Nossa Senhora de la Salette: Majestade entremeada de amor

Majestade entremeada de amor

O olhar imaculadamente puro de Nossa Senhora, espelho de sua
face e de seu coração, é algo tão sublime que se torna impossível
descrevê-lo. Segundo a vidente de La Salette, a visão dos olhos de
Maria bastaria para preencher a eternidade de um bem-aventurado.

A Aparição de Nossa Senhora de La Salette: Uma Descrição Admirável

No dia 19 de setembro, a Igreja celebra a aparição de Nossa Senhora de La Salette. O texto a seguir comenta trechos do livro de Regamey, Les plus beaux textes sur la Vierge, baseado no depoimento de Mélanie Calvat, a menina que viu Nossa Senhora.


Rainha Incomparável

Aparência

A Santíssima Virgem era alta e bem proporcionada. Parecia tão leve que um sopro poderia atingi-La. No entanto, Ela permanecia imóvel e inalterável. Sua fisionomia era majestosa e imponente, mas não como a dos poderosos da Terra.

Ela inspirava um temor respeitoso e, ao mesmo tempo, sua majestade impunha respeito entremeado de amor. Ela atraía. Ao seu redor e em sua própria pessoa, tudo inspirava majestade, esplendor e magnificência de uma rainha incomparável.

Ela parecia bela, clara, imaculada, cristalina e celeste. Também me parecia uma boa mãe cheia de bondade, amabilidade, amor, compaixão e misericórdia para conosco. Por esta descrição, Mélanie, a pastorinha analfabeta, mereceria entrar na Academia Francesa de Letras. É uma descrição admirável.

Lágrimas

A Santa Virgem chorava durante quase todo o tempo em que me falou. Suas lágrimas corriam lentamente, uma a uma, até seus joelhos. Depois, como fagulhas de luz, elas desapareciam. Eram brilhantes e cheias de amor.

Eu queria consolá-La e que Ela não chorasse. Mas parecia-me que Ela precisava mostrar suas lágrimas para melhor demonstrar seu amor, esquecido pelos homens. As lágrimas de nossa terna Mãe, longe de enfraquecerem seu ar de majestade de Rainha e Senhora, pareciam, ao contrário, embelezá-La, torná-La mais amável e mais radiante.


Verdadeira Porta do Céu

Olhos

Os olhos da Santíssima Virgem, nossa terna Mãe, não podem ser descritos por uma língua humana. Para deles falar, seria preciso um Serafim, seria preciso a própria linguagem de Deus, de Deus que formou a Virgem Imaculada, obra-prima de seu poder.

Os olhos da augusta Maria pareciam mil e mil vezes mais belos que os brilhantes, os diamantes e as pedras preciosas. Eram como a porta de Deus, por onde se podia ver tudo aquilo que pode encantar a alma. Somente essa visão dos olhos da mais pura das virgens seria suficiente para ser o Céu de um bem-aventurado.

Seria suficiente para fazer uma alma entrar na plenitude das vontades do Altíssimo, impelindo-a a contínuos atos de louvor, agradecimento, reparação e expiação. Somente esta visão concentra a alma em Deus e a torna como uma morta-viva, que olha as coisas da Terra, mesmo as mais sérias, como brinquedos de criança. Ela só queria ouvir falar de Deus e daquilo que se refere à Sua glória.


Celestial, Régia e Incomparavelmente Bondosa

Cada pormenor da aparência de Nossa Senhora é uma verdadeira beleza, simbolizando três ideias principais:

  1. A sobrenaturalidade: um ente todo celestial, inundado de valores sobrenaturais e de graças, personificando a graça de Deus.
  2. A majestade régia: sem nome, que se expressa n’Ela inteira e se irradia em torno d’Ela.
  3. A bondade sem precedentes: uma pena, misericórdia e condescendência que se une à majestade de forma indissolúvel.

Todos os traços da descrição foram feitos para simbolizar essa conjunção de virtudes.


Características da Majestade de Nossa Senhora

A Santíssima Virgem era alta e bem proporcionada. A altura é um apanágio da majestade (tanto que aos príncipes, que não são reis, diz-se “Vossa Alteza”). Não era uma altura esmagadora, mas condescendente e acessível, graças à perfeição de suas proporções, uma unidade na variedade.

Ela parecia tão leve que um sopro poderia atingi-La, mostrando que Seu corpo, dominado pelo espírito, não estava sujeito à lei da gravidade. O sobrenatural n’Ela estava em sua plenitude.

Ela impunha um temor respeitoso, que não vinha do medo, mas do receio de desagradar um ser tão elevado. Ao mesmo tempo, incutia amor por ser quem era. A verdadeira majestade atrai, não repele, ao contrário do que se vê em majestades falsas.

Ao seu redor, como em sua pessoa, tudo inspirava majestade, esplendor e magnificência. O que havia em torno d’Ela, um campinho ordinário, se transformava em um palácio porque, como diz a Escritura: “Omnis gloria filiæ regis ab intus” (Sl 44, 14): toda a glória da filha do rei lhe vem de dentro.


Rainha e Mãe de Suma Misericórdia

Ela parecia bela, clara, imaculada, cristalina, celeste. A ideia de cristalino, para quem gosta de cristais, ressalta a pureza e a diafaneidade de Sua essência.

Depois, vem o corolário: “Parecia-me também como boa mãe, cheia de bondade, amabilidade, amor para conosco, compaixão e misericórdia.”

Aqui está a justaposição perfeita de Rainha e Mãe de misericórdia, expressa no início da “Salve Rainha”. Essa união de majestade e bondade é a ideia da majestade perfeita.


O Nobre Pranto de Maria

Nossa Senhora chorava, mas há dois modos de chorar: com fraqueza ou com sobranceria. Seu pranto era nobre e sereno.

Suas lágrimas corriam lentamente, uma a uma, até seus joelhos. Isso indica o domínio, a ausência de pranto convulsivo, e a profundidade de Sua dor, que inunda toda a Sua alma.

Depois, como fagulhas de luz, elas desapareciam. Essa forma de desaparecer, em vez de cair na terra, mostra que a lágrima brilhava, dava uma luz e era recolhida nos esplendores do Padre Eterno. As lágrimas de uma Rainha deviam ser luminosas, cristalinas e cheias de amor.

Lágrimas que Embelezam a Majestade

As lágrimas de nossa terna Mãe, longe de enfraquecerem seu ar de majestade, pareciam, ao contrário, embelezá-La, torná-La mais amável e mais radiante.

A verdadeira rainha tem uma beleza especial para cada situação. Em Nossa Senhora, as lágrimas davam a beleza inconfundível da dor da Rainha. Elas a tornavam “amável” (digna de amor) e “radiante” (com sua personalidade mais expandida).


Sublimidade Impossível de Ser Descrita

A face é o resumo do corpo, e os olhos são a quintessência de toda a sua expressão. Como se expressaria a alma de Nossa Senhora na parte mais expressiva de seu corpo santíssimo?

Os olhos da Santíssima Virgem… não podem ser descritos por uma língua humana. Para deles falar, seria preciso um Serafim, seria preciso a própria linguagem de Deus, obra-prima de seu poder. O próprio do sublime é não poder ser descrito por língua humana.

Os olhos de Maria pareciam mil e mil vezes mais belos que os brilhantes e as pedras preciosas. Eram como a porta de Deus, onde se podia ver tudo que pode encantar a alma. Na Ladainha, Nossa Senhora é chamada de “Janua Cæli”, Porta do Céu. Olhar para os olhos dela é olhar a mais alta manifestação da alma que é o espelho da justiça de Deus.

O olhar imaculado de Nossa Senhora tem o poder de purificar. Somente essa visão seria suficiente para ser o Céu de um bem-aventurado e para fazer uma alma entrar na plenitude das vontades do Altíssimo, impelindo-a a contínuos atos de louvor, agradecimento, reparação e expiação.

As Coisas Desta Terra Tornam-se Sem Importância

Depois de ver o olhar de Nossa Senhora, a alma concentra-se em Deus e torna-se como uma morta-viva, que olha as coisas da Terra, mesmo as mais sérias, como brinquedos de criança. A pessoa não dá mais importância a nada, a não ser a não pecar.

Peçamos a Nossa Senhora de La Salette uma impregnação de todas essas graças em nossa alma. E, sobretudo, uma apetência de ver os Seus sagrados olhos, o espelho de Sua face e de Seu coração, para que tenhamos o desejo de vê-los no Céu.

