mundo daquele tempo, uma cidade de luxo, uma cidade-turbilhão da alegria, do contentamento de viver mundano. O pai queria conduzi-la até Paris para a vocação desaparecer.

Mas quando Nossa Senhora quer, quer: Catarina acabou indo para Paris, tornou-se freira e recebeu as revelações.

Nos subúrbios de Paris

Catarina Labouré, no ano de 1828 foi posta pelo pai ajudando seu irmão num pequeno restaurante para operários, num dos bairros mais populosos de Paris.

Era um restaurante só de homens. Com certeza estes homens comiam ali porque não tinham tempo de ir para casa comer. Imaginem a beberagem, as conversas imorais, as canções. E a futura santa obrigada pelo pai a servir ali. Vejam o contraste e o “rio chinês” que o desígnio da Providência percorreu nesta ocasião.

Ela tinha nessa ocasião 22 anos, uma idade inteiramente inadequada para esse tipo de serviço. Ela ficava — era a defesa dela — quieta, e durante o serviço nunca descerrava os lábios. Falassem com ela o que fosse, perguntassem o que quisesse, ela servia sem dizer uma palavra. Era o meio de, naquele ambiente, se isolar e proteger a sua própria pureza, a sua piedade.

Ela se sentia supliciada em um ambiente tão livre como esse, onde os gracejos e até os galanteios a ela evidentemente não faltavam.

O operário daquele tempo era, em geral, muito corpulento, porque a indústria era muito menos mecanizada do que hoje em dia, exigia muito mais força no trabalho manual. Imaginem um restaurante pequeno cheio de homenzarrões. Entra uma donzela que não tem outra coisa senão seu Anjo da Guarda para defendê-la e que acaba domando o ambiente. Brincadeira de cá, gracejo de lá, galanteios de acolá. Ela tem apenas a defesa do repúdio e dos lábios cerrados. Ela domina.

Vê-se a virtude dominando o vício, o espírito dominando a matéria. Que bela vitória e como isso nos ajuda a conhecer o perfil moral da santa.

Em Châtillon-sur-Seine

Esse martírio durou cerca de um ano. Em 1829 Santa Catarina Labouré passou a residir com uma cunhada, que mantinha um pensionato para moças em Châtillon-sur-Seine, no departamento de Côte d’Or. Era aí que uma parte da nobreza da Borgonha enviava suas filhas.

Catarina viveu com mais liberdade e pôde melhorar algum tanto sua escrita. Mas a ortografia dela foi sempre muito irregular.

Em janeiro de 1830 ela entrava no hospital de caridade dirigido pelas irmãs de São Vicente de Paulo em Châtillon-sur-Seine.

Ela, que tinha vergado os operários do botequim, vergou também o pai.

Depois de três meses de postulantado, seguiu, enfim, para Paris. E em 1830, no mês de abril, pela primeira vez entrou no noviciado da Rue du Bac, onde as aparições se deram.

Ela era, portanto, noviça quando essas aparições se verificaram.

Junto ao coração de São Vicente

Três dias depois da chegada de Catarina, deu-se a solene transladação dos despojos de São Vicente de Paulo para a capela da Rue du Sèvre, grande cerimônia à qual assistiam o Rei Carlos X e o arcebispo de Paris, Mons. Quélan.

Que cena linda: o arcebispo de Paris com certeza presidindo a cerimônia, é provável que o pálio cobrisse os restos mortais de São Vicente de Paulo e ali fosse o rei também. Tudo leva a crer que antecedendo e fechando o cortejo das relíquias, havia personalidades do clero, da família real, da corte, povo em quantidade, provavelmente tropas apresentando armas, etc. Assim se deu a transladação do corpo de São Vicente de Paulo, que era o fundador da congregação religiosa para onde ela estava entrando e que era, naturalmente, venerado por todo o povo francês.

