Misericórdia

Na gloriosa corrente constituída pela Santíssima Trindade, Nossa Senhora e o Papado, este último vem a ser o elo menos vigoroso: porque mais terreno, mais humano e, em certo sentido, estando envolto por aspectos que o podem menoscabar.

Costuma-se dizer que o valor de uma corrente se mede exatamente pelo seu elo mais frágil. Assim, o modo mais excelente de amarmos essa extraordinária cadeia é oscular o seu elo menos forte: o Papado. É devotar à Cátedra de Pedro, em relação à qual esmorecem tantas fidelidades, a nossa fidelidade inteira!

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Cátedra de São Pedro

Uma lenda antiga nos conta que à beira de certo lago havia um rochedo que crescia à medida que as ondas o acometiam, de sorte a nunca ser submergido, ainda nas maiores tempestades. Hoje em dia, este rochedo é a Pedra, é a Cátedra de Pedro, que tem avultado com as revoluções, zombando das heresias, crescendo em vigor à medida que seus adversários crescem em rancor.

Há já vinte séculos, ela vem espargindo água benta sobre os adversários prostrados no caminho. (…) Neste mar revolto do século XX, naufragam homens, idéias e fortunas. Só ela continua e será “via, veritas et vita”, devendo ser aceita pela humanidade, para levantar um voo salvador sobre o próprio abismo que ameaça tragá-la…

Plinio Corrêa de Oliveira (Do “Legionário”, nº 130, de 15/10/1933)

A Cátedra de Pedro é a coluna do mundo

Vigário de Cristo na Terra sempre foi objeto do ardoroso enlevo de Dr. Plinio. Desde suas primeiras atividades públicas nas Congregações Marianas, ele defendeu nas páginas do Legionário, aquele a quem considerava “a coluna do mundo”: o Papa.

Por ocasião da festa da Cátedra de Pedro, que se comemora a 22 de fevereiro, Dr. Plinio comentava seu enlevo pela instituição do Papado:

“A festa da Cátedra de São Pedro é extremamente necessária, porque ela celebra o papado enquanto tendo uma cátedra infalível que se dirige ao mundo inteiro.

“A cadeira de São Pedro cuja estrutura foi quase toda conservada nos é guardada na Basílica de São Pedro, em Roma, onde está a Glória de Bernini. Ali existe uma cadeira de bronze na qual há uma portinhola que é aberta e se retira um bancozinho, considerado como tendo sido de São Pedro.

“Na nave central da Basílica de São Pedro, há uma imagem, de bronze escuro, que representa São Pedro, com as chaves nas mãos, sentado numa cátedra e com os pés à altura dos lábios dos fiéis. E os peregrinos que vão a Roma passam por lá e beijam um dos pés da imagem. O resultado é que, com o ósculo mil e mil vezes repetido, esse pé está desgastado. Parece-me ser o único exemplo da História em que ósculos destroem bronze.

“E, fato bonito, no dia de São Pedro revestem essa imagem com os paramentos pontificais, inclusive a tiara, como se fosse um Papa vivo, para identificar a magnífica e evidente solidariedade e continuidade que vai de São Pedro até o Pontífice de nossos dias.

“Devemos, em espírito, oscular o pé dessa imagem, para significar que osculamos o Papado, esse princípio de sabedoria ou de infalibilidade da autoridade que governa a Igreja Católica. E, por meio de Nossa Senhora, agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a instituição desta cátedra infalível, que é propriamente a coluna do mundo, porque se não houvesse infalibilidade, a Igreja estaria destroçada e com ela o mundo ficaria perdido.

“Ela é o caminho para o Céu, e os homens não o encontrariam se não houvesse uma autoridade infalível para governar a Igreja.

“Não se pode ter uma fidelidade abstrata no papado. É preciso que ela seja concreta ao Papa atual, em toda medida em que ele é infalível, e tem o poder de governar e reger a Igreja Católica.”

 

 

(Extraído de conferência de 22 de fevereiro de 1964.)

