16 de julho – Prece a Nossa Senhora do Carmo

Prece a Nossa Senhora do Carmo

Meus olhos e minha alma se voltam hoje para Vós, Senhora do Carmo:

Vós que fostes a inspiradora de um grande veio de profetas, desde Elias até o carisma profético da Santa Igreja no Novo Testamento; Vós que ensinastes antes mesmo de existir, e fostes o modelo daqueles que creram no Salvador prometido pelas Escrituras; Vós que representastes o apogeu da esperança desses varões de Deus, pois fostes a nuvem da qual choveu o Redentor — Vós sois hoje a Arca da Aliança da qual há de vir a vitória para o mundo, conforme anunciastes em Fátima: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará!”

Inundai minha alma, ó Mãe, da certeza deste triunfo, e da coragem de estar de pé na derrota, na adversidade, esperando o dia de vossa glória.
Assim seja.

(Proferida por Dr. Plinio em 16/7/1971, Festa de Nossa Senhora do Carmo)

16 de julho – O Carmo: do Antigo Testamento ao triunfo do Imaculado Coração de Maria

O Carmo: do Antigo Testamento ao triunfo do Imaculado Coração de Maria

Ao entrar certo dia na Basílica do Carmo, Dr. Plinio pousou acidentalmente o olhar sobre uma parede na qual nunca antes tinha prestado atenção. E ali, inscritas, se lhe depararam estas palavras do Profeta Elias: “Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum” (“Eu me consumo de um zelo incendiado pelo senhor Deus dos exércitos” — III Reis 19,10).

Sentindo de imediato consonância com essa fogosa declaração, Dr. Plinio refletiu: “Eis aí! Quem se torne zeloso, mas de um zelo ar dente, por Aquele que é o Senhor Deus dos exércitos, este preencherá por inteiro as exigências do amor de Deus”. E cresceu-lhe no espírito sua afinidade de longa data com a Ordem do Carmo, que pode ser considerada a Ordem profética por excelência, da qual Santo Elias é aclamado como Fundador. Dela, aliás, Dr.  Plinio fazia parte efetivamente, pois era membro de sua Ordem Terceira — o ramo dos leigos vinculados ao Carmo. Foi, inclusive, diversas vezes o Prior e Mestre de noviços do Sodalício Virgo Flos Carmeli. Além disso, Dr. Plinio exerceu, por 20 anos, a função de advogado da Província Carmelitana Fluminense, que englobava São Paulo. Todos esses são dados significativos a se ter em vista, na leitura de seus  comentários abaixo transcritos, sobre Aquela que é a “Flos Carmeli”, a Flor do Carmelo, cuja festa se celebra em 16 de julho.

Virgem fez ver à multidão ali reunida uma seqüência de quadros representando os Mistérios do Rosário. A cada nova cena desenrolada no céu, mostrava-se Ela sob algum título com que os fiéis habitualmente A invocam. E foi assim que, na visão dos Mistérios Gloriosos, Ela surgiu como Nossa Senhora do Carmo, cuja festa a Igreja celebra no dia 16 de julho.

Como tudo o que Maria Santíssima realiza tem sua razão de ser, haverá sem dúvida um nexo entre essa manifestação de Nossa Senhora do Carmo, os Mistérios Gloriosos e a mensagem de Fátima que Ela, naquela ocasião, revelava. Parece-me de grande interesse, portanto, procurarmos aprofundar essa relação, considerando também a especial beleza que ela encerra.

O termo Carmo corresponde ao Monte Carmelo, no Oriente. Ali, segundo uma tradição muito respeitável — e há todos os motivos para admiti-la como verdadeira —, o Profeta Elias reuniu um grupo de discípulos e com eles constituiu a Ordem do Carmo, em louvor da Virgem Mãe que deveria vir, e na espera d’Ela.

Portanto, o primeiro filão de devoção a Nossa Senhora, séculos antes de Ela nascer, foi formado pelos filhos do Profeta Elias que A aguardavam. E Santo Elias representa o extremo dessa devoção, porque, como é doutrina comum na Igreja, ele deverá lutar no fim do mundo contra o Anticristo, o último inimigo de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima. Elias constitui, portanto, uma espécie de ponte entre o início e o fim da devoção a Nossa Senhora na história da humanidade.

É de se supor que, nos seus primórdios, essa devoção se desenvolveu e perseverou em meio a toda espécie de dificuldades e objeções. Pois surgiu no tempo em que o povo eleito cada vez mais se fechava à sua própria missão, ao seu próprio espírito, e, por isso, haveria de ter repulsa a esse veio carmelita que prenunciava a Virgem Mãe, assim como depois os hereges de todos os tempos tiveram ódio à devoção a Nossa Senhora.

Provavelmente, os eremitas do Monte Carmelo, representantes das primícias do amor à Santa Mãe de Deus, foram perseguidos, malvistos, caluniados e silenciados. Apesar disso, e na humildade de sua situação, previam o advento de Nossa Senhora.

E eles tinham razão, pois Ela veio. E não só veio, mas recebeu a maior glorificação que poderia ser tributada a uma mera criatura: tornou-se a Esposa do Divino Espírito Santo, encarnando-se n’Ela o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Ao término de sua sublime existência terrena, Maria teve uma morte extremamente suave: uma separação da alma e do corpo efetiva e completa, mas de tal maneira delicada que a Igreja, na sua linguagem incomparável, dá ao passamento de Nossa Senhora o nome de “dormição”. Pouco depois, por desígnio e obra de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santíssima Virgem ressuscitou e foi levada aos Céus em corpo e alma. Assim recebeu Nossa Senhora outra glorificação: uma ressurreição à maneira da de Jesus, e uma Assunção também comparável à Ascensão d’Ele. Aliás, na linguagem de outrora, Nossa Senhora da Assunção é igualmente chamada de Nossa Senhora da Glória, para significar o incomparável brilho de que se revestiu o seu ingresso no Paraíso celeste.

Esse desfecho da vida terrena de Nossa Senhora pode ser tomado como o término da história do Carmo do Antigo Testamento (embora já se estivesse, rigorosamente falando, no Novo Testamento). Aqueles carmelitas tiveram a alegria e a insigne honra de cultuar a Santíssima Virgem em carne e osso, e não através de imagens. Nada impede presumirmos que Nossa Senhora subiu ao Monte Carmelo e ali se colocou à frente de seus filhos e devotos, em horas de inefável convívio. As hipóteses piedosas, inteiramente razoáveis, que a esse respeito se podem fazer, são inúmeras.

Com a Assunção de Nossa Senhora e sua glorificação no Céu, essa etapa da existência da Ordem carmelitana findou-se de modo magnífico, esplendoroso. Fica estabelecida uma relação entre o Carmo e a glória: a devoção perseguida, fiel, profética, luta até o momento em que é confirmada por Deus, e passa a reluzir no mais alto do Céu, na pessoa da Virgem Mãe.

Depois, recomeça a história do Carmo. A Ordem, existente apenas no Oriente Próximo, desenvolveu-se um tanto, mas tem-se a impressão de que os cristãos daquela região, nos primeiros séculos, não lhe deram grande importância, privando-se dos benefícios que ela poderia lhes trazer. Esta atitude para com o Carmo foi uma entre tantas infidelidades da Cristandade oriental, que terminou castigada pelas invasões sarracenas, as quais, entre outras calamidades, provocaram a fuga dos carmelitas para o Ocidente.

A Europa, toda católica, cheia de fé, empreendia as Cruzadas para a libertação dos Lugares Santos. Nesse continente os frades do Carmo começaram a vaguear, como membros de uma Ordem quase desconhecida, mal-admirada e à beira do desaparecimento. A família religiosa de Elias parecia um tronco seco e velho, fadado a se desmanchar em pó.

Era o instante esperado por Nossa Senhora para fazer florescer, no alto da ressecada vara, uma flor: São Simão Stock. Esse inglês de reconhecida virtude havia sido eleito para o cargo de Geral da Ordem. Todavia, não exercia uma autoridade efetiva sobre seus súditos, pois o Carmo ainda não possuía uma estrutura jurídica coesa e uniforme, capaz de conservar um espírito, promovê-lo e transmiti-lo à posteridade. [Situação que se prolongava depois de o Papa Inocêncio IV ter aprovado a regra dos “Irmãos de Nossa Senhora do Monte Carmelo”, em 1245.]

A virtude compensava, porém, a falta de autoridade. Rezando a Nossa Senhora com muito fervor, São Simão implorou-Lhe não permitisse o desaparecimento da Ordem do Carmo. Em meio a essa aflitiva situação, a Virgem Santíssima apareceu a seu bom servo [em 1251] e lhe entregou o escapulário, para se usar sobre a roupa.

Naquela época os servos usavam uma túnica como traje civil. Sobre ela punham uma túnica menor, que indicava, pela cor e por características peculiares, a identidade de seu senhor. O escapulário do Carmo era semelhante a essa pequena túnica. Nossa Senhora, portanto, entregava a São Simão Stock uma libré própria aos servos d’Ela, para ser usada por todos os carmelitas, e prometia: “Aqueles que morrerem revestidos dele, não sofrerão o fogo do inferno”. Quem usa piedosamente o escapulário do Carmo, receberá a graça da perseverança final e será libertado do purgatório no primeiro sábado após a morte. [Esta promessa abrange também os fiéis que usarem o pequeno escapulário, recebido em singela cerimônia das mãos de um padre carmelita ou de outro sacerdote que tenha a faculdade de o impor. Para se beneficiar do privilégio sabatino, o fiel deve cumprir uma condição — como a recitação diária de um terço —, a critério do sacerdote.]

