O temperamento medieval

Pode-se falar em temperamento ideal, modelo para o homem contemporâneo? Partindo da descrição do ambiente de um castelo medieval, Dr. Plinio responde a esta pergunta ao expor o temperamento que caracterizava o homem e a sociedade durante a Idade Média, mostrando o que nele há de perene e válido para os povos de todos os tempos.

 

Em primeiro lugar, devemos procurar definir o que entendemos por temperamento nesta exposição.

Os diversos tipos de temperamento

Sabemos que as espécies animais têm um temperamento coletivo, ou seja, próprio a toda a espécie.

Chamamos de temperamento a uma certa nota fundamental que comanda e marca todas as manifestações de vida do animal. Assim nós podemos dizer que a águia tem um temperamento que não é o da pomba. O leão tem um temperamento que não é o do cordeiro. São entes irracionais nos quais o comportamento não decorre de nenhum modo de um pensamento, de uma reflexão, de uma doutrina, mas de algo que existe espontaneamente dentro deles.

E toda espécie — os leões, por exemplo — tem um temperamento.

Podemos dizer que o leão é feroz, majestoso e seguro. Não podemos afirmar, no mesmo sentido da palavra, que um gato é feroz, mas sim que ele tem sua ferocidade, suas seguranças, suas distinções; mas o gato é variável e tem um temperamento diferente do temperamento do leão.

Podemos dizer que dentro de uma mesma espécie os indivíduos têm temperamentos diferentes. Assim, de águia para águia, de cordeiro para cordeiro, de pombo para pombo, de leão para leão, de gato para gato há diferenças temperamentais também.

Transpondo isso para a escala humana, veremos que no homem o temperamento é algo ligado à biologia, ao corpo, à vida animal do ser humano, e que influencia, impregna, marca tudo aquilo que o homem faz. De maneira que todos os primeiros movimentos, as primeiras ações, as primeiras reações, os primeiros impulsos e, às vezes, muito mais do que os primeiros, são influenciados pelo que esse temperamento tem ou por aquilo que lhe falta, isto é, pelas carências desse temperamento também.

Nesse sentido, podemos afirmar existir também temperamentos de países. Há países com temperamentos diferentes uns dos outros.

Por exemplo, um prussiano e um italiano têm um temperamento marcadamente diverso. Muito menos diversos — porque na América do Sul as diferenças são menores —, mas também muito característicos, são os temperamentos do brasileiro, do argentino e do chileno.

Se quiséssemos aprofundar, poderíamos dizer que há diversidade temperamental de região a região, de cidade a cidade, e de indivíduo a indivíduo.

Tudo isso é conhecido, mas estou apenas lembrando para facilitar o desenvolvimento do que passarei a expor. 

Assim como as nações, também as épocas históricas têm o que se poderia chamar “temperamento coletivo”.

Quando vemos, por exemplo, fotografias de pessoas da “Belle Époque”(1), isto é, dos anos que se estendem mais ou menos das últimas décadas do século XIX até o começo da Primeira Guerra Mundial, notamos todos os homens com o peito erguido e posto para a frente, colarinhos e gravatas grandes, bigodões e umas fisionomias imponentes.

Aquilo não é mera representação, mas entra muito do estilo de vitalidade que o ocidental tinha naquele tempo, e que é uma vitalidade um pouco à Kaiser.

Se consultarmos um livro de gravuras do século XVIII, anterior à Revolução Francesa, compararmos com o período da Revolução Francesa, e depois com os anos de 1850, portanto, bem antes da “Belle Époque”, notaremos uma diversidade enorme de temperamento, que corresponde até a uma diferença de estrutura física.

Essas notas temperamentais, no homem, não ficam reduzidas puramente ao animal. Os reflexos da alma são condicionados pelo corpo, mas a ação dos princípios, das condições, dos hábitos modela, por sua vez, o físico. Há, portanto, o que se chama uma interação, uma ação recíproca alma-corpo, corpo-alma, que faz com que as coisas se componham e o temperamento de uma determinada época seja a resultante de determinadas condições biológicas e fisiológicas, mas também de um certo estilo de vida e de pensamento, de um certo gênero de atividades que as circunstâncias da época impõem. Assim, são muitos os elementos que modelam o temperamento da época.

Se explicitarmos estas ideias, chegaremos à conclusão de que há um temperamento pró-revolucionário e outro contrarrevolucionário.

O temperamento contrarrevolucionário é o do homem medieval, quando a Idade Média chegou à sua plena expressão.

O temperamento que é pró-revolucionário ou, se preferirem, o temperamento revolucionário é o que foi entrando no modo de ser do homem a partir do momento em que a Revolução começou.

Quando vemos gravuras, iluminuras, vitrais, castelos, tapeçarias, armas da Idade Média, somos introduzidos pelo espírito para um ambiente que forma um temperamento muito diferente do que se constituiu nas épocas posteriores da Renascença, do protestantismo, do “Ancien Régime”(2) ou de nossos dias.

Haveria, para o homem contemporâneo, um modelo de temperamento segundo o qual ele se deve adequar?

O temperamento medieval

A meu ver, esse modelo se encontra — não ponto por ponto, para ser copiado exatamente, mas ao menos nas suas linhas gerais — na Idade Média.

Vou tentar descrever o temperamento medieval para depois mostrar que consonância isso tem com a Doutrina Católica. Por esta forma compreenderemos o que há de perene nisso, válido para todos os povos de todos os tempos.

Creio que poderíamos ter um pouco a ideia disso fazendo o seguinte trabalho interior, de ordem psicológica.

Tomemos qualquer castelo medieval e imaginemos que devêssemos viver, não trancados nele, mas envoltos em sua atmosfera a vida inteira.

Torres altas, portas com ponte levadiça suspensa, fosso do lado de fora. Quando entramos no castelo, aparece um guarda no alto da torre, olha e, conforme for, baixa a ponte. Atravessamos uma espécie de corredor entre duas portas, formado por duas torres enormes, sombrias. Olhamos para cima e vemos buracos feitos para descerem barras de ferro em caso de batalhas, e impedir o inimigo de entrar.

Transpondo esse longo corredor, temos a sensação de estar calcando aos pés a base do castelo, na qual nós sabemos que há armazéns, depósitos e também prisões sombrias onde se encontram homens acorrentados, às vezes acorrentados junto à parede, e que recebem a luz do dia por uma réstia de sol vinda através de uma seteira.

No pátio do castelo tem um poço, e a presença do poço nos sugere uma profundidade enorme da qual a água é tirada. Em alguns desses poços joga-se uma pedrinha, e até a pedrinha bater na água e fazer barulho, pode-se acompanhar no relógio, tal é o percurso que a pedra tem a fazer.

Não há água encanada nos quartos nem todas as comodidades daí decorrentes.

Olhamos para cima, muralhas altas. De repente detemos a atenção sobre a estrutura de ferro que encima o poço, com a roldana e o balde, e é uma peça graciosíssima, um ferro delicado terminando em cima por uma flor de lis sobre a qual está um passarinho se sacudindo, todo alegre.

Um pouco mais à frente está uma capela. Do lado de fora do pórtico, uma Madona risonha com o Menino Jesus no colo. Entramos na capela, é uma joia: vitrais, santos austeros no alto dos altares, candelabros grossos com velas grossas, bancos de carvalho, o assento do senhor feudal colocado junto a um trono; tudo leva a uma espécie de recolhimento, de sacralidade.

Fazemos uma oração diante do Santíssimo Sacramento presente na capela, saímos e olhamos para a casa do senhor feudal.

Na pracinha pública interna do castelo ouvem-se vários ruídos: é o ferreiro trabalhando, outro que trabalha em couro, o carpinteiro que, cantando, está fazendo um móvel. Sente-se um cheiro de comida que sai da cozinha da habitação do senhor feudal.

Do lado de fora do terraço de sua residência, o senhor feudal sentado num trono de pedra e, a seus pés, pessoas discutindo. Ele está julgando causas, por vezes triviais, de súditos em litígio: é a propriedade de um boi, quando não de um porco… E a coisa é discutida, às vezes, calorosamente, de camponês a camponês.

O senhor feudal, que é um guerreiro, mas também um camponesão, ordena: “Cale a boca!” E, dirigindo-se ao outro súdito, diz: “Agora é você quem fala”. Se o sujeito não obedece, ele chama um alabardeiro. Este vem portando na cabeça um capacete de ferro, revestido de uma cota de malhas, cingindo uma espada e, com uma alabarda, ameaça o rebelde que, por fim, fica quieto.

Se entrarmos na casa do senhor feudal, encontraremos um ambiente bonito, tapeçarias vindas do Oriente, novamente vitrais majestosos, lindos móveis de carvalho, ouve-se uma voz melodiosa, e é a castelã que canta acompanhada de um alaúde, e a castelã tem cabelos louros e que estão trançados com pérolas ou com pedras vindas de não sei onde, seda vinda de não sei onde, e os filhos do senhor feudal estão num outro quarto aprendendo a ler e a escrever. É a vida cotidiana do castelo.