Elo entre o Céu e a Terra

“Meu último pensamento seja de amor ao Papa”. Esta é a frase acrescida por Dr. Plinio — de próprio punho — em sua carteira de identidade católica.

Um dos principais pilares de sua espiritualidade era, sem dúvida, a profunda devoção que nutria em relação à Cátedra de Pedro, na pessoa do Romano Pontífice.

Esta devoção tornou-se de tal modo manifesta no decorrer de sua vida, que não seria dificultoso reunir um incontável número de páginas contendo considerações repletas de Fé e submissão acerca do Santo Padre, o Doce Cristo na Terra.

Por ocasião do dia do Papa — 29 de junho —, homenageando tão edificante devoção, Dr. Plinio traz em seu editorial excertos de conferências proferidas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, nas quais ele manifesta seu entranhado amor ao Papado:

“Já em minha infância, eu percebia que deveria haver uma autoridade infalível, a qual ensinasse a todos, pois, caso isso não fosse assim, não haveria possibilidade de as pessoas pensarem do mesmo modo, e a vida seria um caos, indigna de ser vivida. Então nasceu em mim uma pujante veneração ao Papado e, consequentemente, ao Episcopado e aos outros graus da Hierarquia”.

Assim se manifestaria ele, dois anos mais tarde: “Tão grande é a fragilidade humana, que, inevitavelmente, cairíamos em erro, caso não houvesse um mestre infalível, o qual nos ensinasse toda a verdade.

“Imaginemos uma cidade com milhares de habitantes, onde cada um possuísse ao menos um relógio. Nesta cidade haveria milhares de relógios. De nada serviriam esses relógios caso não houvesse um relógio posto por Deus, chamado sol, pelo qual os homens pudessem saber a hora certa.

“Ora, à semelhança do sol que regra as horas, há um homem que, em matéria de fé e moral, não cai em erro. Este é o Santo Padre; de seus lábios abençoados só pode sair a verdade. Ele é o ‘relógio’ que regula a Humanidade; o Bispo dos bispos; o pastor dos pastores; o Rei da Igreja e de todas as almas. É a mais alta criatura que há na Terra. Não há rei, não há imperador, não há presidente da república, não há milhardário, não há nada, que valha tanto quanto o homem a quem Deus garantiu: ‘As portas do inferno não prevalecerão contra ti. Pedro tu és pedra e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja’.

“Assim sendo, nós devemos ser cuidadosíssimos em amar o Papado acima de todas as coisas da Terra.

“Sem o Papado, a Terra seria um antro de confusão, de desordem e de horror.”

Com o decorrer dos anos, tal amor ao Papa evidenciou-se cada vez mais, como se pode verificar nas seguintes palavras de Dr. Plinio:

“Não é com meu entusiasmo dos tempos de jovem que eu me coloco hoje ante a Santa Sé. É com um entusiasmo ainda muito maior, pois à medida que vou vivendo, refletindo e ganhando experiência, compreendo e amo mais ao Papa e ao Papado.

“E este amor não é abstrato. Ele inclui um especial amor à pessoa sacrossanta do Papa, seja ele o de ontem, como o de hoje ou o de amanhã. Amor de veneração, amor de obediência.

“Insisto: amor de obediência. Pois desejo dar a cada ensinamento deste Papa, como de seus antecessores e sucessores, toda a adesão que a doutrina da Igreja me prescreve, tendo por infalível o que ela manda ter por infalível, e por falível o que ela ensina que é falível. Quero obedecer às ordens deste ou de qualquer outro Papa em toda a medida que a Igreja indica que sejam obedecidos. Isto é, não lhes sobrepondo jamais minha vontade pessoal, nem a força de qualquer poder terreno.”