(Extraído de conferência de 19/9/1966)

São Roberto Belarmino: “Martelo” contra a heresia protestante

“Martelo” contra a heresia protestante

São Roberto Belarmino foi um Santo onímodo,
recebendo de Deus a tríplice vocação de ensinar
os fiéis, de orientar a piedade das almas sendo
diretor espiritual exímio e de confundir os
heréticos protestantes de sua época. Foi um
homem de autêntica ação contrarrevolucionária,
uma fortaleza que combateu pela Santa
Igreja Católica em todas as direções.

São Roberto Belarmino: Bispo, Confessor e Doutor da Igreja

Temos aqui dados sobre São Roberto Belarmino, bispo, confessor e Doutor da Igreja, tirados da Vida dos Santos do Pe. Rohrbacher, do L’Année Liturgique de Dom Guéranger e de Schamoni, O verdadeiro rosto dos Santos.


Santo com uma tríplice vocação

Desde as origens da Igreja até nossos dias, a Providência sempre suscitou homens ilustres pela ciência e santidade. Eles conservaram e interpretaram as verdades da Fé Católica e refutaram os ataques heréticos. Entre esses homens, destaca-se São Roberto Belarmino, celebrado por seu ensino, suas obras polêmicas, seu zelo pela reforma da Igreja e suas virtudes.

O santo cardeal parecia ter recebido de Deus uma tríplice vocação: ensinar os fiéis, orientar a piedade das almas e confundir os heréticos protestantes do século XVI, a era de plena efervescência do protestantismo.

Sua vida oferece um espetáculo diferente do de outros santos de sua época. Ele foi um misto de pastor de almas, homem de ação e teólogo, dedicando-se a uma luta contra um adversário (o protestantismo) que havia atingido uma consistência sem precedentes. Enquanto outros santos lutaram contra heresias, poucos dedicaram toda a sua vida exclusivamente a essa batalha.

Nascido em 4 de outubro de 1542, em Montepulciano, Toscana, de uma família de alta nobreza, Roberto Belarmino ingressou na Companhia de Jesus em 1560. Seus estudos na Universidade de Louvain, um dos principais bastiões contra o protestantismo, foram decisivos para sua atividade científica. Entre 1570 e 1576, ele pregou com grande sucesso como professor de Controvérsia Teológica.

O Papa Gregório XIII, reconhecendo-o como uma grande figura europeia, o chamou a Roma. Lá, Belarmino assumiu a responsabilidade pela formação de alunos de colégios alemães e ingleses, preparando-os para as batalhas espirituais em seus países. A Santa Sé o apoiou na formação de seminaristas de nações protestantes, que fugiam para Roma para se tornarem sacerdotes e depois voltarem para casa e desenvolverem seu apostolado.

São Roberto Belarmino os formou e lhes forneceu livros de sua autoria para refutar o protestantismo. A ele se deve o fato importantíssimo da preservação da Áustria da “gangrena protestante” e a recuperação de aproximadamente um terço da Alemanha para a Religião Católica. O impacto disso foi fabuloso, pois o curso da História teria mudado se ele e outros santos não tivessem obtido essa recuperação.


Herói na luta contra o Protestantismo

Belarmino possuía uma grande inteligência que lhe permitia ordenar e dominar um vasto número de matérias. Sua memória era lendária, capaz de reter tudo o que lia de uma só vez. Seu conhecimento dos Padres da Igreja e teólogos era assombroso, e ele dominava vários idiomas com um estilo ameno e fluído. Essas qualidades o capacitaram a empreender obras brilhantes.

O Geral de sua Ordem o colocou à frente de tarefas administrativas para lhe dar descanso das terríveis dores de cabeça. Clemente VII o nomeou cardeal, dizendo: “Nós o nomeamos cardeal porque ninguém na Igreja de Deus se iguala em saber, e por ser sobrinho de Marcelo II”. Em 1602, tornou-se Arcebispo de Cápua e, em 1605, Paulo V o chamou de volta a Roma.

Ainda que tenha realizado outras atividades, a nota fundamental de sua vida foi ser um grande herói na luta contra a heresia. Ele foi um herói em dois sentidos:

  1. Qualidades intelectuais extraordinárias: A Providência lhe deu dons intelectuais para servir à sua missão de polemista. Esses dons, em uma época que valorizava a inteligência, lhe conferiram prestígio e profundidade em sua obra.
  2. Ações impactantes: Suas “devastações” contra o protestantismo foram tremendas, especialmente em países já protestantes.

Recebeu o título elogioso de “martelo da heresia”

Foi um grande pregador, professor e polemista. Recebeu de Bento XV o título de “martelo da heresia”. Escreveu muito, e São Francisco de Sales, seu contemporâneo, elogiava seus livros, dizendo: “Preguei em Chablais durante cinco anos sem outros livros que a Bíblia e as obras de São Roberto Belarmino.”

Sua obra mais famosa é Controvérsias, uma compilação de suas aulas no Colégio Romano. Nela, ele defende os dogmas atacados pelos luteranos, usando o testemunho dos Padres, dos Concílios e do Direito da Igreja. A obra é tão magistral que muitos a consideram insuperável. Sua publicação causou grande satisfação entre os católicos e fúria entre os adversários. O protestante Teodoro de Beza disse: “Eis o livro que nos perdeu.” A Rainha Isabel I da Inglaterra chegou a proibir a leitura do livro a quem não fosse doutor em Teologia, sob pena de morte, tal era o número de conversões que operava.

Não satisfeito em convencer os hereges, Belarmino também queria prevenir os fiéis. Para isso, compôs um pequeno catecismo, que ele mesmo fazia questão de ensinar às crianças e pessoas simples. Esse catecismo ainda é usado na Itália e foi traduzido para sessenta idiomas.

Ele agiu como “martelo dos hereges” ao escrever livros que demonstravam a verdade e atacavam duramente os hereges, levando muitos à conversão. A proibição do seu livro por Isabel I é uma prova do seu impacto.


Não basta ensinar o bem, é preciso também atacar o mal

São Roberto Belarmino entendeu que a heresia não pode ser destruída apenas ensinando a verdade; é preciso também atacar o erro. Além de propagar o bem, ele atacava o mal. Sua vida, canonizada de acordo com as virtudes cardeais (justiça, prudência, temperança e fortaleza), é uma prova viva de que esse método é eficiente.

Ele prova que o argumento de que toda polêmica e ataque ao adversário são prejudiciais à união das igrejas está equivocado. Quem quiser trabalhar pela conversão à Igreja Católica trabalhará de modo sumamente eficaz se seguir seu exemplo. A vida de São Roberto Belarmino, um santo de altar, foi ininterruptamente dedicada a isso.


Delicadíssimo burilador de almas

Um dado empolgante de sua vida, não mencionado anteriormente, é que São Roberto Belarmino foi um grande diretor de consciências. Ele teve a glória de ser o confessor e diretor espiritual de São Luís Gonzaga, uma alma virginal e delicadíssima que se tornou modelo em uma Europa afundada na impureza.

A beleza do contraste dentro da Igreja é notável: um campeão da ortodoxia, grande lutador, era ao mesmo tempo um “burilador de almas delicadíssimo”. Ele soube orientar a alma de São Luís Gonzaga, fazendo dela uma verdadeira obra-prima de santidade. Belarmino viu o valor dessa alma e a dirigiu de acordo com sua própria via, depondo até em seu processo de canonização.


Santo onímodo e grande contrarrevolucionário

No final de sua vida, Belarmino retirou-se para o noviciado de sua Ordem em Roma para se preparar para a morte. Entre outras publicações, escreveu cinco pequenos tratados ascéticos e, por fim, A arte de bem morrer.

Ele é uma grande figura que nos mostra como a Igreja conseguiu conter e fazer o protestantismo recuar em parte. Sua vida também é uma obra-prima de serenidade em meio à luta. Apesar de ser um cardeal ocupadíssimo, ele sabia usar o tempo de tal maneira que encontrava momentos de calma para meditar e escrever obras profundas que o levaram a ser Doutor da Igreja.

Pouco depois de seu falecimento, em 1621, iniciou-se seu processo de canonização, que só foi concluído em 1923.

Em São Roberto Belarmino, temos um modelo de grande contrarrevolucionário. Que ele reze por nós e nos ensine a praticar sua virtude.