A partir dessa misericordiosa intervenção da Mãe de Deus, a Ordem carmelitana refloresceu e conheceu outros períodos de glórias, acentuando por toda a Igreja Católica a devoção à Santíssima Virgem. No suceder de esplendores iniciado então, nasceram três sóis, para não citar senão eles, que hão de reluzir por todo o sempre no firmamento da Igreja: Santa Teresa, a Grande, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus.

Retenhamos, então, a grandiosidade da história do Carmo: uma alternância de glórias e infortúnios conducentes a um adelgaçamento que faz prever o desaparecimento. Mas acontece uma intervenção de Nossa Senhora, que salva e dá incomparavelmente mais do que se tinha antes. A prosperidade no Ocidente será muito maior do que a verificada na Ásia.

A par de sua insondável bondade, Nossa Senhora, ao intervir, mostrava também a confiança que se deve ter n’Ela, bem como seu papel central na obras que ama de modo especial. Ainda que estas cheguem ao ponto de tudo parecer perdido, devem esperar o momento que Ela se reserva para agir. Como dizia certo pensador católico, as grandes intervenções da Providência são precedidas de situações dramáticas, de modo a tornar clara a inutilidade de qualquer socorro humano. Uma vez provado o fracasso dos homens, e na própria hora da desolação e do caos, Deus intervém, e Nossa Senhora se faz presente.

Lição de confiança ainda mais necessária em vista do que ocorreu depois: enquanto a Ordem fundada por Santo Elias conhecia novos brilhos e novas glórias, a Cristandade que a acolhera tornava-se presa de um inexorável processo de ruína, que se acelerava no decorrer dos séculos. Até que, em 1917, numa colina de Fátima, Nossa Senhora censurou a decadência, recriminou o mundo pela torrente de pecados em que estava imerso, e anunciou os castigos que haveriam de cair sobre a humanidade, caso esta não se arrependesse e se emendasse de suas faltas. Depois, exprimindo-se com as famosas palavras que guardamos em nossas almas, fez a promessa do Reinado d’Ela: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”

E aqui voltamos à consideração daquele vínculo ao qual nos referíamos no início deste artigo: no ápice das aparições em que Nossa Senhora proclama a efetivação de sua realeza, sob a forma do triunfo do seu Coração Imaculado, Ela aparece revestida do traje de sua mais antiga devoção — a do Carmo. E, desse modo, realiza uma síntese entre o historicamente mais remoto, o mais recente — o culto ao Imaculado Coração de Maria — e o futuro glorioso, que é a vitória e o reinado desse mesmo Coração.

Eis várias das razões pelas quais a festa de Nossa Senhora do Carmo nos é muito grata a todos os filhos  e devotos da Santíssima Virgem.

16 de julho – Fátima e Nossa Senhora do Carmo

Fátima e Nossa Senhora do Carmo

Em Fátima, a Virgem Maria também apareceu com as características de Nossa Senhora do Carmo. Que relação existe entre a mensagem de Fátima e a Ordem do Carmo? Essa questão é abordada por Dr. Plinio, com base no texto de uma revelação recebida por Santa Teresa de Ávila.

 

Gostaria de apresentar alguns traços da revelação de Fátima que a diferenciam de outras revelações anteriores.

Castigo por causa da imoralidade e da irreligião dos povos

Eis um traço muito curioso: é a única revelação que conheço, de tal maneira admitida, aceita e acatada em meios católicos e até pela hierarquia eclesiástica, a qual trata não só de um tema moral — porque isso é frequente em várias revelações —, mas tira derivações desse tema moral para o campo político, numa ilação que tem muito de comum com a doutrina que posteriormente tentamos expor no livro Revolução e Contra-Revolução.

O plano de ideias que Nossa Senhora apresenta para os homens é que há uma crise moral prodigiosa, a qual é, no fundo, uma crise religiosa; e essa crise religiosa e moral vai desembocar numa catástrofe política. Essa catástrofe política que Ela profetiza qual vai ser? A Rússia espalhará seus erros por toda a Terra. É um castigo por causa da imoralidade e da irreligião dos povos. Quer dizer, há um nítido conteúdo político.

Outro aspecto curioso que não encontrei ainda em nenhuma outra revelação — não digo que não houve, pois não pretendo ter conhecido todas —: Nossa Senhora Se mostra em três invocações sucessivas: com as características de Nossa Senhora de Fátima, mas também como o Imaculado Coração de Maria e como Nossa Senhora do Carmo.

Por que essas invocações? Encontramos fundamento para isso na própria revelação. Ela declara o seguinte: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará.” O que quer dizer que Ela quer ter um triunfo que vai ser uma enorme efusão de graças, porque o coração aí significa a bondade e a vontade, e o triunfo d’Ela vai se realizar depois de um castigo tremendo, por uma efusão de graças enorme. É o Reino do Coração d’Ela que Maria Santíssima anuncia.

Por causa disso, Ela como que referenda a devoção ao Imaculado Coração de Maria, apresentando-Se com essas características numa de suas visões. É para se compreender, para dar um estímulo à devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Uma Ordem religiosa nos últimos tempos

Mas por que Ela Se apresenta como Nossa Senhora do Carmo numa das aparições?

Isto é muito menos claro. Que relação tem a invocação do Carmo com os tempos vindouros, em que seu Coração vai triunfar? Há alguma tarefa, alguma missão do Carmo dentro disso?

Essa pergunta nos interessa muito, tomando em consideração que quase todos nós somos terceiros carmelitas1. Há revelações muito impressionantes feitas a Santa Teresa de Jesus, que se encontram nas boas biografias desta Santa carmelita, e que dizem algo a esse respeito. São os parágrafos 12, 13, 14 e 15 das obras de Santa Teresa de Jesus, tomo I, Livro da Vida, capítulo 40. É algo oficial e documentado.

Parágrafo 12:

Fazendo uma vez oração com muito recolhimento, suavidade e paz, parecia-me estar rodeada de Anjos e muito perto de Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja. Foi-me, então, dado a entender o grande proveito que havia de fazer uma Ordem nos últimos tempos, e com que fortaleza seus filhos haviam de sustentar a Fé.

Uma Ordem que, como veremos, parece ser a própria Ordem do Carmo, à qual Santa Teresa pertencia e que por prudência e modéstia ela não queria mencionar. Haveria um tempo em que a Ordem do Carmo teria filhos que lutariam pela ortodoxia com muito denodo.

Parágrafo 13:

Quando certa ocasião rezava junto ao Santíssimo Sacramento, apareceu-me um Santo cuja Ordem esteve um tanto decaída.

Ela era exatamente a reformadora da Ordem do Carmo, que estivera muito decaída.

Tinha nas mãos um grande livro. Abriu-o e deu-me a ler as seguintes palavras escritas em letras grandes e muito inteligíveis: Nos tempos vindouros, florescerá essa Ordem, haverá muitos mártires.

Então, é um incremento de luta pela ortodoxia, martírio e florescimento dessa Ordem.

Religiosos com espadas nas mãos

Parágrafo 14:

Outra vez, durante Matinas, no Coro, vi diante de meus olhos seis ou sete religiosos dessa Ordem, com espadas nas mãos.

Notem que se tratam de espadas, símbolo da luta.

Significava isso, penso, que hão de defender a Fé, porque mais tarde, estando em oração, fui arrebatada em espírito e pareceu-me estar num vasto campo onde lutavam muitos combatentes e os desta Ordem pelejavam com grande fervor; tinham os rostos formosos e muito incendidos. Venciam deitando por terra numerosos inimigos e matando outros. Tive a impressão de que a batalha era contra hereges.

Parágrafo 15:

Ao glorioso Santo de que falei acima, tenho visto várias vezes. Tem me dito diversas coisas, agradecendo a oração que faço por sua Ordem e prometendo encomendar-me ao Senhor. Não assinalo a Ordem para que não se desagradem as demais. O Senhor declarará os nomes, se for servido que se saibam. Cada Ordem, ou cada um de seus membros deveria esforçar-se para que, por seu meio, fizesse o Senhor tão ditosa sua religião que em tão grande necessidade, como agora tem a Igreja, pudesse servir. Felizes as vidas que se sacrificarem por tão nobres causas.

Vemos aqui mencionar uma Ordem, provavelmente a do Carmo, que terá uma grande batalha pela Fé nos tempos futuros. Ora, até esse momento, não chegou essa batalha; a Ordem do Carmo não fez isto até agora.

E Nossa Senhora nos fala, precisamente, de grandes perseguições, de grandes lutas, de grandes martírios na revelação de Fátima.

E ali a Santíssima Virgem Se mostra com as características de Nossa Senhora do Carmo. Parece haver entre tudo isso uma relação para a qual eu chamo a atenção a fim de prezarmos cada vez mais nossa condição de irmãos da Ordem Terceira do Carmo, e compreendermos o que há de providencial nessa pertencença à família carmelitana.  v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/5/1965)

 

1) Dr. Plinio e os mais antigos membros do Movimento por ele fundado pertenciam ao Sodalício Flos Carmeli, da Basílica Nossa Senhora do Carmo, em São Paulo.

