25 de Janeiro – São Paulo, o Apóstolo das Gentes

São Paulo, o Apóstolo das Gentes

São Paulo é o modelo da argúcia, intrepidez, capacidade de realização, postas ao serviço do apostolado. Depois do Príncipe dos Apóstolos, ninguém o excedeu, em nenhum sentido, entre os que evangelizaram o mundo.

As virtudes desse grande Santo tem uma atualidade perene na Igreja, que o honra de todos os modos. Um esplendido monumento em seu louvor é a grandiosa Basílica de São Paulo, construída em Roma, de que nosso clichê fixa um aspecto.

Sejam o seu exemplo e as suas preces um auxílio para que os católicos, e especialmente os desta sua Arquidiocese, se esmerem mais e mais no serviço da Igreja.

O que mais chama a nossa atenção na vida de São Paulo é a sua decisão, sua atitude integral, diante de um ideal. Quando o apóstolo quer alguma coisa, ele a quer deveras. Vive integralmente por um ideal, e tudo é sacrificado pela realização do mesmo.

O perseguidor da Igreja

Enquanto moço em Jerusalém, o ideal de sua vida era o Judaísmo, e é no Cristianismo que ele descobre o inimigo mais perigoso do mesmo. Sem medir fadigas, dedica-se então a extirpar pela raiz este inimigo. É um entusiasta! Não de um entusiasmo platônico e gesticulador que nada vale, e sim de um entusiasmo interior e profundo que constantemente se traduz em atos: “Saulo, respirando ameaças e morte contra os discípulos do Senhor”. E como tal era conhecido até em Damasco, duzentos e cinquenta quilômetros distante de Jerusalém. Ele mesmo escreve aos Galatas (1, 13): “Certamente ouvistes dizer do meu modo de vida de outrora no Judaísmo, com que excesso eu perseguia a Igreja de Deus e a expugnava. E avantajava-me no Judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meu país”.

Um entusiasmo sadio e verdadeiro traduz-se em obras e São Paulo entrega-se deveras à perseguição da Igreja: “Respirando ameaças e morte…” Espírito perspicaz e de vistas largas, ele compreende logo que a extirpação eficiente deve começar nos grandes centros de irradiação mundial. A cidade de Damasco, para onde fugiram muitos cristãos, é um tal centro perigoso. E, como vive inteiramente para o seu ideal, não mede esforços nem perigos, não quer saber de medidas incompletas e pusilânimes, e espontaneamente se dirige ele mesmo a Damasco, viagem de mais ou menos uma semana (250 kms), a fim de “levar presos para Jerusalém a quantos homens e mulheres achasse desta doutrina cristã”.

O Apóstolo

Convertido ao Cristianismo, São Paulo devia tornar-se um grande apóstolo. Mudou de ideal, mas não de mentalidade e caráter e com o mesmo entusiasmo produtivo procura a realização de seu novo ideal – Cristo. O mesmo zelo, ardor, perspicácia, constância, destemor. As mesmas medidas completas e enérgicas, o mesmo gosto pelo essencial que de preferência o faz procurar os grandes centros de irradiação mundial. A mesma dedicação incondicional! A vida apostólica de São Paulo, um verdadeiro prodígio e assombro, é uma prova constante e cabal desta afirmação.

Para mim, viver é Cristo

Com esta mentalidade purificada ainda pela graça, vive perpetuamente com o ideal “Cristo” diante de seus olhos. Mais ou menos 330 vezes aparece o nome de Jesus nas suas epístolas. Sem a menor hesitação escreve: “Mihi vivere Cristus est”. Ou então: “Vivo … iam non ego, vivit vero in me Christus”. Textos que provam seu amor, sua identificação com o ideal da sua vida: Cristo. Tudo está subordinado a este ideal, e enumerando, por exemplo, seus honrosos títulos de judeu, escreve: “Tudo isto tenho por perdas pelo eminente conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor, pelo qual tenho tudo perdido e eu avalio por esterco, a fim de ganhar a Cristo” (Fil. 3).

É desta fibra que se fazem os grandes apóstolos, os heróis de Jesus Cristo.

Outro característico digno de nota é que São Paulo soube unir a espontaneidade e ao ardor da sua alma um raciocínio severo e uma dialética rigorosa.

“E eu me fiz tudo para todos”… – Mais outro belo característico do grande apostolo, também muito pronunciado, é a sua bondade, a delicadeza para com os que o rodeiam. A sua compaixão para com os que sofrem, com quanto interesse e dedicação ele cumpre a sua missão de angariar esmolas para os pobres de Jerusalém e da Palestina (Rom. 15, 25; Cor. 16, 1 ss; 2 Cor., 8 e 9).

Com quanto engenho ele inventa piedosos artifícios para aumentar estas coletas pelos pobres!

Acha tempo, no ardor das lides apostólicas, para escrever uma bela e delicada carta de recomendação em favor de um pobre escravo fugitivo, pedindo que o senhor novamente o aceite com bondade e espírito de perdão, sem os castigos de costume. Também não recua em granjear o próprio sustento com o trabalho de suas mãos a fim de não incomodar a ninguém.

É com grande delicadeza que trata dos fiéis de todos os lugares. Com uma fineza admirável sabe descobrir as boas qualidades dos homens, elogiando-os alegremente na prática do bem. Em cada carta aparecem os traços inconfundíveis desta bondade e lhaneza de trato. Com grande instância recomenda sejam seus colaboradores bem tratados nas igrejas, e com muita e santa alegria, toma nota dos bons resultados por eles alcançados.

Numa palavra, todos os que entravam em contato com o grande Apóstolo, do maior ao menor, sabiam e sentiam constantemente que São Paulo se interessava por eles, que não eram para o Apóstolo um mero número, que ele se lembrava todos os dias de cada um, até do mais humilde, que São Paulo jamais se esquecia de um serviço prestado, fosse à sua própria pessoa ou aos seus. Todos enfim percebiam que São Paulo era um verdadeiro amigo, um pai para cada um.

