02 de Janeiro – São Gregório Nazianzeno

São Gregório Nazianzeno

Bispo, Doutor, monge e poeta, São ­Gregório Nazianzeno foi um ­varão de grande clareza de princípios, de uma sólida firmeza no proceder e que triunfou ­magnificamente na ­batalha mais importante e difícil que o ­homem tem na vida:

a batalha contra si mesmo. Por isso, foi um pastor de almas amado por sua bondade e respeitado ­pela austeridade de seus ­sábios conselhos.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 10/5/1971)

01 de Janeiro – Mãe do gênero humano

Maternidade Divina, essência da devoção marial

A Redenção operada por Jesus Cristo nos veio através de Maria Virgem, e sua participação nessa obra de ressurreição sobrenatural do gênero humano foi tão essencial e profunda, que se pode afirmar ter Ela cooperado para nos fazer nascer para a vida da graça. Nossa Senhora é autenticamente nossa Mãe.

 

Dada a espessa ignorância religiosa que reina em nossos dias, não falta quem suponha que a Igreja dá a Nossa Senhora o título de Mãe do gênero humano simplesmente para descrever de certo modo os sentimentos afetuosos e protetores que Ela experimenta em relação aos homens. Como estes sentimentos são próprios às mães, por analogia Nossa Senhora seria também a nossa Mãe. E nós seríamos em relação a Ela pobres mendigos que, na sua generosidade, Ela protege como se fossem filhos.

Gravidade do pecado original

 

A realidade, entretanto, é muito outra. Não somos filhos de Nossa Senhora simplesmente por uma adoção afetiva. Ela não é nossa Mãe apenas no terreno fictício ou na ordem sentimental, mas com toda a objetividade na ordem verídica da vida sobrenatural.
Antes do pecado original, nossos primeiros pais, vivendo no Paraíso, foram criados por Deus para a glória celeste, que eles poderiam atingir transpondo os umbrais desta vida em um trânsito que não teria a tristeza tétrica da morte, mas o esplendor de uma glorificação.
O pecado original, entretanto, rompendo a amizade em que o gênero humano vivia com Deus, fechou aos homens a porta do Céu e obstruiu o livre curso da graça de Deus para os homens. Em outros termos, com a punição do pecado original, os homens perderam qualquer direito ao Céu e à vida sobrenatural da graça.
Se bem que não fosse extinto, isto é, perdesse a vida terrena, o gênero humano perdeu, pois, o direito à vida sobrenatural. E ele só poderia readquirir tal vida se apresentasse à justiça divina uma expiação proporcionada à enormidade de seu pecado.
Não vem a propósito, aqui, discutir a natureza deste pecado. É certo que todos os teólogos, sem exceção, afirmam nada ter o pecado de Adão de comum com o pecado da impureza, ao contrário de uma versão muito generalizada no povo. Mas a narrativa bíblica mostra claramente os requintes de rebeldia que agravaram sobremaneira o delito de nosso primeiro pai.
Aliás, um dos elementos para se aquilatar a gravidade de uma ofensa consiste em medir a dignidade da pessoa ofendida. Uma mesma impertinência quando dita a um irmão é muito menos grave do que quando dita a um pai. Um gracejo comum entre colegas poderia constituir uma grave irreverência se fosse feito a um Chefe de Estado, e assim por diante. Ora, Deus é infinitamente grande. Por aí não é difícil avaliar a gravidade do pecado original. Uma ofensa feita ao Infinito só poderia ser convenientemente resgatada por meio de uma expiação infinitamente grande. E não está no poder de homem, ser contingente por natureza e envilecido pelo pecado, oferecer ao Criador um tão valioso desagravo. Os pontos que nos ligavam a Deus pareciam, pois, definitivamente cortados e irremediável a decadência a que se atirara loucamente o gênero humano com o pecado.

 

Nossa Senhora transmitiu ao Salvador a natureza humana

 

 

Foi para remediar tão insolúvel situação que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnando-se no seio puríssimo de Maria Virgem, assumiu natureza humana sem nada perder de sua divindade, e o Homem-Deus, assim constituído, Se pôde apresentar à justiça do Pai como Cordeiro expiatório do gênero humano. Efetivamente, como Homem, Nosso Senhor Jesus Cristo podia oferecer uma expiação que fosse realmente humana. Mas em virtude da dualidade das naturezas n’Ele existentes, essa expiação, se bem que humana, tinha um valor infinito, pois que consistia na efusão generosa e superabundante do Sangue infinitamente precioso do Homem-Deus.

Assim, no sacrifício do Calvário, Nosso Senhor aplacou a justiça divina e fez renascer para o Céu e a vida sobrenatural da graça a humanidade, que estava absolutamente morta em tudo quanto se referisse ao sobrenatural. Se Deus, uno e trino, é nosso Criador, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnando-Se, se tornou nosso Pai por um título muito especial, que é o da Redenção. Jesus, morrendo, deu-nos a vida sobrenatural. E quem dá a vida é verdadeiramente pai, no sentido mais amplo da palavra.
Se o gênero humano pôde beneficiar-se da Redenção é porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se fez Homem, pois que o pecado dos homens deveria ser resgatado.

