25 de julho – Santiago, Admirável continuidade de bênçãos

Santiago, Admirável continuidade de bênçãos

Certos lugares que reluziram com invulgar esplendor nos áureos tempos da Cristandade conservam ainda hoje, e com intensidade por vezes surpreendente, uma admirável continuidade com seu passado. E em se tratando sobretudo de tradições religiosas, a fé muito acentuada pela qual sempre se distinguiu o povo espanhol nos leva a  encontrar, nesta nação, significativos exemplos dessa continuidade.

Talvez o mais expressivo deles seja o Santuário de Santiago de Compostela. Situado na Galícia, ao norte da Espanha, seu nome deriva do latim “Campus Stellae”, isto é, Campo da Estrela. Segundo as crônicas, após o martírio de São Tiago o Maior, ocorrido em Jerusalém, seu corpo foi transladado por discípulos para aquela região hispânica e ali o sepultaram.

Com o passar do tempo, porém, perdeu-se a noção de onde seus restos mortais haviam sido depositados. Até um dia em que, no século IX, alguns camponeses avistaram uma luz inusitada refulgindo sobre o local.

Começaram a escavar e depararam com os ossos do grande Apóstolo. Em breve erguia-se o santuário, que haveria de se tornar um dos maiores centros de peregrinação de  toda a Cristandade. Da Europa inteira se acorria para Santiago de Compostela, e num tal afluxo que, em determinadas épocas do ano, certos trechos dos caminhos transformavam-se em verdadeiras ruas, repletos de peregrinos!

É difícil existir lugar mais sagrado e mais venerável do que Compostela. O devoto que ali se apresente com verdadeiro espírito de peregrinação e a alma voltada para o  sobrenatural, não pode deixar de sentir as bênçãos  inapreciáveis de continuidade com as mais antigas e excelentes graças da Civilização Cristã. Bênçãos peculiares, diferentes das que se nota em outros santuários igualmente  veneráveis como Aix-la-Chapelle ou Genazzano; bênçãos palpitantes num ambiente repassado de fervor e entusiasmo.

A igreja é o maior templo românico do mundo, embora sua fachada obedeça às linhas de um estilo posterior. É grandiosa, magnífica e imponente. À primeira vista, o exterior pode parecer excessivamente sobrecarregado. Mas depois de uma ponderada análise, e tendo nossos olhos se habituado a considerá-lo, percebe-se que essa sobrecarga é  ordenada e muito bonita. As fachadas laterais também se revestem de uma extrema beleza, e todo o edifício compõe um harmonioso, digno e lindíssimo conjunto com os  outros prédios da praça em que ele se encontra.

Internamente, possui a formosura própria da arte românica, com um pormenor bem espanhol: não há vitrais. A luz penetra através de uma claraboia cuja abertura foi cuidadosamente estudada para que todo o recinto receba suficiente iluminação. Em seus corredores laterais abrem-se diversas capelas, consagradas a certas invocações de  Nossa Senhora e a alguns santos.

E no centro, a meio termo entre o altar-mor e a porta de entrada, existe uma capela do Santíssimo Sacramento, bonita e piedosa. Os fiéis que ali se ajoelham para adorar o  Rei dos Reis, perpetuamente exposto, são acolhidos por uma tocante imagem do  Sagrado Coração de Jesus, impregnada de unção e de bondade celestiais.

Entretanto, o local mais abençoado do Santuário é, a meu ver, a cripta onde se encontram os despojos de São Tiago o Maior. A urna funerária em que estão conservados é, na  verdade, uma bela e rica imagem do Apóstolo, lavorada em ouro e pedras preciosas, com traços de inspiração ainda pré-gótica.

Êmula dessa bênção toda particular é a que se sente noutra capela do Santuário, situada embaixo da escadaria principal. Trata-se de uma construção dos tempos de Carlos  Magno, o grande e piedoso monarca do Sacro Império Romano-Alemão, muito devoto de São Tiago e que ali esteve diversas vezes. Ali dentro torna-se ainda mais nítida a noção da continuidade desse presente com as magníficas tradições da Cristandade, e mais viva a ideia de que as graças de hoje e as de ontem se respeitam e se entrelaçam,  constituindo um tesouro espiritual que nada poderá destruir!

Duas coisas merecem especial destaque no conjunto dos atraentes aspectos do Santuário. Uma é o “botafumero”, imenso turíbulo de prata que, em dias de festa, costuma ser levantado para a vasta abertura da cúpula e, lá no alto, descrevendo um gigantesco semicírculo, se põe a espargir o odorífero incenso por todo o recinto sagrado.

Para alguém que o assista pela primeira vez, esse interessante e louvável ritual de incensamento pode tomar um certo ar de exercício de força, como quem observa se os homens encarregados de puxar as cordas têm o necessário vigor para espalhar aqueles tufos fumegantes. E, portanto, no meio desse ato religioso, há algo de campesino e de um pouco tosco. Mas, de um tosco e um campesino saborosos, encantadores, que dão gosto de serem vistos, porque fazem a beleza dos costumes de um lugar como Santiago de Compostela.

Outra coisa que atrai especialmente a atenção, porque imbuída de simbolismo, é a presença dos sinos que tocam nas majestosas torres da igreja. Eles já ressoavam por aquelas regiões, nos dias anteriores à dominação moura.

Quando os invasores chegaram a Compostela, saquearam o Santuário, levando os sinos para uma mesquita de Sevilha. Séculos depois, durante os heroicos feitos da  Reconquista espanhola, São Fernando de Castela recuperou estes mesmos sinos e ordenou que fossem recolocados em seu lugar de origem.

