Mãe da filha primogênita da Santa Igreja

À maneira da flor do cacto que desabrocha entre os espinhos, Santa Clotilde, do meio de um povo pagão e bárbaro, faz germinar nas fontes batismais de Reims a nação primogênita da Igreja, conferindo a ela sua graça, beleza e fé.

Em 3 de junho comemora-se a festa de Santa Clotilde. Sobre ela há uma referência tirada da obra L’Année Liturgique de Dom Guéranger.

Grande vocação nascida entre infortúnios

Santa Clotilde foi aureolada pela glória de uma maravilhosa maternidade espiritual, pois foi graças a essa rainha que, numa noite de Natal, nascia nas fontes batismais de Reims, a nação primogênita da Igreja. Clotilde foi preparada pelo sofrimento para o grande destino que Deus lhe reservava. A morte violenta de seu pai, destronado por um usurpador fratricida, seus irmãos massacrados, sua mãe afogada no Ródano, seu novo cativeiro na corte ariana do carrasco que trazia consigo a heresia ao trono dos borguinhões, desenvolveram nela o heroísmo do martírio e a fizeram mãe de um povo.

Santa Clotilde foi aureolada pela glória de uma maravilhosa maternidade espiritual, pois foi graças a essa rainha que, numa noite de Natal, nascia nas fontes batismais de Reims, a nação primogênita da Igreja. Clotilde foi preparada pelo sofrimento para o grande destino que Deus lhe reservava. A morte violenta de seu pai, destronado por um usurpador fratricida, seus irmãos massacrados, sua mãe afogada no Ródano, seu novo cativeiro na corte ariana do carrasco que trazia consigo a heresia ao trono dos borguinhões, desenvolveram nela o heroísmo do martírio e a fizeram mãe de um povo.

 

Vocações cujos méritos vêm de Nossa Senhora

Dom Guéranger mostra muito bem o contraste havido no começo da vida dessa rainha e o fim. No início opressa, perseguida, etc. De repente, sobe ao trono, mas de um rei pagão e bárbaro, o qual se converte. Ele se convertendo surge daí uma nação católica. Vemos assim a linda vocação que ela possuía.

Todas as vocações muito bonitas começam de um modo tremendo.

São contragolpes, dificuldades, coisas impossíveis, etc. É desses espinhos que germina a vocação bonita. Fala-se muito da beleza da rosa, mas há uma flor que rivaliza com ela em formosura e talvez seja mais bonita: a flor do cacto.
O cacto é uma planta horrenda: geralmente grossa, espinhada, sem perfume nem forma definida, uma espécie de animal antediluviano no reino vegetal. Pois bem, disso brota essa beleza de flor.
Assim também são as grandes vocações. Elas nascem de sofrimentos inenarráveis, decepções tremendas, revezes que se entrecruzam, derrocadas inesperadas.
No meio disso tudo, à maneira da flor do cacto que desabrocha entre os espinhos, vai surgindo uma maravilha que é a vocação, cujo êxito não se deve a nenhum mérito humano, mas a Nossa Senhora.
Em uma de suas epístolas São Paulo diz: “Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído?” (Rm 11, 35) Quer dizer, primeiro Deus nos dá algo, depois fazemos algo por Ele e premia em nós o próprio dom concedido. Essa realidade convém muito termos em vista.
E aqui está Santa Clotilde, sob essa interpretação. Desde pequena preservada e guiada para isso, não porque ela tenha feito algo, mas porque a Providência quis e ela foi correspondendo. Aí está a santidade e o mérito dela. Mas no início foi todo ele de Deus.

“Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência”

 

Em seguida a ficha diz:

Deus quis que o homem saindo de suas mãos ainda sem poder contemplar diretamente seu autor, encontrasse como primeira tradução de seu amor infinito a ternura de uma mãe. Isso dá às mães essa facilidade única de completar, pela educação, na alma do filho, a reprodução completa do ideal divino que deve nele imprimir-se.
O pensamento de Dom Guéranger é belíssimo. Como o Criador faz o filho nascer de sua mãe, ela tem uma intuição especial para completar nele a obra divina. Isso é real em relação à mãe terrena, mas se refere muito mais a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, na qual somos gerados e que te

m, portanto, uma intuição materna para completar em nós a obra de Deus. E essa verdade se aplica também de modo insondável a Nossa Senhora.

Continua o texto:
E se tão grande é a maternidade na ordem da natureza, muito mais sublime ainda o é na ordem da graça. É o exemplo da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e, como decorrência, Mãe de todos os homens. E toda maternidade não foi, desde então, num verdadeiro sentido, senão uma decorrência da de Maria, uma delegação de seu amor e a comunicação de seu augusto privilégio de dar aos homens que devam ser seus filhos. A dignidade de mãe cristã foi acrescida por

Maria a um ponto em que a natureza nunca poderia suspeitar.

Como Clotilde, frequentemente a esposa, preparada pelo divino sofrimento, ver-se-á dotada de uma fecundidade mil vezes maior do que a terrena. Felizes os homens nascidos, pelo favor de Maria, dessa fecundidade sobrenatural, que resume todas as grandezas. Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência.
Ele faz aqui uma linda comparação. O que Santa Clotilde foi para os franceses, Nossa Senhora o é para todo o gênero humano. Ela é a mãe de todos os católicos.
E assim como da graça, da beleza e da fé de Santa Clotilde originou-se a nação, outrora da fé, da graça e da beleza, assim também nós ao nascermos de Maria Santíssima. Ela nos comunica a sua beleza espiritual, a sua graça e sua fé. Somos seus filhos porque tudo recebemos d’Ela, e por Ela somos gerados.v

(Extraído de conferência de 3/6/1969)

São Beda e o antagonismo de duas épocas

São Beda foi um homem em cuja presença sentiam-se impressões de respeito, reverência, enlevo e encanto, convidando ao recolhimento quem dele se aproximava. Tal era sua santidade que, não podendo chamá-lo de santo ainda em vida, deram–lhe o título de “Venerável”, o que contrasta com o espírito revolucionário e igualitário dos nossos dias.

 

Em 25 de maio se comemora a festa de São Beda, o Venerável, Confessor e Doutor da Igreja. Diz a seguinte ficha:

Êmulo de Santo Isidoro de Sevilha, São Beda foi um dos sábios mais ilustres do seu tempo. Tal era sua santidade que, não podendo chamá-lo de santo ainda em vida, deram-lhe o nome de “Venerável”, que não perdeu depois de sua morte.

 

 

Diferença entre o apogeu da Idade Média e nossa época

Simplesmente por esta alcunha de “venerável”, dada a São Beda, podemos ter ideia da mudança dos tempos e dos lugares. Calculem na Europa do começo da Idade Média, no século VIII, um homem que é tido como dos mais cultos e inteligentes de sua época. Seria mais ou menos, em nossos dias, um indivíduo que tivesse recebido o prêmio Nobel de Ciência, ou da Paz, ou da

Literatura; alguém, portanto, consagrado por sua cultura. Pois bem, este homem é um Santo.
Já neste ponto notamos a diferença em relação ao nosso tempo, porque é raro vermos coincidirem sobre o mesmo homem a auréola e o esplendor da santidade e o fulgor da cultura e da inteligência. Aqueles grandes Santos foram, por assim dizer, “especializados” em santidade. Eles eram mais santos do que qualquer outra coisa.
Em nossos dias não encontramos, como no apogeu da Cristandade medieval, Santos que, ademais, sejam muito salientes em qualquer outra atividade: grandes guerreiros, notáveis sábios ou imponentes reis. Por quê? Justamente por causa da decadência da Cristandade que levou os homens de cúpula a serem tantas vezes pinçados para servirem ao mal, escapando das mãos amorosas da Igreja. Assim, vemos um grande contraste entre a figura de São Beda, o Venerável, e as circunstâncias da nossa época.
De outro lado, imaginem uma pessoa de quem se dissesse o seguinte: “Ah, é um indivíduo amabilíssimo, de uma prosa agradável, engraçado, atraente, um piadista como ninguém!” Certamente esse homem atrairia muito as companhias em torno de si, sobretudo se correspondesse aos elogios que fizessem dele.
Entretanto, se perguntássemos a alguém numa roda comum de nossos dias:
— Que tal é Fulano?
— Ah, respeitabilíssimo…
Esse homem atrairia muita gente em torno de si? Sem dúvida, não.

 

O homem desfigurado pela Revolução

Ora, tempo houve em que a mais alta qualidade de uma pessoa era a de ser respeitável, venerável. Então, a um homem que possuía essa virtude em grau eminente dava-se a alcunha: “o Venerável”. Quer dizer, era aquele em cuja presença sentiam-se impressões de respeito, reverência, uma superioridade que enlevava e encantava, e que colocava as pessoas numa atitude de recolhimento. Era uma humanidade católica, batizada, que, por possuir o espírito incutido pelo santo Batismo nas pessoas, e conservado nelas quando fiéis à graça, gostava de ter diante de si alguém superior, cuja superioridade reconheciam e admiravam. Poder estar com um homem venerável, vê-lo ou reverenciá-lo era a suprema alegria.
Por que, no mundo de hoje, as pessoas não gostam de venerar? E, tendo a alcunha de venerável, por que o indivíduo veria o vazio em torno de si? Por uma razão muito simples: em primeiro lugar, o igualitarismo faz com que se odeie toda superioridade. E em segundo lugar, porque a venerabilidade é séria, grave, convidando as pessoas que tomam contato com ela a uma postura de recolhimento, bom senso, respeito.
É exatamente disso que foge o homem modelado pela Revolução, ou, se preferirem, desfigurado pela Revolução. Aquele título, considerado como uma pérola brilhante sobre a fronte do homem medieval, afugenta em nossos dias. Nisso constatamos a enorme rotação dos espíritos, pois tudo mudou.