Ora, se Jesus Cristo assumiu natureza humana, fê-lo em Maria Virgem, e assim Esta cooperou de modo eminente na obra da Redenção, transmitindo ao Salvador a natureza humana que nos desígnios de Deus era condição essencial da Redenção. De mais a mais, Maria Santíssima ofereceu de modo inteiro, e sumamente generoso, o seu Filho como vítima expiatória, e aceitou de sofrer com Ele, e por causa d’Ele, o oceano de dores que a Paixão fez brotar em seu Coração Imaculado.
Assim, pois, a Redenção nos veio por Maria Virgem, e sua participação nessa obra de ressurreição sobrenatural do gênero humano foi tão essencial e tão profunda, que se pode afirmar que Maria cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Pelo que Ela é, autenticamente, nossa Mãe. Autenticamente, acentuo, pois que não se trata aí de divagações sentimentais ou literárias, mas de realidades objetivas que, se bem que sobrenaturais, não deixam de ser absolutamente verdadeiras por isso mesmo são sobrenaturais.
Convidando os fiéis a adorar o Santíssimo Sacramento, a Igreja exclama na Sagrada Liturgia: Quantum potes, tantum aude, isto é, tem o arrojo de amar tanto quanto te permitir o teu coração.

 

 

Verdade teológica profundamente substanciosa

O mesmo se deve dizer a esta altura. Diante da maravilhosa realidade da maternidade de Maria em relação aos homens, realidade que constitui uma verdade séria, teológica, profundamente substanciosa, o homem deve romper decididamente para que se dilate plenamente os limites acanhados de seu coração, sem susto, e singre sem cuidado pelo oceano de amor que se descortina ante seus olhos. Não são indispensáveis, aí, os artifícios da retórica humana. Uma consideração madura da realidade será suficiente para encher o homem de amor.
De acordo com toda a Doutrina Católica, São Luís Grignion de Montfort aponta para as grandezas de Maria Santíssima. Demonstrando que Ela é Mãe, o que há de mais conveniente e de mais necessário até do que o conhecimento da suprema dignidade e da inexcedível misericórdia que Ela possui?
São Tomás de Aquino diz que Nossa Senhora recebeu de Deus todas as qualidades com que seria possível a Deus cumular uma criatura. De sorte que Ela se encontra no ápice da Criação, firmando seu trono acima dos mais altos coros angélicos e sendo inferior apenas ao próprio Deus, que, sendo só Ele infinito, está infinitamente acima de todos os seres, inclusive de Nossa Senhora.
Costuma-se dizer que Nossa Senhora brilha mais do que o Sol, tem a suavidade da Lua, a beleza da aurora, a pureza dos lírios e a majestade do firmamento inteiro. Muita gente supõe que tudo isso não passa de hipérboles. Entretanto, essas comparações pecam por sua irremediável deficiência. O Sol, a Lua, a aurora e todo o firmamento são seres inanimados e estão, portanto, colocados na última escala da Criação. Não é admissível que Deus os fizesse tão formosos, dando ao homem dons menores. E, por isto mesmo, a mais apagada das almas das pessoas mortas em paz com Deus tem uma formosura que excede incomparavelmente a de todas as criaturas materiais.

Que dizer-se, então, de Nossa Senhora colocada incalculavelmente acima não só dos maiores Santos, mais ainda dos Anjos mais elevados em dignidade junto ao trono de Deus? Um caipira que fosse assistir à solenidade da coroação do Rei da Inglaterra, voltando aos seus pagos natais, possivelmente não encontrasse outros termos para explicar a magnificência daquilo que viu, senão afirmando que foi mais belo do que as festas em casa do Nhô Tonico, o homem menos pobre da zona. Se o Rei da Inglaterra ouvisse isto, que outra coisa poderia fazer senão sorrir? Pois nós, quando procuramos descrever a formosura de Nossa Senhora com os termos escassos da linguagem humana, fazemos o mesmo papel… e Ela também sorri.

Único canal necessário

 