(Extraído de conferências de
12/5/1966 e 12/5/1967)
1) Cf. ROHRBACHER, René-François.
Vida dos Santos. São Paulo: Editora
das Américas, 1959. v. VIII, p.
318-325.
2) Cf. SCHAMONI, Wilhelm. El verdadero
rostro de los Santos. Ed. Ariel, 1952.

Santa Catarina de Genova: A Paz e a alegria da contrição

A paz e a alegria da contrição

Santa Catarina de Gênova teve uma experiência mística
do estado de uma alma no Purgatório e compreendeu o
quanto a verdadeira contrição proporciona paz e alegria.
Se carregarmos nossa cruz com resignação, teremos na
alma torrentes de paz, tranquilidade, estabilidade, ordem,
cuja fruição ninguém nesse mundo poderá nos tirar.

 

Santa Catarina de Gênova: A Paz da Contrição e o Amor Purificador

 

Num êxtase, vê a enormidade de seus pecados e se converte

Catarina de Gênova, oriunda de nobre linhagem dos Fieschi, nasceu na citada cidade mediterrânea, em fins do ano 1447. Seus desejos de ingressar num convento foram contrariados por seus pais, que a desposaram com um patrício genovês, Giuliano Adorno, atendendo às conveniências políticas.

Seu esposo era-lhe infiel, violento e debochado. Durante os cinco primeiros anos de seu casamento, a jovem sofreu em silêncio. Mais tarde, quando seu marido tratou de arrastá-la a uma vida mundana, onde pensaria em desenvolver seus extraordinários dotes de beleza e invulgar espírito, viu aumentar sua desventura, chegando inclusive a perder o consolo da Religião que até então a sustentara.

Santa Catarina de Gênova Paróquia dos Italianos, Lisboa

A paz e a alegria da contrição Hagiografia

Dez anos depois de seu casamento, Catarina visitou sua irmã, que vestia o hábito monacal, contando-lhe as dificuldades. O conselho da jovem religiosa foi que se confessasse e se entregasse à penitência. Quando se decidiu a seguir esse maravilhoso caminho, caiu em êxtase, sendo-lhe descoberta a grandeza de seus pecados, enquanto nela se despertou um tão grande amor a Deus que dessa experiência se converteu.

Assim, voltou a acariciar o desejo de sua infância. Durante muitos anos, na Quaresma e no Advento, viveu quase que exclusivamente da Sagrada Comunhão. Seu marido, que se arruinara, ainda a fez sofrer muito, confessando-se apenas no seu leito de morte. Catarina dedicou-se a cuidar dos doentes num hospital de Gênova, onde sua conduta foi particularmente heroica durante a epidemia de 1493. Faleceu a 15 de setembro de 1510.

O fogo abrasador do Purgatório

Nunca se escreveram palavras tão profundas sobre o Purgatório como as desta Santa. No abrasado fogo de seu amor a Deus, reconhecia o que padecem as almas que passam por aquele lugar de purificação, onde o amor depurador do fogo limpa os espíritos de todos os resquícios de pecado.

Ao separar-se do corpo, disse ela, a alma impura se sente destroçada, reconhecendo o peso que a oprime e, com a convicção de que só se verá livre de tal peso através do Purgatório, deseja caminhar imediata e voluntariamente para ele.

A essência divina encerra tanta pureza e claridade, que aquelas almas que possuem um só resquício de imperfeição em si preferem lançar-se em mil purgatórios a colocar-se em presença de Deus com a mancha do pecado. É verdade que o amor a Deus lhes proporciona um indizível bem-estar, mas isto não diminui a mínima parcela do sofrimento que devem padecer no Purgatório. Ao contrário, seu padecimento consiste precisamente em sentir-se refreadas no amor, e tal tormento cresce à medida que seu amor se torna mais perfeito. Deste modo, as almas do Purgatório gozam as maiores delícias, ao passo que sofrem as maiores dores, sem que uma coisa impeça a outra.


Uma alma muito chamada

Nesta ficha há duas considerações a tirar. Uma delas é propriamente a biográfica, sobre a vida de Santa Catarina. E a outra é a respeito do trecho referente ao Purgatório.

Na parte biográfica, poderíamos fazer várias observações. Trata-se de uma alma muito chamada que, entretanto, não correspondeu ao convite de Deus. Ela se casou com Giuliano Adorno quando quisera ter sido religiosa, e se deixou arrastar ao mesmo tempo por um oceano de sofrimentos, de padecimentos que seus pais lhe infligiram, de um lado e, de outro lado, pelo mundanismo e pela vaidade, que fizeram dela uma pessoa preocupada, durante grande período, apenas com prazeres e sem cogitar das coisas de Deus.

Vemos, depois, uma conversão maravilhosa. Naquele tempo, eram muito numerosas as pessoas que entravam para o estado religioso. Mesmo nas famílias das mais altas categorias, havia sempre dois, três, quatro filhos, que se faziam frades, freiras, padres, bispos, ou então iam para as Ordens de Cavalaria. A coisa mais corrente, mais comum, era alguém ser religioso.

Certo dia, ela foi visitar sua irmã, que era religiosa, e se expandiu a respeito de tudo quanto sofria no mundo. Eram padecimentos que se contradiziam, se chocavam. De um lado eram por causa do péssimo marido, o qual pôs fora a fortuna, continuou a levar uma má vida e só se converteu no leito de morte.

E de outro lado – não está dito de modo expresso na ficha, mas se compreende – o enorme vazio dos prazeres nos quais ela procurava uma compensação daquilo que sofria. A irmã, então, lhe recomenda que volte a Deus, à prática dos Sacramentos que ela abandonara. Catarina atende o conselho e é ferida por um êxtase, no qual vê todo o horror dos pecados que cometeu.

Passou, então, a levar uma vida de penitência. Ela, que fora uma dama de grande honra – ocupara um lugar de destaque pela sua beleza, situação social, riqueza, numa das cidades mais celebres do mundo de então, Gênova, república aristocrática, que dominava partes do Mar Mediterrâneo – vai cuidar despretensiosamente dos doentes num hospital, para fazer penitência.

A ideia da expiação do pecado por meio do sofrimento domina toda sua vida, e ela se entrega a um verdadeiro Purgatório na Terra. Vai ajudar os outros no sofrimento e sofre com eles para expiar o pecado que cometeu. Assim vemos quanto é lógico que ela tenha uns pensamentos profundos – êxtases, visões e revelações – a respeito do Purgatório.

Antes, porém, de passar a esse tema, vamos considerar o conjunto desta biografia.


Procurou escapar do bom caminho e recebeu grandes sofrimentos

Há certas almas que Deus persegue com obstinação; porém, elas fogem e, às vezes, se debatem contra o Criador. Mas Ele, na sua misericórdia, em determinado momento as atinge de tal maneira que elas se entregam a Ele por completo. Essas almas, na História da Igreja, são incontáveis. Temos um exemplo em São Paulo, a quem Nosso Senhor disse, na hora da conversão: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (At 9, 4). E acrescentou que era duro para ele relutar contra o vento da graça de Deus, que o chamava para uma determinada finalidade.

Santa Catarina procura escapar do bom caminho. Deus não lhe corta o mau caminho, mas nele coloca um sofrimento. O mau marido, a frustração do mundo, predispõem sua alma para aquele momento abençoado em que a irmã lhe dá um bom conselho.

Sua alma provavelmente estava preparada por mil sofrimentos. Catarina era naquela ocasião mais ou menos como um filho pródigo que volta à casa paterna. Ela é vencida por Deus, que arranca essa vitória de um modo magnífico. Em vez de inspirar considerações piedosas sobre o pecado para fazer tão somente um ato de contrição, Deus lhe dá muito mais. Concede-lhe uma visão na qual ela tem uma noção clara do pecado que cometeu.

Davi, depois de ter pecado, disse aquela frase estupenda que está nos Salmos e sempre me impressionou: “Eu pequei só contra Ti, ó meu Deus, e o meu pecado está o tempo inteiro diante de mim” (cf. Sl 50, 5-6), como se fosse um acusador que se levanta dizendo aquilo que ele fez. Catarina poderia dizer isso, porque teve uma visão na qual viu o seu próprio pecado.