O corolário dessa profunda devoção, cultivada cuidadosamente durante sua existência, foram as tocantes afirmações de Dr. Plinio, pronunciadas exatamente três meses antes de sua morte: 

“O mesmo amor que devoto a Nossa Senhora e a Nosso Senhor Jesus Cristo, também o possuo em relação ao Papado. Pois há um princípio segundo o qual uma corrente vale conforme seu elo mais fraco. Poderá uma corrente ter cem elos, cada um deles com o diâmetro do braço de um atleta, mas estarem presos a um outro elo muito delicado, essa corrente tem o valor do elo frágil.

“Ora, na corrente da tríplice devoção à Santíssima Trindade, à Maria e ao Papado, o elo mais frágil é o Papado, por ser o mais humano. Então, o modo mais vigoroso de amar a corrente inteira é oscular o elo mais fraco.

“Ao dedicar meu inteiro amor ao Papado, meu ato toma o sentido de quem replica ao adversário: ‘Vocês estão recriminando tais e tais debilidades do Papado. Pois ali vai meu ósculo, ali vai minha fidelidade.’

“Onde a infidelidade de alguns poderia tentar a fidelidade dos fiéis em sua totalidade, eu quero pôr a minha fidelidade inteira.”

Plinio Corrêa de Oliveira

A Cátedra de Pedro: coluna do mundo

Fervoroso devoto da Cátedra de Pedro, Dr. Plinio não dispensava a ocasião — como atestam suas palavras aqui transcritas — de fazer reluzir aos olhos de seus discípulos a magnitude e a santidade com as quais a instituição pontifícia paira acima de todos os valores humanos, em sua divina missão de governar a Igreja e conduzir as almas à eterna bem-aventurança.

 

Como se sabe, no primeiro período de seu pontificado, o Papa [Beato] Pio IX tomou certas atitudes conciliadoras que alguns revolucionários chegaram a elogiar. Razão pela qual o brado de “Viva Pio IX!” passou a ecoar pelas ruas entre aqueles que não aceitavam a autoridade do Sumo Pontífice.

Distinção entre a pessoa do Papa e o papado

Nessa delicada conjuntura em que a figura de um Papa era assim vinculada aos ideais dos anarquistas italianos, vivia outro grande santo, São João Bosco. Este, quando ouvia algum de seus alunos ou conhecidos repetir aclamações a Pio IX, censurava-o, dizendo: “Não brade Viva Pio IX!; grite Viva o Papa!”

Eis a solução soberanamente inteligente. Porque “Viva o Papa!” pode-se bradar sempre. “Viva Pio IX!” ou outro pontífice, saúda-se conforme as circunstâncias.

Esse episódio consta no processo de canonização de São João Bosco, e tal atitude não impediu que fossem reconhecidas suas virtudes heroicas — e, portanto, sua inteira obediência ao Vigário de Cristo — nem que sua obra fosse abençoada pela Providência de todos os modos, ao longo dos tempos.

Devemos considerar que na raiz dessa posição de Dom Bosco encontra-se a importante distinção entre o Papa e o papado. Quer dizer, entre a pessoa do sucessor de Pedro, sujeita às misérias humanas e também a erros, em toda medida que não é garantida pela infalibilidade; e, de outro lado, a instituição pontifícia, inteiramente distinta da pessoa.

A festa da ortodoxia infalível

Por causa dessa distinção, a festa da Cátedra de Pedro, celebrada em 22 de fevereiro, é extremamente oportuna, pois celebra o Papa como mestre infalível, e o papado como a rocha inabalável do alto da qual o Soberano Pontífice se dirige ao mundo inteiro revestido da infalibilidade que Deus lhe outorgou. É, portanto, a comemoração da ortodoxia inerrante, dessa infalibilidade que nunca claudica.

Consta que da cadeira de São Pedro conservou-se quase toda a estrutura, a qual é guardada na Basílica do Vaticano, em Roma. Há ali um relicário de bronze, cujo interior abriga um banco de madeira, considerado a cadeira original do primeiro Papa.