Quando ali estive, eu também como peregrino, ao ouvir o timbre desses bronzes, testemunhas de tantas epopeias, pensei no triunfo daquele grande rei espanhol e no triunfo  ainda maior da Igreja Católica. E os dobrares que ecoavam das torres imponentes encheram minha alma de uma harmonia extraordinária.

Uma vez mais, reluzia a admirável continuidade das bênçãos da Civilização Cristã.

25 de julho – Brado de guerra

Brado de guerra

São Tiago foi o Santo que exerceu grande atração na Idade Média, e o seu nome foi usado como brado de guerra pelos heróis da Reconquista espanhola.

Para uma alma combativa, nada mais bonito do que imaginar que, quando ela já não fizer parte do número dos vivos, sua memória ficará, não como um sinal de conciliação, mas como um brado  de guerra! E que os bravos, no momento de arriscarem tudo, até a própria vida, pela causa católica, terão nos lábios esse nome como um símbolo de luta e de vitória, a ponto de ser este o último  nome que muitos deles pronunciarão, cheios de entusiasmo, antes de se apresentarem à glória de Deus e ao sorriso de Maria.

Para muitos, este nome foi o de “Santiago!”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/7/1967)

25 de julho – São Tiago

São Tiago

São Tiago, o Maior, foi um Apóstolo e um missionário movido por extraordinária ousadia. Empreendeu uma epopeia que, levando-se em conta as condições rudimentares da época, pode ser considerada tão — ou mais — audaciosa quanto uma viagem, em nossos dias, até a Lua. Pois o filho do trovão partiu de Jerusalém para pregar o Evangelho aos povos do Ocidente, e chegou aos extremos da Península Ibérica.

Homem de gigantesca estatura moral, recebeu o infalível auxílio de Maria Santíssima, que lhe apareceu para reconfortá-lo, animando-o a não recuar diante de nenhum obstáculo na sua magnífica obra evangelizadora.

Plinio Corrêa de Oliveira

24 de julho – São Charbel Makhlouf Modelo de contemplação e obediência

São Charbel Makhlouf Modelo de contemplação e obediência

Uma das piores provações pelas quais podemos passar é nos encontramos diante de um contrassenso inexplicável. Mas, confiando em Nossa Senhora, veremos que tudo tem solução.

 

Santa Brígida foi casada com um homem de um gênio muito difícil e que provou muito o temperamento dela. Ela era uma pessoa muito irritadiça e, naquele contato com o marido, teve que se dominar e acabou, afinal de contas, vencendo o gênio muito desagradável, muito duro que ela também tinha.

Ao final da vida, teve que retomar a batalha

Depois disso, ela fez uma peregrinação para o Oriente, santificou-se e voltou para Roma, tendo renunciado à condição régia que possuía e vivendo como uma espécie de freira.

Quando a Santa chegou ao fim da vida, em que a grande luta tinha sido contra o seu temperamento impulsivo, o mau gênio, aparece uma coisa que para ela foi uma catástrofe: todo aquele mau gênio renasceu, e aquela luta parecia perdida. Ela tinha conseguido dominar seu temperamento, reduzir aqueles ímpetos, e via aquilo tudo ressurgir desabotoadamente; teve que retomar a luta, venceu e então morreu em paz.

Comentam os hagiógrafos que isso não significava que Santa Brígida tivesse dado algum consentimento ao mau gênio, nem era um fenômeno de decadência espiritual dela. Mas Nossa Senhora, que tinha sopitado esse mau gênio por uma graça especial, permitiu-lhe uma última prova, fazendo-a passar por uma situação com características de coisa absurda, sem sentido.

Porque é mais ou menos sem sentido uma vida durante a qual a pessoa constrói uma obra espiritual e, de repente, esta parece desabar. Deve-se ter confiança na Providência e, mesmo na velhice, retomar aquele trabalho espiritual.

Situações que parecem sem sentido

Ela não tinha nenhuma culpa pelo que estava sucedendo e, com uma grande sujeição e confiança na Santíssima Virgem, refez todo o trabalho para apresentar a sua alma ao Criador.

Parecia, portanto, uma espécie de cúmulo o vencer o mau gênio. Mas a última coisa, depois do mau gênio completamente vencido, era aceitar a provação enviada por Deus.

Exatamente aqui está um requinte da vida espiritual, a respeito do qual nunca será suficiente insistir. A Providência Divina nos pede, em muitas ocasiões da vida, que enfrentemos situações que parecem sem sentido, que caminhemos de encontro a muralhas que não têm portas, a mares que não têm fundo, a obstáculos que não têm solução, e depois, quando nos aprofundamos, aquilo se abre, se move, e continuamos a avançar.

Isso é frequentíssimo na vida espiritual, bem como na vida de apostolado e na vida privada. Nossa Senhora faz essas coisas para as almas a quem Ela chama às mais altas finalidades e ama mais especialmente. Essa espécie de contrassenso é exatamente uma prova de amor.

Preparar o espírito para a provação

O que pede uma prova de amor? Uma fé cega, depois da qual vem sempre uma grande graça.

Digo isto para alguém que esteja nessas condições, mas também para os que não estão, porque é preciso preparar o espírito para provas dessas.

A pessoa não compreende por que a prova vem, e passa a provação toda protestando. Entretanto, se não protestasse, tornaria a prova mais breve e, no fim, compreenderia o sentido que aquilo tem.

É mesmo uma constante de muitas vocações excelentes. De maneira que é necessário preparar o espírito para essa ideia e enfrentar a prova, porque Nossa Senhora é assim bem servida. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, encontramos homens de Deus, especialissimamente amados por Ele, que são provados por essa forma. Devemos ir preparando reservas de energia de alma, de disposição, para quando isso acontecer.

