Como enfrentar a dor

Ao receber com alegria um pedido de seus discípulos para discorrer a respeito do amor à cruz, Dr. Plinio traça importantes diretrizes sobre como enfrentar, com Fé e entusiasmo, os sofrimentos inerentes à existência humana.

 

Nada eu desejava tanto quanto o momento em que filhos meus me pedissem o amor da cruz. Pois se nossa Obra é, de um lado, um instrumento para a conquista do Reino de Maria, de outro é uma semente desse Reino. E não tenho como autêntica essa semente, como sendo efetivamente uma semente, a não ser quando notar nela o amor à cruz.

Grandes alegrias e grandes sofrimentos

É compreensível, portanto, que ao ouvir esta semente me dizer: “Pai, para ser uma semente falta-me ainda o amor da cruz. Dai-me isto!”, eu solte um brado do fundo de minha alma!

Veio-me ao espírito o episódio ocorrido com Constantino, quando ele viu no céu aparecer uma cruz na qual estava escrita a frase “Neste sinal vencerás — In hoc signo vinces”, e pensei: “Ele não terá sentido talvez uma alegria tão viva, tão intensa, quanto sinto no momento em que ouço meus discípulos me pedirem isso”.

A cruz! O que devemos pensar a respeito dela? O que pensar sobre o sofrimento?

As épocas históricas na vida de um povo, de uma área de civilização ou, conforme o caso, na vida da humanidade inteira, são mais ou menos parecidas com as da vida de um homem.

A vida humana padrão, comum, abrange grandes alegrias e também grandes sofrimentos, que se alternam segundo uma ordem disposta pela sabedoria divina, dentro dos planos da providência geral que Deus tem para o comum dos homens, e da providência especial para aqueles que Ele chama, ama particularmente e, portanto, dá vocações especiais.

Remédios, condecorações, sinais de glória

Então as cruzes não entram apenas num aparente acaso do vaivém aparentemente cego dos acontecimentos da vida, mas elas vêm escolhidas como curativos, remédios, como condecorações, sinais de glória.

Uma por uma, elas são colocadas pela mão do Divino Pastor a rogos d’Aquela por meio de Quem nos vêm todas as graças e, portanto, todas as cruzes. Estas nos chegam em momentos nos quais muitas vezes nós não as entendemos, mas elas se apresentam e temos que suportá-las.

E, neste sentido, há épocas históricas nas quais as cruzes se apresentam para os homens fazendo com que eles sofram muito. De outro lado, existem outras eras históricas em que os homens sofrem menos. Há também épocas históricas em que a alma dos povos está mais sensível à dor, e outras eras históricas em que está menos sensível à dor.

O modo próprio de considerar o que é, ou não é, sofrimento na vida, o que alegra ou não alegra a existência, decorre dessas mutações do espírito humano que vão se dando ao longo da vida de um homem legitimamente; mas que se vão sucedendo também no decorrer da vida dos povos. E que variam no homem de acordo com as disposições do seu temperamento, mutáveis segundo os dias, as circunstâncias, a ocasião; mutáveis nos povos também conforme os dias, as circunstâncias e a ocasião.

O sofrimento é o preço da vitória

Nosso Senhor Jesus Cristo, do alto da Cruz, ofereceu um sacrifício misteriosamente superabundante. Na circuncisão Ele verteu algo do seu Sangue divino. Uma gota desse Sangue — isto é certeza de Fé — teria bastado para operar a Redenção. Mas, por desígnios d’Ele, esse Sangue foi derramado abundantemente ao longo da Paixão e no alto da Cruz.

E esse Sangue seria mais do que suficiente para remir o mundo, mas assim mesmo Ele quis de Nossa Senhora o sofrimento terrível pelo qual Ela passou ao pé da Cruz. De maneira tal que Maria Santíssima é chamada Corredentora do gênero humano. Ela teve tal participação na dor d’Ele, que aquilo compôs, por vontade de Nosso Senhor, o preço que Ele pagou.

Mas o Redentor quer que os católicos, até o fim do mundo, continuem a sofrer com Ele junto da Cruz. E que, quando os ímpios forem punidos, os católicos padeçam também, e muitas vezes sofram mais do que os ímpios e queiram esse sofrimento, porque com isso eles estão comprando a vitória.

A condição da vitória é o sofrimento. A luta tem uma grande significação para a vitória, em muito larga medida porque ela faz sofrer. Se não fizesse padecer, ela teria uma significação muito menor para a vitória. O sofrimento é o preço da vitória. E este sofrimento é tal que — tendo sido os homens resgatados pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, infinitamente precioso, e só pelo sangue d’Ele — sem embargo o Divino Salvador quer, para que isto seja inteiramente útil aos homens, que nós soframos juntos.

Um cálice resplandecente com o Sangue de Cristo

Então fica o sofrimento da Cruz, por assim dizer — a metáfora que vou indicar não é teologicamente muito correta — suspenso entre o céu e a Terra, com milhões de almas que o demônio vai tragando, e que Nossa Senhora está chamando com o seu sorriso, sua bondade, suas bênçãos; de um lado, os bons na Terra lutam por essas almas, e, de outro lado, o Inferno está avançando e conquistando.

Entre as duas cenas, imaginem suspenso num Céu maravilhoso apenas um cálice resplandecente, e dentro dele o precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; entre o mal tremendo e o remédio, é preciso que muitos homens saiam da multidão e bradem: “Senhor, caia sobre nós o vosso sofrimento, mas sobre o mundo o vosso Sangue redentor!”

Então, como que o cálice transborda, o Sangue precioso ferve, começa a extravasar e se derrama. Mas na Terra há homens que padecem cruelmente para que isto aconteça. Eles estão pagando o preço necessário para que desça esse Sangue redentor e divino.

Com o sofrimento isso acontece; sem sofrimento isso não acontece. Portanto, é preciso sofrer. E todo o entusiasmo que não conduza a esta resolução de sofrer, é vontade de festa, não de vitória; é desejo de desafogar contra o adversário nosso amor-próprio ferido, de se vingar porque ele nos fez mal, de limpar a Terra da presença abjeta dele, de cem coisas que consultam ao nosso egoísmo, não é vontade da vitória de Deus, Nosso Senhor.

A pessoa que possui vontade verdadeira da vitória d’Ele é aquela que pode dizer: “Ainda que um raio tenha que me torrar e liquidar, um incêndio me consumir, se este é o preço para que eu conquiste tudo o que deveria conquistar, eu quero!”

Não nos iludamos, o caminho, o preço, é este.

Vejo quanto Nossa Senhora visita vossas almas com consolação, com alegria, mas também com sofrimento. Percebo bem, nas ocasiões de provação, os pânicos, os desconcertos, a dor, as dificuldades.

Espero que, se encontrei um olhar sofredor, ele nunca tenha deixado de encontrar no meu olhar a consolação que eu lhe tenha querido dar. Mas é para ajudar a carregar a cruz, para exortar a que, em relação a esse sofrimento, ele seja varão, seja cristão católico! Quer dizer, meta o peito e diga: “Dor, tu és um gládio. Eu vou de encontro a ti até que o gládio me vare!”

Episódio do Horto das Oliveiras

Devemos compreender que a vida sem dor é uma espécie de “mula sem cabeça”, é a “mãe da natureza”, não tem sentido. No momento em que falta a dor, a cruz dentro do nosso panorama, é porque o panorama está mal visto.

Mas essa dor nós temos que entender como enfrentá-la!

Para compreendermos quais eram as disposições de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao longo da sua Paixão, devemos prestar atenção nos Santos que o exemplo d’Ele foi suscitando ao longo da História. Tudo quanto eles sentiram diante de suas próprias dores, Nosso Senhor sentiu de um modo infinitamente mais perfeito, e foi assim que Ele enfrentou a Cruz.

Então, quando se toma o episódio adorável do Horto das Oliveiras — episódio que entre todos me toca, porque é a hora em que Nosso Senhor mediu o tamanho do cálice e disse “Eu quero!”, e fechou este trato com o Padre Eterno: “Meu Pai, se não há outro remédio, compro por esse preço esses filhos que Vós quereis que Eu resgate e que quero resgatar. Eu aceito!” —, percebe-se que havia em Jesus a grande dor clássica d’Aquele que o Antigo Testamento chamava “Vir dolorum”(1), o Varão de todas as dores, suando sangue no isolamento, durante a noite. E isto ocorreu enquanto a cidade dormitava à espera de acordar para o grande crime; e nas trevas da noite Judas e os outros deicidas já estavam com a trama feita, e começavam a procurá-Lo para matá-Lo.

Mas havia n’Ele o entusiasmo de Carlos Magno, o ímpeto dos Cruzados, o fogo de São Luís ou de São Fernando, ou do Bem-aventurado Nun’Álvares Pereira(2) e de todos os guerreiros cristãos de todas as épocas. E também a ênfase de todos os Doutores, de todos os apologistas, a severidade de todos os teólogos, as desconfianças de todas as inquisições equilibradas e santas, o ímpeto de ação de todos os missionários; tudo isso havia neste passo decidido com que Jesus tomou a Cruz e levou-A até o alto do Calvário!

Nesta Terra ninguém escapa da dor

Nós não interpretamos Nosso Senhor por inteiro se O vemos sentado, vestindo a túnica de bobo, com a coroa de irrisão na cabeça, e não pensamos que Ele carregou essa coroa com altivez muito maior do que Carlos Magno haveria de levar a sua.

Quer dizer, todos os belos atos de virtude praticados nas vastidões da História da Igreja até agora, e até o fim do mundo, encontram sua raiz naqueles fatos da vida de Jesus, Nosso Senhor. Recompondo esses atos de virtude e remontando até a raiz, compreendemos o que nesta havia. Mais ou menos como quem toma a raiz de uma planta: se não viu a flor nem o fruto que a planta dá, não conhece o conteúdo verdadeiro da raiz.

Ora, as frutas e as flores que Nosso Senhor deu foram essas, e não medita bem na Paixão d’Ele quem não é capaz de tomar a História da Igreja hoje e remontar para trás, até os dias de Nosso Senhor, e procurar no Sagrado Coração d’Ele todos esses aspectos que ali havia de um modo superexcelente.

