13 de junho – Tesouro da verdadeira Igreja

Tesouro da verdadeira Igreja

Célebre por sua imponente beleza e extraordinário significado para a piedade católica, a Basílica de Santo Antônio de Pádua reluz como precioso tesouro da arquitetura engendrada pela Igreja.

Ao considerá-la, vem-me ao espírito, uma vez mais, a comparação com o perpétuo objeto de meu enlevo, de meu encanto e entusiasmo: o mar. Nele, como já tive ocasião de dizer, sempre me agradou contemplar as inúmeras formas de pulcritude com que Deus o criou, os diversos estados em que ele se apresenta a nós, desde a extrema calma até  a extrema agitação, com todas as gamas intermediárias. Ora é o ordenado das grandes ondas que avançam em ofensiva para a terra, sem tumulto nem descabelo, como um  ataque em regra de uma cavalaria nobre. Por vezes as ondas nem sequer arrebentam, apenas se avolumam e se estendem; outras, pelo contrário, estouram na praia ou nos  rochedos, e há um gáudio de gotas pelo ar, bailando alegremente, como se executassem uma lendária dança da vitória. Ora me compraz ver o mar inteiramente calmo, quase  imóvel.

Dir-se-ia que ele se encontra de tal maneira absorto na contemplação do céu, para o qual olha a todo momento, que nem pensa em si mesmo… De repente, a partir de um  ponto qualquer daquela imensidão líquida, algo começa a se mover. Dali a pouco é um vagalhão, é um tumulto aquático, e é outro assalto contra a terra. Dessa vez, porém, as  ondas não se aproximam em fileiras ordenadas, mas parecem vir se empurrando e se acotovelando, cada qual no desejo de tomar a dianteira e conquistar a terra mais  depressa. É a beleza da variedade, do inesperado, do quase susto, do imprevisto, que tem seu encanto próprio. E é essa sucessão de aspectos que torna o mar tão entretido.

Ora, a arquitetura, e especialmente a arquitetura religiosa, pode ter uma variedade de feitios análoga aos movimentos do mar. Será, por exemplo, a calma e a estabilidade de  uma Catedral de Notre-Dame de Paris: irrepreensível, ordenada, perfeita, lindíssima, cheia de lógica, de poesia e candura.

Outras vezes, a arquitetura borbulha e apresenta aspectos meio inesperadas. E é o próprio movimento da alma religiosa, nos seus entusiasmos, nos seus êxtases, nos seus  impulsos, na sua generosidade, nos lances ‘a la’ Santa Teresa de Jesus, ‘a la’ Santo Inácio de Loyola, que nos deixam desconcertados diante de sua grandeza. E isso é o que se  nota no jogo das várias cúpulas e minaretes da Basílica de Santa Antônio de Pádua, borbulhantes como o movediço das ondas do mar.

Olhando-se para o teto da igreja quase se esquece do corpo do edifício. Tem-se a impressão de que todo o resto existe como uma bandeja para carregar bem alto o  movimento musical das coberturas. E assim como podemos imaginar uma melodia num “crescendo” em que as notas se vão sucedendo alegremente umas às outras, assim nos parece que esses minaretes e cúpulas estão jubilosos à espera da hora em que sejam separados da base para poderem subir em direção ao céu. E que essa ansiedade do maravilhoso, uma ansiedade festiva, feliz, é apenas contida por uma corda que mão caridosa a qualquer instante vai cortar.

Noutra analogia com o mar, do mesmo modo como este é também rico e esplendoroso nos mistérios de suas profundezas, igualmente o interior da Basílica de Pádua é um imenso escrínio de tesouros espirituais e artísticos. É, sobretudo, o ambiente criado pela presença do Santíssimo Sacramento, pelas relíquias do grande Santo franciscano, pelas graças de que elas são veículo e que impregnam todo o recinto da igreja, estimulando e condicionando a piedade dos fiéis que ali rezam e se recolhem com edificante  devoção.

Além disso, a profusão de maravilhas que ali deixou a arte cristã, entre abóbadas, colunas e capitéis esplendidamente trabalhados; capelas, altares e murais em que se pode admirar o talento de mestres imortais, e um grande número de pinturas e imagens que datam de diferentes épocas da Cristandade, fazem com que a Basílica pareça um compêndio da história da piedade católica.

Todos esses fatores — beleza arquitetônica, presença do Coração Eucarístico de Jesus, relíquias de Santo Antônio de Pádua, imagens especialmente abençoadas, fiéis que recebem graças e as deixam transpirar de algum modo na sua maneira de ser, de andar e de rezar — concorrem, numa igreja como a Basílica de Pádua, com particular intensidade para conferir uma impressão única de piedade autêntica, e uma sensação de presença verdadeira da verdadeira Igreja, a Esposa Mística de nosso Divino Redentor.

13 de junho – Santa Edeltrude Vigor e beleza da alma medieval

Santa Edeltrude Vigor e beleza da alma medieval

Como nos mostra Dr. Plinio, a rainha Santa Edeltrude e suas irmãs — também canonizadas — são luminoso exemplo do que foi outrora a “Ilha dos Santos” (o atual Reino Unido), no alvorecer de uma era onde a virtude heróica se fazia freqüente até nos mais altos degraus da sociedade, a partir dos quais se estendia às outras camadas sociais, dando forma àquele conjunto chamado de Cristandade.

 

No dia 23 de junho a Igreja lembra Santa Edeltrude, Rainha e virgem do século VII. Filha de um monarca do Leste Inglês — um dos sete reinos que constituíam a Inglaterra de então — teve ela três irmãs santas: Saxburga, Edilburga e Virtburga. Como sói acontecer naquela época povoada de heróis da Fé, a virtude resplandecia no seio das famílias, e muitos parentes possuíam em comum, não apenas o sangue, mas também a santidade. Neste caso, poder-se-ia construir um esplêndido templo católico no qual houvesse quatro belos altares em honra dessas irmãs bem-aventuradas.

Ousadia e fundação de mosteiro

A respeito de Santa Edeltrude, alguns autores nos apresentam os seguintes dados biográficos:

Nasceu provavelmente por volta de 630 e morreu em Ely, a 23 de junho de 679. Quando ainda muito jovem, foi dada em casamento por seu pai, Anna, Rei de East Anglia, a um certo Tonbert, príncipe a ele subordinado. Deste primeiro marido, Edeltrude recebeu como dote algumas terras na localidade conhecida como a Ilha de Ely.

A santa viveu cinco anos com Tonbert em perfeita continência. Após a morte prematura do príncipe, viveu um pe­río­do de paz com sua vocação religiosa. Seu pai, entretanto, quis que ela se casasse novamente e lhe arranjou a união com Egfrido, filho e herdeiro de Oswy, Rei da Nortúmbria.

 De seu segundo esposo, que consta ter então apenas 14 anos de idade, recebeu mais terras, desta feita em Hexham. Por meio de São Wilfrido (634-709), monge beneditino e Bispo de York, cedeu ditas propriedades para a fundação do mosteiro de Santo André. São Wilfrido tornou-se amigo e guia espiritual de Santa Edeltrude, aprovando e lhe incentivando a guarda da virgindade. Porém, foi a ele que Egfrido recorreu, quando sucedeu seu pai, para fazer valer seus direitos maritais contra a vocação religiosa de Edeltrude.

Primeiramente, o bispo conseguiu persuadir Egfrido a deixá-la viver por certo tempo em sossego, como freira no convento de Coldingham, fundado pela tia dela, Santa Ebba. Mas ante o perigo iminente de ser levada à força pelo rei, Edeltrude fugiu em direção ao sul do país, com apenas duas companheiras, buscando suas terras em Ely. Ali, favorecida por milagres e misericordiosas intervenções divinas, num lugar cercado de pântanos, areias movediças e pelas águas do rio Ouse, iniciou a fundação do mosteiro de Ely.

Como o lugar ficava na região onde Edeltrude nascera, seus parentes de sangue real lhe forneceram os meios necessários para a execução de seus planos. São Wilfrido ainda não havia retornado de Roma, onde lograra obter do Papa Bento II privilégios extraordinários para aquela fundação, quando Edeltrude morreu vítima de uma epidemia a qual ela mesma havia predito.

Por muitos séculos, o corpo da santa foi objeto de devota veneração na famosa catedral de Ely, construída precisamente no local do antigo mosteiro fundado por ela. O atual edifício católico é considerado uma magnífica mostra dos vários estilos góticos, acrescentados durante diversas renovações desde o século IX, sendo que a última parte — o famoso octógono — foi adicionada em 1400.

Uma das mãos da santa é atualmente venerada na igreja católica de Santa Edeltrude, na Ely Place, em Londres. Trata-se do mais antigo templo católico da capital britânica, e durante a Idade Média era considerado uma espécie de feudo dos bispos de Ely, herdeiros daquelas terras de Santa Edeltrude.

Na Idade Média, ao lado da rudeza, autêntica virtude

Percebemos aqui um flash(1) da Inglaterra primitiva, bem como da aurora da Idade Média que contém algo de selvagem e, ao mesmo tempo, de extraordinariamente sobrenatural. Este contraste encerra, a meu ver, uma intensa beleza.

Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, os povos que surgem têm príncipes e princesas evidentemente com resquícios de barbárie. Quanto ao aspecto, ao porte, ao estilo, não podermos imaginar Santa Edeltrude e suas três irmãs semelhantes às filhas de Luís XV, pintadas por Nattier, sobre um fundo azul claro: Madames Henriette e Adélaïde, frágeis, como se fossem de porcelana, quase evanescentes, vestidas com sedas vaporosas. Devemos figurá-las como damas vigorosas, cujas mãos estavam afeitas a árduos trabalhos domésticos, embora fossem orgânica e autenticamente princesas de grande valor nos países onde surgiam.

Cumpre salientar, aliás, que elas eram por assim dizer os berços de posteriores dinastias, e seus povos, os pontos de partida de futuras civilizações. Como lembrei acima, habitava ali certa grandeza e a semente de uma alta santidade. Haja vista a confluência de muitos bem-aventurados: somente na corte da nossa biografada encontravam-se ao mesmo tempo quatro santas, ademais de um diretor espiritual igualmente santo! Além disso, uma disseminação tal da virtude que foi possível a Santa Edeltrude convencer aos seus dois sucessivos maridos — um príncipe e um rei — de guardarem a continência na vida conjugal.