Não espanta, pois, que seja verdade de Fé que Deus se compraz tanto em Nossa Senhora que um pedido feito por meio d’Ela é sempre atendido, ainda que não conte senão com o apoio d’Ela. E que se todos os Santos pedissem alguma coisa sem ser por meio d’Ela nada conseguiriam. Porque, como diz Dante, querer rezar sem Ela é o mesmo que querer voar sem asas…
Assim, pois, todas as graças nos vêm de Nossa Senhora, e é Ela a Medianeira universal de todos os homens junto a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Mas se todas as graças nos vêm d’Ela, e se nossa vida espiritual não é senão uma longa sucessão de graças a que correspondemos, ou renunciamos a ter vida espiritual, ou devemos compreender que esta será tanto mais suave, mais intensa e mais perfeita, quanto mais próximos estivermos junto daquele único canal de graças que é Nossa Senhora. Deus é a fonte da graça, Nossa Senhora o único canal necessário, e os Santos meras ramificações, aliás veneráveis e dignas de grande amor, do grande canal que é Nossa Senhora.
Queremos ter a graça inestimável do senso católico? Queremos ter a virtude inapreciável da pureza? Queremos ter o tesouro sem preço que é o dom da fortaleza, queremos ser ao mesmo tempo mansos e enérgicos, humildes e dignos, piedosos e ativos, meticulosos em nossos deveres e inimigos do escrúpulo, pobres de espírito se bem que jungidos às riquezas do mundo, em uma palavra, fiéis e devotos servidores de Nosso Senhor Jesus Cristo? Dirijamo-nos ao trono que Deus deu a Nossa Senhora, e, no recesso amoroso da Igreja Católica, nossa mãe, peçamos a Nossa Senhora, também nossa Mãe, que nos faça semelhantes a seu Divino Filho.v

(Extraído de O Legionário n. 378 de 10/12/1939)

01 de Janeiro – Maternidade Divina, essência da devoção marial

Maternidade Divina, essência da devoção marial

Por ser o homem composto de espírito e matéria, todo o cosmos se dignifica pelo fato de a união hipostática ter sido feita com a natureza humana.

Estabelece-se, assim, uma hierarquia admirável, toda semeada de contrafortes: acima de tudo Deus, infinito, incomparável a qualquer criatura; em seguida, Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de quem se constituiria naturalmente um abismo se não fosse colocada uma criatura humana, píncaro de tudo quanto pode ser a mera Criação: Maria Santíssima, sua Mãe.

Ela é o espelho mais perfeito que de Deus possa ser uma simples criatura. Nossa Senhora é a Rainha dos Anjos, dos homens, do Céu e da Terra, revestida de todos os outros títulos, qualidades e graças, inclusive a mediação universal, pelo fato de ser Mãe de Deus. A Maternidade de Maria, de algum modo, é a própria raiz e essência da devoção marial.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/8/1965)
Revista Dr Plinio 262 (Janeiro de 2020)

01 de Janeiro – Virgem e Mãe

Virgem e Mãe

Não há título maior que o de Mãe de Deus, nem foi dado a uma criatura ser elevada a uma honra superior à conferida pela maternidade divina.

Contudo, Nosso Senhor Jesus Cristo preza tanto a virgindade que desejou fosse sua Mãe, além de imaculada e adornada de todos os dons do Céu, igualmente virgem. Para isso, operou em favor d’Ela um estupendo milagre que excede à nossa imaginação: Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto. Segundo a bela comparação que fazem os teólogos, assim como Nosso Senhor saiu do sepulcro sem esforço, assim deixou Ele o claustro materno, sem detrimento da inviolada virgindade de Maria Santíssima.

01 de Janeiro – Mãe de Deus e nossa

Mãe de Deus e nossa

 A devoção à Santíssima Virgem foi, durante toda a vida de Dr. Plinio, a estrela que o guiou em meio a inúmeras “procelas”. Acompanhemos alguns comentários que deixam transparecer o que sempre transbordou de seu coração: a confiança em Nossa Senhora.

Devemos tomar em consideração que a “batalha” a ser enfrentada por cada homem no decorrer de sua vida, é verdadeiramente uma dura batalha. Mas essa batalha pode ser ganha por uma razão fundamental: é que ninguém luta a sós.

O que significa não lutar a sós?

A necessidade de uma ajuda sobrenatural

Temos em nosso auxílio uma proteção sobrenatural, sobre-humana, que é a proteção de Nossa Senhora.

A Ela foi dado conhecer a alma de cada homem de uma forma que ninguém jamais conheceu. A Santíssima Virgem vê até o mais íntimo da alma de cada um de nós, com tal amor, bondade e desejo de ajudar, que isso A levou a consentir nos padecimentos pelos quais seu Divino Filho passou.

Como Nosso Senhor era filho de Nossa Senhora e do Divino Espírito Santo, o Padre Eterno pediu o consentimento d’Ela para a consumação da Paixão de seu Divino Filho. O Padre Eterno não quis fazer algo sem atender ao consentimento d’Ela.

A pergunta feita por Ele a Nossa Senhora possivelmente foi a seguinte:

“Esse Filho, a quem quereis tanto e que é o Filho do próprio Espírito Santo, vai ser morto para a salvação de todo o gênero humano. Vós quereis entregá-Lo para a salvação da humanidade? Se quiserdes, Ele sofrerá como nunca ninguém antes, nem depois d’Ele, terá jamais sofrido. Uma enormidade de tormentos e de aflições se abaterá sobre Ele. Mas se Vós quiserdes, Ele não passará por essas dores, mas os homens não se salvarão e irão para o Inferno. Quereis?”

E Ela respondeu: “Quero!”