Nesse sentido, todo o entusiasmo, todo o fogo de São Paulo, toda a firmeza de São Pedro depois de Pentecostes, todo o amor extático de São João, tudo, até as coisas mais recentes que estão acontecendo neste momento por amor a Ele, e que nós não sabemos, reproduzem uma aceitação da Cruz de Nosso Senhor, com um aspecto moral que a santíssima humanidade d’Ele tinha no momento que Ele sofreu.

A morte. O Céu está cheio de almas que passaram pela morte, a qual é sempre uma dor. É uma dor até para as criancinhas que morrem batizadas, sem consciência; no momento de morrer, elas sofrem — às vezes doenças crudelíssimas — e aparecem logo para receber, sem julgamento, a glória do Padre Eterno. Mas levam o seu contributo: elas sofreram. A vida é assim.

Certa vez, li numa revista francesa: “On entre, on crie: c’est la vie; on crie, on sort: c’est la mort — Entra-se e geme-se: é a vida que começa; geme-se e sai-se: é a morte”. Até as criancinhas entram com a sua moedinha de dor!

Fé e entusiasmo

Vemos, então, que vil sonegador de impostos é o tipo que faz o seguinte raciocínio: “Eu não quero sofrer porque é muito duro. Quero todo o resto. Mas como não posso sonegar todos os sofrimentos que tenho diante de mim, vou padecê-los mal sofridos, meio fraudulentamente, porque, no total, quero fazer parte da parada da vitória”.

Isso não tem sentido!

Na essência, o que é entusiasmo, convicção, Fé?

Fé é uma convicção adquirida em conformidade com as leis da razão, mas de fato incutida pela graça. Esta convicção deve ser tão forte, que o homem esteja disposto a morrer por ela. Porque o homem crê, e no momento em que ele creu lhe é dado o primeiro ato de amor, mas no primeiro ato de amor vem este pedido e esta exigência: morrer por Deus, se for necessário.

Amar a Deus sobre todas as coisas é isto; amar o Criador exceto em caso de morte não seria amá-Lo acima de tudo. Então, a Fé firme gera este amor à cruz, este desejo de pagar o tributo da cruz.

O que é o entusiasmo? É uma forma tal de amor, pelo qual a pessoa não aceita o sofrimento apenas com resignação, mas tem desejo de sofrer.

No que consiste esse desejo? Em pensar do seguinte modo: “Percebo que algo eu tenho que pagar, quero pagar, e terei vergonha por não fazê-lo. Mas vejo mais: há gente que não paga e a quem Nossa Senhora ama também e quer salvar. Compreendo que, se eu sofrer, concorro para a salvação daqueles que Ela quer salvar. Então, eu quero sofrer! Quero de um querer sobrenatural e varonil, católico, apostólico, romano!” É o ato de vontade fecundo que produz de fato o sacrifício.

O entusiasmo é filho da Fé e da razão, e está baseado na constância.

Pode acontecer que, vendo uma alma que Maria Santíssima quer salvar, eu note, pelas circunstâncias, que Ela quer tanto salvá-la que, provavelmente, quando eu tiver sofrido por ela e ela for resgatada, Nossa Senhora vai amá-la mais do que a mim. Vou ficar, portanto, num segundo plano na dileção d’Aquela por Quem eu dou tudo.

Um grão de areia que faz mover um imenso astro

Por exemplo, imaginemos alguém numa cidade do Império Romano do Ocidente, já evangelizado, que vê passar pelas ruas de Milão um jovem, roçando pela idade madura, com olhar de fogo, inteligentíssimo, deita os olhos sobre ele e percebe um chamado.

Esse jovem é um devasso, tem maus costumes, e frequenta um templo herético. É alguém que recusou todas as graças.

O observador olha e diz: “Entretanto, o chamado continua. Ele será um colosso se disser sim, mas para isso Nossa Senhora quer que alguém sofra. Minha Mãe, para que ele seja mais do que eu, Vos dê uma glória que não fui chamado a Vos dar, para que Vós o ameis mais do que a mim, e para que eu, no meu desinteresse, veja a vossa predileção por ele, ame a vossa predileção e vos glorifique, eu Vos dou o que sou, tão pouco e tão zero. Quem sabe se, desta gota que sou eu, Vós tirareis o necessário para converter este homem que se chama Agostinho, tem uma boa mãe chamada Mônica e nasceu em Cartago?”

Esse observador é talvez um homenzinho que está pedindo esmola à porta da igreja, ou um pobre escravo convertido, ou um medíocre atolado no arenal da pequena burguesia, que ninguém conhece e resolve aceitar uma coisa dessas.

Ele volta para casa, está se sentindo normalmente bem e de repente sofre um ataque cerebral. Começa a cavalgata das dores e a morte que vem.

Em certo momento, pouco antes de ele morrer, um Anjo lhe aparece e diz:

— Meu filho, julgas que sou teu Anjo da Guarda. Sou muito mais do que ele. A ti foi dado um Anjo servidor e vassalo meu; eu sou o suserano de teu Anjo da Guarda. Sou o Anjo da Guarda de Agostinho, por quem morres, porque homens como Agostinho são tutelados por Arcanjos e não por Anjos. Eu venho te dizer que Agostinho está se convertendo, ele terminará a conversão no momento em que tu expirares.

E o moribundo responde:

— Mônica gerou para a Terra Agostinho; e depois o gerou o para a santidade, pelas suas inumeráveis dores e tormentos. Faltava esta pequena nulidade para se acrescentar a tudo isso. Eu fui o pequeno grão de areia que pôs a mover esse astro imenso. Morro em paz. Magnificat por Agostinho!

É preciso levar o nosso desinteresse até lá! Se não, nada feito.

Então, devemos querer que os outros sejam mais santos do que nós, desde que sejamos tão santos quanto seja o desígnio de Deus a nosso respeito.

Se quisermos ser fortes, devemos rezar e receber a Sagrada Eucaristia

Há almas a quem Nossa Senhora pede: “Meu filho, tu és feito de tal maneira, tua constituição física, psicológica, o passado que carregas nas veias e tudo o mais são tais, que te é dado agora fazer um ato de vontade de aceitação — ou rejeição —, que marcará tua vida de modo decisivo. Diga “sim”, mas diga já, de boca cheia, de coração cheio, e durante toda a vida vá dizendo “sim” cada vez mais, porque um pouco que afrouxares diminuirá o brilho de teu “sim” final. De ti Eu quero que sejas como uma trombeta profética soando cada vez mais alto, implacável na exigência consigo mesmo, até que tenhas dado o último tom, e os céus e as terras se movam porque tu tocaste a tua trombeta certa”.

Pode haver almas assim, e elas devem ter uma generosidade total desde o primeiro momento. Mas há almas que não são assim, olham para si mesmas e dizem: “Compreendo que deveria fazer isso. Enquanto Dr. Plinio está falando, estou resolvido a tudo, mas eu me conheço. Depois, vou ser fraco. Tenho força para essa virtudezinha de todos os dias, mas para a grande virtude de um grande lance, quando é que eu vou ter força? E agora, o que fazer?”

Isso é assim com todo mundo. O homem mais fenomenal que pudéssemos imaginar, o mais perfeito… em certas circunstâncias lhe faltam as forças. Nenhum homem tem forças para cumprir duravelmente os Mandamentos na sua totalidade. E, portanto, ele precisa de uma força sobrenatural, com a qual ele pode tudo.

Se ele não rezar e não pedir é um derrotado, um espaventoso, um fanfarrão. Ele poderá até se fazer passar por um herói, mas não será verdadeiramente um herói aos olhos de Deus.

Portanto, é preciso ser humilde e reconhecer isto a respeito de si mesmo e dizer: “Eu tenho que pedir, pedir, pedir, até o momento em que efetivamente seja atendido”.

Pedir como, a quem?

As primeiras “Salve-Rainhas” que rezei aos pés de Nossa Senhora Auxiliadora(3) foram porque eu me sentia pavorosamente fraco. Fui fraquíssimo, debilíssimo, e eu pensava que “salve” queria dizer “salvai-me”; não sabia que era uma saudação. Então eu a rezava com esse sentido.

Muitíssimas vezes eu ainda rezo dando à palavra “salve” o mesmo sentido ingênuo e errado, mas que corresponde ao apelo de minha alma: “Salvai-me, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança, nossa. Salvai- me agora, neste momento, nesta situação, nesta ocasião, deste modo. Salvai-me, eu vos peço, salvai-me!”

E Nossa Senhora nunca faltou.

Se quiserdes ser fortes, rezai a Salve-Rainha e alimentai-vos com o Pão dos fortes, do qual o maná não foi senão uma prefigura: a Sagrada Eucaristia.

Quem comunga e reza a Salve-Rainha torna-se forte, se desejar a fortaleza.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/9/1982)

 

1) Is 53, 3 (Vulgata).

2) Canonizado em 26/4/2009.

3) Ver Revista Dr. Plinio n. 1, p. 4-7; n. 100, p. 33-34.

A bandeira da vitória!

Ignorada por alguns, pouco comentada por outros, a história do Santo Sudário demonstra como no expirar do século XIX Deus outorgou à Santa Igreja um verdadeiro pendão da ressurreição de Cristo. A seguir, Dr. Plinio comenta o valor e o significado mais profundo deste impressionante milagre.

 

Devido ao fato de a história do Sudário de Turim ser pouco conhecida, não se dá a esta relíquia toda a veneração merecida.

 Os tesouros de outrora

Havia na Europa um pequeno ducado, chamado Sabóia, cuja capital era Turim. Os duques de Sabóia pertenciam a uma dinastia, senhora de dois Estados: Sabóia e Sardenha — uma ilha do Mediterrâneo — tinham os títulos de duques de Sabóia e reis da Sardenha.

Sendo esta uma época de Fé, nela considerava-se tesouro não apenas os metais e pedras preciosas, mas principalmente aquilo que os homens prezavam mais do que tudo: as relíquias! Entre as que pertenciam a esta casa real, figurava um longo tecido trazido para o Ocidente, o qual constava ser o Sudário, ou seja, o pano mortuário no qual o Corpo Sacrossanto de Nosso Senhor Jesus Cristo foi envolvido a fim ser colocado na sepultura, onde ficou até o momento glorioso em que, por um ato de sua vontade, ressuscitou dentre os mortos.