Imaginemo-nos chamados a viver um ano nesse ambiente pomposo, enorme, forte, onde os aspectos mais graciosos, mais mimosos contrastam com os aspectos mais guerreiros e sombrios.

Quem de nós garante que, ao cabo de um ano, não estaria com saudades da respectiva capital onde mora? E de onde vem a incerteza de que conseguiríamos viver no castelo?

Estou certo de que, ao transpormos os umbrais do castelo, ficaríamos encantados. Não se trata, portanto, de uma objeção doutrinária, mas de uma falta de integridade na adesão temperamental.

Nisso vemos bem um choque entre o temperamento medieval e o nosso. E enquanto não conhecermos a razão desse choque e não tratarmos de tender para esse temperamento, não estaremos modelando nosso temperamento segundo a sã doutrina, e haverá um conflito entre nossos princípios, que são conformes àquilo, e nosso temperamento, contrário àquilo. Isso provoca uma ruptura interna.

O que parece contrariar o homem contemporâneo

Caberia aqui descrever quais são os traços do temperamento medieval, e no que esses traços me parecem contrariar o homem contemporâneo, dando-lhe uma sensação de claustrofobia. Esses traços são próprios a qualquer civilização cristã, pois defluem da Doutrina Católica.

O fundo do temperamento medieval é uma certa estabilidade, por onde o medieval é animado pela noção de que tudo aquilo quanto ele faz é destinado a uma longa duração, porque o normal é que todas as coisas durem muito, e até indefinidamente. E que as coisas novas não sejam o contrário, mas sejam um desdobramento harmônico das antigas.

Tomemos uma catedral medieval como Notre-Dame, por exemplo. Quem a construiu teve a intenção de edificar uma igreja que devia durar até o fim do mundo. Assim, o intuito de quem fez aqueles castelos, muralhas, mosteiros, etc., era o de realizar obras perenes.

Em cada século medieval há uma modificação na arte, mas sempre seguindo uma certa continuidade, por onde a enorme estabilidade não prejudica a mobilidade, porque esta se faz na linha do que já foi feito. É uma linha reta, coerente com o passado, e que se desenvolve indefinidamente.

Isso tem uma repercussão no modo de ser das pessoas. Como o medieval é no que ele constrói, assim também é ele na direção de sua própria vida. Em geral um casal que se constitui na Idade Média, se muda de casa uma vez na vida é muito. Ele é mais pobre no começo da vida, a certa altura está mais rico e faz uma casa nova. Nesta casa ele fica até o fim de seus dias. Se a casa é grande, os filhos vão viver nela, e uma família inteira vai passar séculos naquela residência, considerando a hipótese de uma mudança como a coisa mais absurda.

Se possui uma propriedade rural, a família se fixa ali. Eventualmente, pode até adquirir outra, mas não deixa aquela, e sempre haverá membros daquela família morando naquela propriedade rural, séculos e séculos. Naquele campo plantarão árvores que deverão tomar seu tamanho normal dali a cem anos, para os descendentes se beneficiarem, porque estão certos de que a família nunca sairá de lá. Tudo o que se faz é estável, sólido, durável.

Também os hábitos familiares tendem a ser estáveis. As gerações de sucedem e vão se fixando no modo de ser da família que tende a ficar definitivo. É uma prodigiosa tendência ao estável, porém não ao imóvel.

Notamos essa tendência nos gestos do homem medieval representados nas iluminuras. Se não está combatendo — única cena em que o homem da Idade Média avança com velocidade —, o medieval nunca aparece correndo. Ao vermos aquelas iluminuras, não temos a sensação da pressa.

As pessoas pintadas num vitral, se estão em pé, dir-se-ia que criaram raízes no chão. Quando sentadas, tem-se a impressão de fazerem um só todo com a cadeira. As pessoas que estão trabalhando executam seu trabalho sem pressa e sem relaxamento, com normalidade e continuidade. E se estão se divertindo, são representadas com um aspecto mais leve e gracioso do que o da vida de todos os dias, e com uma nota de parêntesis de diversão em meio ao trabalho e à luta, convictas de estarem fazendo algo que é bom, na medida em que não seja feito sempre.

Estabilidade, sabedoria, lógica e sublimidade

A razão profunda dessa estabilidade é a virtude da sabedoria.

Como a natureza humana é uma só, enquanto um todo, mas dotada de peculiaridades, conforme os povos, é razoável que as nações sejam organizadas de um determinado modo, as casas dispostas de um determinado jeito, a arte realizada de uma determinada forma e o progresso siga uma determinada linha. A razão iluminada pela Fé encontrou a fórmula. Trata-se de seguir nessa fórmula até o fim. Isto é um dos traços do espírito medieval.

Esse traço tem o seguinte corolário.

O homem medieval é amigo de levar todas as coisas sem afobação, sem ímpetos temperamentais, sem explosões. A explosão, o ímpeto, é um vício. Ele é legítimo na guerra, e explicável na diversão; fora disso, é considerado uma desordem.

Por isso, na mentalidade, no espírito do medievo não há lugar para a contradição. Tudo se faz segundo imensas concatenações de raciocínios, imensos desdobramentos de ideias, fazendo com que no seu procedimento tudo seja uníssono e seu temperamento seja apetente de coerência, de harmonia, de uniformidade, de lógica.

Essa apetência da lógica é um dos traços mais marcantes do temperamento medieval. Mais uma vez, a virtude da sabedoria, mas no que ela tem de mais alto.

Pelo fato de ser lógico assim, o medieval tem uma alma profundamente feita para ser modelada pela Igreja, fonte da verdade e de toda a lógica. E por ser modelado pela Igreja, ele é movido por uma certa noção de que a linha-mestra do pensamento humano, o fim da contemplação e da apetência humana é o maravilhoso, o sublime, o elevado.

Em qualquer coisa que o medieval faça, por pequena que seja, pode-se notar a presença de algo de sublime. O vulgar, se existe, é contrariamente ao espírito medieval. É como o crime ou a sujeira numa cidade: não estão de acordo com as regras da cidade; antes, são o contrário do que ela deve ser.

Encontramos, então, mesmo no ambiente da vida medieval mais miúda, uma nota de seriedade, uma apetência de sublimidade que ladeia e coroa essa coerência, e faz com que tudo na Idade Média tenha um aspecto cerimonioso, protocolar, religioso, sacral, do qual o mundo de hoje está completamente despido.

A vida familiar de um trabalhador manual

Para exemplificar, não falarei das cortes dos reis, mas sim da vida e da família de um trabalhador manual.

Na vida familiar de um trabalhador manual, o pai é um rei. Ele é tratado pela esposa com veneração, e pelos filhos com arqui-veneração. A sua palavra faz lei e o ambiente que o cerca é de verdadeiro respeito religioso. Este respeito se estende aos filhos maiores de idade, aos filhos casados, aos netos e aos netos casados, e ninguém ousaria tomar profissão, casar-se ou mudar de vida sem ouvir o parecer do patriarca e, em geral, sem pedir seu consentimento, pois sua vontade é absolutamente lei.

Vemos, então, a vida medieval organizada em torno de homens respeitáveis, sólidos, sérios, que encontram uma espécie de glória em atingir a idade madura e até a sabedoria da velhice; que não têm, como o homem moderno, a preocupação de estar continuamente bancando o mais moço; nimbados pela experiência da vida, pelos grandes sacrifícios feitos, pelas lutas, pelas incertezas que tiveram ao longo da vida, e cujas palavras são recebidas como oráculo que afina sempre com a Doutrina Católica, suprema lei do pensamento e suma regra do procedimento humano.

A chave de cúpula do temperamento medieval

Naturalmente, subindo de classe social iremos encontrando isso mais requintado. Compreendemos, então, que tudo na Idade Média visava o sublime, o maravilhoso, visava o celeste, o angélico.

A meu ver, esta é a verdadeira chave de cúpula do temperamento medieval. Esse horror ao vulgar, esse desejo do maravilhoso de maneira tal que na alma medieval há uma apetência de encontrar algo que nesta vida não se encontra. A arte medieval tende mais a pintar o Céu do que a Terra, colocando nossas almas diante de panoramas mais celestes do que terrestres.

Um vitral banhado de luz, por exemplo, é muito mais um pedaço do Céu do que uma representação terrena.

A atmosfera que banha os personagens de Fra Angélico é uma atmosfera celeste. A pompa de que se cerca um rei não é uma pompa grã-fina, não é uma exibição de dinheiro nem de força brutal. É a ostentação de uma finura sacral e de uma grandeza celeste. Quer dizer, o medieval está continuamente tendendo para o mais alto, para o mais sublime, para o celeste.

Havia um equilíbrio extraordinário dentro disso. Não se trata do pomposo meio engomado do século XIX, no qual se tinha a impressão de que aquelas pessoas, se sorrissem, desmanchar-se-iam inteiras.

O medieval não era assim. Ele compreendia e praticava o sorriso. Sorria com as coisas da natureza próprias a provocar o sorriso. Por exemplo, em catedrais medievais, em uma daquelas nobilíssimas colunas que se elevam até o começo de ogivas que vão até o teto, veem-se, de repente, um, dois, três esquilos de pedra “correndo” um atrás do outro. É uma brincadeira que o próprio escultor pôs naquela coluna tão séria. É um sorriso para esse lado risonho e aprazível da vida.