Admirável perseverança

Juntamente com tais virtudes, não se pode ignorar algumas manifestações de primitivismo. Por exemplo, uma princesa que deixa seu esposo por este querer romper o voto de castidade, refugia-se num convento e o marido não ousa ir atrás dela nem invadir o recinto sagrado, o que, naquele tempo, era julgado um fato explicável. Hoje seria considerado um escândalo, com notícias espalhafatosas nos jornais, etc.

Seja como for, é admirável a perseverança de Santa Edeltrude na prática da castidade perfeita. O abandono da vida da corte, com todas as suas glórias, para adotar o estado religioso, a sabedoria com que ela governou seu mosteiro (num país então pequeno, isso representava algo muito importante para a própria vida da nação), encaminhando as religiosas para o Céu, tudo isso forma um conjunto de traços fisionômicos iluminados pela santidade, e justifica plenamente a devoção que os fiéis possam ter para com ela.

Assim, nada mais aconselhável e rico em benefícios para nossa alma do que nos recomendarmos às orações de Santa Edeltrude, Rainha e virgem, no dia de sua festa.  v

 

1) Sobre o termo flash, cf. Dr. Plinio número 55.

09 de junho – São José de Anchieta: dedicação heroica aos índios

São José de Anchieta: dedicação heroica aos índios

Grande taumaturgo, de esmerada cultura europeia e requintados dotes naturais, São José de Anchieta colocou-se inteiramente à disposição da Divina Providência, servindo de instrumento eficaz da graça para a conversão dos indígenas.

 

Há muitos anos, li uma biografia do Padre José de Anchieta que me agradou bastante, mas depois me esqueci dos fatos, e a figura dele me saiu algum tanto do espírito. E agora chegou às minhas mãos um “santinho” que traz uma síntese biográfica dele, com alguns detalhes curiosos e uma beleza própria, que me parece adequada para um comentário. O “santinho” diz o seguinte:

Recebeu o título de ”novo Adão”

O Padre José de Anchieta nasceu em São Cristóvão da Laguna, na ilha de Tenerife, no ano de 1534.

Depois de mencionar os vários lugares onde ele estudou, continua:

Exerceu poder tão extraordinário sobre os animais que mereceu o nome de “novo Adão”.

É lindo o título. Sabemos, pelo Gênesis, que quando Adão foi criado todos os bichos do Paraíso desfilaram diante dele. E Adão foi dando a cada um o nome, de acordo com a sua natureza, quer dizer, uma espécie de definição, classificação científica dos animais. E ele tinha sobre os animais um domínio absoluto.

Notem bem a lógica interna desses dons que o Padre José de Anchieta recebeu. Ele era um missionário mandado ao Brasil para dominar uma natureza ingrata e rebelde ao homem, a fim de permitir que os católicos pudessem implantar aqui o seu domínio, e abrir caminho para a civilização cristã.

Havia nele, portanto, em primeiro lugar na ordem da execução, o aspecto de um lutador contra uma natureza bravia, ainda não dominada, não batizada, por assim dizer, como a natureza europeia.

Mas, depois, ele era também o fundador de uma cidade que haveria de ter um papel enorme na vida de um país e da Contra-Revolução. Quer dizer, ele está na origem de uma série de fundações.

Então, enquanto batalhador contra a natureza agreste, ele foi dotado de um domínio especial sobre os bichos, que eram os maiores inimigos do homem, na ordem da natureza selvagem. Enquanto fundador, foi dotado do dom de profecia. Ele era um profeta, e pode-se ver isto no encanto e na beleza dos fatos da sua vida contados aqui.

Domínio sobre as aves…

Da janela do quarto em que residia, chamava as aves que vinham ter com ele.

Vejam que coisa bonita! No Pátio do Colégio, de manhã cedinho, o Padre Anchieta acorda e vê um belo pássaro. Chama-o para junto de si, a ave pousa, ele passa um pouquinho a mão em suas penas. O pássaro, sentindo o carisma do santo e todo agradado com esta manifestação dele, voa de novo. E as pessoas ali presentes pasmam com este novo Adão, que por esta forma domina a natureza.

Notem também a variedade dos dons da Providência. Para um São Francisco Solano, no Paraguai, Ela dá um violino que, ao ser tocado, aquieta os índios. Aqui, ao Padre Anchieta, que esteve preso entre os índios como refém, a Providência não deu o dom de tocar violino. Ele escreveu com um pau qualquer, sobre a areia, seu famoso poema a Nossa Senhora, em latim, mas não aquietou os indígenas; esteve no meio deles, correndo gravíssimo perigo de vida, e não foi morto. Entretanto, foi-lhe dado o dom de aplacar os bichos.

Podemos imaginar como esse dom impressionava os índios. Porque a cidade era muito frequentada por indígenas mansos, os quais, por sua vez, tinham contato com os índios agressivos. E a fama se espalhava, então, de que o “grão-pajé branco” dominava completamente a natureza. Sem dúvida, isso auxiliava muito a conversão dos indígenas.

Vemos assim, sob uma forma muito poética, elevada e nobre, aquele homem de ferro, um filho de Santo Inácio dos grandes tempos, que subia a pé a Serra do Mar. Pois bem, um homem assim abre a janelinha de seu quarto, numa São Paulo cheia de neblina, de garoa, frente a uma praça com árvores, onde se encontram índios, escravos negros, portugueses, chama dois, três pássaros, dá-lhes alguma coisa para comerem e despede-os. É o primeiro momento de distração de um santo, antes de um dia cheio de trabalho.

…as feras e as cobras

Aqui são narrados outros fatos interessantes: Mesmo as feras e as serpentes venenosas abrandavam ante ele a sua ferocidade, e perdiam o natural veneno. Muitas vezes, bastou a invocação de seu nome para livrar seus devotos das mordeduras venenosas.

As cobras eram o terror do Brasil daquele tempo. Era uma ameaça constante para os bandeirantes e para todo mundo que vinha morar aqui, inclusive para os índios. E além do perigo das serpentes, havia também os outros animais selvagens: a onça, por exemplo. Então ele, quando atacado, ou via alguém agredido por uma fera, mandava esta recuar e era obedecido, ou, se fosse uma cobra, a mesma perdia o seu veneno.

Alguém uma vez definiu que cobra sem veneno é minhoca. Ele, portanto, “aminhocava” as cobras, reduzindo-as a nada.

Considerem que coisa bonita: numa estrada de mato, aparece uma serpente, que está para armar um bote contra uma criancinha. Padre Anchieta ordena: “Para!” A cobra fica imóvel e se deixa capturar. Vão examinar, não tem mais veneno.  Ele sorri e os pais do indiozinho pedem para ser batizados. É um dos feitos do Padre Anchieta dentro da mata.

Coisas destas deveriam se contar nos cursos de História do Brasil. Isso não daria um outro perfume à nossa História?

Ressuscitou mortos e teve o dom de profecia

Nos processos de beatificação que ainda se conservam, juraram os contemporâneos numerosíssimos prodígios do grande taumaturgo, tais como ressurreições operadas na Bahia…

Quer dizer, este homem ressuscitou mortos na Bahia!

…e muitas profecias, como a do desastre de Alcácer Quibir, em que pereceu o Rei Dom Sebastião de Portugal.

Foi a famosa batalha em que o Rei Dom Sebastião atacou os mouros, e ele, com a flor da nobreza portuguesa, foram dizimados. O trono de Portugal tornou-se vacante e, pouco depois, passou para a Casa d’Áustria que governava a Espanha. Mas isso representava, durante algumas décadas, o fim de Portugal.

O Padre Anchieta previu também o dia de sua morte, e, aproximando-se a data de seu falecimento, fez todas as visitas de despedidas, como para uma viagem. Entrava nas casas das pessoas por ele conhecidas — mais ou menos toda a aldeia —, sentava-se e dizia: “Queria agradecer as atenções, as gentilezas, e prometo rezar por vós no Céu. Vou morrer no dia tal, de maneira que eu vim aqui me despedir”.

Imaginem a sensação dos membros de uma família, ao receberem a visita de um homem que eles viram deter as onças, chamar os pássaros, profetizar a queda de Portugal e agora prevê a data da própria morte! Depois, ele levanta-se, cumprimenta e pergunta:

— Não quer nada do Céu?

— Ah! me recomende a Santana, a Nossa Senhora da Assunção, Padroeira de São Paulo, reze por mim, arranje tal caso…

— Pois não, vou providenciar.

Anchieta morreu no dia exato previsto por ele.

É tão bonito, de tal maneira um encanto, que vale a pena comentar isso numa reunião nossa.

O encontro com um velho índio que esperava conhecer a verdadeira Religião

Naquelas andanças do Padre José de Anchieta, mato adentro, não à procura de esmeraldas, mas de almas, a certa altura ele encontrou sentado num tronco de árvore um índio muito velho. Conhecedor dos vários dialetos indígenas, Padre Anchieta se dirigiu afavelmente ao homem, perguntando-lhe se precisava de alguma coisa.

O indígena explicou que estava esperando ali a hora da morte.

— Mas como a hora de sua morte?! — perguntou o Padre Anchieta.

O índio respondeu:

— Sonhei que, quando estivesse velho, viria um homem vestido com esse traje preto com que o senhor está, e me ensinaria a Religião verdadeira, a qual a vida inteira eu quis conhecer. Há tempos me sento neste tronco à espera desse homem. Hoje o senhor veio; queira me ensinar a verdadeira Religião.

Podemos imaginar a comoção do Padre Anchieta! Ensinou-lhe as verdades essenciais da Fé, batizou-o, e depois o homem morreu na paz de Deus.

O pobre índio tinha um tal desejo que, se não fosse a Providência ter pena dele e abrir essa exceção, ele morreria tendo recebido o Batismo de desejo.

Mas, como vale a pena ser batizado com água! Vale tanto, que esse velho indígena — que poderia ter o Batismo de desejo — recebeu da Providência o benefício de ficar esperando, até vir o homem que pudesse pronunciar a fórmula e derramar sobre ele a água mil vezes querida e respeitável.

Imaginemos o lugar em que se deu essa cena:

Naquela época, o que era uma franja de civilização portuguesa no Brasil, levada pelo Padre José de Anchieta no meio de matos que nunca um ente civilizado tinha pisado? Portanto, todo mundo ignorava esse fato, que se passava sem publicidade.