O Sudário será de fato autêntico?

Qual a prova de autenticidade do Sudário?

Os incrédulos levantavam inúmeras objeções quanto à autenticidade da relíquia.

Por mais que seu percurso até ao Ocidente fosse conhecido, como, entretanto, teria ela passado a fazer parte dos tesouros da casa dos imperadores do Oriente? De que modo o Sudário fora transferido dos Apóstolos para eles? Esteve de fato em poder dos Apóstolos?

Não havia provas, era uma tradição. A propensão legítima que possuíam os antigos para acreditar nas tradições, levou os imperadores de Constantinopla e os príncipes da Casa de Sabóia a prestar a devida homenagem e o devido culto ao Sudário, incorporando-o a seus tesouros.

Por determinação dos duques de Sabóia, o Santo Sudário foi colocado numa capela entre o Palácio Real e a Catedral de Turim, em um monumento de mármore, no interior de uma magnífica caixa. De fato, trata-se de uma tão preciosa relíquia que todo o ouro e toda a prata da Terra não seriam dignos de contê-la.

A fotografia revela a autenticidade do Sudário

No decorrer do século XIX surgiu a fotografia.

Pelo emprego de determinados sais de prata e diversos processos científicos, foi possível fixar sobre o papel diversas figuras das mais variadas coisas.

Em certas ocasiões o Santo Sudário era exposto à veneração dos fiéis, e numa delas um fotógrafo experiente, que havia em Turim, deliberou fotografá-lo(1). Naquele tempo, a revelação de fotografias era muito complicada e lenta, exigindo uma manipulação de certos líquidos, sais e diversos objetos, num ambiente iluminado por uma tênue luz vermelha.

Quando o fotógrafo começou a revelar o negativo, verificou que havia um vulto no tecido, e por fim a fotografia demonstrou a existência dessa figura. Assim, ficou revelada a autenticidade do Santo Sudário.

O mundo, a Cristandade e a Igreja chegaram a receber este legado verdadeiramente inestimável: uma fotografia de Nosso Senhor Jesus Cristo!

As fotografias do Santo Sudário foram difundidas em todo o orbe, causando admiração geral e grande desapontamento nos incrédulos. Foi então possível observar a evidente analogia entre a Face do Santo Sudário e a das imagens correntes de Nosso Senhor Jesus Cristo. De dentro da fotografia salta uma verdade religiosa que destrói inúmeras incredulidades de uma só vez!

O tecido da humilhação se transformou em bandeira da vitória!

A impiedade, entretanto, tem artimanhas… A polêmica feneceu a partir de 1912, 1915. Não mais se punha em dúvida o milagre. Os ateus não queriam deduzir que Jesus Cristo provadamente existiu. Contudo já não o negavam.

Por ser um argumento triunfante contra os incréus, o Sudário não era comentado. Com o passar do tempo, o tema foi sendo esquecido: vitória do Santo Sudário.

Vitória tanto mais linda quando se considera o seguinte: José de Arimateia e Nicodemos, acompanhados por São João Evangelista e as santas mulheres, adquiriram o tecido para depositar Nosso Senhor Jesus Cristo no sepulcro. Cobriram de unguentos todas as suas feridas, segundo o ritual antigo. Foi grande a quantidade de unguentos, pois — como diz a profecia a respeito de seus sofrimentos: “Do alto da cabeça à planta dos pés nada havia que estivesse são” — Ele estava completamente coberto de lesões, devido aos golpes desferidos pelos algozes. Envolvendo Nosso Senhor no tecido e levando-O para a sepultura, lacrando-a, imaginaram eles que aquele Sudário, muitos séculos depois, seria um triunfo sobre a impiedade?

O que parecia ser o pano da humilhação e da derrota, da tristeza e da dor, do desconcerto e da aflição, foi transformado em bandeira de vitória! Isso eles não podiam imaginar.

Tinham eles diante de si um fato concreto: Aquele Cristo Jesus, a Quem tinham adorado e continuavam a adorar — Ele, o Vencedor e Rei tão majestoso, diante de Quem qualquer rei da Terra não poderia tomar outra atitude senão tirar sua coroa, prostrar-se e pedir licença para tocar seus divinos pés com o diadema — havia morrido.

Nas sombras da morte

Como seria o convívio com este Varão, estando Ele vivo? Quem ousaria falar-Lhe “está frio o tempo…”? Antes de terminar a frase, já se sentiria que era uma bagatela que não poderia ser levada à presença d’Ele.

Dever-se-ia então dizer-Lhe:

“Senhor, falai porque vosso servo escuta! Fito vossos olhos divinos e vejo que aí está a Sabedoria infinita! Vós dizeis qualquer palavra e esta vale mais do que todo o ouro da Terra! Vós dais um passo à frente e percebo que sois Rei, pelo semblante com que avançais! Vós encontrais um pobre, um pecador, e Vos dirigis a ele para lhe fazer bem ao corpo e à alma! Noto tanta bondade em Vós, que me vejo de azinhavre em comparação convosco! Senhor, diante de Vós, quem pode subsistir? Sou feito para Vos olhar e para Vos adorar, por misericórdia vossa, pois não sou digno disso.”

O Rei das nações — como se considerava a Nosso Senhor cuja genealogia régia indiscutivelmente chegava até David e Salomão, os dois grandes reis de Israel — estava ali morto entre dois ladrões, acompanhado pelo séquito da dor: uma Mãe em cuja alma não havia senão o sofrimento mais pungente que se possa imaginar. Fiel a Ele, somente um discípulo! Ele que tivera tantos! Dois homens que eram “cripto-discípulos” e não ousavam mostrarem-se em público como seguidores d’Ele: Nicodemos e José de Arimateia.

Santa Maria Madalena, vertendo copiosas lágrimas, e as santas mulheres carregam aquele Corpo Sagrado, após O terem embalsamado e envolvido no Sudário, e O depositam na sepultura. Era preciso andar depressa, pois em pouco tempo começaria a Páscoa, festa entre os judeus, não sendo permitido fazer enterros nem trabalhos manuais. Eles desejavam preparar tudo lentamente, tranquilamente, elevando os olhos e a mente para o último olhar a Jesus. Entretanto, fizeram tudo com rapidez. Fecharam o sepulcro. E, excetuando Nossa Senhora, acreditavam que tudo havia terminado, pois não entendiam bem o que Ele tinha profetizado acerca de sua própria ressurreição.

A morte e a sepultura O tragaram. Sonho maravilhoso… decepção cruel! Todos choravam. Portanto, sobre o Sudário caíram talvez as lágrimas deles… e possivelmente também as de Nossa Senhora. E esse pano entrou nas sombras da morte.

Cristo, Tu venceste!

Quando o século XIX estava no auge de seu orgulho, preparando-se para transmitir ao século XX muitos frutos da Civilização — infelizmente havia algo que tornava todos esses frutos podres: a impiedade triunfante —, surgiu o Santo Sudário como uma bandeira magnífica da ressurreição! Nosso Senhor morto foi envolvido naquele precioso tecido. Entretanto quem o guardou com tanta piedade, atravessando várias centúrias, não tinha conhecimento de que aquele invólucro continha também uma prova da ressurreição de Cristo.

Seu Divino Corpo emanou sinais que marcaram o lençol e foram revelados pela fotografia! A Ciência ímpia dobrava os joelhos e dizia: Cristo, Tu venceste!

Nota-se na figura de Nosso Senhor estampada no tecido os sinais, entre outros, da coroação de espinhos. O Santo Sudário é tal maravilha e tão grande prova da existência de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua ressurreição, comprovando nossa Fé, que em todos os ambientes religiosos se deveria falar dele. Porém, o homem contemporâneo dá as costas para o Santo Sudário.

Os meios de pesquisa se desenvolveram enormemente, e os processos existentes para se verificar a autenticidade do Sudário chegaram ao inimaginável.

Ora, os equipamentos científicos indicaram que o Santo Sudário tem restos de pólen de plantas da Ásia Menor, algumas das quais não existem no Ocidente, e na data precisa em que viveu Nosso Senhor. Foi mais uma confirmação de sua autenticidade, feita pela Ciência. Com o desenvolvimento dos microscópios e outros processos complementares, tornou-se possível colher em panos antigos fragmentos mínimos de restos de flores, e polens que voam pelos ares e impregnam os tecidos. Os do Santo Sudário são de flores da Ásia Menor, do tempo de Jesus Cristo.

Uma fotografia detalhada dos olhos de Nosso Senhor revela que por sobre as pálpebras foram colocadas moedas, para mantê-las fechadas. Foi possível fotografar umas moedas cuja marca ficou no pano, e verificou-se que eram da época de Nosso Senhor.

Verificamos assim que a própria Ciência comprova até à evidência a autenticidade desse tecido sagrado.

Grandeza, poder e bondade de Deus

Entre outras perguntas de ordem científica, surgiu a seguinte: o que marcou este pano da forma como está caracterizado? Foram apenas evaporações e transudações de um cadáver?

Feita a análise, chegou-se à resposta: não! Houve, isto sim, outra força que marcou o pano e desenhou a figura.

Qual é essa força? Sabemos ser a ação triunfante, onipotente, de Deus, que pousou sobre esse Cadáver e O fez ressuscitar. Por desígnios misteriosos, Deus desejou que essa ação delineasse aquela figura no pano. Ele quis, Ele fez! Cientistas estudaram-na, concluindo ter ela três dimensões.

Relembrando nossas considerações anteriores, dizemos que o século XIX recebeu, ao expirar, enorme manifestação de grandeza, de poder e de bondade de Deus.

O Santo Sudário é como um estandarte que afirma à Santa Igreja: Tu não morrerás!

 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 28/4/1984)

 

1) O advogado Secondo Pia fotografou o Sudário em maio de 1898.