Respondeu tendo em vista cada homem, seus pecados e ingratidões.

Para que fôssemos limpos de nossos pecados e resgatados da culpa original, o Filho d’Ela padeceu enormes  tormentos, também para que tivéssemos a força necessária para nossa “batalha” no decorrer da vida.

Sempre que pedirmos a proteção d’Ela, obteremos

Nunca nos faltarão as forças, pois sempre que peçamos a proteção d’Ela, obteremos.

É preciso pedir, pois é insuficiente cobrar a Deus: “Vós prometestes que a tentação nunca seria maior do que as forças para combatê-la, porém agora eu não tenho forças”. A resposta de Deus será: “Esforce-se apenas um pouco que o resto virá”.

Além de esforçar-se é preciso pedir forças a Nossa Senhora.

Portanto, é preciso ter em relação a Ela uma devoção comparável à de São Luís Grignion de Montfort, compreendendo que Ela é medianeira de todas as graças, e todos os pedidos feitos ao Padre Eterno Lhe são agradáveis quando feitos por meio da Santíssima Virgem.

Quando Deus atende a um pedido feito por qualquer homem, Ele o faz através de Nossa Senhora, porque o pedido foi endossado e feito por Ela. Esta é a causa pela qual somos atendidos.

Há uma oração lindíssima — a qual recomendo rezarem — que recorda o desvelo e a mediação de Nossa Senhora para com todos os homens: é o Memorare (Lembrai-vos).

A lindíssima oração do Memorare

“Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria…”

Cada palavra tem sua aplicação. O que quer dizer, “piíssima”? Piedosa, tem como superlativo piedosíssima. Mas resume-se dizendo “piíssima”. “Piedosa”, neste caso, não quer dizer rezar muito, mas sim, ter largamente piedade e compaixão dos outros. Poder-se-ia dizer: “Lembrai-Vos, ó compassivíssima Virgem Maria”, que tem muita compaixão, que perdoa muito.

“…que nunca se ouviu dizer…”

A oração começa por essa afirmação, “nunca se ouviu dizer”, ou seja, em nenhum tempo ou lugar, em toda a Terra, alguém, tendo pedido alguma coisa a Ela, foi desamparado.

“…que tendo alguém recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado…”

Ou seja, “quem, pedindo vossa proteção, implorando que Vós o acompanheis, que olheis para ele, que o sigais, Vós sempre atendeis. Lembrai-Vos disso no meu caso, para que não seja eu a primeira exceção na história de vossa glória.” É uma linda proclamação. Em nenhuma época do mundo a Virgem Maria deixou de atender àqueles que pedem a Ela, em nenhum caso, em nenhuma circunstância.

Se alguém tem a infelicidade de pecar, ou de possuir um vício, ou uma atitude moral — ou imoral — que se repete, não há problema: basta rezar e pedir, porque Nossa Senhora acabará tendo pena.

“Animado eu, pois, com tal confiança, a Vós, ó Virgem entre todas singular…”

Quer dizer: “Vós sois mais Virgem do que todas as virgens, sois a Santa Virgem das virgens”. Pois Ela está para as virgens como as virgens estão para as que não são virgens. Nenhuma virgem do mundo teve a virgindade d’Aquela que foi virgem, antes, durante e depois do parto.

Como pôde Nosso Senhor ter nascido sem violar a virgindade de sua Mãe?

É um mistério que a Onipotência de Deus pode fazer facilmente.

“…como a Mãe recorro e de Vós me valho…”

É como dizer: “Eu me dirijo a Vós como a minha mãe”.

Há algo emocionante, que não raras vezes se dá: os feridos no campo de batalha durante uma guerra padecem, muitas vezes, durante horas e horas, com dores, sangrando, sentindo fome, sede e cansaço. Ficam abandonados. Naturalmente, nesse apuro eles gritam. A maior parte dos gritos é pela mãe! São homens às vezes que perderam a mãe quando eram pequeninos, porém, na hora da morte, é pela mãe que eles bradam.

Ninguém é capaz de amar tanto a alguém, quanto uma boa mãe ama o seu filho.

Mesmo sendo o último dos homens, não há problema, pois Nossa Senhora é a mais alta e a mais excelsa de todas as mães. A compaixão d’Ela vale mais do que os castigos merecidos por nossos pecados. Se nossos pecados são um abismo, a compaixão de Nossa Senhora é uma montanha muito maior do que esse abismo.

“…e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés…”

O Memorare é, por definição, a oração de um pecador. Por isso a oração termina dizendo: “…gemendo sob o peso de meus pecados me prostro aos vossos pés”. É um pecador que está gemendo sob o peso de seus pecados, mas posto aos pés da Virgem Santíssima. Portanto, se temos a desgraça de estar em pecado, não deixemos de rezar essa oração com confiança, porque é a oração do pecador: “E gemendo sob o peso dos meus pecados me prostro aos vossos pés”.

“Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo de Deus humanado…”

O coração da mãe está sempre aberto para perdoar e afagar o filho.

“Minha Mãe — Vós sois a Mãe de Jesus Cristo, o Verbo que se fez homem, mas a minha também —, não desprezeis as minhas súplicas. Elas bem podem ser desprezadas, pois são súplicas, por si mesmas, inválidas. Porém, não as desprezeis, porque sou vosso filho e um filho pode pedir isso a sua mãe.”

“…mas dignai-Vos de as ouvir propícia…”

Tem-se a impressão de que Nossa Senhora vai se inclinar bondosamente e ouvir a oração.

“…e alcançar o que Vos rogo. Assim seja.”

O que se está pedindo? Pode ser a emenda de um defeito, de um vício, a aquisição de uma virtude. Tomando em consideração tudo quanto a Igreja ensina sobre Nossa Senhora, temos todos os motivos para crer que Ela vai obter o que rogamos. Devemos pedir tudo à Santíssima Virgem com muito empenho e ardor, mas, sobretudo algo que sobremaneira A agrada: a graça de sermos bons.

O que Ela quer de nós é que estejamos na graça de Deus e cheguemos ao Céu.  Pedir forças para nossa salvação é pedir aquilo que as santas mãos de Maria estão transbordando para nos conceder.

Nossa Senhora é a Onipotência Suplicante

Pelo que foi dito sobre Nossa Senhora, conclui-se que a devoção a Ela é de suma importância. Se Deus é tão perfeito, tão supremo, e nós, homens, tão insignificantes, caso não houvesse uma ligação entre Deus e os homens — que é Nossa Senhora — Ele não nos ouviria. A Justiça, a Pureza, a Santidade d’Ele, postas em contato com as misérias humanas, Lhe causariam horror.

Mas Ele mesmo, com suma bondade, criou vínculos que nos atariam a Ele. Encarnando-se no claustro virginal de Maria Santíssima, Ele se fez homem. Sendo Nossa Senhora Mãe espiritual de todos os homens, pedindo a Ele por nós, Ela assemelha-se a uma mãe que pede a um irmão, em benefício do outro. O irmão não pode resistir. Desta forma, Nossa Senhora é chamada pelos teólogos: “Onipotência suplicante”.

Ela suplica. Porém, sendo sua oração sempre atendida, ao mesmo tempo em que suplica, é onipotente.

É notório que ela atende ao que pedimos. Desta forma, nós, que não mereceríamos ser ouvidos por Deus em nossos pedidos, por causa d’Ela acabamos por merecer.

Mãe de compaixão sem limites

Torna-se muito clara a doutrina acima exposta, tomando em consideração, por exemplo, uma mãe que tenha dois filhos: um filho juiz e um criminoso. Se coubesse ao filho juiz julgar o que é criminoso, a boa mãe certamente se dirigiria ao juiz e diria: “Meu filho, sei que tu és juiz e a ti cabe aplicar a justiça. Os defeitos deste teu irmão são tais que merecem a pena de morte. Entretanto, em justiça — tu, juiz, me deves a vida — poupai a vida deste meu filho que merece a morte, por pedido daquela que te deu a vida”.

A maior das prerrogativas de Nossa Senhora é ser Mãe de Deus. Tudo aquilo que um filho possa dar à sua mãe, Deus deu a Ela.

O valor da súplica de Nossa Senhora é tão grande que os teólogos afirmam: todas as orações de todas as criaturas devem passar por Nossa Senhora, caso contrário, não chegam a Deus. De modo que — dizem eles — se todos os anjos e santos do Céu pedissem algo a Deus sem ser por intermédio d’Ela, não seriam atendidos. Entretanto Nossa Senhora, pedindo sozinha, é atendida.

Essa é a Mãe de uma doçura sem nome e uma compaixão sem limites. Uma mãe que tem tanta pena de seus filhos que, na hora de um filho ruim ser julgado, obtém para ele a salvação.

Aos pés da cruz, intercedendo pelo bom ladrão

É célebre a tocante passagem do Evangelho na qual Nosso Senhor crucificado está entre dois ladrões. Estes últimos conversavam entre si, e o mau ladrão blasfemava contra Nosso Senhor.

O bom ladrão replicou: “Nós merecemos o castigo que estamos sofrendo e por isso vamos morrer. Mas Este é um justo e não merece tal suplício. Por isso, não fales mal d’Ele”.

Pediu a Deus perdão pelos pecados que cometeu.

Jesus disse a ele: “Tu, hoje, comigo estarás no Paraíso”.

Foi a primeira canonização da História! “Hodie mecum eris in Paradiso”.

Nossa Senhora estava aos pés da cruz. Certamente Ela estava rezando pelos ladrões. Nosso Senhor, do alto da cruz, recebeu essa oração e deu graças extraordinárias a ambos. Um deles, por ser ruim as rejeitou; o outro, porém, correspondeu a elas e pediu perdão. A graça da conversão que o bom ladrão recebeu foi tão abundante que Nosso Senhor, ao descer para o limbo a fim de levar para o Céu as almas dos justos que lá se encontravam, levou também a alma dele.