Santa Catarina, como noviça, frequentou várias vezes a capela de Saint-Lazare, onde foi colocado o corpo de São Vicente de Paulo. Conta ela:

O coração de São Vicente aparecia todas as vezes que eu voltava de Saint-Lazare. Apareceu-me três vezes de modo diferente, três dias seguidos: branco, cor de carne, o que anunciava a paz, a calma, inocência e a união; depois o vi vermelho, cor de fogo o que indicava o incêndio de caridade de seu coração; parecia-me que a comunidade devia se renovar, estender-se até as extremidades da Terra, o que de fato se deu. Por fim o vi vermelho negro, o que indicava tristeza. Vinham-me tristezas que tinha muita dificuldade em dominar. Não sei porque nem como essa tristeza se relacionava com a mudança de governo que havia proximamente na França.

São Vicente de Paulo, como santo, amando a França, a civilização cristã e sobretudo a Igreja, dava a conhecer a ela, antes da queda do governo, que o rei cairia. Exprimia a sua dor profunda fazendo ver o próprio coração nesses coloridos diferentes. Um vermelho quase preto que indicava tristeza, o que iria acontecer? Por que é que ela sabia de antemão?

Para que nós soubéssemos, é claro. Mas também para rezar e para ir pedindo pela causa católica na França antes mesmo da causa ser golpeada, de maneira a conseguir que o golpe não fosse tão grande e alguma coisa sobrevivesse.

Vemos a Providência que permite o golpe, mas prepara também algo que atenua. Vê-se aí a bondade e a misericórdia de Nossa Senhora.

Graças de perseverança

Certo dia uma voz interior disse à vidente: “O coração de São Vicente está um pouco consolado, porque obteve de Deus, por mediação de Maria, que suas famílias não pereceriam no meio dessas infelicidades e que Deus se serviria delas para reanimar a fé”.

Quer dizer, seria normal que o ramo masculino e feminino da obra de São Vicente de Paulo desaparecessem, mas Nossa Senhora obteve e pediu antes da revolução que essas duas famílias — eu interpreto assim, sendo ramo masculino e feminino — sobrevivessem para espalhar a fé pelo mundo inteiro. O que em larga medida aconteceu.

Revolução de julho

Os mais negros e tristes pensamentos ocorreram no dia da Santíssima Trindade, 6 de junho.

A revolução foi em julho.“Nosso Senhor me apareceu como um rei com a cruz sobre o peito no Santíssimo Sacramento. Isto se passava durante a Santa Missa, no momento do Evangelho. Pareceu-me que Nosso Senhor era despojado de todos os seus ornamentos, caindo tudo por terra”.

Isto se relacionava com a revolução que haveria daí.

“Foi então que tive o pensamento que o rei da terra seria despojado de suas vestes reais”.

Foi o que aconteceu nos últimos dias de julho.

“Daí os pensamentos que tive, que não saberia explicar, sobre a perda que se fazia.”

Como ela era uma pessoa pouco culta, não compreendia todo o alcance desse acontecimento, o que a Religião perdia com isso.

Ela estava com o espírito pouco afeito a medir os vais-e-vens da Revolução e da Contra-Revolução, mas Nosso Senhor Jesus Cristo lhe dava a entender uma profunda tristeza com esses fatos.

Aí os senhores têm uma coisa curiosa, que é o relacionamento direto… Eu não me lembro de ter visto uma coisa parecida — talvez houvesse — de uma revelação tão altamente provável, eu no meu foro interno a tomo como certa, com um fato político. Mas assim, um fato político determinado: “A fulano vai acontecer tal coisa, e por isso Deus está triste”. Eu não me lembro de uma coisa dessas, é um fato único — único ao menos para minha memória — e que eu gostaria de ressaltar.

O sobrenatural começa a manifestar-se

Imaginemos a cidade de Paris, naquele tempo enormemente menor do que ela é hoje, silenciosa, tranquila, ainda sem motores. Os automóveis ainda não existiam, o silêncio de toda a população que dormia era apenas de vez em quando interrompido pelas patas de um cavalo que batia sobre a pedra da rua e que ia puxando algum carrinho ou alguma carruagem depressa durante a noite para um lugar.