A verdadeira contrição é alentadora e proporciona muita alegria

Poderíamos nos perguntar se Deus foi para com ela misericordioso ou duro, um pai cheio de bondade ou, pelo contrário, de severidade. Compreendo que alguns possam achar ser em extremo duro ver de frente o seu próprio pecado, pois deve produzir uma impressão de desalento, tristeza, desânimo e até o desmaio. A pessoa que pensa assim não tem uma noção clara do que seja uma contrição.

No meio de seus crepes, de suas lágrimas, a verdadeira contrição é alentadora e proporciona belas, talvez lúgubres, mas magníficas alegrias. Para mostrar isso ela descreve o Purgatório, que é por excelência o lugar de contrição. Para lá vão as almas que têm de se purificar de alguma coisa antes de ver a essência de Deus.

Santa Catarina, no trecho transcrito, fala de um modo conciso, mas muito elevado, sobre o Purgatório. Mostra que a alma de uma pessoa boa, fiel, que morre, tem uma primeira noção da pureza infinita de Deus e sabe que vai possuí-Lo por toda a eternidade, a felicidade insondável que não se compara com as alegrias da Terra. Mas, ao mesmo tempo em que é atraída para o Criador, ela se sente fora de condições de se apresentar a Ele.

Então, a alma passa por dois movimentos: um cheio de alegria e outro pleno de pesar. O movimento cheio de alegria a conduz para unir-se a Deus. O de pesar vem do contraste entre aquela mancha que ela nota em si e a pureza infinita do Criador. Então, por um desejo de união, de purificação, diz Santa Catarina, a alma suportaria mil Purgatórios para poder unir-se a Deus.

Ali, no Purgatório, ela sofre o tormento delicioso ou a tormentosa delícia de ir sentindo que aquilo que a separa de Deus vai se tornando mais adelgaçado ao longo das purificações e, ao mesmo tempo, querendo chegar mais próxima do Criador.


A tristeza depurativa e a paz da contrição

De maneira que ela tem uma fundamental alegria junto a uma tristeza que a vai depurando e aproximando de Deus. Algo disso existe também na paz de alma causada pela contrição. Nos Salmos, Davi, inspirado pelo Espírito Santo, canta o pesar por ter pecado, de maneira que cada uma daquelas palavras é uma gota de fogo caída do Céu para a alma humana. Faz certas comparações magníficas. Ele diz, por exemplo, que por causa do pecado ficara isolado, rejeitado e se sentia como um pardal solitário no telhado de uma casa.

A similitude não podia ser mais pitoresca. As pessoas se reúnem em família debaixo do telhado da residência, onde talvez esteja acesa uma lareira e haja o calor do convívio entre todos. Do lado de fora sobre o telhado, sozinho, exposto à chuva, intempérie, não tendo ninguém com quem “conversar”, está o pardal solitário. Assim, longe do convívio dos bons que se entreamam, está o pecador solitário. A imagem não podia ser mais poética, mais bonita para exprimir a solidão do pecador. Davi descreve de mil modos lindos a própria dor.

Ao mesmo tempo em que vai falando de sua dor, nota-se que ele está em paz. É a paz de alma do pecador que reconhece ter errado, não está mentindo para si nem para Deus, e tem coragem de olhar de frente o seu próprio pecado. Em geral, os Salmos terminam com um cântico de esperança: “Mas Tu és Deus meu Salvador e terás compaixão de mim.” Todas aquelas palavras magníficas indicam a esperança da alma de ser atendida, ser remida e salva. Compreende-se a torrente de paz, de esperança e o júbilo triunfal que existe por detrás da penitência. Assim nós devemos considerar Santa Catarina de Gênova.


Um hospital em Gênova, naquele tempo

Imaginemos um hospital em Gênova, naquele tempo: edifício bonito, como geralmente eram as construções italianas. Às cinco horas da manhã, toca uma sinetazinha, a Missa vai começar, as primeiras mulheres fiéis usando véu entram na capela. Entre elas se encontra Santa Catarina de Gênova, lembrando-se talvez de outras madrugadas em que não estava saindo de casa, mas entrando nela. Em que ela não tinha diante de si a perspectiva de um dia de sacrifício, mas a recordação amarga de uma noite inteira de prazer, seguida de inconsolável frustração.

Ela caminha com passo ligeiro, mais uma vez pede perdão pelo seu pecado, ajoelha-se e começa a rezar no recolhimento do prédio. Inicia-se a Missa, os fiéis oram com o padre, aos poucos a claridade entra na igreja, as luzes das velas tornam-se inúteis, a natureza vai acordando, é a normalidade da vida.

Santa Catarina se prepara para começar a sua penitência enorme, infinda, junto aos doentes, ouvir gemidos, assistir agonias, consolar dores. Mas, para além de tudo isto, há uma luz que se levanta e vai ficando cada vez mais nítida: o perdão está vindo, o Céu nascendo, a paz de alma entrando. E com ela se dá o que ocorre no interior daquela capela.

Ao mesmo tempo nela também as luzes vão entrando e brilhando, como uma capela na qual a madrugada vai se fazendo luz e as imagens tomam colorido. Em certo momento, ela morre e é o Céu. Esta é a paz, a tranquilidade da alma na contrição, um perfume que existe na tristeza, na resignação católica e que os espíritos pagãos não conhecem.

Tratando da vida espiritual, quando se fala de mortificação, tristeza, etc., as almas em geral ficam arrepiadas. Não compreendem toda a alegria e felicidade que não estou conseguindo expor adequadamente, mas espero fazer pressentir nesta exposição, porque há qualquer coisa que a palavra humana não descreve por completo. É este misto de amargura e de esperança, de tristeza e de paz, em que a esperança vale muito mais que a amargura, e a paz muito mais que a tristeza. Lembro-me das palavras que creio serem de São Paulo: “Eu tenho uma superabundância de alegria em meio a minhas tribulações” (cf. I Ts 1, 6). Isso o mundo não conhece.


Oceano de paz que só a pessoa verdadeiramente católica possui

O membro verdadeiro da Igreja vive uma espécie de Purgatório na Terra, que é um vale de lágrimas onde expiamos os nossos pecados. Se carregarmos nossa cruz com resignação, teremos na alma torrentes de paz, tranquilidade, estabilidade, ordem, de cuja fruição ninguém, dentro desse mundo transviado, pode ter a verdadeira noção.

Esses bens coexistem com uma verdadeira dor, uma autêntica contrição. Se eu conseguisse dizer as palavras para fazer sentir como a verdadeira paz torna a dor suportável e quanto é digno de entusiasmo, nessas condições, carregar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, teria feito bem para várias almas que aqui se encontram. É meio inexprimível. Entretanto, encontramos um exemplo disso na vida de Santa Catarina de Gênova.

Que ela do alto Céu interceda por nós e torne luminoso, pela obtenção da graça no interior de nossas almas, aquilo que não consigo senão vagamente indicar, fazer sentir. E que Nossa Senhora nos dê a paz e a alegria da verdadeira contrição, próprias a quem Ela concede a força de ver seus defeitos de frente. É o oposto do olhar oblíquo sobre a própria consciência, de uma tirada de corpo, um não querer ver bem e não se corrigir nunca, uma perpétua maromba diante dos próprios defeitos. Daí também, um mal-estar, uma agitação, um nervosismo contínuos.

Se, pelo contrário, com toda a paz olhássemos para o nosso próprio defeito e disséssemos: “Meu defeito é este. Eu o vejo por inteiro e noto que chega a tal ponto, mas o observo com paz, olhando para Nossa Senhora. Não faço a fraude de não olhar e fico observando-o com uma tristeza que talvez ainda não seja eficiente na ordem da correção, até o momento em que a Santíssima Virgem tenha pena de mim.”

Esse é o primeiro passo para se corrigir. Mas é preciso ter essa lealdade interior por onde se veja o próprio defeito de frente, não se feche os olhos para ele. Eliminar de dentro da alma o caos, a confusão, o mal-estar desse defeito que de vez em quando surge e nós entravamos; com o qual temos a cumplicidade que nos causa horror e depois some de novo; e não sabemos como pegar, não queremos extirpar, mas que nos agarra. Ter a alma limpa dessas misérias e ver as coisas de frente é um oceano de paz que só a pessoa verdadeiramente católica possui. E isto já nos dá um pouco a ideia das amargas delícias do Purgatório, que são o prenúncio do Céu.

Que Nossa Senhora nos faça entender isso, pelos rogos de Santa Catarina de Gênova.