14 de julho – Beata Angelina, modelo de confiança na promessa divina

Beata Angelina, modelo de confiança na promessa divina

Por vezes, as coisas mais nobres e santas que desejamos esbarram em obstáculos inesperados, permitidos pela Providência Divina. É o caso da Beata Angelina: passando por terríveis perplexidades, soube acreditar na promessa interior da graça, confiando na realização de sua vocação.

No dia 14 de julho comemoramos a Beata Angelina, virgem, a respeito de quem diz Daras, na Vida dos Santos1:

Uma via de perplexidades enfrentada com confiança

Beata Angelina nasceu em 1377, em Montegiove, perto de Orvieto, descendente dos Condes de Corbara, por parte de pai, e dos Condes de Marciano, por parte de mãe.
Aos doze anos consagrou a Deus sua virgindade, correspondendo às graças que recebia desde a infância. Mas, três anos depois, seu pai decidiu casá-la com o Conde de Civitella. Em vão a jovem implorou-lhe que a deixasse consagrar-se a Deus. Foi ameaçada de morte se não consentisse no casamento no prazo de oito dias. Nessa aflição, Angelina recorreu ao Senhor, que lhe recomendou cumprir a vontade do pai. Ela desposou então o conde, decorrendo a cerimônia em meio a grandes festejos tradicionais.
Ao aproximar-se a noite, a jovem refugiou-se no quarto e, cheia de angústia, ajoelhou-se aos pés do crucifixo, pedindo a Deus que a protegesse. O conde, chegando, perguntou-lhe o motivo de suas lágrimas e, ao saber do voto que fizera, tocado pela graça, quis imitá-la. Ajoelhou-se e prometeu, com sua jovem esposa, guardar a castidade e considerá-la como irmã. E ambos agradeceram a Deus a grande graça recebida.
Um ano depois o conde morria, deixando Angelina livre. Esta entrou na Ordem Terceira de São Francisco, dedicando-se inteiramente às obras de caridade e à conversão dos pecadores.
Seus milagres tornaram-na famosa e, por causa disso, retirou-se para Civitella; porém, grande número de nobres dessa cidade, desgostosos de ver os jovens das grandes famílias entrarem no convento por influência de Angelina, queixaram-se ao rei, que a exilou. Ela continuou, no exílio, seu trabalho, fundando numerosos conventos de clausura, segundo a Regra franciscana.
Morreu em 1435, como mãe de uma grande família de almas.
É mais uma lindíssima biografia nos relatando o apuro pelo qual passou essa bem-aventurada e a grande confiança na Providência demonstrada por ela.
Ela fizera um voto de virgindade. Entretanto, o pai determina que ela se case, e ameaça matá-la caso não o fizesse. Isso exprime bem a eterna posição do liberal. Quando alguém faz voto de virgindade, outro tem direito até de matar para obrigar a não cumprir o voto. É muito provável que, se esse pai tivesse uma filha devassa, fechasse os olhos e nem desse atenção a isso. Entretanto, como a filha não era assim, ele foi um verdadeiro tirano.
Alguém dirá: “Dr. Plinio, o senhor falou em liberalismo, mas na Idade Média ele não existia”. E eu respondo: O liberalismo não existia como doutrina especificamente explicitada, mas ele é velho como o mundo, e existiu sempre depois do pecado original, como impulso, como estado habitual de contradição, como ódio crônico ao bem, de maneira que, aqui, se pode falar de liberalismo.

 

Promessas desmentidas e, afinal, realizadas

A Beata Angelina reza, pedindo a Deus para lhe indicar o que deve fazer, e Ele lhe revela que deve se casar. Ela, então, com toda obediência, casa-se; mas, vê-se que a santa dama levava no fundo da alma, se não era nos termos expressos da revelação divina, a esperança de que ela não seria obrigada a desistir de sua bem-amada virgindade.
Ora, depois de um dia de festas nupciais – podem imaginar como foi um dia trágico para essa coitada! –, ela vai ao crucifixo chorando e pede a Deus auxílio a fim de, no novo estado ao qual entrara por vontade d’Ele, ela encontrasse, entretanto, a possibilidade de praticar a virgindade.
Nesse instante, entra o jovem esposo e encontra-a rezando junto ao crucifixo. Ele a vê chorando e pergunta por quê. Ao declarar-lhe a razão, ele, tocado pela graça, resolve viver com ela como um irmão.
Vejam a linda transformação, um verdadeiro milagre moral! Dessa forma, Deus premiava a sua confiança; até o último minuto esperou contra toda esperança, nada dava a entender que o caso dela teria saída, mas, no momento oportuno, houve o milagre.
Um ano depois o cônjuge morre e, então, ela fica livre. Tendo conservado sua virgindade, a santa mulher está em condições de se consagrar à sua vocação.

 

Confiança na voz interior da graça

A Beata Angelina funda um convento, o qual floresce tanto que começa a se encher de moças. Em decorrência disso, aparece a má atitude de várias pessoas furiosas contra ela, como o próprio pai, ou os pais de outras amigas, não querendo a presença da Santa nesse lugar, pedem a sua expulsão, pois ela está atraindo para o convento as moças da alta sociedade.
Eles ficaram rosnando sem poder fazer nada. Por quê? Porque Nossa Senhora tinha colocado sua mão sobre essa obra e, como diz bem o Hino das Congregações Marianas, “de mil soldados não teme a espada, quem pugna à sombra da Imaculada”. Nossa Senhora resolveu e venceu tudo.
Feliz época de grande receptividade para a vocação dada por Deus, na qual uma pessoa santa podia fundar um convento; neste, não ser perseguida, mas permanecer como Superiora e atrair as moças.
Porém, ao ser expulsa daquela região, ela funda conventos em vários outros lugares; portanto, fundou uma Congregação. A sua obra está completa. De revés em revés, de apuro em apuro, de precipício em precipício, ela conclui o périplo completo.
É uma lição para o nosso apostolado. Devemos compreender que, às vezes, as coisas mais altas desejadas por nós, as mais difíceis, mais nobres e santas esbarram em obstáculos inesperados, porque Nossa Senhora quer, Ela mesma, depois, resolver o caso. E todos os esforços humanos se tornam baldos diante disso. Pouco importa! Tenhamos confiança na voz interior da graça, naquilo que Deus, Nosso Senhor, nos disse dentro da alma, porque chegará o momento no qual Maria Santíssima intervirá, e aquilo que a graça falou se realizará.

Nossa grande esperança atual

 

O “Livro da Confiança”2 começa com essas palavras expressivas: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça, Vós murmurais, no interior de nossas almas, palavras de doçura e de paz”. Com efeito, quantas e quantas vezes sentimos, em nossas almas, movimentos da graça cheios de doçura e de paz que nos levam a pedir coisas aparentemente inalcançáveis. Mas, à força de confiar contra toda esperança, nessa doçura e nessa paz; à força de rezar e de agir, isso acaba se realizando.
Qual é nossa grande esperança do momento presente? Neste apuro sempre mais trágico do cerco desferido contra a Igreja e a Mãe de Deus pelos seus adversários, nós, mais do que nunca, devemos confiar que Nossa Senhora, afinal, consiga de Deus – que parece dormir como no barco de São Pedro –, que Se levante e comece a Se mover no mundo, para operar as suas grandes obras. Dia e noite, devemos estar devorados por este desejo.
Porque, quando Deus começar a agir, ninguém O deterá. E nós que, por enquanto, vemos a Causa Católica tão perseguida e sofrendo tantas provações, quando Deus Se mover, então compreenderemos como é o braço poderoso de Deus. Ficaremos estarrecidos ao ver os obstáculos desmoronando, as montanhas se fundindo, os condenados caindo no Inferno, as almas ainda aproveitáveis se convertendo, e o Espírito Santo, a rogos de Nossa Senhora, soprando sobre toda a Terra, para renová-la. Isso nós devemos pedir de todo o coração.v

(Extraído de conferência de 21/12/1966)

1) Não dispomos dos dados desta ficha.
2) De autoria do Pe. Thomás de Saint-Laurent.

14 de julho – São Francisco Solano, um apóstolo exímio!

São Francisco Solano, um apóstolo exímio!

Para agradar o povo, São Francisco Solano costumava andar pela cidade tocando violino e cantando canções populares. Vendo-o, as crianças se interessavam e logo o seguiam. Ele, então, parava e ministrava-lhes um curso de Religião.

Ora, como acorriam inúmeras crianças para esse gracioso catecismo, os mais velhos ficavam curiosos e também passavam a comparecer.

Quando percebia que também os pais estavam bastante empenhados em assistir ao curso ministrado para os filhos, ele transformava a aula em sermão e increpava os maus hábitos renascentistas que se espalhavam em seu tempo, incutindo naquelas pessoas o desejo de praticar a virtude.

Ou seja, pela candura dos inocentes ele formava uma roda de pessoas e fazia um apostolado exímio.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/8/1974)

14 de julho – A mais nobre e elevada das alegrias

A mais nobre e elevada das alegrias

Estamos numa época em que existe apenas contentamento pelas coisas do mundo. Quase ninguém tem a alegria da virtude. São Francisco Solano foi chamado por Deus para comunicar essa alegria, que não consiste em contar piadas, fazer brincadeiras, ser palhaço, mas em ter seriedade e procurar em tudo servir a Nosso Senhor Jesus Cristo.