Não havia ainda luz elétrica e o dormitório das religiosas era iluminado por candeeiros. Todos dormiam, inclusive Catarina. Ali, completamente diferente do mundo fora, o maravilhoso sobrenatural começa a se desenrolar e Nossa Senhora faz a primeira das suas diversas grandes mensagens para o mundo no século XIX.

Vale a pena ler o próprio texto da santa contando o que se passou então. É um pouco longo, mas são suas próprias palavras. Isso fará um desenvolvimento do tema.

“A Santíssima Virgem vos espera…”

Ela diz o seguinte:
“Veio depois a festa de São Vicente. Na véspera, nossa boa Madre Marta nos fez uma instrução sobre a devoção à Santíssima Virgem, o que me deu desejo de vê-La. Deitei-me, pois, com o pensamento de que naquela noite mesmo eu veria a minha boa Mãe. Havia tanto tempo já que eu desejava vê-La.”

A inocência e a ingenuidade desse pensamento e o caráter filial são muito bonitos.

Enfim, às onze e meia da noite… Para aquele tempo era alta noite. “…ouvi me chamarem pelo nome:

‘Irmã Labouré! Irmã Labouré!’. Acordando, olhei do lado de onde vinha a voz, que era do lado da passagem.”

Deveria ser uma passagem no dormitório.

“Corro a cortina e vejo um menino de 4 ou 5 anos que me dizia: ‘Vinde à capela, a Santíssima Virgem vos espera’.

Devemos imaginar um ambiente com uma paz, tranquilidade, todas as freiras dormindo, esse menino aparece — ela depois descreve o menino — e diz: “A Santíssima Virgem vos espera”. Quer dizer, uma afabilidade de Nossa Senhora à espera dela.

“Logo me veio o pensamento: ‘Irão perceber’. O menino me respondeu: ‘Ficai tranquila. São onze e meia da noite, todo o mundo está dormindo. Vinde, eu vos espero’.
Quem é esse menino que diz “eu” aí?

“Vesti-me depressa e me dirigi para o lado do menino. Este tinha permanecido de pé sem avançar além da cabeceira de minha cama. Ele me seguiu, ou melhor, eu o segui, sempre à minha esquerda.”

“Por todos os lugares onde passamos as luzes estavam acesas, do que me admirava muito…”

Naturalmente ninguém via, era milagre. Tudo isso já é dado para causar impressão.

“Porém, muito mais surpresa fiquei quando entrei na capela. A porta se abriu mal o menino a tocou com a ponta do dedo e minha surpresa foi ainda mais completa quando vi todas as velas e castiçais acesos, o que me recordava a Missa de meia-noite”.

Como se fosse a Missa do Galo. “Entretanto, nada vejo da Santíssima Virgem.

O menino me conduziu ao presbitério, ao lado da cadeira de braços do senhor vigário. Ali me ajoelhei e o menino permaneceu de pé todo o tempo. Eu achava o tempo longo e olhava para ver se as vigilantes não passavam pela tribuna”.

No fundo, onde fica o órgão. Ela tinha medo que pudessem perceber, alguma coisa violasse o segredo.

Seria bonita a cena. Ela ajoelhada junto à cadeira do senhor vigário, as luzes todas acesas e pensando o que diria à vigilante sobre essa completa irregularidade.

“Ali se passou o momento mais doce de minha vida”

“Por fim chegou a hora. O menino me preveniu. Ele me disse: ‘Ei-la, a Santíssima Virgem’. Ouvi como um roçar de vestido de seda que vinha do lado da tribuna…

Era o “frou-frou” de quem está com um vestido de seda que, naquele tempo, ia até o chão. Produzia aquele ruído agradável e muito peculiar.