Uma das piores provas que podemos atravessar durante a vida é a impressão de que estamos diante de coisas sem sentido, e não há mais solução nem caminho para nada; e, depois, vemos que há solução e caminho, e tudo no final se esclarece.

Uma tentação que se apresentou ao jovem Plinio

Desculpem-me exemplificar com uma reminiscência particular, mas a vida inteira me causou verdadeiro horror a ideia de briga entre católicos. A única tentação que tive em minha vida de deixar o movimento católico foi logo no comecinho das minhas atividades, quando um senhor tentou provocar uma cisãozinha contra mim, na minúscula Ação Universitária Católica(1) daquele tempo.

Fiquei fortemente tentado de desânimo. Lembro-me ainda de mim, andando de bonde pelo Viaduto do Chá para ir a uma reunião deles, numa noite chuvosa e ruim, e eu tomando todos os ventos no bonde aberto, de pernas trançadas e lutando contra aquela tentação de deixar tudo. A minha ideia era esta: “Sou feito para lutar contra os inimigos da Igreja, e não para lutar contra os filhos dela”.

Tempos depois, eu li uma biografia de Santa Teresa de Jesus, que me agradou muito. Quando terminei a leitura, fechei o livro e pensei: “Está bem, graças a Deus isso é para ela, mas eu fui suscitado para lutar contra a Revolução; não para combater dentro da Igreja”.

Se eu tivesse podido prever tudo o que veio depois, talvez desmaiasse. Ora, tive que aceitar uma realidade que durante muito tempo me pareceu um completo contrassenso.

Quantos outros absurdos dentro de minha vida eu poderia apontar. Pilhas de disparates, de situações que não têm sentido, simplesmente, mas que se vai enfrentando, se adaptando, fazendo-se pequeno, obedecendo à vontade de Nossa Senhora que fala pela voz dos acontecimentos e, depois, vai-se compreendendo que devia ser, e que foi bom que tivesse sido assim.

Calma, segurança e certeza

Eu recomendaria muito àqueles que tenham de trilhar veredas semelhantes àquelas trilhadas por mim que, meditando a respeito disto, se preparassem para enfrentar esses contrassensos. É uma forma de ato de humildade compreender que devemos nos colocar diante de Maria Santíssima como escravos, feitos para obedecer sem discutir. Ela é quem manda, quem dispõe e, portanto, tem o direito de nos fazer passar pelas evoluções que entender para, afinal de contas, chegarmos aos resultados que Ela quiser. Porque isto é obediência, confiança e amor.

Peçamos a Santa Brígida para vincar bem esta ideia em nosso espírito: calma, segurança e certeza de que tudo se resolve e tudo se explica, mesmo nos momentos em que tudo parece insolúvel e inexplicável.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/10/1964)

 

1) Grupo fundado por Dr. Plinio em 12 de setembro de 1929, constituído de congregados marianos universitários. Ver Revista Dr. Plinio n. 18, p. 4; n. 59, p. 28-30; n. 152, p. 29; n. 175, p. 5.

23 de julho – Contrassenso: uma prova de amor

Contrassenso: uma prova de amor

Uma das piores provações pelas quais podemos passar é nos encontramos diante de um contrassenso inexplicável. Mas, confiando em Nossa Senhora, veremos que tudo tem solução.

 

Santa Brígida foi casada com um homem de um gênio muito difícil e que provou muito o temperamento dela. Ela era uma pessoa muito irritadiça e, naquele contato com o marido, teve que se dominar e acabou, afinal de contas, vencendo o gênio muito desagradável, muito duro que ela também tinha.

Ao final da vida, teve que retomar a batalha

Depois disso, ela fez uma peregrinação para o Oriente, santificou-se e voltou para Roma, tendo renunciado à condição régia que possuía e vivendo como uma espécie de freira.

Quando a Santa chegou ao fim da vida, em que a grande luta tinha sido contra o seu temperamento impulsivo, o mau gênio, aparece uma coisa que para ela foi uma catástrofe: todo aquele mau gênio renasceu, e aquela luta parecia perdida. Ela tinha conseguido dominar seu temperamento, reduzir aqueles ímpetos, e via aquilo tudo ressurgir desabotoadamente; teve que retomar a luta, venceu e então morreu em paz.

Comentam os hagiógrafos que isso não significava que Santa Brígida tivesse dado algum consentimento ao mau gênio, nem era um fenômeno de decadência espiritual dela. Mas Nossa Senhora, que tinha sopitado esse mau gênio por uma graça especial, permitiu-lhe uma última prova, fazendo-a passar por uma situação com características de coisa absurda, sem sentido.

Porque é mais ou menos sem sentido uma vida durante a qual a pessoa constrói uma obra espiritual e, de repente, esta parece desabar. Deve-se ter confiança na Providência e, mesmo na velhice, retomar aquele trabalho espiritual.

Situações que parecem sem sentido

Ela não tinha nenhuma culpa pelo que estava sucedendo e, com uma grande sujeição e confiança na Santíssima Virgem, refez todo o trabalho para apresentar a sua alma ao Criador.

Parecia, portanto, uma espécie de cúmulo o vencer o mau gênio. Mas a última coisa, depois do mau gênio completamente vencido, era aceitar a provação enviada por Deus.

Exatamente aqui está um requinte da vida espiritual, a respeito do qual nunca será suficiente insistir. A Providência Divina nos pede, em muitas ocasiões da vida, que enfrentemos situações que parecem sem sentido, que caminhemos de encontro a muralhas que não têm portas, a mares que não têm fundo, a obstáculos que não têm solução, e depois, quando nos aprofundamos, aquilo se abre, se move, e continuamos a avançar.

Isso é frequentíssimo na vida espiritual, bem como na vida de apostolado e na vida privada. Nossa Senhora faz essas coisas para as almas a quem Ela chama às mais altas finalidades e ama mais especialmente. Essa espécie de contrassenso é exatamente uma prova de amor.