 

Firmeza, doçura e senso do dever

Ao contemplarmos o olhar de Santo Antônio Maria Claret, não é difícil perceber, ao lado de muita firmeza, uma bondade e uma doçura incontestáveis. É um homem movido por um alto senso do dever, fundado nas mais altas concepções religiosas e metafísicas. Esse varão está profundamente persuadido de que a posição por ele tomada é a certa, a Religião que ele professa e ensina é a verdadeira, de que ele é um ministro de Deus, e prega a doutrina imutável e eterna da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/10/1987)

Abraão e Isaac

Para a alma que confia na Providência, as grandes esperas são o prelúdio dos grandes dons de Deus, o prenúncio da realização das grandes promessas que lhe fez o Altíssimo. Disso nos é exemplo o patriarca Abraão: quando já centenário, Deus lhe prometeu uma descendência incontável, da qual brotaria o Messias. Nasce-lhe um filho, e o Senhor determina que o sacrifique. Abraão confia. E na hora do seu supremo heroísmo, depois de tão longa espera, recebe afinal a certeza do juramento divino: “Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu e como as areias na praia do mar” (Gn 22, 17).

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências em 23/3/70 e 17/5/1972)

Rumo as maiores belezas

Nunca nos cansamos de considerar como Deus é grande em suas obras, grande na sua Igreja, grande nas nações que existem dentro dessa Igreja. Como Ele é magnífico, e que realizações magníficas existiriam no mundo se todos os povos correspondessem às infinitas perfeições divinas que foram chamados a refletir! Que maravilha seria a face da Terra se cada país, cada indivíduo, fosse tudo aquilo que deveria ser, e a Santa Igreja pudesse desdobrar seus fulgores, de meio-dia em meio dia, sem nunca anoitecer!

Esse mundo seria possível ou é um sonho? Se toda essa multidão de homens tivesse correspondido à graça, como encontraríamos hoje a fisionomia do universo terreno? É-nos possível, de leve ao menos, conceber tamanha beleza?

Nisto penso amiudadas vezes quando contemplo monumentos em estilo gótico. Os gregos e romanos alcançaram um auge ao construir seus templos imponentes, seus arcos e colunas célebres. Sim, atingiram um ápice, porém viram surgir algo mais elevado nos horizontes da civilização ocidental ao reluzir o esplendor dos vitrais, a magnitude das catedrais, o arroubo dos sons dos órgãos, do aroma do incenso, da liturgia católica, das pompas temporais desenroladas nos edifícios sagrados, templos da Igreja Católica, nas grandes ocasiões da Cristandade!

Pergunto-me, mesmo, se Homero, Cipião, Marco Aurélio ou então o próprio Constantino entenderiam toda a magnificência do que veio depois deles, engendrado pela alma católica da Idade Média. Creio que não. Os da Antiguidade não compreenderiam aquilo que, durante séculos, comoveu o coração dos reis e dos simples, encantou a qualquer homem e mulher, ricos e pobres, camponeses que vinham das hortas em torno das cidades medievais, para ver e admirar, por exemplo, o relógio da torre da igreja ou da municipalidade dar as horas, e toda uma oficina de figuras mecânicas se deslocar e bater os sinos, enquanto os pombos esvoaçavam… Isso enchia a alma dos simples como as dos maiores.

Povos houve, naquela quadra histórica, que corresponderam à graça, disseram “sim” ao chamado divino; houve povos nos quais a distribuição da Eucaristia se fez abundante e bem acolhida; houve povos que se constituíram em nações da Civilização Cristã, e nessas, tais maravilhas se ergueram.

E quando analiso a história do estilo gótico, vendo sua última expressão que é o “flamboyant”, tão risonho, tão triunfal, tão seguro de sua grandeza, tenho impressão de um itinerário terminado. Atingiu, ele também, o seu ápice, e ali ficou. Não esgotado de cansaço, nem de moleza ou extenuação. É como um extraordinário cantor cuja laringe deu tudo o que poderia ter dado. Diante dele fica-se extasiado, admirado, mas entende-se que aquela música acabou, a partitura está cantada. O que virá depois?

Provavelmente, será gerado pela fé um estilo ainda superior, mais belo, mais magnífico. Pois, acreditamos, está na ordem das coisas postas por Deus que o bem prepara o caminho para um bem maior, a beleza prepara as vias para uma beleza mais requintada, e a verdade, para uma verdade mais profunda ou mais alta. É este o itinerário das coisas de Deus.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Perfeita humildade

Alma profundamente sapiencial, Maria Santíssima é o vaso de eleição no qual pousou o Espírito Santo, para nele gerar Nosso Senhor Jesus Cristo. E o único hino que conhecemos como proferido por Nossa Senhora em sua vida terrena — o Magnificat —é uma verdadeira maravilha de sabedoria: “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus meu Criador; porque considerou  a humildade de sua serva, por isso todas as gerações me chamarão bem-aventurada”.

É a escrava que se encanta de ser escrava, de ser pequena, de ver como Deus é infinitamente superior a Ela, e do fundo de seu nada glorifica o Senhor. É o pequeno que reconhece, com agrado, a  sua posição. O escravo não tem direitos, e está colocado abaixo da condição comum dos homens. Pois bem, Nossa Senhora se proclama escrava de Nosso Senhor Jesus Cristo, precursora de todos  os escravos espirituais que Ela mesma iria ter ao longo dos séculos. É o modelo perfeito de humildade, que ama seu lugar inferior, adorando a grandeza que a eleva.

Plinio Corrêa de Oliveira

Oração para pedir a graça do holocausto incondicional

Concedei-nos, Mãe e Senhora nossa, que assim como o guerreiro não escolhe o teatro de batalha e está disposto a fazer, em qualquer campo, o holocausto de sua vida, assim também saibamos lutar contra os inimigos — velados ou declarados — de vosso Nome e da Santa Igreja, onde quer que sejamos mandados: tanto no anonimato quanto na glória, tanto no heroísmo invisível e como que impalpável da existência prosaica de todos os dias, quanto nos lances trágicos dos acontecimentos que vossa mensagem de Fátima prenuncia.

Essa graça nós Vo-la imploramos como favor do qual não somos dignos; e se não estremecemos diante de tudo o que ela significa, é que sabemos poder confiar, com confiança sem limites, no vosso Coração Imaculado, força dos fracos, esperança dos desvalidos, refúgio e consolação dulcíssima dos humildes. Amém.

Plinio Corrêa de Oliveira (Oração composta por Dr. Plinio na década de 1960)
Revista Dr Plinio 211 (Outubro de 2015)

Sagrado Coração de Jesus:: Desejo de admirar e contempla

Revelando aspectos íntimos de seu relacionamento com o Sagrado Coração de Jesus e com Maria Santíssima, Dr. Plinio manifesta o caráter anti-igualitário dessas devoções em sua alma e na de sua extremosa mãe.

 

Outro dia veio-me ao espírito a seguinte ideia: Há pessoas que, ao rezarem, têm toda a impressão de que estão falando com um Santo, ou com Nossa Senhora, ou com Nosso Senhor Jesus Cristo, e que eles estão ouvindo e considerando, como um de nós, o que dizem. Outras têm a impressão de que há um vidro entre elas e os Santos, e que não se podem pôr propriamente na presença deles.

Profunda humildade ao rezar a Nossa Senhora

Comigo dá-se uma coisa curiosa: sinto uma superioridade muito grande dos seres celestes. E com Nossa Senhora nem se fale! Eu A sinto como no alto de uma ogiva a uma distância colossal de mim, e que assim mesmo existe certo atrevimento de minha parte em me aproximar. Aquilo que São Luís Maria Grignion diz, “petit vermisseau et misérable pécheur”(1), é bem a impressão que eu tenho.

Estou certo de que Ela me ouve, mas numa impassibilidade de ícone, e aquilo que eu digo chega lá por um eco amortecido, fraco, distante. Maria Santíssima toma conhecimento completo, mas da parte d’Ela não procede nada para mim porque não sou digno disso. É a impressão. Eu sei, teologicamente, que não é assim, e rezo com a certeza de que não é, mas a impressão é esta.

Numa ou noutra rara ocasião tenho a sensação de que Nossa Senhora, daquela distância, sorri com uma afabilidade muito grande. Mas não sei bem se sou eu que subo ou Ela que baixa. Mas sinto que a distância diminui e é como se eu falasse muito de perto com Ela. Mas é de relance. Depois restabelece aquela distância…

Não é uma distância in oblíquo, mas como se houvesse um vidro grossíssimo entre a Santíssima Virgem e eu.

Contudo, gosto muito dessa distância, porque satisfaz o meu desejo de admirar e contemplar.

Alegria em sentir-se insignificante

A tendência de minha piedade é de imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus, Nossa Senhora, todos os Anjos e Santos enormes, com distância extraordinária, por assim dizer fabulosa. E, sentindo-me muito pequeno, de algum modo nessa separação sinto uma união. É o prazer de me sentir insignificante. Aquilo me enche de contentamento, de uma alegria, de uma dedicação, de espírito filial que corresponde a um modo de ser.

Sei, teologicamente, que não há essa distância. Ela é Mãe de misericórdia, e se eu tivesse uma dúvida neste ponto, me desintegrava na hora; então nada é nada na terra de ninguém. Mas, enfim, é o modo de ser de cada um.

Por exemplo, confiança. Quando eu falo da confiança, e até de senti-la, é como se partisse daquele alto nicho um verão suave, perfumado, mas a distância continua a mesma.

Isso pode ser visto de modos diferentes, mas creio que para mim, provavelmente, é uma via.

Tudo o que estou dizendo é muito natural, não tem nada de extraordinário, é comum. Mas outro dia eu estava rezando o Rosário e isso sobreveio assim: pela primeira vez ocorreu-me rezar os mistérios do Rosário como quem estivesse junto a Nossa Senhora, comentando com Ela o que eu pensava de cada um daqueles fatos que se passaram. E um pouco como quem pergunta o que Ela teria sentido naquela ocasião. Mas achei que essa era uma situação diferente das habituais. Rezei até muito bem o Rosário assim.

Digo isso para mostrar como é uma coisa individual, que não deve ser tomada como padrão.

Desde então tenho rezado o Rosário assim, com proveito. Neste caso, vem certa impressão de proximidade d’Ela, fazendo contraste com o que acabo de dizer.

A vida consiste em cumprir os desígnios de Deus

Um corolário saudável disso é a ideia preconcebida e preestabelecida de que Deus, Nossa Senhora têm o direito de nos tratar — se pudéssemos nos exprimir assim, sem blasfêmia — do modo mais “despótico” que se possa imaginar, permitindo que nos aconteçam as coisas aparentemente mais irracionais, mais arbitrárias e mais pungentes. Isso é inteiramente natural, porque corresponde a essa desproporção. Portanto, não temos que reclamar, nem estranhar, nem alegar direitos, nem nada disso.