 

O nocivo imperialismo norte-americano

Daquela Europa antiga do século VIII para nossa América deste século, na enorme mutação dos tempos e dos lugares, como todas as coisas são diferentes! E eu falo de modo especial da América do Norte, porque se há um espírito que foge ao venerável é o espírito norte-americano, tendo seu foco de irradiação nos Estados Unidos, mas que se expande em largos borbotões pelas nações vizinhas do continente.
Não sou economista, de maneira que não posso avaliar até que ponto esse imperialismo americano, tão falado, existe do ponto de vista financeiro, material. Deve haver um exagero, porque os comunistas dizem que ele existe; e quando os comunistas não mentem, eles exageram, mas afirmar a verdade inteira nunca fazem.
O imperialismo político norte-americano praticamente não existe. Porém, há um imperialismo nocivo, imponderável, ideológico, mas de uma ideologia difundida de forma vivencial, que se espalha por toda parte, impregna todos os ambientes e penetra no subconsciente das pessoas através de mil condutos de propaganda, inimigo da veneração e da desigualdade.
Se considerarmos, por exemplo, a fotografia do primeiro mandatário de qualquer grande nação de nossos dias, pode-se dizer tudo dele: que ele conta piadas, é muito inteligente, haverá até quem afirme ser muito agradável… Há um provérbio prosaico de antigamente que meu pai gostava de citar em certas ocasiões: “Não há sapato velho que não procure o seu pé inchado.” Assim também haverá quem ache graça em certos personagens da política contemporânea. Mas o que eu não concebo é alguém olhar a fotografia de algum deles e dizer: “o venerável Fulano…!”
Um indício de como as coisas mudaram que se faz bem presente ao espírito, é este: antigamente, se houvesse uma eleição, ganharia o mais venerável. Em nossos dias, quantas vezes um palhaço tem maiores possibilidades de vencer uma eleição! Imaginem alguém se apresentar para uma eleição com os dizeres: “Fulano de tal, candidato da respeitabilidade nacional.” Estava derrotado. Assim, vemos como tudo decaiu ao sopro da Revolução.
Eis uma pequena meditação sobre o título de um grande Santo.v

(Extraído de conferência de 27/5/1972)

Homem que lutou arduamente contra a Revolução

Orador brilhante, São Fidélis de Sigmaringa evangelizou cidades alemãs e foi enviado para a região dos grisões, na Suíça, a fim de pregar contra o protestantismo. Alcançou sucessos importantes, o que levou os hereges a martirizarem-no. Foi um verdadeiro contrarrevolucionário porque a heresia protestante era a Revolução no seu tempo.

o dia 24 de abril, a Igreja comemora a festa de São Fidélis de Sigmaringa. Sua ficha biográfica apresenta alguns dados tirados da Vida dos Santos, de Reindenberg, e da História da Igreja Católica, de Rohrbacher.

Chefe de uma missão para combater o protestantismo

Marcos Roi, o rei que viveu de 1577 a 1622, tomou o nome de Fidélis quando entrou para os capuchinhos, aos 35 anos de idade.
Nascido em Sigmaringa, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito em Friburgo de Brisgóvia. A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante três anos. Depois de ter exercido a profissão de advogado em Colmar, resolveu abandonar o mundo.
No testamento que fez nesta altura, diz o seguinte: “Quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para me entregar aos braços do Salvador.”
O Padre Fidélis possuía grandes dotes oratórios. Nomeado guardião (superior) do Convento de Feldkirch, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e numerosas igrejas do campo.
A cidade de Feldkirch foi de todo transformada por ele. Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente entre os grisões, a Congregação da Propaganda encarregou os capuchinhos de irem combatê-lo. O Padre Fidélis foi nomeado chefe dessa missão.
“Dentro em breve não me tornareis a ver, disse ele a seus amigos em Feldkirch, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. E desde então passou a assinar suas cartas da seguinte maneira: “Padre Fidélis, prope diem esca vermium” – que em breve será pasto dos vermes.
Em janeiro de 1622, entrou na região ocupada pela Áustria e lá começou a pregar a Fé com grande êxito.
Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta e o missionário avisou os austríacos. Os grisões levantaram-se então em massa.
No dia 24 de abril, estando o Padre Fidélis a pregar em Seewis, ouviu-se o grito: “Às armas!”
Os grisões saíram ao encontro das tropas imperiais que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidélis é quem chamara os austríacos.
Ainda o deixaram sair da cidade. Mas como daí a pouco regressasse a Grächen, 20 soldados caíram sobre ele, trataram-no de sedutor e queriam forçá-lo a abraçar a sua seita.
“Que me propondes? – perguntou Fidélis – Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos, não a renunciarei. Ademais, sabei que não temo a morte.”
Eles então mataram-no a sabre.

 

Homem sobrenatural e indômito que enfrentou a morte

É interessante notarmos qual foi a atuação deste grande pregador para que o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente. Ele era um missionário famoso que pregava em vários lugares. E a Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça denominada dos grisões, incumbiu a Ordem religiosa da qual ele fazia parte – os capuchinhos – de mandar para aquela zona pregadores, bons oradores, a fim de converterem os que se tinham pervertido para o protestantismo, e impedir que novos católicos fossem objeto com êxito do proselitismo protestante.
Então ele, que já havia transformado por inteiro uma cidade importante da Alemanha – Feldkirch – pelos seus sermões, se dirigiu à Suíça sabendo que ia morrer, pois recebeu uma revelação de que lá seria martirizado. Mas, homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte.
E tinha uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima, e até assinava “Frei Fidélis que em breve será pasto dos vermes.” Quer dizer, sabia que seria mártir e iria para o Céu o que lhe dava uma grande alegria.
A essa prova de tenacidade, ele juntou outra demonstração de força, de valor: o fato de ter irritado sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra este. São Fidélis alcançou sucessos tão importantes contra a heresia, que os protestantes prepararam um encontro no qual ele foi morto.
Foi um orador audacioso, valoroso, forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. Um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza, que leva a abnegação de sua própria vida e o desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua existência.

Sentimentalismo religioso do século XIX

Consideremos a fórmula utilizada por São Fidélis:
Quero viver para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me nos braços do Salvador.
Se uma pessoa hoje empregasse essa fórmula, seríamos levados a achar que ela é “heresia branca”1. Diria isto suspirando, com tanta moleza, que afirmaríamos: “Qual! Você é um pulha e não tomamos a sério a sua vida espiritual.”
Ele assinava suas cartas com as palavras: “Frei Fidélis, que em breve será pasto dos vermes.”
Compreende-se o equívoco tremendo que o sentimentalismo religioso do século XIX criou em torno dessas fórmulas, e precisamos não nos deixar vencer pelo equívoco.
O estado de espírito que apontei é muito ruim, mas a fórmula é muito boa em si mesma considerada. Ela foi empregada por um Santo e, portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto o Santo faz é bom. Se essa fórmula não fosse boa, ele não teria sido canonizado.
Precisamos compreender que essa fórmula é susceptível de ser pronunciada, ser vista de outro modo, e não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século XIX nos tolde a visão da coerência que ela tem com as virtudes as quais somos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução, a combatividade. Entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isso tem de ser virtude porque foi pronunciado por um santo.
O valor dessa fórmula é muito grande. Evidentemente, um homem que tem a verdadeira virtude da sabedoria, compreendendo, portanto, que todas a coisas desta Terra são um nada – desde que elas obstem à aquisição da virtude, ao pleno conhecimento da sabedoria e ao amor de Deus –, precisa afastar-se delas.

Quem tem vocação religiosa deve abraçá-la

Quando Nossa Senhora quer que alguém tenha uma vocação, torna-lhe difícil a vida fora da vocação a qual deve abraçar. E um santo nessas condições, em geral, é levado pelas circunstâncias a uma alternativa: ou se perde ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.
Depois, independente do perigo de perder-se, ele tem o atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria e, por amor de Deus, assume aquela fórmula.
Então, ele fez-se capuchinho. Isso significa abraçar a pobreza completa, renunciar a toda forma de sinarquia2. É despreocupar-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas pelo fato de os possuírem. Não admirando ninguém porque tem um bonito automóvel, um formoso apartamento ou, suprema ventura, possui uma fábrica importante, Mas dando valor aos homens e às coisas na medida em que se aproximam, praticam a sabedoria.
Uma pessoa assim, com um estado de espírito varonil, combativo, fazendo um ato de imolação inteiramente inaciano, pode dizer: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições. Desejo imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo que sofreu, e por isso vou ser um lutador, agredir o adversário; sofrerei porque na guerra se sofre.”
É o sentimentalismo religioso do século XIX que dá a isso um aspecto de “heresia branca”. Mas não tem nada de “heresia branca”. É a piedade de boa lei que o homem mais valoroso e combativo deve ufanar-se em possuir.