Claro está, mais do que esse objeto venerável, a festa da Cátedra de São Pedro tem em vista o fato de Nosso Senhor Jesus Cristo ter confiado ao Príncipe dos Apóstolos as chaves dos Céus e da Terra, dando-lhe poder sobre tudo e sobre todos, a fim de governar a Santa Igreja Católica Apostólica Romana e conduzir as almas à eterna bem-aventurança.

Oscular em espírito os pés da imagem de Pedro

Também no interior da Basílica do Vaticano, em sua nave central, encontra-se uma imagem de São Pedro sentado numa cátedra, as chaves pontifícias na mão esquerda e a direita erguida, na atitude de quem abençoa os fiéis. O pé direito do Apóstolo se projeta à frente, e sobre ele os devotos de todas as partes do mundo vêm depositar seu ósculo de amor e veneração. Em virtude desse preito mil e mil vezes repetido, os pés da imagem se desgastaram. Talvez seja o único exemplo da História em que a delicadeza do beijo alquebrou a força do bronze…

Em determinados dias do calendário litúrgico, essa imagem é revestida com os solenes ornamentos pontificais, como se fora um Papa vivo, para indicar a magnífica e evidente continuidade da instituição do Papado, desde São Pedro até nossos dias.

Creio que uma bela forma de nos unirmos a essa importante celebração seria oscularmos em espírito os pés dessa imagem. Quer dizer, em espírito oscular o Papado, esse princípio de sabedoria ou de infalibilidade da autoridade que governa a Igreja Católica. E por meio de Nossa Senhora, agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a instituição desta infalibilidade, dessa cátedra que é propriamente a coluna do mundo, porque se ela não existisse, a Igreja não sobreviveria e o mundo estaria completamente perdido.

Como também — já o frisamos acima — estaria obstruído para nós o caminho que nos leva ao Céu, pois os homens não o encontrariam sozinhos, sem o socorro de uma autoridade infalível que os governasse e para lá os dirigisse.

Fidelidade concreta ao Romano Pontífice

Dessas breves considerações um aspecto me parece deve ser ressaltado. Falamos da distinção entre a pessoa do Papa e o papado, mas devemos considerar que o catedrático é o Romano Pontífice, e os poderes da cátedra nele residem. À Cátedra de Pedro estaremos unidos até morrer, notando sempre que ela nunca estará alheia ao catedrático. Este poderá sair da cátedra; esta, porém, jamais o abandona.

Portanto, não se pode ter uma fidelidade ao papado sem que seja fidelidade concreta ao Papa atual, na medida em que ele é infalível e detém o poder de governar e reger a Esposa Mística de Cristo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 22/2/1964)

Catedra de São Pedro

Na gloriosa corrente constituída pela Santíssima Trindade, Nossa Senhora e o Papado, este último vem a ser o elo menos vigoroso: porque mais terreno, mais humano e, em certo sentido, estando envolto por aspectos que o podem menoscabar.
Costuma-se dizer que o valor de uma corrente se mede exatamente pelo seu elo mais frágil. Assim, o modo mais excelente de amarmos essa extraordinária cadeia é oscular o seu elo menos forte: o Papado. É devotar à Cátedra de Pedro, em relação à qual esmorecem tantas fidelidades, a nossa fidelidade inteira!
Plinio Corrêa de Oliveira

Catedra de São Pedro – “Ubi Petrus, ibi Ecclesia”

Em diversos números desta revista tivemos oportunidade de acompanhar as calorosas palavras com as quais Dr. Plinio reiterava suas manifestações de amor e devoção à Cátedra de Pedro. No ensejo da festa litúrgica do dia 22 de fevereiro, recordemos novamente uma dessas suas filiais expansões de entusiasmo pelo Papado, ao comentar nas páginas do “Legionário” a imposição do chapéu cardinalício a dois prelados brasileiros.

