18 de agosto – Santa Helena, Imperatriz Alma elevada e de horizonte largo

Santa Helena, Imperatriz Alma elevada e de horizonte largo

Para Dr. Plinio, não se pode deixar de reconhecer “com muita alegria” o trabalho realizado pela Imperatriz Santa Helena, cuja boa presença junto a seu filho, o Imperador Constantino, não só o converteu como o fez conceder a liberdade à Santa Igreja Católica. E além de estar na origem da irradiação do cristianismo, a partir de Roma, por todo o Ocidente, devemos a Santa Helena esse inestimável presente: a descoberta da verdadeira Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Celebra-se no dia 18 de agosto a festa de Santa Helena, Imperatriz e viúva, mãe de Constantino Magno. A ela se deve a invenção, isto é, a descoberta da verdadeira Cruz na qual Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado.

Benéfica e salutar influência materna

Em vez de considerar este ou aquele aspecto da vida de Santa Helena, gostaria de ressaltar a impressão que o todo de sua personalidade nos comunica. Nesse sentido, eu diria que se trata de uma santa cuja importância para o panorama da Igreja redunda, não apenas do fato de ter sido imperatriz, mas também porque teve sobre Constantino uma evidente e salutar influência.

Quer dizer, temos Constantino, o primeiro imperador que faz uma promessa de dar livre curso ao culto católico no Ocidente, caso se visse auxiliado por Nosso Senhor Jesus Cristo na batalha de Ponte Mílvia. Ele recebe a célebre visão do “in hoc signo vinces” — “com este sinal vencereis” —, portanto uma confirmação do socorro divino, conquista a vitória e cumpre sua promessa. Com o Edito de Milão ele concede liberdade à Igreja Católica, e a partir daí começaria a ruir o paganismo sobre o qual o estado se assentava.

Diante desse acontecimento de fundamental importância para a Cristandade, não se pode deixar de reconhecer a materna e católica influência de Santa Helena sobre o filho. Quando nos lembramos de Santa Mônica rezando por Santo Agostinho e obtendo do Céu a conversão dele, ou quando recordamos o papel de Santa Clotilde junto a seu esposo, Clóvis, trazendo-o igualmente para o seio da Igreja Católica e, com ele, o povo franco, é difícil não pensar que Santa Helena impressionou a fundo Constantino, e que a atitude dele foi motivada, em grande medida, pela ascendência da mãe.

Na raiz da ordem social e temporal católica

Ora, se, católicos que somos, desejamos de toda a alma uma restauração da ordem social e temporal católica como a que vigorou nos dias áureos da Civilização Cristã, não podemos deixar de reconhecer, com muita alegria, o trabalho feito por Santa Helena com esse objetivo: não só fazer cessar as perseguições à Igreja no império romano pagão, mas também fazer com que o imperador começasse a edificar uma ordem temporal católica, prólogo da plenitude de catolicidade que alcançaria o Estado medieval.

Início este, diga-se, por vários lados verdadeiramente glorioso. Pela liberdade franqueada à Igreja, pelo fim dos cultos pagãos, e por esse ideal de unidade social católica que desabrocharia nos esplendores da Cristandade européia, os quais perdurariam ao longo de séculos.

Portanto, pela sua oração, pelo exemplo de suas virtudes, Santa Helena esteve na raiz de uma série de realizações gloriosas, de idéias grandiosas, de princípios que repercutiriam mesmo após o ocaso do Sacro Império Romano Alemão, até os nossos dias. Razão pela qual nos é particularmente cara a devoção a essa grande santa.

Oração que conduz à ação eficaz

Chamo a atenção para esse ponto acima mencionado: as orações de Santa Helena. É necessário compreender aqui o equilibrado do papel dessa oração.

Com efeito, seria equivocado imaginar que, uma vez recitadas as preces, não adianta fazer coisa alguma. Basta rezar e deixar as realizações concretas ao beneplácito da Providência. Às vezes, quando as vicissitudes o impõem, não se pode pretender outra coisa. Porém, é apropriado esperar que a oração nos mova à ação que realiza o fim almejado. E desse teor foram as preces de Santa Helena.

Enquanto a mãe rezava, o filho lutava e agia. Constantino, protegido pelo socorro do Céu, levando no seu lábaro o emblema de Nosso Senhor Jesus Cristo, combateu e alcançou a vitória. Em seguida, agiu vigorosamente, com a força temporal do Estado, para libertar a Igreja e extinguir os restos do paganismo.

 Creio ver nessa circunstância o equilíbrio perfeito entre oração e ação. Santa Helena reza, e sua oração é acompanhada certamente de atitudes e palavras evangelizadoras junto ao filho, e este cuida dos meios materiais para concretizar aquilo que, sem dúvida, sua mãe desejava realizar. A oração é a razão mais fecunda do desencadear dos fatos; os fatos produzem os frutos da prece atendida.

Aquela que tirou das entranhas da terra o Santo Lenho

Cumpre considerar, ainda, este outro e não menos belo florão na vida de Santa Helena: foi ela que encontrou a verdadeira Cruz, um acontecimento cercado de milagres e dádivas especiais de Deus. É o Santo Lenho do qual se espalharam relíquias para serem veneradas pelos fiéis do mundo inteiro.

Que glória para essa mulher ter sido, ao mesmo tempo, a mãe do primeiro imperador cristão e aquela que tirou das entranhas da terra a verdadeira Cruz, com todos os benefícios espirituais oriundos dessa descoberta!

Então admiramos ainda mais o vulto dessa Santa, conhecemos melhor a estatura dessa alma, um grande tipo de mulher que vive só para Nosso Senhor. Matrona de espírito elevado e de horizonte largo, compreendendo as coisas a partir dos seus aspectos mais sublimes e de maior alcance. E que, por causa dessa envergadura espiritual, transforma um Império e dá ao mundo o presente imensamente grandioso da verdadeira Cruz de Cristo. 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 18/8/1964)

17 de agosto – O maravilhoso na vida de Santa Clara de Montefalco

Santo Estevão – Perfeito guerreiro e devoto de Nossa Senhora

Muito maiores que as belezas do universo material são aquelas existentes nas almas dos Santos. A vida de Santa Clara de Montefalco está repleta de maravilhas. De tal modo ela amou a Cruz do Redentor que, após sua morte, em seu coração foram encontrados símbolos de instrumentos usados na Paixão de Nosso Senhor: cravos, coroa de espinhos, lança, açoite, esponja, coluna; e até mesmo três pequenas esferas representando a Santíssima Trindade.

Vamos considerar uma ficha a respeito da vida de Santa Clara de Montefalco.

Admirável virgindade

Santa Clara de Montefalco nasceu no ano de 1268 em Montefalco, cida-de da Úmbria, na Itália, e morreu em 1308. Ela conservou, durante toda sua vida, um grande ardor na oração. Na idade de cinco anos, compreendendo os perigos da vida no mundo, ela pediu a sua irmã, Joana, para admiti-la na pequena comunidade que essa irmã Joana dirigia, e que seguia as regras da Ordem Terceira de São Francisco. E a irmã só atendeu a esses pedidos ao cabo de um ano.

Uma vez, na idade de nove anos, ela deixou, ao dormir, seu pequeno pé nu sair da cama. A sua irmã Joana, que observou, a repreendeu, e lhe disse que isso não era conveniente a uma virgem. A pequena Clara teve tanto pesar que, depois disso, ela sempre envolvia muito estreitamente seus pés, antes de dormir.

Mais tarde, ela não permitiu nem sequer às religiosas de tocá-la com a mão. Ela recomendava às suas filhas nunca descobrir seu próprio corpo, mesmo na obscuridade. Ela observava isso tão estritamente para si mesma, que nunca quis mostrar ao médico nenhuma parte de seu corpo sem um véu.

Ela dizia também que as virgens não devem ter familiaridade nem com homens, nem com mulheres casadas, porque essa integridade perfeita dá a imortalidade ao corpo, que embalsamado pela flor da virgindade é preservado, assim, de toda corrupção.

Com a morte de sua irmã, Joana, ela foi eleita abadessa, e preencheu esse cargo com tanta prudência que jamais o demônio pôde alcançar êxito em enganá-la, por qualquer artifício que fosse. Como ele tinha observado que ela era muito assídua na contemplação da Paixão de Jesus Cristo, apareceu-lhe uma vez sob a forma de um crucifixo, com o corpo completamente descoberto a fim de despertar nela, por essa via, pensamentos ignóbeis. Mas a virgem reconheceu a arma escondida do adversário e deu risada. O demônio, furioso, desapareceu.

Deus lhe deu uma tal inteligência das coisas divinas que ela ousou combater uma heresia de seu tempo, participando de discussões, onde ela convenceu publicamente um de seus adeptos de mentira e de dissimulação.

Ela conhecia o pensamento oculto das pessoas e, por vezes, tinha o dom de profecia.

Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele mesmo, veio uma vez lhe dar a Comunhão.

Após a morte, seu corpo permaneceu incorrupto

Ela teve, certo dia, um ligeiro movimento de impaciência em relação a uma irmã, que lhe assegurava que, apesar de seus esforços, não encontrava nenhuma suavidade na oração.

Não foi necessário mais do que isso para que ela fosse imediatamente privada, ela mesma, de toda consolação, acabrunhada de penas interiores. A noite de alma em que ela foi mergulhada não durou uma semana, nem um mês, mas onze anos inteiros. Depois dessa noite espiritual, o Divino Sol inundou sua alma com sua imortal claridade, e ela se viu elevada por uma concatenação de êxtases, parecendo pertencer mais ao Céu do que à Terra. Nesse estado ela ouvia o concerto dos Anjos, via o Menino Jesus na manjedoura do pobre estábulo de Belém, os Magos ajoelhados para adorar o Menino Jesus.

Certo dia, ela ouviu essas palavras dos lábios de Nosso Senhor:
— Venha Clara, venha! Tua vinda me será agradável.
— Senhor — respondeu ela — eu desejaria me dissolver para me unir a Vós.
— É preciso esperar mais um pouco, minha filha. Teu dia não chegou — respondeu o Senhor.