Verdadeiro contrarrevolucionário

Assim também, dizer que dali a pouco ele vai ser o pasto dos vermes é ter coragem, uma prova de que não tem medo de morrer. São Fidélis poderia acrescentar, apontando para seu corpo: “Esta carne vai ser comida pelos vermes. Através destas órbitas eles entrarão – como que engendrados pelo meu próprio corpo – que comerão os olhos, sairão pelos ouvidos e pela boca. Mas eu não me incomodo porque a minha alma vai para o Paraíso. Terei a glória do martírio que vale muito mais do que essa decomposição do meu corpo. E no último dia ele ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu.”
É uma atitude de força de alma que o faniquito do liberal, do sentimental, não dá.
Compreendemos, assim, como uma fórmula como essa, sendo bem interpretada e entendida, nada tem de “heresia branca”; é uma fórmula esplêndida.

A “heresia branca” se encontra no estado temperamental do estúpido com que os sentimentais repetiam isso.
Temos a prova concreta: um homem que empregava tais fórmulas é um mártir de uma admirável coragem, o qual viu chegar a morte com a serenidade que os maiores heróis não teriam. Que lutou arduamente contra a Revolução, foi um verdadeiro contrarrevolucionário – porque o protestantismo era a Revolução no seu tempo –, homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.
A relíquia de São Fidélis se encontra em nossa capela. Faremos uma boa coisa pedindo a ele que nos obtenha a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século XIX vivo até nossos dias, infelizmente.
Tal sentimentalismo, sendo uma coisa má, como é evidente, não houve na obra de nenhum santo daquele tempo. São deformações que existiram à margem do santo e de modo contrário ao exemplo dado por ele. Naquele século, houve santos admiráveis que estavam isentos e até eram o contrário disso, como Santa Teresinha do Menino Jesus.
A pequena via ensinada por ela, tão cheia de candura, de suavidade, é uma via de grande força e combatividade para quem sabe ler um livro de Santa Teresinha.
Percebe-se isso nos seus desejos. Ela dizia que possuía anseios infinitos, queria ser missionária, brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja, etc. É uma manifestação de uma combatividade que chega até o Cruzado, e inclusive o desejo de derramar o sangue. E isto da parte dessa santa tão suave na sua pequena via. Vê-se, portanto, como as duas coisas são compatíveis.v

(Extraído de conferência de 24/4/1967)

1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.
2) Diferentemente do sentido político que lhe é dado habitualmente, Dr. Plinio usava a palavra “sinarquia” para caracterizar a mentalidade ateia, segundo a qual a finalidade suprema de uma sociedade é o trabalho e a produção material.

Poder maravilhoso de se comunicar com as pessoas

O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano tem um poder maravilhoso de fazer com que as pessoas entrem em comunicação com a Mãe de Deus. Ele muda de colorido e Maria Santíssima ora parece alegre, satisfeita e risonha, ora apresenta um aspecto de tristeza. Sem que se possa dizer que haja um movimento nos traços do afresco, ele exprime por esta forma a inúmeros fiéis aquilo que a Virgem deseja.

No dia 26 de abril, comemora-se a festa de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, instituída a propósito do célebre afresco da Mãe de Deus que se venera na igreja dos agostinianos, na cidade de Genazzano, Itália.

Scanderbeg, um guerreiro valorosíssimo

As informações que darei foram tiradas de um livro sobre Nossa Senhora do Bom Conselho. A razão da compra desta obra, de minha parte, foi que em pequeno eu rezava muito diante de um quadro dessa invocação, o qual se encontrava no altar-mor da antiga capela do Colégio São Luís e tem uma história milagrosa, cujos pormenores não me lembro, mas que está ligada ao martírio dos quarenta jesuítas que vieram evangelizar o Brasil.
Vendo esse livro, comprei-o e confesso que me encheu de admiração. De fato, tudo quanto ali diz respeito à história do afresco e à devoção a Mãe do Bom Conselho é uma verdadeira maravilha!

Em duas palavras a história desse quadro é a seguinte: a Albânia, no século XV, era um Estado cristão capitaneado por um general chamado Scanderbeg, um guerreiro valorosíssimo que lutava contra as hordas turcas as quais estavam tentando avançar pela Europa adentro.Scanderbeg era um homem bastante religioso e que se colocava sob a proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho, da qual havia na Albânia um santuário nacional muito frequentado. Enquanto Scanderbeg viveu, a luta contra os turcos foi vitoriosa. Ele reunia em si todo o valor e toda a combatividade da nação albanesa. Era um grandíssimo homem, mas o povo albanês estava em decadência e por causa disto provavelmente a resistência cessaria quando ele morresse. Os últimos lances de sua vida foram extraordinários. Numa ocasião ele se encontrava deitado, agonizando, quando veio a

 

notícia de que os turcos estavam chegando às portas da cidade. Quando ele ouviu isto, fez uma oração a Nossa Senhora e pediu-Lhe forças para combater. Levantou-se do leito e foi de encontro aos turcos. Ele tinha dois auxiliares que o ajudavam porque quase não aguentava mais dirigir a batalha. Depois, voltou para a cama e faleceu. Assim morre um verdadeiro herói católico, um devoto de Nossa Senhora na sua acepção mais exata e mais adamantina. É uma verdadeira beleza!

 

As águas do mar se tornaram sólidas

Mas dois amigos albaneses, que eram filhos da luz, notando o declínio da Albânia e prevendo que o país cairia quando morresse Scanderbeg, resolveram ir ao Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho a fim de pedir luzes a respeito do que deveriam fazer: ficar na Albânia realizando uma certa resistência e algum apostolado debaixo das hordas turcas, ou ir para a Itália. Tanto mais que um número muito grande de albaneses já estava fugindo para lá, e parecia-lhes mais indicado emigrarem. Chegando ao Santuário, rezaram e ficaram de

voltar no dia seguinte para ter uma solução do caso. Qual não foi a surpresa deles quando verificaram que o quadro se destacara da parede, deu uma espécie de giro dentro da igreja, saiu pela porta e foi andando no ar lentamente. Eles acompanharam o afresco que, quando chegou ao mar, continuou a andar acima das águas. Os dois amigos, então, prosseguiram sua caminhada sobre o mar, que se tornou sólido debaixo dos seus pés, sempre acompanhando o quadro. Assim, chegaram à Itália.

É uma grande caminhada, mas eu acho que não é o caso de interpor aqui perguntas e críticas, porque Nossa Senhora tem o poder de fazer um quadro andar pelos ares e de dar consistência às águas. E pode conceder a dois homens a possibilidade física de atravessar uma grande extensão, caminhando sobre as águas solidificadas.
Na Itália, o quadro sumiu misteriosamente da vista deles. Então, empreenderam – isso é muito medieval ainda – andar por todo o país a fim de ver onde tinha ido parar, porque não queriam se separar dele. Assim como a estrela desapareceu da vista dos Reis Magos quando chegaram a Jerusalém, assim também o quadro sumiu para esses dois albaneses.

Uma nuvem brilhante desceu sobre o terreno de Petruccia

Havia em Genazzano – uma pequena cidade da Itália, que era feudo dos Príncipes de Colonna, uma grande família nobre romana – uma mulher anciã chamada Petruccia que dizia ter vocação de construir uma igreja. Era uma senhora isolada, meio mendiga, um pouco maníaca e todo mundo debicava dela. Em certo momento, Petruccia conseguiu que lhe dessem um terreno para edificar uma igreja em louvor de Nossa Senhora. Mais tarde, obteve um pouco de material da construção e, assim, levantou-se algo a maneira de um muro numa parte do terreno. Depois os trabalhos pararam porque ela não recebeu mais auxílios.
E toda a molecada, quando encontrava a Petruccia na rua, dizia para ela:
— Ei, Petruccia, cadê a igreja? Quando é que será construída?
Não é preciso ter muita imaginação para dar o alinhamento geral da cena.
Havia em Genazzano uma feira para onde afluía grande parte da população. Certo dia em que Petruccia estava no meio do povo, de repente se fez ouvir um estrondo no céu e apareceu uma nuvem brilhante, da qual partiam harmonias que desciam sobre a cidade. A nuvem baixou sobre o terreno de Petruccia e, quando desapareceu, encontrou-se o quadro – que o povo não sabia ser de Nossa Senhora do Bom Conselho – encostado junto a uma das paredes, sem prego, nem apoio, nem suporte, o que é uma coisa inexplicável. Foi o grande dia da Petruccia.
Mas ninguém sabia que invocação era aquela. Nunca se tinha ouvido falar dela. Era uma manifestação angélica.
Um belo dia, os dois albaneses, que estavam à procura do quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, tendo ouvido falar, em Roma, sobre o que havia ocorrido em Genazzano, desconfiaram naturalmente que aquele era o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho.
Foram para lá, se prostraram diante do afresco, rezaram. Comunicaram ao povo que se tratava do quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, da Albânia, que eles tinham visto partir para não se deixar subjugar pelos turcos.