Assim também compreendemos que, dando vazas aos seus sentimentos de amor, São Paulo escrevesse a frase quase incompreensível: “porque eu mesmo desejara ser anátema quanto a Cristo, por amor de meus irmãos que são os meus parentes segundo a carne, os israelitas” (Rom. 3, 3). E enumerando os seus trabalhos e fadigas pela causa de Cristo, compreendemos que em último e mais importante lugar enumere os seus cuidados de pai: “além das coisas extenues, há o que pesa sobre mim cada dia, o cuidado de todas as igrejas (“instantia mia quotidiana: sollicitudo omnium ecclesiarum)”.

Plínio Corrêa de Oliveira – Legionário, 20 de janeiro de 1946, N. 702, pag. 1

25 de Janeiro – São Paulo e a glória do estado eremítico

São Paulo Apóstolo

São Paulo soube pôr a serviço da maior das causas, a de Cristo e da sua Igreja, um idealismo abrasador, uma energia inexaurível, uma combatividade invencível, uma audácia viril e realizadora.

O Apóstolo das Gentes não concebia limites para sua atividade evangelizadora. 0 mundo inteiro era pequeno para a grandeza de seu ardor apostólico. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade dos empreendimentos, nem a diversidade dos povos, puderam conter-lhe o passo vigoroso e a palavra de fogo.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de Janeiro – São Paulo Apóstolo

São Paulo Apóstolo

São Paulo soube pôr a serviço da maior das causas, a de Cristo e da sua Igreja, um idealismo abrasador, uma energia inexaurível, uma combatividade invencível, uma audácia viril e realizadora.

O Apóstolo das Gentes não concebia limites para sua atividade evangelizadora. 0 mundo inteiro era pequeno para a grandeza de seu ardor apostólico. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade dos empreendimentos, nem a diversidade dos povos, puderam conter-lhe o passo vigoroso e a palavra de fogo.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de Janeiro – São Paulo, prefigura dos apóstolos dos últimos tempos

São Paulo, prefigura dos apóstolos dos últimos tempos

Para Dr. Plinio, ao Apóstolo São Paulo dever-se-ia aplicar a descrição feita por São Luís Grignion de Montfort sobre os missionários a serem suscitados por Deus nos últimos tempos: “Pregarão com grande força e virtude, e tão grande, tão esplêndida, que hão de comover todos os espíritos e todos os corações nos lugares em que pregarem; a eles haveis de dar vossa palavra, à qual nenhum dos vossos inimigos poderá resistir”.
Acompanhemos os comentários de Dr. Plinio sobre o episódio da conversão de São Paulo.

O Apóstolo, digno desse título pelo seu zelo e heroísmo extraordinários na evangelização dos povos, sobrepujando talvez a dedicação dos primeiros escolhidos pelo próprio Nosso Senhor. São Paulo se transformou nesse ardoroso discípulo de Cristo, após uma espetacular conversão, cuja festa a Igreja celebra em 25 de janeiro.

No caminho de Damasco

Para recordá-lo, creio ser oportuno ler e comentar o seguinte trecho dos Atos dos Apóstolos:
Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina. Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu.

Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: “Quem és, Senhor?” Respondeu ele: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão”. Então, trêmulo e atônito, disse ele: “Senhor, que queres que eu faça?” Respondeu-lhe o Senhor: “Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.”

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: “Ananias!” — “Eis-me aqui, Senhor”, respondeu ele.

O Senhor lhe ordenou: “Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.” (Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: “Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém.E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome”.

Mas o Senhor lhe disse: “Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome”.

Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: “Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo”. No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco.

Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: “Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?”

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

Um homem decidido

Essa história é tão rica em pormenores saborosos, que não se tem quase o que lhe acrescentar. Porém, para tecermos alguns comentários, seria interessante destacar um dos traços curiosos da narração, presente em suas linhas gerais e nas principais passagens: é a força.

Saulo nos é apresentado como um homem decidido. Ele toma a iniciativa de pedir aos líderes religiosos cartas de autorização para perseguir os cristãos. Percebe-se que tais autoridades estavam um tanto encostadas e ele era o zeloso, disposto a acabar com aquela — no entender dos fariseus — seita propagadora de doutrina errônea e perigosa. Ou seja, é ele quem desencadeia a ação de exterminar os vários núcleos da pseudo-heresia nascente.

Como dizem os Atos dos Apóstolos, “respirando ameaças e morte”, munido dessas carta, dirige-se a Damasco, pois queria prender ali todos os seguidores da nova “seita”.

Esse indivíduo era famoso pela sua rijeza, o que se confirma pela resposta de Ananias a Deus: “Muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém”. Saulo era tido, portanto, como um inimigo capital dos católicos.

Vem a propósito observar os termos curiosos empregados pela Sagrada Escritura em sua narração: “Durante a viagem, estando já perto de Damasco…”. Tratava-se de trajeto um pouco longo, e tem-se a impressão de que, avançando no seu caminho, a raiva dele se tornava cada vez maior, até acontecer de se aproximar da cidade. Então, àquele homem duro sucede um duro fato. Envolto por uma luz celeste, ele ouve uma voz que o interroga: “Saulo, por que me persegues?”

A ordem das coisas invisíveis se abria para ele. E a pergunta importa numa forte censura, pois ele estava resistindo a intensas graças anteriormente lhe concedidas, como se infere das palavras seguintes: “Duro te é recalcitrar contra o aguilhão”. Quer dizer, as graças eram como um aguilhão a incidir sobre Saulo, mas este as rejeitava. Em razão disso, para dar à ponta a sua máxima penetração, Deus empregou uma força ainda maior e o derrubou na estrada.

A cegueira, aflição para o poderoso

E Saulo sentiu o impacto!
— Senhor, que queres que eu faça?

A essa queda seguiu-se uma severidade ainda maior: a cegueira. Para um homem de temperamento como o de São Paulo, ser privado da visão é a pior coisa possível, pois uma das carências humanas mais incompatíveis com o vigor é a cegueira. E ele, outrora repleto de agilidade e empreendimento, para caminhar tinha de ser conduzido pela mão. Não havia outro remédio…

Certamente a notícia desse acontecimento circulou célere na comunidade católica de Damasco, e muitos foram ver e falar com Saulo. Compreende-se que o episódio tenha produzido essa efervescência, enquanto o protagonista passou a se tratar de modo veemente: durante três dias entregou-se a um rigoroso jejum, sem comer nem beber. Pouco depois lhe caíram as escamas dos olhos e ele recuperou a vista, alimentou-se e recobrou igualmente as forças. Ou seja, não se achava nem um pouco alquebrado: tão logo lhe deram o necessário, empertigou-se, alçou-se de novo e se dispôs à luta.