A ficha que vamos comentar refere-se à biografia de um Santo espanhol, São Francisco Solano, que foi apóstolo da América do Sul. Os dados dessa ficha são tirados de um livro escrito por um franciscano do Peru(1).

Nobreza de sangue e de virtude

São Francisco Solano foi uma figura suscitada pela Providência para fazer parte da Contra-Reforma espanhola. Ele nasceu em Montilla, na Andaluzia, em 1549, de família nobre. Seu pai foi duas vezes governador de Montilla, capital do marquesado de Priemo. Sua mãe, tanto pela nobreza do sangue quanto pela nobreza da virtude, era conhecida como “a nobre” no lugar.

Esta conjugação da nobreza de sangue e da nobreza de virtude nos leva a evocar certo tipo de senhoras extraordinariamente virtuosas e dignas ao mesmo tempo, que houve no passado, em quem havia uma aliança maravilhosa entre a elevação de alma e a de maneiras. De forma que a elevação de maneiras não aparecia simplesmente como um adorno externo quase mecânico dos gestos e das atitudes, mas era a própria expressão da nobreza de alma da pessoa. E é grato ao homem encontrar formas exteriores elevadas que correspondam às interiores.

Vemos, assim, a mãe de São Francisco Solano ser chamada “a nobre” por excelência, pela nobreza conjugada da virtude, do sangue e das maneiras. Esta era aquela a quem a Providência deu a missão de formar quem? O missionário dos índios mais botocudos da América do Sul.

Esses são os contrastes dos desígnios da Providência. Quantas vezes ele teria se lembrado da “nobre”, atravessando as ruas da capital do pequeno marquesado de Priemo? Tudo isso tem a sua beleza e o seu sentido, e vale a pena registrar de passagem.

Quando ela esperava o futuro Santo, o consagrou a São Francisco de Assis, donde o seu nome. São Francisco Solano recebeu uma formação sumamente cristã dos pais e a completou no colégio dos padres jesuítas de sua cidade. Ele mesmo era uma pessoa de bom porte, agradável conversação, bela voz e um raro senso musical.

Como veremos, esses dotes foram todos previstos pela Providência para o esplendor de seu apostolado.

Comunicar a alegria pelas coisas santas 

Por influência do rei católico, para compensar o dano que a Religião sofria pela apostasia de muitos povos, houve um verdadeiro renascimento religioso na Espanha. Pelo seu zelo, brilhava entre as figuras desse renascimento religioso, na Ordem de São Francisco de Assis, o grande São Pedro de Alcântara. São Francisco Solano, atraído pelo exemplo e pelo prestígio de São Pedro de Alcântara e da Ordem Franciscana, saiu do colégio dos jesuítas e tomou o burel franciscano. Pelas suas virtudes e capacidades foi ele sendo designado logo para cargos diretivos. Caracterizou-se a virtude dele por uma nota: não tolerar que ninguém manifestasse em torno dele tristeza por estar servindo a Deus.

Nada de caras compridas, aborrecidas, porque é dura a vida, pensando como sofre um pobre religioso… Quando a pessoa começa a ter pena de si mesma e ficar com cara comprida, entra num caminho em cujo fim está a apostasia. Então, é preciso dar a alegria do serviço de Deus, comunicar o júbilo das coisas santas.

São Francisco Solano recebeu essa graça, quão rara e quão preciosa em nossos dias, de comunicar o gosto, a alegria pelas coisas santas. Hoje estamos numa época em que existe apenas contentamento pelas coisas do mundo. Quase ninguém tem a alegria da virtude, de estar servindo a Nosso Senhor. São Francisco Solano foi chamado por Deus para comunicar essa alegria. Não se trata de uma alegria tonta, de piada, de brincadeira, própria de um palhaço.

Trata-se de ter a alegria da seriedade, que é a mais nobre e elevada das alegrias. Veremos São Francisco Solano dar o exemplo disso por toda parte, e fazer este apostolado da alegria na luta, na seriedade, no sofrimento.

Movimento rítmico de grande candura, nobreza, elevação e pureza

Ele tomou o hábito de, quando viajasse, incluir em sua minúscula bagagem, junto com o cilício e disciplinas, um violino, que era o seu grande instrumento de apostolado.

Exatamente essa justaposição me parece querer dizer bem tudo: o violino sem o cilício é o caminho aberto para a apostasia. O cilício sem o violino perde algumas de suas expressões; porque o normal do cilício bem usado é dar alegria. Mais ou menos como o soldado que vai para a luta, ele parte alegre. Um soldado que vai chorando e pensando: “Ó pátria, como me dói deixar-te… Ó família querida, que mágoa… Ó pobres membros que as balas podem estraçalhar…” Ele recua, não vale dois caracóis.

O bonito é o soldado que avança por cima do perigo e até da morte, alegre no sacrifício e na dor. Assim também o religioso. É a alegria de carregar as obrigações, de arcar eventualmente com os votos, de pertencer inteiramente a Nossa Senhora, de não ter nada de próprio e de, por causa disso, ter tudo. Violino e cilícios. A fórmula parece-me tão magnífica que se poderia fazer dela um motivo de decoração, numa capela, lembrando esse apóstolo do continente onde existe o Brasil.

A alegria de São Francisco Solano era tão singular que quando ele estava diante do Santíssimo Sacramento, ou via uma imagem do Menino Jesus nos braços de Nossa Senhora, tinha tanta alegria que muitas vezes ia para o interior do convento e chamava os padres: “Padre venha ver, o senhor não se alegrou ainda? Olhe aqui como o Menino Jesus está tão bem aqui com Nossa Senhora nessa imagem! Assim vivamos na Terra; vamos nos alegrar!” E quando ele se tomava de muito entusiasmo, puxava o violino, tocava, cantava e dançava diante da imagem ou do Santíssimo Sacramento.

Era um movimento rítmico de grande candura, nobreza, elevação e pureza, evidentemente. Os sentimentos da alma podem se exprimir pelos ritmos da música e também pelos do corpo.

Aliás, antigamente havia danças diante do Santíssimo Sacramento. Eu acho isso um encanto. Imaginem qual seria nossa sensação entrando numa igreja e encontrando um Santo em êxtase, tocando violino diante do Santíssimo Sacramento ou de uma imagem de Nossa Senhora, cantando e dançando. Ficaríamos extasiadíssimos!

São Francisco Solano era muito zeloso da sagrada Liturgia. Por isso tinha um empenho enorme em que os frades aprendessem bem as rubricas e o cantochão, para dar todo o esplendor possível aos santos mistérios.

Exprobava os maus hábitos renascentistas 

Esses contrastes harmônicos me maravilham. Ele cantava e tocava canções religiosas populares para agradar ao povo, mas era um espírito elevadíssimo que compreendia a superior beleza da Liturgia, com todo o pensamento teológico, toda a piedade, todo o sobrenatural que há na Liturgia, portanto, também na arte, na música litúrgica, e que exigem esse esplendor. Quer dizer, o esplendor enorme abarca os dois extremos. Eu gosto de ver almas assim: largas, abertas, capazes de se entusiasmar pelos opostos, não contraditórios, mas extremos. Isso é categoria; assim era São Francisco Solano.

Muitas vezes acontecia que ele andava pelas ruas da Espanha tocando o violino e a criançada saía correndo atrás dele para ver, porque se interessava. Aí ele parava e dava um cursinho de Religião para os meninos.

Pode-se imaginar que curso gracioso, interessante. Como o curso atraía muitas crianças, os mais velhos iam assistir também. Quando percebia que os mais velhos estavam bem empenhados, ele transformava o curso de catecismo em sermão, e exprobava, increpava nos mais velhos os maus costumes e incutia a virtude. Os mais velhos estavam cativados pela candura dos inocentes e formavam uma roda. O menino ia ver o frade, o adulto ia olhar o menino, o frade falava para o adulto. Era um circuito perfeito. E aí ele caía em cima dos maus hábitos renascentistas espalhados em seu tempo. Um apóstolo exímio.

Como São Francisco Solano estava se tornando muito célebre na Espanha, seus superiores resolveram mandá-lo, a pedido dele, para a América. Então ele começou a percorrer a América espanhola a pé, estando no Panamá, Colômbia, Paraguai e Bolívia. Imaginem percorrer tudo isso a pé, nas estradas daquele tempo – quando as havia –, numa topografia torturada pelos Andes, subindo e descendo, escorregando… Depois, navegar por aqueles rios nas embarcações daquele tempo! Pois bem, ele foi até o Paraguai, chegou a descer à Argentina e fazer apostolado em Tucumán. O trajeto Panamá-Tucumán é próprio de um bandeirante!

Se fosse um bandeirante leigo, com certeza se falaria muito dele. Aqui está um que fez isso por amor a Nosso Senhor; provavelmente se fala menos dele do que dos bandeirantes…

Música acompanhando o gorjeio dos passarinhos e o murmúrio das águas

Ele se fixou uma boa parte da vida dele em Lima, então chamada Cidade dos Santos Reis, onde florescia a Ordem Franciscana, com 180 membros, naquele tempo tão ilustres pela sua virtude, que tornavam Lima famosa nos ambientes franciscanos da Europa, por causa da santidade que florescia lá. No tempo em que ele morou naquela cidade, era Arcebispo de Lima São Turíbio de Mongrovejo, e começava a sua carreira de santidade Santa Rosa de Lima.