Na selva, com algum sabiá cantando, algumas borboletas azuis esvoaçando de um lado para outro, um raio de sol que entra no meio da vegetação, o índio encantadíssimo, e Anchieta, derramando sobre ele a água de um Tocantins qualquer, dizendo com a voz serena, harmoniosa: “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Nessa hora, o índio entra para a Igreja Católica sem que outrem na Terra, a não ser ele e o Padre Anchieta, saiba que a Esposa de Cristo tem ali um novo filho. Fato ignorado, que não é nem sequer suburbano, mas do último extremo, da última franja, da franja mais ousada da civilização.

E assim nasce para a Igreja um filho procurado dentro da gentilidade, e trazido com amor — depois de uma revelação em sonho — para junto de um tronco, onde ele encontrou a salvação.

Após adquirir grande cultura na Europa, é enviado ao Brasil para tratar com índios

No mundo civilizado da época do Padre Anchieta havia um alto grau de cultura. Ele se beneficiou das circunstâncias que aumentaram a categoria de sua personalidade. E quando entrou em liça para lutar por Nossa Senhora, levava todos os elementos positivos que cercaram sua formação, e estava pronto para essa grande obra, porque procurara continuamente aproveitar tudo de bom que havia em torno dele: a virtude ensinada no Seminário e toda a cultura existente nos meios religiosos e no ambiente daquele tempo.

Isso representa um esforço considerável. Ninguém fica um homem muito culto sem ter empregado um grande vigor, pois sem esforço não há cultura.

Agricultura o que é? É o trabalho que o homem faz para tornar a terra útil ao plantio e, depois, a plantação que se faz no solo trabalhado. “Agri” vem de “ager”, campo; cultura é exatamente esse esforço de preparar a terra, de pôr a semente e de cultivá-la para que dê o resultado esperado.

Assim é a cultura do homem, entretanto muito mais nobre do que a cultura do campo, porque o homem é um ser incomparavelmente superior à terra. Por causa disso, a cultura do homem é muito mais exigente do que a agricultura, ou qualquer outra forma de cultura.

Anchieta precisou, portanto, trabalhar, esforçar-se, aprender, decorar, polir-se e adaptar-se de todos os modos possíveis. E, de repente, recebe do Geral da Companhia de Jesus — que decidia o destino de todos os jesuítas, pelo voto de obediência — a ordem de vir para o Brasil.

Depois de todo esse esforço de civilização e de cultura, ele é mandado para cá, a fim de ter contato com os botocudos, os guaianazes, os tupiniquins, com quanta espécie de índios mais ou menos bárbaros e selvagens que havia aqui. Dir-se-ia que todo aquele esforço intelectual anterior estava liquidado. Para tratar com os índios, do que adiantava isso?

Há uma espécie de desilusão nesse primeiro lance: se faz todo um esforço, o homem se torna primoroso; de repente, recebe a ordem: “Vá lá para o mato tratar com os tupiniquins!”

Utilizando seus dotes naturais como instrumento da graça divina

Anchieta tomou todos os recursos intelectuais que havia preparado e aplicou-os para o estudo do seguinte problema: Como são essas almas que Deus me manda evangelizar? Qual é a psicologia delas? Como entendem as coisas? Para começar, qual é a língua desses indígenas? Eles têm uma gramática?  Falar-lhes na sua própria língua é um primeiro passo para ter influência junto a eles e abrir-lhes os corações, porque ficam contentes ao ver que um homem branco, civilizado, aprendeu e fala o idioma deles.

Então, o Padre Anchieta estuda a língua tupi, faz uma gramática, uma espécie de dicionário. Desse material tosco, ele recolhe, com jeito, todos os conhecimentos necessários para entender a alma dos índios, a fim de saber como tratar com eles, para compreender sua instabilidade, como mudam continuamente de atitude e disposição em relação a alguém.

Que coisa difícil é lidar com um selvagem, de maneira que, aos poucos, ele se civilize! É mais árduo elevar um tupiniquim à condição de um católico do que um homem, nas mais altas cortes da Europa, encantar os reis e as rainhas pela sua própria cultura.

Anchieta tomou os recursos que ele tinha e os aproveitou, na aparência, para uma obra inferior, isto é, tratar com “sub-homens”; mas na realidade era uma obra dificílima, uma super-obra, precisamente porque se tratava de tomar os pobres índios, filhos amados de Deus, cuja salvação Ele quer, e elevá-los à condição de homens civilizados.

De que maneira a Providência agiu?

Antes de tudo, mandou graças extraordinárias para esses índios a fim de que, em contato com o Padre Anchieta, seus corações ficassem tocados. A graça fazia com que eles possuíssem admiração pelo santo missionário, se sentissem adoçados em companhia dele, tivessem grande desejo de estar, para falar — um pouquinho que fosse — com ele. Era efeito da graça vinda do alto, que dispunha seus corações para receber aqueles bens naturais que Anchieta pusera na sua própria alma e transmitia a eles. A graça baixava sobre esses dons naturais, dando-lhes um brilho sobrenatural, e ele os apresentava para os índios, que ficavam encantados.

Além disso, havia os milagres realizados por Deus para prestigiar o Padre Anchieta diante dos índios. Vê-se como a Providência ama os indígenas, quer o bem deles, e faz todo o possível para que correspondam à graça.

Salvo por um milagre, contribuiu para salvar inúmeras almas

Dou mais um exemplo. Anchieta estava escrevendo aquele poema a Nossa Senhora — ao qual me referi —, que é um poema lindo, composto em um latim muito puro, nas areias ainda virgens do litoral brasileiro. Escrever um poema em latim! Podemos imaginar o que isso representa de contraste com todo o ambiente que o rodeava.

Como não possuía tinta nem papel, ele escrevia com a ponta de uma vara na areia e decorava. Depois de ter decorado — ele tinha boa memória —, compunha mais um tanto. Evidentemente, uma coisa movediça, porque a noite chega, a maré sobe e apaga tudo; do que ele havia escrito não ficava nada. Portanto, ou guardava na memória, ou não adiantava.

Houve um tratado entre os portugueses e os índios, pelo qual os primeiros se comprometiam a determinadas obrigações para com os indígenas. Mas estes ficaram desconfiados que os portugueses não cumprissem sua parte. Então, o chefe dos portugueses entregou o Padre Anchieta como refém e disse: “Se nós não cumprirmos, matem-no”. E ele, como ainda não sabia falar a língua dos índios, tinha muito tempo livre, e aproveitou-o para escrever esse poema, enquanto aguardava o desfecho do caso.

Estava ele redigindo de costas para o mar — com certeza por causa da posição do sol, de um jogo de luz —, e não percebeu o que estava se dando atrás dele. A maré estava subindo, subindo… Os índios, vendo o que estava acontecendo, começaram a se refugiar em algumas elevações próximas. Eles percebiam que haveria um momento em que o mar deglutiria o Padre José de Anchieta. Então, gritavam frases que o santo missionário não entendia, mas que queriam dizer, mais ou menos, o seguinte: “Preste atenção! Tome cuidado! A água vem chegando!”

Mas, impressionado com a beleza do que estava compondo e, mais ainda, com a incomparável pulcritude moral d’Aquela em honra de Quem ele escrevia, o Padre Anchieta não se incomodou.

Em certo momento, por gestos dos indígenas, o santo missionário percebeu que estavam apontando para alguma coisa atrás dele. O Padre Anchieta olhou, e era o mar que formara uma parede, mas não o cobria porque Deus não permitia. E os índios, por serem muito emotivos e gostarem dele, começaram a berrar, pois não queriam que Padre Anchieta morresse. Só então ele percebeu a situação e saiu correndo. O mar o foi acompanhando, sem degluti-lo, até uma distância onde se espraiou naturalmente na linha do litoral.

Ele estava salvo por um milagre, e foram salvas inúmeras almas de índios que, encantados com aquilo e percebendo haver algo de sobrenatural, começaram a acreditar no que ele dizia.

Vemos em tudo isso o papel da graça, este dom de Deus, recebido no Batismo, que nos faz participar da própria vida divina, e nos confere uma energia, uma clareza de vistas, uma superioridade maiores do que aquelas que nos são próprias segundo a natureza. E começamos a entender, a falar, a fazer coisas maiores do que seríamos capazes naturalmente. É o mais alto dom que uma criatura pode receber.

Quando chegarem horas difíceis, talvez haja momentos em que julgaremos estar tudo perdido. Lembremo-nos de que essas são as horas de ganhar tudo; não duvidemos de nossa vitória, pois é Nossa Senhora Quem combate por nós. Se rezarmos a Deus por meio d’Ela, confiando em Maria Santíssima contra toda aparência, as águas se levantarão em torno de nós e não nos deglutirão, como aconteceu com o Padre José de Anchieta.

 

(Extraído de conferências de 11/10/1971, 7/6/1981 e 27/2/1993)

08 de junho – Um encontro com o “Beau Dieu d’Amiens”

Um encontro com o “Beau Dieu d’Amiens”

Acredito que ao longo de sua existência neste mundo, tem o homem incontáveis oportunidades de perceber a presença mais adorável, perfeita e sublime que imaginar se possa — a de Nosso Senhor Jesus Cristo, manifestada pelas ações da graça em nossa alma, quando meditamos em sua infinita grandeza, ou quando nos sentimos tocados por essa ou aquela representação artística de seu sagrado semblante.

Nesse sentido, sempre me comprouve de modo particular uma imagem de Nosso Senhor que se encontra no lado externo da famosa e linda catedral francesa de Amiens. Essa escultura O retrata numa tão majestosa e bondosa beleza, que ela passou a ser chamada de “Le Beau Dieu d’Amiens”: o belo Deus da cidade de Amiens.

Imaginemos quais sentimentos povoariam nosso coração se, enquanto passeássemos por um campo, de repente víssemos andando em sentido contrário o “Beau Dieu d’Amiens”!

Poderíamos então contemplá-Lo na nobreza do seu porte, no ereto de seu corpo, na harmonia de seus traços, na delicadeza de sua atitude, no que Ele possui de régio — pois a imagem na catedral é a de um Rei em toda a sua magnitude — e de hierático. Trata-se de uma figura que, a bem dizer, participa da heráldica, de tal maneira transparece nela o caráter sacral, as mãos em atitude de quem abençoa e ensina, estreitando ao peito o livro do Santo Evangelho.

Admiraríamos a luminosa cor de sua túnica, de seu manto, a formosura de sua face, emoldurada pelos cabelos e a barba igualmente formosos.