Operou-se nele uma mudança completa e estrepitosa, pois de líder anticristão passou a pregar nas sinagogas e lugares públicos o nome de Jesus, contra o Qual se levantara.

O prêmio do bom combate

Esse homem de importância capital para o desenvolvimento da Igreja nascente, atuará na posição chave daquela época, que era o mundo mediterrâneo. Tomando a palavra de Deus como um gládio de dois gumes — para usar sua própria expressão — que atinge a junção da alma com o espírito, operava conversões extraordinárias, quer pela qualidade, quer pela quantidade de pessoas atraídas à Fé cristã. De tal modo que ele abriu um sulco sobre o qual a Igreja Católica prosperou, além de dar o primeiro passo essencial para a derrubada do paganismo no Império Romano.

E no final de sua vida, fez ele uma prece que tem algo de santamente forte em relação a Deus Nosso Senhor. Ele se dirige a Jesus com palavras que certos hagiógrafos piegas qualificariam de falta de humildade, mas nada objetam em se tratando de uma afirmação de São Paulo. Aproximando-se da morte, seria tão legítimo que ele dissesse: “Senhor, tende piedade de mim e, segundo a multidão de vossas misericórdias, apagai meus pecados”. Porém, sua oração foi outra: “Senhor, combati o bom combate, só me resta agora receber de Vós a coroa da justiça!”

Tais palavras constituem uma espécie de atestado brilhante de sua própria fidelidade, como se declarasse: “Senhor, o cheque está preenchido, e estou perto do guichê. Pagai-me. Minha vida valeu o prêmio que vossa justiça me prometeu”. E com sua consciência tranquila, ele se apresentou diante de Deus.

Tudo isso é bem exatamente o contrário de uma das facetas que a pieguice manifesta. Pois esta não se compraz com conversões veementes, nem lhe agrada cogitar na mudança de vida de homens sábios ou dos que alteram o rumo dos acontecimentos. Ela não considera o corpo da Igreja nem a sociedade temporal como um conjunto no qual há homens-chaves. Aprecia apenas umas conversões pequenas, individuais, narradas assim: “Fulano estava com a alma muito agitada. E, num momento de suavidade, às seis horas da tarde, quando ouvia pela rádio a Ave-maria mesclada com uma música melosa, ele se converteu. Ficou então em paz, recolheu-se, afastou-se do bulício, desinteressou-se por todas as coisas humanas e agora não faz senão rezar…”

Não discuto a autenticidade e a oportunidade de uma conversão assim, posto serem muitos os caminhos de Deus para as almas. Contudo, não me parece legítimo apresentá-la como sendo a única digna de consideração.

Voltemos nossos olhos para o exemplo de São Paulo: logo depois de convertido, desferiu trombadas nos adversários da Igreja, primeiro nos ambientes que ele próprio frequentava quando perseguidor dos cristãos, e em seguida pelas vastidões do Império romano. Bem ao contrário do que lhe recomendaria um desses piegas…

O espírito dos apóstolos dos últimos tempos

Seria o caso, então, de nos perguntarmos o quê devemos pedir a São Paulo nesta festa de sua conversão.

Nossa Senhora lhe obteve o dom de uma santa firmeza, porque à frente dele se erguiam muitos obstáculos a serem derrubados. Era uma época de luta, na qual se tornava necessário extirpar o paganismo. Creio que seria de todo conveniente pedirmos para nós esse santo vigor, em todos os sentidos da palavra, a fim de batalharmos contra nossos defeitos morais e más inclinações, assim como para enfrentarmos a Revolução, hoje em seu auge e muito mais poderosa do que foi o paganismo no tempo do Império Romano.

Donde poder-se compreender que os apóstolos dos últimos tempos tenham uma rigidez a la São Paulo. Aliás, é curioso, mas sob alguns aspectos este pode ser considerado uma prefigura deles. Lendo-se a Oração Abrasada de São Luís Grignion de Montfort, e aplicando-a ao Apóstolo dos Gentios, percebe-se que as analogias são imensas e uma série de coisas se reportam umas às outras, admiravelmente.

Aí temos algumas considerações a respeito de São Paulo, e ser-nos-ia lícito acrescentar mais uma.

É significativo que, numa cidade fundada no dia da conversão dele e batizada com seu nome, haja surgido nosso movimento e daqui se irradie para outros países. Tem-se a impressão de ser desejo do Apóstolo São Paulo que os nascidos nessa cidade tomem tal iniciativa.

Por outro lado, o que outrora se chamou “espírito paulista” possuía qualquer coisa do vigor, da força, intrepidez, iniciativa, do senso organizativo próprio àqueles que devem desenvolver uma ampla e firme ação num certo sentido universal. Os bandeirantes, assim como os autênticos paulistas, manifestavam qualidades naturais que eram símbolos daquelas que um membro de nosso grupo deve ter no plano sobrenatural.

Não convém tirar disso grandes conclusões, porque tais coincidências na História não são raras. Mas, em todo o caso, pode-se fazer uma interrogação ou conjectura: não haverá nisso um pouco mais do que uma coincidência? É bem possível.

Lembremo-nos, portanto, de rezarmos de modo muito particular a São Paulo nessa sua festa, rogando-lhe alcançar-nos o espírito dele, ou seja, o espírito dos apóstolos dos últimos tempos.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de Janeiro – Apóstolo da santa violência

Apóstolo da santa violência

Ao Apóstolo São Paulo, para quem a palavra de Deus era como um gládio de dois gumes que atinge até a juntura da alma com o espírito (cf. Hb 4, 12), a Providência concedeu a graça de fazer violência às almas e ser capaz de operar conversões extraordinárias, ou pela qualidade ou pela quantidade das pessoas por ele convertidas, de maneira que abriu um sulco sobre o qual a Igreja Católica se desenvolveu.