Em toda a longa e gloriosa história do Vaticano, durante a qual tantas cerimônias brilhantes se desenrolaram sob o teto de Pedro, em nenhuma, talvez, a universalidade da Igreja se patenteará de modo mais evidente [do que no próximo consistório]. Aos pés do Trono da Verdade, estarão os embaixadores de quase todas as nações do mundo. E, nos lugares reservados ao Sacro Colégio, figurarão lado a lado Cardeais europeus, americanos, asiáticos e africanos.

De mar a mar, dos Alpes ao Himalaia

Nunca se viu na História da Igreja, que a Púrpura cardinalícia cobrisse uma tão grande porção da Terra. Dir‑se‑ia que a sombra do báculo de Pedro cresceu, que entre suas extremidades que vão de mar a mar, de monte a monte, dos Alpes ao Himalaia, fica o mundo inteiro. O quadro é de uma grandeza apocalíptica. É impossível não pensar nas lágrimas, no suor e no sangue, nas mortificações, nas preces, na paciência e no heroísmo por meio do qual a Igreja, ajudada por Deus, chegou a tamanha glória. Quando se pensa nos primórdios do Catolicismo, comparado por seu Divino Fundador com o pequenino grão de mostarda, e se vê hoje que a copa da árvore é maior que os mais extensos desertos e as mais vastas nações, são todas as fibras católicas que vibram e se dilatam nos nossos corações.

Não prevaleceram!

Do esplendor desta magnífica realidade se desprende uma voz, porque os fatos falam. E esta voz, eco de outra Voz, nos diz com firmeza mais do que nunca: “non praevalebunt”. Do que adiantou a Nero, a Lutero, ao “Comité de Salut Public”, aos comunistas, investir contra a Igreja com uma fúria desabrida e ferina? Do que adiantou a Juliano o Apóstata, aos jansenistas, aos modernistas, aos nazistas, procurar infiltrar‑se como um cupim silencioso e cheio de lepra, nas próprias fileiras dos católicos? “Non praevalebunt”. Não prevaleceram. (…)

Frutuoso porvir para o Brasil católico

O Brasil se apresenta hoje, no concerto das nações, como uma força que nasce. Nossos recursos começam a pesar decisivamente na economia mundial. Nosso potencial humano já é tomado em consideração por todos que fazem estatísticas de guerra. Nossa posição geográfica começa a fazer de nós uma potência de primeira classe, neste “mare nostrum” dos povos civilizados, que é o Oceano Atlântico. Nossa vida intelectual se vai firmando, e, em todos os sentidos, começam a aparecer entre nós valores que marcam uma ascensão nas atividades do espírito. Hoje já somos alguma coisa. E, sobretudo, não há quem não veja que amanhã poderemos ser quase tudo.

Este Brasil tão rico em tudo, é sobretudo rico da maior das riquezas. É católico, profundamente católico, e o Batismo de Anchieta, que o consagrou a Deus em seus primeiros passos, até hoje não foi repudiado. Aos missionários sucederam os organizadores de nossa vida religiosa já irrevogavelmente firmada no solo agreste do novo mundo. A Hierarquia Eclesiástica se desdobrou aos poucos, e é hoje em nossa terra uma grande falange de pastores, cujos rebanhos crescem dia a dia. Cinco séculos em que Bispos, Clero, Religiosos, fiéis, trabalharam e lutaram para confirmar a graça recebida nas primeiras missões [que] frutificam nos dias de hoje. E tudo isto promete frutificar ainda mais amanhã.

É fácil imaginar com que carinho, com que predileção toda especial a Santa Sé vê hoje em dia este quinhão inapreciável de seu império espiritual. E é fácil imaginar com que atenção, com que simpatia, com que respeito todos os olhos se voltarão para os dois Prelados que o Sumo Pontífice encarregou da honra incomparável de velar pelos interesses mais delicados, pelos assuntos mais altos e mais nobres, que se referirem ao Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo nas terras iluminadas pelo Cruzeiro do Sul(1).

Não fosse um deles o nosso próprio Metropolita, a quem nos prendem os laços de uma filiação espiritual selada com o próprio Sangue de Cristo, e ainda assim, como católicos e como brasileiros, não poderíamos deixar de nos associar a seu júbilo, em situação tão privilegiada em que se aproximarão do Trono de São Pedro.