… perto do quadro de São José e que passava sobre os degraus do altar do lado do Evangelho sobre uma cadeira igual à de Santa Ana.

O que seria essa cadeira de Santa Ana?

“Eu estava em dúvida se seria a Santíssima Virgem. Nesse preciso momento o menino que estava ali me disse: ‘Eis a Santíssima Virgem’.

“Ser-me-ia impossível dizer o que senti nesse momento, o que se passava dentro de mim. Parecia-me que não via a Santíssima Virgem.

“Então o menino me falou não mais como uma criança, mas como um homem dos mais fortes e com as palavras mais fortes.

“Nesse momento, olhando para a Santíssima Virgem, dei um salto para junto d’Ela, pondo-me de joelhos sobre os degraus do altar e com as mãos apoiadas sobre os joelhos da Santíssima Virgem”.

Nossa Senhora estava sentada na cadeira do vigário. Santa Catarina apoiou as mãos sobre os joelhos de Nossa Senhora. Vejam a afabilidade dessa aparição, uma coisa extraordinária. Depois, para quem for São Tomé, que pôs a mão no flanco de Nosso Senhor, ela também tocou.

“Ali se passou o momento mais doce de minha vida. Ser-me-ia impossível dizer tudo o que senti. Ela me disse como deveria me conduzir em relação ao meu diretor espiritual, e várias coisas que não devo dizer. A maneira de me conduzir em meus sofrimentos, vir lançar-me aos pés do altar, e me mostrava com a mão esquerda o pé do altar, e ali fundir o meu coração. Aí eu receberia todas as consolações de que tivesse necessidade.”

Quer dizer, quando ela tivesse sofrimentos, não comentasse com ninguém, fosse ao altar e desabafas-se ali, mas num lugar indicado por Nossa Senhora para ela: “Aqui, nesse ponto, você venha”.
Os senhores compreendem quanto ela voltou a esse lugar fisicamente indicado por Nossa Senhora. Uma verdadeira maravilha.

“Então lhe perguntei o que significavam todas as coisas que eu tinha visto e ela me explicou tudo”.

Mas ela não disse o que era. Aqui não está.

“Fiquei não sei quanto tempo. Tudo que sei é que quando Ela partiu não percebi senão que alguma coisa se extinguia. Enfim, mais uma sombra que se dirigia para o lado da tribuna pelo caminho pelo qual Ela tinha chegado.”

“Levantei-me dos degraus do altar e percebi o menino onde o tinha deixado. Ele me disse: ‘Ela se retirou’. Nós retomamos o mesmo caminho, sempre todo iluminado. O menino estava sempre à minha esquerda. Creio que este menino era meu Anjo da Guarda que se havia tornado visível para me fazer ver a Santíssima Virgem, porque havia rezado muito a ele para que me obtivesse esse favor. Estava vestido de branco trazendo consigo uma luz miraculosa, isto é, ele era resplandecente de luz. Tinha a idade mais ou menos de 4 ou 5 anos.

De volta ao meu leito eram duas horas da manhã, pois ouvi tocar as horas.

Não tornei mais a dormir.

Está terminada a revelação.

Um veludo precioso

Não me consta que lá, na Rue de Bac, se indique qual foi o lugar mostrado por Nossa Senhora a ela. Evidentemente, qualquer um de nós que ali estivesse não deixaria de rezar, oscular o chão.

A cadeira está ali sobre um estradozinho e todo mundo que entra vai oscular a cadeira. Quando eu a osculei, deitei o olhar sobre o veludo e este pareceu-me novo. Fiquei desagradado, porque, se é novo, não é o veludo sobre o qual Nossa Senhora se sentou.

Na saída, perguntei à freira:
— Irmã, me faz favor. Esse veludo da cadeira é o próprio no qual Nossa Senhora Se sentou?

Ela disse:
— Não. Nós, há pouco, o substituímos por um veludo novo.