Preparar o espírito para a provação

O que pede uma prova de amor? Uma fé cega, depois da qual vem sempre uma grande graça.

Digo isto para alguém que esteja nessas condições, mas também para os que não estão, porque é preciso preparar o espírito para provas dessas.

A pessoa não compreende por que a prova vem, e passa a provação toda protestando. Entretanto, se não protestasse, tornaria a prova mais breve e, no fim, compreenderia o sentido que aquilo tem.

É mesmo uma constante de muitas vocações excelentes. De maneira que é necessário preparar o espírito para essa ideia e enfrentar a prova, porque Nossa Senhora é assim bem servida. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, encontramos homens de Deus, especialissimamente amados por Ele, que são provados por essa forma. Devemos ir preparando reservas de energia de alma, de disposição, para quando isso acontecer.

Uma das piores provas que podemos atravessar durante a vida é a impressão de que estamos diante de coisas sem sentido, e não há mais solução nem caminho para nada; e, depois, vemos que há solução e caminho, e tudo no final se esclarece.

Uma tentação que se apresentou ao jovem Plinio

Desculpem-me exemplificar com uma reminiscência particular, mas a vida inteira me causou verdadeiro horror a ideia de briga entre católicos. A única tentação que tive em minha vida de deixar o movimento católico foi logo no comecinho das minhas atividades, quando um senhor tentou provocar uma cisãozinha contra mim, na minúscula Ação Universitária Católica(1) daquele tempo.

Fiquei fortemente tentado de desânimo. Lembro-me ainda de mim, andando de bonde pelo Viaduto do Chá para ir a uma reunião deles, numa noite chuvosa e ruim, e eu tomando todos os ventos no bonde aberto, de pernas trançadas e lutando contra aquela tentação de deixar tudo. A minha ideia era esta: “Sou feito para lutar contra os inimigos da Igreja, e não para lutar contra os filhos dela”.

Tempos depois, eu li uma biografia de Santa Teresa de Jesus, que me agradou muito. Quando terminei a leitura, fechei o livro e pensei: “Está bem, graças a Deus isso é para ela, mas eu fui suscitado para lutar contra a Revolução; não para combater dentro da Igreja”.

Se eu tivesse podido prever tudo o que veio depois, talvez desmaiasse. Ora, tive que aceitar uma realidade que durante muito tempo me pareceu um completo contrassenso.

Quantos outros absurdos dentro de minha vida eu poderia apontar. Pilhas de disparates, de situações que não têm sentido, simplesmente, mas que se vai enfrentando, se adaptando, fazendo-se pequeno, obedecendo à vontade de Nossa Senhora que fala pela voz dos acontecimentos e, depois, vai-se compreendendo que devia ser, e que foi bom que tivesse sido assim.

Calma, segurança e certeza

Eu recomendaria muito àqueles que tenham de trilhar veredas semelhantes àquelas trilhadas por mim que, meditando a respeito disto, se preparassem para enfrentar esses contrassensos. É uma forma de ato de humildade compreender que devemos nos colocar diante de Maria Santíssima como escravos, feitos para obedecer sem discutir. Ela é quem manda, quem dispõe e, portanto, tem o direito de nos fazer passar pelas evoluções que entender para, afinal de contas, chegarmos aos resultados que Ela quiser. Porque isto é obediência, confiança e amor.

Peçamos a Santa Brígida para vincar bem esta ideia em nosso espírito: calma, segurança e certeza de que tudo se resolve e tudo se explica, mesmo nos momentos em que tudo parece insolúvel e inexplicável.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 8/10/1964)

 

1) Grupo fundado por Dr. Plinio em 12 de setembro de 1929, constituído de congregados marianos universitários. Ver Revista Dr. Plinio n. 18, p. 4; n. 59, p. 28-30; n. 152, p. 29; n. 175, p. 5.

22 de julho – Ressurreição, Santa Maria Madalena

Ressurreição, Santa Maria Madalena

Ressurreição representa o triunfo eterno e definitivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o desbarato completo dos seus adversários, e o argumento máximo de nossa Fé. Disse São Paulo que, se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria nossa Fé.

É no fato sobrenatural da Ressurreição que se funda todo o edifício de nossas crenças.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do Legionário, n. 559, de 25/4/1943)

22 de julho – Santa Maria Madalena

Santa Maria Madalena

De súbito, entra na sala do banquete uma mulher chorando os seus pecados, e sobre os pés divinos de Jesus derrama o bálsamo aromático que trazia numa preciosa ânfora.

Era Maria Madalena que, arrependida e humilhada, torna sua alma contrita ainda mais bela do que fora quando pura, e se converte numa santa. Porque muito amou, muito  foi perdoada, tendo a imensidade do perdão granjeado a ela perfeições que poucos alcançaram. E nos emociona considerarmos que, no alto do Calvário, junto à Cruz, ao lado de Maria Santíssima e de São João, maravilhas da inocência, estava também Madalena, maravilha da penitência…

Plinio Corrêa de Oliveira

22 de julho – Contemplação: fruto da penitência e do desapego!

Santa Maria Madalena: fruto da penitência e do desapego!

Estando profundamente arrependida, Santa Maria Madalena perdeu o apego às coisas da Terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado, e voou à contemplação.

Meditando na vida da Santa Penitente, Dr. Plinio põe-se a seguinte interrogação: existirá alguma correlação entre espírito de contemplação, espírito de arrependimento, e desprendimento das coisas desta Terra?

 

Santa Maria Madalena mereceu ser a primeira pessoa a contemplar o Salvador ressuscitado.