Onde está Pedro, está a Igreja de Deus

Como de direito, porém, o máximo de nosso filial afeto voa aos pés do Santo Padre. “Ubi Christus ibi Deus; ubi Ecclesia ibi Christus; ubi Petrus ibi Ecclesia”. Só nos unimos a Deus em Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Só nos unimos a Jesus Cristo na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana que é o próprio Corpo Místico do Senhor. E só estaremos unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo, mediante uma união sobrenaturalmente forte, união de vida e de morte, à Cátedra de São Pedro. Onde está Pedro, ai está a Igreja de Deus. (…)

Não há melhor meio de testemunhar amor ao Papa, senão obedecendo‑lhe. E obedecer significa fazer aquilo com que estamos de acordo, e aquilo que por nossa própria vontade faríamos. Significa aceitar como verdadeiro o que ele ensina e nós vemos que é verdadeiro.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do “Legionário”, de 17/2/1946)

 

1) Os dois prelados eram Dom Jaime de Barros Câmara e Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, este último, então Arcebispo de São Paulo.

Incondicional amor à Cátedra de Pedro

Ao comentar um filme documentário sobre a vida no Vaticano na época de Pio XII, Dr. Plinio manifestava, uma vez mais, sua fidelidade à Igreja na pessoa do Papa.

 

Acima de qualquer poder temporal, o Papado é o mais alto poder existente na Terra. É o mais alto, pois tudo quanto diz respeito ao sobrenatural vale mais do que aquilo que se refere ao natural, e o espírito vale mais do que a matéria. Ademais, o Papa tem um poder universal sobre todos os povos, em todos os lugares, enquanto as outras soberanias existentes no mundo são limitadas.

Alguém pode ser rei de um país ou presidente de outro; não há rei do mundo, nem presidente do mundo. Ora, o Papa é o Pastor do mundo inteiro, ele tem uma jurisdição sobre as almas de todo o orbe. O resultado é que, mesmo sob esse terceiro título — o menos importante de todos, mas que é tão importante — ninguém pode se comparar ao Papa.

Então, a ideia é a seguinte: sendo o Papa o representante de Deus na Terra e, portanto, do mais sobrenatural dos poderes, toda a ordem da graça está na mão dele, a ele compete exercer em sumo grau as faculdades de ensinar, de guiar e de santificar, próprias à Igreja Católica. Por exercer esse ministério de uma ordem tão transcendente, ele é o maior hierarca de toda a Igreja e, por isso, também deve estar cercado das maiores manifestações de respeito que a um homem possam ser tributadas.

Respeito, amor e força na monarquia papal

Por causa disso, toda a vida ao redor do Papa há de ser organizada de maneira a torná-lo objeto desse respeito e desse amor. O governo papal sobre a Igreja é uma monarquia que corresponde a três ideias: a ideia do respeito, a ideia do amor e a ideia da força.

A ideia do respeito, em primeiro lugar. O Papa deve ser venerado, como eu já disse.

Em segundo lugar, a ideia do amor. Se o Papa é o representante de Cristo na Terra, todo o amor que os homens tributam a Nosso Senhor Jesus Cristo deve ter como seu ponto de aplicação imediata o Papa, que representa Cristo na Terra.

Depois, a ideia de força. O Papa é um pastor. Os senhores não podem conceber um pastor que não tenha um papel de força a desenvolver, porque o pastor precisa defender as ovelhas contra o lobo. E, portanto, ele deve aplicar a força contra o lobo. O poder de governar as ovelhas tem como elemento intrínseco o de combater o lobo pelas armas espirituais.