Foi Nossa Senhora quem obteve para São Paulo esse dom, porque ele tinha muitos obstáculos a vencer naquela época de luta, em que era preciso derrubar o paganismo.

Nós devemos pedir também essa santa violência para derrubar a Revolução que é hoje muito mais poderosa do que foi o paganismo no tempo do Império Romano. Compreende-se, portanto, que os Apóstolos dos Últimos Tempos tenham uma violência como a de São Paulo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 25/1/1965)
Revista Dr Plinio 262 (Janeiro de 2020)

24 de Janeiro – São Francisco de Sales: Como devemos combater os nossos vícios

São Francisco de Sales – Doutor da doçura e da suavidade

Quando São Francisco de Sales morreu, resolveram fazer a autópsia. Para surpresa geral, encontraram seu fígado endurecido, como se fosse de pedra…

De fato, embora tivesse um gênio péssimo, ele se dominou de tal maneira que ficou famoso por sua doçura: era considerado o santo da doçura.

Assim devemos ser: se possuímos dificuldade de trato, procuremos ter gênio angélico; se somos inclinados à preguiça ou temos medo de lutar, procuremos ser heróis ao serviço de Nossa Senhora. A exemplo dos santos, sejamos exímios no combate aos defeitos que julgamos mais difíceis de vencer.

Para isso, devemos examinar nossos atos implacavelmente, sem nunca pensarmos em atenuantes. Porque nós só os reconheceremos se formos implacáveis, analisando-os com lupa, um por um.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 11/11/1989

24 de Janeiro – São Francisco de Sales – Doutor da doçura e da suavidade

São Francisco de Sales – Doutor da doçura e da suavidade

São Francisco de Sales foi o anti-calvinista, o anti-jansenista por excelência. Lutou contra aquela forma hirta de piedade protestante que nos queria apresentar um Deus justo, entretanto mau, e que está louco para dizer: “Agora te peguei! Você pecou e vai pagar, está compreendendo?!” Daí todos os rigores horrorosos do calvinismo, o qual fez um grande mal à Europa.

Doutor da doçura e da suavidade, São Francisco de Sales tinha um verdadeiro carisma para fazer sentir os aspectos doces da Religião Católica e levar as almas, através da doçura, a realizar verdadeiros sacrifícios, maiores e mais numerosas penitências do que os jansenistas impunham aos seus sequazes.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/2/1966)

22 de Janeiro – Deus deseja a pompa dentro da Igreja

Deus deseja a pompa dentro da Igreja

Lendo as narrações da Légende Dorée sobre São Basílio Magno, temos uma sensação de distensão. Nossos olhos, exaustos de pousarem em coisas monstruosas deste século, fixam-se naqueles fatos meio encantados e maravilhados, e uma espécie de hino de admiração começa a subir de dentro de nós.

 

 

A propósito da festa de São Basílio Magno, bispo e doutor da Igreja, temos a comentar os dados tirados da famosa Légende Dorée, de Jacques de Voragine1.

Coluna de fogo que tocava o céu

Através de uma visão, o eremita chamado Efrém conheceu o grau de santidade que Basílio havia atingido. Em êxtase, Efrém viu uma coluna de fogo que partia da cabeça do Santo e tocava o céu, e ouviu uma voz vinda do alto dizer: “O grande Basílio é como essa imensa coluna que você vê.” Ele foi então à cidade no dia da Epifania para conhecer tão notável personagem. Ao vê-lo vestindo uma estola branca e caminhando majestosamente com seus clérigos, disse consigo mesmo: “Tive trabalho à toa em vir, pois esse homem rodeado de honrarias não pode ser aquele que apareceu na visão. Se nós, ermitãos, que carregamos o peso do dia e do calor, nunca alcançamos nada semelhante, como ele, cheio de tais honrarias, pode ser uma coluna de fogo?” Basílio, que por revelação soube dos pensamentos de Efrém, fez com que ele fosse vê-lo.
Levado diante do bispo, o eremita viu uma língua de fogo que saía de sua boca, e pensou: “Basílio é grande mesmo, é, sim, uma coluna de fogo. O Espírito Santo realmente fala pela boca de Basílio.” Dirigindo-se a ele, Efrém disse:
— Senhor, peço-lhe a graça de me fazer falar grego.
Basílio:
— Você pede uma coisa difícil.
Mas orou por ele, que imediatamente passou a falar grego.
Certa vez, outro eremita viu Basílio andando com trajes pontificais e desprezou-o, pensando consigo mesmo que aquele homem gostava demais de pompas daquele tipo. Uma voz então se fez ouvir, dizendo: “Você gosta mais de acariciar a cauda da sua gata do que Basílio aprecia seus ornamentos.”

As portas de uma igreja se abrem, confundindo os hereges

O Imperador Valente, defensor do arianismo, tirou uma igreja dos católicos para dá-la aos arianos. Basílio foi ter com ele e disse:
— Imperador, está escrito: “A majestade real brilha no amor à justiça. O julgamento do rei é a justiça.” Por que, então, ordenastes de livre e espontânea vontade que os católicos fossem expulsos dessa igreja e que ela fosse entregue aos arianos?
O Imperador respondeu:
— Basílio, não é conveniente que me faleis assim.

 

 

Ele replicou:
— Não me importo de morrer pela justiça.
Então o cozinheiro-chefe do Imperador, chamado Demóstenes, partidário dos arianos, tentou intervir, mas Basílio disse-lhe:
— Sua tarefa é cuidar dos guisados do Imperador, e não resolver questões de Fé.
O que o deixou confuso e o fez calar-se.
Disse então o Imperador:
— Basílio, ide e arbitre o problema entre os dois partidos, mas sem se deixar influenciar pelas opiniões do povo.
Ele propôs a católicos e arianos que se mandasse fechar as portas da igreja, nelas colocar os selos de cada um dos partidos, e aquele que conseguisse abrir as portas através de preces teria a posse da igreja. A proposta foi aceita por todos. Os arianos rezaram durante três dias e três noites, e quando chegaram diante das portas da igreja elas não estavam abertas. Então Basílio, à frente de uma procissão, foi até a igreja e, depois de ter feito uma prece, tocou levemente as portas com seu cajado pastoral dizendo: “Deixem o caminho livre, poderes celestes, abram-se, portas eternas, a fim de deixar entrar o Rei da glória.” E imediatamente as portas se abriram, todos entraram dando graças a Deus, e a igreja ficou novamente na posse dos católicos.