No famoso episódio do banquete, em que Maria Madalena — tudo leva a crer que dela se tratava — ungiu os pés de Nosso Senhor, há aspectos colaterais os quais nos fornecem algumas perspectivas da alma e da vida dela, bem como de sua posição no firmamento da Igreja, que seria o caso de comentarmos.

Contemplação e penitência

Ela era irmã de Lázaro, o qual segundo a tradição, pertencia à alta sociedade porque era um homem muito rico. Portanto, Lázaro e suas duas irmãs eram pessoas de alta categoria, mas Maria Madalena havia decaído muito e se tornara uma pecadora pública.

Depois do seu arrependimento, Santa Maria Madalena passou a representar duas coisas que se tornaram claras: de um lado a contemplação, e de outro a penitência.

Ela se diferenciou de Marta, no célebre episódio em que Nosso Senhor disse a esta última — que censurava Madalena porque não estava se ocupando das coisas da casa, mas se limitava a olhar para Ele e ouvi-Lo —: “Marta, Marta, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada!”(1)

A partir de então, Santa Maria Madalena representou o estado puramente contemplativo, destacado da vida ativa. E, pelo seu grande arrependimento, pela sua fidelidade ao pé da Cruz, e pelo fato de ter sido a primeira que teve notícia da ressurreição do Redentor, ela passou a simbolizar não apenas a contemplação, mas a penitência, a penitência na sua glória, no estado do maior perdão e da maior intimidade com Nosso Senhor.

Com o exemplo da vida dela, e de outros santos, alguns teólogos pretenderam que o estado de penitência séria, profunda, é mais bonito que o estado de inocência.

Judas, o oposto de Santa Maria Madalena

Em terceiro lugar, ela representou também a afirmação dos direitos da inocência e dos direitos de Nosso Senhor.

Em que sentido?

Todos se lembram deste fato: estando o Divino Salvador em Betânia, foi oferecida uma ceia em sua honra. Madalena entrou e, quebrando um vidro de perfume, começou a ungir os pés de Nosso Senhor. Judas censurou-a a esse respeito, mas o Redentor justificou a atitude dela(2).

Vemos aí a penitência, juntamente com a contemplação, numa espécie de irredutível oposição ao espírito sem nenhum arrependimento de Judas. Este, em vez de arrepender-se, caiu no desespero, como mostra o ato pelo qual ele se enforcou na figueira.

Enquanto ela, como contemplativa e penitente, representava a renúncia aos bens da Terra, Judas, como ladrão, traidor — e traidor por dinheiro —, simbolizava o apego aos bens deste mundo.

Dois itinerários que se cruzaram

O que pode ter levado esse miserável a ter tanto apego ao dinheiro? Um apego que naturalmente chegou ao ódio ao Redentor, porque ninguém faz uma traição como aquela, apenas por lucro, sem ódio; no fundo, um ódio que domina o próprio espírito de lucro. A roubar as esmolas coletadas para os pobres? Ele que era o defensor dos direitos dos pobres, na hora em que se verteu o perfume nos pés de Divino Mestre… Ao desejo de se tornar rico, para ter uma carreira colateral à de apóstolo, e ser um homem considerado importante naquela sociedade de Jerusalém, julgando que ele perdia algo de sua carreira humana seguindo a Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem os fariseus desdenhavam como um homem sem importância?

Judas fez tais coisas porque, quando ele estava junto a Nosso Senhor e ouvia as prédicas e assistia aos milagres do Divino Mestre, o seu espírito saía de lá e começava a pensar em Jerusalém, nas suas praças ou no Templo, onde ficavam os tão “finos, simpáticos e inteligentes” fariseus.

Porque não se reteve nas contemplações do Redentor e começou a aspirar às coisas do mundo, ele caiu em pecado. E esse pecado, chegando até o extremo, o conduziu ao desespero: Judas então se enforcou na figueira maldita.

Podemos admitir a possibilidade de que, em determinado momento, Judas esteve em estado de graça e Maria Madalena em pecado mortal. Ela saiu do pecado, para subir a um alto grau de virtude, e ele desceu da condição de apóstolo, para a qual tinha sido convidado por Nosso Senhor — houve, portanto, uma hora em que o Redentor não só o amou, mas o amou até o fim, e Judas amou a Nosso Senhor —, ele desceu desta condição, para ser o vendilhão do Salvador.

Vemos assim quanto pode subir uma alma que está no lodo, e quanto pode cair uma alma chamada para o que há de melhor. Foram dois itinerários que se cruzaram; é uma coisa que nos arrepia, enche de terror.

Santa Maria Madalena e Judas; espírito de Jacó e de Esaú

A oposição das figuras de Santa Maria Madalena e de Judas torna-se tão flagrante que vai até ao Calvário e à Ressurreição.

Ela estava ao pé da Cruz, e ele, o apóstolo maldito, o homem execrando, foi quem encaminhou Nosso Senhor para a Cruz. Santa Maria Madalena é a primeira a presenciar a Ressurreição, enquanto ele se enforca e sua alma cai porcamente no Inferno.

As antíteses entre um e outro estado de alma são tremendas; os espíritos são diferentes. Compete-nos fazer uma análise dos traços desses espíritos.

Que nexo há entre arrependimento, pura contemplação e desapego dos bens do mundo, de um lado; e de outro lado, impenitência final, desespero, apego aos bens do mundo, enchafurdamento na vida prática, ativa, como fazia Judas, homem que naturalmente roubava e fazia negócios desonestos? Que paralelismo existe entre uma coisa e outra?

Há algum tempo tratei neste auditório a respeito de Esaú e de Jacó, e falei sobre o espírito de ambos.