O quadro se mantém junto à parede de um modo miraculoso

A igreja se tornou um lugar das múltiplas romarias partidas dos vários Estados italianos, antes da abominável unificação da Itália. A romaria andava em fila, homens separados das mulheres, havia proibição de estar prestando atenção nas coisas do caminho, devia-se o tempo inteiro rezando o Rosário, cantando ladainhas em louvor de Nossa Senhora, parando nos lugares ermos – onde não houvesse possibilidade de escândalo – para comer, e continuando a caminhada até chegar a Genazzano.
Mesmo nos dias de enchentes, em que pessoas acabam dormindo até nas ruas, o quadro de Nossa Senhora continua junto à parede, mas não encostado nela, de maneira que ele se mantém de um modo miraculoso. Há, então, chuvas de graças que o afresco espalha para todas as pessoas.
Essas graças são muitas vezes de curas, porém o forte não é propriamente a graça de cura, mas um poder maravilhoso de, sem praticar um milagre evidente, se comunicar com um grande número de pessoas que vão consultar a Santíssima Virgem a respeito de padecimentos espirituais, dúvidas, problemas. A meu ver, a ideia relacionada com o afresco é a seguinte:
O quadro muda de colorido, ora toma uma cor brilhante e Nossa Senhora parece alegre, satisfeita e risonha, ora adquire cores que Lhe dão um aspecto de tristeza. E sem que se possa dizer que haja um movimento nos traços do afresco, entretanto é verdade que ele exprime por esta forma a inúmeros fiéis aquilo que Ela quer, e muitos acabam entendendo isto e passam a ter com a Mãe de Deus uma comunicação, resolvendo problemas importantíssimos.

Mudanças de fisionomia de Nossa Senhora

O quadro é veneradíssimo, e o livro apresenta atestados importantes de pessoas que reconheceram mudanças da fisionomia de Nossa Senhora. Um dos atestados mais interessantes é de um pintor de certa celebridade de Gênova, que recebeu de uma família genovesa, provavelmente rica, a incumbência de ir a Genazzano e fazer uma cópia do afresco para ser colocada numa igreja de Gênova. Como era um homem de projeção, consentiram que trabalhasse no próprio altar, perto do quadro, para poder ver bem, e ele começou, então, a pintar a imagem.
O livro transcreve um atestado dele declarando que a figura de Nossa Senhora tantas vezes modificou a expressão fisionômica, enquanto ele pintava, que lhe foi impossível retratá-la. Ela não modifica tanto, mas é um prodígio que Maria Santíssima quis fazer para que este homem atestasse o maravilhoso do fato, e até hoje se dá isto.
É um prodígio contemporâneo que não pode ser apresentado como um milagre, mas demonstra ser a Fé Católica verdadeira, e deve ser visto como uma graça muito preciosa para todas as pessoas que querem elucidar seus problemas.
O mais interessante é que vários outros quadros de Nossa Senhora do Bom Conselho, os quais afinal se copiaram e foram levados para diversos pontos da Itália, têm propriedades análogas e há peregrinações porque a Santíssima Virgem prodigaliza os seus conselhos às pessoas que vão ali rezar.
Temos, assim, a indicação de um elemento para nos afervorarmos na piedade a Nossa Senhora.v

(Extraído de conferência de 25/4/1967)

 

Missão profética dos três Arcanjos

São Gabriel, São Rafael e São Miguel formam um unum. Conforme o matiz de nossa atividade apostólica, somos mais beneficiados por um ou por outro, tornando-nos eficientes na ação, terríveis no combate, e às vezes nos sentindo tão convidados à meditação, que temos a sensação de não existirmos senão para ela. É uma espécie de síntese dos três Arcanjos.

Na vida do ser humano é possível distinguir três aspectos: a contemplação, a luta e a ação.
Diferencio a ação da luta no seguinte sentido: A ação tem como fim principal a construção; ela, per accidens, derruba os obstáculos que encontra no caminho. A luta é a derrubada de algo que não deve estar de pé.

São Gabriel: o Arcanjo da contemplação

Isso tem uma correlação no mundo angélico? Para encontrar a resposta a essa questão, consideremos o seguinte:
Quando o Divino Espírito Santo convidou Nossa Senhora para ser sua Esposa, no dia da Anunciação, enviou um mensageiro para essa missão. Mas seria contra toda e qualquer ordem celeste das coisas imaginar que esse mensageiro fosse se incumbir de um recado sem ter nenhuma semelhança com a mensagem que ele levava.
Eu posso, por exemplo, mandar uma mensagem de alta nobreza e significação por meio de um portador qualquer que estiver ao meu alcance, dizendo: “Você chega lá, entrega a mensagem e pede um protocolo comprobatório.”
Mas na ordem angélica isso não é assim. São Gabriel deveria representar magnificamente o Divino Espírito Santo para Nossa Senhora, de maneira que fosse a própria figura do Esposo convidando-A. Portanto, ele precisa ser visto como o Arcanjo da contemplação, da chama que leva a alma a se embevecer com o Espírito Paráclito.
Se assim não fosse, São Gabriel não seria um mensageiro, mas um porta-recado. Ele tem que ser a imagem da mensagem que leva. Por aí podemos perceber o que Nossa Senhora sentiu quando viu o Arcanjo São Gabriel.
Compreende-se, assim, que logo que a Santíssima Virgem disse o “sim”, o Espírito Santo Se tenha unido a Ela. O Divino Paráclito preparou a alma d’Ela para ver face a face o “Original”, o Arquétipo, do qual São Gabriel não era senão um tipo. Claro está que o Espírito Santo é infinitamente mais do que um arquétipo, Ele é o Criador. Mas se poderia conceber essa relação à maneira de uma arquetipia.
Nesta concepção, o Arcanjo São Gabriel é aquele que nos traz o lumen, convida-nos para o recolhimento, a oração, a fim de sentirmos o gosto das coisas celestes e o desdém das terrenas, o que é uma graça insigne do Espírito Santo.

Agilidade diplomática de São Rafael

 

A única passagem da Bíblia onde vem descrita a atuação de São Rafael é o episódio narrado no Livro de Tobias. Pelo que me lembro da narração, Tobit, pai de Tobias, tendo ficado cego acidentalmente, empobreceu, precisando ser sustentado pelo trabalho da esposa.
Vê-se que Tobias era um rapaz casto, direito, sério, alegria de seu pai.
Em determinado momento, Tobit resolveu mandar Tobias a uma cidade onde morava um parente dele para cobrar uma dívida, pois isso os ajudaria naquela situação.
Tobias se põe a caminho e aparece um companheiro que era o Arcanjo São Rafael. A certa altura da viagem, chegam junto a um rio e aparece um peixe misterioso que ataca Tobias. Então, sob a orientação do Anjo, Tobias agarra e mata o peixe. São Rafael o ensina a abri-lo e a tirar de dentro dele um certo óleo que iria curar a cegueira de Tobit.
Chegando à cidade, encontra um parente, homem abastado e influente, cuja filha era lindíssima. Sete homens tinham querido casar-se com ela, mas movidos pela sensualidade. Ora, Deus não permitia que um homem sensual se casasse com a moça. Por isso todos os maridos tinham morrido, e ela já ficara viúva por sete vezes sem ter sido tocada por nenhum homem, pois não aparecera o varão casto que deveria desposá-la.
Apresenta-se Tobias e, com o assentimento do pai da jovem, casam-se. Então, acompanhado de sua esposa, ele volta para junto de Tobit.
Quando Tobias estava fora de perigo, já na casa paterna, o companheiro de viagem anunciou que era São Rafael, um dos sete espíritos que assistem na presença do Altíssimo, e sumiu.
Notem como toda a dificuldade de Tobias não era uma situação de guerra, mas um problema de ação. Seu pai é pobre e Tobias tem uma dívida para cobrar, uma viagem arriscada a fazer, uma jovem a desposar, uma vida para arranjar; pela intervenção do Anjo, essas atividades se consertam em cadeia.
Na ação entra a agilidade diplomática, a continuidade, tudo aquilo quanto representa o operar ao longo de situações incertas. São Rafael é também o protetor nessas circunstâncias, porque se vê que Tobias foi sujeito a toda espécie de vicissitudes até a situação da família dele se regularizar, tendo ele de agir arduamente, e só se saiu bem por meio de milagres.
Por isso, São Rafael é protetor na linha do princípio axiológico1, da confiança, da misericórdia, enfim, de toda a bondade para se restabelecer e se levar uma vida normal.

São Miguel: o Arcanjo da luta

 

Embora, absolutamente falando, a contemplação seja superior à ação, não corresponderia à realidade comparar a atuação dos três Arcanjos a um triângulo em que São Gabriel estivesse sempre no ângulo superior e os outros dois abaixo, em situação de igualdade. Isso torna-se particularmente claro ao considerarmos São Miguel, o Arcanjo da luta.
O empenho do combate, de si, tem algo de destrutivo de quem o trava. Mesmo quando não conduz necessariamente à morte, a luta corresponde a um esforço superior ao desgaste normal do mero trabalho. Por isso traz consigo um aspecto de oblação, na qual o caráter de desinteresse é maior. Por exemplo, o desprendimento manifestado no episódio de Abraão com Isaac é fabuloso! Aquilo é puro amor. Pois bem, pode-se lutar por puro amor indo para uma Cruzada, como Isaac caminhou para ser morto pelo pai.
Aliás, Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que a imolação é a maior prova de amor: “Não há maior prova de amor do que dar a vida pelo amigo” (cf. Jo 15, 13). E dizia isto de Si mesmo para nos explicar como devemos estar certos de seu amor por nós.
Por aí podemos ver a magnificência da luta e, portanto, da atuação de São Miguel Arcanjo.