Um aspecto que me impressionava em mamãe era notar como se davam os acontecimentos mais imprevistos e, debaixo de certo ponto de vista, mais ilógicos, e ela os tomava como se fossem a coisa mais natural do mundo.

Mamãe não tinha direitos a alegar perante Deus. Ele era Senhor dela, como de todas as criaturas, podendo fazer o que bem entendesse. Ela sabia que isso correspondia a desígnios de misericórdia d’Ele. Mas existe aquele mistério: Nosso Senhor Jesus Cristo pediu para se afastar o cálice d’Ele “se possível”. Ora, para Deus tudo é possível! É um mistério, porque Deus quis que o holocausto fosse até lá. E da parte do Divino Redentor, a plena submissão, como quem dissesse: “Diante de vossos desígnios absolutos, de vossos direitos, de vossa sabedoria Eu Me dobro. Dai-Me apenas forças”. Isso eu notava em Dona Lucilia muitíssimo.

Ela rezava com muito afeto, e sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora, era muito impregnada de ternura. Mas ela rezava com muito empenho quando queria obter as coisas. Entretanto se não as obtivesse, era com uma naturalidade, uma paz de alma, a maior do mundo!

Naquela fotografia em que mamãe tem aproximadamente 50 anos de idade, ela está cheia disso. Encontra-se na voragem da dor, mas não pergunta a Deus por quê. É assim e deve ser assim. Há um desígnio de Deus e a vida consiste em cumprir os desígnios de Deus. E, portanto, se é assim não se discute. O que é uma posição fundamentalmente anti-igualitária.

Estado de espírito de Dona Lucilia em relação a Deus

Mas eu tenho visto gente que é protuberantemente o contrário disso, e em quem percebo laivos de atitudes deste gênero: “Eu peço a Deus, mas Ele, lá nas coisas d’Ele, a mim não atende. Atende a todo mundo, mas não a mim. Ele comigo faz o contrário do que eu queria que acontecesse”.

Não era esse, absolutamente, o estado de espírito de Dona Lucilia. Esse estado de espírito de um terceiro em relação a Deus, que cobra, invectiva, alega direitos, não está naquela fotografia, em nada!

Mais ainda: no fundo, essa paz que vemos no Quadrinho(2), sob o qual se poderia escrever a frase: “Ite vita est”, é como quem diz: “Eu fiz a vontade d’Ele até o último elemento, bebi todo o cálice de fel, até a última gota. Mas está bebido, e agora chegou minha hora de ajudar os outros”.

Sem dúvida, uma das coisas mais tocantes para mim naquela fotografia, em que mamãe tem cerca de 50 anos, é essa resignação dela no meio da dor. Vê-se que ela não entende e há qualquer coisa de uma pergunta ansiosa: “Como será, por que será?”, mas sem o menor laivo de revolta, de inconformidade, nem nada. É como alguém que adora o mistério do sofrimento que está tendo.

Isso partia de uma ideia altíssima que mamãe tinha de Deus.

Aliás, uma coisa curiosa: ela nos ensinou o Pai-Nosso de um modo um pouquinho diferente da fórmula corrente. Não sei se no tempo dela se tinha introduzido, talvez no hábito brasileiro ou pelo menos de Pirassununga, um acréscimo que era: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor…” Este “Senhor” não está na oração dominical. Durante algum tempo eu rezei o Pai-Nosso assim. Depois, por conformidade com a Igreja, suprimi o “Senhor”. Mas a minha alma se regozijava de poder dizer este “Senhor”. O “Senhor” calha ali com uma precisão, no ritmo da oração, muito bem. Suprimi, porque a Igreja ensina de um modo diferente. Quando mamãe rezava alto, conosco, nas Sextas-feiras Santas, não saía o “Senhor”. Eu acho que ela, em certo momento, se deu conta também e suprimiu.

Mas era a ideia do “Dominus” cheio de bondade, de misericórdia, de carinho, que estava no espírito dela. Ela tinha muito isso, mas muito!

Doçura dentro na majestade

No tocante ao meu relacionamento com Nosso Senhor, com Nossa Senhora, eu sempre tive e continuo a ter aquela certeza, que a graça de Genazzano(3) corroborou, de ser atendido diante de problemas que envolvem a Causa Católica. Por exemplo, quando recebi a graça de Genazzano, eu me lembro perfeitamente da impressão que tive de Nossa Senhora tomando aquela atitude, fazendo-me entender o que Ela quis que eu compreendesse. Ali sim, não tenho dúvida nenhuma de que foi uma graça, uma promessa.

Depois me contaram que o provincial dos agostinianos do Santuário, a quem haviam narrado o fato, disse que esse tipo de graça era característico da Mãe do Bom Conselho de Genazzano. Para mim, não tem dúvida nenhuma: Nossa Senhora me concedeu essa graça.

Lembro-me de que o quadro d’Ela como que se animou. Não tive nem um pouco a impressão de que Ela estivesse falando comigo. Mas o quadro como que adquiriu uma vida dulcíssima, revelando um interior d’Ela, mas com uma suavidade inexprimível. Porém, conservando sempre essa superioridade. De maneira que era um sorriso materno dentro do esplendor e da majestade.

Segundo meu modo de ser, essa doçura que se manifesta dentro da majestade é mais doce do que fora da majestade.

Naquele hino a Nossa Senhora do qual gosto muito, “Si quæris cœlum, anima, Mariæ nomen invoca…”, há uma estrofe que é assim: “Pelo nome d’Ela fogem as culpas e as trevas, as dores da doença e as úlceras. Aos vencidos se desatam os pés, e para os navegantes as águas se tornam mansas.”

Acho muito bonito! Aliás, toda essa cançãozinha é linda! “Se tu queres o Céu, ó alma, invoca o nome de Maria. Pois aos que invocam Nossa Senhora as portas do Céu se abrem”.

São grupos de quatro estrofes. É como se houvesse asteriscos entre elas:

“Glória a Maria, Filha do Padre e Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Esposa do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos, amém.”

“Pelo nome de Maria os Céus se alegram, os Infernos estremecem. O céu, a terra e os mares, o mundo inteiro se rejubila.”

Tem muita candura.

Por exemplo, estou falando disso, mas não se dissocia de Nossa Senhora no Céu, altíssima, puríssima e, por causa disso, exercendo sobre a Terra essa ação benfazeja, enorme! Não há mares, não há trevas, não há coisas que Ela não domine, em razão de ser tão boa e estar tão alta.

Sensibilidade eucarística diante do Santíssimo Sacramento exposto

Já minhas Comunhões não costumam ser sensíveis. Aliás, tenho, por assim dizer, mais sensibilidade eucarística quando estou diante do Santíssimo Sacramento exposto do que quando comungo.

Em geral, quando estou diante do Santíssimo Sacramento, fico muito, mas muito tocado. A noção da presença d’Ele me comove muito. Mas na Comunhão, paradoxalmente, de um modo habitual, menos sensível. O que predomina é a presença de um Visitante desmedidamente grande, a Quem se trata de pedir. Daí calhar inteiramente, no meu modo de ser, o método de Comunhão sugerido por São Luís Maria Grignion de Montfort: pedir que Nossa Senhora venha à minha alma para recebê-Lo. E Ele encontrando-A como dona desta casa e fazendo-Lhe as honras por mim, tenho então muito comprazimento. Donde dirigir a Ele, por meio d’Ela, os atos de adoração, reparação, ação de graças e petição. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/7/1985)
Revista Dr Plinio 211 (Outubro de 2015)

 

1) Do francês: vermezinho e miserável pecador.

2) Quadro a óleo, que muito agradou a Dr. Plinio, pintado por um de seus discípulos, com base em uma das últimas fotografias de Dona Lucilia. Ver Revista Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

3) Ver Revista Dr. Plinio n. 21, p. 16-23.

Grandeza incomparável do sacrifício

Devido ao pecado original, o homem, mesmo inocente, tem necessidade de fazer sacrifício. E no Paraíso terrestre, caso não tivesse havido o pecado, era preciso a ascese? Dr. Plinio julga que sim, pois seria um ato ordenativo do homem, em estado de prova.

 

Considerando o sacrifício na perspectiva da Doutrina Católica, parece-me que ele não tem o caráter de mera expiação, mas de um reconhecimento da supremacia de Deus, pelo fato de serem consumidas em honra d’Ele coisas que Ele mesmo deu ao homem, por onde este reconhece implicitamente que privar-se daquilo e dar ao Criador afirma a superioridade d’Ele em relação a todas as coisas.

Sacrifício de dedicação

Cornélio a Lápide(1) distingue o sacrifício de dedicação e de expiação, no Antigo Testamento.

Analisemos o que significa essa dedicação.

Uma criança pode ver, pendente numa árvore, uma fruta muito bonita; corre, apanha-a e a oferece ao pai ou à mãe. É propriamente um sacrifício de dedicação que a criança faz. Isso que parece muito razoável pode ser desdobrado em aspectos.

Um aspecto é: a criança renuncia à fruta para dar aos pais. O que significa essa renúncia? Há nisso um ato de ascese, mas não é a principal nota do ponto de vista da dedicação que se deve considerar. No homem nascido sem pecado original, essa ascese não pareceria necessária, porque o homem tinha um inteiro domínio de si mesmo. Portanto, vigorava a ideia de que aquela fruta tão excelente, melhor conviria a uma pessoa mais excelente. Representaria uma forma de justiça colher aquela fruta tão linda e dá-la a uma pessoa tão bela. Esta seria uma dedicação.

Creio que é esse o espírito com que muitas pessoas colhem flores para oferecer nos altares de Nossa Senhora. Por exemplo, ornar um altar para o “mês de Maria”: uma pessoa pode colocar nisso uma intenção de reparação, mas não é o intuito comum, e que esteja próxima e imediatamente na natureza do ato. O que está nisso é a noção de que à Santíssima Virgem, sendo a Flor da Criação, fica bem que as flores muito bonitas estejam postas junto a Ela, por assim dizer porque “similis simili gaudet”(2). Então, junto Àquela que poderia ser chamada, por algum lado, “Flor das flores” convém colocar flores.