Então os senhores veem em torno do Pontífice uma pompa que é religiosa, ao mesmo tempo paterna, mas também é uma pompa de força. E a nota força precisa ser um pouco salientada. Os senhores veem ali as guardas pontifícias: a Guarda Suíça, a Guarda Palatina, a Guarda Nobre — composta exatamente de elementos da nobreza romana —, que serviam ao Papa gratuitamente e se revezavam no serviço papal. Essas três milícias guarneciam os palácios do Papa. É claro que com uma primeira preocupação imediata de garantir a integridade pessoal do Pontífice, a ordem naquele enorme movimento de pessoas e a incolumidade dos colossais tesouros de arte que ali se encontram.

Uma visita que valia por um verdadeiro exercício espiritual

Assim, tudo era organizado de modo a que, em torno do Papa, esses sentimentos pudessem se exprimir. De maneira a ser dada a todos os que fossem ver o Papa a oportunidade de ter os seus sentimentos de devoção, de respeito, de amor, de temor diante da força, levados ao mais alto grau. Portanto, toda a organização ali visava a incutir nos fiéis os sentimentos que eles deveriam possuir.

Por esta razão, uma visita à Basílica de São Pedro e ao Palácio do Vaticano valia por um verdadeiro exercício espiritual do qual o fiel saía com sua alma mais aderente, mais unida ao Papa do que anteriormente.

Quando apareceu o cinema, a possibilidade de realizar filmes como esse e de passá-los ao mundo inteiro levou para os que não podiam ir até lá o espetáculo magnífico e cotidiano dentro do qual a vida de um Papa se desenvolvia.

É natural que, sendo o Papa a cabeça visível da Igreja, pessoas do mundo inteiro procurem ir a Roma para vê-lo. E o número dos que viajavam para ver o Sumo Pontífice — desde São Pedro, primeiro Papa, até nossos dias — foi se multiplicando à medida que os meios de locomoção se tornavam mais fáceis. De maneira a Roma passar a ser, sobretudo nos últimos cem anos, um ponto de atração dos estrangeiros, católicos de todas as partes do mundo chegando continuamente lá.

Os senhores viram, no filme, feridos de guerra, freiras que querem falar com o Papa. Havia de tudo. É um resumo do mundo que quer falar com o Papa. É preciso falar com o Papa!

Os senhores prestem atenção nas fisionomias das pessoas quando falam com o Papa, sobretudo depois de sua passagem. É quase a fisionomia de quem acaba de comungar. Recebeu do Pontífice uma palavrinha só, mas que palavrinha! É guardada na alma para a vida inteira: o timbre de voz, o sorriso, a temperatura da mão, como a mão apertou, como não apertou, os eflúvios, os imponderáveis que o Papa traz em torno de si, tudo isso a pessoa guarda para a vida inteira, e até para a hora da morte, porque é para a hora da morte que guarda.

Estar unido à Cátedra de Pedro até na hora da morte

Eu tive a experiência disso. Eu levei vários objetos para serem abençoados por Pio XII, entre eles algumas velas. As velas que se levavam para o Papa benzer eram velas lindas, que se vendiam na Via de la Conciliazione, todas trabalhadas, com relevos, com figuras, etc. Ele abençoou. Eu guardei de novo na minha pasta, com muitos outros objetos.

Quando cheguei ao hotel, pensei o seguinte — eu tinha a intenção de pôr uma vela dessas na sede do nosso Movimento e dar outra a minha mãe — eu pensei com meus botões: “O que é que eu vou fazer com essas velas? Uma dessas velas deve ser guardada para quando eu morrer. O agonizante católico morre com a vela na mão, e eu quero que a vela com a qual eu morra seja a vela abençoada pelo Vigário de Cristo. Assim estarei unido à Cátedra de Roma até quando eu estiver sem sentidos, até quando me encontrar entre a vida e a morte, e o meu intelecto não articular mais nenhum pensamento. Por minha recomendação, minha mão vai ser agarrada a esta vela que representa tudo aquilo que eu amo na Terra: o Papa, com o qual tudo quanto há na Terra é digno de amor e sem o qual nada é digno de amor, apenas de desprezo, porque está marcado pelo pecado original e pelo domínio do demônio.” É o movimento natural da minha alma.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/1/1976)

Unido à Cátedra de Pedro até a morte

Quando de sua primeira visita a Paris na idade adulta, logo após se instalar no hotel, Dr. Plinio se dirigiu a Notre Dame. Era noite, a cidade luz cintilava. Aproximando-se pela “rive gauche”, encantou-se com a vista da face lateral da catedral junto ao Sena, e mandou parar o automóvel para ficar um tempo contemplando aquela maravilha. Desejava glorificar a Deus refletido tão belamente no célebre edifício sagrado visto desse ângulo.