Uma outra vez o Senhor lhe apareceu na figura de um peregrino, carregando uma cruz sobre os ombros, e lhe disse:

— Minha filha, procurando o que poderia te oferecer de mais agradável a teu coração, me pareceu que minha Cruz seria a coisa que mais te conviria. Recebe-a, oscula-a e dá-me teu coração, a fim de que possas morrer para a Cruz, sobre a Cruz.

Ela morreu no ano de Nosso Senhor de 1308, no dia seguinte da Assunção, na idade de quarenta anos. Seu corpo foi enterrado em seu mosteiro, onde repousa ainda hoje. Conservado inteiro, e com a carnatura flexível como se acabasse de ser sepultado ontem, seu corpo é branco como o alabastro. Sua completa conservação foi constatada de novo sob o pontificado de Pio IX, de feliz memória.

Em seu coração, os instrumentos da Paixão

A santa alma de Clara, deixando seu corpo, nele fixou sinais evidentes de sua glória. E como as irmãs conhecessem sua terna devoção para com a Paixão, e tinham ouvido Clara dizer várias vezes, antes de sua morte, que ela carregava Jesus Cristo crucificado em seu coração, elas foram tomadas de desejo de se inteirarem exatamente desse fato, antes de confiar seu corpo à terra. Decidiram, portanto, fazer a autópsia e examinar o mistério de seu corpo; constataram, antes de tudo, que seu coração estava muito inchado e tinha o tamanho da cabeça de uma criança pequena. Demais, uma região estava completamente dura.

Segundo os médicos, é impossível a uma criatura humana viver nesse estado. Abriram o seu coração e nele encontraram, naturalmente em ponto pequeno, os instrumentos da Paixão. Uma irmã dividiu o coração em duas partes, e sua mão foi tão feliz que nenhum dos instrumentos da Paixão que ali estavam foi atingido. As irmãs, profundamente surpresas e felizes, deram graças a Deus pelo fato.

Na parte direita apareceu marcada a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, preso à Cruz, mais ou menos da grossura do polegar. Nosso Senhor tinha os braços estendidos, a cabeça inclinada à direita, avançando um pouco sobre os ombros. O flanco direito era lívido com a chaga aberta e sangrando. Em torno dos rins havia um tecido manchado de sangue. Havia também, nessa parte do coração, três nervos aos quais estavam presos três pregos duros e pontudos, um deles notavelmente maior que os outros. Por cima dos pregos, um nervo cor de ferro, terminado em ponta dura. Essa ponta era aguda, penetrava como ferro, e representava a lança com a qual Longinos tinha transfixado o flanco do Salvador.

Enfim, na mesma parte do coração, estava ainda uma bola de nervos menores, representando a esponja com a qual o fel e vinagre foram tornados presentes a Nosso Senhor. Na parte esquerda se encontravam os açoites: eram cinco nervos entrelaçados com muitos nós e reunidos por um cabo comum. Depois do açoite se encontrava um nervo maior, representando a coluna da flagelação, cercada por nervos sangrando, figurando as cordas com as quais o Senhor foi ligado. Por cima da coluna, a coroa de espinhos, formada por nervos entrelaçados como espinhos duros e pontudos. Todas essas insígnias, ainda que formadas de carne, eram duras como os instrumentos reais da Paixão de Nosso Senhor.

Quando as religiosas viram todas essas maravilhas e consideraram uma a uma com respeito e admiração, elas informaram — na ausência do Bispo de Spoleto — ao seu vigário Béranger, que fez um exame minucioso e pôde se inteirar da realidade do que acaba de ser dito. Ele espantou-se, sobretudo com o fato de que esses instrumentos, separados do coração, tinham toma-do consistência pela dureza da madeira e da pedra. Várias dessas insígnias foram postas nas mãos do Papa João XXII, quando ele fez o exame da vida de Clara, para a beatificação.

Símbolo da Santíssima Trindade

As irmãs recolheram o sangue que corria do coração, quando ele foi aberto e o puseram em uma ampola de vidro.

O sangue difundiu, nesse momento, um odor suave. Ele permaneceu coagulado até hoje. E quando uma tempestade grave ameaça a Igreja, vê-se que esse sangue se agita e se põe em ebulição, o que significa a cólera de Deus.

A região endurecida foi aberta igualmente e examinada pelos médicos. Ali encontraram três pequenas esferas, cor de cinza e manchadas de vermelho; eram todas as três da mesma grossura e do mesmo peso, duras como sílex, e colocadas em forma de triângulo. Elas representavam manifestamente o mistério da Santíssima Trindade; eram absolutamente iguais umas às outras em tudo. O que causa maior admiração é que cada uma dessas bolas era exatamente do mesmo peso que as outras duas.

Isso é mais notável, porque parece uma contradição: pondo numa balança de duas conchas as três bolas, cada vez que se punha uma bola separada, ela pesava tanto quanto as outras duas. Isso é altamente teológico, porque é outro modo de exprimir que as três Pessoas da Santíssima Trindade são tão iguais entre si, que não se pode dizer que duas valham mais do que uma. O que é o auge, o suprassumo da igualdade.

E ao ser colocada numa das conchas da balança uma das bolas e, na outra, uma pedra ou qualquer objeto de peso igual, e que se acrescentasse as outras duas esferas na balança, onde já havia uma, a balança permanecia imóvel como na primeira operação.

Sem dúvida, um verdadeiro milagre.

Era um sinal manifesto da Santíssima Trindade; una quanto à essência, diversa quanto às Pessoas. Uma das três bolas partiu-se por si mesma no momento em que a França, maculada pela heresia de Calvino, causou tantos males à Igreja.

Santa Clara de Montefalco foi canonizada por Leão XIII, no dia 8 de dezembro de 1881.

O universo é repleto de maravilhas

Trata-se de uma vida toda ela feita para causar certo arrepio no homem contemporâneo. Enquanto estava lendo, olhei meus ouvintes com os olhos do espírito, quer dizer, com o conhecimento que tenho do homem de nossos dias, e me pareceu que, para além da ficha que eu lia, sentia no ar algumas vozes se levantarem dentro de alguns — que quero crer não tenham dado consentimento a essas vozes — dizendo interiormente o seguinte:

“Mas como pode ser uma coisa dessas? Como é possível tanta maravilha, uma em cima da outra? Isso deve ser inventado, porque uma maravilha, vá lá; duas maravilhas, vá lá; mas cinquenta maravilhas acumulando-se uma em cima da outra sobre essa freira! Manifestamente, tantas maravilhas juntas não pode ser.”

Eis a curteza de vistas a que o positivismo leva o homem contemporâneo. A mania de só tomar em consideração a realidade concreta, e a ideia de que a maravilha é algo excepcional; que o normal das coisas é que elas não sejam maravilhosas, e que já é puxado aceitar uma maravilha; é duro demais aceitar duas, ou três, ou cinco…

Precisamos compreender até que ponto essa ideia é absurda.

O universo que nos cerca é cheio de maravilhas. Cada estrela é uma maravilha. Olhem para o céu: quantas estrelas percebemos? Deus, que fez tantas maravilhas, realizou ainda maiores para ilustrar a alma de alguns Santos. Tudo quanto existe foi criado para a santificação do homem.

Ora, para santificar os homens, terá Deus feito maravilhas maiores do que os Santos, que eram objeto de todas essas maravilhas? Quer dizer, o meio foi melhor do que o fim? O poder, a sabedoria e a bondade de Deus foram mais extraordinários nos instrumentos do que na realização da meta deles?

Num mundo opaco, horrendo, trágico, conspurcado e abandonado…

Tornando mais clara a argumentação:

Tudo quanto existe no universo visível foi criado para a santificação do homem. Não tem outra razão de ser. Portanto, estrelas e todas as outras maravilhas são belas a fim de que o homem tenha uma ideia da perfeição e da beleza divinas, para que assim santifiquem os homens. Logo, tudo isso não é senão um meio para a santificação. O meio tendo sido tão maravilhoso, o fim precisa ser muito mais maravilhoso, porque seria um absurdo Deus fazer o meio mais belo do que o fim. O meio é sempre inferior ao fim.

Se é assim, Ele há de ter posto nas almas dos Santos maravilhas incomparavelmente maiores e mais numerosas do que as que vemos em torno de nós. Portanto, é muita mesquinharia de espírito, lendo uma vida de Santo, dizer: “Deus não há de ter feito tanta maravilha para uma só pessoa.”

Pois se Ele fez tantas maravilhas para a pessoa ficar santa, não faria maiores ainda no realizar a santidade dessa pessoa, que é o ponto terminal da operação d’Ele? Quem pode pôr isso em dúvida? Que um ateu duvide, compreende-se. Mas que um católico ponha isso em dúvida é o auge do irracional.

Isso nos leva a uma outra consideração, a meu ver muito importante. Eu a formulo da seguinte maneira:

Devemos compreender que é por causa desse mundo revolucionário, dos pecados que temos cometido, do castigo divino em relação a esse mundo, que Deus se ausenta dele e deixa–o como está: opaco, horrendo, trágico, conspurcado e abandonado. Esse é o mundo do qual se retirou o amor de Deus, e que está entregue à sua cólera.

Então, não se notam hoje as maravilhas de outrora. Mas antigamente, quando as maravilhas de Deus apareciam num mundo a quem Ele amava e que amava a Deus, isso tudo tinha qualquer coisa de paradisíaco e a Providência era muito mais larga com sua generosidade, com sua bondade, do que é nos dias de hoje, em relação aos filhos da Revolução.

De maneira que devemos ter o espírito pronto para a seguinte ideia: É verdade que na atual ordem da Providência, a maravilha, o milagre é uma exceção. Mas não é algo tão raro quanto se pensa. Ademais, coisas maravilhosas não claramente milagrosas são muito mais frequentes do que se pensa. É questão apenas de se ter uma alma sedenta de maravilhas, crendo que estas podem ser numerosas e que Deus as multiplica ao longo de nossos passos. Pedindo-as e desejando-as muito, o Altíssimo fará as maravilhas em nós também. Sermos sedentos de maravilhas, maravilháveis, tornará maravilhosas as nossas almas. E Deus poderá fazer também por nós coisas que Ele realizou por Santa Clara de Montefalco.