Caminhamos mais alguns passos, e Ele está à nossa frente. Antes mesmo de nos darmos conta, caímos genuflexos, tanto nos envolveria a noção da superioridade, da perfeição e da bondade infinitas de Jesus! Essa ideia nos faz dobrar os joelhos e nos aconchegarmos a Ele, como se Lhe disséssemos: “Contra todas as tempestades sois Vós, Senhor, o meu amparo. Protegei-me!”

Podemos crer que Nosso Senhor abandonaria a atitude hierática que a imagem de Amiens nos apresenta, e sorriria para nós. Essa nobreza divina, posta em sorriso, em quantas delicadezas se desfaz? Em quanta amenidade transluz? Em quanta clemência? E Ele nos pergunta: “Filho, o que queres?”

Os olhos profundos de Jesus — os quais imaginamos castanhos claros — penetram nos nossos, e nós, pelo olhar d’Ele, percebemos que o Mestre nos conhece melhor do que nós mesmos, nos ama de um amor acima de qualquer predileção humana, e sabe de todas as nossas necessidades, para todas é Ele próprio o remédio.

Jesus nos indaga, pois, sobre o nosso desejo. E teríamos vontade de Lhe responder:
— Senhor, quero tanta coisa, que nem sei dizer! Porém, Vós sabeis tudo quanto anelo. Mais: sabeis de tudo quanto preciso. Pois em meio a tantas volições minhas, quantas vezes estão ausentes as coisas de que realmente necessito, e quantas se atêm a coisas que me são supérfluas! Mas, Vós, Sabedoria eterna e encarnada, conheceis tudo que verdadeiramente me importa. Senhor, tende pena de mim!”

Um desejo mais elevado nasce em nossa alma, o de estar sempre com Ele; que o “Beau Dieu” nunca nos abandone. E quando começamos a balbuciar uma súplica nesse sentido, um fenômeno curioso, maravilhoso se opera: Jesus desaparece aos nossos olhos, e temos a impressão viva de que Ele está em nós! Misteriosamente, Ele habita em nosso interior, como se morasse numa casa, e ali, dentro de nossa alma, reza ao Padre Eterno por nós, cumula-nos de graças, favores, dons que nem sabemos descrever.

Tomados por sentimentos indizíveis, a Ele nos dirigimos:
“Senhor, eu estava certo de que me daríeis algo superior a todos os meus desejos. Concedeste-me a presença eucarística. Dentro de mim, realizais maravilhas e produzis benefícios dos quais só terei completa noção no Céu, quando, pelas mãos misericordiosas de vossa Mãe Santíssima, para lá me levardes e eu vos contemplar face a face. Senhor, para Vós, a minha gratidão inteira!”
Eis como poderíamos conceber um encontro com o “Beau Dieu d’Amiens”, em algum recanto daqueles agradáveis campos franceses…

08 de junho – Santo Efrem – O convite de Deus a uma alma inocente

Santo Efrem – O convite de Deus a uma alma inocente

Já assinalamos outras vezes que “Santo do Dia” era o título de uma série de conferências quase diárias dadas durante muitos anos por Dr. Plinio. Em cada ocasião, eram-lhe apresentadas as  biografias dos Santos celebrados na data, e ele escolhia uma delas para comentar. Foi o que ocorreu naquela noite de sextafeira, há cerca de três décadas…

 

A festa de hoje é de Santo Efrém, da Síria, diácono, confessor e Doutor da Igreja. Chamado “cítara do Espírito Santo”, grande devoto da Virgem, lutou contra os hereges no século IV. Estamos também no terceiro dia da novena do Sagrado Coração de Jesus. Tenho ainda aqui a ficha da bem-aventurada Osana de Mântua.

Qual delas comentar? Tenho certa preferência por esta última, porque nunca ouvi falar dessa bem-aventurada. Vejamos o que diz o autor: Osana Andreazzi, nascida em Mântua em 17 de Janeiro  de 1449, num esplendoroso palácio, pertencia a nobilíssima família vinda da Hungria. Com seis anos, um dia passeava sozinha pelas margens do rio Pó, quando ouviu uma voz clara, que lhe dizia  com firmeza: “A vida e a morte consistem em amar a Deus”. Extasiada, viu-se erguida do solo por um grande e belo Anjo. “Para entrar no Céu é necess ário que a Deus muito ames. Ama-o.

Ele a tudo criou para que O amem”, disse o Anjo.

Diante de Deus, então, ela rezou: “Ó Deus, Deus meu, por amor Vós me criastes para Vos amar e ser a Vós reconhecida por vossas imensas e inumeráveis bondades. Ó meu Deus e Senhor! inclinai os ouvidos de vossa bondade e escutai um pouco o meu pedido, não desdenheis minha intenção e meu santo desejo. Rezo, Senhor, porque tenho receio de não Vos amar e de não Vos conhecer  como deveis ser conhecido. Eis que, ó Bondade Eterna, estou disposta no meu espírito a só tomar a Vós. Ó meu doce Senhor! eu queria encontrar a maneira de, com atenção, poder abraçar-Vos a Vós só. Por isso rogo-Vos, iluminai-me com o fogo do Espírito Santo, ensinai-me, estabelecei-me de tal modo que perfeitamente possa amar-Vos e só a Vós, meu Deus, e de coração perfeito possa servir-Vos”.

Um grande desejo de ser teóloga invadiua avassaladoramente. Mas o pai achava que aquilo não convinha a uma criança. Proibiu-lhe. Osana, então, recorreu à oração, e a própria Mãe de Deus veio  ensinar-lhe, ministrando-lhe lições.

E a bem-aventurada dominou o latim, chegando a um sólido conhecimento da Escritura Sagrada, e podendo até citar Padres da Igreja. A proibição paterna a pouco e pouco se atenuou, caindo por terra. Faleceu com 56 anos, em 1505. Seu corpo, intacto depois de 400 anos, achase atualmente na catedral da cidade.

Aí temos o esplendor e, ao mesmo tempo, a dificuldade de se fazer idéia do que seja um santo através de narrações desse tipo. Conta um fato realmente admirável da vida dela, que se passou na infância. Depois informa que ela ficou teóloga, mas não nos diz quais foram suas cogitações, o que ela estudou, que pensamentos externou, nada! Ficase sabendo depois que ela morreu e que o corpo não se putrefez. Com esses escassos elementos, é muito árduo formar a idéia de um todo. Temos apenas fulgurações dentro das penumbras de uma vida cujo unum se gostaria de conhecer,  para se ter uma noção geral do que ela fez.

Por exemplo, se casou-se ou não; se entrou para uma Ordem religiosa; se foi perseguida por amor de Deus; se teve lutas com hereges ou com autoridades temporais simoníacas; se teve provações  extraordinárias; se teve consolações, etc. Nada disso nos é possível saber. Em primeiro lugar, porque uma simples ficha não pode contar tudo isso. De outro lado, é muito possível que a biografia  não conte mais do que isso. É-me, pois, difícil apresentar um comentário que, de fato, atinja o seu fim, que é de proporcionar a todos uma vontade séria, não uma veleidade, mas um firme  propósito de nos tornarmos santos.

Porém, os fatos aqui selecionados são muito bonitos e se prestam a algumas considerações que podem nos interessar.

Uma pequena teóloga que na sua inocência começa a falar

Sabemos que os estudos de Teologia e Filosofia, por sua grande profundidade, exigem um exercício muito grande da razão. É verdade que a Teologia é baseada em dados da Fé, todavia é uma elucubração racional a respeito desses dados, exigindo uma profunda aplicação da razão. São, portanto, estudos que convêm a pessoas maduras.

Ora, deparamos com uma situação curiosa: a Providência decide estimular a esses estudos uma menina de apenas 5 ou 6 anos de idade, que está passeando às margens do lindíssimo rio Pó (aliás,  tive ocasião de percorrê-lo longamente entre Milão e Veneza, encantando-me com as belezas dos panoramas). Enquanto ela caminhava, apareceu diante dela um Anjo, um ser magnífico, que lhe fez a seguinte comunicação: “Para entrar no Céu é preciso que a Deus muito se ame.

Veja: todas as coisas cantam-Lhe a glória e O proclamam aos homens. Ame-O, ame tudo o que criou, para que O amem”. O sentido das palavras é: Ele criou tudo e deve ser amado.

Por que a aparição de um Anjo para dizer essas coisas? Qual o Anjo que teria dito isso? Qual o modo de proceder do Anjo sobre a alma da menina? O Anjo tinha a menina provavelmente colocada  num panorama bonito e impressionada — como acontece na infância e na inocência primeira — com as belezas da natureza. Mas é evidente que quando o Anjo se revelou a ela, a mais bela coisa que  Osana tinha diante dos olhos era ele, um ser de uma beleza toda espiritual e esplendorosa, a quem ela teve a graça de conhecer e de contemplar face a face.

Quando o Anjo disse: “Veja como todas as coisas que Deus criou são belas; ame-as”, naturalmente sabia ser ele próprio a maior beleza que a menina já tinha visto. E ao afirmar: “Deus criou todas as  coisas, todas as coisas refletem a  Deus, ame-O”, ele queria significar sobretudo o seguinte: “Eu fui criado por Deus, eu reflito a Deus de um modo magnífico, ame a Deus contemplando a mim”.

Deus fez a essa menina um convite enfático, arrebatador, para que ela, através da visão do Anjo, compreendesse a magnificência do Criador e de toda a ordem da criação, que fica fora do alcance  dos nossos sentidos. E com isso convidá-la a transpor-se além de tudo quanto é sensível, a situar o espírito naquilo que tem muito mais densidade de ser, que são as criaturas meramente  espirituais e, infinitamente acima delas, Nosso Senhor.

Qual era a intenção de Deus? Era fazer dela, já nessa primeira apresentação, uma pessoa destinada à reflexão. Porque nas palavras do Anjo o que está dito é o seguinte: Todas as coisas refletem a  Deus. Faça um esforço de inteligência para, através desse reflexo, conhecê-Lo.

Aí está indicado o caminho de sua santificação. Aí está indicado o prêmio: se um Anjo é tão belo, quanto mais belo será Deus Nosso Senhor! Aplique-se à meditação.

Neste modo de dizer do Anjo, é tão pronunciado o chamado para a Teologia, que ela responde com uma oração que já é um verdadeiro tratadinho teológico. E era uma menina de seus 6 anos de  idade! É uma teologazinha que na sua inocência começa a falar.

Como se desenvolveu o espírito da bemaventurada?