Sacrifício de louvor

Entra também outro aspecto metafísico, que me parece mais bonito e mais importante, por onde há uma afirmação do Absoluto. Aquelas coisas são lindas, mas passageiras; e convém que elas, no que têm de passageiro e contingente, sejam oferecidas a Deus, que é eterno e Absoluto.

Essa destruição do transitório e do contingente em honra do eterno e do Absoluto fica meio implícita na natureza. E é uma grande verdade que o homem tem vontade de explicitar, e Deus deixa a cargo do homem fazer a explicitação. O desejo de explicitar o que Deus pôs implícito leva o homem a dizer: “Vós que sois Absoluto, eu a Vós entrego tal coisa, porque me destes o domínio sobre ela. E a destruo em vossa honra, porque a Vós, que sois o Criador de tudo, compete que se Vos honre, destruindo algo do que criastes”. É uma espécie de homenagem ao próprio Criador, a Quem se homenageia, em parte, em alguns aspectos, destruindo, mostrando que Ele merece aquela destruição.

Da parte psicológica do homem, entra nessa destruição um reconhecimento efetivo do Absoluto.

Contudo, para o homem concebido no pecado original, entra um reconhecimento de caráter necessariamente ascético, pois o ser humano tem tal tendência a se apegar e a dar àquilo que é contingente o valor que ele daria ao Absoluto que, para corrigir este defeito e desagravar a Deus dessa tendência a que tantos homens cedem, é preciso sacrificar alguma coisa para dizer: “Eu cheguei ao ato concreto e, assim, esmaguei internamente a minha tendência a ver isso como uma coisa absoluta.”

É preciso notar que isto é um aspecto muito importante, mas que não está na essência do ato praticado. Há o sacrifício, portanto, de louvor, que é o sacrifício do amor. O louvor é a voz do amor. A adoração, o louvor, o sacrifício de louvor se exprimem assim.

Deus, como Causa exemplar

Aliás, o Ofício Divino — recitado, por exemplo, segundo o estilo beneditino — tem o sentido do louvor a Deus, que o religioso faz cantando de um modo belo um texto adequado que O louva com suas próprias palavras, porque quase tudo é tirado da Escritura; e, quando não é da Bíblia, é da Igreja. Ademais, louva-O também com um cerimonial bonito, objetos e órgãos bonitos, numa igreja bonita, etc. A organização do belo para louvar é um predicado eminentemente beneditino e, de fato, seria necessário que, no seu conjunto, a Igreja Católica tivesse algo especialmente voltado para isso.

Tal modo de proceder é perfeito e condiz com outro aspecto da questão, formando uma espécie de geminação onde se tem o equilíbrio perfeito. Esse sacrifício de louvor pode dirigir-se a Deus como Causa eficiente, final, e também como Causa exemplar. E, enquanto Causa exemplar, nós podemos oferecer ao Criador coisas criadas por Ele, e semelhantes a Ele pela conexão com Ele. E, neste sentido, por exemplo, um grande abade beneditino pode constituir uma abadia magnífica, sem ceder nada a um luxo emoliente, mas para louvor a Deus como Causa exemplar de todo o belo na Criação.

O luxo pode ter uma nota de sacrifício

Até uma pessoa como Salomão, antes do pecado, que lembrava muito a Deus como Causa exemplar, poderia cercar-se de todo aquele luxo virtuosamente, louvando o Criador como Causa exemplar e dizendo: “Vede em mim como Deus é grande!”

Este constitui o elogio certo, mas arriscado, de muita forma de grandeza e de beleza, indispensável para uma civilização considerada no seu total. Então, por exemplo, eu creio bem que o Louvre de São Luís deveria ter, por vários aspectos, muito luxo. Este luxo deve ser visto assim.

Isso tem a nota do sacrifício no seguinte sentido: são riquezas que foram desviadas do uso do rei para simbolizar, perante Deus, uma determinada perfeição que lembra a Ele. Seria, por exemplo, o luxo da Sainte-Chapelle, mas poderia ser o luxo da pompa real, enquanto mostrando o rei como representante de Deus, ou da pompa papal, enquanto manifestando no Papa o Vigário de Nosso Senhor.

A meu ver, esta é a melhor resposta à crítica protestante ao luxo eclesiástico. O protestante diz: “É para o gáudio do padre que se usa isso.” A resposta é: “O padre de fato goza muito pouco disso, mas se gozasse era um aspecto secundário. O importante é que Deus seja glorificado também nisso”.

Entretanto suporia, para manutenção do equilíbrio nesse próprio louvor, que o homem fizesse rebaixamentos, atos de humildade e de ascese que compensassem isso, para que o equilíbrio se apresentasse perfeito.

Então, se eu imaginasse, por exemplo, um rei que fosse um Salomão da Cristandade, resplandecente com todo o brilho da realeza, mas que na Sexta-Feira Santa, na hora de adorar a Cruz, fosse a pé e descalço, em trajes de penitente, flagelando-se, de maneira que todo o povo visse que de fato sua intenção sincera era de se humilhar diante de Deus. Esse homem realizaria um equilíbrio admirável das duas coisas, e que seriam duas formas de sacrifício que se completam, formam um carrilhão. E nesse carrilhão há a harmonia perfeita.

Quando numa civilização falta ou míngua uma dessas formas de sacrifício, ela não é completa.

Necessidade da ascese até no Paraíso terrestre

Restaria saber como seria no Paraíso terrestre, caso não tivesse havido o pecado original e a consequente expulsão do homem.

Parece-me que não haveria a penitência, porque os homens não tinham pecado, mas existiria o que dizíamos há pouco do sacrifício de louvor, da doação, da entrega, pelo reconhecimento de que Deus é Absoluto e perfeito.

No que diz respeito à presença da ascese no Paraíso terrestre, uma vez que o homem se encontraria ali em estado de prova, é patente que ele seria tentável. Isso me inclina a pensar que, para prevenir essa tentação e oferecer um corretivo para algo que não era o pecado original, mas uma possibilidade de pecar, uma determinada ascese pareceria ser necessária. Não se trataria, portanto, de uma expiação, mas de um ato ordenativo do homem, porque naquilo em que ele era tentável havia a raiz de algo que poderia propender para a desordem.

Estamos, pois, em presença de uma hipótese que poderia dar ao sacrifício de louvor certo caráter preventivo da tentação.

Propriamente no sacrifício de louvor de que eu estava falando, o gáudio supremo que tem aquele que oferece o sacrifício é uma espécie de estremecimento de alma diante do fato de que, oferecendo alguma coisa que se destrói, ele pratica um ato que, aparentemente, na ordem natural não é razoável, e encontra sua razão de ser apenas no caráter de dádiva “inútil”, “desarrazoada” Àquele que é Absoluto. E desta maneira se afirma com louvor — e com o único louvor adequado — o caráter absoluto d’Ele, e o nosso reconhecimento deste caráter absoluto. Nisto entra exatamente uma espécie de ósculo do contingente no Absoluto, que é uma atitude totalmente desinteressada, realizada por ser Ele Quem é.

A doação supõe o sacrifício feito como que gratuitamente, diante do mero fato de que Deus é Deus, mais nada.

Sacrifício desinteressado

Este é o estado de espírito com que se deve morrer. Na hora da morte, a pessoa deve aceitá-la como sacrifício merecido pelo pecado original e pelos seus pecados atuais. Pode até oferecer pela Cristandade, por outros interesses, o que Nossa Senhora quiser, mas acrescentaria um elemento altíssimo se dissesse só isto: “Por serdes Vós Quem sois, eu me ofereço!”

Então, o fazer-se pequeno é o único modo, a garantia única que o homem tem de que todas as grandezas construídas por ele não deem em vanglória. Por quê? Porque terá atendido à exigência dessa ordem metafísica mais profunda, que é o sacrifício desinteressado.

Aliás, tenho a impressão de que no sacrifício de Isaac entrava isso: era um sacrifício tributado a Deus porque Ele quis o filho único de Abraão, que disse: “Bem, Vós quereis esta hóstia de louvor, que é meu filho inocente. Vós o tendes!”

Algo disso parece-me estar presente também na resposta de Nosso Senhor à objeção de Judas contra Santa Maria Madalena, quando esta lavava os pés do Divino Mestre com um perfume muito valioso: “Por que não se vendeu este perfume por 300 denários para dá-los aos pobres?” (Jo 12, 5) — reclamava Judas. Ao responder: “Deixai-a; ela conservou esse perfume para o dia da minha sepultura! Pois sempre tereis pobres convosco, mas a Mim nem sempre tereis.” (Jo 12, 7), Jesus dava a entender que não se deve deixar de prestar a Deus o sacrifício desinteressado, de puro louvor, sob o pretexto de acabar com a pobreza.

Essa atitude de abnegação tem seu reflexo nas relações humanas. Também a perfeição da amizade vem do fato de alguém ser capaz de fazer uma coisa dessas por outrem que mereça. Por exemplo, estou com uma pessoa que é santa e vejo que vão matá-la. Posso substituir-me ao santo, para ser morto eu e não ele, pela seguinte razão: “Não toque naquele que é uma obra-prima de Deus!” A primeira ideia é a incolumidade daquele que é obra-prima de Deus, para continuar a dar glória a Ele. Eu, pecador, desapareço dentre os viventes, mas consegui que o santo continuasse a existir. É uma coisa muito bonita!

A autêntica imolação deve ser total

Também me parece que na humilhação bem aceita está o sacrifício voluntariamente realizado. Esta necessária humilhação diante de Deus absoluto traz consigo uma passageira, transitória, mas efetiva como que destruição de si próprio, por onde, além do lado expiatório, o indivíduo faz por amor o que ele faria da flor que ele ofereceria a Nossa Senhora. Ele como que se destrói, pondo-se até abaixo do que é, para fazer consigo o que realizaria com a flor.

Este ato, por ser como que uma destruição, produz sofrimento nesta Terra, dado o pecado original. De algum modo, o mais humilde dos homens realiza isso num espírito de sofrimento. Porque, por mais santo que ele seja, tem uma parte ruim, não consentida, que sofre com a humilhação.

Como seria no Paraíso terrestre, para o homem concebido sem pecado? Ele se apequenar ao ponto de ser um nada diante de Deus, não traria revolta? Isso é muito misterioso.