(Extraído de conferência de 27/3/1971)

Santa Hildegarda de Bingen, um “milagre contínuo”

Como dádiva do próprio Deus, todas as épocas históricas viram surgir almas suscitadas pela Providência, chamadas a uma especial união com o Criador e à missão de indicar os rumos para a humanidade. É o que Dr. Plinio nos faz compreender, ao analisar a vida de Santa Hildegarda, mística e religiosa beneditina do século XII, contemporânea de São Bernardo de Claraval

Alguns dados biográficos sobre Santa Hildegarda de Bingen me impressionaram, não só por externarem a beleza de uma vida consagrada à virtude, como também pelos ensinamentos doutrinários que encerram.

Veremos que Santa Hildegarda, cuja existência transcorreu no século XII, tornou-se uma espécie de milagre contínuo e palpável. Tudo nela nos causa admiração, tendo sido incumbida, de modo particular, de transmitir uma profecia concernente a certa manifestação da Revolução que começava, e de outros aspectos desta até o fim dos séculos. Não seria, aliás, descabido afirmar que ditas revelações constituem mesmo uma elevada prova do que escrevemos em nosso ensaio “Revolução e Contra-Revolução”.

Simplicidade diante das visões sobrenaturais

As referidas notas biográficas são extraídas da famosa obra do Pe. Ro­hrbacher, “Vida dos Santos”:

Santa Hildegarda nasceu no condado de Spannheim, diocese de Mainz, no ano de 1098, de pais nobres e virtuosos. Com a idade de 8 anos, foi levada ao mosteiro de Diesenberg, ou do monte São Disodobe, e colocada sob a direção da bem-aventurada Jutta, ou Judite, irmã do conde de Spannheim.

Ela teve, portanto, uma bem-aventurada para formá-la, desde os 8 anos de idade.

Hoje, muitos se opõem à existência de seminários para menores e também ao fato de se admitir crianças, embora sem votos, nas ordens religiosas. Santa Hildegarda, porém, floresceu maravilhosamente junto às beneditinas, instituição na qual ingressou em tão tenra idade.

Dos 8 aos 15 anos, teve muitas visões sobrenaturais, delas falando com simplicidade às companheiras, que ficavam maravilhadas, assim como todos os que disso tinham conhecimento. Certa de que as outras pessoas eram favorecidas pelas mesmas visões, comentava-as com naturalidade e simplicidade, o que já é uma prova da autenticidade desses fenômenos místicos. Indagavam qual poderia ser a origem de tais visões.

A própria Hildegarda observou, surpresa, que, enquanto via interiormente sua alma, ao mesmo tempo enxergava as coisas exteriores com os olhos do corpo, como de costume, o que jamais ouvira dizer houvesse acontecido a qualquer pessoa.

Ou seja, ela se achava por exemplo numa sala, em conversa com alguns conhecidos e, enquanto falava com eles, tinha visões extraordinárias. Era, portanto, uma grande mística. Desde, então, atemorizada, não ousou mais entreter-se com pessoa alguma sobre sua luz interior. Contudo, muitas vezes em suas conversas se referia a coisas ainda por acontecer e que pareciam estranhas aos ouvidos dos circunstantes. (…) Este estado de intuição sobrenatural perdurou durante toda sua vida

Ela previa o futuro, e os fatos posteriores confirmavam os seus vaticínios.

Escreve as revelações e é curada miraculosamente

Tinha 40 anos, quando ouviu uma voz do céu ordenar-lhe que escrevesse tudo quanto visse. Resistiu durante muito tempo, não por obstinação, mas por humildade e desconfiança. Aos 42 anos e 6 meses, viu o céu se abrir e uma chama muito luminosa penetrou-lhe na cabeça, no coração e em todo o seu peito, sem queimá-la, mas aquecendo-a suavemente. Trata-se, evidentemente, de uma manifestação do Espírito Santo.

Nesse momento, ela recebeu o dom de compreender os Salmos, os Evangelhos e os outros livros do Antigo e do Novo Testamento, de maneira a poder elucidar o sentido das palavras, embora não conseguisse explicá-las gramaticalmente, pois não conhecia o latim nem a gramática.

Sabe-se que, naquele tempo, a Bíblia era quase sempre divulgada em latim. Embora não entendesse o significado das palavras, Santa Hildegarda conseguia explicar o conteúdo dos textos sagrados. Fato que constitui um milagre dos mais assinalados, e também contínuo, palpável. Era um fenômeno manifestado exteriormente, e qualquer um podia constatá-lo.

Como perseverasse em recusar-se a escrever, mais por temor do que desobediência, caiu doente. Enfim, confiou sua preocupação a uma religiosa, sua diretora e, por intermédio dela, ao prior da congregação. Depois de aconselhar-se com os membros mais sábios da comunidade e interrogar Hildegarda, o prior ordenou-lhe que escrevesse, o que ela fez pela primeira vez. Imediatamente se viu curada e levantou-se da cama. É, portanto, outro fato extraordinário.

Aprovação e louvores do Papa Eugênio III

Passamos, agora, da história dela para a das revelações que escreveu. Estas eram garantidas por milagres, dos quais o mais recente havia sido o restabelecimento de sua saúde. Doravante, veremos que as revelações terão uma vida própria, diferente da existência dela. E essa história é realmente admirável.

Tal cura pareceu tão milagrosa ao prior, que este foi a Mainz relatar o que sabia ao Arcebispo e às mais altas figuras do clero, mostrando-lhes os escritos de Hildegarda.

Isso deu motivo a que o Arcebispo consultasse o Papa.

Desejando Eugênio III estar ao par daquele prodígio, enviou ao mosteiro de Hildegarda o Bispo de Verdun, Alberon. Hildegarda respondeu com muita singeleza às perguntas que lhe foram feitas. Tendo o Bispo apresentado seu relatório ao Papa, este mandou que lhe trouxessem os escritos de Hildegarda e, tomando-os nas mãos, leu-os em voz alta…

Percebe-se que o relatório foi favorável e por isso o Pontífice julgou oportuno tomar conhecimento direto dos escritos. Em seguida, uma cena que merecia ser representada numa iluminura ou pintada sobre esmalte:

Leu-os em voz alta na presença do Arcebispo de Mainz, dos cardeais e de todo o clero.

Pode-se imaginar uma sala da Idade Média, com aqueles tronos e assentos feitos de alvenaria, ligados às paredes, nos quais se instalavam esses dignitários eclesiásticos, todos eretos. Nesse ambiente repassado de elevação e seriedade, o Papa começa então a dar leitura das revelações de Santa Hildegarda. É uma cena de um colorido e um pitoresco especiais.

Também contou tudo o que lhe fora relatado pelos emissários por ele enviados, e todos os assistentes renderam graças a Deus.

Imagine-se a beleza do episódio, os presentes exclamando: “Oh! Graças a Deus! Bem haja nosso Redentor! Louvada seja Maria Santíssima! De fato, é tudo magnífico!”, etc. Um coro de louvores.

“Vigilância!” — o conselho de São Bernardo

E havia melhor: São Bernardo lá se encontrava. O que mais acrescentar? Nessa assembleia se ergue a voz possante, sagrada e melíflua do grande Abade de Claraval. É m fato tão impressionante que até nos causa arrepio. Estando ele ali, tudo se ilumina e se transfigura.

São Bernardo estava presente e também deu testemunho do que sabia sobre a santa mulher, porque a visitara quando viajara para Frankfurt.

Como veremos adiante, o Papa Eugênio III escreveu uma carta a Santa Hildegarda, devido à boa impressão que São Bernardo dela tivera na mencionada visita. O que continha essa missiva? Poder-se-ia conjeturar que o Pontífice apenas lhe teceu louvores… Mas, como era orientado por São Bernardo, o Papa, além de felicitá-la pela graça recebida, exortou-a a permanecer fiel a esse dom divino.

Quer dizer, diante de uma grande santa, tem-se primeiro um movimento de admiração. Mas, depois, de temor, considerando que esta Terra é um vale de lágrimas e o risco do pecado não abandona nenhum homem, exceto se confirmado em graça. Daí as perguntas: “Isto durará? Uma maravilha dessas não pode cair?”

O insigne lutador que foi São Bernardo, ele próprio um Santo magnífico e modelo da virtude da vigilância, compreendia os abismos que há potencialmente — embora de modo não consentido — na alma de qualquer um, até na dos que alcançaram alto grau de santidade. Donde a preocupação dele, e do Papa, em dirigir essas palavras a Santa Hildegarda.