…Nossa Senhora fará maravilhas ainda maiores

Assim nós devemos abrir os horizontes de nossas almas enormemente; e tomar outra envergadura; ter o espírito completamente voltado para uma outra dimensão, outro sistema de medir as coisas. E compreender que rezando, pedindo, esperando, desejando, nós poderemos receber incomparavelmente mais do que aquilo que conseguiríamos imaginar.

De algum modo nosso Movimento é isso. Eu estou lhes narrando, aos sábados, a história de nosso Movimento, e verificamos que ocorreram coisas as quais no começo da estacada se reputavam impossíveis. Estão feitas. Se o impossível está realizado, não há limite para o impossível. A partir do momento em que esta sineta colocada sobre minha mesa, por si mesma, se suspenda cinco centímetros, é igualmente fácil que ela chegue até a Lua. O primeiro ponto é ela levantar os cinco centímetros. Mas se há um poder sobrenatural que a ergue cinco centímetros, para esse poder não é nada levantá-la acima de todas as coisas da Terra; e não é nada levá-la até a Lua, ou a qualquer outro astro. A questão é levantar os cinco primeiros centímetros.

Nossa Senhora levantou os “cinco primeiros centímetros” na história de nosso Movimento. E é preciso reconhecer que nós fizemos força em sentido contrário…

Essa é talvez a maior das maravilhas: a aeronave subiu com muita gente dentro chorando de saudades da Terra, e olhando pela janelinha, dizendo adeus para círculos mundanos, pulando para ver se a aeronave não subia. A aeronave subiu cinco centímetros. Se nós aproveitarmos bem lições como essa, o que há de maravilhoso na vida de Santa Clara de Montefalco, então compreenderemos bem quanto é de esperar que Maria Santíssima faça ainda mais maravilhas muito maiores. Essa é a lição que a vida de Santa Clara de Montefalco nos traz.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 7/12/1973)

16 de agosto – Santo Estêvão, Rei Apostólico

Santo Estevão – Perfeito guerreiro e devoto de Nossa Senhora

A Igreja, vista na sua totalidade, possui uma harmonia de aspectos opostos, mas afins, que mostra toda a sua beleza. Santo Estêvão foi um exemplo dessa harmonia: incomparável em toda forma de misericórdia, mas por isso mesmo um homem forte, combativo, que lutou intrepidamente pelo bem.

 

As fichas a serem comentadas hoje versam sobre a vida de Santo Estêvão, Rei da Hungria, retiradas do livro Vida dos Santos, de Rohrbacher(1).

Particular devoto da Santíssima Virgem

Santo Estêvão é o grande monarca a cujo Batismo se deveu a conversão da nação húngara, até então pagã. O que Clóvis foi para a França, ele significou para a Hungria, com a imensa diferença de que Clóvis se converteu, mas ficou muito longe de ser um santo. Enquanto, pelo contrário, Estêvão foi um verdadeiro santo. Também os descendentes imediatos de Clóvis não foram santos, mas Santo Estêvão teve um filho canonizado: Santo Américo, sucessor de seu pai no trono real.

Esta primeira ficha nos traz um dado especial sobre Santo Estêvão: sua devoção a Nossa Senhora.

Santo Estêvão sempre manifestou predileção particular pela Santíssima Virgem. Por meio de um voto especial, colocou sua pessoa e seu reino sob a proteção de Nossa Senhora. Quanto aos húngaros, ao referirem-se à Mãe de Deus, não Lhe davam o nome de Maria, ou qualquer outro; diziam apenas “A Senhora” ou “Nossa Senhora”. À simples menção dessas palavras, inclinavam a cabeça e dobravam o joelho.

O santo rei mandou construir em Alba Real magnífica igreja em honra da Rainha do Céu. Os muros do coro eram ornados de esculturas, o piso de mármore, possuía várias mesas de altar de ouro puro, enriquecidas de pedrarias, e um tabernáculo para a Eucaristia maravilhosamente trabalhado. O tesouro estava repleto de vasos de ouro e prata, cristal e de ricos paramentos.

Santo Estêvão sempre desejou, pedindo mesmo em suas orações, que sua morte ocorresse no dia 15 de agosto, Assunção da Santíssima Virgem. Sua vontade foi satisfeita. Antes de expirar, erguendo as mãos e os olhos, exclamou: “Rainha do Céu, Co-Redentora do mundo, é ao vosso patrocínio que entrego a Santa Igreja, com os bispos e o clero, o reino com os grandes e o povo”; e, tendo recebido a Extrema-Unção e o Santo Viático, rendeu a sua alma.

Guerreiro e juiz

A segunda ficha apanha outro aspecto da personalidade dele: Santo Estêvão, guerreiro e juiz.

À piedade e ao zelo de um apóstolo, Santo Estêvão da Hungria juntava a coragem de um guerreiro e herói. Nas instruções a seu filho, Santo Américo, ele próprio observa que passara quase toda a sua vida na guerra, repelindo invasões de nações estrangeiras. Logo que subiu ao trono, ainda duque – ele foi duque até o momento de se converter, quando o Papa o elevou à dignidade de Rei da Hungria –, procurou manter a paz. Porém, dirigidos pelos fidalgos, seus súditos, ainda pagãos, revoltaram-se. Pilhavam cidades e campos, matavam seus oficiais e insultavam o próprio Duque.

O Duque Estêvão reuniu suas tropas e, levando nos seus estandartes a imagem de São Martinho e São Jorge, marchou contra os rebeldes que sitiavam Veszprém. Tendo-os derrotado, consagrou suas terras a Deus.

Em 1002, tendo seu tio Gyula, Duque da Transilvânia, atacado a Hungria por várias vezes, Estêvão marchou contra ele, fê-lo prisioneiro, assim como sua família, e juntou seus Estados à monarquia húngara. Venceu e matou com as suas próprias mãos Kean, duque dos búlgaros. Com o mesmo êxito repeliu os bessos, povo vizinho da Bulgária. Mas sua justiça igualava seu valor. Atraídos por sua fama, sessenta bessos da nobreza deixaram sua terra, levando com eles famílias e riquezas, e vieram pedir ao santo Rei permissão para se estabelecerem no Reino da Hungria.

Os fâmulos de um comandante de fronteira, levados pela cobiça dos despojos, atacaram-nos de improviso matando alguns, ferindo outros, e arrebatando os seus bens. Santo Estêvão deu ordem para que o comandante e suas tropas se apresentassem na corte. Ao defrontá-los, recriminou-lhes a desumanidade e comunicou-lhes que faria o mesmo com eles. Imediatamente mandou-os enforcar dois a dois em todas as avenidas do reino, a fim de que todos soubessem que a Panônia estava aberta aos estrangeiros e que nela encontrariam hospitalidade e proteção.

A Civilização Católica é a fonte de todo bem e de toda grandeza temporal

Aqui encontramos essas verdadeiras maravilhas da Igreja Católica sobre as quais jamais será suficiente insistir. Quando nos deparamos com uma acusação à Igreja, devemos procurar sua unilateralidade. Porque, em geral, tratando-se de uma acusação histórica, entra uma mentira; sendo uma acusação doutrinária, há uma unilateralidade. Os adversários da Igreja não querem tomar em consideração que ela, vista na sua totalidade, tem uma harmonia de aspectos opostos, mas afins, que faz toda a beleza da Esposa de Cristo. Aliás, também no universo, os contrários harmônicos constituem a beleza da ordem criada por Deus. Não se pode possuir verdadeiramente o espírito da Igreja se não se têm os olhos voltados para esta verdade e o espírito enlevado com ela.

Essas duas fichas nos dão a fisionomia completa de Santo Estêvão e, portanto, da Igreja que o canonizou. Porque quando a Esposa de Cristo canoniza alguém, declara que esse Santo teve perfeitamente o espírito dela. De maneira que cada Santo, a seu modo, é uma imagem do espírito da Igreja. Assim, se raciocinarmos com uma lógica elementar, com um bom senso primário, encontramos a plena justificação de ambos os aspectos na vida de Santo Estêvão.

Primeiro, o aspecto varonil e enérgico. Santo Estêvão está às voltas com inimigos irredutíveis que o odeiam por não ser pagão, querem depô-lo porque ele deseja trazer a luz do Evangelho para seu povo, e por isso se revoltam contra ele, dentro do reino, ou marcham de fora para o interior de seus domínios para exterminá-lo e eliminar a porção da nação húngara que já aderiu à verdadeira Fé. Esses homens são esses invasores, revoltosos, os inimigos da salvação eterna do povo húngaro.

Ao mesmo tempo, são inimigos da soberania do povo húngaro, do direito que tem esse povo de escolher a verdadeira Fé, de atender ao apelo de Nosso Senhor Jesus Cristo, dessa liberdade que o homem tem quando obedece a Deus.

Portanto, Santo Estêvão via seu povo atacado nos seus bens espirituais mais altos, porque a Fé é a fonte de todos esses bens, e agredido na sua própria soberania, no que ela tem de mais importante, porque o distintivo da soberania de uma nação é a mesma coisa do que o selo da liberdade de um homem: consiste em, sem embaraços, poder obedecer e servir a Deus. Essa é a própria definição de liberdade. Negar ao povo húngaro essa liberdade era recusar-lhe a sua soberania no que ela tem de mais essencial. Significava, ademais, comprometer o progresso do povo húngaro, porque a Civilização Católica, correspondendo inteiramente aos princípios da ordem natural e dando ao homem as forças sobrenaturais para obedecer aos princípios dessa ordem, é a fonte de todo bem e de toda grandeza temporal. De maneira que querer afastar a Fé católica de um país é desejar mantê-lo num paganismo abjeto e impedir seu verdadeiro progresso. Logo, tudo quanto consistia para a Hungria uma razão de ser e de viver estava empenhado nessa luta de Santo Estêvão.