Ou então, em um vitral, a figura de um santo ou de um rei sentado no seu trono, e junto dele um cachorrinho. O que faz ali esse cachorrinho? É o sorriso do artista. Tornou-se célebre o fato de tal duque, que esteve nas Cruzadas e realizou tal feito heroico, ter tido um cachorrinho. Então, na hora de pintar um vitral representando o duque como benfeitor da igreja, ou como senhor feudal do lugar, põe-se o cachorrinho ao lado do duque. É uma forma de seriedade, porém não engomada, como a do século XIX. É uma seriedade angélica, que vê o gracioso, o pequeno e se encanta, numa ascensão contínua para o angélico.

Esse contínuo remeter para o celeste, para o religioso, repito, é a chave de cúpula da atmosfera da Idade Média; está presente em tudo e sem isso a Idade Média não se explicaria.

Essa coerência medieval é feita de exclusões, de rejeições e de certezas. Tanta força de fé, tanta estabilidade, tanta coerência, fá-la capaz de grandes movimentos de alma.  Sai de dentro dessa grande estabilidade um grande “não” como um grande “sim”. Por isso, nessa época, a meditação da Via Sacra, por exemplo, tem por correlato o espírito guerreiro do medieval que vai para o combate libertar o Santo Sepulcro. Isso nasce da força do seu ato de Fé. Isso explica também como o medievo, tão estável, se deslocava, paradoxalmente, para imensas peregrinações a pé, de ponta a ponta da Europa.

Tudo o que vimos como característica da Idade Média, na Religião Católica, constitui um matiz. E, a meu ver, Nosso Senhor Jesus Cristo foi assim, como também os Apóstolos. Na Europa medieval isso refulgiu com uma intensidade particular, tomando tal plenitude, a partir de Cluny(3), de maneira a conquistar o mundo inteiro. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/2/1971)

Revista Dr Plinio 196 (Julho de 2014)

 

1) Do francês: Bela Época. Período entre 1871 e 1914, durante o qual a Europa experimentou profundas transformações culturais, dentro de um clima de alegria e brilho social. Ver Dr. Plinio n. 172, p. 29-31.

2) Sistema social e político aristocrático em vigor na França entre os séculos XVI e XVIII.

3) Abadia beneditina francesa que deu início a um importante movimento de reforma espiritual e cultural da Europa.

Equilíbrio, força e obediência

Além de precisas, lógicas e claras, as exposições de Dr. Plinio frequentemente eram ricas em reversibilidades. Comentando um belo salto realizado por um cavaleiro em Andaluzia, ele analisa o céu, o campo, o cavalo, o cavaleiro, comparando este com o marinheiro e o aeronauta. E afirma que as qualidades do animal equino, transpostas para a natureza humana, definem o autêntico membro do Movimento por ele fundado.

 

A figura que vamos comentar caracteriza uma pessoa dando um salto a cavalo. É uma das mais belas, fiéis e expressivas manifestações da coragem humana, naquilo que ela tem de mais bonito, que é a capacidade de ousar e de avançar.

Sempre mais cristãos atrevimentos

O ápice da posição da alma humana consiste em crer, não em qualquer religião, mas na única Religião verdadeira que é a pregada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Quando o homem acredita nas verdades ensinadas pela Igreja, elas projetam uma luz sobre sua alma que o ilumina e o torna capaz, por amor àquelas verdades, de empreendimentos extraordinários. É aquilo que o nosso grande Camões chamava “cristãos atrevimentos”(1).

No tempo desse autor português, as esquadras de Portugal cobriam os mares que levavam até a Índia, Japão e China, ou chegavam a pontos ainda ignorados do Brasil. Essas naus eram impulsionadas, em parte, pelo desejo de lucro dos mercadores, que fretavam e organizavam as esquadras; mas eram movidas principalmente pelo anseio de expandir a Fé Católica.

Então, Camões desejava que as naus navegassem para sempre mais “cristãos atrevimentos”.

Quando se está em Portugal, é uma beleza contemplar a Torre de Belém, de onde partiam as esquadras, e os reis iam ver, na foz do Tejo, os navios prontos se encherem das respectivas tripulações e partirem para lugares, por vezes inteiramente ignotos, para sempre mais cristãos atrevimentos.

É bonito ver o espírito humano posto nesta impostação da Fé, diante do tremendo desconhecido que era o mar naquele tempo, utilizando uns barquinhos que eram umas cascas de noz, em comparação com os navios mercantes de nossos dias. É belo contemplar o homem neste arrojo, no momento em que ele ousa, empreende e parte.

O cavaleiro, o marinheiro e o aeronauta

Nota-se muito menos essa beleza do espírito, na aeronáutica. Por quê? Porque na aeronáutica, com a parte material do avião e da técnica, devido a certo determinismo que há na máquina, mede-se perfeitamente e limita-se o grau de risco, que passa a ser muito menor do que o dos barquinhos de Colombo ou de Pedro Álvares Cabral.

No barco, é uma beleza ver o homem flutuar sobre as incertezas dos mares e rumar para um alto ponto distante. E esta também é a pulcritude do cavaleiro, quando dá um grande salto a cavalo.

Mas o cavaleiro tem uma vantagem sobre o marinheiro: aquele orienta uma coisa viva, mutável, cuja vitalidade e mutabilidade são governadas por ele. A vitalidade do cavalo depende de uma espécie de domínio, que eu chamaria de psicológico, do cavaleiro sobre o cavalo.

O cavaleiro muito ousado dá ousadia ao cavalo; ele pesa sobre o cavalo, mas ajuda-o a carregar o peso. O cavaleiro e o cavalo formam, por assim dizer, uma só ousadia, uma só força, e participam de um só voo.

Nessa fotografia, vemos o que é este voo do cavalo e, por cima dele, o voo do cavaleiro, de onde vem a impressão de que quase tudo ali é a alma do cavaleiro.

O cavalo constitui uma massa viva maior do que o cavaleiro, mas este, porque tem vida humana, possui mais domínio do que o cavalo. Também o corpo do cavaleiro ocupa uma matéria viva maior do que sua cabeça, mas esta tem a direção e, por causa disso, vale mais do que o corpo. Assim, a parte menor, onde cintila a inteligência, tem a responsabilidade e a glória pelo todo.

Duas ascensões simultâneas

Faço notar alguns pormenores realmente admiráveis.

Temos três elementos: dois que constituem o cenário, e um representado pelo cavalo e cavaleiro. Poder-se-ia dizer que são o contexto e o texto.

O céu da Andaluzia(2) é exatamente assim. Não há, portanto, embelezamento por meio de efeitos fotográficos. Se devêssemos imaginar o céu da eternidade, uma das ideias mais próximas seria essa.

Considerem o campo, a terra. É curioso, mas todas as coisas têm uma adequação própria. Sou entusiasta da grama inglesa, cor de esmeralda. Realmente é uma coisa admirável! Entretanto, se aqui houvesse essa grama, não daria certo. Essa vegetaçãozinha tem exatamente a altura que deveria ter; não deveria ser um chão raso, mas também não poderia ser uma grande vegetação. Precisava ser assim, para que, entre este solo e este céu azul, se realizasse este grande feito, fruto da força de alma.

Analisemos o cavalo. Ele está numa posição em que a luz bate nele com uma beleza perfeita, e o ilumina como talvez um artista não pudesse ter imaginado a iluminação. Notem como as formas do animal ficam evidenciadas, a musculatura, toda a força de corpo que faz dele uma espécie de avião de vida, posto nos ares.

À vista dessa luz, pergunta-se: este é um céu matutino ou vespertino? A indagação tem certo interesse, porque em função da resposta pode-se interpretar melhor a cena. Esta fica mais bonita imaginada de manhã ou à tarde?

Tenho a impressão de que é o céu da manhã. Há uma vitalidade matutina, uma alegria da natureza toda que desperta, causando a impressão de existir qualquer coisa de um desígnio de Deus realizado, no momento em que o Sol acaba de nascer, as luzes enxotaram as trevas da noite e o dia começa a dominar tudo. Então o Sol sobe, o cavalo e o cavaleiro sobem também. Há, portanto, duas ascensões simultâneas. Dir-se-ia que o cavaleiro está radiante nessa subida de todas as coisas, e de ser o rei da natureza, elevando-se no meio dessa ascensão. É uma coisa bonita.

Alegria de vencer o risco

Outro aspecto a considerar é o risco, porque o salto pode dar errado, e o cavaleiro quebrar a espinha, tornando-se um homem liquidado. Mas ele não está pensando no erro nem no risco. Vê-se que ele previu tudo e sabe perfeitamente o que precisa fazer com o cavalo; possui a alegria de vencer o perigo para o qual já tem a vitória assegurada. Por isso, não tem o medo do risco, mas a embriaguez da vitória.