Profetismo da luta e do holocausto

Em face deste quadro, a ação parece muito inferior à contemplação e à luta. O problema está em termos uma concepção muito material da ação. Com o próprio São Rafael fica-nos na mente o desenhinho – aliás, encantador e bobinho –, que ilustrava os livros de História Sagrada para crianças, dele andando a pé, com um bastão do qual pendia uma espécie de moringuinha, e conversando com Tobias animadamente.
Ora, São Rafael foi um Anjo de uma sabedoria ativa superior, que ajudou Tobias a ver o que de fato ele deveria querer na viagem, encontrar os meios para realizá-la, e cuja companhia lhe dava força e ânimo para empreendê-la com êxito. O aspecto material da viagem para o Anjo não era nada. Fazer com aquele boneco fabricado por ele – o qual Tobias tomava como sendo um homem – falasse e caminhasse, para um espírito angélico não era coisa alguma.
Compreende-se, então, que para nos referirmos a São Rafael como o Arcanjo da ação devemos escolher os mais altos graus e padrões da ação. Portanto, muito mais do que a atuação operacional, meramente ativa, a ação pensante. Algo à maneira, por exemplo, daquela frase do Marechal Foch2: “Ma droite est pressé, ma gauche est menacé, ma arrière est coupée… que fais-je? J’attaque”3. Isto é magnífico! Quer dizer: “Eu estou num apuro total, então vou atacar!” Esta é uma ação, se assim se pode dizer, “rafaélica”, no sentido de que é o pensamento sobre a ação de uma alta categoria.
A arte de reinar, governar, dirigir profeticamente, a missão profética no conjunto da ação da vida diária estaria com São Rafael, enquanto que com São Miguel estaria o profetismo da luta e do holocausto. Assim se compreende a beleza da distinção entre o agir desses Arcanjos.

Os três Arcanjos em episódios da vida de Nosso Senhor

Poder-se-ia perguntar, na vida santíssima e augustíssima de Nosso Senhor, qual desses aspectos brilhou mais e em quais episódios Ele Se conduziu como o Deus de Gabriel, o Deus de Rafael e o Deus de Miguel. Seria um estudo do Evangelho muito bonito.
A meu ver, na Transfiguração do Monte Tabor Nosso Senhor pode ser simbolizado eminentemente por São Gabriel. Na Paixão, por São Miguel, pois é o holocausto e a luta, foi quando Ele venceu o mundo. Ademais, agonia, em grego, significa a luta do atleta; os atletas eram chamados agonistas. Depois, enquanto Mestre, percorrendo a Terra Santa e fazendo apostolado em sua vida pública, é simbolizado por São Rafael.
Com base nestas considerações poderíamos imaginar a nossa vida como uma ação concomitante dos três Arcanjos, com momentos em que ora prepondera São Rafael, ora São Miguel, ora São Gabriel.
Os três Arcanjos formam um unum e, conforme o matiz de nossa atividade apostólica, somos mais beneficiados por um ou por outro. De maneira que, às vezes, nos tornamos tão eficientes na ação que temos a impressão de existir só para agir. Outras vezes, somos tão terríveis no combate que parecemos viver só para a luta. Mas há ocasiões nas quais nos sentimos tão convidados à meditação, que temos a sensação de não existirmos senão para ela. É uma espécie de síntese dos três Arcanjos.
Donde se poderia deduzir que o objetivo de nossa ação apostólica é uma “angelização”. Há uma espécie de presença angélica entre nós, um prolongamento angélico de uns para os outros, e uma representação angélica correspondente ao fundo de nossos espíritos e de nossas almas, que explica a nossa escravidão e união a Nossa Senhora.v

(Extraído de conferências de 28/3/1976 e 12/12/1976)

1) Princípio que leva o homem a ser fiel a sua axiologia, ou seja, ao eixo em torno do qual devem girar todas suas ideias, volições e atividades, visando a glória de Deus e o bem de sua alma.
2) Ferdinand Foch (*1851 – †1929). Militar católico francês que comandou os exércitos da França e da Inglaterra durante a I Guerra Mundial.
3) Do francês: Minha direita é comprimida, minha esquerda é ameaçada, minha retaguarda é golpeada… Que faço eu? Eu ataco.

Sinal do abandono divino

Em nossos dias, como reagiriam os maus diante de um milagre semelhante ao operado por Deus a favor de São Wenceslau? Tal reação determina a atitude da Providência para com a humanidade.

No dia 28 de setembro a Igreja comemora a festa de São Wenceslau. A respeito dele, temos a seguinte nota em nosso calendário:
Soberano e Padroeiro da Boêmia. Século X. Praticou as mais belas virtudes, conservou durante toda a vida, intacto, o tesouro da virgindade. Foi assassinado por seu próprio irmão Boleslau, por instigação de sua mãe, enquanto orava na igreja. A Hungria, a Polônia e a Boêmia escolheram-no por patrono.

O rei pacificador

 

Seguem os dados biográficos de São Wenceslau, tirados de L’Année Liturgique, de Dom Guéranger.

São Wenceslau é uma das mais radiosas figuras deste décimo século, que foi chamado o século de ferro. Neto de uma santa e filho de uma mãe pagã fanática, ele foi uma expressão muito pura desta realeza cristã, que devia ter em São Luís, três séculos mais tarde, seu tipo mais perfeito; regime onde a natureza materna da autoridade lhe assegurava todos os devotamentos e temperava todos os excessos; regime que, fazendo do príncipe o tenente de Deus e de Cristo o seu representante autêntico, o revestia de um caráter sobrenatural e sagrado.
Chefe de uma grande família nacional, o rei era o pai de seu povo e, do maior ao menor, todos tinham o direito de serem seus filhos e de apelar para sua justiça. Mestre inconteste, mas cujo poder era temperado naturalmente pela identidade dos interesses da coroa e do povo, ele era o árbitro nas decisões. Ele era o árbitro cujas decisões são as mais sábias, porque nenhuma ambição pessoal, como nenhum interesse de partido podia influenciar um homem que, recebendo tudo de Deus, não tinha contas a dar senão ao próprio Deus, pelo que Ele era o juiz supremo.
O rei era então o pacificador, o “l’apaiseur”, dizia São Luís, sempre o apaziguador. Portanto, sempre preocupado em resolver as disputas entre seus filhos para os unir em vista do bem comum, a tranquilidade do reino, prelúdio da paz de Deus.
No programa do príncipe cristão, que Wenceslau realizou durante os curtos anos de seu reino, Deus apôs a este programa o selo do martírio, dando assim à sua obra completa um valor de eternidade.

Virtude comprovada por sinais sobrenaturais

Na vida de São Wenceslau, mártir, escrita pelo Gal. Silveira de Mello, encontramos estes dados:
A fama das virtudes de Wenceslau percorreu o mundo. Era admirado e querido pela Cristandade. Amigo de seu povo, dedicado ao serviço da nação, austero e generoso, protetor da pobreza, propugnador da fé e súdito fiel da Igreja e também soldado destemido e leal. Oto, Imperador da Alemanha, chamou Wenceslau à Dieta de Worms e cumulou-o de atenções.
Certo dia, demorou-se inadvertidamente na igreja. Quando chegou à assembleia, o imperador e os outros príncipes, ressentidos com o atraso do duque, tinham resolvido a não se levantar, como era de estilo, à entrada do dignitário retardado. Mas assim que o duque penetrou na sala, viram os nobres que dois Anjos o acompanhavam.
Tomados de admiração e respeito, o Imperador levantou-se para recebê-lo e lhe deu o lugar à sua direita. Como lhe poderiam negar honras, se os próprios Anjos lha tributavam? O Imperador, em sinal de apreço, obsequiou-o com duas preciosas relíquias: um braço de São Vito e os ossos de São Sigismundo, rei da Borgonha e também grande soldado.

Numa assembleia de soberanos, autêntica vassalagem mútua

Tenho a impressão de que este dado biográfico de tal maneira supera o resto, que impede qualquer outro comentário. Vamos, portanto, nos cingir a isto.
Notem a linda cena. São Wenceslau era rei da Boêmia, mas, com certeza, seu reinado invadia também uma parte da Polônia, pois esta nação também o admitiu como seu padroeiro. Ele era rei, portanto, de uma grande parte do território, e nessa época estava sendo realizada uma Dieta, quer dizer, uma reunião dos principais dentre os príncipes e senhores feudais do Sacro Império Romano Alemão. Certamente ele foi convocado para esta Dieta porque essas nações, naquele tempo, estavam sujeitas, de algum modo, à suserania do Sacro Império.
Então, era uma reunião muito bonita e cheia de nobreza, porque não era uma reunião do rei com seus súditos, mas de um senhor que chefiava e liderava outros senhores, também soberanos. De maneira que era uma espécie de assembleia de soberanos, cheia de cavalheirismo e de força.
Vemos aqui um belo exemplo: notem o respeito à soberania. Cada um era como que um soberano e, portanto, quando um senhor entrava na sala, mesmo de categoria inferior à do Imperador do Sacro Império, todos se levantavam, inclusive o Imperador.