Eu pensei em ficar com o veludo para mim, e disse:
— Irmã, eu não poderia ter esse veludo? Ou ao menos um pedacinho dele?

Ela disse:
— Não.

Não me lembro se ela disse que foi jogado fora ou queimado. Eu não pude conter a minha surpresa e disse a ela:
— Mas, irmã! A senhora já pensou o que seria esse… Se a armação de madeira da cadeira se oscula, por que não oscular o veludo? Por que não guardar? A senhora já pensou que isto é uma relíquia.

— É…
Eu disse:
— A senhora já pensou quantas pessoas viriam aqui para receber das senhoras um pedacinho deste veludo?

Ela ficou assim meio surpresa e eu disse:
— Irmã, eu sou da América do Sul, sou do Brasil. Eu lhe garanto que a América do Sul desfilaria aqui para receber pedaços desse veludo!
— “Nous n’avons guère songé” — nem sequer pensamos nisso.

Uma promessa feita por Nossa Senhora

1830, julho. Colóquio com a Santíssima Virgem.
“Minha filha, o bom Deus quer encarregar-vos de uma missão. Tereis muitos sofrimentos, mas superareis estes sofrimentos pensando que o fareis para a glória do bom Deus. Conhecereis que é do bom Deus e sereis atormentada até que o tenhais dito àquele que é encarregado de vos conduzir. Sereis contraditada, mas tereis a graça e por isso não temais. Dizei com confiança tudo o que se passa em vós, dizei-o com simplicidade, tende confiança, não temais.”

Vemos quanto medo ela tinha do próprio confessor com o qual ela se deveria abrir.
“‘Vereis certas coisas. Prestai conta do que virdes e ouvirdes. Sereis inspirada na vossa oração. Prestai conta do que virdes em vossas orações”.

Os tempos são muito maus. Os males virão precipitar-se sobre a França; o trono será derrubado, o mundo inteiro será transtornado por males de toda ordem — ao dizer isto, a Santíssima Virgem tinha um ar muito penalizado —, mas vinde ao pé deste altar; aí as graças serão derramadas sobre todas as pessoas que as pedirem.

É uma promessa magnífica.

“‘Minha filha, gosto de derramar graças sobre a comunidade em particular. Eu aprecio muito. Sofro porque há grandes abusos contra a regra.’”

Nossa Senhora gostava da comunidade enquanto instituição, mas já naquele tempo havia muitos abusos no cumprimento da regra.

“‘As regras não são observadas, há grande relaxamento nas duas comunidades. Dizei àquele que está encarregado de uma maneira particular da comunidade. Ele deve fazer tudo o que lhe seja possível para repor a regra em vigor. Dizei-lhe de minha parte vigiar sobre as leituras, as perdas de tempo e as visitas’”.

“‘A comunidade gozará de uma grande paz, ela tornar-se-á grande. Momento virá em que o perigo será grande, acreditar-se-á tudo perdido.”

É curioso que este momento não é em 1830. Por que, como vai haver uma grande paz e se corrigirá os abusos, etc., etc., quando ela já está em julho e a revolução foi em julho?

Esses fatos não cabem aí, mas depois.

“‘Eu estarei convosco, tende confiança.
“Mas não se dará o mesmo com as outras comunidades: haverá vítimas — ao dizer isto, a Santíssima Virgem tinha lágrimas nos olhos. Para o clero de Paris haverá vítimas. Mons. Arcebispo — a essa palavra lágrimas de novo.”

Eu creio que não foi Mons. Qué-lan. Talvez aí seja uma profecia de 1870, não sei.

“Minha filha, a cruz será desprezada e derrubada por terra. O sangue correrá, abrir-se-á de novo o lado de Nosso Senhor, as ruas estarão cheias de sangue, Mons. Arcebispo será despojado de suas vestes — aqui a Santíssima Virgem não podia mais falar: o sofrimento estava estampado sob a sua face. “Minha filha, dizia Ela, o mundo todo estará em tristeza.”