O cavaleiro tem amarrado ao pescoço um lenço que o vento movimenta. Observem a forma heroica que o lenço toma. A ideia da confrontação com o vento que, por sua vez, faz levantar o lenço como o homem faz erguer o cavalo, o lenço tremulando atrás do cavaleiro; tudo isso dá a impressão do heroísmo, da vitória, da palpitação da glória.

O chapelão dele indica que é um de homem disposto a qualquer aventura.

Observem, agora, a crina do cavalo. Dir-se-ia que ela está tomada por um incêndio frio; a crina suspensa pelo vento parece uma labareda.

Os olhos do cavalo, um pouco arregalados diante do perigo, por ter menos segurança do que aquele que o dirige — o animal só tem o instinto —, entretanto como que está devorando o perigo. Sua boca está meio aberta. Dir-se-ia que ele está com fome de mastigar o risco. Vejam o movimento delicado das patas dianteiras! Ele todo está voando.

Distância psíquica

Em certo sentido, essa foto emoldurada constituiria um quadro que se poderia chamar: “Distância psíquica”(3).

Uma pessoa entendida em equitação disse-me que para o cavalo estar em condições de realizar este salto, exige-se dele equilíbrio, boa musculatura e flexibilidade.

Em termos humanos, flexibilidade quer dizer obediência, ou seja, fazer o que o cavaleiro manda. Equilíbrio poder-se-ia traduzir por equilíbrio nervoso; e musculatura por força. Equilíbrio, força e obediência é a definição do perfeito membro de nosso Movimento.

O cavalo obstinado, com “vontade própria” e que encrenca, é de pouco valor, empurra-se de lado; o de categoria é o que “sabe” obedecer. O cavalo nervoso, agitado, incapaz de fazer o que o seu dono manda não vale nada; mas o que executa as ordens do seu dono, porque tem equilíbrio nervoso e força, este é o cavalo autêntico.

São símbolos que Deus põe na natureza para a formação do homem. v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/11/1990)

Revista Dr Plinio 196 (Julho de 2014)

 

1) Cf. Lusíadas, VII, 14.

2) Região situada no Sul da Espanha.

3) Expressão utilizada por Dr. Plinio para significar uma calma fundamental, temperante, que confere ao homem a capacidade de tomar distância dos acontecimentos que o cercam.

Fátima, profetismo e mudança de mentalidade

A devoção a Nossa Senhora de Fátima se desdobra em duas outras invocações: Nossa Senhora do Carmo e Imaculado Coração de Maria. Assim, naquele conjunto de fatos nos quais se inserem as aparições em Fátima, a Santíssima Virgem quer ser venerada também por meio desses dois títulos. Que relação têm eles com o assunto Fátima?

Nossa Senhora do Carmo está relacionada com o Monte Carmelo e, portanto, com o Profeta Elias e toda a família de almas que, passando por São João Batista e chegando  até São Luís Grignion de Montfort, representam o profetismo dentro da Igreja. Isso representa um convite a que tenhamos o espírito profético.

Outro é o significado de Nossa Senhora apresentar-Se sob o título de Imaculado Coração de Maria. O coração simboliza a mentalidade. Essa devoção supõe a renúncia à  nossa mentalidade revolucionária para assumirmos a participação na mentalidade do Imaculado Coração de Maria. Quer dizer, é o esmagamento do orgulho e da  sensualidade que são as duas raízes da Revolução. Sem dúvida, a Virgem Maria brilhou de um modo perfeito em todas as virtudes, mas aquelas que, a justo título, os  pregadores costumam pôr mais em realce são a humildade e a pureza. Isso corresponde, portanto, a assumir uma mentalidade contrarrevolucionária.

Há, pois, um sentido profundo na jaculatória que costumamos rezar: “Cor Sapientiale et Immaculatum Mariæ, opus tuum fac – Ó Coração Sapiencial e Imaculado de Maria,  realizai a vossa obra”.

O Coração Sapiencial de Maria é a mentalidade cheia de sabedoria da Mãe de Deus, oposta à demência revolucionária. Poder-se-ia dizer: “Coração contrarrevolucionário de  Maria”. “Opus tuum fac” significa que a completa mudança da alma para assumir a mentalidade de Nossa Senhora depende de uma iniciativa d’Ela. Corresponde, portanto, a pedir à Rainha dos corações que faça a obra específica de mudar a mentalidade dos homens.

Então, se quisermos ter uma devoção inteiramente refletida, ponderada a Nossa Senhora de Fátima, devemos desenvolver essa reflexão: Nossa Senhora de Fátima  acompanhada com uma impostação de alma rumo ao profetismo representado na Rainha do Carmo, e ao Sapiencial e Imaculado Coração de Maria enquanto Aquela que age nos corações dando às pessoas a verdadeira mentalidade que devem ter.

A realeza de Nossa Senhora, fato incontestável em todas as épocas da Igreja, veio sendo explicitada cada vez mais a partir de São Luís Grignion de Montfort, até aquele 13 de  julho de 1917, quando Maria anunciou em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. É uma vitória conquistada pela Virgem, é o seu calcanhar que outra vez  esmagará a cabeça da serpente, quebrará o domínio do demônio, e Ela, como triunfadora, implantará seu Reino. Portanto, devemos confiar em que Maria já determinou atender as súplicas de seus filhos contrarrevolucionários, e que Ela, Soberana do universo, pode fazer a Contra-Revolução conquistar, num relance, incontável número de almas. Nossa Senhora Rainha haverá de expulsar desta Terra os revolucionários impenitentes, que não querem atender ao seu apelo, de maneira que um dia Ela possa dizer: “Por fim o meu Coração Imaculado triunfou!”

Plinio Corrêa de Oliveira

Florença e a perfeição das formas

A arte florentina se caracteriza pela perfeição das formas e seu estilo despojado. Embora alguns monumentos de Florença causem respeito e admiração por seu grande valor artístico, a mania do despojado — hoje tão difundida — parece uma censura a Deus que não fez um universo sem ornatos.

 

Em certo sentido, podem-se considerar como sendo três as metrópoles de irradiação do espírito renascentista a partir da Itália: Florença, Veneza e Roma. Cada uma delas teve um papel determinado na difusão desse espírito.

Palácio da Senhoria: exemplar típico do espírito florentino

Do ponto de vista artístico, enquanto Florença prima pela busca na perfeição das formas, Veneza procura realçar a supremacia das cores sobre o desenho. Roma, por sua vez, é a síntese dos vários aspectos da Renascença, onde os Papas procuraram recolher obras-primas de todas as fontes e formas de beleza.

O espírito florentino é muito raciocinante e amigo de ver nas coisas principalmente o aspecto resultante do silogismo. Essa é uma posição quase ascética dos renascentistas, que recusa à imaginação muitas invenções, e ao sentimento um papel muito grande na elaboração do conjunto do pensamento humano. Pelo contrário, vive de cálculos, proporções, perspectivas realmente bem elaborados. Tendência da qual, a meu ver, nasceria o racionalismo.

É o que principalmente notaremos nos edifícios florentinos que analisaremos a seguir.

O palácio dito da Senhoria de Florença foi durante muito tempo a sede do governo de um pequeno Estado, que ocupou na cultura e no pensamento humano um lugar enorme, constituindo uma grande potência do pensamento.

O Palácio da Senhoria de Florença é um exemplar típico do espírito florentino. O que há de cor neste palácio? Do lado de fora, nada. Um tijolo de um aspecto agradável, mas nada mais do que isso. Uma torre bonita com um relógio que lembra o de Siena(1). Notam-se em algumas das janelas ainda certo sentido ogival; outras, porém, constituem meros furos realizados na parede sem sentido de beleza especial nenhum.

A torre não está no meio do edifício. Na ótica moderna, a torre deveria estar bem no centro, segundo um princípio elementar do traçado artístico razoável, desejável. Mas neste palácio a torre fica empurrada um pouco para o lado, e o relógio posto na raiz da torre, quando normalmente o colocaríamos na parte de cima daquelas ameias, para ser visto pelo maior número possível de pessoas.

Há embaixo, nos dois ângulos do edifício, dois ornatos extrínsecos ao palácio, mas que ajudam a ter uma ideia da harmonia total dele. São duas estátuas monumentais, de estatura maior do que a de um homem. Não lembro bem o que as estátuas representam. Elas são de um mármore bem alvo, e contrastam bastante, portanto, com a cor do prédio.

Edifício sério, altivo, lógico

No meu modo de entender, esse edifício é lindo, extraordinário enquanto sério, altivo, lógico em tudo. O modo pelo qual essa torre se ergue altaneira no monumento é formidável.

Mas não se pode negar que ele nos leva a perguntar se não poderia ser um pouco mais coerente em alguns de seus aspectos. Por exemplo, não vejo o objetivo funcional daquelas quatro janelinhas numa primeira fileira; depois uma embaixo da quarta, colocada ali, onde tudo levaria a crer serem necessárias pelo menos algumas das janelas do estilo das três que estão mais ou menos na mesma linha, continuando para a direita. Por que isso é assim? Não se entende.