Vemos, por esses dados, o que a América do Sul poderia ter sido. Porque quando esse é o ponto de partida, qual deveria ser o ponto de chegada?!

Depois de uma estadia em Lima, onde suas virtudes foram granjeando estima e cargos, ele mais uma vez fugiu.

São Bernardo dizia que a glória é como a sombra: quando fugimos dela, ela corre atrás; quando corremos atrás dela, ela foge.

Na região de Tucumán, ele procurou aproximação com os índios mais temíveis. Certo dia, ele estava já cansado, andando em plena floresta e sentindo-se vigiado de longe.

Os índios faziam muito isso: quando desconfiavam de uma pessoa, seguiam-na de longe, vigiando-a para ver onde ia; em certo momento, matavam-na.

Embora se sentisse observado, como estava muito cansado de andar e com sede, parou perto de uma fonte e curvou-se para beber.

A cena é linda, daria para uma iluminura medieval. Uma floresta virgem, um frade franciscano com aquele burel, que para junto a uma fonte borbulhante, se persigna e bebe aquela água. Depois sentou-se e descansou um pouco. Enquanto ele descansava, ouviu o cântico dos passarinhos, em grande número na floresta, e o murmúrio da água. E como ele tinha um gênio altamente musical, resolveu acompanhar com o violino o murmúrio das águas e o cântico dos passarinhos. Quer dizer, ele compôs. Notem a tranquilidade de consciência! Ele sabia que podia morrer durante aquela composição. Mas compreendia também que iria para o Céu tocando música, e os Anjos se encantariam com isso.

Quem de nós não teria um empenho enorme em conhecer a música com que ele acompanhou o gorjeio dos passarinhos e o murmúrio das águas?

Enquanto tocava, São Francisco sentiu uma seta passar perto de sua orelha e cravar-se numa árvore. Ele continuou. De repente, viu um carão emergir do meio da vegetação: era o cacique da tribo de índios ferozes que o Santo procurava. Ele deixou o violino e, todo irradiante de amor de Deus, dirigiu-se ao índio para o abraçar.

O cacique se comoveu, deixou-se tocar, levou-o para a tribo, e São Francisco Solano começou a evangelização dessa nação índia.

São Francisco de Assis, com que termos cantaria o irmão Francisco como ele, que converteu assim uma nação infiel!

Mas restava conversar. Como falar com aqueles índios? Ele começou a falar castelhano e se deu conta de que o dom das línguas tinha entrado nele, e os índios entendiam o castelhano com toda a simplicidade. Assim se faz apostolado!

Castidade: a única virtude que não se esconde

Durante treze anos ele esteve nessa região, empregando todos os recursos para apaziguar brancos e índios, resolver dissensões, cativar uns e outros para a Religião. São Francisco Solano, êmulo de São Francisco Xavier, ressuscitou mortos, curou doenças mortais, amansou feras bravias, fez surgir fontes em lugares áridos, de tal maneira que era veneradíssimo pelos brancos e índios com quem tinha contato.

É um fundador de uma nação! Homem que ressuscita mortos, fala em sua própria língua e os outros entendem nos seus respectivos idiomas! Assim se funda uma nação. Quantas coisas bonitas haveria para contar de Anchieta também, nesse sentido, o fundador do Brasil!

Certa vez, quando uma nuvem de gafanhotos devastava uma plantação dos índios, o Santo ordenou-lhes que se dirigissem para uma floresta vizinha.

Assim com essa facilidade: “Vão embora para a floresta!” E eles foram.

Então os colonos perguntaram por que ele de uma vez não exterminava os gafanhotos. E ele deu duas razões: primeira, porque gafanhotos daquela espécie tinham servido de alimento a São João Batista, no deserto.

Portanto, por amor a São João Batista, ele não mandava exterminar os gafanhotos.

Em segundo lugar, porque também os índios comiam gafanhotos e era bom que os irmãos índios não ficassem privados de sua alimentação.

Acho isso um encanto!

Esse homem tão extraordinariamente suave era imensamente austero.

Eu falei dos violinos, deixem-me dizer algo sobre os cilícios.

Ele não só era casto, mas era a única virtude que ele timbrava que o vissem possuir.

O que é altamente bem pensado, porque é a única virtude que não se esconde. Tem-se que mostrar.

E, por causa disso, ele nunca permitiu que mulher alguma chegasse a cem passos de distância de sua moradia, em todo o círculo em volta.

Será que compreendemos a responsabilidade individual de cada um de nós? De que história somos a continuação? Que promessas estão nas nossas mãos? E também que desilusões podem cair sob nossa responsabilidade, se não correspondermos à graça?

Aqui é uma tarefa individual, porque do bom procedimento e da dedicação de cada um de nós pode decorrer uma notável melhora ou piora em todo o conjunto.

Entregou sua alma a Deus, enquanto se cantava o Credo

Quando podia, mandava construir uma choupana ao lado do coro, na igreja, para ter sempre a presença do Santíssimo. Quando não conseguia, levava ao coro uma esteira e deitava-se no próprio coro, onde, depois de alguns momentos de descanso, inflamava-se de amor de Deus que traduzia nos famosos cantos e danças, acompanhados de violino.

Estando para morrer, no último momento, para traduzir seu amor e reconhecimento para com a Santíssima Virgem, pediu que lhe cantassem o Magnificat.

É sempre a alegria.

Lembrando-se em seguida de que era missionário, isto é, propagador da Fé, pediu que lhe cantassem também o Credo. E às palavras “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine”, expirou precisamente naquele instante, quando os sinos do convento anunciavam o momento da elevação na Missa conventual.

Tudo ao mesmo tempo. Não pode ser mais bonito. Quer dizer, no convento, quando havia a elevação do cálice durante a Missa, se tocava o sino. Na cela dele, cantavam o Credo. Ao entoarem as palavras que acabo de citar, por coincidência fazia-se a elevação, os sinos tocavam e a santa alma de São Francisco Solano subiu ao Céu.

Isso é morrer! Ou, por outra, isso é nascer.

Depois de morto, tendo procurado certificar-se do rejuvenescimento que apresentava seu corpo, tão maltratado durante a vida pelos jejuns e penitências, um médico primeiro apalpou-lhe os pés e as mãos. Quando tentou apalpar-lhe uma das pernas, o Santo encolheu-a, dobrando o joelho. E é assim que é representado no retrato que foi feito dele no dia seguinte ao de seu enterro.

Quer dizer foi mais um milagre que ele fez. Para mostrar a presença de Deus pela sua graça, ele encolheu a perna a fim de manifestar quanto a Providência o tinha amado em vida e dava-lhe a possibilidade de fazer esse prodígio. Ele não se auto ressuscitou, mas o cadáver se moveu. Aquele que tinha ressuscitado tanta gente dava essa manifestação de vida.

O Vice-Rei, estando ausente da cidade, mandou que se adiasse o enterro para poder estar presente. E tanto o Arcebispo quanto o Vice-Rei entraram no cortejo para oscular humildemente os pés do Santo. Tendo o Vice-Rei visto que a almofada que sustentava a cabeça do Santo, no caixão, era de um tecido muito ordinário, ou pelo menos alegando isso, fê-la trocar pela de veludo bordado a ouro que tinha consigo. A outra, levou-a como relíquia.

São Francisco Solano foi beatificado em 1675 e canonizado em 1726. Mesmo antes de sua beatificação, já fora escolhido como patrono pelas cidades de Lima, Buenos Aires, Cartagena da Colômbia, Panamá e Santiago do Chile.

Com isto está apresentada a vida de São Francisco Solano.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/8/1974)

 

1) Não dispomos dos dados bibliográficos.

14 de julho – Zelo pelo esplendor da Liturgia

Zelo pelo esplendor da Liturgia

São Francisco Solano era muito zeloso da Sagrada Liturgia, e por causa disso tinha um empenho enorme em que os frades aprendessem bem todas as rubricas e o cantochão, para dar todo o esplendor possível aos Santos Mistérios. Não obstante, ele cantava e tocava canções populares para agradar o povo.

Esses contrastes harmônicos me  maravilham: para agradar o povo, canta canções religiosas populares; mas é um espírito elevadíssimo que compreende a superior beleza da Liturgia, com todo o pensamento teológico, toda a piedade, todo o sobrenatural que nela existe, e também a arte litúrgica para o esplendor da Liturgia.

São Francisco Solano era, portanto, uma dessas almas largas, abertas, capazes de se entusiasmar pelos opostos não contraditórios, mas extremos.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/8/1974)

14 de julho – Em defesa do Beato Gaspar de Bono

Em defesa do Beato Gaspar de Bono

Um exemplo característico de Revolução tendenciosa foi o que ocorreu em muitos meios católicos: não se ensinava claramente uma doutrina errada, mas por omissões que se inserem num coro de meios tons, meias verdades, os temperamentos foram se habituando a uma postura mole, de entreguismo, desarmando toda a linha de defesa da ortodoxia.

 

Perfeição cristã e belos feitos de guerra

Gaspar de Bono nasceu em Valência, em 1530. Seu pai, tecelão e, mais tarde, amolador de facas, era homem de vida religiosa profunda. Sua mãe, cega aos quarenta anos, era pessoa de grande paciência e resignação. Todas as manhãs o casal assistia à Missa e oferecia a Deus o seu dia; e, enquanto o marido trabalhava, a mulher meditava ou tecia. Desse casamento nasceram quatro filhos, e a um deles, Gaspar, os pais destinaram uma melhor educação, pois perceberam na criança dons excepcionais.