Vamos imaginar a cena: o Rio Pó que deflui tranqüilo e luminoso, um barranco acima do rio, um jardim. A ficha biográfica nos diz que ela era de uma família nobilíssima. Naquele tempo as famílias nobres em geral eram ricas e, o mais das vezes, as famílias ricas eram nobres. Podemos conceber, portanto, uma menina rica e vestida como se trajavam as meninas naquele tempo.

Ora, como se vestia uma menina daquele tempo? Não era com o que se chama de traje de criança em nossos dias. Era com uma miniatura do traje das pessoas adultas. Temos, portanto, de  imaginá- la vestida como uma mulherzinha, com saia comprida, com cintura, cabelo penteado de um certo modo e, possivelmente, com uma flor na mão. E temos de figurar uma criança assim —  verdadeira boneca de se expor em vitrine — que de repente tem um êxtase. Vê um Anjo, e os que estão em torno dela nada vêem. E, diante dos circunstantes arrebatados, a menina, com o timbre delicado da voz feminina, acentuado pelo timbre infantil, com os fulgores da inocência primeva, sai com todo esse tratadinho de oração.

O que se passou nessa criança para ela se ter iluminado de tal maneira? Qual foi esse convite da graça para ela? O que aconteceu para que ela fizesse algo que uma criança não consegue fazer, que é raciocinar tão bem e com essa segurança?

Mais. Já nessa hora ela disse uma palavra que é o seu ecce ancila Domini: “Eu aceito, vou contemplar a Deus a vida inteira. Vou contemplá-Lo enquanto Criador das coisas que existem; vou contemplá-Lo enquanto presidindo e conservando a ordem dessa Criação. E essa contemplação, eu a farei como a finalidade de minha vida”.

Podemos imaginar o que seria a infância de uma menina assim. Não era uma doutorazinha, a toda hora dardejando uma lição, mas brincava com boneca, com casinha, de costura, etc., enquanto
se entregava a reflexões. Ajudada pela graça, parava e dizia alguma coisa que havia excogitado. É assim que devemos supor o desenvolvimento normal do espírito dela, assim como foi o do Menino Jesus — que teve verdadeiramente infância, mas era Ele! —ou como terá sido com Nossa Senhora.

Podemos pensar, também, nas pessoas piedosas moradoras naquela casa, vivendo sob o influxo do ambiente medieval, encantadas com a menina e considerando que ela não era qualquer uma:  Deus, por ela, queria fazer maravilhas.

Tendo Nossa Senhora como Mestra

Mas, sente-se na descrição o embate do mundanismo. A menina quis ser teóloga, e o pai não o permitiu. Compreende- se que ele não tenha querido. Entrevê-se que desejava para ela uma carreira  terrena e não a de teóloga, que era raríssima em se tratando de mulher.

Ele almejava para a filha uma carreira de grande dama, e chegou a proibir o  curso de teologia para uma menina tão fortemente chamada por Deus. Ele tinha  um milagre diante de si, mas disse não a Deus. 

Vemos a saída que Deus deu ao caso: “Está bom, não pode estudar teologia? Nossa Senhora ensinará a ela”. É um curso. Esse dado é muito encantador. A ficha é muito categórica: “A própria Mãe de  Deus veio ensinar-lhe, ministrando-lhe lições. Em pouco tempo a bem-aventurada dominou o latim, chegando a um sólido conhecimento da Escritura Sagrada, e podendo até citar Padres da  Igreja”.

Quer dizer, Nossa Senhora deu a ela uma interpretação da Sagrada Escritura. Podemos imaginá-la já mocinha e, de vez em quando, Nossa Senhora que aparece e lhe ensina alguma coisa da Bíblia,  á lições de teologia e, provavelmente, o próprio método de pensar da teologia.

E ela se torna assim uma pesquisadora autorizada e sólida da Escritura Sagrada. 

Vemos aqui a vitória dos desígnios da Providência e uma luz que se acende na Igreja: não mais a do pensador, mas a da pensadora. Exceção legítima, válida, magnífica, que mostra não ser por  inferioridade que a mulher não é pensadora, mas por uma vocação adequada à sua missão na Terra.

Mostra também que o Espírito sopra onde quer. Creio que todos sentimos a mesma curiosidade: não haverá um livro da bem-aventurada Osana de Mântua que tenha as meditações dela sobre as  Escrituras? E não constarão nele também as meditações que Nossa Senhora lhe ensinou? Pois Nossa Senhora não se limitou a revelar. Ensinou, adestrou o exercício da razão para conhecer as verdades que deveria conhecer.

Seria muito bonito colocar, na entrada de uma universidade católica, um grupo de esculturas, tendo Nossa Senhora em pé, ensinando, e a Bem-Aventurada Osana sentada junto ao pupitre, não na  mera contemplação, mas escrevendo e estudando com seriedade. Até mais: eu me atreveria a pô-la fazendo uma pergunta, e Nossa Senhora respondendo. Aí o fato dessa relação de vida mística se  tornaria mais claro.

Alguém me dirá: “Essas são considera ções muito sumárias sobre uma vida que se gostaria de conhecer mais a fundo.”

Ora, o “Santo do Dia” tem a finalidade, não de dar a conhecer uma vida, mas de provocar o desejo de conhecê-la. Se obtive esse resultado, considero esta conferência bem empregada.

Plinio Corrêa de Oliveira

Revista Dr Plinio 38 (Maio de 2001)

08 de junho – O citarista do Espírito Santo

O citarista do Espírito Santo

Santo Efrém, Padre da Igreja, dos primeiríssimos séculos do Cristianismo, cantava muito bem, fazendo-se acompanhar de uma cítara, e  compunha versos maravilhosos a respeito de Nossa Senhora, a ponto de ser tido como um Doutor da Mariologia. Seus versos, apesar de simples e acessíveis a todo o povo, tinham tal densidade de poesia, tal beleza e tal riqueza doutrinária, que ele passou para a História da Igreja como o “citarista do Espírito Santo”.

Dir-se-ia que o Espírito Santo não só falava, mas cantava pelos sons harmoniosos de sua laringe e fazia vibrar a graça divina nas almas, ao diapasão da cítara com que Santo Efrém entoava cânticos.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/11/1972)

06 de junho – Mártir vigoroso, varonil, de alma inquebrantável

Mártir vigoroso, varonil, de alma inquebrantável

Temos para comentar uma ficha biográfica de Santo Artêmio, mártir. Comandante das forças imperiais, ocupou, sob Constantino Magno, postos de honra no exército. Juliano, o apóstata, que levantara grande perseguição contra os cristãos, mandou degolá-lo. Sobre ele, diz o Padre Rohrbacher1:

Governador do Egito e da Síria

Enquanto os dois sacerdotes, Eugênio e Macário, eram supliciados, um oficial, que permanecera ao lado do imperador, levantou-se e se dirigiu a ele:

“Por que torturas tão cruelmente esses santos homens consagrados a Deus? Não vos esqueçais de que também sois homem, sujeito às mesmas misérias. Se Deus vos constituiu imperador, se recebestes de Deus o império, acautelai-vos para que satanás, que pediu e obteve permissão para tentar Jó, não tenha pedido e obtido permissão para usar-vos contra nós, a fim de passar pelo crivo o trigo de Cristo e semear o joio por toda parte. Mas sua empresa resultará vã; não tem o mesmo poder antigo. Desde que Cristo veio e foi erguido na Cruz, caiu o orgulho dos demônios, seu poder foi calcado aos pés. Não vos iludais, ó imperador, não persigais, por amor aos demônios, os cristãos protegidos por Deus, pois o poder de Cristo é invencível. Vós mesmo vos assegurastes disto.”

Ao ouvir essas palavras, Juliano, fora de si, exclamou: “Quem é o ímpio que ousa usar semelhante linguagem no nosso tribunal?”

Um meirinho respondeu: “Senhor, é o Duque de Alexandria do Egito.”

Com efeito, era Artêmio Governador do Egito e também da Síria havia longos anos, e que acabava de trazer para Juliano as tropas de duas províncias para servirem na guerra contra a Pérsia.

Juliano prosseguiu: “Como? É Artêmio? Ordeno que o despojem de suas dignidades e de suas roupas, e que seja imediatamente castigado pelas palavras que acaba de pronunciar.”

Depois de despido, o mártir teve as mãos e os pés amarrados com cordas pelos algozes; estes o estenderam no chão e açoitaram-lhe o ventre e as costas com nervos de boi, durante um espaço de tempo tão longo que foram obrigados a se alternarem quatro vezes. Contudo, Artêmio não soltou um único suspiro, nem seu rosto se alterou. Dir-se-ia que não era ele quem sofria, mas outra pessoa qualquer.

Todos os assistentes estavam surpreendidos, o próprio Juliano não escondia a admiração.

A idolatria seria irremediavelmente destruída

Levados para a prisão, os três mártires para ela se dirigiram entoando louvores a Deus. Artêmio dizia a si mesmo: “Agora os estigmas de Cristo já estão impressos no teu corpo; só falta dares tua alma, tua vida, com o resto do teu sangue.”

Depois de muitas tentativas infrutíferas, por meio de torturas e argumentos, para levar Santo Artêmio a apostatar, Juliano condenou-o à decapitação. Antes da execução, o mártir pediu momentos para orar. Agradeceu a Deus a graça de sofrer pela glória de seu divino Nome e suplicou-Lhe que Se compadecesse de sua Igreja, ameaçada com terríveis calamidades pelo apóstata Juliano:

“Vossos altares serão destruídos, vosso santuário profanado, o sangue de vossa aliança menosprezado por causa de nossos pecados e das blasfêmias que Ario vomitou contra Vós, Filho Unigênito, e contra vosso Espírito Santo, separando-Vos da consubstancialidade do Pai e supondo-Vos estranho à sua natureza; afirmando que sois criatura, Vós, o Autor de toda a Criação; subordinando-Vos ao tempo, Vós que fizestes os séculos, e dizendo: ‘Havia o Filho que não era’, chamando-Vos de filho da vontade.”

Depois de dobrar três vezes o joelho voltado para o Oriente, novamente o mártir orou, dizendo:

“Deus de Deus, só de um só, Rei de Rei, Vós que estais sentado nos Céus à direita de Deus Pai que Vos gerou, Vós que viestes à Terra para a salvação de todos nós, Vós que sois a coroa dos que combatem pela piedade, ouvi favoravelmente vosso humilde e indigno servo, recebei a minha alma em paz.”