Por outro lado, um aspecto que exprime, no meu modo de entender, a secura do estilo é a repetição dessa disposição de janelas em baixo. Depois, surgem de repente duas ou três janelinhas muito mais curtas, sem arcos em cima, colocadas ali não se sabe por quê. Por fim, no andar térreo, duas portinhas.

Dir-se-ia que são elementos de feiura. Entretanto, o conjunto agrada enormemente. Por quê? Porque a boa ordem da fachada — indiscutivelmente há uma bela boa ordem aí — faz esquecer os defeitos dessas janelinhas. Ou, pelo contrário, essas janelinhas entram meio subconscientemente no espírito como elementos dessa boa ordem. Sou mais propenso à segunda ideia.

De uma dessas janelas parte um balcão. Não se diria que um palácio monumental comportaria um balcão mais bonito, mais elegante? Entretanto, é esticadinho e sequinho. Não obstante, o palácio é de uma beleza mundialmente elogiada. No mundo inteiro encontram-se estampas, postais, álbuns apresentando esse edifício deste ângulo.

Se o comparamos com certos palácios de Veneza, que parecem descidos de um céu empíreo, das nuvens, notamos uma diferença colossal de psicologias. Esta é a psicologia florentina.

Vê-se ali o emblema de Florença: a flor de lis vermelha que caracteriza, na heráldica, a cidade.

Uma palavra sobre a arcada. São três arcos só, entretanto, pela suavidade deles — eu quase diria pela doçura séria, hierática, agradável dos arcos — a arcada completa e atenua um pouco o que o palácio tem de seco. São três arcos famosos, que constituem uma parte do “décor” da Praça do Palácio da Senhoria. 

Duas atitudes de alma face ao Palácio da Senhoria

Antes de passar adiante, eu queria apenas apanhar uma impressão que me vem de um prédio localizado ao fundo, em um dos lados da arcada. É um edifício comum, provavelmente construído no século XIX. Mas imaginem uma pessoa que tenha um escritório naquele prédio, onde ela exerce uma função muito absorvente. Vamos dizer que, por exemplo, no primeiro andar desse edifício, esteja instalada uma grande agência internacional de notícias, na qual informações chegam a toda hora e que precisam ser difundidas a cada instante. É necessária uma vigilância muito grande, para distinguir as notícias verdadeiras das falsas, da boataria, para condensar e enviá-las para o maior número de pessoas possível, responder às perguntas que vêm, etc.; é um contato com o mundo inteiro que se dá ali.

Quando chega a hora de encerrar o expediente, a agência de notícias fecha e o indivíduo, que esteve ali o dia inteiro em contato com o que há de mais moderno no acontecer do mundo contemporâneo, sai. Ele deixou um automovelzinho qualquer encostado ao Palácio da Senhoria. Chove, ele sai com uma capa de chuva, fumando um cigarrinho, cansado, chega até lá e toma seu automóvel.

Ele está com o pensamento, com o temperamento e todo o modo de ser dele completamente voltado para o mundo contemporâneo. O Palácio da Senhoria, com essa “loggia” e esses três arcos, ele vê todos os dias e não tem nenhuma providência a tomar a respeito disso.

Podemos imaginar esse homem com dois modos de ser distintos: um é o indivíduo atolado no mundo moderno do qual gosta, e que passa perto disso como uma coisa importuna. Se ele olhar para ela, tira o espírito dele dos gonzos do seu ganha-pão para considerações com as quais ele não tem nada o que fazer. Então, o Palácio da Senhoria, para ele, é uma coisa com a qual ou sem a qual o mundo vai tal e qual.

Se, pelo contrário, ele tem um grande espírito, distancia-se um pouco e, apesar da chuva, pensa: “Deixe-me descansar um pouco, olhando essa beleza. Vou tomar um “banho” de alma pensando nisso, contemplando um pouco isso”. Entra no automovelzinho, dá um giro, recua o veículo e, enquanto acaba de fumar o seu cigarro, ele fica olhando pela enésima vez em sua vida o Palácio da Senhoria. Aquilo entranha na alma dele, a qual fica rica de um depósito de arte que é uma coisa incomparável.

Homens como este último são incomparavelmente mais raros do que os do primeiro tipo.

A Ponte Vecchio

Gostaria de chamar a atenção para a cor desse rio. Tem-se a impressão de um cristal colorido, de um verde um pouco dado a certo tipo de musgo, que se tornou líquido e está correndo lentamente. Trata-se do famoso Rio Arno de Florença, de águas lindas, e em cujas margens se sucederam fatos históricos extraordinários.

Sobre ele passa a conhecidíssima Ponte Vecchio. Para compreender a constituição dessa ponte, precisamos nos reportar às condições militares da cidade de Florença na Idade Média, com muralhas de todos os lados para se defender contra as agressões de fora. Naturalmente, havia uma grande vantagem para os florentinos em morarem dentro do espaço protegido pelas muralhas, porque quando havia cercos, a família, com seus pertences, estava a salvo do incêndio e do saque dos adversários que, muitas vezes, a primeira coisa que fazem quando investem sobre uma cidade é arrasar as construções localizadas do lado de fora e tocar fogo, para as muralhas ficarem atingíveis de alto a baixo.

Acontece que, sendo muito caro aumentar as muralhas, os habitantes se espremiam dentro da cidade. Assim, por falta de lugar onde colocar as pessoas, certas casas foram construídas em cima da ponte. E algumas até suspensas, meio com base na ponte, e meio no ar, com uma suspensão muito sólida, sem qualquer perigo de ruir. Compreendo que isso deixasse apreensivo a algum de nossos contemporâneos. Eu, entretanto, dormiria ali completamente despreocupado.

Vemos, assim, de um lado e de outro, ao longo da ponte, prédios suspensos por meio de apoios fixados na própria ponte, o que indica uma falta de espaço tremenda! No andar térreo funciona algum comércio e, em cima, habitações.

O “Lungarno degli Archibusieri”

Lembro-me de que, em uma das vezes que estive em Florença, jantei em um restaurante instalado sobre um tablado posto sobre estacas no Rio Arno. E exatamente no lugar onde eu estava havia uma espécie de fresta na madeira — pedacinhos de madeira tinham caído no rio —, e pela fresta se via passar o Arno. Este é tão bonito, que para mim a atração do jantar foi ficar o tempo todo olhando pela fresta.

Eu me recordo de que nos hospedamos em um hotel que era uma antiga torre talvez medieval, adaptada inteiramente para hotel, e dando para uma avenida ao longo do Arno, que se chamava “Lungarno degli Archibusieri”. O arcabuz é uma arma de fogo do período inicial desse tipo de armas ainda na Renascença. O arcabuzeiro era o soldado que portava essa arma. “Lungarno” quer dizer “ao longo do Arno”, e as várias partes ao longo do Arno chamavam-se “Lungarno” disso, “Lungarno” daquilo; o local onde eu estava era “Lungarno degli Archibusieri”, uma verdadeira beleza. O nome é lindo e, estando deitado na torre, tem-se a impressão de ouvir a marcha cadenciada dos arcabuzeiros que caminhavam para alguma guerra de conquista de um terreninho com quatro ou cinco galinheiros, que iam arrancar da cidade vizinha.

O comércio existente no andar térreo dos prédios dessa ponte é riquíssimo, magnífico. Creio já ter contado que, numa das vezes em que estive aí, eu procurava uma lembrança para Dr. João Paulo e Da. Lucília e entrei numa loja de antiguidades, no andar térreo. Entrei um pouco para ver a loja e, entre os objetos expostos, observei um par de castiçais para se colocar em criado-mudo. Precisamente faltava arranjar uma peça bonita desse gênero para o quarto deles. Perguntei quanto custava. Era um preço fabuloso. Aí prestei mais atenção; os castiçais tinham me encantado, mas eu não tinha feito o raciocínio muito simples de que tudo que encanta é caro e, portanto, eu deveria desconfiar do preço. Mas era um cristal com tais e quais qualidades, cujo preço eu não podia pagar. Os castiçais, em vez de irem para a Rua Alagoas, 350, onde eu residia com meus pais, ficaram na Ponte Vecchio não sei por quanto tempo. Talvez ainda estejam lá…   

(Continua)

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1988)

 

1) Ver Revista Dr. Plinio n. 219, p. 32.

 

Imagem épica do Criador

Que maravilhoso conglomerado de torres! Quanta força nessas torres, quanta solidez nesse conglomerado! Que harmonia misteriosa: uma delicadeza,  contrastando
agradavelmente com o que têm de forte, de vigoroso, de guerreiro!

 

Em geral, uma pessoa imbuída de elevados sentimentos encontra especial agrado na admiração por algo que seja verdadeiramente admirável. Ela possui o que podemos chamar de espírito épico, ou seja, um espírito propenso a desejar e a se entusiasmar por tudo o que é maravilhoso.

Uma alma assim, impulsionada pelas graças que recebeu no batismo, e por aquelas que Deus derrama sobre todo católico, tende a ver as alturas épicas do pensamento. Mais ainda, as alturas épicas da ordem do universo, as alturas épicas da história, as alturas épicas quão mais sublimes e mais extraordinárias da Religião Católica e da Civilização Cristã.