De fato, o jovem era dotado de grande inteligência, além de encanto pessoal. Seguindo o exemplo dos pais, era piedoso, sendo recebido muito cedo como terceiro dominicano. Adolescente, começou a trabalhar com um comerciante de seda, que custeou seus estudos. Mas a Providência encaminhou Gaspar para servir como soldado do Imperador Carlos V. E este jovem foi um extraordinário exemplo da união entre piedade e coragem, perfeição cristã e belos feitos de guerra. Jamais, como militar, o ouviram jurar em vão pelo nome de Deus, coisa comum entre seus companheiros; as visitas das damas as mais honradas lhe eram suspeitas; desagradavam-lhe as companhias menos dignas. Após o cumprimento de seus deveres, ia para as igrejas, hospitais e outros locais de devoção, onde consagrava sua alma a Deus e seu corpo a seu príncipe.

Corajoso e valente no manejo da espada

Devotíssimo da Santíssima Virgem, recitava todos os dias sua Ladainha, tendo devoção particular a Sant’Ana, São José, São Vicente Ferrer e às almas do Purgatório. Mas ninguém pense que por isso seu temperamento fosse estranho ou arredio. Era um dos mais belos e gentis jovens do exército e dos melhores nas armas, corajoso e valente com sua espada, que ele só empunhava pela honra de Deus e defesa de seu rei.

Foi assim que, em certa ocasião, estando com uma pequena companhia, foi atacado pelo grosso da cavalaria inimiga. Vendo que não podia enfrentá-la, foi-se retirando lentamente, procurando ao menos matar alguns adversários para enfraquecê-los. Não percebeu assim um fosso profundo, oculto por pedras, nele caindo – e seu cavalo também sobre ele. Bastante ferido, foi atingido ainda por três golpes de alabarda de um soldado contrário. Sentindo a morte próxima, recorreu à Santíssima Virgem, prometendo-lhe ingressar na Ordem de São Francisco de Paula, se fosse salvo. E o foi milagrosamente. Voltou a Valência e foi recebido naquela família religiosa, aos 35 anos de idade.

Grande humildade e invulgar mortificação

Na nova via, logo veio a se destacar como exemplo para os demais sacerdotes. Extraordinariamente virtuoso, chegou a extremos na prática da humildade, de uma invulgar mortificação, e do dom da conversão de pecadores empedernidos. Morreu em 1604, enquanto rezava uma Ave-Maria. Foi beatificado por Pio VI, em 1786. Chegou a Geral de sua Ordem, onde era muito respeitado.

Um seu contemporâneo e biógrafo assim o descreve:

“Quando jovem ele era extraordinariamente belo, de estatura mediana e de corpo muito bem proporcionado; quando mais idoso, tornou-se um pouco curvo, o que lhe deu um porte mais grave, e moderava sua extrema humildade e atitude recolhida, porque frequentemente tinha as mãos juntas e os dedos cruzados entre seu grande rosário.

“Sua fisionomia era clara, suave, agradável, mas muito alegre, mesmo quando atingiu idade avançada. Sua fronte era alta, os olhos azuis, nem grandes, nem pequenos, alegres e vivos, mas calmos e discretos; as sobrancelhas arqueadas e entremeadas de fios brancos que, em sua juventude, eram louros; o nariz bem proporcionado, um tanto aquilino, a boca mediana, de lábios bem visíveis; a barba muito espessa, toda branca, com alguns fios dourados; suas mãos eram longas e brancas, seu andar pausado e solene; ele gaguejava um pouco; sua compleição era sanguínea e colérica. Era, sem dúvida, um dos mais veneráveis anciões então conhecidos.”(1)

Biografia bem redigida, porém não isenta do sentimentalismo romântico 

Esta é uma ficha mais inteligente do que muitas hagiografias que por aí se encontram. Quem a redigiu teve o cuidado de fazer do Beato uma descrição quase de uma ficha policial de nossos dias. Dir-se-ia ser uma espécie de fotografia do tempo em que não havia fotografia. Tem todos os pormenores da fisionomia do Beato, descritos com muita vivacidade, de maneira que, por assim dizer, percebe-se sua alma por detrás da descrição.

De outro lado, trata de sua vida de um modo bastante completo, quer dizer, contando que ele foi um guerreiro; e não omite que foi um guerreiro eficaz. Porque normalmente as fichas impregnadas de um hagiografismo meio dulçoroso, ao tratar do santo como guerreiro, diriam apenas assim: “O santo mancebo foi também durante algum tempo um guerreiro”. E passariam adiante. Ou omitiriam que ele foi guerreiro, para dar a ideia de que um Santo jamais brande a espada, porque toda violência é intrinsecamente má e o católico é incapaz do uso da força a serviço de suas ideias. É uma concepção efeminada e sentimental do católico.

Não se pode dizer que essa ficha seja inteiramente sentimental, romântica. Entretanto, tal é a presença sutil do sentimentalismo romântico, que o texto descreve longamente o Beato como religioso, trata bastante da vida de piedade dele; porém não fala de nenhum dos seus feitos de arma, a não ser um em que ele faz o papel de derrotado e recebe um milagre, o qual lhe serve de ocasião para deixar a carreira das armas.

A combatividade militar é integrante da virtude de um santo

Ora, nós teríamos gostado de uma ficha que dissesse tudo quanto diz, mas que nos mostrasse esse Beato como um guerreiro valente, não só na retirada, mas no ataque, matando alguns, contando o caso de dez inimigos que ele fendeu com uma espadagada, bem como de um avanço em que ele se pôs a risco, esteve na iminência de ser morto, não no recuo, mas porque se meteu no meio dos adversários; então Nossa Senhora o socorreu fazendo aparecer um Arcanjo terrível que, por sua vez, expulsou outros tantos inimigos.

Assim, nós apreciaríamos ver a combatividade militar elogiada como integrante da virtude de um Santo. A Escritura, portanto o Espírito Santo, descreve assim Judas Macabeu, por exemplo.

Aqui não. Vê-se que por um esforço de objetividade hagiográfica o biógrafo chega até o limite da objetividade inteira, porque conta um caso muito bonito. O herói não é só aquele que ataca, mas o que recua também.

Até há uma forma especial de heroísmo em perseverar e continuar inteiramente corajoso, apesar da adversidade. Mas com tanto adocicamento da vida dos Santos, nós gostaríamos de outra coisa. E percebe-se que deve ter havido material para isso.

Altar ideal para se venerar um Santo

Qual é o corolário disso? O Beato Gaspar foi um frade da Ordem de São Francisco de Paula. É improvável que se tenham construído em louvor dele capelas em alguma igreja, por ser Beato. Mas, enfim, uma capela na igreja da Ordem dele é muito provável que tenham feito.

O normal seria que houvesse um nicho com a imagem dele e atrás uma pintura, um mosaico, dando vários aspectos da sua vida. Se isso fosse feito de acordo com o espírito católico integral, apresentaria alguns aspectos do Beato com toda a sua doçura, sua bondade, etc. E um outro aspecto dele combatendo, na hora de cravar a espada num adversário que estaria caindo.

Isso teria que ficar num altar para, ao pé desse quadro, pedirmos a virtude da fortaleza. Não pode ser que, na hora de manifestar a coragem e defender o bem, um católico esteja aquém de um guerreiro que luta pelo mal. Pelo contrário, se o católico tem razões sobrenaturais para oferecer sua vida, ele precisa exceder os combatentes do mal, dos quais o mais audacioso deve ser um tímido diante de um verdadeiro católico.

Mas acontece que essa figura do Beato no ato de liquidar um adversário haveria de produzir, em senhoras ou mocinhas que se preparam para a primeira Comunhão, algum arrepio sentimental.

Formação que adocicava o lado combativo dos Santos

Há dez ou quinze anos atrás, em muitos seminários se entendia que para o indivíduo se tornar autêntico padre precisaria não ser inteiramente varonil. Para um padre fazer um sermão elogiando isso, era preciso ter uma formação que os seminários não davam.

Então, vemos que mesmo numa ficha objetiva, bem feita sob vários aspectos, que contém dados verdadeiramente edificantes, úteis para nossa vida espiritual, entra a irradiação de todo um estado de espírito, um modo de ser que, durante muito tempo, dominou – pelo menos na América do Sul – a piedade de largos setores da sociedade católica; não sei bem como é na Espanha, na Itália, em Portugal.

De tal maneira que, como um abismo atrai outro abismo, no tempo em que a influência da Igreja e do clero se exerciam, grosso modo, num sentido reto, em que então um senso combativo poderia ter levado essa influência à vitória, entretanto desenvolviam sua atividade com fermentos que adocicavam completamente essa influência, e a tornavam pouco capaz de atingir a vitória que estava ao seu alcance.

Surge a combatividade a serviço do mal

E à medida que essa influência vai se exercendo num sentido mau, começa a aparecer uma posição combativa e agressiva nesses mesmos ambientes, mas então já a serviço do mal, a teologia da violência, que é o extremo oposto dessas omissões. E é a tese de que o padre, a freira, devem ser violentos, terroristas, para aplicar a justiça social, a qual é um corolário do Evangelho e que, portanto, é preciso ser imposta até mesmo pela violência. Portanto, um abismo vai atraindo outro abismo.