Eu julgo que, se não fosse a oração de Nossa Senhora, nada teria acontecido.

Assim é possível compreender a importância da devoção a Nossa Senhora. Tal devoção é leve, cheia de esperança, de perdão e de afeto materno; constitui a alegria de nossas almas. Sem a devoção a Nossa Senhora, nossa vida de católico seria soturna.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 21/9/1991 e 3/3/1992)

01 de Janeiro – Bendita Mãe de Deus

Bendita Mãe de Deus

“Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus” — dizemos a Nossa Senhora quando recitamos a Ave-maria, depois de A exaltarmos como bendita entre todas as mulheres.

Ela, excelência do gênero feminino, transmitiu essa maravilhosa primazia ao Esperado das Nações, o Messias, o Redentor do mundo.

A Escritura nos apresenta grandes heroínas da fé e da virtude, virgens e mães santas, cujo elogio os autores sagrados se comprazem em cantar. Porém, nenhuma outra mereceu o incomparável louvor que o Anjo trouxe do Céu para manifestá-lo a Maria Santíssima. Ela é o pináculo das mulheres, o píncaro das mães.

Entre todas Bendita, deu-nos o Bendito entre todos.

01 de Janeiro – Mãe de Deus e nossa Mãe

Mãe de Deus e nossa Mãe

Deus, estabelecendo a união hipostática com a natureza humana, dignificou toda a Criação. Ele quis que essa união se operasse no seio virginal de Maria Santíssima, Aquela que supera todas as meras criaturas.

A importância da Maternidade Divina de Nossa Senhora para a piedade católica está em que todas as graças extraordinárias pela Virgem Maria recebidas — que fizeram d’Ela uma criatura única em todo o universo e na economia da salvação — têm como título e ponto de partida o fato de Maria ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O espírito contrarrevolucionário ama o matiz

Podemos ver como na obra de Deus estabeleceu-se uma espécie de hierarquia, e como todas as coisas da Providência são matizadas.

O espírito revolucionário é a favor das simplificações. O espírito contrarrevolucionário, pelo contrário, ama o matiz. E quando vê algo antitético, difícil de entender, ama aquilo porque sabe que naquela aparente antítese há, no fundo, uma verdade muito bonita que se vai acabar por compreender.

Desde pequeno, eu tinha surpresas quando via certas coisas na Igreja que me deixavam confuso. Mas depois aprofundava a observação e percebia que, quanto mais esquisito era o que eu via, tanto mais bonita era a explicação daquilo.

Habituei-me, então, à ideia de que toda objeção que se tente fazer à Igreja é como os pequenos furos que se encontram na areia da praia, dos quais saem umas borbulhas. Cava- se um deles e aparece um caramujo. Assim também na Igreja. Sabendo-se esperar e aprofundar, tudo quanto parece esquisito ou antitético e contraditório, que não se entende bem, em certo momento Nossa  Senhora nos faz compreender aquilo  e encontramos uma “pérola”, uma verdadeira maravilha. Isto é próprio da Igreja: numa coisa eriçada de contradições, encontra-se sempre algo de uma harmonia profunda que esconde uma verdade.

Para um espírito cartesiano, que afirmação pode parecer mais absurda do que “Mãe de Deus”? Uma pessoa que nunca teve aula de Doutrina Católica abismar-se-ia sabendo que a Igreja Católica ensina ser Deus eterno, puro espírito e, ao mesmo tempo, que tem Mãe. Mãe material, carnal, de um ente espiritual; Mãe temporal de um ente eterno.

Vê-se aí uma série de contradições. Tratando-se da Igreja, em tudo quanto se julga absurdo não há absurdo. Existe uma harmonia profunda e superior presa a um princípio extraordinário. A questão é esperar para compreender.

Essência da devoção mariana

Deus infinito, eterno, perfeito, cria os Anjos e, abaixo deles, os homens. Mas a Encarnação, a união hipostática, é estabelecida não com Anjos, mas com a natureza humana. Parece também uma  contradição,  pois a dignidade superior dos Anjos pediria que a união hipostática fosse feita com o mais alto dos coros angélicos.

Ora, Deus, estabelecendo a união hipostática com a natureza humana — portanto num grau menos elevado que o angélico —, opera maravilha maior do que se fizesse essa união com um Anjo, pois dignificaria apenas as criaturas espirituais.

Mas realizando-a com a natureza humana Ele dignifica os Anjos porque o homem, enquanto tendo alma e corpo, participa da dignidade espiritual dos Anjos; e enobrece ainda todo o reino material, pois o homem é também feito de matéria. Assim, todo o cosmos se dignifica muito mais com a aparente incongruência da união hipostática  feita com a natureza humana, do que se ela   fosse realizada com uma natureza angélica. Estabelece-se, desse modo, uma hierarquia admirável: acima de tudo Deus, infinito, incomparável a qualquer criatura; depois, a humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, em  Quem a condição de criatura é aceita em união hipostática com a natureza divina: Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Após Nosso Senhor Jesus Cristo há naturalmente um abismo.