Uma voz respondeu-lhe do Céu que sua oração seria ouvida; além disso, o imperador apóstata pereceria na Pérsia, que teria um sucessor cristão  e que a idolatria seria irremediavelmente destruída. Depois de ouvir essas palavras, cheio de alegria, Artêmio apresentou a cabeça à espada.

Católico combativo que agride, toma a iniciativa e interpela

Vamos recompor um pouco a cena para dar todo o relevo à narração. Imaginemos num circo romano uma tribuna imperial alta, com colunas, coberta por um tecido precioso, o imperador sentado numa espécie de trono, naturalmente com todo o pessoal de serviço por detrás dele, leques se agitando, ‘flabelli’ para impedir que as moscas pousassem nele, uma série de dignatários dentro da tribuna, depois o povo lotando todo o resto do teatro. Provavelmente, como eram os espetáculos, quer dizer, com as arquibancadas necessárias para os nobres, depois para os burgueses e a plebe. Eu creio que já não havia mais a bancada das vestais, porque estas se tinham extinguido. Ao lado, um oficial revestido do traje próprio aos oficiais romanos, com capacete, couraça, armas, junto ao imperador. Esse oficial é um homem de alta categoria. O livro fala em duque. É um anacronismo, pois não havia ainda duques, mas devia ser um chefe de duas importantíssimas unidades do império romano, que vinha a Roma trazendo tropas para serem utilizadas na luta contra a Pérsia. Ele estava, portanto, na tribuna imperial, quiçá muito mais como uma distinção do que como guarda do corpo do imperador. Era um hóspede de honra.

Enquanto dois sacerdotes estão sendo martirizados e o povo olhando para aquilo com uma alegria própria de hienas e de chacais, em certo momento esse homem se levanta: é Artêmio que dirige uma apóstrofe magnífica ao imperador que, embora sendo um indivíduo odiento e impulsivo, não profere uma só palavra e deixa-o dizendo quanto queria.

As palavras de Santo Artêmio mostram bem o caráter de católico combativo que não se limita a deixar-se matar, mas que agride, toma a iniciativa, interpela . O resultado é que, ao invés de dar razões, o imperador pergunta quem é ele . Informado, manda torturá-lo para ver se apostata . Não dando certo a tortura, ordena matá-lo.

A principal força da heresia e do mal está no demônio

A apóstrofe do Santo mártir merece ser considerada um pouco mais detidamente .

Na primeira parte ele pergunta ao imperador qual a razão pela qual ele tortura esses homens santos. Sabendo que o imperador não tem motivo para os torturar, Santo Artêmio o adverte que tenha cuidado porque ele, Juliano, está sendo instrumento de satanás para perseguir a Igreja Católica. Pondera que não adianta persegui-la, porque o poder dos demônios foi quebrado depois de Nosso Senhor Jesus Cristo ter sido elevado ao alto, quer dizer, crucificado. O poder das trevas está quebrado e toda a obra visando conter o Cristianismo fracassará, porque o demônio não tem mais a força antiga.

Vejam a bonita concepção presente por detrás disso: a principal força da heresia e do mal está no demônio cuja força, uma vez quebrada, está também rompida a força do mal. Essa é uma concepção eminentemente nossa, e muito profunda. Depois ele prossegue afirmando que o imperador está fazendo uma obra inútil, além de injusta, porque ele vai ser derrotado.

Então o imperador intervém e manda prendê-lo.

Poder-se-ia dizer que outra cena se abre nesse ou em outro circo romano: Santo Artêmio está sendo martirizado e faz uma oração. Uma voz do Céu lhe diz algo. Podemos imaginar o silêncio na arquibancada e, na arena, aquele homem vigoroso, varonil, de alma inquebrantável pede licença para fazer uma prece, e a recita em voz alta.

O esquema da oração  de  Santo Artêmio é o seguinte: ele declara que a perseguição sofrida pela Igreja é um castigo por causa da heresia de Ario. Então ele faz um duríssimo ato de increpação contra a heresia ariana. Qual é o fundamento dessa concepção dele? Como se pode compreender que a Igreja esteja sofrendo castigo por uma heresia condenada por ela?

A resposta é muito simples: a Igreja a condenou a duras penas; a massa quase completa dos católicos ficou ariana. São Jerônimo, se não me engano, teve essa expressão: o mundo, de repente, acordou e percebeu que se tinha tornado ariano. Para que o arianismo fosse derrotado foi necessária uma luta tremenda, durante a qual os Santos foram perseguidos, verteu-se muito sangue e o mundo não se converteu inteiramente dessa heresia. Depois apareceu o semiarianismo, que era uma tentativa de restaurar a heresia de Ario.

Auxílio para os católicos dos últimos tempos

Por fim, a voz vinda do Céu lhe assegura a morte de Juliano que seria sucedido por um imperador cris tão, e a idolatria irremediavelmente  serviriam de estímulo para pessoas e destruída. Quer dizer, apesar de tudo, vinha o castigo purificador. Poderia ainda haver outras crises, mas a idolatria não renasceria mais nações, as quais ele nunca imaginaria que pudessem vir a existir.

Assim são as coisas na Santa Igreja: nós sofremos e lutamos hoje, mas tendo ouvido isso, Santo Artêmio fez mais ou menos como Simeão, que disse: “Senhor, agora podeis mandar em paz o vosso servo, porque meus olhos viram o Salvador” (cf. Lc 2, 29-30). O mártir certamente pensou: “Senhor, agora podeis mandar em paz o vosso servo, porque estes ouvidos ouviram o anúncio da derrota daquele que é a causa de todos os flagelos, e a afirmação de vossa vitória.” Inclinou a cabeça e foi decapitado. Morreu em paz.

O que Santo Artêmio não viu nem soube é que tantos séculos depois o suplício e a varonilidade dele não sabemos de que auxílio esses sofrimentos serão para os católicos dos últimos tempos, cuja aflição será suprema quando, afinal de contas, estiverem esperando a hora de Nosso Senhor chegar. Talvez eles meditarão nas nossas lutas, nos nossos sofrimentos, na nossa espera pela realização das promessas de Fátima, e encontrarão no que fazemos um conforto que nós mesmos não sentimos, mas que as almas deles receberão pela nossa ação.   

 

(Extraído de conferência de 19/10/1966)

04 de junho – Que o Coração de Maria seja a nossa morada

Que o Coração de Maria seja a nossa morada

Dr. Plinio desejaria não somente reclinar a cabeça sobre o Coração de Maria, mas poder estabelecer lá dentro a sua morada para que, iluminado nessa luz, virginizado nessa pureza e inflamado nas chamas dessa caridade, tudo o que ele dissesse fossem palavras de luz e fogo a brotar da abundância desse Coração inefável.

“Coração de Maria, minha esperança!” era o lema do célebre João Sobieski, Rei da Polônia, que nos transes difíceis de sua vida e do seu reinado ia haurir no Coração Imaculado de Maria alento e valor para as dificuldades. Com este grito de guerra, “Cor Mariæ, spes mea”, a vibrar-lhe na alma e a inebriar-lhe o coração, se lançou ele afoito contra os turcos em 1683, e pouco depois libertava heroicamente a cidade de Viena do apertado cerco muçulmano.

Grito de guerra para uma Cruzada invencível

“Coração de Maria, nossa esperança!” é o grito de guerra com que dum recanto ao outro da Terra temos que convocar todas as almas de boa vontade para, numa Cruzada invencível, sob a égide da Rainha dos Céus, marcharmos à rude tarefa de libertar enfim a pobre humanidade dos terríveis cercos de ferro com que a perversidade e a insânia tentam aniquilá-la. É pelo Coração de Maria que faremos triunfar o Coração de Jesus!
Leão XIII apontava para o Coração Santíssimo de Jesus como o grande sinal no firmamento a prometer-nos vitória: In hoc signo vinces! – Com este sinal vencerás! E com ele nos mandava armar, como outrora os soldados de Constantino, com o Sinal da Cruz. E muitos dos cristãos obedeceram e o mundo foi consagrado oficialmente pelo Papa ao Sagrado Coração do Salvador.
Por isso podia na sua primeira encíclica escrever Pio XII: “Da difusão e aprofundamento do culto ao Divino Coração do Redentor, que encontrou o seu coroamento não só na consagração da humanidade, ao declinar do último século, mas também na instituição da festa da Realeza de Cristo pelo nosso imediato Predecessor, de feliz memória, resultaram indizíveis bens para inúmeras almas; foi um caudal impetuoso que alegra a cidade de Deus: fluminis impetus lætificat civitatem Dei” (Sl 45, 5).
Mas havemos de reconhecer que os triunfos do Coração de Jesus ainda não correspondem plenamente nesta época às sorridentes esperanças de Leão XIII ao consagrar-Lhe o universo. “Que época mais do que a nossa – diz ainda Pio XII – foi atormentada de vazio espiritual e profunda indigência interior, a despeito de todos os progressos técnicos e puramente civis?… Pode conceber-se dever maior e mais urgente do que evangelizar as insondáveis riquezas de Cristo (Ef 3, 8) aos homens do nosso tempo? E pode haver coisa mais nobre do que desfraldar o estandarte do Rei – vexilla Regis – diante dos que têm seguido e seguem ainda bandeiras falazes, e procurar reconduzir para o pendão vitorioso da Cruz os que o abandonaram?”

 

 

Arrebatadora dos corações

zas insondáveis de Cristo aos homens, o caminho mais rápido e obrigatório é Maria – per Mariam ad Iesum. Tem sido sempre assim desde o começo da Igreja. É por Maria que nos vem Jesus.
E o impulso cristão – que irrompe afinal das almas sob a ação do Espírito Santo, como numa das suas encíclicas sobre o Rosário o notou Leão XIII – vai mais longe afirmando cada vez mais clara e afoitamente, sobretudo de há um século a esta parte, que é pelo Coração de Maria que nos há de vir o Coração de Jesus; é pelo Reinado do Coração da Mãe que há de vir o Reinado do Coração do Filho.
Para O fazer reinar é mister amá-Lo – é o seu triunfo nos corações e nas vontades. Para O amar é urgente primeiro conhecê-Lo – é o seu reinado nas inteligências.
Contribuam estas linhas para levar às almas essa luz e esse calor.
Assim como não se conhece deveras a Cristo enquanto não se conhece seu Coração – o Coração de Jesus é o melhor ponto de vista do Salvador, é a chave do enigma de todas as suas misericórdias, o abismo inesgotável de todas as suas invenções de amor –, assim também Maria Santíssima só será conhecida e amada e reinará plenamente nas almas quando intimamente for conhecido o seu Coração Imaculado. É também ele o melhor ponto de vista de Maria. À luz do seu Coração ilumina-se das mais suaves e deslumbrantes tonalidades a sua virgindade sem par, a sua inexcedível dignidade de Mãe de Deus, de Esposa do Espírito Santo e de Filha predileta do Altíssimo, a sua terníssima solicitude de Mãe dos homens e de Rainha dos Céus e da Terra.
O seu Coração é o ímã misterioso que nos arrebata os corações, o que levou São Bernardo a denominá-La a arrebatadora dos corações: raptrix cordium. Mas se é pelo Coração que Ela nos conquista, é também ele a arma com que A conquistamos: tocar-Lhe no Coração é vencê-La. E – mistério profundo! – não é outro o cetro com que Maria impera junto do Altíssimo. Mostrar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo o seu Coração de Filha, Esposa e Mãe é conquistar a Deus; é inclinar a nosso favor toda a Santíssima Trindade.