Imaginemos, à guisa de exemplificação, que essa pessoa seja colocada diante de uma das mais belas construções do século XVI: o castelo de Chambord, no Vale do Loire, França. Contemplando o magnífico monumento exposto a seus olhos, tomar-se-ia de entusiasmada admiração.

Que maravilhoso conglomerado de torres! Quanta força nessas torres, quanta solidez nesse conglomerado! Que harmonia misteriosa naquilo que faz com que, ao mesmo tempo, elas pareçam estar colocadas um pouco ao acaso, mas deem, no seu conjunto, uma sensação de delicadeza, contrastando agradavelmente com o que têm de forte, de vigoroso, de guerreiro!

Há qualquer coisa de nobre nesses tetos azulados, que descem tão harmonicamente até a parte de cantaria. Há algo de robusto nessas pedras atarrachadas, agarradas ao chão de tal maneira que parecem dizer: “Quem quiser derrubar-me se espatifa, quem quiser arrancar-me do solo tem que tirar o mundo dos seus próprios gonzos, porque eu sou uma torre do castelo de Chambord e ninguém me leva daqui”.

Dessas análises ainda se poderia subir mais alto: como é bela a conexão entre a força e a delicadeza, entre o planejado do castelo e o aparente espontâneo da disposição daquelas torres! Como é belo, portanto, o ver juntas qualidades antitéticas.

E por que oferecem uma beleza especial as qualidades antitéticas juntas?

Porque o princípio de toda beleza é a unidade na variedade. E nada de mais variado do que a antítese completa entre a delicadeza e a força, e nada de mais belo do que ver os elementos dessa antítese se reunirem numa só harmonia. A unidade na variedade é bela porque é a melhor imagem de Deus na criação natural. É um dos princípios de perfeição e excelência que o Altíssimo pôs no universo. É uma das exigências da alma humana. Esta tende ao que é uno e bem-ordenado, mas também ao que é vário, diverso e movimentado.

Ora, nesse castelo há a unidade na variedade, e minha alma ali repousa e ao mesmo tempo pensa em Deus.

Sim, considerando os esplendores de Chambord, poder-se-ia fazer uma meditação que chegasse até Nosso Senhor. Admirando-os, vem-nos ao espírito este pensamento: “Que beleza, que elegância, que distinção, que nobreza, que grandeza, que “raffinnement”! Como isso nunca se conseguiu, a não ser na Civilização Cristã! Como, ó Senhor Jesus Cristo, vosso sangue é fecundo de toda graça e de todo bem, de maneira que mil e quinhentos anos depois de vossa morte, ainda nasce essa flor de beleza, ainda desabrocha esse encanto de civilização, porque ela é cristã nas suas raízes!

“Ó Senhor Jesus Cristo, Vós sois a fonte de toda graça, de toda glória e de toda beleza! Eu Vos adoro!”

Gloriosa Santidade

A Providência concedeu a Nossa Senhora a glória de se encontrar no píncaro da Criação, tendo acima d’Ela apenas o Homem-Deus, seu adorável Filho. Quem recebesse a suprema graça de comtemplá-La, teria, num só golpe de vista, a noção de toda a sabedoria e santidade da Igreja, da beleza de toda a sua liturgia em todas as épocas, do esplendor de todos os Santos, do talento de todos os doutores, do heroísmo de todos os cruzados e de todos os mártires. Porque não há virtude, qualidade e beleza que a Igreja tenha engendrado, e que não brilhe completamente em Nossa Senhora, com fulgor extraordinário.

Por isso, nosso louvor à Santíssima Virgem, além de ser um cântico à grandeza e bondade d’Ela, deve ser um reconhecimento efetivo dessa bondado e dessa grandeza, traduzido em atos concretos: ou seja, na imitação de todas as virtudes e predicados que Ela, numa perfeita correspondência à graça, possuiu e praticou no mais alto grau.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

Confiança

“A confiança é uma espécie de fina ponta da esperança. Quando esperamos alguma coisa, temos alegria e a convicção de que algo de bom nos virá. É essa confiança que dá força a nossas almas e as fazem caminhar para a frente.”

Maravilhas que fazem sonhar…

Quando uma alma é reta e inocente, ela deixa falar em seu interior a apetência que tem de uma ordem de coisas inteiramente conforme com os planos de Deus para a Criação, de algo que havia no Paraíso em que todos viveríamos, não fosse a queda de nossos primeiros pais. Se tomássemos uma pessoa nesse estado de espírito, e a ela disséssemos: “Olhe, o Céu é assim, como o que você deseja no mais íntimo de seu ser”, não estranharia que tal pessoa sentisse intensa vontade de partir logo para o Éden celeste, ao encontro das maravilhas que tanto procura.

Tenho razões para afirmar que esse estado de espírito foi o ponto de partida da Idade Média. Que esta, na medida em que rezou, lutou, ou construiu, o fez orientada para aquele fim mais alto, movida por aquilo que vem expresso na Ladainha de Todos  os Santos:  ut mentes  nostras ad caelestia desideria erigas para que Vos digneis elevar as nossas almas a desejar as coisas do Céu.

Assim, poder-se-ia comparar a alma medieval a uma ogiva, séria, sólida, pensativa, levando tudo para cima. Ao mesmo tempo calma e reflexiva, pesando e analisando tudo, disposta tanto a se recolher, dizendo: “Quanta coisa existe de bom neste mundo”, e a subir para maiores considerações; ou então, inflexível na sua retidão, disposta a combater o que não seja conforme à verdade, ao bem e ao belo. Porém, com serenidade e isenção de ânimo, sem agitações nem trepidações.

Almas assim engendraram as grandes maravilhas da Idade Média.

Por exemplo, Notre-Dame de Paris. Uma catedral toda feita de seriedade, gravidade, estabilidade, pensamento, grandes considerações das linhas gerais, mil pormenores e detalhes harmônicos, panorama… e as torres que se lançam para o céu!

Tão magnificamente para o céu, que nenhum artista se atreveu a completá-las. Porque só quem as planejou tem alma para lhes conferir o arremate final. E as torres estão ali, ao mesmo tempo tragicamente incompletas, mas fazendo cada observador imaginar no subconsciente uma torre ideal, segundo o seu próprio feitio. Dir-se-ia que elas terminam num pontilhado, de acordo com o espírito de quem as contempla. De maneira que se nos dissessem: “Olhe, sabe de uma novidade!? Completaram as torres de Notre-Dame!”, tomaríamos um susto: “Será que fizeram errado!?”

Ou seja, de modo diverso desse pontilhado que, subconscientemente, cada um constrói no seu interior, olhando aqueles dois magníficos fragmentos de torre que nos convidam para o sonho. Porque, a partir daquele ponto, se sonha…

*

O mesmo sonho para o qual nos atrai a Sainte-Chapelle, do rei São Luís. Uma bonbonniere feita para ter almas dentro e não bombons. É o que pode haver de magnífico e encantador.

O espírito que a concebeu, se pudesse construir um edifício todo de cristal, sentir-se-ia realizado. Construiu um feito de vitrais!

Agrada-me imaginar a ação da graça sobre a alma desse artífice. Até então, ele apenas manuseava vidros comuns, de cores também comuns. Em determinado momento, ele sente no seu íntimo a inspiração vinda do alto de procurar uma cor ideal, mais bela do que todas as outras. Então compõe uma cor de sonho, ou toda uma policromia de sonho, para colorir, não só um vitral, mas um mundo, porque nos vitrais e rosáceas se representam batalhas, trabalhos, cenas do Antigo Testamento, episódios do Novo Testamento, enfim, a vida dos homens enquanto relacionada com a Igreja e a religião.

À medida que ele vai colorindo, em seu espírito vão brotando novas idéias. O vitral seguinte que ele fará, será precedido por uma crítica ao vitral anterior: “Atingiu inteiramente esse desejo de perfeição que você tem, ou alguma coisa está faltando?”

E a história dos seus vitrais passa a ser a dos vôos cada vez mais altos, até chegar a um ponto em que o homem diga: “Aqui não é possível ir mais longe”. Ele instala o vitral na parede. De repente lhe vem ao espírito a idéia de uma parede feita toda de vitral. Nasceu a Sainte-Chapelle!

*

Agora, para termos um pouco a idéia do que foi a civilização cristã medieval, precisamos imaginar uma noite na Paris do século XIII. A cidade dorme. Na Sainte-Chapelle, em Notre-Dame, o Santíssimo Sacramento aguarda no interior do sacrário a adoração dos homens. No Louvre de São Luís, repousa um rei que é santo, e que ordena com santidade todas as coisas do seu reino.

E assim, a história da França flui gloriosa e tranqüilamente, como flui o rio Sena aos pés do palácio do piedoso monarca.

Luís XVII poderia ter sido um novo Carlos Magno

Pertencente às duas mais importantes dinastias do Ocidente, Luís XVII possuía todas as graças com que Deus cumulou os Bourbons e a Casa d’Áustria para realizarem sua obra providencial na História. Mas os revolucionários de 1789 descarregaram contra ele uma ação antieducativa brutal.