A essas palavras pensei quando isto se daria: compreendi bem daí a quarenta anos.

Em 1870, onde realmente o arcebispo foi fuzilado abençoando os revolucionários e duas balas cortaram os dedos dele. Ele morreu abençoando.

Disse-me uma pessoa, muito competente nesses assuntos de História do século XIX, que o arcebispo era de tendência liberal. Ele teve de algum modo um castigo, porque os liberais o fuzilaram. Mas vejam como Nossa Senhora sofreu com o fato porque ele era arcebispo e, na pessoa dele, era a Igreja que sofria uma violência.

Vejam como Nossa Senhora ama as instituições eclesiásticas. Ela ama tanto uma congregação religiosa na qual Ela, entretanto, denuncia graves abusos. E Ela sofre tanto com o padecimento de um arcebispo. É a congregação enquanto congregação, o arcebispo enquanto arcebispo.

Isso deve nos fazer compreender o amor que nós devemos ter às instituições eclesiásticas, por mais que as vicissitudes humanas façam com que dentro delas se passem coisas que são contrárias
ao que se poderia querer.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraido de conferência de 7/11/1980)

“Não vos abandonarei”

Eu mesma estarei convosco. Tenho sempre velado por vós e vos concederei muitas graças.

Momento virá em que pensarão estar tudo perdido. Tende confiança, Eu não vos abandonarei.

Conhecereis minha visita e a proteção de Deus.

(Palavras de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré)

Santo André, Apóstolo: imitador do Divino Mestre em sua Paixão na Cruz

Ao ler a narração da morte de Santo André, Apóstolo, Dr. Plinio incentiva, uma vez mais, seus filhos espirituais ao amor à Cruz.

A Igreja comemora no dia 30 de novembro a festa do Apóstolo Santo André. Extraídas do Pe. Rohrbacher, como também do Abbé Daras, são as seguintes notas biográficas que passaremos a comentar.

“Santo André, primeiro Apóstolo a reconhecer Cristo, ao qual levou seu irmão Pedro, futuro primeiro chefe da Igreja, teve sempre um grande amor à Cruz. Na hora de sua morte, ao ver o madeiro no qual iriam pregá-lo, saudou-o com alegria.”

A saudação de Santo André à Cruz, feita neste momento, não deve ser considerada como pura literatura, pois cada palavra contém uma gravidade e um significado. Depois de açoitado, e ensanguentado, diante de sua cruz, a qual era em forma de “X” — por isto conhecida como Cruz de Santo André — está postado o Apóstolo mártir. Diante dela ele profere as seguintes palavras:

Cruz belíssima, desejada e amada com doçura

“Ó Cruz belíssima, que foste glorificada pelo contato que tiveste com o Corpo de Cristo! Grande Cruz, docemente desejada, ardentemente amada, sempre procurada, e afinal preparada para meu coração apressado, desejoso de ti.”

Eis a beleza da exclamação de um homem para a hora do sofrimento que Deus preparou para ele, e para a aceitação do cálice que ele tem de beber, a fim de obter sua glória no Céu. Cálice este, que, quando não sorvido, não alcança o prêmio celeste. Chega afinal a hora de seu máximo sofrimento, de seu martírio. Ele conhece o sofrimento, pois refletiu incontáveis vezes sobre a Paixão de Nosso Senhor, que assume sua alma nessa circunstância.

A cruz, que era um objeto de desprezo, um instrumento de punição para criminosos, contudo é por ele intitulada como “cruz belíssima”.

Por que belíssima? Ela foi glorificada pelo contato que teve com o Corpo de Cristo. Então ele acrescenta que a desejara com doçura.