Esse estado de espírito inimigo de toda polêmica, de todo combate, de toda violência teve ainda sua responsabilidade num aspecto dessa crise dramática. Quando o neomodernismo, ou seja, o progressismo começou a renascer com uma insolência maior, teria sido facílimo esmagá-lo. Não se esmagou por quê? Porque o grande número dos homens que detinham o poder tinha essa mentalidade. Eles achavam que não se deve esmagar nada. No plano ideológico das censuras e das penas canônicas, da coragem eclesiástica de punir, ainda que não seja por meios materiais, eles reagiam com a mesma moleza que fica insinuada nesse horror à exercida em termos militares.

Então, nós tivemos crescendo, crescendo, crescendo a onda da violência e os adversários naturais – que não eram homens que quisessem a violência – não reagindo, porque foram educados na escola da não-violência. Então, compreendemos como foi possível a tão poucos se tornarem tão numerosos e fazerem tanto. Ainda é esse estado de espírito responsável por essa ordem de coisas.

Bigrafias mutiladas pela Revolução tendenciosa

Então nós vemos aqui os zigue-zagues da Revolução, afetando a vida de piedade, desenvolvendo-se no campo da vida espiritual de enorme número de católicos. Mais uma vez notamos o fenômeno de Revolução tendenciosa. Porque não está dada aqui uma doutrina errada, nem dito de modo positivo: o católico não deve ser um soldado corajoso. Até está afirmado de algum modo o contrário. Mas há omissões que se inserem num coro de meios tons, meias verdades, as quais acabaram insinuando essa posição e habituando os temperamentos a uma postura mole, de entreguismo, desarmando toda a linha de defesa da ortodoxia, antes mesmo de o adversário erguer a cabeça. Quando o inimigo ergueu a cabeça, as linhas de defesa estavam quase todas adormecidas.

Poder-se-ia fazer uma objeção: “Mas Dr. Plinio, isso é verdade apenas em parte, porque esses mesmos que o senhor disse serem contrários à energia eclesiástica, quando se trata de atacar a ortodoxia são extremamente enérgicos.”

Respondo: Não é uma contradição, mas está na lógica do preguiçoso. Nessa posição entra muito do vício capital da preguiça. E a psicologia do preguiçoso é precisamente esta: ele concorda com tudo e tem preguiça para tudo; entretanto, para com aquele que quer convencê-lo de não ser preguiçoso, deseja obrigá-lo a se mexer, ele agride sem preguiça.

Tomem um homem que está numa cama dormindo agradavelmente. Acordam-no e lhe dizem:

– Há divertimento.

– Não quero.

– Tem trabalho.

Ele dorme mais profundamente ainda.

– Faça uma oração!

Ele desmaia.

Procurem levantar o homem. Ele se ergue e dá um tapa, porque estão lhe tirando de sua preguiça. Esta é a lógica do preguiçoso.

Inúmeras vezes nós quisemos que essa gente combatesse. É claro que nos agrediam, pois estávamos tirando-os da lógica da preguiça.

Alguém me dirá: “O senhor não comentou a vida do Beato. O que fica da vida dele para nós?”

Fica, antes de tudo, uma defesa do Beato que foi apresentado de modo mutilado. E também uma defesa contra tantas hagiografias mutiladas que por aí se apresentam.             

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/8/1972)

Revista Dr Plinio 244 (Julho de 2018)

 

1) Não dispomos dos dados bibliográficos da obra citada.

13 de julho – Santo Henrique, Imperador

Santo Henrique, Imperador

Comentando Santo Henrique, Dr. Plinio procura mostrar o contraste entre a figura deturpada que se formou da santidade,  e a personalidade varonil, sagaz, guerreira, humilde e combativa deste santo imperador.

 

Em geral, as pessoas têm a respeito da santidade uma ideia unilateral. Pensam que a santidade consiste apenas em sorrir, em estar de acordo com tudo e a tudo perdoar. Porém, muitos não têm ideia do vulto completo e da fisionomia geral da santidade.

Isso se deve, em parte, às imagens que se produziram nos últimos vinte anos, ou nos últimos trinta anos, em que apresentam os santos com umas carinhas lisinhas e um olharzinho meigo, quando, na realidade, se trata de santos que tiveram uma extraordinária personalidade, a ponto de marcar a sua época.

A verdadeira face da santidade

Quando eu estive na Itália, em Pádua, há alguns anos atrás, fui visitar o famoso santuário de Santo Antônio, onde se encontra o corpo do santo. Lá eu vi uma obra de um grande pintor, quase contemporâneo deste santo, chamado Giotto.

É a imagem mais próxima da fisionomia de Santo Antônio que se conhece: homem alto, possante, com fisionomia severa e com uma atitude hercúlea.

Eu comprei uma fotografia desse quadro e depois fui para a sacristia. Na sacristia vendiam ao povo santinhos representando Santo Antônio: um rapaz sem nada de varonil, imberbe, coradinho, dando a impressão que tinha usado carmim, sua fisionomia era a de quem diz: “Eu estou com medo”…

Quer dizer, apresenta-se o santo sem personalidade, um ente sem arrojo e privado do conjunto das virtudes, sem as quais ninguém é santo. O santo é declarado herói nas três virtudes teologais e nas quatro virtudes cardeais. Virtudes teologais: fé, esperança, caridade. Virtudes cardeais: justiça, fortaleza, temperança, prudência. Uma das virtudes sem a qual ninguém é santo é, portanto, a virtude da fortaleza.

No que consiste a virtude da fortaleza? Consiste em ser capaz de empregar toda a força necessária nas lutas que neste mundo devemos travar contra nós mesmos, contra os inimigos da fé e contra os inimigos da Igreja.

É preciso restaurar, aos olhos das pessoas, a verdadeira fisionomia da santidade, que inclui exatamente essa coragem. E por essa razão escolhi, para comentar na reunião de hoje, um modelo de coragem masculina: Santo Henrique, Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Vida repleta de fatos memoráveis

Santo Henrique colocou seu exército sob as bênçãos especiais de Deus, valendo-se da proteção dos grandes santos preferidos do seu povo. Elegeu dentre eles Santo Adriano, oficial mártir, cuja espada se guardava ciosamente, como relíquia, desde antigos tempos, em Valbach.

 Assim armado, organizou um exército para reprimir as invasões bárbaras dos povos do Norte, vencendo-os na Polônia e na Boêmia. Quando defrontaram os eslavônios, muito superiores em força, Santo Henrique determinou preces coletivas e a comunhão geral do exército. Ao se apresentarem as primeiras tropas para o combate, verificou-se pânico súbito entre os inimigos que, desorganizados, fugiam em debandada. Os anjos combateram e derrotaram os eslavônios. Os inimigos se submeteram, ficando Boêmia, Morávia e Polônia tributárias do Sacro Império.

Promoveu, a seguir, uma reunião de bispos em Frankfurt, com o objetivo de fomentar a disciplina eclesiástica nos seus estados.

Por duas vezes teve que subjugar os lombardos, que ameaçavam os Estados Pontifícios. Na primeira vez, após submetê-los, foi coroado, em Pavia, Rei da Lombardia, cingindo a célebre coroa de ferro desse reino. Numa segunda vez, sua atuação foi além da pacificação dos lombardos, pois graves problemas afligiam a Igreja: o antipapa Gregório movia disputa contra o legítimo Papa Bento VIII. Por esses dias do ano de 1014, em plena Idade Média, portanto, recebeu ele e a Imperatriz uma das maiores homenagens de suas vidas: visitando o Papa, foram solenemente coroados Imperadores dos Romanos.

O Pontífice presenteou o santo com um globo de ouro cravejado de pérolas, encimado de uma cruz, emblema de dignidade imperial. O monarca, dignificado por tantas honras e para perpetuar a lembrança dessas homenagens, transferiu o globo e a coroa às mãos de Santo Odilon para dotar o célebre mosteiro de Cluny, do qual este era abade.

Outra oportunidade teve ainda o monarca de concorrer para o bem da Cristandade. Aproximou-se de Estevão, Rei da Hungria, príncipe ainda pagão e que carecia vir com seu povo ao grêmio das nações cristãs. Santo Henrique ofereceu-lhe aliança e sua piedosa irmã, Gisela, por esposa. Ganhou ele um Santo Estêvão, cuja conversão foi maravilhosa, um grande rei para a Igreja e um santo para o Céu.

Teve de empenhar-se novamente em campanhas na Itália. Enquanto consolidava os estados no interior, e assegurava a paz com os vizinhos de Leste, os lombardos, associados aos gregos e normandos, assolavam as províncias da Itália. O monarca preparou-se para castigá-los. Derrotou-os em várias batalhas, repelindo uns e subjugando outros. Reintegrou a Igreja na posse das terras invadidas, ocupou Nápoles, Salerno e Benevento e restabeleceu a paz na península.

Ao voltar para a Alemanha, teve com Ricardo, o Bom, Rei dos franceses, a célebre entrevista do rio Mosa na qual se entenderam amistosamente os dois príncipes acerca dos grandes problemas cristãos e políticos da Europa. Dispunha o cerimonial que o encontro se desse no meio do rio, cada um em seu barco. Santo Henrique, em atenção às virtudes do príncipe francês, resolveu quebrar os rigores do protocolo: atravessou o Mosa com seu séquito e foi saudar o Rei da França na margem oposta(1).