“Sozinha destruiu todas as heresias do mundo inteiro”

Daqui vem que tudo o que se afirma de Maria Santíssima na sua missão e misericórdia a respeito dos indivíduos, da humanidade e da Igreja em especial, se haja de afirmar com mais forte razão do seu Coração Imaculado.
Portanto, não conhece Maria quem não conhece o seu Coração; mas quem conhecer esse Coração possui o melhor conhecimento de Maria. Não ama a Maria quem não ama o seu Coração; mas amar o Coração de Maria é amá-La pelo melhor modo como Ela deseja ser amada. É no seu Coração que está a razão de todas as suas bondades para com os homens; é essa a força que nos atrai quando a Ela acudimos e o bálsamo que nos conforta quando A imploramos, na certeza de sermos socorridos.
É porque no peito de Maria palpitava um Coração tão semelhante ao seu que o Coração de Jesus, à hora da Morte no Calvário, no-La deu por Mãe: “Ecce Mater tua”, e a Ela nos entregou por filhos: “Ecce filius tuus”.
Se de São Paulo se afirmou que tinha um coração parecido ao de Cristo: cor Pauli, Cor Christi, muito mais e melhor que ninguém tem direito a este encômio supremo Maria Santíssima: Cor Mariæ, Cor Iesu.
É porque em seu peito continua lá no Céu a pulsar o mesmo Coração dulcíssimo e amantíssimo, que a Santa Igreja, nas horas aflitivas, nos manda acudir a Maria, seguros de obtermos sempre pronto socorro.
“Quem considerar atentamente os anais da Igreja Católica – escrevia o saudoso Pontífice Pio XI –, verá facilmente unido a todos os fastos do nome cristão o valioso patrocínio da Virgem Mãe de Deus. E na verdade, quando os erros, grassando por toda parte, procuravam dilacerar a túnica inconsútil da Igreja e subverter o mundo católico, Àquela que ‘sozinha destruiu todas as heresias do mundo inteiro’1 acudiram nossos pais e se dirigiram com o coração cheio de confiança; e a vitória por Ela obtida trouxe-lhes tempos mais felizes.”
Quando a impiedade muçulmana, confiada em potentes armadas e grandes exércitos, ameaçava arruinar e escravizar os povos da Europa, foi implorada instantissimamente, por conselho do Sumo Pontífice, a proteção da Mãe Celeste; deste modo foram destruídos os inimigos e submergidas as suas naus.
E tanto nas calamidades públicas como nas necessidades particulares, têm acudido à Maria, suplicantes, os fiéis de todos os tempos, para que Ela venha benignissimamente em seu socorro, obtendo-lhes o alívio e remédio dos males do corpo e da alma. E jamais seu poderosíssimo socorro foi esperado em vão por aqueles que o imploram em prece confiante e piedosa.

 

 

Que Nossa Senhora nos faça como que desaparecer n’Ela

Com toda a razão, portanto, nas horas difíceis em que hoje vivemos, todas as nossas esperanças de salvação, de triunfos e de paz estão postas nesta Arca de salvação: no Coração de Maria.
“A mim, o mínimo dos santos, foi-me dada esta graça de evangelizar às gentes as investigáveis riquezas de Cristo” (Ef 3, 8), dizia São Paulo.
Uma das mais insondáveis riquezas que nos legou Cristo foi o Coração de sua Mãe. Ah, se nos fora dado carisma parecido ao do Apóstolo de evangelizarmos aos nossos leitores toda a profundeza, longitude e latitude, todos os abismos preciosos de amor encerrados no Coração de Maria!
Um erudito e piedoso autor dizia, ao escrever sobre o Coração da Mãe de Deus, que ambicionava para si poder reclinar-se, como outrora São João Evangelista na última Ceia sobre o peito do Senhor, também sobre o peito de Maria para, depois de escutar as palpitações de seu Coração, conseguir mais facilmente dizer desses segredos de amor.
As nossas ambições vão mais longe neste instante: quiséramos não somente reclinar a cabeça sobre o Coração Imaculado de nossa Mãe do Céu, mas poder estabelecer lá dentro a nossa morada para que, iluminados nessa luz, virginizados nessa pureza e inflamados nas chamas dessa caridade, tudo o que disséssemos fossem palavras de luz e fogo a brotar da abundância desse Coração inefável.
Que Ela nos acolha nesse recôndito de amor, nos faça aí como que desaparecer n’Ela, para que afinal seja Maria quem diga de Si mesma, pelo débil instrumento que todo se Lhe consagra, as maravilhas do seu Coração.
Que seja aí também que os nossos leitores coloquem a sua mansão, para nessa escola e a essa luz melhor compreenderem a obra-prima do Senhor.

(Extraído de O Legionário
n. 555, 28/3/1943)

04 de junho – Santa Clotilde e a conversão do Rei Clóvis

Santa Clotilde e a conversão do Rei Clóvis

Enfrentando duríssimas provações com muita Fé e confiança na Divina Providência, Santa Clotilde conseguiu a conversão de seu esposo Clóvis, Rei da França. Após a vitória obtida na Batalha de Tolbiac, ele e três mil de seus soldados foram batizados por São Remígio, Bispo de Reims.

Apesar de ser filha dos Reis de Borgonha, teve Clotilde uma infância muito triste. Nascida em torno a 475, em Gundobaldo, seu tio, obcecado pela ambição, assassinou os pais de Clotilde, dois dos irmãos, enclausurou a irmã mais velha num convento e levou consigo Clotilde, menina de extraordinária beleza. Embora vivesse num ambiente todo ariano, Clotilde teve a felicidade de receber uma mestra católica que a educou na Religião verdadeira. Quanto mais aversão lhe inspirava a presença do assassino dos pais, tanto mais se entregava a Deus e à sua divina Mãe.

 

Capela riquíssima e culto esplendoroso

Debalde se esforçava por ficar desconhecida do mundo: rara beleza e, mais ainda, as belas qualidades de coração e de espírito da donzela atraíram a atenção de toda a Borgonha, que se orgulhava de possuir uma princesa tão virtuosa.
Pedida em casamento por Clóvis I, Rei da França, deu consentimento só depois de muito rezar, e ainda assim com a condição do Rei, que ainda era pagão, deixar-lhe praticar a Religião cristã. Clóvis deu palavra de honra de querer respeitar a Religião de Clotilde, e assim contraíram núpcias em 493.
O único desejo de Clotilde era a conversão do Rei e do povo ao Catolicismo. Contando com a influência do bom exemplo, instalou a Rainha no palácio uma capela riquíssima e organizou o culto do modo mais esplendoroso. Pessoalmente, de pontualidade rigorosa no cumprimento dos deveres religiosos, sua vida era de penitência, de caridade sem precedentes. Deste modo Clotilde não só alcançou ser respeitada e amada no meio dos elementos mais ou menos hostis à Religião cristã, mas ainda conseguiu que o Rei perdesse os preconceitos em matéria de religião e se sentisse feliz em possuir uma esposa virtuosa.
Clotilde não perdia ocasião de mostrar ao esposo a beleza da Religião de Cristo. Incessantemente dirigia preces à misericórdia divina, para que se compadecesse do Rei e do povo da França e lhes concedesse a graça da conversão. Clóvis não era inacessível aos rogos da esposa, mas não se animava a abandonar as superstições do paganismo, receando o desagrado do povo. Não obstante consentiu que o primeiro filhinho fosse batizado com toda a solenidade.

 

Provações duríssimas enfrentadas com confiança em Deus

Aprouve a Deus sujeitar a fiel serva a provações duríssimas. O primeiro filho morreu poucos dias depois de ter recebido o Batismo. Indescritível era a dor do Rei e o seu coração encheu-se de rancor contra a esposa, levantando-lhe as mais duras acusações.
— Vejo na morte de meu filho a ira dos deuses que, irritados com o Batismo cristão, assim se vingaram.
Clotilde, com mansidão, respondeu:
— Não menos motivo tenho de chorar a morte da criança; mas dou graças a Deus que Se dignou de dar-me um filho para recolhê-lo logo ao seu reino.
Que bela resposta, digna duma mãe cristã!
Clotilde não desanimou e continuou a preparar o espírito de Clóvis para que recebesse a graça do Cristianismo. Quando deu à luz o segundo filho, conseguiu do Rei o consentimento para o Batismo da criança. Aconteceu, porém, que esse segundo menino também adoeceu gravemente depois da recepção do Sacramento. Para Clóvis já não havia mais dúvida que era o Sacramento cristão o causador da morte do primeiro e da doença do segundo filho. Alucinado pela dor, rompeu em blasfêmia e lançou contra a esposa os mais graves insultos. Clotilde sofreu tudo calada, mas seu amor a Deus e a confiança na Divina Providência nenhum abalo sofreram. Com o intuito de desagravar a Santa Religião ultrajada, tomou a criança doente nos braços e, de joelhos ante o crucifixo, ofereceu a inocência do filhinho pela conversão do pai. Deus recompensou essa humildade e caridade pela repentina cura do menino.
A alegria e o pasmo de Clóvis, ao ver o filho são e salvo, eram indescritíveis. Bendizendo a grandeza e o poder do Deus dos cristãos, prometeu aceitar a Fé cristã, promessa cujo cumprimento, porém, depois protelou, alegando mil motivos.