São Bernardo pediu pois ao Papa, no que foi secundado por todos os presentes, que divulgasse tão grande graça concedida por Deus à Igreja durante o seu pontificado, e a confirmasse com sua autoridade.

O Papa seguiu o conselho e escreveu a Hildegarda, recomendando-lhe que conservasse, por humildade, a graça por ela recebida…

Ou seja, o Sumo Pontífice diz a Santa Hildegarda: “Olhe, você está indo muito bem, mas não derrape. Depois trataremos de outras questões”. Desta forma foi objetivo e direto, como corresponde à ordem real das coisas nesta terra de exílio.

…e relatasse com prudência tudo quanto lhe fosse revelado por intermédio do Espírito Santo.

Em outros termos: “Conte as revelações que recebeu, mas tenha medo de tanta grandeza, porque ela pode precipitá-la no inferno”.

Prevendo o início e os desdobramentos da Revolução

A santa relatou ao papa Eugênio, em carta bastante longa, tudo quanto ouvira da voz celeste, relativamente ao pontífice. Anunciava uma época difícil, cujos primeiros sinais já se manifestavam. Como se verá, essa época difícil que ela previa e cujos primeiros sinais já se manifestavam, era o início da Revolução.

“Os vales se queixam das montanhas, as montanhas tombam sobre os vales…”

Os vales são a parte inferior da sociedade

“…porque os súditos não mais sentem temor de Deus. Estão um tanto impacientes por subir como que ao cume das montanhas para incriminar os prelados, em vez de acusarem os próprios pecados.”

Deve-se notar que o termo “prelado”, na linguagem medieval, refere-se aos primeiros, não só na ordem eclesiástica, mas também na temporal. São Tomás de Aquino mais de uma vez fala de prelados espirituais e temporais, como sendo os principais da Igreja e do Estado. Então, os inferiores tinham inveja dos que ocupavam posição mais alta, e acusavam os pecados destes, sem se corrigirem das suas próprias faltas. Quando a pessoa não se emenda, torna-se fácil para ela dizer que o outro é um sem-vergonha, enquanto ela mesma é apenas “sem-vergonhote”…
“Os vales dizem: ‘Sou mais adequado do que eles para superior’. Denigrem, por inveja, tudo quanto os superiores fazem”.

Convém lembrar aqui o que afirmamos em “Revolução e Contra-Revolução”, a respeito do orgulho, aplicável igualmente ao vício da inveja: o orgulhoso odeia seu superior, e pode chegar ao ódio à superioridade enquanto tal. Para ele, o bem é a igualdade completa.

“Assemelham-se os vales a um insensato que, em vez de limpar suas roupas sujas, nada mais faz senão observar de que cor é o traje do próximo.”

Quer dizer, o invejoso proclama, por exemplo, que o conde ou o cônego são ruins, mas a sua alma está em pecado mortal. De que adianta essa censura ao defeito alheio?

“As próprias montanhas, isto é, os prelados…”

Portanto, os nobres, os clérigos e, em rigor, também a alta burguesia.

“…em lugar de se elevarem continuamente às comunicações íntimas com Deus, a fim de cada vez mais se transformarem na luz do mundo, descuidam-se e se obscurecem.”

Nessa passagem aparece uma linda noção sobre o papel da nobreza e do clero: ter comunicações contínuas com Deus para se iluminarem cada vez mais com o esplendor divino, para efeito, quer espiritual, quer temporal. Dessa forma, serão como a luz posta no alto da montanha, a iluminar o mundo inteiro. Como eles não seguiram esse chamado, mas relaxaram no trato com Deus, foram se obscurecendo. Não espargiram mais a luz que deveriam, causando assim a sombra e a perturbação que reinava nas ordens inferiores.

Então, setores da plebe não prestavam, mas o ponto de partida dessa decadência foi a atitude de membros da nobreza e do clero que se deixaram tomar pela tibieza. Num justo e majestoso castigo, as partes mais baixas da sociedade, cheias de inveja, investem para derrubar aqueles superiores.

Como essa disposição das coisas nos parece lógica, grandiosa, e como demonstra toda a economia da Providência através da História!

Por outro lado, vamos assim compreendendo quem era Santa Hildegarda, objeto dessas visões e profecias.

Avisos para o próprio Papa

Ela continua, dirigindo-se ao Pontífice:

“E porque vós, grande pastor e Vigário de Cristo, deveis buscar a luz para as montanhas e conter os vales…”

Note-se a tarefa curiosa do Papa. Quanto às montanhas, buscar a luz; em relação aos vales, conter. Dizer aos revoltados que precisam obedecer, e às autoridades, que têm de se voltar para a luz.
“Dai preceitos aos senhores e disciplina aos súditos. O soberano Juiz vos recomenda que condeneis e afasteis de junto de vós os tiranos importunos e ímpios, no temor de que, para vossa confusão, eles se imiscuam na vossa sociedade”.

Provavelmente, o Papa podia assim acabar favorecendo algumas pessoas que tiranizavam o povo. Ora, ele havia sido monge cisterciense, como São Bernardo, e este então lhe escreveu a obra “De Consideratione”, na qual traçava o perfil de virtude que um autêntico Sucessor de Pedro deveria ter. Eugênio III seguiu os conselhos do Santo, levando uma vida tão exemplar que a Igreja o proclamou bem-aventurado.

“Sede compassivo para com as desgraças públicas e particulares, pois Deus não desdenha as chagas e as dores daqueles que O temem.”

A santa, [que se tornara] abadessa, fazia predições e dava apropriados conselhos aos bispos e aos barões, que de toda parte lhe escreviam e a consultavam. Ela foi entre as mulheres o que São Bernardo fora entre os homens. Teve inúmeras revelações sobre as obras de Deus desde a criação do mundo até a derrota do Anticristo.

Morreu em 17 de setembro de 1179, na noite de domingo para segunda-feira, com a idade de 80 anos. A Igreja festeja a santa no dia de sua morte.

Por esses breves traços biográficos nos é dado ver, portanto, que Santa Hildegarda, nimbada de contínuos e indiscutíveis milagres, foi também uma figura profética, tendo apontado o começo, o âmago e os desdobramentos da Revolução ao longo dos séculos. E como todos os heróis da Fé elevados à honra dos altares, é digna de nossa admiração e devoção.

Plinio Corrêa de Oliveira

A beleza do santíssimo nome de Maria

No dia 12 de setembro a Igreja celebra o Santo Nome de Maria, verdadeiro escrínio de significados e simbolismos, superiormente interpretados por grandes autores ao longo dos séculos. Fazendo eco a esses ensinamentos, Dr. Plinio deita um olhar sobre a beleza de tal Nome e as altíssimas qualidades da Mãe de Deus.

A fim de tecermos algumas considerações sobre o nome de Maria Santíssima, creio que devemos analisar, inicialmente, o significado do nome de uma pessoa .

Pela descrição da Sagrada Escritura (Gn 2, 18-20) sabemos que Deus fez desfilar diante de Adão todos os animais criados, e o primeiro homem, após observar cada um, determinou como eles haviam de ser chamados. Deu-lhes, portanto, um nome que era a definição daquela criatura, uma palavra que correspondia ao sentido mais profundo da natureza de cada animal.

Imagens da perfeição de Deus

Ora, perguntar-se-ia,  qual é o sentido de um animal? Este, por menor que seja, é um ser extremamente rico porque vivo, com um grau de vida pelo qual não só existe, mas se move por si mesmo. Além disso, refletem aspectos da perfeição infinita de Deus.

Tomemos, por exemplo, a águia.  Ave esplêndida, da qual é próprio ostentar suas garras, suas grandes asas, sua força e seu ímpeto . Porém, mais do que esses atributos, ela simboliza uma certa qualidade de Deus, e tudo quanto há de físico na águia, sua anatomia e fisiologia, concorre para expressar essa característica divina.

Adão, conhecendo e interpretando essa expressão, resumiu no nome que pôs à águia o simbolismo daquela perfeição do Criador. Donde, o nome de cada animal representar, na verdade, a sua essência, o sentido mais profundo desse reflexo de um aspecto de Deus.