Vê-se que com satanás, em determinado momento, o fato de sentir-se não pequeno, mas “apenas” o primeiro dos grandes da corte de Deus e não o próprio Deus, trouxe uma inconformidade, e esta participa da dor. Portanto, vejo de um modo um tanto nebuloso como seria este fenômeno na natureza angélica.

Entretanto, mesmo para o homem concebido sem pecado original, se esse aniquilamento não chegasse efetivamente ao último limite de si mesmo e reservasse qualquer coisinha, ele não seria autêntico.

Há atitudes em que a imolação só é autêntica quando é total. Foi o que, em última análise, Deus quis de Jó, quando permitiu que o demônio o tentasse.

É nessa perspectiva que tomam toda a beleza coisas que a “heresia branca”(3) admira sem considerá-las debaixo deste ponto de vista. Então, por exemplo, um de nós tem um inimigo leproso e faz por ele um determinado benefício, humilhando-se inenarravelmente diante do opositor, que ainda responde com um desaforo. Tal ato, visto somente como o considera a “heresia branca” — ou seja, a pena do leproso e o leproso que não tem compaixão de mim — não manifesta toda a sua profundidade. O fundo está na pessoa ter-se apequenado de tal maneira que chegou a sofrer isto. Aí, nesse sentido do apequenamento que viemos expondo, o sacrifício tem uma grandeza incomparável. Mas isso a “heresia branca” não considera, porque tem horror à perspectiva de grandeza e de seriedade.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/9/1984)
Revista Dr Plinio 211 (Outubro de 2015)

 

1) Jesuíta e exegeta flamengo (* 1567 – † 1637).

2) Do latim: o semelhante alegra-se com o semelhante.

3) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.–––

Opto pelo Sagrado Coração de Jesus

Ainda menino, em suas cogitações a respeito do contraste entre dois mundos e duas mentalidades, Dr. Plinio viu-se diante de uma alternativa, cuja escolha orientaria toda a sua existência. Nossa Senhora o ajudou a fazer a opção certa e a adotar o verdadeiro caminho.

 

Quem me conhece pode ter a impressão de que sou compreensivo e sinto atração apenas pela classe aristocrática, e que não dou importância, não tenho zelo, estima nem desvelo pelas outras classes. Porque quando falo a respeito da classe aristocrática tenho um fogo especial, e isso indica certamente uma preferência; e em vez de uma “opção preferencial pelos pobres”, decorreria daí uma “opção preferencial pelos nobres”.

A vida em torno da Igreja do Coração de Jesus

Para verem o quanto essa impressão não é verdadeira, conto a tentação que para mim chegou a constituir o antigo Largo do Coração de Jesus(1).

Eu tinha entre 10 e 13 anos. A primeira nota que esse Largo apresentava era de muito pouco movimento, porque naquele tempo o automóvel ainda era artigo de luxo e não constituía transporte para qualquer pessoa com um pouquinho de conforto, como é atualmente. Por causa disso, o número de automóveis que transitavam por lá era bem menor do que hoje. Também não havia ônibus, o transporte coletivo era o bonde.

Uma linha de bonde percorria a Rua Barão de Piracicaba, que atravessa o Largo do Coração de Jesus. Os bondes iam e vinham, mas eram também raros, pois a população da cidade era pequena.

Por isso, o Largo era, antes de tudo, muito tranquilo e, eminentemente, habitado por uma pequena burguesia ou um proletariado aburguesado, com uma camada de operários — suponho que filhos de imigrantes — que tinham feito algum dinheirinho e comprado casinhas em torno daquele local.

Toda essa gente formava quase uma vida de aldeia muito aconchegada, em torno da igreja a qual, para a São Paulo daquele tempo, parecia enorme, com aquela torre muito alta que também parecia colossal, cujo carrilhão, ao meio-dia e às seis horas da tarde, tocava a melodia: “Louvando a Maria, o povo fiel, a voz repetia, de São Gabriel: Ave, ave, ave Maria…” Uma canção popular muito simpática e respeitável.

A atenção se voltava, então, para a imagem do Sagrado Coração de Jesus dourada, em cima da torre, com os braços abertos, indicando a receptividade do Coração d’Ele para todo o mundo. Aquele som enchia a praça.

Tinha-se a impressão de cada badalada ser uma nota de cristal que, quebrando-se em mil pequenas bolhas, penetrava em tudo.

Busto de Dom José de Camargo Barros

No centro do Largo há um busto do Bispo Dom José de Camargo Barros, que se tornou célebre por ter participado do naufrágio de um navio de passageiros chamado “Sirius”, vindo da Europa para o Brasil. Ele era um prelado de São Paulo e viajava com um colega de Pindamonhangaba(2), que fora sagrado bispo por São Pio X e nomeado arcebispo de um Estado do Norte do Brasil.

Em certo momento houve o naufrágio, e o número de salva-vidas era insuficiente para os passageiros. Dom José de Camargo Barros ficou com um salva-vidas, mas, não havendo outro para o futuro arcebispo, exigiu que este, absolutamente, aceitasse o seu. Ele o tomou e, com isso, conseguiu sobreviver ao naufrágio. Mas Dom José de Camargo Barros morreu.

Fizeram-lhe, então, no alto de uma coluna, um busto que a meu ver não dá a ideia de seu “martírio”, mas de um bispo muito bem assentado na vida, plácido, olhando o movimento que passa. Mas tinha-se a impressão de que, quando os sons das badaladas desciam sobre a praça e se multiplicavam sob a forma de bolhazinhas de luz e de cristal, Dom José de Camargo Barros, do alto de seu pedestal, dava uma bênção.

Quando anoitecia, às vezes pelas seis horas, a farmácia chamada “Farmácia Coração de Jesus” — o armazém parece que se denominava “Empório Coração de Jesus”, tudo se chamava “Coração de Jesus” ali em volta; eram outros tempos… — tinha, como em geral nas farmácias daquele tempo, uns globos de cristal enormes com matéria corante, vermelha, verde, azul, dourada, e atrás um foco de luz; aquilo formava uma luz ampliada que a mim, assaz colorista, impressionava muito; eu achava interessante ver aqueles focos de luz.

Bênção do Santíssimo Sacramento

Um pouco mais tarde, o sino do Coração de Jesus, que soava todas as horas, começava a dar outro sinal: era a bênção do Santíssimo Sacramento.

Quem estivesse no Largo poderia ver certo número de moradores que, das casas em volta, vinham chegando para a bênção. Formavam propriamente aquilo que se poderia chamar o “beatério”, o conjunto de beatos e beatas que caminhavam muito devagarzinho, conversando uma conversota que nunca acabava e nem se interrompia.

As beatas, senhoras sofridas na vida, com uns “xalezinhos”, uns arranjinhos, de quem tem suas economias… Os beatos, ou era gente que não trabalhava mais e vivia de rendazinhas, ou ainda exercia um trabalhinho metódico, pequenininho, que os esmagava um pouquinho mais a cada dia. Via-se que eles estavam sujeitos a um processo de achatamento, com o tempo iam ficando mais baixinhos, sumidinhos, as roupas mais rapadinhas, mas com a alminha contente e a vidinha arranjada.

Quando chegava a hora marcada, entrava o padre na igreja, expunha o Santíssimo, começava o “Tantum ergo” e por fim dava a bênção, enquanto tocava o sino; era um momento de muito recolhimento, muita piedade e elevação espiritual.

Depois, todos saíam. Tratava-se de um mundo que não era o meu, fechado para mim, mas eu queria saber como era e, por isso, ficava prestando atenção neles.

Sempre me interessou soberanamente a análise, a observação da vida. Saber como é esse, aquele, como vive, como pensa, para onde vai, como se relaciona com aquele, com aquela, com aquilo, como aconteceu tal coisa, como vai acontecer… Isso me atraía a atenção fabulosamente!

Não sei o que pensariam daquele menino curioso. Eu não contava a ninguém em casa, porque julgariam extravagância dedicar-me a essas cogitações sociais.

Eu percebia que, quando os beatos e as beatas entravam, eles eram como descrevi, mas quando deixavam a igreja, saíam com uma dimensão de ­alma muito maior. Certos reservatórios interiores de resignação, de sublimidade, de elevação de espírito, estavam reabastecidos até o dia seguinte.

O Sagrado Coração de Jesus os tinha dessedentado, a rogos de Nossa Senhora Auxiliadora, e eles saíam super-saciados; e se desfaziam na bruma ainda violácea do dia que estava se pondo.

A alta classe rural tradicional de São Paulo

E o menino curioso ia sozinho para casa fazendo reflexões… Eu andava três ou quatro quarteirões e chegava a minha casa, onde encontrava um outro mundo, que não o da pequena burguesia do Largo do Coração de Jesus.

Aos domingos, na Missa das onze horas, o aspecto do público da igreja era inteiramente diferente. As pessoas que, mais ou menos, representavam uma aristocracia local em São Paulo frequentavam essa Missa.

Viam-se chegar os bonitos automóveis, as senhoras de idade madura em bonitas toilettes, muitos dos homens ainda usando fraque e cartola por homenagem a Deus, Senhor de todas as coisas, a Quem eles iam visitar.

Quando eu era bem pequeno, meu pai com frequência ia de fraque à Igreja do Coração de Jesus. Ele dizia que em Pernambuco chamavam o fraque “a roupa de ver a Deus”.

Era um mundo em que aparecia muito do antigo donaire, algo de corte dessa espécie de aristocracia constituída pela alta classe rural tradicional de São Paulo.

Havia uma rua limítrofe que marcava o começo do mundo da antiga aristocracia rural: um mundo europeizado, aberto às ideias novas, com bastante dinheiro, e até luxo, com preocupações de progresso para si mesmo, de conforto, etc.; e com toda a agitação política, mundana, cultural, toda a alegria, todo o tom “hollywoodiano” que caracterizava aquele tempo.

Antipatia pelo jazz e amor ao órgão

O jazz era o grande escândalo sonoro de então. É preciso dizer que antipatizei com o jazz desde o primeiro momento em que o ouvi, assim como amei o órgão desde que tomei consciência de sua existência.