Cruel inflexibilidade do mal e doce vingança do bem

Então, vem a represália. Quando entrou São Wenceslau, resolveram não se levantar, porque ele tinha demorado demais na oração. Percebam a raiva daquela assembleia. Mesmo em plena Idade Média pairava, sutil, aquela antipatia enigmática da parte dos que rezam pouco para com os que rezam muito, pois os primeiros são sempre inflexíveis com relação aos segundos. Infelizmente, o contrário não acontece, porque os que rezam muito são propensos a ter uma condescendência com os que rezam pouco.
Decidiram os pouco piedosos: “Vamos todos ficar quietos e sentados quando ele entrar, para desfeiteá-lo, porque ele chegou atrasado.”

Vejam a resposta da Providência: São Wenceslau ingressa na sala e todos veem dois Anjos entrando junto com ele. Acabou-se, não tem mais nada para dizer. A virtude sai coberta de honra e de glória, e o Imperador dá a ele dois presentes.
As pessoas daquele tempo tinham o senso muito mais elevado do que as de nossos dias e, em vez de dar coisas que valiam dinheiro, o Soberano presenteou-lhe duas relíquias – pois se dava muito maior valor a estas do que ao ouro –, uma das quais a de um soldado, para o grande soldado que era São Wenceslau.

Ausência de manifestações sobrenaturais

Surge a seguinte pergunta: Hoje em dia, quando alguém muito piedoso chega atrasado a algum evento e sofre desfeita, por que não aparecem dois Anjos acompanhando essa pessoa? Por que não ocorrem as manifestações sobrenaturais que cobrem de glória o bem e esmagam o mal? A resposta é evidente: porque os pecados do mundo chegaram a tal cúmulo, que os homens não merecem mais isso.
Não devemos imaginar que os Anjos apareceram ao lado do Santo principalmente para a glória dele. Não! Estavam, sobretudo, para o bem do público, que presenciava aquele milagre. Era, portanto, um bem para os maus. Mas os ímpios de nossos dias não o merecem.
Poderíamos nos perguntar que atitude tomariam os maus se hoje aparecessem Anjos ao lado de um justo. Com certeza, seria um ódio sem nome e provavelmente não mudariam de posição. É este estado de espírito córneo, hirto, rijo, que merece, com razão, a punição divina. Porque quando milagres como esses não comovem mais, ou nem sequer existem, é o sinal de que a Providência abandonou uma determinada coletividade humana, um ciclo de cultura ou a humanidade inteira em certa quadra histórica, a qual ficará marcada para toda espécie de castigo. v

(Extraído de conferência de 27/9/1966)

INTRANSIGÊNCIA E DUCTILIDADE: SÃO GREGÓRIO MAGNO

Comentando a diretriz de São Gregório Magno a São Justo, relativa ao apostolado na Inglaterra, Dr. Plinio ressalta a perenidade da Igreja até nas coisas inteiramente secundárias. A carta indica, ao mesmo tempo, muita ductilidade, maleabilidade, naquilo que é secundário e uma enorme intransigência no que é realmente importante.

A 10 de novembro comemora-se a festa de São Justo, bispo, a respeito do qual diz Rohrbacher1, na sua obra Vida dos Santos, o seguinte:

Diretriz de São Gregório Magno sobre o apostolado na Inglaterra

São Justo foi companheiro de Santo Agostinho, em seu trabalho de conversão da Inglaterra.
É, portanto, Santo Agostinho que foi Arcebispo de Cantuária, no século VI, e não Santo Agostinho de Hipona.
Escreveu-lhe São Gregório o seguinte, a respeito de uma consulta.
São Justo fez a São Gregório Magno uma consulta e este lhe deu a resposta que segue.
Quando chegardes ao pé de nosso irmão Agostinho dizei-lhe que, depois de ter pensado longamente, examinado bem a questão dos ingleses, julguei que não devia destruir os templos, mas somente os ídolos que neles estão. Purifique-os com água benta, desça do altar os ídolos e lá coloque relíquias. Se esses templos são bons, bem edificados, que passem do culto dos demônios ao serviço do verdadeiro Deus, a fim de que aquela nação, vendo conservados os lugares aos quais estão acostumados, neles passem a ir mais à vontade. E como estão acostumados a sacrificar bois aos demônios estabeleça qualquer cerimônia solene como a da consagração, ou dos mártires de quem ali estão as relíquias.
Que façam barracas em volta dos templos transformados em igrejas e celebrem a festa com refeições discretas. Ao invés de imolar animais ao demônio, que os matem para comer e render graças a Deus que lhes deu o alimento, a fim de que, deixando quaisquer manifestações sensíveis de júbilo, possam insinuar-se mais facilmente nas alegrias interiores. Porque é impossível destituir os duros espíritos de todos os costumes de uma só vez. É devagar que se vai ao longe.

Todos os deuses dos pagãos são demônios

Essa carta é muito interessante, antes de tudo por causa dessa afirmação que nós encontramos numerosas vezes em Padres e Doutores da Igreja, bem como na Escritura que diz: omnes dii gentium dæmonia (Sl 95, 5) – todos os deuses dos povos, das nações que não Israel, são demônios.
E isso provém deste fato que São Luís Grignion de Montfort põe muito em relevo: o homem, depois do pecado original, nasceu escravo. Ou é escravo de Deus, de Nossa Senhora, ou é escravo do demônio. Não tem outro remédio. E como esses povos pagãos não são escravos de Nossa Senhora, nem de Deus, são necessariamente escravos do demônio. E aquelas coisas que eles adoram são realmente demônios. Sem falar nos numerosos casos que se conhecem de manifestações preternaturais diabólicas, a propósito do culto dos demônios.
De maneira que a expressão é muito característica, violenta, profundamente antiecumênica. Exatamente nesse sentido é interessante essa carta porque ela indica, ao mesmo tempo, muita ductilidade, maleabilidade naquilo que não tem importância, e uma enorme severidade no que é realmente importante.

Templos pagãos purificados pela celebração do verdadeiro culto

Os templos dessas nações pagãs não tinham nada em comum com a arte moderna. Esta é uma negação violenta, blasfematória, de toda forma de verdade e de bem. É a arbitrariedade artística erigida em afirmação normal da desordem e da feiura. Evidentemente, a arte moderna não pode servir para uma igreja católica. Mas os templos constituídos em outras escolas artísticas que não terão a elevação, a sacralidade do gótico, mas são escolas dignas e que realmente contêm verdadeiros elementos de beleza, podem adequadamente servir para o culto católico.

 

Lembro-me que nós publicamos um “Ambientes-Costumes”, em “Catolicismo”, no qual havia uma fotografia de um pagode chinês, e mostrávamos como ele era próprio para servir ao culto católico dentro de uma nação chinesa. Não que se fosse construir um pagode para ali pôr um culto católico, porque quando se faz procura-se fazer o melhor possível. Mas quando se recebe o fato consumado, procura-se aceitar o aceitável. E o pagode, bonito, com muita nobreza, muitos valores, mereceria perfeitamente ser aceito pelo culto católico.
Por exemplo, os heróis da Reconquista, quando tomavam aquelas cidades antigamente mouras que possuíam mesquitas muito bonitas, como a famosa de Córdoba, purificavam as mesquitas, tiravam todos os emblemas do islamismo e instalavam o culto católico, o qual até hoje continua a ser celebrado nesses locais. E isso é uma coisa digna, feita pelos próprios heróis da Reconquista.
Isabel, a Católica, quando penetrou em Granada, uma das primeiras preocupações dela foi precisamente de mandar purificar a mais importante mesquita da cidade e rezar ali uma Missa. Era o principal símbolo da vitória alcançada contra o Islã.

Intransigência no necessário e ductilidade no secundário

lho que São Gregório dá a Santo Agostinho. Se os templos têm características que não destoam do culto, devem-se aproveitar.
E ele indica então uma razão de caráter psicológico: as pessoas estão habituadas a ir ao templo. Uma vez que se elimine o elemento ruim, que é o culto idolátrico, esse hábito desinibe o indivíduo de frequentá-lo. Então, convém aproveitar essa circunstância de nosso lado.
Notem quanta intransigência no necessário e quanta ductilidade naquilo que é secundário e realmente não tem nenhuma atinência com os princípios. Não quer dizer o seguinte: ser intransigente com os princípios fundamentais e tolerante com os princípios secundários. Isso seria uma abominação. Com os princípios se é intolerante em toda linha, até onde eles vão. Mas uma parte da realidade que escapa, sob vários aspectos, ao ângulo dos princípios pode ser vista com essa largueza.
Observem as quermesses realizadas junto a igrejas. Muitas delas são de moralidade duvidosa, culturalmente repelentes e sem expressão de valor piedoso em nenhum sentido da palavra.
No caso acima, vemos o contrário. São Gregório Magno manda fazer barraquinhas em torno das igrejas, o que, naquela noite dos tempos, era propriamente a quermesse. Para quê? A fim de distribuir comilanças porque aquele pessoal estava habituado a comer. E ele indica um sentido religioso à refeição: celebrem a Deus que lhes concedeu essa comida, e fiquem alegres com isso; era um pouco de regozijo depois do trabalho. E com isso se atraía o povo
Vemos como essas coisas se ligam e dão bem uma expressão da perenidade da Igreja até nas coisas inteiramente secundárias. v

(Extraído de conferência de 9/11/1966)

1) ROHRBACHER, René-François. Vida dos Santos. São Paulo: Editora das Américas. 1959, v. XIX, p. 287-288.