Exaltando o nome de Maria damos glória a Deus

Se o nome de um animal possui semelhante expressão, é de se admitir que expressão ainda maior entrou na composição do nome da Virgem Santíssima. Nossa Senhora foi chamada Maria, porque concebida sem pecado original; n’Ela tudo se harmonizava no grau superexcelente próprio àquela que estava destinada a ser a Mãe do Verbo de Deus encarnado. Assim, o nome de Maria, de um modo meio misterioso, significa não apenas um, mas o conjunto dos aspectos infinitamente perfeitos de Deus que Ela representa tão especialmente.

Daí decorre essa verdade: quando glorificamos  o nome de Maria, glorificamos esse sentido mais profundo da pessoa d’Ela. E, portanto, glorificamos o próprio Deus de uma forma magnífica, louvando-O na figura de sua Mãe amadíssima.

 

Se o nome de cada animal exprime a perfeição divina que ele reflete, expressão ainda maior terá entrado na composição do santo nome de Maria Nossa Senhora Menina

Nomes perfeitos para Jesus e Maria

Creio ser interessante ressaltar também a relação maravilhosa e insondável entre o nome e a pessoa, no que diz respeito a Nosso Senhor e Nossa Senhora .

Com efeito, de todos os nomes existentes na Terra, haveria um que pudesse ser dado a Nosso Senhor Jesus Cristo igual ao nome Jesus?

Como disse, é uma questão um tanto insondável, mas para nossa ótica Ele só poderia chamar-se Jesus . Imaginemos que Lhe fosse dado um dos nomes consagrados por grandes santos, como Francisco, Antônio, João . . . Não. Jesus é o nome d’Ele!

O mesmo se pode dizer do santíssimo nome de Maria. Procure-se para Nossa Senhora um nome que pudesse substituir o seu e não se achará. Só podia ser Maria.

Tratam-se de nomes, portanto, ligados meio misteriosamente ao sentido profundo da natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe, de tal maneira que constituem um lindo conjunto. Quando, no fim de uma carta, assinamos “in Jesu et Maria” — “em Jesus e Maria”, percebe-se uma tal afinidade entre os dois nomes que se diria a harmonia entre duas maravilhosas notas musicais.

Razão de ser da festa do nome de Maria

Por tudo isso se compreende que a Igreja tenha instituído uma festa litúrgica para o sacratíssimo nome de Jesus, celebrada em janeiro, e outra para o santíssimo nome de Maria, no dia 12 de setembro. Ou seja, uma comemoração particular para o nome, pois este é uma espécie de símbolo e de definição de quem o possui.

Quando o Verbo Encarnado considera em si a união das duas naturezas numa só pessoa, ou quando o Padre Eterno ou o Divino Espírito Santo consideram no Filho essa união, ocorre-Lhes o nome Jesus. E quando contemplam Nossa Senhora, vem-Lhes o nome Maria.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 12/9/1988)

 

São Jerônimo

Num período onde o patriciado e a nobreza romana ganharam novo brilho devido à influência monástica, São Jerônimo mostrou-se um zeloso apóstolo e um exímio lutador pela glória virginal de Maria. Dotado por Deus com o carisma da polêmica, ele apontou o mal que há na heresia para depois falar a respeito da verdade.

 

A respeito de São Jerônimo, Confessor e Doutor da Igreja, Dom Guéranger, no “L’Année Liturgique(1), diz o seguinte:

Estranho fenômeno para o historiador sem fé: eis que em torno deste dálmata, na hora onde a Roma dos Césares agoniza, se irradiam subitamente os mais belos nomes da Roma antiga. Crer-se-ia que eles estavam extintos, desde o dia onde se tornou obscura entre as mãos dos “parvenus” da glória a cidade rainha.

Nos tempos críticos em que, purificada pelas flamas que os bárbaros incendiaram, a capital que eles deram ao mundo vai retomar seus destinos e reaparece, como por seu direito de nascimento, para fundar novamente a cidade eterna. A luta se tornou outra, mas seu lugar continua à testa do exército que salvará o mundo. Raros são entre nós os sábios, os poderosos, os nobres, dizia o Apóstolo, quatro séculos antes. Numerosos eles são em nosso tempo, protesta Jerônimo, numerosos entre os monges.

O patriciado e a nobreza ganham novo brilho na Roma Eterna

O pensamento está expresso com uma complexidade um pouco século XIX e, portanto, creio que não muito clara para a geração atual. Mas, em duas palavras, quer dizer o seguinte:

Roma estava decaindo. As antigas famílias, às quais Roma devia a sua antiga glória política, não a estavam mais dirigindo devido ao seguinte fenômeno: o pessoal adventício, que dominara Roma, havia deixado numa certa penumbra as famílias antigas; mas essas famílias — que no começo do Cristianismo, quando elas dirigiam a sociedade civil, eram pouco numerosas entre os católicos —, na época de São Jerônimo, no fim do Império Romano, eram muito numerosas entre eles.

Quer dizer, a nobreza e o patriciado romanos tinham um papel de vanguarda na direção dessa segunda Roma, que não era mais a Roma dos Césares, que estava morrendo, mas a Roma dos Papas, que estava nascendo. E eles se encontravam na liderança da vida religiosa e da expansão católica no mundo.

A falange aristocrática constituiu o melhor do exército monástico.

Ou seja, o melhor das vocações para monges era de nobres.

Nesses tempos de sua origem no Ocidente…

Em que o monaquismo, que já existia no Oriente, começou a nascer no Ocidente.

… ela lhe deixará para sempre seu caráter de antiga grandeza.

O caráter da antiga grandeza nobiliárquica comunicou algo para a dignidade do monaquismo.

Mas nas suas fileiras, a título igual de seus pais e de seus irmãos, se veem a virgem e a viúva, ao mesmo tempo o esposo e a esposa. É Marcela, que será para ele o auxílio na tradução das Escrituras. E, como ela, Fabíola, Paula e outras que lembram os grandes ancestrais, os Camilii, os Fabii, os Scipiones.

Camilos, Fábios e Cipiões eram grandes famílias nobres. E, em linguagem mais simples, Dom Guéranger menciona nobres — como viúvas, virgens, ou esposo e esposa, sendo separado o casal — que iam viver no estado monástico, conferindo-lhe algo de sua antiga grandeza.

São Jerônimo, vingador da glória virginal de Maria

Nesta altura, a refutação de Elvidius, que ousava pôr em dúvida a perpétua virgindade da Mãe de Deus, revelou em Jerônimo o polemista incomparável, do qual Joviniano, Venâncio, Pelágio e outros ainda teriam que experimentar o vigor.

Eram hereges que São Jerônimo fustigou vigorosamente.

Como recompensa, entretanto, de sua honra vingada, Maria conduzia a ele todas essas almas nobres. Ele as dirigia no caminho da virtude e, pelo sal das Escrituras, as preservava da corrupção da qual morria o Império Romano.

Então, aqui se completa esse bonito pensamento que explica a tarefa de São Jerônimo.

Um apóstolo da alta aristocracia

Ele não era apenas o grande herói que lutava contra os hereges, mas também salvava da podridão o que Roma tinha de melhor, as antigas famílias aristocráticas, e as conduzia para a conquista do mundo, para a Roma dos Papas, e não mais para a Roma dos Césares. O santo realizava isto por meio de assistência espiritual à alta aristocracia romana, que já não tinha poder político, mas ainda era fabulosamente rica naqueles tempos.

Qual é a consideração que isto nos traz ao espírito?

São Jerônimo tinha em mente a importância das elites para a direção da sociedade. E ele soube compreender que um movimento católico que vise levar o mundo inteiro para a Igreja, a cristianização do mundo, deve contar com todas as classes sociais, levando cada uma a dar o contributo que lhe é específico. Portanto, a classe aristocrática deve prestigiar a expansão apostólica com o valor do nome, da fortuna, mas sobretudo com o valor de certo prestígio indefinido, que se ligava merecidamente às grandes famílias da aristocracia romana.

Quer dizer, ele compreendeu que, acionando as classes mais influentes, havia um meio para acionar toda a sociedade e para obter a cooperação dela para a luta pelo Reino de Cristo.

Austero, polemista e zeloso pela glória de Deus

No breviário antigo consta um elogio a São Jerônimo, que convém comentar:

Molestou os hereges com acérrimos escritos.