Meu ambiente doméstico era um misto de órgão e de jazz. A tradição, que inegavelmente havia, tocava o órgão. Mas assim como as badaladas desciam no Largo Coração de Jesus, também as cacofonias do jazz cobriam o mundo e entravam também na residência da Rua Barão de Limeira, 77, onde havia espíritos “aggiornati”(3) segundo o jazz, e outros ajustados à tradição, entre os quais Dona Lucilia e eu.

Eu estava inserido em toda aquela sarabanda, à qual não se pode negar certo brilho e o deleite da vida. E eu era sensível a esse brilho e a esse deleite. Quer dizer, a vida com luxo, as viagens para a Europa em navios-palácio com salões de dois andares, o turismo pelo Velho Continente, o palacete enorme em São Paulo, automóveis de luxo vindos da Europa, dos Estados Unidos…

Tudo isso me atraía muitíssimo, mas constituía um polo de atração inteiramente diferente do Largo Coração de Jesus. E, sem cogitar de minha vocação — pois eu ainda não tinha noção dela —, do ponto de vista meramente individual, cheguei a me pôr esta pergunta:

“O que me convém mais para levar uma vida agradável: integrar-me nesse mundo agitado e brilhante, mas trabalhoso, ou no mundo do Largo Coração de Jesus, nessa vidinha, vivendo à luz ou à sombra do Santuário, sem aventuras nem riscos, nem problemas, nem complexidades; simplesmente afundar-me no anonimato, destacando-me do meu meio como uma figura que some e afunda na penumbra agradável do Largo Coração de Jesus?”

Seriamente hesitei entre uma coisa e outra. De tal modo a atração nobiliárquica não é uma mania em mim, que os meus lados fracos ter-me-iam levado a me afundar na vidinha: “Ah! deixe ‘correr o marfim’… Eles que se arranjem! Vou levar uma vida sossegada, rezando e depois fazendo mais ou menos nada. Para que fazer alguma coisa? Desde que eu viva bem, nada mais me incomoda!”

O que me impediu de me deixar levar por essa hipótese foi uma noção do dever. Volto a dizer, não era a ideia da vocação, que ainda não se tinha esboçado em meu espírito; mas a noção de que cada pessoa que levasse consigo um nome histórico, e se afundasse nessa bruma, era como uma estrela que se apagaria no céu. Embora seja menos trabalhoso para uma estrela afundar na bruma a ficar cintilando pelos séculos dos séculos, a obrigação da estrela é cintilar.

Eu, Plinio Corrêa de Oliveira, tinha o direito de me afundar? Não! Essa opção, eu a exerci, portanto, não em virtude de uma ideia de comodismo, de vantagens, de prazer, mas do dever, vencendo o meu pendor naturalmente indolente.

Aristocracia paulista: trato cerimonioso e mobiliário das residências

Eu notava, entretanto, também nas pessoas da aristocracia, o conflito de duas influências. De um lado, a velha tradição portuguesa, muito afim em alguns pontos com a tradição francesa, pela qual a nota distintiva do homem educado era uma seriedade amável, até afável, mas principalmente seriedade. Secundariamente, como um ornato complementar, vinham a afabilidade e a amabilidade.

De maneira que se víssemos um desses senhores ou uma dessas senhoras andando sozinhos na rua, a fisionomia que faziam era séria, de quem estava cônscio de sua importância.

Se um menino ou um rapaz conhecido deles passasse perto, tinha a obrigação de cumprimentá-los, tirando o chapéu. O senhor respondia amavelmente o cumprimento, com um sorriso e erguendo discretamente seu chapéu-coco.  Às vezes puxava uma conversa, sempre composta e cerimoniosa: “Como vão os seus? Ouvi dizer que a Dona tal está adoentada… Já melhorou? Será que vamos nos encontrar de novo este ano em tal estação de águas? Eu gostaria tanto… Diga lá em casa…”

Por mais afável que tivesse sido a conversa, ao final, novo cumprimento tirando os chapéus de parte a parte. Quando o senhor, e mesmo as senhoras, tinham mais intimidade, batiam ligeiramente com a ponta dos dedos nos ombros do mais jovem, o que representava, simbolicamente, um abraço.

Esse trato cerimonioso encontrava seu correlato no ambiente e no mobiliário das residências.

Toda casa que se prezasse tinha um salão com móveis dourados estilo Luís XIV, XV, XVI, ou um pouco mais longe, Luís XIII, e a parede revestida de damasco, ou de papel vindo da Europa, também dourados, ou painéis de damasco de outras cores. Lustres de cristal.

Se as posses da família permitiam, o hall era de mármore. Cortinas de damasco, sedas, veludos, quadros a óleo, tapetes felpudos que abafavam o som de quem entrava nas salas.

Mesmo na intimidade do lar, o modo de as pessoas se dirigirem umas às outras era repleto dessa seriedade. Até a brincadeira era com um tom cheio de respeito, o qual constituía uma espécie de atmosfera de gás ou de líquido, no qual a vida inteira estava imersa.

Influência de Hollywood

Entretanto, tudo isso se foi abrindo para a influência de Hollywood. As músicas tocadas pelos discos nas vitrolas, as canções que se cantarolavam, as senhoras dedilhavam no piano ou os rapazes executavam no violino, tudo isso era “hollywoodiano”.

O resultado era a difusão de uma gargalhada superficial, agitada, estridente e sem significado profundo. Porque a influência de Hollywood era a da gargalhada, da brincadeirada, da semi-imoralidade sedenta da imoralidade completa, da aventura sôfrega: “cowboy”, tiros no teto, motocicletas, torcidas…

Eu percebia essas duas influências que se combatiam. Aquela seriedade sacral de outrora ia sendo enxotada pela superficialidade trivial, adoradora da máquina, do dinheiro, da corrupção. Tinha que dar na civilização moderna.

Muitas daquelas pessoas respeitáveis, que estavam com seus filhos e netos na Missa pela manhã, iam levá-los na sessão de cinema, à tarde.

Observei o seguinte: quando se encontravam na Missa do Sagrado Coração de Jesus, todo o lado tradicional deles vinha à tona e os dominava; quando estavam no cinema, ficavam cheios do espírito de Hollywood.

De onde me vinham ideias meditadas no meu silêncio, como esta: “Se esse aspecto tradicional floresce na Igreja do Coração de Jesus e em outras igrejas de São Paulo — aonde às vezes também vou à Missa —, mas não se desenvolve no cinema, há uma relação de aliança, de afinidade entre esse ambiente, essa Religião e esse lado bom; e existe uma relação, não de aliança, mas de antagonismo, entre a Igreja e esse lado ruim que se patenteia quando eles vão ao cinema”.

Para ilustrar esse pensamento, imaginemos o jazz sendo tocado na Igreja do Coração de Jesus. Uma blasfêmia! Ou um órgão executando música religiosa, para acompanhar certas fitas de cinema: parava o órgão ou a fita, porque os dois não iam juntos!

Donde eu concluía haver no cinema um princípio hostil ao Sagrado Coração de Jesus, enquanto que na vida tradicional, um princípio que procede d’Ele.

Eu olhava em torno de mim e pensava: “Que reação teriam essas pessoas se eu lhes dissesse que estou cogitando isso? Afirmariam que não é assim, que não estou entendendo nada, que esse antagonismo não se põe…” Porque eles não queriam fazer a opção, a escolha e, portanto, não desejavam confessar o antagonismo. O resultado é que eles deixavam a parte boa ser devorada pela má, como um câncer.

Eu dizia no meu íntimo: “Opto pelo Sagrado Coração de Jesus!”

Horror ao mofo e desejo de uma alegria sã e casta

Por tê-Lo conhecido e me deixado modelar por Ele, tanto quanto minha miséria permitia, eu estranhava uma coisa dissonante de Nosso Senhor. Por isso também, eu reconhecia n’Ele a regra a ser seguida qualquer que fosse o sacrifício, a batalha. E o critério para diferenciar o bem e o mal, a verdade e o erro, é estar consonante com o Sagrado Coração.

Isso é um ato de adoração, de devoção e supõe, evidentemente, rezar a Ele, visitar sua imagem na igreja d’Ele, tê-Lo em vista na imagem d’Ele em minha casa, e dirigir-me a Nosso Senhor por meio da Mãe d’Ele. Quer dizer, ser devoto, devotíssimo de Nossa Senhora, como canal necessário para chegar até Ele.

Estou cônscio, deliciosamente cônscio, até o fundo de minha alma, de que eu nunca teria chegado a nada disso se não fosse a intercessão de Nossa Senhora.

O que aconteceu com alguns outros que conheci, aparentemente grandes rezadores? De manhã, rezavam num manual, mas não tinham suficiente amor para, na hora do cinema, estar se lembrando d’Aquele a Quem tinham rezado; e evitavam a opção. Logo, cada vez mais a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tornava-se uma fórmula, e a entrega à mentalidade do cinema, uma realidade.

Havia, ademais, um problema na dualidade jazz e tradição. É que a tradição aparecia tristonha, incapaz de suscitar alegria, vida, verdadeiro espírito de luta e algo que não fosse mofo. Era preciso um ato de Fé para acreditar que essa tradição tinha inspirado coisas como as Cruzadas, de tal maneira ela estava carregada de mofo.

Como a única forma de alegria estereotipada era a “hollywoodiana”, não havia uma fórmula para dar escoamento psicológico ao júbilo, para o qual a alma tem tendência, senão os padrões “hollywoodianos” daquele tempo. Por isso, para um católico, ser alegre era uma espécie de infidelidade. Em sentido contrário, ser tradicional, fiel à Igreja de sempre, parecia trazer como corolário ser tristonho, abatido. E eu tinha horror ao mofo e a tudo quanto não é vida.

Quando entrei para o Movimento Mariano, uma das metas que tive foi de fazer sentir que eu não renunciava nem um pouco à alegria sã e casta de viver.

Está assim, de um modo muito sumário, narrado, tanto quanto me é possível, um dos itinerários de minha alma rumo ao Sagrado Coração de Jesus. v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 18/12/1985)
Revista Dr Plinio 199 (Outubro de 2014)

 

1) Situado no Bairro Campos Elíseos, zona central de São Paulo.

2) Município da Região Metropolitana do Vale do Paraíba, ao Norte do Estado de São Paulo.

3) Do italiano: atualizados. Aqui tem o sentido de “estar na moda”.