São Simão e São Judas Tadeu

 

Considerando o respeito com que a Igreja cerca a memória desses Apóstolos, a gratidão com que ela os trata, a afirmação da santidade pessoal que alcançaram, compreendemos terem eles correspondido de modo pleno aos desígnios da Providência Divina. Suas missões se realizaram inteiramente e eles morreram em paz dentro do aparente fracasso de seu apostolado.

No dia 28 de outubro a Igreja comemora a festa de São Simão e São Judas, Apóstolos. A respeito deles, temos os seguintes dados extraídos de uma obra de Dom Guéranger1, entre outros.

 

Na Sagrada Escritura há mil refutações do igualitarismo

 

Uma antiga tradição refere que São Judas Tadeu pregou o Evangelho na Mesopotâmia, e São Simão no Egito. Depois, reuniram-se na Pérsia onde sofreram o martírio no ano de 47.
Simão era designado o Zelota talvez por ter pertencido antigamente ao partido nacionalista dos zelotas, que não queriam admitir o jugo estrangeiro sobre a Palestina.
Judas era sobrinho de São José por Cléofas ou Alfeu, seu pai, portanto legalmente primo do Homem-Deus. Era daqueles que os seus compatriotas chamavam irmãos do Filho do carpinteiro. Ele escreveu uma curta epístola para combater a heresia gnóstica, então nos seus começos.
As relíquias dos dois Apóstolos foram transportadas, em 1605, para a Basílica do Vaticano e colocadas no altar que a tradição diz estar situado mais ou menos no lugar onde teria sido implantada a cruz de São Pedro.

Os zelotas eram aqueles que tinham o zelo pela independência da Palestina para que ela não caísse no jugo gentio. E se entre os zelotas havia elementos maus, existiam também elementos bons porque a causa zelota tinha alguns aspectos simpáticos, dignos de apreço. Compreende-se, portanto, porque nesse meio Nosso Senhor tenha recrutado um de seus Apóstolos, São Simão.
São Judas era primo de Jesus. Aliás, não era o único parente entre os Apóstolos. Isso mostra bem a extraordinária predestinação da Casa de Davi. Seria uma honra para imortalizar uma estirpe o fato de ter entre si um Apóstolo, e a de Davi possuiu mais de um. E não só isso, há um fato que eclipsa este parentesco de todos os modos possíveis: dela nasceu também o Homem-Deus.

Para deixar bem marcado o amor a essa estirpe, o que por sua vez nos indica quanto Deus toma em consideração a hereditariedade, e como andam desvairadamente os igualitários que reputam ser o princípio da hereditariedade de nenhum valor. Isto é uma das coisas do igualitarismo que encontram mil refutações no conteúdo das Escrituras.

A celebridade consiste em ser conhecido pelos ignorantes

Diante da escassez de informações a respeito desses dois Apóstolos, poderíamos nos perguntar se convém comentá-los em nossa reunião. Respondo que sim, porque todos os Apóstolos, pela sua ligação com as origens da Igreja, devem ser objeto de nossa especial devoção. A festa de um Apóstolo não pode ser indiferente ao bom católico.
Mas quando vejo nomes de Apóstolos que deixaram dados bastante pequenos na história escrita, fazendo com que uma pessoa não muito instruída nessa matéria quase nada saiba a respeito deles – porque a celebridade consiste em ser conhecido não pelos cultos, mas pelos ignorantes –, lembro-me muito da disparidade de fecundidade da evangelização dos Apóstolos que agiram na bacia do Mediterrâneo e a dos que atuaram em outros lugares.
E penso a respeito da resignação que estes devem ter tido, muitos deles morrendo em paz, vendo que seu apostolado não havia produzido nenhum fruto, mas sabendo que todas as ações feitas de acordo com a vocação de cada um, realizadas com integridade de espírito e retidão de intenção, obedecendo à moção da Providência, serão premiadas no Céu e concorrem para a glória de Deus, ainda que os homens na Terra tenham dado um aplauso pequeno ou um consentimento insignificante a essas ações.

Ponto de partida para a fecundidade do apostolado

É interessante notar que um bom número de Apóstolos na aparência exerceu um apostolado ineficiente e fracassado. Dir-se-ia hoje que os Apóstolos da bacia do Mediterrâneo se realizaram e os outros morreram irrealizados, conforme essa mania da “realização” e esse horror do fracasso que existe atualmente.
É indispensável compreendermos que isso contém uma lição para nós, considerando o respeito com que a Igreja cerca a memória desses Apóstolos, a gratidão com que ela os trata, a afirmação da santidade pessoal que alcançaram, quer dizer, eles corresponderam inteira e plenamente aos desígnios da Providência Divina. Portanto, Deus estava contente com eles, suas vidas se realizaram na plenitude e morreram em paz, dentro do aparente fracasso de seu apostolado.
Mais ainda, sabendo que outros estavam tendo um apostolado muito frutífero. Os Apóstolos sofreram o martírio, compreendendo que algum dia seu sangue seria de utilidade para aqueles povos.

Ainda que não tivesse utilidade para povo nenhum, eles prestaram a Deus o culto de sua adoração e de seu sacrifício desinteressado, até mesmo sem objetivo terreno. Apenas porque eram criaturas de Deus, chamados por Ele para uma certa obra, realizaram-na e nela morreram para a glória do Criador. Quer dizer, fizeram de si como aquela ânfora cheia de perfume que Santa Maria Madalena quebrou diante de Nosso Senhor, e que não teve outra utilidade senão impregnar de aroma os pés do Redentor e a Ele servir.
Há outra lição para nós. Mesmo o apostolado bem sucedido vale, principalmente, por essa espécie de imolação, de holocausto, de adoração sem mais porque Deus é Deus. E digo mais: se é verdade que um apostolado com essas intenções pode não ser bem sucedido, eu não creio que haja apostolado fecundo sem essas intenções. Se uma pessoa soubesse que seu apostolado seria como o de São Simão e São Judas, isto é, sem nenhum fruto humano, e por isso diminuísse sua dedicação, ela não daria ao seu apostolado a fecundidade necessária. Porque é esse estado de espírito que deve ser o ponto de partida para que o apostolado seja fecundo.v

(Extraído de conferências de 28/10/1963 e 28/10/1965)

1) Cf. GUÉRANGER, Prosper. L’année liturgique. Vol V. Librairie Religieuse H. Oudin. Paris: 1900. p. 523-525.

AMOR, OBEDIENCIA E VENERAÇÃO PELA CÁTEDRA DE SÃO PEDRO

 

A Cátedra de São Pedro lembra o supremo governo da Igreja Católica Apostólica Romana. Se as vicissitudes humanas podem dar a essa Cátedra brilho maior ou menor, ou até rodeá-la de trevas, ela é sempre a mesma. Nosso amor à Santa Igreja é absolutamente sem limites e acima de todas as coisas da Terra, e deve incidir de modo especial sobre a Cátedra de São Pedro, qualquer que seja o seu ocupante.

A respeito da festa da Cátedra de São Pedro, Dom Guéranger, em sua obra L’Année Liturgique, cita um trecho do Sermão 82 de São Leão Magno. Eis os dizeres deste Santo Pontífice:

A Providência preparou o Império Romano para a pregação do Evangelho

O Deus bom, justo e todo-poderoso, que jamais negou sua misericórdia ao gênero humano, e que pela abundância de seus dons forneceu a todos os mortais os meios de conhecermos o seu Nome, nos secretos desígnios de seu imenso amor, teve piedade da cegueira voluntária dos homens e da malícia que os precipitava na degradação, enviou o seu Verbo, que Lhe é igual e coeterno.
Ora, esse Verbo, tendo-Se feito carne, tão estritamente uniu a natureza divina à natureza humana que o abaixamento da primeira até nossa abjeção tornou-se para nós o princípio da elevação mais sublime.
Mas, a fim de difundir no mundo inteiro os efeitos desse favor, a Providência preparou o Império Romano e deu-lhe tão grandes limites que ele abarcava em seu vasto meio a universalidade das nações. Foi feita uma coisa muito útil à realização da obra projetada, que os diversos reinos formassem uma confederação de um império único, a fim de que a pregação geral chegasse mais rapidamente aos povos, unidos que já estavam sob o regime de uma só cidade.