Existiram santos dotados de carismas extraordinários para a posição polêmica. Um deles foi São Jerônimo. De fato, ele representa, por excelência, na Igreja, o espírito da polêmica. Os seus escritos são de uma energia, para não dizer de uma violência, que pareceria desabotoada se não fosse ele um santo. E para as menores questões ele dava respostas de fogo tremendas, e deixava todo mundo tremendo diante dele.

Certa ocasião, Santo Agostinho chegou a escrever-lhe uma carta muito engraçada, dizendo que, com metade da energia empregada, já cederia diante de São Jerônimo. Li uma missiva de São Jerônimo a uma dirigida dele, uma santa, que lhe mandou, aliás, um lindo presente: pombinhos e cerejas; e ele respondeu perguntando se ela queria corromper a austeridade dele, e afirmou que imediatamente deu aquilo para os pobres, porque era um homem penitente.

Isto é o zelo da Casa de Deus, que devora o homem, uma das formas mais características, portanto, das mais santas, mais legítimas dessa virtude. Desde que seja feito por amor de Deus, e não por ressentimentos pessoais — porque com ressentimentos a coisa muda de aspecto —, isto é uma coisa santíssima, é ser um gládio vivo de Deus. Não conheço elogio maior do que dizer de alguém que ele é a espada viva de Deus.

A polêmica visa sobretudo influenciar os indecisos

Em matéria de polêmica, é preciso sempre prestar atenção no seguinte: os espíritos modernistas consideram a existência de duas figuras, uma que diz “A” e outra que diz “B”; eles não tomam em consideração um terceiro elemento, que é talvez o mais importante no caso: o público que assiste à discussão.

Toda polêmica, ainda que seja feita a portas fechadas, vai repercutir fora e atuar sobre pessoas que estão na dúvida, e que se trata de convencer.

Quando se discute, por exemplo, com um pastor protestante, o mais importante não é convertê-lo, mas evitar que os católicos fiquem protestantes. Em segundo lugar, converter os protestantes menos empedernidos que ali estão. E por fim converter o pastor.

Ao homem em risco fala-se usando a linguagem do medo

Imaginemos que um amigo nosso esteja se debruçando perigosamente sobre um parapeito pequeno que dá para um abismo. Nós não lhe diremos: “Fulano, venha para cá, porque o chão é de mármore!” Mas falaremos: “Cuidado! Caindo nesse abismo você arrebenta a cabeça!” Porque o modo de afastar um indivíduo imediatamente do perigo e da imprudência é mostrar-lhe o mal que lhe sucederá e não o bem.

Quem de nós haveria de dizer para uma pessoa que, por exemplo, está brincando com um revólver imprudentemente: “Fulano, você quer ir jogar xadrez?”, para ver se ele tira o dedo do gatilho e depois lhe tiramos o revólver. Seria de nossa parte uma atitude idiota. Poderíamos falar-lhe: “Fulano! Olhe esse revólver! Você pode se ferir gravemente ou me ferir!”

Quer dizer, normalmente, ao homem em risco, tentado, deve-se falar usando a linguagem do medo. Isto é, sobretudo, verdadeiro no que diz respeito à Doutrina Católica, porque os homens, pela sua maldade, são mais fáceis de se mover pelo medo do Inferno, do que pela apetência do Céu; pelo temor das más consequências, do que pelo bem que pode acontecer. E é preciso, portanto, como remédio de urgência, apontar o mal, a falsidade, que há no erro para depois falar a respeito da verdade.

Assim se compreende a posição polêmica de São Jerônimo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 30/9/1964 e 29/9/1966)

1) GUÉRANGER, Prosper. L’Année Liturgique. 14. ed. Tours: Alfred Mame et fils, 1922, v.V, p. 327-339.

Vínculo entre Anjos e homens “angelizados”

Quando os medievais se referiam aos Anjos, falavam muitas vezes da Cavalaria Angélica. Diziam que os espíritos celestes foram os primeiros cavaleiros porque lutaram contra os primeiros maus: os anjos revoltosos.

Não nos é fácil compreender como foi o “prœlium magnum”, esse grande combate travado no Céu entre os Anjos e os demônios. Como um puro espírito luta contra outro? Quais são os recursos de um espírito para vencer o outro, a ponto de precipitá-lo no Inferno? Como se dá a expulsão de um espírito por outro, de um determinado lugar?

Por certo, esta guerra deu-se de um modo intrinsecamente muito mais nobre do que as Cruzadas. Aqueles espíritos angélicos, no momento em que se punham em luta contra os demônios, eram confirmados em graça e conquistavam para todo o sempre a coroa eterna.

O chefe dessa Cavalaria Celeste é o Arcanjo São Miguel que, constituído o patrono dos cavaleiros, resume em si todo o espírito das Cruzadas, da Cavalaria e, consequentemente, todo o espírito da Idade Média.

Nós achamos tão nobre alguém derramar seu sangue por uma grande causa. Mas a nobreza de um espírito como São Miguel, desdobrando toda a sua força contra o demônio, é inimaginável! É tal a beleza do Príncipe da Milícia Celeste que o intelecto humano não é capaz de captar, mas de algum modo pode suspeitar, entrever, conjecturar, à maneira de um degrau para imaginarmos a infinita perfeição de Deus.

Sem dúvida, também nessa guerra incruenta em que estamos engajados – guerra psicológica, de graças e carismas contra as tentações e insídias diabólicas; de um espírito de inocência contra o de cumplicidade e toda espécie de indecência, de crime e de fraude da Revolução – há muito maior nobreza do que na própria Cavalaria terrena.

Contudo, não poderemos contrarrestar a ofensiva revolucionária se não formos tais que os Anjos se reconheçam afins conosco e nossos naturais aliados; sem que estabeleçamos com a Cavalaria Angélica essa consonância por onde os celestiais guerreiros venham lutar conosco e dentro de nós com uma naturalidade como se o abismo que nos separa deles não existisse.

Este vínculo entre Anjos e homens, e de homens por assim dizer “angelizados” entre si, agindo sobre a opinião pública no sentido contrarrevolucionário, em continuidade com a Cavalaria Celeste, é isto que deve nos caracterizar(*).

* Cf. conferências de 16/10/1970, 12/2/1978 e 6/10/1981.

Luta espiritual cheia de amor, amor cheio de doçura

O Arcanjo São Gabriel é aquele que mais conhece a Deus e comunica melhor este conhecimento. Daí o papel dele na Encarnação. Seu conhecimento não é meramente abstrativo, teórico, doutrinário, mas é evidentemente todo amoroso, com um amor que se manifesta na luta entendida assim: Luta espiritual cheia de amor, amor cheio de doçura. Há, portanto, uma espécie de “prœlio” no qual está, como ponto de origem e ponto terminal, o amor.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 5 e 12/12/1976)

Guerreiros implacáveis contra o demônio e seus sequazes

Pode-se afirmar que todas as grandes almas que combateram as diversas heresias, ao longo dos séculos, foram especialmente suscitadas por Nossa Senhora. É o que insinua de modo muito bonito o brasão dos claretianos, onde figura, além do Imaculado Coração de Maria, São Miguel Arcanjo e, no alto, a divisa: “Os seus filhos se levantaram e A proclamaram bem-aventurada”.

Essa presença de guerreiros que, como soldados de São Miguel Arcanjo, levantam-se para combater os inimigos de Deus, proclamando bem-aventurado o Coração de Maria, não é também uma forma de irrupção da Santíssima Virgem, como magnífica aurora, nas tramas da História? Portanto, os verdadeiros devotos de Nossa Senhora devem desejar e pedir a Ela a graça de serem esses guerreiros de ferro, indomáveis e implacáveis contra o demônio e seus sequazes que, em nossos dias, procuram conspurcar a glória da imortal Igreja de Cristo.

(Extraído de conferência de 8/9/1963)

São Jerônimo: Gládio vivo de Deus

São Jerônimo representa na Igreja, por excelência, o espírito da polêmica. Os seus escritos são de uma energia incomparável. Ele dava respostas de fogo e admiráveis, deixando todos tremendo diante dele.

Este é o zelo da Casa de Deus que devora o homem. É uma das formas mais características, santas e legítimas do zelo. Desde que isso seja feito por amor a Deus, e não por ressentimentos pessoais, é uma coisa santíssima: ser um gládio vivo de Deus.

Não conheço elogio maior do que dizer de alguém que ele é a espada viva de Deus, por toda parte cortando.

São Jerônimo pode ser considerado o padroeiro do espírito polêmico.

(Extraído de conferência de 30/9/1964)