O centro da resistência de um país era o rei

Naquele tempo a alma e o centro da resistência do país era o rei. O modo de desmantelar essa resistência era matar o monarca. Se um rei pagão pretendia eliminar Santo Estevão, não era belo, simbólico e nobre que o Rei santo o eliminasse com sua própria espada e suas próprias mãos? E que assim a infâmia cometida por um sangue régio fosse reparada pela fidelidade de outro sangue régio? Isso não é conveniente e bonito? Santo Estêvão cumpriu seus deveres de soberano, defendendo assim seu povo e a Santa Igreja Católica.

Por que ele agiu de um modo tão enérgico com os indivíduos que mataram e roubaram essas pessoas que iam se asilar na Hungria? Elas pertenciam à própria nação do rei que ele tinha morto, ou que ia matar. Eram pessoas de categoria que, descontentes com o rei pagão, querendo se converter, passavam com seus rebanhos e suas economias para o território da Hungria. Elas chegam à fronteira – naturalmente desejavam se batizar – e pedem: “Nós queremos ingressar no reino de Estêvão e no reino de Cristo. Pedimos licença para entrar impunemente nós e os nossos.” Consulta-se o Rei, o qual diz: “Podem entrar, eu dou garantias para as pessoas e para os bens.” Abrem a fronteira e elas entram com toda a confiança, deixando as armas de lado – naquele tempo todo homem, sobretudo o chefe de família, era um guerreiro.  Mas aparecem uns bandidos infames que assaltam, matam algumas pessoas para serem donos dos haveres. São assassínios vulgares, agravados pelo aspecto da traição. Então, Santo Estêvão, que punia com pena de morte um assassinato comum, não haveria de mandar castigar esses homens? Alguém dirá: “Mas eles foram muitos.” Prova a mais de que se devia punir com pena de morte. Porque, se são muitos os criminosos, isso prova que o povo não está muito distante da prática desses crimes. E então é necessário punir para que o crime não se repita. O fato de serem muitos é uma prova a mais de que precisava punir.

Praticou a justiça e a misericórdia ao mesmo tempo

Ele cumpriu o dever inerente à majestade régia. O rei tem os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. É o supremo juiz do país. E os antigos, aliás muito acertadamente, consideravam o Poder Judiciário mais alto do que o Legislativo. Porque as Leis fundamentais são feitas por Deus. E o rei é o juiz que julga de acordo com as Leis fundamentais. O monarca não possui a plenitude do Poder Legislativo, enquanto o Poder Judiciário ele tem no sentido de que aplica a Lei de Deus. Então, Santo Estêvão agiu perfeitamente bem.

Esse homem podia, portanto, quando rogava para Nossa Senhora, dirigir-se a Ela com o espírito completamente tranquilo, com a consciência inteiramente distendida. E verdadeiramente chamá-La de Mãe de Misericórdia, implorar a compaixão d’Ela porque ele usou de misericórdia. Ao castigar essa gente, Santo Estêvão foi misericordioso para com os que eram ou poderiam vir a ser vítimas desses homens maus, se não fossem intimidados; quer dizer, ele praticou a justiça e a misericórdia ao mesmo tempo. Então, nós deduzimos daí que Santo Estêvão agiu perfeitamente bem.

Temos, então, a imagem do perfeito guerreiro e devoto de Maria. Incomparável no perdoar, no estimar, em toda forma de misericórdia, mas por isso mesmo homem forte, valente, que passou o tempo inteiro na luta.

Fisionomia do combatente católico por excelência

Lembro-me de que certa vez, conversando com um senhor de uma lógica muito estrita, muito clara, com base em premissas extremamente pobres e limitadas, abrangendo sempre uma parte infinitesimal do horizonte, ele me dizia:

“Eu não gosto do livro Imitação de Cristo. Li e não compreendo, porque se eu fosse fazer constantemente o que está ali – voltar o outro lado do rosto, não tomar em consideração o mal que os outros nos fazem, perdoar sempre, etc. –, eu me deixaria roubar, saquear! É a conclusão lógica da Imitação de Cristo.”

Pensei com os meus botões: Para esse homem não há explicação possível. Ou lhe faço um simpósio, que de nenhum modo ele quer ouvir, ou ele não pode entender isso, porque se colocou previamente fora das perspectivas necessárias para essa compreensão.

É preciso exatamente compreender que a Imitação de Cristo foi escrita para um ambiente no qual esses princípios que apresentei eram claríssimos, e havia até a tendência a exagerar o lado belicoso. Então, a Imitação de Cristo constituía uma nota dentro de um concerto, ou seja, a insistência em uma das vias que, conjugada com a outra, dá a perfeição da Moral Católica.

Sem dúvida, sempre que possível é preferível perdoar, praticar a mansidão e não a violência. Mas não sendo possível é preciso arregaçar as mangas e lutar!

Nisso se vê nossa fidelidade aos princípios da Igreja Católica, pelo auxílio e bênção de Nossa Senhora. Por vezes, as pessoas não compreendem o desassombro com que enfrentamos o que imaginam ser a opinião pública. De outro lado, não entendem também como somos corteses, gentis, amáveis e nunca tomamos a iniciativa do ataque. Entretanto, quando atacados, damos uma surra! É a fisionomia do combatente católico por excelência: enquanto não me agridem, não agrido. Porém, ai de quem me agredir, porque saio “com um quente e dois fervendo!”(2) É uma pequena aplicação do que acabamos de ver na vida de Santo Estêvão.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/9/1971)

 

1) Cf. ROHRBACHER, René François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959. vol. XV, p. 423, 428-430 e 442.

2) Antiga expressão popular portuguesa, significando aqui uma reação imediata e indignada.

16 de agosto – Santo Estevão – Perfeito guerreiro e devoto de Nossa Senhora

Santo Estêvão, Rei Apostólico

Assim como cada indivíduo, também o Estado deve praticar os Dez Mandamentos. Ele existe, antes de tudo, para servir à Igreja e favorecer o Reino de Deus. Esse princípio foi praticado eximiamente por Santo Estevão, e constitui o fundo das concepções políticas de Dr. Plinio.

Santo Henrique, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, se interessou pela conversão do povo húngaro, e destinou para isso a sua irmã Gisela, cujo casamento ele promoveu com o rei pagão daquele povo. Pela ação de Santo Henrique, da Rainha Gisela e de pregadores santos que foram para a Hungria, foi possível converter o rei, e com a conversão dele se tornou mais fácil a conversão dos húngaros. Este rei foi Santo Estêvão.

O enorme império dos maometanos

A Hungria passou a ser um baluarte da Cristandade no Ocidente. Nação de um papel muito importante, porque o que são hoje os comunistas para a Cristandade de nossos dias, para a Cristandade até começo do século XVIII — certamente desde o século VII até o século XVIII, portanto, mais de mil anos — foram os maometanos.

Estes, que eram na sua maioria árabes, também conseguiram trazer para seus erros os turcos. Os maometanos ocupavam a metade do litoral mediterrâneo. Além de todo o Norte da África, chegaram a conquistar durante algum tempo quase toda a Espanha, parte da França até Poitiers e grande parte de Portugal. Posteriormente, no Oriente Próximo, eles ocuparam os Lugares Santos, tomaram Constantinopla e algumas zonas territoriais adjacentes, chegaram até a Albânia, a qual, ainda hoje, é mais ou menos maometana. Isso formava, então, um império enorme.

O Mediterrâneo, considerado naquele tempo o centro do mundo — Mediterrâneo, “no meio da Terra” —, estava dividido, portanto, em dois blocos: um grande bloco católico, que tomava todas as nações da Europa, também a Espanha depois que ela foi reconquistada; e o maometano, que abrangia o Norte da África, regiões da Ásia e uma parte dos Bálcãs. Os dois blocos estavam numa contínua guerra de caráter religioso, numa constante fricção.

E os pontos de ataque mais frequentes foram, nos dois extremos de Europa: a Península Ibérica, onde está a Espanha e Portugal e, de outro lado, a Hungria. Os maometanos subiam em hordas, a partir de Constantinopla, e o intuito deles era de chegar à Hungria, depois até a Áustria, tomar Viena e posteriormente descer à Itália para ocupar a Sé de São Pedro.

O Imperador Bajazet, que foi talvez o mais famoso dos chefes maometanos, dizia que ele queria fazer o seu cavalo comer no altar de São Pedro, como numa manjedoura. E os povos que aguentavam, do lado do Ocidente, a invasão maometana eram o espanhol e o português, que se tornaram famosos por causa de seu heroísmo.

Um povo-baluarte

Não focalizamos bastante o papel que tinham nesse ponto os húngaros. Estes, precisamente, suportavam a pressão maometana, para defender o Ocidente na Europa oriental, do outro lado do alicate, ou da tenaz maometana. E com batalhas heroicas, guerras, santos lutando do lado deles, com milagres, etc., algo que pode legitimamente ser comparado, nos seus pontos altos, ao heroísmo dos espanhóis e portugueses contra os maometanos.

A conquista desse povo-baluarte, ao qual a Europa deveu em grande parte a sua integridade contra as investidas maometanas, e que também soube resistir muito bem ao protestantismo — a Hungria era uma nação de fortíssima maioria católica, apenas uma parte dela passou para o protestantismo —, a conversão dos húngaros teve, portanto, uma série de consequências para a História do Ocidente, para a História da Cristandade.

Tudo começou com a conversão de Santo Estêvão e se consolidou com o reinado de Santo Américo, filho de Santo Estêvão e educado por ele.

Tudo quanto diz respeito e esses primórdios da Cristandade na Hungria nos deve interessar profundamente. Então, comentarei uma ficha(1) que nos fala do modo pelo qual Santo Estêvão instruiu seu filho, Santo Américo, na arte de governar.

”Ninguém deverá aspirar à realeza se não for católico fiel”

Santo Estêvão deixou para seu filho, Santo Américo, uma instrução em dez artigos, sobre a maneira de bem governar.