Porém esse abismo é preenchido por Aquela que supera tudo quanto pode existir na mera Criação: Maria Santíssima, Mãe do Verbo encarnado. A Santíssima Virgem é o espelho mais perfeito que de Deus possa  ser uma mera criatura.

É a Rainha dos Anjos e dos homens, Rainha do Céu e da Terra, revestida de todas as outras qualidades e graças, de todos os outros títulos que Ela possui, inclusive o da mediação universal; tudo isso pelo fato de ser Ela Mãe de Deus. A Maternidade de Nossa Senhora, de algum modo, é a própria raiz, a própria essência da devoção mariana.

Espírito simplificador revolucionário

Há uns vinte anos, eu quis fundar  uma Congregação Mariana num bairro de São Paulo, e uma das pessoas por mim convidadas para fazer parte dela disse: “A congregação chamar-se-á Nossa  Senhora, Mãe de  Deus.”

Pareceu-me irrepreensível e perguntei- lhe: “Mas por que você escolheu esse título pouco usual?” Resposta: “Porque, afinal, em Nossa Senhora apenas importa o fato de ser Mãe de Deus. Todos os outros títulos dados a Ela não valem nada”.

Evidentemente havia nessa concepção um desequilíbrio. Seria o mesmo que dizer: na árvore só se deve considerar a raiz e o tronco; a galharia, as flores, os frutos não importam.

Entrava nisso a influência do espírito simplificador protestante, revolucionário que, sob o pretexto de ir às raízes, rejeita a galharia, afirmando que, uma vez aceita a doutrina, procura-se despojá-la de toda essa complexidade e variedade de títulos de invocação, para ficar só o tronco. O espírito católico é o oposto dessa mentalidade. Ele procura venerar imensamente esse título de Nossa
Senhora, respeitando-o como merece  ser respeitado, mas por isso mesmo sendo sequioso de tirar dele todas as suas consequências. Assim, volta-se para as mil invocações já existentes e para as novas que se  criarão até o fim do mundo, a fim de cultuar a Santíssima Virgem debaixo de mil aspectos, sempre decorrentes da Maternidade Divina.

Ainda sobre essa invocação podemos considerar um ponto muito importante. Nossa Senhora como Mãe de Deus é, a título especial, Mãe dos homens e, portanto, nossa Mãe. A mais preciosa graça que podemos receber, em matéria de devoção a Maria Santíssima, é a de Ela condescender em estabelecer, por laços inefáveis, com cada um de nós uma relação verdadeiramente materna. Isso se pode dar de mil maneiras diferentes.

Mas geralmente Nossa Senhora revela-se verdadeiramente nossa Mãe quando nos tira de algum apuro de um modo especial, que nos fica gravado indelevelmente, ou quando Ela nos perdoa alguma falta particularmente imperdoável, por uma dessas bondades que só é dado às mães terem. Jesus Cristo curava a lepra, de maneira a não ficar nada da doença.

Realmente, nada naquela falta merecia ser perdoado, nada ali tinha atenuante, tudo pedia somente a cólera de Deus; porém Ela como Mãe, com seu poder soberano, indulgente como só as mães conseguem ser, com um sorriso apaga tudo, elimina o passado que fica queimado e completamente esquecido.

Mais um sorriso, mais um perdão

Nossa Senhora concede às vezes essas graças de um modo tal que, na vida inteira, fica a alma marcada com fogo. É fogo do Céu, não da Terra e menos ainda do Inferno: a convicção de que podemos recorrer a Ela em circunstâncias mil vezes mais indefensáveis, e sempre Ela nos perdoará de novo, porque abriu para nós uma porta de misericórdia que ninguém fechará.

É propriamente do que a nossa família de almas vive. Um crédito de misericórdia aberto por Nossa Senhora, mas de misericórdia como poucas vezes terá havido. Não merecendo nós coisa alguma, Ela tem ainda para nós mais um sorriso, mais um perdão. “Porque eles eram fracos, Eu lhes abri uma porta que ninguém poderá fechar”, diz o Apocalipse (cf. Ap 3, 8). Muito legitimamente podemos ver aplicadas essas palavras ao Imaculado Coração de Maria e ao Coração Materno de Maria para conosco.

De maneira que, propriamente, quando se fala da graça especial do nosso Movimento, não se deveria entender como graça merecida por nós; isto é conversa fiada com C e F maiúsculos! Mas enquanto dada por Nossa Senhora e imerecida, eu não conheço verdade mais palpável, mais digna do nosso amor e de nossa gratidão. Para dar uma imagem criada, muito reles, que me vem agora ao espírito, nós estamos para Maria Santíssima como o Brasil para com os Estados Unidos: pagamos empréstimo, contraímos novo empréstimo em que andam incorporados os juros do empréstimo anterior; estamos  completamente entalados. Só que Ela nos trata como os Estados Unidos estão muito longe de nos tratar.