Santa Maria Madalena nos afigura como quem teve o espírito de Jacó. Quer dizer, espírito superior, voltado para as coisas elevadas, portanto para Deus, e indiferente às coisas materiais do mundo.

Judas é o tipo do Esaú. Mais do que vender o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, ele vende seu Salvador por trinta dinheiros, o que é muitíssimo pior. E não teve verdadeiro arrependimento, porque nele não havia mais nenhuma forma de virtude sobrenatural. Fracassou totalmente, caiu no desespero e suicidou-se.

Contemplação nascida da penitência e do desapego

Então, que nexo existe entre estas três coisas: o espírito de contemplação, o espírito de arrependimento, e o desprendimento das coisas desta Terra?

É fácil compreender, pois uma pessoa, de qualquer um desses pontos parte para o outro. Estando profundamente arrependida, com arrependimento eficaz, ela perde o apego às coisas da Terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado; e, tendo esse desapego, facilmente vai para a contemplação. A pura contemplação e a renúncia das coisas devido às quais ela pecou, levada ao último extremo, são o próprio da penitência. Quem pratica a verdadeira penitência não se limita a separar-se daquilo que o conduziu ao pecado; ele o execra. E por isso coloca, entre aquilo por onde pecou e si mesmo, a maior das distâncias.

Para praticar essa penitência tão grande, convinha a Santa Maria Madalena separar-se completamente do mundo. E não ficar apenas no estado de uma vida contemplativa e ativa, mas levar vida puramente contemplativa, em que tudo foi abandonado, e qualquer forma indireta de contato com a matéria execrada devido ao pecado foi também cortada; assim, não lhe restava outra coisa senão a contemplação. Contemplação que, nascida da penitência e do desapego, faz compreender a excelência das coisas do Céu, e que todas as coisas da Terra foram feitas para as do Céu. Portanto, era justo e bom derramar unguento nos pés sacrossantos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo quando houvesse pobre que precisasse de esmola.

A pecadora arrependida amava Nossa Senhora, e o traidor A detestava

Todos os que têm tratado deste particular dizem o seguinte: Judas com certeza não tinha devoção a Nossa Senhora. Se tivesse para com a Santíssima Virgem um mínimo de instinto filial, de simpatia, de amor, quando ele caiu inteiramente em si iria procurar por Ela; e ter-Lhe-ia pedido que arranjasse a situação dele. Mas Judas tinha antipatia por Nossa Senhora, e A detestava. O Evangelho diz, de modo taxativo, que o demônio tinha entrado nele. E o demônio afastava-o o quanto possível da Virgem Maria.

Qual o resultado? Ele não se dirigiu Àquela que é o canal das graças, e isto ocasionou a sua perdição.

São Pedro, depois de ter renegado Nosso Senhor, talvez tenha tido tentação de desespero. Mas é certo moralmente que ele procurou Nossa Senhora. Por isso, ele, que também tinha pecado muito, foi fiel, sendo o primeiro Papa da Santa Igreja Católica.

Santa Maria Madalena sempre aparece fazendo parte do cortejo da Santíssima Virgem, intimamente unida a Ela em todos os momentos, sobretudo na hora régia da vida de Nossa Senhora, quando Nosso Senhor Jesus Cristo, com dores indizíveis, disse “Consummatum est”.

Podemos imaginar Santa Maria Madalena junto a Nossa Senhora, na hora da piedade, quando  Mãe de Deus tinha Nosso Senhor Jesus Cristo sobre seu colo.

Naquele momento tremendo, Nossa Senhora ficou inteiramente abandonada: Nosso Senhor no sepulcro, o Colégio Apostólico vacilante, a cidade de Jerusalém entregue a terremotos, e os justos da Antiga Lei andando de um lado para o outro. A Santíssima Virgem, nessa situação tão pouco conhecida, estava completamente só.

Tenho a impressão de que não Lhe faltou a assistência de Santa Maria Madalena, a qual estava junto d’Ela. E porque permaneceu junto à Mãe de Deus, ela recebeu um rosário de glórias, cada uma mais extraordinária do que outra.

Quando vemos tudo isto, é impossível não estremecermos com a nossa própria fraqueza. Mas é impossível também que não nos sintamos concertados com este ponto: por mais fraco que o homem seja, desde que ele se apegue muito a Nossa Senhora, peça-Lhe muito por sua própria perseverança e para que Ela o ampare, nunca o abandone, ele encontra aí um ponto de firmeza, de solidez.

A última das pecadoras aproximou-se de Nossa Senhora e se tornou uma penitente gloriosíssima. Um apóstolo, que era distante de Nossa Senhora e frio para com Ela, tornou-se o filho da maldição e da perdição, que Dante coloca no Inferno dentro da boca de Satanás, com as pernas para fora, o eternamente triturado. Enquanto que podemos imaginar, no Céu, Santa Maria Madalena posta bem perto do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, agradecendo os favores imerecidos de que ela foi repleta. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/7/1965)

1) Lc 10,42.
2) Cf. Jo 12,1-8.

22 de julho – Santa Maria Madalena: fruto da penitência e do desapego!

Santa Maria Madalena: fruto da penitência e do desapego!

Estando profundamente arrependida, Santa Maria Madalena perdeu o apego às coisas da Terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado, e voou à contemplação.

Meditando na vida da Santa Penitente, Dr. Plinio põe-se a seguinte interrogação: existirá alguma correlação entre espírito de contemplação, espírito de arrependimento, e desprendimento das coisas desta Terra?

 

Santa Maria Madalena mereceu ser a primeira pessoa a contemplar o Salvador ressuscitado.

No famoso episódio do banquete, em que Maria Madalena — tudo leva a crer que dela se tratava — ungiu os pés de Nosso Senhor, há aspectos colaterais os quais nos fornecem algumas perspectivas da alma e da vida dela, bem como de sua posição no firmamento da Igreja, que seria o caso de comentarmos.