Esses dez artigos são como que florões que deviam ornamentar a coroa real. O primeiro desses florões é o seguinte. Diz Santo Estêvão:

Como ninguém deverá aspirar à realeza se não for católico fiel, demos o primeiro lugar das nossas instruções à nossa santa Fé. Recomendo-vos, antes de tudo, meu querido filho, se quiserdes ilustrar a coroa real, professar com tanta firmeza a Fé católica que possais servir de modelo aos súditos, e fazer com que todos os filhos e ministros da Igreja vos reconheçam como verdadeiro cristão. Pois aquele que professa uma falsa crença, ou que, professando a verdadeira, não a pratica em suas obras, esse não reinará com glória nem participará do Reino eterno. Porém, se conservardes o escudo da Fé, tereis o capacete e o elmo da salvação. Com essas armas podereis combater legitimamente os inimigos visíveis e invisíveis, pois disse o Apóstolo: “Só será coroado aquele que combater legitimamente.” É esta a Fé a que me refiro — relembra o Símbolo de Santo Atanásio.

Se, pois, alguém sob o vosso domínio procurar dividir, diminuir ou aumentar essa Trindade Santa, ficai ciente de que é filho da heresia e não filho da Santa Igreja. Evitai, pois, seja alimentá-lo, seja defendê-lo, sob pena de parecerdes seu amigo e querer favorecê-lo, pois as pessoas dessa espécie contaminam os filhos da Santa Fé; sobretudo perderiam e corromperiam miseravelmente esse novo povo da Santa Igreja. Velai, acima de tudo, para que tal não aconteça.

Primeira tarefa do rei: ser bom católico

Santo Estêvão se refere a um Credo chamado “Símbolo de Santo Atanásio”, que se conserva até hoje na Igreja, contendo as principais verdades da Fé. Ele, então, deixa ao filho esse Credo e diz que contém a verdadeira Fé católica. Se alguém quiser acrescentar ou tirar algo desse Credo, seja maldito. Porque o acréscimo não será feito pela Igreja, mas por uma iniciativa puramente individual e contra o espírito da Esposa de Cristo. A sua redução é uma mutilação da obra da Igreja.

Só quem pertence verdadeiramente à Igreja merece apoio do rei. Aquele que não é filho da Igreja, que não aceita o Credo católico, não deve ser apoiado pelo monarca; o rei não deve nem alimentá-lo, nem ajudá-lo em nada, mas sim isolá-lo e isolar-se dele, porque o herege contamina aquele que tem Fé. E seria uma tristeza que esse reino novo, nascido há pouco da Fé católica, se contaminasse com a heresia.

E Santo Estêvão acrescenta que a primeira tarefa do rei é ser bom católico. A finalidade do reino é de ser um reino católico. E por causa disso o monarca, por cima de tudo, há de dar provas de que ele é um bom católico, respeitar os ministros do Altíssimo, amar o povo de Deus; ele deve ser o chefe deste povo de Deus na luta.

Se for bom católico, continua Santo Estêvão, então ele terá glória como rei. Se for mau católico, não terá esta glória e vai acabar se perdendo, porque só tem salvação aquele que adota a verdadeira Fé católica.

Procurar antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça

Esse princípio é muito verdadeiro. Os países, como os indivíduos, têm obrigação de crer em Deus, servi-Lo e amá-Lo sobre todas as coisas. Um país é comparável a um indivíduo, pois constitui o que se chama uma pessoa jurídica. Essa pessoa tem as mesmas obrigações do indivíduo. Um país, coletivamente, o Estado, tem a obrigação de conhecer e professar a Fé católica. E assim como cada um de nós tem por principal missão nesta vida praticar a Fé e propagá-la, o Estado tem como primordial missão ser instrumento da Igreja para a difusão da Fé católica.

Antes de cuidar de finanças, boa administração, diplomacia, exércitos, ou de qualquer outra coisa, o Estado deve tratar de, dentro de suas próprias fronteiras, servir a Igreja Católica, favorecer a influência dela por todos os meios que estejam ao alcance do poder temporal; e perseguir os inimigos da Igreja, ajudar os amigos dela, fazer com que todos os instrumentos do poder público sejam utilizáveis pela Igreja para influenciar o país.

Se o Estado fizer isso, alcançará todas as outras coisas, pois se aplica a ele o mesmo que Nosso Senhor Jesus Cristo disse aos indivíduos: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.”

Quer dizer, se em algum lugar um rei faz todo o possível para servir a Igreja, ele terá realizado o resto; possuirá bons súditos e será amado por eles. O bom súdito é corajoso, leal, bom pagador de impostos, ordeiro, trabalhador, tem grandeza de alma, amor ao maravilhoso, idealismo, entusiasmo pelo sublime, produz uma grande cultura, uma grande civilização. A questão é ser bom católico.

Se, pelo contrário, não é bom católico, não produz nada que preste.

A verdadeira felicidade está muito mais nos bens da alma do que nos do corpo. E abaixo da virtude, o primeiro bem da alma é o equilíbrio mental. A prosperidade de quem não é católico, com desequilíbrios, maluqueiras, crimes, não é verdadeira prosperidade. É preciso procurar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas serão dadas de acréscimo.

Santo Estêvão e Santo Américo foram profundamente venerados pelos húngaros de todos os tempos que se seguiram a eles.

Santo Estêvão recebeu uma coroa enviada pelo Papa, e que até hoje se venera na Hungria como sendo o símbolo do poder. E, com a coroa, foi outorgado pelo Sumo Pontífice a Santo Estêvão o título de Rex Apostolicus — Rei Apostólico —, porque ele tinha feito um tão magnífico apostolado, a Hungria estava de tal maneira como uma ponta-de-lança apostólica voltada para as nações bárbaras, a fim de convertê-las e jugulá-las, que mereceu este título. E com um privilégio que nenhum rei da Terra tinha: em toda parte onde ele fosse, podia ser precedido por um dignatário que levava diante dele a Cruz de Cristo. E era tão elevado esse título de Rei Apostólico, que os imperadores da Áustria, até o último deles, que também eram reis da Hungria, se chamavam “Vossa Majestade Imperial Apostólica”, porque o Rei Apostólico era o Rei da Hungria.

O Estado existe para favorecer a Igreja

O que é melhor para um rei: ter esse prestígio ou uma polícia supermoderna, com espias, com escutas, etc.? É evidente que esse prestígio vale mais do que todas as polícias. Significa dominar as almas, influenciar pelos corações. E quem destrói um poder espiritual? Ninguém.

Dou uma prova lindíssima disso: houve um rei que, na Boêmia, teve o papel de Santo Estêvão na Hungria; foi São Venceslau. Até hoje a estátua de São Venceslau está no centro de Praga e não houve comunista que ousasse abatê-la. Os comunistas acabaram com tudo, fecharam as igrejas, e até prenderam o clero. Na estátua de São Venceslau ninguém tocou. E até hoje, quando há movimentos de protesto contra o regime comunista, a estátua de São Venceslau amanhece cheia de flores. É a marca deixada num povo por um rei que procurou antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça, e, por isso, todas as coisas lhe foram dadas por acréscimo.

Quem me analisar encontrará no fundo de minhas concepções políticas esta ideia, esta doutrina católica de que o Estado existe, antes de tudo, para servir a Igreja e favorecer o Reino de Deus; e, quando ele realiza esta missão, torna-se grande em todos os sentidos e debaixo de todos os pontos de vista.

(Extraído de conferência de 17/1/1970)

1) Não possuímos referências bibliográficas da obra citada.
2) Mt 6, 33.

15 de agosto – A grande alegria de Maria Santíssima

A grande alegria de Maria Santíssima

Costuma-se representar Nossa Senhora com o Coração transpassado por sete gládios, símbolo das sete principais dores pelas quais sua alma santíssima passou.


Eu gostaria de ser pintor para representar a Mãe de Deus subindo ao Céu com seu Imaculado Coração à mostra e dos gládios saindo raios refulgentes. Porque essa era a grande alegria d’Ela: os tormentos sofridos, as lutas aceitas.
Também vai ser a nossa. Quanto mais sofrermos, mais devemos nos lembrar da glória e alegria que teremos na passagem desta Terra para o Céu e, sobretudo, na visão beatífica pelos séculos dos séculos.
Peçamos a Maria Santíssima, nesta festa de sua Assunção, que essas considerações tenham vida em nossas almas.


(Extraído de conferência de 15/8/1966)

15 de agosto – Assunção de Maria: triunfo de Deus, glória da Criação

Assunção de Maria: triunfo de Deus, glória da Criação

Os homens costumam realizar magníficas cerimônias de triunfo para festejar seus heróis. De modo superexcelente, por ocasião da Assunção, Nosso Senhor Jesus Cristo preparou para sua Mãe momentos de glória inexcogitáveis.

A Assunção de Nossa Senhora foi constituída em dogma pelo Papa Pio XII há poucos anos. Esse dogma foi ardentemente desejado pelas almas católicas do mundo inteiro, por ser mais uma das afirmações a respeito d’Ela que A coloca fora de paralelo com qualquer outra mera criatura, justificando o culto de hiperdulia que a Igreja Lhe tributa.

Suave morte seguida da ressurreição

Nossa Senhora, depois de uma morte suavíssima, qualificada com uma linguagem muito bonita pelos autores como a “dormição”, para indicar que, apesar de ter sido uma morte verdadeira, entretanto, mais pareceu um simples sono; Ela, depois da morte, ressuscitou como Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi chamada à vida por Deus e subiu depois aos Céus, na presença de todos os Apóstolos ali reunidos, e de uma quantidade muito grande de fiéis.
A Assunção representa para a Santíssima Virgem uma verdadeira glorificação aos olhos de toda a humanidade até o fim do mundo, e o prêmio que Ela deveria receber no Céu.

Momento sublime, espetáculo incomparável

 

 

Seria interessante se pudéssemos fazer uma recomposição de lugar para imaginarmos, à nossa maneira e de acordo com nossa piedade, como a Assunção se passou, uma vez que a respeito dela não existem descrições, havendo uma multidão de aspectos que poderiam ser representados.
Nossa Senhora subindo e, em baixo, os Apóstolos ajoelhados, rezando, com algo de inefavelmente nobre, sublime, recolhido, interior; todos eles com as expressões dos personagens de Fra Angélico. Em cima, o céu enchendo-se gradualmente de Anjos, também ao modo de Fra Angélico. O céu material tomando coloridos os mais diversos, com matizações, irradiações magníficas, de maneira tal a apresentar um espetáculo absolutamente incomparável.
Se Nossa Senhora pôde dar ao céu um colorido tão magnífico, tão diverso e produzir fenômenos tão excepcionais em Fátima, por que o mesmo não se teria dado por ocasião de sua Assunção ao Céu?
Ela, em oração, Se coloca de pé; o respeito e recolhimento tomam conta de todos os que estão ao redor; a semelhança física d’Ela com Nosso Senhor Jesus Cristo vai crescendo, vai se acentuando cada vez mais.