Roma, dominada pelo demônio, foi conquistada por Cristo

o Autor de seus destinos, fizera-se escrava dos erros de todos os povos, no instante mesmo em que ela os tinha sob suas leis e acreditava possuir uma grande religião, porque não rejeitava nenhuma mentira. Mas quanto mais duramente foi dominada pelo demônio, mais maravilhosamente foi conquistada por Cristo.
Com efeito, quando os doze Apóstolos, após terem recebido do Espírito Santo o dom de falar todas as línguas, espalhados pelos quatro cantos da Terra, e que tomaram conta deste mundo onde deviam difundir o Evangelho, o Bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos, recebeu como herança a cidadela do Império Romano, a fim de que a luz da verdade que se manifestava para a salvação de todas as nações se propagasse mais eficazmente, difundindo-se no centro desse Império sobre o mundo inteiro.
Qual a nação, com efeito, que não contava com numerosos representantes nessa cidade? Qual povo ignorava o que Roma ensinava? Era lá que deviam ser esmagadas as opiniões de Filosofia, dissipadas as vaidades da sabedoria terrestre, o culto dos demônios seria confundido, destruída enfim a impiedade de todos os sacrifícios, no mesmo lugar onde uma superstição hábil reunira tudo o que os diversos erros haviam produzido.

A unidade civil do Império Romano preparou a aceitação da unidade religiosa

 

A primeira ideia que aparece neste texto é de que a humanidade estava extremamente degradada, e Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-Se, realizando por esta forma uma descida que era imensa – porque do mais alto dos Céus, do infinito, para uma condição degradada –, mas há uma correspondência entre o enorme dessa descida e a extraordinária ascensão que o gênero humano teve. Porque, assim como Deus Se humilhou imensamente encarnando-Se, nós fomos incomensuravelmente elevados pela Encarnação d’Ele.
Há uma expressão que diz: “Quanto maior a altura, tanto maior o tombo.” Aqui se poderia afirmar, salvadas as proporções: “Quanto maior o tombo, maior a altura.” Quanto mais Deus Se humilhou, tanto mais nós fomos prodigiosamente levantados por Ele. Então, vem acentuada aqui a imensa misericórdia do dia de Natal, que patenteia aos homens a elevação sublime e incompreensível da natureza humana pela união hipostática na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. O segundo pensamento é o seguinte: esse favor da Providência só daria todos os seus resultados pela constituição do Império Romano. Porque era um Império enorme que continha, dentro de seu bojo, todas as nações da orla do Mediterrâneo e muitas outras ainda. Como se sabe, o Império Romano estendeu-se até o atual território da Inglaterra e um pouco o da Escócia; e que na linha sul ele tocou as lindes da Etiópia.
A África do Norte era povoada, fértil e intensamente latina no tempo dos romanos, e o poder destes afundou pela Pérsia adentro, tocando quase até na Índia. De algum modo, se podia dizer que o mundo conhecido era todo romano. Ou seja, houve uma unificação de incontáveis nações sob um só Império, e São Leão Magno mostra porque esta unificação serviu para a difusão do enorme benefício que houve, em que Cristo se Encarnasse e elevasse a natureza humana. Ele, então, dá algumas razões.
Uma razão, muito rapidamente mencionada, é ligada ao fato de que onde há um só Estado, sem fronteiras, cabe mais facilmente a ideia de uma só religião. E por causa disso a unidade civil do Império Romano preparava as mentes para a aceitação de uma unidade religiosa.

A Roma dos Papas

Depois ele desenvolve uma ideia mais viva, que é a seguinte: a cidade de Roma era como que um coração mantendo dentro de si, com movimentos de sístole e diástole, um sangue que circulava por todo o Império. Em Roma havia habitantes de todas as partes do Império, que ou ali moravam e exerciam influência sobre suas respectivas províncias, ou estavam sempre em viagem e assim levavam a influência de Roma para os últimos recantos.
De um modo ou de outro, Roma era como um coração que havia atraído para si pessoas de todo o Império, e depois mandava para longe funcionários, legionários e todo o aparelho administrativo e militar romano. De maneira que, cristianizando a cidade de Roma, estava conquistado o ponto estratégico para a cristianização do Império. Feita a cristianização do Império, estava potencialmente cristianizado o mundo.
Então ele explica que, por um desígnio soberano de Deus, Roma foi escolhida para ser a cidade do Papa porque era uma cidade estratégica, onde este benefício da salvação podia se tornar mais geralmente conhecido.
Daí vem a Cátedra de São Pedro, a qual se trata de venerar, posta no centro de influência do mundo inteiro, e que inoculou em todo o orbe a regeneração católica, a verdadeira Fé, disseminou a Igreja.
É bonito verificar como a Providência age de um modo político interessante. E eu não recuo diante da palavra “político”. Enquanto a Igreja era pequena e fraca, tornava-se necessário que a sede d’Ela fosse na mais importante cidade do mundo, para poder espalhar a sua influência. Mas depois que a Igreja se difundiu por todo o orbe, convinha que o Papa, tornado personagem humanamente poderosíssimo, não convivesse na mais importante cidade do mundo com o maior poder temporal, porque sairia fricção. E em certo momento, tornou-se necessário que Roma não fosse mais a capital política do mundo.
Então, Constantino deixou Roma e se transladou para Bizâncio. Atribuem alguns esta ideia a que exatamente o Imperador não incomodasse o papa, mas isso é um pouco discutido, porque Roma já não era capital do Império. A capital do Império era Milão, Ravena, e nunca mais Roma veio a ser a capital de um país que fosse uma potência internacional.
Nós tivemos a Roma dos Papas, que foi sempre um pequeno Estado temporal. Depois a carnavalesca Roma dos Saboias, capital do reino da Itália. Esta Roma foi capital de um Estado de alguma importância na Europa, mas não de um poder político e militar mundial. De uma influência cultural mundial, sim; de um poder político e militar mundial, não.

Amor sem limites ao papado e à Cátedra de São Pedro

 

Poderia começar a aparecer, então, uma espécie de opressão da Roma civil, poderosa, sobre a Roma religiosa. O que se passou? Ocorreu a coisa mais inesperada do mundo. Para tocar para a frente a obra de humilhação do Papa, a Roma dos Saboias foi uma Roma constitucional e depois se transformou numa república. Mas quando se fizeram as eleições, verificou-se que a maior influência eleitoral da Itália era o Papa. E hoje em dia, por detrás do governo democrata-cristão, é o Papa que governa.
De maneira que os papéis se inverteram e, em vez de ser a Roma civil que governa a Roma religiosa, nós temos, até certo ponto, a Roma religiosa que governa a Roma civil. E assim, o desígnio de que o papado fosse opresso pelo poder civil não ser realizou.
Será o melhor possível esse governo democrata-cristão? Uma coisa é verdadeira: se São Pio X estivesse no Sólio Pontifício, a Itália seria a nação mais bem governada do mundo. Quanto a isto não há dúvida!

Quando se fala da Cátedra de São Pedro, refere-se naturalmente ao móvel da cátedra. No fundo da Igreja de São Pedro há uma cátedra em bronze, feita por Bernini1, cercada de resplendores, recebendo por isso o nome de “a glória de Bernini.” Essa cátedra é oca e dentro se encontra o pequeno trono de madeira, que São Pedro usava em Roma, o qual até hoje se conserva para veneração dos fiéis e é exposto em certas ocasiões.

A cátedra simbolicamente lembra o poder, o papado, o pontificado, a continuidade dessa instituição, através de todos os homens tão diferentes que a têm ocupado. Recorda, então, o supremo governo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Se as vicissitudes humanas podem dar brilho maior ou menor, ou até rodear de trevas essa Cátedra, ela é sempre a mesma. O supremo governo da Igreja é a cabeça da Igreja. Quando se ama alguém, se ama sobretudo sua face, sua cabeça. Portanto, nosso amor à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que é um amor absolutamente sem limites e acima de todas as coisas da Terra, deve incidir especialmente sobre o papado e a Cátedra de São Pedro, qualquer que seja o seu ocupante. Porque esse é Pedro, a quem foram dadas as chaves dourada e prateada, a do Céu e a do poder indireto na Terra.
E a este Pedro nós osculamos, em espírito, os pés, como expressão de homenagem e de adesão. Porque em relação à Cátedra de São Pedro, nosso amor, nossa obediência, nossa veneração absolutamente não têm limites.v

(Extraído de conferência de 17/1/1966)

1) Gian Lorenzo Bernini (*1598 – †1680), arquiteto e escultor italiano.

PEDRA DE ESCÂNDALO: APRESENTAÇÃO DO MENINO JESUS NO TEMPLO

 

 

Quando o Profeta Simeão teve nos braços o Menino Jesus e entoou o seu famoso cântico Nunc dimittis servum tuum, Domine… – Senhor, agora envia em paz o teu servo… –, ele disse que Nosso Senhor foi enviado como pedra de escândalo para a perdição e salvação de muitos, e para que se conhecessem as cogitações ocultas dos corações.
Portanto, Nosso Senhor foi mandado para salvar a todos, mas a perdição daqueles que O recusassem não significava o fracasso d’Ele, e sim um elemento intrínseco à sua Missão, ou seja, criar condições para os justos conhecerem a verdade e se salvarem, para os ímpios manifestarem a sua impiedade e, não se arrependendo, irem para o Inferno.
Christianus alter Christus – o cristão é um outro Cristo. Também nós somos pedra de escândalo posta para a salvação e a perdição de muitos, e para que se revelem as cogitações dos ímpios. A nossa missão é, pois, suscitar nas pessoas a definição, para a salvação dos bons.

(Extraído de conferência de 31/1/1966)