 

Devo comentar o resumo de um trecho do livro “O menino Luís XVII e seu mistério”, de Madeleine Louise de Sion(1).

Assimilou com facilidade os princípios revolucionários…

Sem dúvida alguma, entre os crimes perpetrados pela Revolução contra a família real, o aviltamento do pequeno Delfim foi um dos maiores.

Arrancada aos sete anos de idade dos cuidados de sua família e entregue ao sapateiro Simão, a criança embruteceu-se totalmente. Quando a 3 de julho de 1793, às onze horas da manhã, Luís Charles, o futuro Luís XVII, encontrou-se em casa de seu novo pai, chorou durante quase três dias. Depois, percebendo que com isso nada obtinha e acostumado a sentir-se centro das atenções, enxugou as lágrimas e iniciou vida nova. De início, resistindo ao ambiente, mas depois nele integrando-se dolorosamente.

A missão de Simão era inculcar-lhe princípios e lhe ensinar modos do povo. Era preciso fazê-lo perder a ideia de sua posição e que ele esquecesse sua realeza. Simão iniciou seu pupilo nas “belezas” do estilo de “Le Père Duchesne”, jornal obsceno dirigido por Hébert, assim como no palavreado grosseiro dos moleques de rua. Nada de ortografia ou de fábulas, ou histórias variadas. O descendente de Luís XVI aprenderia os direitos do homem e cantaria as canções do povo.

Testemunhas inequívocas atestaram o êxito dessa missão. A criança assimilava tudo com grande facilidade. O jovem príncipe perdeu gradativamente os vestígios de sua primeira educação, afogada por atitudes vulgares que ele mesmo aceitou como sendo muito masculinas. Percebeu também que sua linguagem de soldado agradava aos cidadãos, dos quais recebia elogios e aprovação por cada palavra de baixo calão que pronunciava. Aqueles homens sentiam-se radiantes por verem o filho da “orgulhosa austríaca” semelhante a um pequeno vagabundo.

Falso acusador da própria mãe

Três testemunhos – o de um cidadão, o de Madame Royale e de Madame Elisabeth – nos mostram a que ponto chegou a pobre criança.

Um revolucionário com tendências artísticas e certa cultura relata que uma vez brincava com o Delfim, enquanto no aposento de cima, onde se supunham estar Maria Antonieta e suas parentas, ouviam-se ruídos como se arrastassem cadeiras. Num movimento de impaciência gritou a criança: “Será que essas… – aqui utilizou uma palavra obscena – ainda não foram guilhotinadas?” Retirou-se sem querer ouvir o resto.

Madame Royale afirma, por sua vez, que ouvira o irmão cantar a Carmagnole, a ária da Marseillaise e mil outros horrores; que Simão lhe colocava um gorro vermelho na cabeça e lhe ensinava a pronunciar juramentos afrontosos contra Deus, sua família e os aristocratas. O sapateiro o fazia comer e beber muito. Ele engordou demais e cresceu pouco. Finalmente, durante as horríveis acusações feitas pelos revolucionários à Rainha Maria Antonieta, o príncipe tomou partido contra sua mãe e contra sua irmã.

Enquanto Madame Royale negava as infâmias, o Delfim as afirmava verdadeiras. Quando chegou a vez de interrogar Madame Elisabeth, ela respondeu a tudo com sua costumeira dignidade e prudência. Mas ao ver seu sobrinho desmenti-la e acusar a mãe, não conteve um grito de horror: “Oh, que monstro!”

Nos acontecimentos, o aspecto político é sempre secundário

A ficha apresenta um desses episódios nos quais, por assim dizer, o espírito da Revolução Francesa pode ser tocado com a mão, de maneira que vale a pena ser pormenorizadamente estudado por nós.

Em geral, os historiadores apresentam a Revolução Francesa como um acontecimento preponderantemente político. Contudo, seria uma coisa para se perguntar: Há episódio predominantemente político? Todo acontecimento político, por sua própria natureza, seria consequência, efeito de mudanças de ordem religiosa, moral e filosófica do espírito dos povos. Assim, num acontecimento, o aspecto político é sempre secundário, enquanto o pressuposto religioso, filosófico ou moral constitui o aspecto principal.

Eu sou muito dessa segunda opinião e vejo na Revolução Francesa não um episódio preponderantemente político, mas um reflexo político de um acontecimento de ordem moral, religiosa e filosófica, que chega ao seu auge com a explosão política da Revolução.

Em outros termos, podemos medir o alcance da Revolução com a modificação da mentalidade da alma humana, analisando, primeiro, quem era Luís XVII e depois considerando o que nós gostaríamos de fazer dele e o que teriam gosto de fazer dele os revolucionários. E nesse texto o contraste dos dois espíritos, como também o profundo desacordo de ambas as causas – a da Revolução e a da Contra-Revolução –, estão muito claramente em evidência.

Duas mais importantes dinastias do Ocidente

Luís XVII era o segundo filho homem do Rei Luís XVI. Este monarca teve de Maria Antonieta, Arquiduquesa d’Áustria e Lorena, dois filhos varões. O primeiro morreu antes da Revolução Francesa, e esse segundo era criança quando a Revolução arrebentou. Tornara-se, portanto, o herdeiro do trono e, como tal, deveria usar o título de Luís XVII, uma vez que se estava estabelecendo o hábito de todos os reis da França, a partir de Luís XIII, usarem o nome de São Luís IX.

Nessa narração vemos Luís, o menino, educado na corte de Versailles e representando, a vários títulos, uma série de preciosos requintes. Ele é, em primeiro lugar, de um modo ou de outro, o herdeiro de todos os reis da Europa. Não há, a bem dizer, dinastia importante da qual ele não tivesse o sangue nas veias. Mais proximamente, ele possuía o sangue da Casa de Bourbon, correspondente à de São Luís, e da Casa d’Áustria, Habsburg, as duas mais importantes dinastias do Ocidente. Com esse sangue, ele tinha todos os carismas, todas as graças com que a Providência cumulou essas duas famílias para realizarem sua obra providencial na História.

Não que esses carismas se transmitam com a carne e o sangue, mas a Providência os pode manter fixos numa determinada família. Assim, todos eles se concentravam sobre esse menino.

Além de ele ser o ponto de encontro de tantas graças e bênçãos de Deus, era uma pessoa preparada por essa lei misteriosa da hereditariedade que transmite de pais para filhos não apenas caracteres estritamente biológicos, mas disposições de alma, circunstâncias temperamentais, enfim, um mundo de propriedades.

Ele era preparado, no plano natural, para ser o ponto de encontro de dons naturais importantes que essas famílias possuíam. Esses dons tinham sido trabalhados, desde o berço, por um dos ambientes mais requintadamente culturais que a História tenha conhecido, o ambiente do castelo de Versailles, até o momento em que o espandongou a Revolução Francesa. Portanto, esse menino era uma obra-prima à luz da Fé, da Sociologia, da História.

A santidade de São Luís, a majestade de Luís XIV, a graça de Luís XV, a força de alma dos Bourbons

O que nós quereríamos fazer desse menino?

Adão também era uma obra-prima saída das mãos de Deus quando foi criado. Ele também recebeu da Providência dons sobrenaturais, preternaturais e naturais excelentes. Mas não basta ao homem ter recebido dons magníficos ao nascer. Pode-se até dizer que o principal não está nisso, mas no aproveitamento que ele dê a esses dons.

Nós quiséramos que todo esse heroísmo, toda essa glória, todo esse requinte, toda essa delicadeza, toda essa educação fossem aproveitados de modo exímio por Luís XVII, de maneira que ele desse num herói da Civilização Cristã, num santo, num homem inteiramente entregue ao serviço de Deus e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, um rei perfeito, talvez um outro Carlos Magno.

Se a Europa tivesse tido nessa ocasião um outro Carlos Magno, seria possível frear a Revolução que subia aos borbotões, como Carlos Magno conteve – tarefa, aliás, menos difícil – as invasões dos bárbaros desencadeadas no continente europeu, no tempo dele.

Teríamos querido, portanto, um homem que reunisse em si a santidade de São Luís, a majestade de Luís XIV, a graça de Luís XV, a força de alma dos Bourbons. Então teríamos tido um homem providencial, um desses varões para quem se olhasse com entusiasmo e se pudesse dizer: Como ele é fora do comum, extraordinário, não tem igual! Como nos alegra sermos homens, pensando que o gênero humano pode dar homens assim! Como nós nos alegramos de ser católicos, pensando que a Santa Igreja Católica Apostólica Romana pode produzir um homem assim!

Nós participaríamos de sua grandeza precisamente contemplando-a e nos sentindo inferiores a ele.

Impressão de ter caído vivo no inferno

Os revolucionários o que fazem? Exatamente o oposto. Eles tomam essa joia preparada pela Providência, pela História, pelos séculos, pela cultura, e acanalham o menino o quanto podem, debaixo de todos os pontos de vista. Isolam-no, o circunscrevem, o maltratam. Sobre a alma débil dessa criança – que carregará diante de Deus uma responsabilidade conhecida somente por Ele, e que tanto pode ser pequena como enorme – eles descarregam uma ação antieducativa brutal.