A glória de Nosso Senhor transfigurado vai se comunicando a Ela, cada vez mais Rainha, cada vez mais majestosa, cada vez mais Mãe também. Todo o seu íntimo se manifestando de modo supremo nesta hora de despedida. Alguns Anjos se aproximam, talvez os mais esplêndidos do Céu, e acompanham Nossa Senhora. Ela vai subindo…

Aos poucos o Céu vai se transformando, aquela maravilha vai mudando. A terra volta ao aspecto primitivo, os homens retornam às suas casas com a sensação que tiveram após a Ascensão de Nosso Senhor: ao mesmo tempo maravilhados e com uma saudade sem nome; desolados por algum lado, mas levando na retina algo que nunca tinham visto, nem podiam ter imaginado a respeito de Nossa Senhora.
É impossível pensar neste triunfo terreno, sem pensar no celeste que veio logo depois.

A glória da Rainha, prelúdio do Reino de Maria

 

 

O triunfo de Nossa Senhora começa no Céu! A Igreja Gloriosa inteira vai recebê-La, todos os coros de Anjos, São José, Nosso Senhor Jesus Cristo A acolhe, Ela é coroada pela Santíssima Trindade.
É a glorificação de Nossa Senhora aos olhos de toda a Igreja Triunfante e Militante. Com certeza, neste dia a Igreja Padecente teve uma efusão de graças extraordinárias, e não é temerário pensar que quase todas as almas do Purgatório tenham sido libertadas por Ela. De maneira que também ali houve uma alegria enorme. Assim podemos imaginar como foi a glória dessa nossa Rainha.
Algo disso se repetirá, creio eu, quando vier o Reino de Maria.
No momento em que o mundo estiver transformado e a glória de Nossa Senhora brilhar sobre a Terra, terá começado o reinado d’Ela de modo efetivo, e os dias maravilhosos de graças, como nunca houve antes, começam a se anunciar.
Antes de contemplarmos a glória de Nossa Senhora no Céu, nós haveremos de contemplá-la na Terra, certamente, com algo que poderá nos dar, com uma tal ou qual analogia, com alguma semelhança desse triunfo sem nome que deve ter sido, mesmo aos olhos dos homens, a glória de Maria.
Houve triunfos que os homens prepararam para seus grandes batalhadores, por exemplo, quando as tropas francesas, que venceram os alemães, desfilaram sob o Arco do Triunfo, depois da Guerra de 1914-1918. Quando pensamos no triunfo preparado para o MacArthur1; em tantos triunfos que os romanos preparavam para os seus generais vencedores. Assim, devemos compreender que Nosso Senhor Jesus Cristo, que é infinitamente mais generoso, deve ter premiado Nossa Senhora, no triunfo d’Ela aos olhos dos homens, de um modo incomensuravelmente maior, e que deve ter havido tudo quanto há de mais glorioso e triunfal nesta hora da Assunção de Nossa Senhora.

O senso da glória de Maria

Meditando nisso, aproximamo-nos da festa da Assunção, pensando qual virtude devemos pedir a Nossa Senhora. É claro que cada um deve pedir aquela de que mais carece. Mas não haveria demasia em pedirmos a Ela uma virtude em específico: o senso da glória d’Ela, para compreendermos bem tudo quanto representa sua glória na ordem da Criação, e o quanto esta é a mais alta expressão criada da glória de Deus. Devemos ser sedentos de afirmar e defender – por uma virtude de combatividade levada ao seu último extremo –, a glória de Nossa Senhora na Terra.
Que Ela faça de nós verdadeiros cavaleiros, verdadeiros cruzados d’Ela, lutando por sua glória na Terra. Essa me parece a virtude mais adequada a pedir nesta festa de glória, que é a Assunção de Nossa Senhora. 


(Conferência de 14/8/1964)

1) Douglas MacArthur, oficial militar norte-americano (*1880 – †1964) que desempenhou um papel preponderante durante a Segunda Guerra Mundial.

15 de agosto – Confiança e alegria

Confiança e alegria

Neste mês em que a Igreja celebra a realeza de Maria Santíssima, reveste-se de particular propriedade a recomendação que, com desvelada insistência, Dr. Plinio dirigia a seus discípulos para confiarem sem limites na Rainha e Mãe de Misericórdia:

“Ao discorrer sobre o pecado, São Francisco Xavier dizia ter mais temor, não da queda em si, mas do desânimo em relação à indulgência divina no qual pode cair o pecador após cometer a falta.

“Ora, a maneira de não incorrermos nesse desânimo é nos lembrarmos da Mãe inesgotavelmente misericordiosa que temos. E em possuindo essa misericórdia inexaurível, Nossa Senhora nos alcança as graças para nos emendarmos, e sua clemência se exerce perdoando, contemporizando, regenerando.

“De sorte que nunca será demasiado insistir: confiemos, confiemos e confiemos na Santíssima Virgem. Lembremo-nos sempre da extrema meiguice e da extraordinária condescendência de nossa Mãe para com as misérias de cada um de nós, individualmente considerado, e como, imbuídos dessa confiança, na oração da ‘Salve Rainha’ A honramos enquanto Soberana do universo, mas, ao mesmo tempo, A invocamos como Mãe, e Mãe de Misericórdia.

“Importa termos continuamente presente essa ideia da insondável clemência de Nossa Senhora, pois qualquer devoção, qualquer vida de piedade que não a tenha, corre o risco de ser completamente estiolada. Sem esta noção da misericórdia de Maria nada caminha, nada se realiza. Pelo contrário, tudo anda e cobra vigor com a ideia dessa providência indizivelmente suave, materna e contínua de Nossa Senhora sobre cada um de nós.

“Portanto, pensemos nessa verdade e procuremos cumular nossa alma de confiança e de alegria, pois quem possui uma Mãe assim não tem razão para se desesperar nem se abater com nada.”

Nossa Senhora tudo resolve, desde que nos voltemos para Ela. Devemos pedir-Lhe sempre o seu amparo, recordando-nos daquela sentença de Santo Afonso de Ligório: “Quem reza se salva, quem não reza, se condena”. Aquele que pretendesse passar a vida praticando atos de virtude sobre atos de virtude, porém sem rezar, primeiro não passaria a vida praticando atos de virtude e, segundo, acabava se perdendo. Por outro lado, quem vive no pecado mas reza, este ainda é capaz de se salvar.

“Supliquemos muito à nossa Mãe de Misericórdia que tenha pena de nós. Olhemos para as nossas dificuldades espirituais, para os nossos problemas de apostolado, para as nossas necessidades da vida quotidiana e roguemos com insistência o auxílio de Maria Santíssima. Ela nos atenderá infalivelmente. O Coração Imaculado de Maria é a porta na qual, em se batendo, nos é aberta; ao qual, em se Lhe pedindo, nos é dado. Na Mãe de Misericórdia a promessa do Evangelho se realiza com toda a integridade: [pedi e recebereis, batei e ser-vos-á aberto (Mt 7,7)].

“E se me permitam dizer, não receio mentir garantindo-lhes: rezem, peçam, e serão atendidos.”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 16/11/1964)

15 de agosto – Assunção de Nossa Senhora

Assunção de Nossa Senhora

Quando ascendeu ao Céu, Maria pôde contemplar os coros angélicos e a multidão de bem-aventurados que A receberam em festa. Considerações de Dr. Plinio manifestando seu encanto com a Assunção de Nossa Senhora

Devoção às alegrias de Nossa Senhora

Era costume entre os antigos reportar-se às alegrias da Santíssima Virgem. Essa era uma devoção bastante difundida, a ponto de um dos santuários marianos mais famosos do Brasil, o de Guararapes, em Pernambuco, ser dedicado a Nossa Senhora dos Prazeres.

Na vida de Nossa Senhora notamos inúmeros movimentos de alegria. O mais insigne deles é evidentemente o Magnificat.

Porém, nenhuma das alegrias que a Santíssima Virgem teve nesta vida foi tão grande quanto à da sua Assunção.

Após a dormitio(1), Maria ressuscitou no apogeu de seu estado físico, mas também no auge de sua vida espiritual, pois a maturidade do corpo e a maturidade da alma se relacionam.

No dia de sua Assunção, Nossa Senhora estava na plenitude da santidade. Sua alma santíssima, que não deixou de progredir um minuto sequer durante toda a sua existência terrena, tinha chegado ao clímax. A Virgem Maria chegara à suprema perfeição. Possuía incomparável beleza de alma, pois estava repleta de virtude; seu amor a Deus atingira o apogeu. Essa santidade transluzia em toda a sua pessoa e Lhe dava uma beleza incomparável.

Entrada de Maria no Céu

Podemos imaginar sua alegria, sabendo que, a partir daquele momento, entraria no Céu com corpo e alma. Passaria por um cortejo incontável de Anjos, que prestariam a Ela homenagens como nunca nenhuma rainha deste mundo, nem de longe, recebeu. E Ela compreendia a natureza de cada Anjo, sua luz primordial(2), a graça recebida por cada um, seu amor a Deus, e o amor de Deus para com cada um deles. Maria Santíssima tinha o conhecimento perfeito da hiperdulia que as miríades de Anjos Lhe prestariam. E Ela, tendo uma alegria completa por cada um desses louvores, sabia que os merecia, porque tinha sido a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu espelho fidelíssimo.