Se Nossa Senhora nos der a graça, ao cabo deste dia ou desta semana de ter no íntimo da alma um sentimento de confiança — não porque tenhamos razão de estar contentes conosco, mas porque sabemos como Ela é boa —, tenho a impressão de que o dia e a semana foram inteiramente pagos.

Existe um antigo adágio que diz: “Mais vale cair em graça do que ser engraçado”. Quando um potentado, um rei, por exemplo, acha graça em alguém, é melhor do que de fato alguém ter graça. Se o potentado achou graça,  todas as coisas passam como se fossem engraçadas. Porém, adianta ter graça quando o potentado não acha graça? Isso acontece conosco em relação a Nossa Rainha, Maria Santíssima: não temos graça, mas caímos em graça, o que deve ser para nós motivo de alegria e satisfação.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 11/10/1965)

01 de Janeiro – Mãe de Deus e nossa!

Mãe de Deus e nossa!

Desde toda a eternidade, Maria foi eleita para gerar o Salvador. Em virtude dessa predestinação, foram-Lhe concedidos todos os demais dons e privilégios constitutivos do grande edifício de sua   santidade ímpar e insuperável por qualquer outra criatura humana ou angélica. “Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria”, afirma São Luís Grignion de Montfort. Entretanto, a própria plenitude de graça n’Ela existente, foi-Lhe conferida pelo Senhor em função de sua Divina Maternidade.

Até mesmo nesse pináculo de perfeição marial está presente o pressuposto cristocêntrico da ordem da criação. E estes eram princípios fundamentais da piedade de Dr. Plinio. Nada o comovia  tanto quanto a contemplação das excelsas relações entre Jesus e Maria, quer durante os nove meses de gestação, quer nos trinta anos de convívio na humilde casa de Nazaré. Dr. Plinio era  sensivelmente tocado por graças ao considerar aspectos da vida quotidiana entre Mãe e Filho, como longa preparação para as ações públicas do Salvador.

Nos seus escritos, conversas ou conferências, Dr. Plinio jamais deixava de se referir a Maria, e com facilidade estendia à maternidade espiritual os maravilhosos corolários de ser Ela a Mãe de  Deus: “Nossa Senhora é incomparavelmente melhor do que todas as mães da Terra. Ela nos ama e é muito mais nossa verdadeira Mãe do que aquela que nos trouxe ao mundo. Ora, sabemos até onde nossa mãe seria capaz de ir para nos proporcionar um benefício. Do que, então, será capaz Nossa Senhora?

“Se, pois, cada filho tem para com sua mãe terrena um carinho peculiar, devemos    cada um de nós amar Nossa Senhora de maneira inteiramente própria, especial e inconfundível. Ela, por sua vez, terá para conosco uma ternura particular, que pousará sobre cada um de nós, como se só nós existíssemos na face da Terra.” Imbuído desses sentimentos, uma das orações mais caras a Dr. Plinio era a “Salve Rainha”, na qual se invoca sobretudo a misericordiosa maternalidade de Maria, “vida, doçura e esperança nossa”.

Foi a “Salve Rainha”, aliás, rezada candidamente como “Salvai-me Rainha!”, que o livrou de uma provação infantil e imprimiu em sua alma, de modo indelével, a noção vivíssima de ser filho de Maria Santíssima.

Por isso mesmo, ainda muito jovem adquiriu o costume de dizer essa tocante prece, ao ouvir as badaladas que encerram um ano e abrem outro, na meia noite do 31 de dezembro (Cfr. “Dr. Plinio”  nº 34, seção Datas na vida de um cruzado).

Cumpre ressaltar que essa entranhada devoção a Maria, como Mãe de Deus e nossa, era na alma de Dr. Plinio um eco da mais pura doutrina católica, conforme nos ensina o Papa João Paulo II na Encíclica “Redemptoris Mater”: “A Tradição e o Concílio não hesitam em chamar a Maria ‘Mãe de Cristo e Mãe dos homens’: ela está, efetivamente, associada na descendência de Adão com todos os homens; (…) mais ainda, é verdadeiramente mãe dos membros [de Cristo], (…) porque cooperou com o seu amor para o nascimento dos fiéis na Igreja. Esta ‘nova maternidade de Maria’, portanto, gerada pela fé, é fruto do ‘novo’ amor, que n’Ela amadureceu definitivamente aos pés da Cruz, mediante a sua participação no amor redentor do Filho”. Nossa Revista — que alcança hoje sua 70ª edição — honra-se em ser, graças a Deus, testemunha de que Dr. Plinio não cessou de pregar o amor filial a Maria Santíssima como o melhor caminho para se chegar até as profundezas do Coração de Jesus.

Plinio Corrêa de Oliveira