Uma legenda que correspondia às aspirações de santidade

 

Não são fatos rigorosamente históricos porque a Légende Dorée é constituída de narrações semilegendárias. Alguns dos fatos ali narrados aconteceram, outros não; e dentre os que aconteceram, nem todos são narrados como se passaram, mas foram embelezados pela imaginação popular.
Sem embargo, são fatos lindos que têm um grande valor espiritual, pois indicam como a piedade daqueles povos cheios de devoção ornou a figura dos Santos, imaginou como Deus deveria agir, e modelou uma legenda que correspondia a suas próprias aspirações de santidade. E isso não pode ser tido em conta de mentira, porque não é propriamente mentira, mas um devaneio, uma história contada de um para outro já sabendo que é estilizada, uma espécie de ficção maravilhosa narrada em louvor do Santo.
As narrações referentes a São Basílio são impregnadas daquela poesia e daqueles problemas do Oriente dos primeiros tempos. Esse Santo viveu numa época de heresias. A heresia dos arianos devastava, naquela época, a Igreja Católica, e São Basílio estava numa luta tremenda contra eles e contra o Imperador, porque em geral os imperadores de Bizâncio davam apoio aos arianos.
A razão disto estava em que esses potentados queriam mandar na Igreja, e os bispos arianos se prestavam a isso, enquanto na Igreja Católica não podiam mandar, porque segundo a Doutrina Católica a Igreja é uma sociedade perfeita e soberana, ou seja, na sua esfera própria – que é a espiritual; e a temporal, em matéria de Fé e Moral – ninguém manda nela. Os imperadores, encontrando na Igreja um dique para o seu absolutismo, evidentemente procuravam persegui-la. Era um transbordamento do orgulho humano.
Nesta época florescia na Igreja uma grande graça, a do eremitismo, entendido no seu rigor. O eremita verdadeiro é aquele que vive inteiramente só, numa gruta, num deserto, em geral não em lugares maravilhosos, mas naqueles que não atraem muito a imaginação, não seduzem muito a fantasia nem agradam os sentidos. O eremita vive ali, sozinho, cuidando apenas do louvor de Deus.
Esse estado eremítico é muito conforme à índole do oriental, porque este, com a alma felizmente cheia de fantasia, de imaginação, no sentido reto da palavra, sabe ver o que tantas vezes o ocidental, sobretudo o “hollywoodizado”, não sabe ver: as mil maravilhas do silêncio, os mil deslumbramentos da solidão.
Quando a pessoa vive isolada, seu espírito adquire grandeza, toma voo. Ela não se preocupa a não ser com coisas de ordem superior e então se aproxima de Deus.
O eremita que rola uma pedra à entrada da gruta onde mora para não entrar uma fera durante a noite, mas que também pode ser surpreendido por uma cobra, e corre os riscos do homem sozinho, exposto à luta contra a natureza; o eremita que jejua, se penitencia, se macera, este é o eremita perfeito cuja figura nos aparece aqui.

Então, nesse Oriente cheio da desolação do arianismo, ao que se somava a pretensão dos gregos de Constantinopla de estar em oposição a Roma, inventando doutrinas rebuscadas para opô-las à simplicidade sacrossanta da Doutrina Católica; nesse Oriente também repleto do deslumbramento do eremitismo, com uma explosão de santidade contrastando com o horror da heresia; é nesse Oriente com aspectos variados que nós vemos aparecer a grande figura de São Basílio.

O apego do homem não está necessariamente na proporção do que ele possui

o mal a figura de São Basílio, alguns eremitas. Com frequência aconteceu na Igreja que, quando se preconiza muito o ideal de pobreza, alguns exageram isso e se voltam, à maneira de protestantes, contra a pompa da Igreja. Assim, por exemplo, pouco depois da morte de São Francisco de Assis alguns franciscanos deram origem à heresia chamada dos fraticelli, que era comunista, contrária à propriedade privada, a toda honra e pompa, e a todo o brilho da civilização.
Assim também encontramos nesta narração eremitas que, vivendo completamente na solidão e, portanto, não sendo servidos por ninguém, não dispondo de nenhuma pompa, fizeram este raciocínio errado: “Se eu, eremita, vivesse nessa pompa, perderia a minha alma; logo, aqueles que vivem nessa pompa perdem a alma deles.” A primeira parte do raciocínio é verdadeira, a segunda é falsa. Porque cada um salva a sua alma no caminho que Deus quer. E assim o eremita salva a sua alma no isolamento, mas outro que é levado a servir a Deus na pompa salvará a sua alma na pompa. Nem um nem outro pode escolher outro caminho por mera arbitrariedade.
Esses dois eremitas viram São Basílio servindo a Deus na sua grandeza como bispo, e duvidaram então da santidade dele.
O primeiro foi Efrém que viu, num êxtase, uma coluna de fogo a qual subia até o Céu e ouviu uma voz dizer: “Este é Basílio.” Ele foi procurar então o Santo. Chegou lá e encontrou um homem rodeado da pompa episcopal numa cerimônia eclesiástica e pensou: “Não pode ser.” Quer dizer, ele contrariou o que a visão disse a ele. “Por que esse homem vive nessa pompa?”
Ele vai falar com São Basílio e a Providência afetuosamente lhe concede uma graça pela qual compreendeu o quanto estava errado, e acaba por sair sabendo falar grego. Para que ele quereria falar grego não se sabe. É de se esperar que fosse para estudos, pois uma vez que o eremita não deve falar, supõe-se que seria para ler. Ademais, o Santo não lhe teria obtido uma graça para ele violar seu bom propósito de ser eremita. De maneira que se deve entender que ele recebeu essa graça para, compreendendo o grego, conhecer os Padres e Doutores gregos, a versão grega do Evangelho, dos Atos dos Apóstolos.
Depois veio outro eremita e também teve um engano a esse respeito, julgando que São Basílio não era Santo. E a esse a Providência castigou de um modo que, entretanto, provoca um sorriso, mostrando que o apego do homem não está necessariamente na proporção do que ele possui.
São Basílio, embora rodeado de pompa, era desapegado. O eremita tinha uma gata pela qual tinha muito apreço. Então, enquanto fazia um juízo desfavorável a respeito do Santo prelado, ouviu uma voz que lhe dizia que ele gostava mais de acariciar a cauda da gata do que São Basílio apreciava seus ornamentos.