Invasão dos bárbaros e início da Idade Média

A ficha é um pouco longa, pois a vida desse santo é tão cheia de atos memoráveis, que dela não se poderia ter uma ideia sem que vários elementos de sua biografia fossem mencionados. Para compreendermos bem o conjunto desses fatos, é preciso situá-los em seu contexto histórico: plena Idade Média, no ano de 1014.

Como é sabido, a Idade Média se iniciou com a queda do Império Romano do Ocidente. O Império Romano foi invadido por uma quantidade incalculável de bárbaros, completamente selvagens, os quais, estabelecendo-se no território do Império, sujeitaram os romanos ao seu domínio.

Aos poucos, toda a antiga população romana foi caindo na barbárie também. Então, as estradas não tinham mais quem delas cuidasse; os aquedutos que levavam água às cidades se rompiam; as cidades afundavam na sujeira; os palácios eram agora habitados por bárbaros selvagens que se degradavam completamente; as obras de arte eram quebradas nas ruas. Em suma, tudo o que pudesse representar civilização e cultura era miseravelmente liquidado.

Aos poucos, sob o bafejo da Igreja — a única organização que continuou a existir depois que tudo se dissolveu —, a Europa foi sendo reconduzida ao estado de civilização. Os bárbaros se converteram e, então, foram progredindo, à semelhança de uma tribo selvagem aonde chega um missionário.

Desta maneira — por mais que ainda estivesse abaixo do que ela estaria duzentos ou trezentos anos depois —, por volta do ano 1000 a civilização já se encontrava bastante adiantada no que diz respeito ao estado originário dos bárbaros. Ou seja, trata-se de um estado semibárbaro.

Ademais, alguns povos eram mais civilizados do que outros, havendo, portanto, dentro do continente europeu, ilhas de Cristandade, ilhas de Civilização Católica incipiente no meio de conglomerados de povos que, sendo bárbaros pagãos, estavam sempre atacando e lutando de maneira a tornar a vida dos católicos dificílima.

Formação do Sacro Império Romano Alemão

O povo germânico, que ocupava mais ou menos o território onde hoje se situa a Alemanha, a Áustria, parte da Checoslováquia e a Suíça, foi um dos primeiros a se converter. Após se civilizarem, os germanos constituíram uma entidade política chamada o Sacro Império Romano Alemão.

No fundo, tratava-se de uma liga dos povos cristãos contra a barbárie. E, como essa liga abrangia uma extensão grande de território, chamavam-na Império; Romano, por ser uma reminiscência do antigo Império Romano, que tinha abrangido toda a Terra; e, por fim, Alemão, pois o núcleo do Império eram as nações alemãs. Porém, acima de tudo, era um Sacro Império, pois sua principal finalidade consistia em defender a Religião Católica contra a agressão dos pagãos.

Deus é quem dá a vitória

Santo Henrique foi eleito Imperador do Sacro Império Romano Alemão, sendo colocado numa situação onde nem sempre a hagiografia popular mostra os santos. Ele estava à testa de toda a organização política da Europa de seu tempo, era o homem mais poderoso do continente. Mas, ao mesmo tempo, ele tinha a obrigação de ser o melhor político e o melhor filho da Igreja.

Ele era, por excelência, o filho da Igreja, aquele que devia protegê-la em suas necessidades contra a barbárie. E como acontece sempre com os santos, ele desempenhou magnificamente suas funções.

Havendo hordas bárbaras que continuamente agrediam o seu povo, o santo monarca armou-se de força, constituiu um exército e o conduziu à guerra. Porém, por ser um herói católico, um homem de fé, ele sabia que não bastava lutar fazendo uso das forças humanas e naturais, mas era preciso contar com os recursos sobrenaturais. Por isso, ele pedia a Deus que lhe desse a força necessária para vencer.

Então, para mostrar ao santo quanto suas orações Lhe eram gratas, em certa ocasião, Deus fez um grande milagre: no momento em que as tropas dos eslavônios, mais numerosas do que as germânicas, estavam prontas para o combate e os exércitos postos frente a frente, vê-se que os pagãos começam a fugir em debandada: os anjos haviam lhes aparecido, incutindo-lhes terror.

Desse modo, Deus dava a entender como Ele considerava a oração: pela prece de Santo Henrique, Deus dispensou seus heróis do combate. Assim, a pressão pagã foi quebrada e uma das garras do paganismo, contra os católicos, liquidada.

Reconhecimento pontifício dos serviços prestados

Entre os inimigos da fé, havia também os lombardos, os quais tinham sua capital na cidade de Milão, hoje Itália, onde formavam um reino de hereges. Eles não eram propriamente pagãos, mas sim hereges arianos.

Santo Henrique desceu, então, pela Lombardia, atacou os lombardos, quebrou-lhes o poder e foi depois até Roma, a fim de visitar o Papa. Foi nessa ocasião que o Romano Pontífice coroou-o, junto com sua esposa, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, numa cerimônia realizada com grande esplendor. Deu-lhe também de presente uma esfera de ouro, cravejada de pérolas, representando seu poder sobre toda a Terra.

Mas, para provar seu amor à Igreja, Santo Henrique não ficou com o tesouro: deu-o a Santo Odilon, Abade de Cluny, chefe da maior Ordem Religiosa da Europa naquele tempo.

Voltando para a Alemanha, Santo Henrique derrotou novamente os lombardos, quebrando definitivamente seu poder.

Insigne ato de apostolado e esplêndida manobra política

Sendo um tão grande batalhador, Santo Henrique mostrou-se também um hábil político.

Na Hungria, havia um rei que, apesar de ser pagão, era famoso por sua virtude. Compreendendo que, por demonstrar ser virtuoso, tal rei poderia ser atraído para a Religião Católica, ao invés de atacá-lo, Santo Henrique mandou pedir uma entrevista com ele, e ofereceu em casamento sua irmã, Gisela, de grande formosura e muito virtuosa.

O Rei da Hungria, chamado Estêvão, aceitou. Gisela cumpriu a tal ponto sua missão de converter o rei que este se tornou um santo da Igreja Católica, o qual converteu toda a Hungria.

Com isso, por uma manobra diplomática inteligente e muito bem sucedida, o Imperador estendeu os limites da Cristandade até além do Danúbio, conquistando um amigo onde ele tinha anteriormente apenas inimigos.

Grande por ser católico

Já naquele tempo havia uma secular rivalidade entre alemães e franceses: povos com índole e temperamento diferentes, e com questões de fronteira complicadas de resolver.

Mas, nesse tempo, a França era governada por um muito bom rei, e o Sacro Império Romano Alemão por um santo imperador. Pelo que, um acordo entre ambos não foi difícil. Santo Henrique, muito bom diplomata, quis ter um encontro com esse rei para ajustarem todos os problemas políticos da Europa, porque os dois principais países da Europa cristã eram a Alemanha e a França. Então, foram encontrar-se junto ao rio Mosa.

O protocolo mandava que, por serem dois soberanos importantes, nenhum fosse à terra do outro, pois aquele que fosse à terra do outro, por assim dizer, prestava homenagem à importância do outro. Então, deveria ser feito um encontro no meio do rio, em duas barcas. Trata-se de um rio de curso de água tranquilo, onde esse encontro comodamente podia ser feito. Preparou-se a barca do Imperador, assim como a do Rei da França.

O Imperador, sendo mais importante que o Rei da França, embora esse fosse muito importante também, podia pretender que o rei fosse ao seu território. Mas sendo um homem cheio de espírito católico, e bom diplomata, Santo Henrique fez o contrário: entrou na barca e preparou uma surpresa ao Rei da França, atravessou o rio e desembarcou. Quer dizer, o que era mais foi prestar homenagem ao que era menos, fazendo sentir pela sua atitude cordial que ele estava cheio de boas disposições, de boas intenções. De fato, realizaram-se então conversações muito cordiais, que concorreram para a paz dos dois países e para regular todos os problemas da Europa daquele tempo.

Essa é a história de Santo Henrique: Um grande católico e um grande santo, que por ser católico, foi grande rei, grande militar, grande guerreiro, grande diplomata, grande político, morrendo aureolado de toda espécie de êxitos e sucessos.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/1/1970)

 

1) Não possuímos referência da ficha comentada por Dr. Plinio nessa ocasião.

Errata: Por um erro na transcrição da conferência feita por Dr. Plinio em 25/6/1976, no artigo desta seção do mês passado (junho), registrou-se, nas páginas 10 e 11, o termo “hermetismo” ao invés de “eremismo”, o qual representa um neologismo criado por Dr. Plinio para significar a vida enclausurada, religiosa, eremítica.

12 de julho – Santa Veronica

Santa Veronica

Além da dor física, os sofrimentos de Nosso Senhor provocavam n’Ele uma dor moral que nenhum homem pode calcular, pois transcende todo o entendimento humano.

Verônica, contemplando-O assim, teve pena. Ela teve coragem de ver a dor d’Ele, olhou de frente, e disse: “Meu Senhor e meu Deus”! Lancinada pela pena, ela foi correndo de encontro a Ele,  enfrentou o risco que isso constituía, e teve o famoso gesto de enxugar o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/3/1982)