“Se eu lá estivesse com os meus francos…”

 

Neste entrementes, veio a guerra contra os alamanos. Despedindo-se da mulher, esta lhe disse:
— Não ponhas tua confiança em teus deuses que nenhum poder têm, mas confia em Deus Todo-Poderoso que te dará a vitória sobre teus inimigos. Lembra-te destas palavras, quando te achares em perigo.
Em Tolbiac, travou-se sangrenta batalha e a vitória pendia para o lado dos alamanos. Nas fileiras dos exércitos de Clóvis reinavam já desordens, e ele mesmo corria risco de ser aprisionado. Nesta suprema angústia, Clóvis se lembrou das palavras que a esposa lhe dissera na despedida e, olhos e mãos elevadas ao céu, assim rezou:
“Ó Deus de Clotilde valei-me! Se me libertardes desse perigo e me concederdes a vitória, acreditarei em Vós e a vossa Religião será introduzida no meu reino.”
Imediatamente as coisas mudaram de aspecto. Um pânico inexplicável apoderou-se dos inimigos, que foram completamente derrotados. Indescritível foi o júbilo dos francos e do Rei, que tão evidentemente acabara de experimentar o poder do Deus dos cristãos.

 

Desta vez Clóvis cumpriu a palavra. Instruído na Doutrina cristã por São Remígio, pelo mesmo santo bispo foi batizado em 496, em Reims, e com ele três mil francos receberam o mesmo Sacramento. As ruas da cidade ostentavam ornato pomposo e a catedral achava-se solenemente enfeitada.
— É este o reino dos Céus, santo padre? – perguntou o Rei ao transpor o limiar da catedral.
Quando o bispo lhe falou da morte de Cristo na Cruz, Clóvis respondeu:
— Se eu lá tivesse estado com os meus francos, nada Lhe teria acontecido.
Quando Clóvis se dirigiu à pia batismal, São Remígio o recebeu com estas palavras:
— Inclina tua cabeça, altivo sicambro, e adora o que até hoje perseguiste e persegue o que até agora adoraste.
Diz a tradição que, no momento do Batismo de Clóvis, todo o povo viu uma pomba branquíssima que trazia no bico um frasco com os santos óleos, e um Anjo levava um estandarte de bordado riquíssimo. O frasco se conservou até o tempo da Revolução Francesa, quando foi quebrado. O lis, desde então o brasão dos reis de França, é um símbolo antiquíssimo de origem céltica e significa fertilidade.
Embora cristão, Clóvis continuou na carreira de conquistador, dando muitas provas de um caráter bárbaro e índole feroz. Morreu na idade de setenta anos. Clotilde teve muitos e profundos desgostos com os filhos, que se guerreavam em lutas fratricidas. Morreu em 545 e seu corpo acha-se na Igreja de Santa Genoveva, em Paris.v

(Extraído de O Legionário
n. 773, 1/6/1947)

04 de junho – Santa Clotilde, uma admirável flor-de-lis

Santa Clotilde, uma admirável flor-de-lis

Segundo uma poética lenda, as armas do Rei Clóvis eram simbolizadas por figuras de sapos; quando ele e seus francos foram batizados, tais símbolos se transformaram em flores de lis. Bela imagem que poderia resumir a história de Santa Clotilde, cujo exemplo de virtudes fez despontar a aurora da santidade no Reino franco.

 

A respeito de Santa Clotilde, Pourrat, no livro “Saints de France”, diz o seguinte:

Santa Clotilde era princesa burgúndia, tendo visto toda a sua família assassinada por seu tio Gondebaud, que poupou somente Clotilde e sua irmã, tendo feito educá-las na religião católica, embora fosse ele ariano. Clóvis, Rei dos francos, tendo ouvido falar da beleza e virtudes da princesa, pediu-a em casamento ao tio. Não a obtendo, dirigiu-se diretamente a Clotilde, enviando-lhe seu anel real como penhor, através de um emissário. Clotilde aceitou.

Embora se tratando de um pagão, e temendo então magoá-lo, Gondebaud permitiu o noivado. Casando-se com Clóvis, a princesa tudo fez para sua conversão. Nada obteve de início, pois seus filhos morriam logo após o Batismo e Clóvis atribuía o fato ao Sacramento. Clotilde rezava e penitenciava-se, até que raiou o dia da vitória de Tolbiac, quando o Rei franco, vencedor, fez-se batizar com seus soldados por São Remígio. Estava fundado o primeiro reino católico europeu. […]

Santa Clotilde, sem dúvida, recebeu uma missão especial: ela tudo transformou. Uma lenda comum em Estrasburgo conta que no dia do Batismo dos francos, em Reims, um Anjo trouxe a Clotilde as armas do novo reino: as de Clóvis eram três sapos, que se transformaram em três flores de lis.

O valor das lendas maravilhosas

Notamos aqui mais uma manifestação do maravilhoso medieval. As armas do Rei pagão eram três sapos, mas, ao receber ele o Batismo, tornaram-se flores de lis. É a ação da Igreja, tocando o que é natural e decaído e transformando-o.

Não encontro imagem mais bonita para o “Grand Retour”, que deve ter lugar por ocasião dos acontecimentos previstos em Fátima, do que essa de sapos que se transformam em flores de lis. A Bíblia fala de transformação das pedras em filhos de Abraão, que é uma coisa linda, mas esta é muito poética e bonita.

Pode-se imaginar um sapo — com aquela pele rugosa, aquele aspecto horrível dos pântanos, aquela suficiência cafajeste, aquela falta de respiração dando ideia de sua avidez — que se transforma e se torna um lírio maravilhoso. Esta é a transformação que as almas, por ocasião do Reino de Maria, devem sofrer.

Aí está o valor das lendas e do maravilhoso: às vezes, dizem muito mais do que um acontecimento autenticamente histórico. Toda a história de Santa Clotilde pode basear-se nisto: transformação de sapos em flores de lis.

Alto senso católico

Ela era de um meio ariano. Católica, casou-se com um rei pagão.

Os bárbaros que invadiram a Europa nos séculos IV e V eram arianos que tinham ódio ao nome católico. Eles haviam sido pervertidos, na passagem do paganismo para o arianismo, por um bispo ariano, Úlfilas, que percorrera as regiões dos bárbaros. Portanto, a invasão dos bárbaros foi a dos hereges arianos, que já tinham atormentado de todos os modos o Império Romano do Oriente e o Império Romano do Ocidente. Este foi o sentido fundamental dos acontecimentos.

Com a invasão da Europa, um dos antigos reinos, que decorreu da ocupação realizada na antiga colônia romana da Gália, foi o borguinhão. O Rei dos borguinhões se tornara ariano. Era irmão do antigo monarca católico, o qual ele havia destituído, e se proclamou rei. Tinha uma sobrinha, filha do Rei católico deposto e morto, mantida por ele na corte como uma espécie de “Gata Borralheira”. Tudo leva a crer que existia entre os borguinhões um partido católico, o qual olhava para essa sobrinha com esperança.

De outro lado havia Clóvis, que era um pagão, mas adotou a causa da Igreja em toda a Gália, mesmo antes de se converter ao Catolicismo. Ele resolveu pedir essa princesa em casamento, e colocar assim de seu lado o partido católico dos borguinhões, como também os católicos de todo o resto da Gália. E assim ele se casou com ela.

Essa atitude de Santa Clotilde, aceitando um pagão para sair do domínio dos hereges, revela um alto senso católico. Ela se casa com Clóvis e começa a praticar a Religião Católica ao lado dele.

Clóvis viu Deus em Santa Clotilde

Eles discutiam, tinham alguma polêmica, e Clóvis perguntou-lhe algo sobre a religião dela? Nunca encontrei notícias a respeito disto, no pouco que tenho lido sobre o assunto. Mas tudo me leva a crer que não, e tenha sido apenas a prática constante da Religião que foi causando impressão no espírito de Clóvis.

Isso sucedeu até que numa batalha, na qual, se não me engano, ele lutava precisamente contra os borguinhões, sentiu-se perdido. Resolveu então fazer uma promessa a Deus, que ele chamava o “Deus de Clotilde”: se ganhasse, ele se converteria à Religião Católica.

Recordo-me do caso contado por Dom Chautard, sobre o advogado que esteve em Ars, no século XIX, viu o Santo Cura de Ars e voltou para Paris. Perguntado sobre o que vira, respondeu simplesmente: “Vi Deus num homem”.

Com certeza, Clóvis tinha visto Deus em Santa Clotilde, e quando fez a promessa de se converter ao “Deus de Clotilde”, via que esse Deus era verdadeiro e vivo.

Santa Clotilde teve filhos criminosos que se jogaram uns contra os outros, a par de um filho santo, que foi o famoso Saint Cloud. Ela foi de uma raça de sapos transformada numa pura flor-de-lis. Teve junto de si algumas outras flores-de-lis, mas o resto era sapo em via de transformação.

O sol da santidade começou a brilhar para os francos

E aí vemos a tragédia de sua vida. Era tão grande o peso do paganismo, dos maus costumes antigos, que se tornava necessária uma virtude heroica para não cair nos pecados do paganismo, ainda que se tivesse sido batizado como católico.

Houve um fato curioso de uma índia muito piedosa, que o Padre Anchieta encontrou em São Paulo, quando esta não era mais do que o Pátio do Colégio. A índia estava bastante triste e ele perguntou-lhe o que sentia. Ela: “Estou, padre, com saudade de comer o braço de uma criança tapuia…” Ela era batizada, comungava e não comeria o braço da criança, mas tinha vontade de fazê-lo…

O pessoal que rodeava Santa Clotilde não era antropófago, mas pouco faltava para que o fossem. Eram batizados, mas tinham saudades das coisas bárbaras.

Ela no meio de tudo isto, era uma flor-de-lis das mais perfeitas e admiráveis, ensinando a virtude, a mansidão e dando também admiráveis exemplos de senso de sua própria dignidade.

Santa Clotilde é uma espécie de “Chanteclair” daquela época: é a primeira que faz raiar o sol. Nela o sol da santidade começa a brilhar para os francos, trabalha para a conversão do Rei e dá exemplos das virtudes que o reino acabará por praticar. É uma santa admirável, que está na aurora dessa transformação dos sapos em flores-de-lis.

É muito oportuno que lhe peçamos nos consiga a graça de vermos a hora da outra transformação de sapos em flores-de-lis. E, quando houver o “Grand Retour” e se começar a trabalhar para a construção do mundo futuro, sejamos o que ela foi no mundo dela: os precursores de um admirável progresso. Esse, então, verdadeiro, porque progresso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências  de 3/6/1964 e 5/6/1967)