Imaginemos que um Anjo da guarda aparecesse para um de nós e dissesse: “Meu filho dileto, você é extraordinário! Sobre você pousam todas as minhas complacências. Você é inteiramente digno de minha benevolência.” Esta pessoa teria grande tentação de vaidade. Um elogio desses, feito por uma natureza angélica, imensamente maior do que a nossa, é algo inebriante…

Sendo mera criatura humana, Nossa Senhora estava recebendo o amor entusiástico de todos os Anjos, e a corte que durante milhares de anos tinha esperado sua Rainha ficou transformada em algo lindíssimo, porque Ela estava chegando. A beleza do mundo angélico não atingira toda a formosura para a qual fora criado, porque era preciso que uma criatura humana o governasse. Nossa Senhora coroava com uma perfeição altíssima a beleza do Céu.

Certamente, Ela deve ter se encontrado com as almas santas que tinham subido ao Céu após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem dúvida encontrou-se com São José, com quem permutou uma saudação cheia de respeito e afeto sobre a qual nem sequer podemos ter idéia. Como deverá ter sido a alegria da alma de São José ao rever Nossa Senhora?

Beleza do transluzimento da santidade em Nossa Senhora

Maria Santíssima crescia continuamente em graça e santidade, por isso, quando chegou a hora de sua morte, Ela era muito mais santa do que quando São José morreu. Quando ele A viu ressurrecta, repleta de toda a santidade que deveria atingir segundo os planos de Deus — e que de fato Ela atingiu —, notou que a santidade transluzia em toda a sua pessoa com uma beleza incomparável. Com que veneração São José, afinal, via Nossa Senhora em corpo e alma, cujo esplendor era ainda maior do que Ela possuía na Terra!

São Joaquim e Santa Ana, sendo pais de Nossa Senhora, devem certamente ter tido o privilégio de assistirem, a partir de um lugar de destaque o ingresso d’Ela no Céu. Sabemos que os pais têm uma propensão natural por seus filhos, sobretudo quando são excelentes pais. Afinal, era justo que, tendo dado Maria Santíssima ao gênero humano, assistissem de um lugar especial a sua entrada no Céu.

Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, deveriam estar ali presentes. Depois de verem tantas desgraças causadas por seu pecado, puderam contemplar o remédio concedido por Deus para solucionar esse pecado, fazendo nascer Nosso Senhor Jesus Cristo e glorificando de tal maneira a Mãe Imaculada do Redentor.

Podemos ainda imaginar o desfile maravilhoso das almas eleitas e dos Anjos que A receberam no Céu, por assim dizer gradualmente, num como que desfile esplêndido, cantando hinos de glória. E, afinal, todo o paraíso celeste pondo-se a cantar, enquanto Ela sobe até o trono da Santíssima Trindade.

Por fim, a Assunção chega ao seu auge: a coroação de Nossa Senhora como Rainha dos Anjos e dos Santos, do Céu e da Terra, pela Santíssima Trindade. Houve então uma verdadeira festa no Céu. Não é uma hipérbole, mas uma festa autêntica, em termos e modos que não podemos imaginar. Foi o mais alto grau de alegria que possa haver. Ela foi coroada por ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Filha do Padre Eterno e Esposa do Divino Espírito Santo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 15/8/1966 e 1/11/1975)

1) A morte d’Ela foi tão leve que se compara a uma dormição.
2) Dr. Plinio assim designava o conjunto de virtudes ou atributos divinos que cada Anjo, ou cada alma, é especialmente chamado a conhecer e amar.

15 de agosto – Assumpta est Maria, gaudent angeli!

Assumpta est Maria, gaudent angeli!

Quando ascendeu ao Céu, Maria pôde contemplar os coros angélicos e a multidão de bem-aventurados que A receberam em festa. Considerações de Dr. Plinio manifestando seu encanto com a Assunção de Nossa Senhora

 

Devoção às alegrias de Nossa Senhora

Era costume entre os antigos reportar-se às alegrias da Santíssima Virgem. Essa era uma devoção bastante difundida, a ponto de um dos santuários marianos mais famosos do Brasil, o de Guararapes, em Pernambuco, ser dedicado a Nossa Senhora dos Prazeres.

Na vida de Nossa Senhora notamos inúmeros movimentos de alegria. O mais insigne deles é evidentemente o Magnificat.

Porém, nenhuma das alegrias que a Santíssima Virgem teve nesta vida foi tão grande quanto à da sua Assunção.

Após a “dormitio”(1), Maria ressuscitou no apogeu de seu estado físico, mas também no auge de sua vida espiritual, pois a maturidade do corpo e a maturidade da alma se relacionam.

No dia de sua Assunção, Nossa Senhora estava na plenitude da santidade. Sua alma santíssima, que não deixou de progredir um minuto sequer durante toda a sua existência terrena, tinha chegado ao clímax. A Virgem Maria chegara à suprema perfeição. Possuía incomparável beleza de alma, pois estava repleta de virtude; seu amor a Deus atingira o apogeu. Essa santidade transluzia em toda a sua pessoa e Lhe dava uma beleza incomparável.

Entrada de Maria no Céu

Podemos imaginar sua alegria, sabendo que, a partir daquele momento, entraria no Céu com corpo e alma. Passaria por um cortejo incontável de Anjos, que prestariam a Ela homenagens como nunca nenhuma rainha deste mundo, nem de longe, recebeu. E Ela compreendia a natureza de cada Anjo, sua luz primordial(2), a graça recebida por cada um, seu amor a Deus, e o amor de Deus para com cada um deles. Maria Santíssima tinha o conhecimento perfeito da hiperdulia que as miríades de Anjos Lhe prestariam. E Ela, tendo uma alegria completa por cada um desses louvores, sabia que os merecia, porque tinha sido a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu espelho fidelíssimo.

Imaginemos que um Anjo da guarda aparecesse para um de nós e dissesse: “Meu filho dileto, você é extraordinário! Sobre você pousam todas as minhas complacências. Você é inteiramente digno de minha benevolência.” Esta pessoa teria grande tentação de vaidade. Um elogio desses, feito por uma natureza angélica, imensamente maior do que a nossa, é algo inebriante…

Sendo mera criatura humana, Nossa Senhora estava recebendo o amor entusiástico de todos os Anjos, e a corte que durante milhares de anos tinha esperado sua Rainha ficou transformada em algo lindíssimo, porque Ela estava chegando. A beleza do mundo angélico não atingira toda a formosura para a qual fora criado, porque era preciso que uma criatura humana o governasse. Nossa Senhora coroava com uma perfeição altíssima a beleza do Céu.

Certamente, Ela deve ter se encontrado com as almas santas que tinham subido ao Céu após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem dúvida encontrou-se com São José, com quem permutou uma saudação cheia de respeito e afeto sobre a qual nem sequer podemos ter ideia. Como deverá ter sido a alegria da alma de São José ao rever Nossa Senhora?

Beleza do transluzimento da santidade em Nossa Senhora

Maria Santíssima crescia continuamente em graça e santidade, por isso, quando chegou a hora de sua morte, Ela era muito mais santa do que quando São José morreu. Quando ele A viu ressurrecta, repleta de toda a santidade que deveria atingir segundo os planos de Deus — e que de fato Ela atingiu —, notou que a santidade transluzia em toda a sua pessoa com uma beleza incomparável. Com que veneração São José, afinal, via Nossa Senhora em corpo e alma, cujo esplendor era ainda maior do que Ela possuía na Terra!

São Joaquim e Santa Ana, sendo pais de Nossa Senhora, devem certamente ter tido o privilégio de assistirem, a partir de um lugar de destaque o ingresso d’Ela no Céu. Sabemos que os pais têm uma propensão natural por seus filhos, sobretudo quando são excelentes pais. Afinal, era justo que, tendo dado Maria Santíssima ao gênero humano, assistissem de um lugar especial a sua entrada no Céu.

Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, deveriam estar ali presentes. Depois de verem tantas desgraças causadas por seu pecado, puderam contemplar o remédio concedido por Deus para solucionar esse pecado, fazendo nascer Nosso Senhor Jesus Cristo e glorificando de tal maneira a Mãe Imaculada do Redentor.

Podemos ainda imaginar o desfile maravilhoso das almas eleitas e dos Anjos que A receberam no Céu, por assim dizer gradualmente, num como que desfile esplêndido, cantando hinos de glória. E, afinal, todo o paraíso celeste pondo-se a cantar, enquanto Ela sobe até o trono da Santíssima Trindade.

Por fim, a Assunção chega ao seu auge: a coroação de Nossa Senhora como Rainha dos Anjos e dos Santos, do Céu e da Terra, pela Santíssima Trindade. Houve então uma verdadeira festa no Céu. Não é uma hipérbole, mas uma festa autêntica, em termos e modos que não podemos imaginar. Foi o mais alto grau de alegria que possa haver. Ela foi coroada por ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Filha do Padre Eterno e Esposa do Divino Espírito Santo.

 

(Extraído de conferências de 15/8/1966 e 1/11/1975)

 

1) A morte d’Ela foi tão leve que se compara a uma dormição.

2) Dr. Plinio assim designava o conjunto de virtudes ou atributos divinos que cada Anjo, ou cada alma, é especialmente chamado a conhecer e amar.

12 de agosto – Santa Joana de Chantal Profundidade e desapego

Santa Joana de Chantal Profundidade e desapego

O que teria levado Santa Joana de Chantal a abandonar seus parentes, rompendo vínculos afetivos, para fundar uma Congregação religiosa de contemplativas? Dir-se-ia que da formação recebida do suave São Francisco de Sales resultariam atitudes bem diversas. A consideração de algumas características do espírito desta grande Santa e de seu formador projeta luz sobre o problema e nos ajuda a compreender os desígnios de Deus.

Santa Joana Francisca Frémiot de Chantal, que viveu de 1572 a 1641, fundou, com São Francisco de Sales, a Ordem da Visitação. Era viúva do Barão de Chantal, com quem tivera seis filhos. Depois do falecimento de seu marido, ela começou a sentir um atrativo para percorrer as vias mais altas da vida espiritual e passou, então, a ser influenciada por São Francisco de Sales(1).

Objeto de uma ”suave” formação

Este Santo, como sabemos, era famoso pela suavidade. Ele escreveu livros de vida espiritual que jamais seria suficiente elogiar, por exemplo, a “Filoteia” e o “Tratado do Amor de Deus”. Entretanto, sobre a suavidade dele muita coisa de errado se diz. Temos em Santa Joana de Chantal um exemplo a respeito do modo pelo qual ele tratava as senhoras a quem queria influenciar.