Contemplação e penitência

Ela era irmã de Lázaro, o qual segundo a tradição, pertencia à alta sociedade porque era um homem muito rico. Portanto, Lázaro e suas duas irmãs eram pessoas de alta categoria, mas Maria Madalena havia decaído muito e se tornara uma pecadora pública.

Depois do seu arrependimento, Santa Maria Madalena passou a representar duas coisas que se tornaram claras: de um lado a contemplação, e de outro a penitência.

Ela se diferenciou de Marta, no célebre episódio em que Nosso Senhor disse a esta última — que censurava Madalena porque não estava se ocupando das coisas da casa, mas se limitava a olhar para Ele e ouvi-Lo —: “Marta, Marta, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada!”(1)

A partir de então, Santa Maria Madalena representou o estado puramente contemplativo, destacado da vida ativa. E, pelo seu grande arrependimento, pela sua fidelidade ao pé da Cruz, e pelo fato de ter sido a primeira que teve notícia da ressurreição do Redentor, ela passou a simbolizar não apenas a contemplação, mas a penitência, a penitência na sua glória, no estado do maior perdão e da maior intimidade com Nosso Senhor.

Com o exemplo da vida dela, e de outros santos, alguns teólogos pretenderam que o estado de penitência séria, profunda, é mais bonito que o estado de inocência.

Judas, o oposto de Santa Maria Madalena

Em terceiro lugar, ela representou também a afirmação dos direitos da inocência e dos direitos de Nosso Senhor.

Em que sentido?

Todos se lembram deste fato: estando o Divino Salvador em Betânia, foi oferecida uma ceia em sua honra. Madalena entrou e, quebrando um vidro de perfume, começou a ungir os pés de Nosso Senhor. Judas censurou-a a esse respeito, mas o Redentor justificou a atitude dela(2).

Vemos aí a penitência, juntamente com a contemplação, numa espécie de irredutível oposição ao espírito sem nenhum arrependimento de Judas. Este, em vez de arrepender-se, caiu no desespero, como mostra o ato pelo qual ele se enforcou na figueira.

Enquanto ela, como contemplativa e penitente, representava a renúncia aos bens da Terra, Judas, como ladrão, traidor — e traidor por dinheiro —, simbolizava o apego aos bens deste mundo.

Dois itinerários que se cruzaram

O que pode ter levado esse miserável a ter tanto apego ao dinheiro? Um apego que naturalmente chegou ao ódio ao Redentor, porque ninguém faz uma traição como aquela, apenas por lucro, sem ódio; no fundo, um ódio que domina o próprio espírito de lucro. A roubar as esmolas coletadas para os pobres? Ele que era o defensor dos direitos dos pobres, na hora em que se verteu o perfume nos pés de Divino Mestre… Ao desejo de se tornar rico, para ter uma carreira colateral à de apóstolo, e ser um homem considerado importante naquela sociedade de Jerusalém, julgando que ele perdia algo de sua carreira humana seguindo a Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem os fariseus desdenhavam como um homem sem importância?

Judas fez tais coisas porque, quando ele estava junto a Nosso Senhor e ouvia as prédicas e assistia aos milagres do Divino Mestre, o seu espírito saía de lá e começava a pensar em Jerusalém, nas suas praças ou no Templo, onde ficavam os tão “finos, simpáticos e inteligentes” fariseus.

Porque não se reteve nas contemplações do Redentor e começou a aspirar às coisas do mundo, ele caiu em pecado. E esse pecado, chegando até o extremo, o conduziu ao desespero: Judas então se enforcou na figueira maldita.

Podemos admitir a possibilidade de que, em determinado momento, Judas esteve em estado de graça e Maria Madalena em pecado mortal. Ela saiu do pecado, para subir a um alto grau de virtude, e ele desceu da condição de apóstolo, para a qual tinha sido convidado por Nosso Senhor — houve, portanto, uma hora em que o Redentor não só o amou, mas o amou até o fim, e Judas amou a Nosso Senhor —, ele desceu desta condição, para ser o vendilhão do Salvador.

Vemos assim quanto pode subir uma alma que está no lodo, e quanto pode cair uma alma chamada para o que há de melhor. Foram dois itinerários que se cruzaram; é uma coisa que nos arrepia, enche de terror.

Santa Maria Madalena e Judas; espírito de Jacó e de Esaú

A oposição das figuras de Santa Maria Madalena e de Judas torna-se tão flagrante que vai até ao Calvário e à Ressurreição.

Ela estava ao pé da Cruz, e ele, o apóstolo maldito, o homem execrando, foi quem encaminhou Nosso Senhor para a Cruz. Santa Maria Madalena é a primeira a presenciar a Ressurreição, enquanto ele se enforca e sua alma cai porcamente no Inferno.

As antíteses entre um e outro estado de alma são tremendas; os espíritos são diferentes. Compete-nos fazer uma análise dos traços desses espíritos.

Que nexo há entre arrependimento, pura contemplação e desapego dos bens do mundo, de um lado; e de outro lado, impenitência final, desespero, apego aos bens do mundo, enchafurdamento na vida prática, ativa, como fazia Judas, homem que naturalmente roubava e fazia negócios desonestos? Que paralelismo existe entre uma coisa e outra?

Há algum tempo tratei neste auditório a respeito de Esaú e de Jacó, e falei sobre o espírito de ambos.

Santa Maria Madalena nos afigura como quem teve o espírito de Jacó. Quer dizer, espírito superior, voltado para as coisas elevadas, portanto para Deus, e indiferente às coisas materiais do mundo.