Duas psicologias muito bem expressas

 

Ainda que sejam casos inventados, são de um muito bom gosto, literariamente muito leves, que distraem a alma, fazem sorrir, e cheios de suco doutrinário. Porque os dois episódios resolvem o famoso problema da pompa dentro da Igreja e mostram que ela está de acordo com os desejos de Deus, e que uma pessoa pode santificar-se nessa pompa, quando é vontade do Criador que assim se santifique.
De outro lado, as finuras da alma humana estão muito bem expressas. O primeiro eremita possui um tipo de psicologia especial. Trata-se de um homem impressionável. Ele vê aquela coluna de fogo, fica muito impressionado, vai falar com São Basílio, tem uma impressão diversa e muda imediatamente de opinião. Pede logo uma graça inverossímil e Deus o atende. É um tipo de psicologia representado com muita finura.
Outro tipo de psicologia apresentado com finura é o do segundo eremita: sentimental, cansadão, sentado à porta de sua gruta, levando uma vida bem sossegada, sem amolação. Entra dia, sai dia, aquela tranquilidade, aquele sossego… Para divertir, uma gata que sabe dizer “miau”, mas não aborrece, não faz objeções, não traz problemas. Um animal que não temos que arrancar das garras do pecado e empurrar para os píncaros da vida espiritual, que se limita a comer alguma coisa que encontra no mato, pode ser uma companhia muito repousante.
Há gatos cujo temperamento é parecido com o de certos homens que se deixam agradar de todo jeito até a hora do arranhão. Isso existe. Mas creio que das menores ingratidões que um homem possa receber na vida é o arranhão de um gato. De maneira que se vê esse eremita adaptado à sua situação.
Então vem um aviso que toca no ponto psicológico diretamente, mas sem uma injúria, sem uma descompostura. É um caso que faz sorrir. Ele se lembra da sua gata e volta corrigido. Vejam como isso é bonito.

Cena grandiosa e profética

São Basílio é chamado diante do Imperador e discute com ele. Entra em cena o diretor da cozinha, que é muito mais do que ser um cozinheiro. Devemos pensar no luxo fabuloso dos imperadores bizantinos, nas grandes comilanças que eles faziam. Havia frequentemente banquetes. Portanto, um diretor de cozinha devia ser um homem bem entendido de gastronomia, de festas.
Ele quer fazer-se de zeloso diante do Imperador e se mete numa discussão onde não tinha nada que ver. São Basílio espirituosamente lhe dá uma resposta: “Você cozinhe comidas, não dogmas!”
É uma coisa prazenteira que se lê sorrindo, mas a lição está bem dada. Há um suco doutrinário, uma substância atrás disso.
Vem depois uma cena grandiosa, profética. Os fiéis da Religião Católica discutem com os ímpios, que constituem a seita ariana, pela propriedade de uma igreja católica que o Imperador tinha dado aos arianos.

 

O soberano confiou ao Santo a solução do caso. Então, segundo essa narração, São Basílio disse-lhes que selassem com seus respectivos lacres as portas da igreja e rezassem.
Pode-se imaginar a cena magnífica, a tranquilidade de São Basílio e a torcida dos arianos. Estes rezam, rezam, rezam e… nada! São Basílio com mitra, uma grande casula, um báculo, barba branca, olhos serenos, caminhando à frente de um clero piedoso. E todos cantando as ladainhas. Tem-se a impressão de que quando eles chegaram perto, as portas da igreja já estavam para se abrir. Ele se antecipa e, num gesto majestoso, com a ponta do báculo apenas toca na porta e esta se abre. Os hereges foram confundidos e o coro entra cantando, seguido de uma grande multidão de fiéis.

Se essas coisas não se passaram assim, inúmeras outras transcorreram, e as circunstâncias eram tais que podiam ter se passado dessa forma. De maneira que há um resíduo de verdade nisso, até mais verdadeiro do que a narração histórica. Porque aponta para certa maravilha das almas, que é a realidade histórica mais profunda. Pode não ter havido o fato externo, mas houve o fato profundo que é aquele tipo de piedade, de espírito sobrenatural presente por detrás disso.
Quando lemos essas narrações da Légende Dorée, temos uma sensação de distensão. Nossos olhos, exaustos de pousarem em coisas monstruosas, em toda espécie de sujeira e de borra deste século, fixam-se nisso meio encantados e maravilhados, e uma espécie de hino de admiração começa a subir de dentro de nós. Não é verdade que, sendo obrigados a interromper a leitura, sentimos uma espécie de desolação, como uma alma que visse um pouquinho do Céu e fosse obrigada a voltar para o Purgatório?

 

Admiração humilde e desinteressada

sso? É a seguinte: se nós fôssemos tais que conseguíssemos fixar o nosso espírito duravelmente nesse estado de admiração; se gostássemos, acima de tudo, de praticar a virtude da admiração, que desinteressadamente se detém, fica pensando e se maravilha com esses episódios; se tivéssemos dentro da alma um paraíso permanente, uma alegria fixa, estável e contínua que nos acompanhasse, apesar de todas as tristezas, teríamos a certeza de que o fundo da realidade não são as coisas efêmeras que vemos, nem os aborrecimentos que essas coisas nos dão, mas é esse fundo de maravilha, essa ordem de coisas virtuosa, admirável, indescritível que existe na alma das pessoas verdadeiramente santas. Eis o encanto de nossa vida: fazer dessa contemplação nossa alegria humilde e desinteressada.
Humilde porque isto nos alegra, em grande parte, na medida em que vemos não ter nenhuma proporção conosco, pois é muito superior a nós, a ponto de nos sentirmos pequenos diante disso e termos a alegria de nos sentir assim, de nos entusiasmar com algo que é mais do que nós.
Desinteressada porque não temos um papel para representar dentro disso. Não vamos representar nenhum papel ao lado de São Basílio contra o Imperador. Estamos fora. Aqueles fatos não nos engrandecem, não trazem vantagem nenhuma para nós. Nós os contemplamos apenas porque eles são eles. Nós olhamos desinteressadamente para isso.
Este é o modelo da alma medieval. Aqui está um traço do modo de ser medieval que é muito mais do que uma descrição do temperamento – embora entre profundamente no temperamento –: a capacidade de se maravilhar humilde e desinteressadamente. É isso que está nessa disposição de alma.