Neste gesto é possível notar os inúmeros anos de amor ao martírio, que lhe tinha sido previsto e profetizado, a espera do momento em que ele faria por Deus este ato de holocausto desinteressado. Por amor a Jesus, ele deixou-se matar, assemelhando-se ao vaso de Santa Maria Madalena, quebrado com unguento junto aos pés do Senhor, sem utilidade prática, num ato de amor  desinteressado, em holocausto que não tinha outra razão de ser, senão seu próprio sacrifício. De forma tal que mesmo não sendo útil às almas, ou edificante para muitos, e ainda que não fosse uma humilhação para os adversários da Igreja, para manifestar a Deus que ele levava seu amor até aquele ponto, desejou a Cruz docemente, como algo suave.

Que beleza é a alma de um mártir, e quão belos sãos os esplendores existentes na alma de um mártir!

O que dá sentido à vida não é o prazer, mas a Cruz

“Grande Cruz, docemente desejada, ardentemente amada,…”

De todos os modos os homens fogem do sofrimento. O sofrimento é exatamente o que não desejam. Qualquer forma de luta contra as paixões, qualquer forma de renúncia ao mal, causa-lhe horror. A ideia predominante é de que a vida foi dada ao homem para que ele possa obter proveitos e vantagens, e que é preciso gozá-la, e o que não é fruir a vida, é morrer.

Pelo contrário, Santo André amava ardentemente sua cruz, compreendendo que o verdadeiro sentido da vida de um homem não é o gozo ou o prazer que tem, mas o sacrifício que pratica. Isto dá sentido à vida de um homem e, portanto, todo homem verdadeiramente sobrenatural, verdadeiramente homem, almeja o encontro com sua grande Cruz, com seu grande martírio.

Este é o filho da Cruz, o amigo da Cruz, como fala São Luís Grignion de Montfort.

Amar a Cruz, da qual todos fogem

“… sempre procurada…”

Não são muitos os homens que no momento de prestar contas a Deus, podem dizer que sempre buscaram a Cruz, e que em todos os acontecimentos de sua vida procuraram o sacrifício. Pelo contrário, geralmente os homens fogem da Cruz, pois não desejam de forma alguma o sacrifício. Entretanto, Santo André pôde dar de si mesmo o testemunho: “sempre procurada”. Assim, no instante de ele aproximar-se de sua cruz, estava disposto ao sacrifício.

Continua:
“… e afinal preparada para meu coração apressado, desejoso de ti.”

Manifesta-se aqui que Deus afinal concedera a Cruz para o coração que tinha grande afã da crucifixão.

O martírio significa o último holocausto. Nosso Senhor afirmou: “Ninguém tem um maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).

Ninguém pode dar maior prova do amor de Deus, do que desejar desta forma a Cruz.

“Cruz preparada para o meu coração, desejoso de ti, recolhe-me, ó cruz! Realmente abraça-me, retira-me dos homens, leva-me depressa, diligentemente, ao Mestre. Por ti Ele me receberá, Ele que por ti me resgatou.”

Pode haver uma oração mais bela do que esta? Existirá uma alma mais pronta para a visão beatífica do que uma alma que no momento da morte fala de tal forma?

Pode haver cátedra semelhante à Cruz?

“Por três dias esteve pregado na cruz, e durante três dias, do alto da cruz, ensinou aos homens”.

O fato é tão impressionante que pertence àqueles aos quais não competem comentários… Ficar dias preso à cruz, pregando ao povo, e ao cabo desses dias morrer, é um milagre extraordinário.

Apresenta a cruz como a mais grandiosa e augusta de todas as cátedras, cátedra do homem que sofre e, em nome de seu sofrimento, fala ao povo e produz enorme impressão. É uma tão grande plenitude de apostolado, que verdadeiramente não se sabe o que dizer.

Imaginemos um homem que era idoso, atado à cruz, no desconforto tremendo daquela situação, com açoites marcando seu corpo, possivelmente com as mãos e os pés perfurados. Nessa dor tremenda é mantido em vida por um verdadeiro milagre. Continua pregando ao povo, e a um povo ardoroso, contrito, provavelmente genuflexo, que lhe “bebia” as palavras, uma por uma. É uma das mais belas cenas de pregação católica de todos os tempos e de todos os lugares.