Essa atitude de admiração enlevada era manifestação de um amor pela Igreja que quase tocava nos limites da adoração, conforme declarou ele certa feita. Se São Francisco desposou a Dama Pobreza, aspirava Dr. Plinio com todo o coração fazer um desposório místico com a Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana enquanto instituição.

E, como de direito, o máximo de seu afeto filial se dirigia ao Santo Padre, o Doce Cristo na terra. “Ubi Christus ibi Deus; ubi Ecclesia ibi Christus; ubi Petrus ibi Ecclesia”. “Só estaremos unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo, mediante uma união sobrenaturalmente forte, união de vida e de morte, à Cátedra de São Pedro. Onde está Pedro, aí está a Igreja de Deus”, escreveu ele no Legionário (17/2/1946).

Devotadíssimo filho da Santa Sé, em outro artigo para o Legionário, fazia Dr. Plinio esta eloquente apologia de seu filial e entusiasmado amor pelo Papado: “De tal maneira a Igreja Católica está vincada à Cátedra de São Pedro que onde não há a aprovação do Papa não há Catolicismo. O verdadeiro fiel sabe que o Papa resume e compendia em si toda a Igreja Católica […]. Porque tudo quanto há na Igreja de santidade, de autoridade, de virtude sobrenatural, tudo isto, mas absolutamente tudo sem exceção, nem condição, nem restrição está subordinado, condicionado, dependente da união à Cátedra de São Pedro. As instituições mais sagradas, as obras mais veneráveis, as tradições mais santas, as pessoas mais conspícuas, tudo enfim que mais genuína e altamente possa exprimir o Catolicismo e ornar a Igreja de Deus, tudo isto se torna nulo, maldito, estéril, digno do fogo eterno, e da ira de Deus, se separado do Romano Pontífice. […] para nós, entre o Papa e Jesus Cristo não há diferença. Tudo que diga respeito ao Papa diz respeito direta, íntima, indissoluvelmente, a Jesus Cristo”(16/4/1944).

Fiel até o fim ao carisma recebido, desejou Dr. Plinio morrer tendo nas mãos o crucifixo e uma vela benta pelo Papa, como derradeira e suprema manifestação desse incondicional afeto e devotamento à Cátedra de São Pedro de que sua alma transbordava.

Foi Dr. Plinio, sem dúvida, em toda integridade um autêntico “vir catholicus, totus apostolicus, plene romanus”!

Festa da Cátedra de São Pedro

Dir-se-ia que a sombra do báculo de Pedro cresceu, que entre suas extremidades — que vão de mar a mar, de monte a monte, dos ­Alpes ao Himalaia — fica o mundo inteiro. É impossível não pensar nas lágrimas, no ­suor e no sangue, nas mortificações, nas preces, na paciência e no heroísmo por meio do qual a Igreja, ajudada por Deus, chegou a tamanha glória. Quando se pensa nos primórdios do Catolicismo, comparado por seu Divino Fundador com o pequenino grão de mostarda, e se vê hoje que a copa da árvore é maior que os mais extensos desertos e as mais vastas nações, são todas as fibras católicas que vibram e se dilatam nos nossos corações. Do esplendor desta magnífica realidade se desprende uma voz, porque os fatos falam. E esta voz, eco de outra Voz, nos diz com firmeza mais do que nunca: non praevalebunt!
(Do “Legionário” de 17/2/1946)