Judas é o tipo do Esaú. Mais do que vender o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, ele vende seu Salvador por trinta dinheiros, o que é muitíssimo pior. E não teve verdadeiro arrependimento, porque nele não havia mais nenhuma forma de virtude sobrenatural. Fracassou totalmente, caiu no desespero e suicidou-se.

Contemplação nascida da penitência e do desapego

Então, que nexo existe entre estas três coisas: o espírito de contemplação, o espírito de arrependimento, e o desprendimento das coisas desta Terra?

É fácil compreender, pois uma pessoa, de qualquer um desses pontos parte para o outro. Estando profundamente arrependida, com arrependimento eficaz, ela perde o apego às coisas da Terra que lhe foram ocasião e motivo de pecado; e, tendo esse desapego, facilmente vai para a contemplação. A pura contemplação e a renúncia das coisas devido às quais ela pecou, levada ao último extremo, são o próprio da penitência. Quem pratica a verdadeira penitência não se limita a separar-se daquilo que o conduziu ao pecado; ele o execra. E por isso coloca, entre aquilo por onde pecou e si mesmo, a maior das distâncias.

Para praticar essa penitência tão grande, convinha a Santa Maria Madalena separar-se completamente do mundo. E não ficar apenas no estado de uma vida contemplativa e ativa, mas levar vida puramente contemplativa, em que tudo foi abandonado, e qualquer forma indireta de contato com a matéria execrada devido ao pecado foi também cortada; assim, não lhe restava outra coisa senão a contemplação. Contemplação que, nascida da penitência e do desapego, faz compreender a excelência das coisas do Céu, e que todas as coisas da Terra foram feitas para as do Céu. Portanto, era justo e bom derramar unguento nos pés sacrossantos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo quando houvesse pobre que precisasse de esmola.

A pecadora arrependida amava Nossa Senhora, e o traidor A detestava

Todos os que têm tratado deste particular dizem o seguinte: Judas com certeza não tinha devoção a Nossa Senhora. Se tivesse para com a Santíssima Virgem um mínimo de instinto filial, de simpatia, de amor, quando ele caiu inteiramente em si iria procurar por Ela; e ter-Lhe-ia pedido que arranjasse a situação dele. Mas Judas tinha antipatia por Nossa Senhora, e A detestava. O Evangelho diz, de modo taxativo, que o demônio tinha entrado nele. E o demônio afastava-o o quanto possível da Virgem Maria.

Qual o resultado? Ele não se dirigiu Àquela que é o canal das graças, e isto ocasionou a sua perdição.

São Pedro, depois de ter renegado Nosso Senhor, talvez tenha tido tentação de desespero. Mas é certo moralmente que ele procurou Nossa Senhora. Por isso, ele, que também tinha pecado muito, foi fiel, sendo o primeiro Papa da Santa Igreja Católica.

Santa Maria Madalena sempre aparece fazendo parte do cortejo da Santíssima Virgem, intimamente unida a Ela em todos os momentos, sobretudo na hora régia da vida de Nossa Senhora, quando Nosso Senhor Jesus Cristo, com dores indizíveis, disse “Consummatum est”.

Podemos imaginar Santa Maria Madalena junto a Nossa Senhora, na hora da piedade, quando  Mãe de Deus tinha Nosso Senhor Jesus Cristo sobre seu colo.

Naquele momento tremendo, Nossa Senhora ficou inteiramente abandonada: Nosso Senhor no sepulcro, o Colégio Apostólico vacilante, a cidade de Jerusalém entregue a terremotos, e os justos da Antiga Lei andando de um lado para o outro. A Santíssima Virgem, nessa situação tão pouco conhecida, estava completamente só.

Tenho a impressão de que não Lhe faltou a assistência de Santa Maria Madalena, a qual estava junto d’Ela. E porque permaneceu junto à Mãe de Deus, ela recebeu um rosário de glórias, cada uma mais extraordinária do que outra.

Quando vemos tudo isto, é impossível não estremecermos com a nossa própria fraqueza. Mas é impossível também que não nos sintamos concertados com este ponto: por mais fraco que o homem seja, desde que ele se apegue muito a Nossa Senhora, peça-Lhe muito por sua própria perseverança e para que Ela o ampare, nunca o abandone, ele encontra aí um ponto de firmeza, de solidez.

A última das pecadoras aproximou-se de Nossa Senhora e se tornou uma penitente gloriosíssima. Um apóstolo, que era distante de Nossa Senhora e frio para com Ela, tornou-se o filho da maldição e da perdição, que Dante coloca no Inferno dentro da boca de Satanás, com as pernas para fora, o eternamente triturado. Enquanto que podemos imaginar, no Céu, Santa Maria Madalena posta bem perto do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, agradecendo os favores imerecidos de que ela foi repleta. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/7/1965)

1) Lc 10,42.
2) Cf. Jo 12,1-8.

21 de julho – São Daniel

São Daniel

Às vésperas de sua morte, o Profeta Daniel teve a visão de um anjo que lhe disse: “Quanto a ti, vai até o fim. Tu repousarás e te levantarás para receber tua parte de herança, no fim dos tempos” (Dan 12, 13).

É a majestade varonil do Antigo Testamento que aí se contempla; é a magnitude do Profeta exaltada pela aparição de um anjo que vem anunciar sua passagem para a eternidade: “Tu profetizaste, foste grande aos olhos de Deus e dos homens, mas tu também és perecível em teu corpo. Este desaparecerá, enquanto tua alma viverá à espera da recompensa. Dormirás, e serás feliz quando te reergueres para a ressurreição da carne!”

Há nisto uma elevação, uma excelência profética que paira imensamente acima de todas as coisas e nos descansa de tantas trivialidades deste mundo.

Plinio Corrêa de Oliveira