A alma assim é verdadeiramente fiel, realmente agrada a Deus. É sobre uma alma assim que baixa o Espírito Santo. Porque esses são os humildes que serão exaltados. Os poderosos que serão depostos são aqueles que se agarram a uma porção de coisas – ainda que seja apenas o rabo de um gato – e que fazem disso o seu apego. Esses serão depostos, ou seja, destituídos das coisas a que se apegam. Os humildes, os desinteressados, pelo contrário, serão elevados.
Como se dá essa elevação? Da seguinte maneira: a alma com essa capacidade de se maravilhar humilde e desinteressadamente é como que um mata-borrão. Toda perfeição que toca nela, ela inala, absorve. Aquilo que nós admiramos desinteressadamente nos modela e nós tomamos algo dessa maravilha.
A maravilha contemplada torna o indivíduo maravilhoso. Nada é mais bonito, não há maravilha mais autêntica do que a alma verdadeiramente maravilhável. Essa tem o amor de Deus, porque o amor de Deus é isto: maravilhar-se humilde e desinteressadamente com as coisas de Deus. Não só com as invisíveis conhecidas pela Fé, mas com as visíveis que o Criador colocou por todos os lados.
Eis, portanto, o que devemos procurar e pedir a Nossa Senhora, que foi a mais maravilhável das almas. Basta considerar que foi Ela quem teve mais de perto a maior maravilha que pousou nesta Terra: Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Megalomania: um defeito que está na linha oposta ao maravilhamento

Nosso Senhor disse que não se deve atirar pérolas aos porcos (cf. Mt 7, 6). Não se pode dar coisas maravilhosas para almas incapazes de se maravilhar. Deus deu o Menino Jesus a Nossa Senhora para viver no seio d’Ela, passar sua infância ao lado d’Ela, e Ele passou trinta anos maravilhando-A, porque Ela era dotada de uma potência de maravilhar-Se que estava na proporção dessa Maravilha.
Por aí compreendemos a capacidade de maravilhar-Se de Nossa Senhora. Resultado: todas as gerações A chamarão maravilhosa, porque quem A chama Bem-aventurada, chama-A maravilhosa. Por quê? Pelo desinteresse com que Ela amou, pela humildade com que admirou. Por isso Se tornou admirável.
Aqui está o mecanismo dessa virtude tão fundamental para a alma contrarrevolucionária, para o espírito católico.
Um dos muitos defeitos que estão na linha oposta ao maravilhamento é a megalomania. O megalômano não se maravilha com nada a não ser consigo. Quando vê algo de maravilhoso fora dele, irrita-se, olha um pouquinho e depois se aborrece, porque ele quer estar no centro de todas as coisas. Este é o contrário do homem verdadeiramente maravilhável.
Que essa citação da Légende Dorée nos sirva de ocasião para pedir a Nossa Senhora que nos dê essa faculdade de alma pela qual nos maravilhemos com o que está acima de nós, humildemente, amando aquilo precisamente por ser superior a nós, e admirando desinteressadamente.


(Extraído de conferência de 19/6/1971)

21 de Janeiro – Santa Inês

Santa Inês

No momento de seu martírio, oprimida pelas dores, Santa Inês recompôs suas vestes por amor à pureza.

Ter essa preocupação naquela hora significa tão grande elevação de espírito, tão intenso amor à virtude, que não se pode simplesmente incluir o fato nos fioretti, como se fosse mais um tocante episódio de vida de santo.

Essa atitude da mártir é como que o brilho de uma gota do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; é um ato admirável de sabedoria, uma manifestação arrebatadora de apreço pela castidade, sua e do próximo.

Plinio Corrêa de Oliveira

20 de Janeiro – Madonna del Miracolo: altíssima obra de Contra-Revolução

Madonna del Miracolo: altíssima obra de Contra-Revolução

Num mundo em que o demônio, através da impureza e do orgulho, vai arrastando as almas para a Revolução, Nossa Senhora nos comunica o gosto pela despretensão e pela castidade. Estas são considerações de Dr. Plinio ao analisar o quadro de Nossa Senhora do Miracolo.

 

Ocorreu-me a ideia de fazer um “Ambientes, Costumes e Civilizações”, procurando exprimir os imponderáveis existentes no quadro de Madonna del Miracolo, ou Nossa Senhora do Milagre.

A figura é muito semelhante à de Nossa Senhora das Graças, um pouco alterada.

Maria Santíssima está vestida como se trajavam as senhoras no tempo de sua existência terrena: uma túnica grande e uma capa. Esta é azul-celeste, a cor de Nossa Senhora; a túnica é de um discreto rosado, enquanto que nas imagens de Nossa Senhora das Graças costuma ser branca. Ela está com a fronte encimada por uma coroa, o que as imagens de Nossa Senhora das Graças geralmente não têm. Um círculo de doze estrelas serve a Ela de resplendor. É uma alusão à aparição de Nossa Senhora no Apocalipse. Como se pode notar, Ela não está esmagando a cabeça da serpente. Das suas mãos partem raios em abundância, que significam as graças por Ela concedidas.

Misto de grandeza e misericórdia

Sua fisionomia é discretamente sorridente. Maria Santíssima não está propriamente sorrindo, mas olhando para a pessoa que está ajoelhada diante d’Ela, de um modo muito afável, acolhedor, com uma enorme vontade de atender o pedido, de ajudar. Mas, ao mesmo tempo — e as coisas se completam bem —, Ela é muito régia, não só por causa da coroa, mas ainda que se Lhe tirassem a coroa. Notem o porte d’Ela. Tem-se a impressão de que é uma pessoa alta, esguia, muito bem proporcionada, e qualquer coisa de imponderável da consciência de sua própria dignidade aí transparece. Quer dizer, percebe-se que é uma Rainha, muito menos pela coroa do que pelo seu todo; enfim, pelo misto de grandeza e de misericórdia que d’Ela emanam.