Certa ocasião, São Francisco de Sales encontrava-se com Madame de Chantal — a futura Santa Joana de Chantal — em um jantar, e ela estava muito bem vestida. Então ele perguntou-lhe: “Madame, a senhora pensaria de novo em casar-se?” E ela, um pouco assustada com a pergunta, respondeu: “Mas, Monsenhor, não!” Disse ele: “Numa casa onde não há artigo para vender, não se põe tabuleta…” Quer dizer, por que a senhora está tão enfeitada, se não quer se casar? Aí percebemos qual era a qualidade dessa doçura. O dito não deixava até de ter uma ironia bem mordiscante e beliscante!

Passou sobre o corpo de seu próprio filho

Sob o bafejo da orientação dele, Joana de Chantal foi se transformando numa grande santa. Em certo momento, ela quis adotar o estado religioso. Deu-se, então, este episódio clássico de sua vida, fruto da direção de São Francisco de Sales:

Chegado o dia de sua partida, Santa Joana, que era viúva, devia deixar os seus familiares para ir para o convento que ela ia fundar. A santa viúva, que morava com seu sogro, ajoelhou-se pedindo-lhe a bênção e que lhe perdoasse se lhe desgostara em alguma coisa, e recomendou-lhe seu filho. O ancião de 86 anos estava inconsolável, abraçou sua nora e desejou-lhe completa felicidade. Os habitantes da região de Monteron, sobretudo os pobres, acreditando que com essa partida tudo perdiam, testemunhavam publicamente a sua dor. Em Dijon, ela fortificou-se com a Santa Comunhão contra a fraqueza que ela previa aproximar-se quando da separação de seu filho.

Enfim, chegando a hora, disse adeus a todos os seus parentes. Depois, ajoelhando-se aos pés de seu pai, pediu-lhe a bênção e que cuidasse do filho que ela deixava. Monsieur Frémiot, o velho presidente do Parlamento de Bourgoin, sentia-se desfalecer. Abraçou chorando a sua filha e disse: “Meu Deus, não me compete mudar os vossos desígnios. Eu vos ofereço esta filha querida, recebei-a e consolai-me”. Depois, deu-lhe a bênção e ajudou-a a se erguer. O jovem Chantal, seu filho de 15 anos, correu para ela e prendeu-se a seu pescoço, esperando comovê-la. Não tendo êxito, deitou-se ante a porta por onde ela deveria sair e lhe disse: “Sou muito fraco, senhora, para vos reter, mas ao menos dirão que passastes sobre o corpo de vosso filho para abandoná-lo”. A santa chorou amargamente passando pelo jovem, mas instantes depois, temendo que pensasse que se arrependia de sua decisão, voltou para os que a acompanhavam e com uma face serena disse: “É preciso que perdoeis a minha fraqueza, pois deixo meu pai e meu filho para sempre, mas encontrei o meu Deus em toda parte”.

Vemos o trágico da cena! Santa Joana de Chantal era viúva, uma pessoa boníssima, cumpridora dos seus deveres de família e capaz de atrair toda a amizade, todo o afeto de uma família boa. Portanto, era muitíssimo estimada por todos os seus. Quando ela era o arrimo — do ponto de vista afetivo e não financeiro — de seu velho sogro, de seu pai, de seu filho, Deus a tocou com a graça da vocação e pediu-lhe que estraçalhasse aqueles vínculos de afeto constituídos em torno dela, para ser fundadora de uma nova família religiosa. E fundadora contemplativa, de maneira tal que não mais a poderiam ver. E ela, cuja bondade tinha criado aqueles vínculos, era chamada a renunciar a eles e, por assim dizer, destruí-los. Era uma superação de toda a vida anterior dela. Santa Joana até então tinha sido ótima, como membro de família. Deus pedia-lhe que oferecesse algo a mais do que a bondade que se tem na família, e era a bondade que se adquire adotando o estado religioso e rompendo com os laços de família, entretanto, tão santos. E então, se determina aqui uma situação trágica: ela vai abandonar seu sogro, seu pai e seu filho.

Uma cena que não se passaria hoje

Atualmente se perdeu o senso de gravidade das coisas. Se imaginássemos a mesma situação realizada hoje, teríamos uma diferença muito grande de ambientes que constituiria no seguinte: tudo se passaria com muito menos solenidade e gravidade. Não podemos supor hoje uma senhora viúva, moça, que deixe a casa paterna para entrar em um convento e que faz todo esse cerimonial antes de ir embora: ajoelha-se diante do ancião de 86 anos, pede-lhe perdão por tudo quanto lhe fez, e lhe roga a bênção; e o ancião, quase como uma figura de tragédia grega, se despede dela com lágrimas e a entrega a Deus. Depois, a despedida de seu velho pai: nova genuflexão, novas lágrimas. E por fim o lance dramático do filho, que se pendurou ao pescoço da mãe, pedindo-lhe para não entrar no convento. Ela recusou-se. Ele, então, deitou-se na soleira da porta e disse: “Já que eu não tive força para vos reter, ao menos se dirá que a senhora passou sobre o corpo de seu filho para ir para o convento”. Quer dizer, “a senhora está me abandonando!” Percebemos o trágico de todos esses lances.

Por que em nossos dias esta cena não se passaria com tanto cerimonial? Porque fomos habituados a não entrar no fundo do significado das coisas, e a nos incomodarmos somente conosco. Resultado, para o velho sogro o problema importante é o jornal que chega de manhã, o leitezinho que ele toma, a televisão, o chinelo, a saúde, os cuidados pessoais de toda ordem. Lê uma notícia sobre transplante de coração para ver se seria possível transplantar um nele, prolongando sua vida por mais 30 anos. Isso é o importante! A nora, que vai ou não para o convento, é uma coisa acessória, porque, se ela faltar, ele contrata uma enfermeira, e a vida continua do mesmo jeito.

Ademais, a ideia de ir para o convento não se reveste daquele aspecto semitrágico de antigamente. O senso da Cruz, da gravidade das coisas, o senso de toda a renúncia que significa alguém tornar-se religioso, o senso de toda a dignidade que a pessoa assume ao abraçar esse estado, daquele conúbio com Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a serenidade que traz, os espíritos perderam a noção disto. O resultado é que os grandes lances não têm mais essa acuidade, esse caráter dramático; são episódios banais.

As pessoas assistem, na televisão ou no cinema, a tantos dramas, romances, tantas despedidas, tantos reencontros, que todo mundo está saturado. Assim, os atos da vida cotidiana que teriam grandeza se esvaziam completamente.

Profundidade de espírito e amor a Deus

Então, qual é a grande lição que devemos tirar daí? Antes de tudo, considerar o espírito profundo de Santa Joana de Chantal que correspondeu à vocação, compreendeu que a família é uma instituição tal que, quando Deus lhe dá tudo, ela se supera e tende a produzir religiosos, missionários, guerreiros, apóstolos que são obrigados a se separar dela. E esta espécie de superação, por onde ela se entrega completamente, é a glória da família.

Também a profundidade de espírito desta Santa — renunciando a tudo para ser religiosa — e do ambiente de Civilização Cristã em que ela vivia, onde tudo se media, se pesava, e que, por causa disso, se revestiam de solenidade e de características próprias todos os atos da vida.

Essa profundidade de espírito prepara a alma para amar a Deus. O Reino dos Céus é dos violentos(2) , está escrito no Evangelho. O Reino dos Céus é dos profundos, pois é a violência dos profundos — tantas vezes chamados de fanáticos pela linguagem da impiedade — que agrada a Deus.

Peçamos a Nossa Senhora que nos obtenha essa profundidade de espírito, e que nosso Movimento procure incutir em seus membros, de todos os modos, essa profundidade, que é a seriedade, a abnegação, e o contrário do egoísmo, de modo a termos almas capazes de encher-se da graça de Deus, nosso Senhor, concedida pelas mãos de Maria.

Suavidade e exigência

Santa Joana de Chantal fundou a Ordem da Visitação cujas freiras são estritamente contemplativas. Encontramos nessa Ordem outro traço do espírito dela e de São Francisco de Sales: o sentido de não ter propriedade particular é levado tão longe nessa Ordem, que as religiosas se consagram a serviços comuns, por exemplo, bordados, vendidos para a manutenção delas. São Francisco de Sales, que fez essa regra com Santa Joana de Chantal, determinou o seguinte: nunca uma freira faça um bordado inteiro; os bordados são rotativos dentro da casa, para ninguém ter apego ao trabalho que fez.

Vemos como, nos últimos pormenores, foi levada longe a noção de propriedade comum para produzir o desapego completo. De tal maneira o direito de propriedade é de acordo com a natureza humana, que quando um indivíduo é chamado a um estado de vida no qual não deve possuir, é necessário um grande zelo para não se apegar à propriedade. Por isso os grandes fundadores de Ordens tomam muito cuidado para evitar qualquer forma de apego, de apropriação.

Dois aspectos dignos de nota são, em primeiro lugar, a importância das Ordens contemplativas. Numa época cheia dessas Ordens e em que havia muitas vocações para elas, São Francisco de Sales funda, com Santa Joana, mais uma Ordem contemplativa. Vemos, assim, o quanto isso é um tesouro que nunca haverá na Igreja em quantidade suficiente. Não há o que baste, desde que a Ordem seja realmente fervorosa.

Outra consideração interessante é a necessidade dessas Ordens contemplativas constituírem famílias de almas na Igreja, cada uma com seu espírito próprio, formando uma espécie de mosaico onde se vê um tom diverso em cada Ordem. Na Visitação, a suavidade, mas, de outro lado, a extrema exigência em tudo aquilo que se refere à verdadeira virtude.

Temos, assim, alguns dados que podem servir para uma meditação sobre a vida de Santa Joana de Chantal.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 21/8/1965 e 20/8/1968)

 

1) Não possuímos os dados bibliográficos da ficha lida por Dr. Plinio nesta conferência.
2) Cf. Mt 11, 12.