Pode-se imaginar quais foram as palavras, os ensinamentos, as graças, enfim, o martírio de Santo André? Que cátedra! Quem durante a vida possuiu uma cátedra semelhante à Cruz?

“Senhor, Rei Eterno da glória, recebei-me assim pendido como estou ao madeiro, à Cruz tão doce. Vós sois meu Deus, Vós a quem vi. Não permitais que me desliguem da Cruz; fazei isto por mim, Senhor, que conheci a virtude da Vossa Santa Cruz.”

E com estas palavras expirou.

Prêmio no Céu e nesta terra

Uma morte tão pulcra, da qual poder-se-ia dizer que apenas a de Nosso Senhor superou em beleza, era merecedora das maiores honras por parte da Santa Igreja, como de fato constatou-se séculos depois.

“Santo André foi sempre objeto de grande devoção por parte dos católicos. Assim foi, com indescritível entusiasmo, que a cabeça do santo foi recebida em Roma por Pio II, a 11 de abril de 1462. O Papa dirigiu-se ao encontro da preciosa relíquia. O cardeal grego, Besarion apresentou-lhe a caixa que a continha, e que estava colocada sobre um estrado. Antes de receber o sagrado depósito, Pio II pronunciou tocante alocução. Depois, beijou, chorando, a cabeça do Apóstolo, rezou diante dela; em seguida tomou-a nas mãos, segurando-a bem no alto, fez a volta no estrado para mostrá-la a todos os assistentes. Neste ponto, cantos e gritos dessa imensa multidão elevaram-se de todas as partes como uma única e grande voz, implorando a misericórdia de Deus.

A cabeça do Apóstolo foi depositada em São Pedro.”

Vê-se a descrição da linda cerimônia com que o Papa Pio II recebeu a relíquia de Santo André. O crânio de Santo André estava no Império Bizantino, infelizmente cismático. E à medida que os turcos invadiam o Império, algumas das relíquias insignes foram sendo retiradas do Império e levadas por mãos fiéis para terras católicas, onde pudessem ser adequadamente veneradas. Assim ocorreu com o crânio sagrado de Santo André.

Esse crânio foi recebido pelo Papa com toda a veneração narrada. Ele mesmo toma o relicário onde estava o crânio, e dá a volta no estrado para mostrar ao povo que o crânio de Santo André estava em Roma. Depois, o crânio, com enorme veneração, é levado até à Basílica de São Pedro e é colocado num relicário embutido numa das colunas da Basílica Vaticana.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 30/11/1964 e 29/11/65)

A mais augusta das cátedras

Santo André amava ardentemente a sua cruz, compreendendo que não é o gozo e o prazer que dão sentido à vida de um homem, mas o sacrifício que ele realiza. Portanto, todo homem verdadeiramente sobrenatural deseja carregar sua própria cruz.

Nosso Senhor disse: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13). Ninguém pode dar maior prova do amor de Deus, do que desejar, por esta forma, a cruz.

A cruz é a mais grandiosa e augusta de todas as cátedras. É a cátedra do homem que sofre e que, em nome e com os acentos de seu sofrimento, fala ao povo. Isso representa uma tal plenitude de apostolado, que verdadeiramente não se sabe o que dizer!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 30/11/1964 e 29/11/1965)

Revista Dr Plinio 188 (Novembro de 2013)     

Santo André Apóstolo

Quando lemos a narração evangélica sobre o encontro de Jesus com seus primeiros discípulos, não podemos deixar de louvar a fidelidade de Santo André.

Fiel a São João Batista, ele não hesitou um instante em obedecer à orientação do Precursor que lhes apontava o Cordeiro de Deus a ser seguido. Nosso Senhor era a realização da profecia do Batista. E Santo André, dócil à voz da graça, teve a glória de dar início à grandiosa história dos apóstolos.

Plinio Corrêa de Oliveira