Efeito apaziguador

Parece-me que o elemento mais tocante dessa imagem é algo de inexprimível, que, à primeira vista, não encontra sua explicação em nenhum elemento concreto do quadro. Não só por causa do sorriso, mas é um todo que vou tentar depois explicar; essa imagem trás consigo qualquer coisa de apaziguador. Quem olha para essa estampa tende a ficar apaziguado, serenado, tranquilizado, como quem tem as suas más paixões em agitação acalmadas, suas angústias favorecidas por uma distensão, por certa calma, como se ouvisse: “Meu filho, Eu dou jeito em tudo, Eu arranjo tudo, não se impressione, haverá um modo. Eu estou aqui ouvindo-o; você precisa de tudo, mas Eu posso tudo, e o meu desejo é de lhe dar tudo. Portanto, não tenha dúvida, espere mais um pouco. Mas super abundantemente você terá o que Eu quero”.

Acima de tudo, a imagem — a meu ver, este é seu elemento mais apaziguador e encantador — tem qualquer coisa indicando que Nossa Senhora Se oferece à pessoa que está diante d’Ela, dizendo-lhe: “Meu filho, Eu sou toda sua, você pode pedir o que quiser. Eu para você não tenho reservas, recuos, recusas e nem recriminações pelos seus pecados. Eu o estou olhando num estado de alma, numa disposição de ânimo, por onde você de Mim consegue tudo o que você pedir e muito mais ainda”.

A estampa deixa isso tudo em certo mistério; mas um mistério suave, diáfano, mais ou menos como o de um dia com céu muito azul em que se pergunta o que haverá para além do azul; não é um mistério carregado, de um dia nublado, onde se indaga o que existirá por detrás das nuvens. Maria Santíssima como que diz o seguinte: “Se você conhecesse o dom de Deus, se soubesse quanta coisa Eu tenho para lhe dar, e que maravilhas há em Mim… Eu transbordo do desejo de lhas conceder. Como você compreenderia bem o que Eu sou se quisesse abrir os olhos para essas maravilhas!”

Esse apaziguamento que Ela comunica é uma espécie de primeiro passo para a pessoa que queira se deixar maravilhar. Recebendo esta misteriosa ação da graça, ela começa a admirar e perguntar o que a imagem está exprimindo.

Felicidade da pureza e da despretensão

Ela exprime uma excelsa impressão de pureza que quase ofusca, mas não de um ofuscamento que machuca. É tanta pureza que, no início, nem nos lembramos bem de pensar nesta virtude; de tal maneira é pura que, por assim dizer, transcende a pureza.

Contemplando essa estampa, a pessoa não só admira essa pureza, mas ela lhe comunica algo do prazer de ser pura. Muitos têm a ilusão de que a felicidade está na impureza; essa imagem faz com que se compreenda a inefável felicidade que a pureza dá, perto da qual toda felicidade da impureza é lixo, tormento, aflição. Nossa Senhora está inundada de felicidade, a qual é inseparável de sua pureza.

Outra coisa é a humildade. Maria Santíssima está aqui como Rainha, mas em sua atitude Ela faz abstração de toda a sua superioridade sobre a pessoa que reza diante d’Ela. E trata-a como se fosse, não digo de igual a igual, mas uma pessoa que tem proporção com Ela; quando nenhum de nós, e nenhum santo, tem proporção com Ela. Nossa Senhora é completamente fora de proporção em relação a todo mundo; entretanto Ela se coloca assim tão acessível!

Além disso, percebe-se que se Lhe aparecesse Nosso Senhor Jesus Cristo, Ela está toda feita para se ajoelhar e adorar. Nada existe n’Ela que contenha uma repulsa a reconhecer o que é mais alto. Pelo contrário, uma alegria: “Que maravilha! Apareceu quem é mais do que eu”. Compreende-se, então, o modo enlevadíssimo de Maria Santíssima olhar para Aquele que é Filho d’Ela e, ao mesmo tempo, infinitamente mais do que Ela.

Debaixo desse ponto de vista, n’Ela há,  entre outros traços, uma comunicação do prazer da humildade, da despretensão.

Vemos, então, de um lado, a felicidade inefável da despretensão. E de outro, a felicidade inefável da pureza.

Maria Santíssima e a Contra-Revolução

Diante de um mundo que o demônio vai arrastando para o mal, pelo prazer da impureza e do orgulho, Nossa Senhora nos comunica o gosto pela despretensão e pureza, como que dizendo suavissimamente, sem pito nem recriminação: “Meu filho você não se lembra dos tempos primitivos de sua inocência? Não se lembra de como você era antes de ter pecado? De como havia coisas boas em você? Olhe para Mim, abra sua alma, Eu restauro tudo isso. Venha! No caminho que conduz a Mim só existe perdão, bondade e atração. Venha logo!”

Não é difícil estabelecer uma relação entre esses dois traços e a Contra-Revolução. Maria Santíssima está aqui apresentada, não no seu aspecto belicoso, esmagando a cabeça da serpente, mas no seu lado materno, enquanto Ela procura tirar, pelo sorriso, das garras da Revolução aqueles que esta vai vitimando. E dessa maneira fazendo uma altíssima obra de Contra-Revolução.

Um espírito que se deixa influenciar por essa imagem fica sumamente propício à admiração, a admitir a hierarquia das coisas mais altas sobre ele; e a querer, pela sua própria dignidade, que todas as coisas abaixo dele também estejam em hierarquia. É uma coisa inteiramente evidente; entra pelos olhos.

Debaixo desse ponto de vista, sem querer dizer que esta imagem seja a de Nossa Senhora da Contra-Revolução, porque seria forçar a nota, poderíamos afirmar, entretanto, que, para quem luta pela Contra-Revolução, o quadro é de uma altíssima expressão quanto a um dos aspectos da Mãe de Deus, na sua permanente Contra-Revolução, até chegar o fim do mundo. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/1/1976)