Podemos imaginar qual é a sensação de um menino que sai de Versailles, do centro de todos os afetos, de todos os mimos, de todas as atenções, de todo esplendor, e de repente passa, numa transição cronologicamente muito rápida, para um cárcere onde vive sozinho, permanecendo durante muito tempo como um murado vivo numa sala escura, sem contato com ninguém, apenas um guichê por onde lhe passam comida. Um período em que ele tomava sovas noturnas, quando entravam pessoas durante a noite e o brutalizavam, maltratavam. Imaginem como é a estrutura de alma de uma criança submetida a todos esses terrores, o choque de quem vem de Versailles. O que isso pode ter sido? O tombo, a estranheza, a impressão de ter caído vivo no inferno! Podemos ter ideia do que eram esses anos em que a criança caía de cansaço e imergia no sono já no pavor da surra que deveria vir durante a noite? Os sustos ao acordar durante a noite? Surra brutal! E depois, o que era esse resto de sono, esse resto de noite? Como tudo isso deveria ser um tormento!

Através disso, realiza-se a degenerescência desse caráter. O menino começa a perceber que é bem tratado quando ele diz palavrões, usa um vocabulário novo que não lhe tinham ensinado até então, quando manifesta um tipo de pseudo-varonilidade que é a “varonilidade” revolucionária.

Os revolucionários opunham muito à delicadeza do nobre do “Ancien Régime” a violência brutal popular nascida na Revolução Francesa. Então estimulavam o menino a dizer palavras porcas, a falar de um modo cafajeste, a ostentar sentimentos contrários à família real, a injuriar o próprio pai e a própria mãe.

Resultado: a degeneração moral, que é a mais importante de todas, vai crescendo, acentuada pelo efeito do álcool. Eles embriagavam o menino e ensinavam-no a cantar canções revolucionárias.

Oposição de dois mundos 

Por fim, chegaram a dar ao menino uma superalimentação que lhe prejudicou a própria estrutura física: ele engordou enormemente e cresceu pouco. Um verdadeiro monstrengo.

Quer dizer, eles modelaram aquela criança à imagem e semelhança do espírito deles. Era aquele o símbolo da humanidade nova cuja vinda eles desejavam. Quando vemos um hippie andando pela rua, nos perguntamos: tirados os aspectos fisicamente doentios, que diferença há entre um hippie e Luís XVII? Eles não modelaram nessa criança a prefigura do homem que a Revolução, séculos depois, haveria de produzir como um padrão para a humanidade inteira? Foi precisamente isso que eles fizeram.

Logo, era um mundo novo que surgia à imagem e à semelhança dele: o menino revoltado contra os pais, obsceno, espontâneo, sem controle, sem censura, sem caráter, sem fidelidade a nenhum princípio, oportunista, procurando a popularidade.

Alguém dirá: “Pobre menino! Ele teria tanta culpa quanto o senhor está dizendo?”

Eu não estou tratando do fenômeno culpa. Foi feita ali uma escultura pedagógica, criado um modelo. Esse modelo está andando pelas ruas. O que há de mais importante a respeito de Luís XVII é o fato de ele ser, ao mesmo tempo, alguém que encerra uma série e inicia outra. Nesse contraste entre o menino que ele era em Versailles e aquele como a Revolução modelou vai uma oposição de dois mundos, de dois modos de ver o homem, a vida, o universo.

Para resumir: de um lado, o modo católico que crê em Deus, embora com possíveis deformações de uma época de decadência; de outro, um modo anticatólico que nega completamente a Deus e não quer o menino feito à imagem e semelhança d’Ele, mas à imagem e semelhança dos vícios, das taras, de tudo aquilo quanto há de mais repugnante na natureza humana.

Ofensiva do monstruoso contra o belo, da desordem contra a ordem

Isso se espelha, aliás, em toda a Revolução Francesa. Ela foi uma ofensiva do monstruoso contra o belo, da desordem contra a ordem. Quando vemos, por exemplo, a mudança pela qual passaram as modas por ocasião da Revolução, notamos ter sido exatamente o fim de uma era de modas requintadas para o estabelecimento de uma época de modas ridículas, grotescas.

Por isso, durante a Revolução a moda feminina, como também a masculina, foram quase tão ridículas quanto hoje em dia. Olha que não é dizer pouco! As maneiras baixaram, se degradaram. Se estudamos o modo pelo qual a vida social se estabeleceu depois da Revolução, vemos que é uma vida social indignamente rebaixada em relação à anterior.

Se analisamos a literatura, a música, a arquitetura e outras artes, notamos como tudo leva um tombo. Esse tombo é rumo ao sapateiro Simão e ao aspecto conferido por ele a Luís XVII. Nem tudo foi configurado à maneira desses modelos, mas a distância de todas as coisas em relação a eles diminuiu, e de lá para cá essa distância não tem feito senão decrescer cada vez mais. Porque a Revolução vai aos poucos diminuindo ou eliminando as distâncias existentes entre o estado da humanidade atual e a ordem de coisas para onde ela quer levar o gênero humano.

Dou-lhes um exemplo característico. Lembro-me de que, quando menino, eu ia fazer meus exames no ginásio do Estado, onde havia um funcionário o qual era objeto do riso geral de todos os alunos. Tratava-se de um sujeito completamente calvo, sem um fio de cabelo na cabeça, sem sobrancelhas, sem barba nem bigode. O pessoal, então, o chamava de “belos cabelos”. E o funcionário, ainda moço, mas evidentemente devorado por uma moléstia repugnante, cuja cura, naquele tempo, ainda não era bem conhecida, aceitava esse apodo e tocava sua vida. Era uma coisa que passava por monstruosa.

Ora, em nossos dias há toda uma corrente nova em matéria de moda que apresenta como a última modernidade a pessoa raspar completamente o cabelo, a sobrancelha, a barba, sob o pretexto de ser muito mais prático, higiênico e despretensioso.

Uma pessoa de minha família que frequenta certas rodas sociais me disse ter ouvido o seguinte elogio feito por várias pessoas: “De fato, uma vez que seja adotado esse costume, a higiene lucra muito. Depois, acaba com essa cabelama na cabeça e com essa história dessas pastas e pomadas que se põem. Ademais, a pessoa se mostra como é, com toda a sinceridade, sem os disfarces de um penteado”.

É a marcha para o monstruoso, o hediondo, para uma forma de barbárie pior do que a dos antigos bárbaros. Porque na barbárie do civilizado que se faz bárbaro, achando que assim é bom, há um toque de pecado contra o Espírito Santo verdadeiramente abjeto. É isso o que nós vemos representado nessa ficha.

Atitude sublime de Maria Antonieta

A cena final é o encontro do menino com Maria Antonieta. A rainha deposta está sendo julgada por um tribunal revolucionário. Então, acusam-na de ser uma mulher depravada, adúltera, uma messalina. Entretanto as fileiras revolucionárias só tinham messalinas, porque aquelas mulheres que acompanhavam os exércitos revolucionários – segundo os dizeres de todos os historiadores – eram mulheres públicas.

Pois bem, Maria Antonieta é acusada disso e de ter pecado com o próprio filho. Ela nega. Entra o menino de tamanco, bêbado, vestido com um gorro vermelho e uma roupa com as cores da República. Interrogado pelo juiz, a criança, mentindo, confirma a falsa acusação.

Não se poderia fazer sofrer mais uma mulher que já estava sendo destinada para o cadafalso. Ela, entretanto, teve uma atitude sublime: não disse uma palavra contra seu filho. Dos lábios de sua cunhada que estava presente – tia, portanto, do menino – escapou este brado: “Oh, que monstro!” Dos lábios de Maria Antonieta, porém, não saiu uma palavra sequer contra o filho, nem nessa ocasião. Ela apenas voltou-se para a sala cheia de mulheres e disse: “Eu apelo a todas as mães de França, especialmente as aqui presentes, para dizerem se acreditam nessa acusação”. Todas as mulheres começaram a aplaudir a Rainha. O juiz mandou retirar as pessoas do recinto, e o processo continuou na solidão. Era a época da “liberdade” que começava…

Creio não ser necessário dizer mais do que isso. São dois mundos: um que acaba, com as suas últimas luzes, e o outro que entra com sua careta hedionda.

Com essas considerações nós compreenderemos melhor como as mil pequenas transformações que a todo o momento se dão na humanidade não são comuns. Trata-se de transformações que indicam sempre um passo nessa marcha para o abismo, a hediondez, a completa ausência de moralidade, de Fé, de cultura e de civilização.

Então, as menores coisas: um modo monstruoso de se arranjar ou de se desarranjar, uma nova maneira de se tratarem, um novo estilo de dançar, inclusive um novo formato de garrafa, em tudo isso entra sempre uma influência a mais dessa força histórica que conduz o mundo para a hediondez.

Qual é essa força? No fundo, é a força do demônio, porque excede a maldade humana ser assim. O homem é muito ruim, mas não tanto que chegue até lá. Essa marcha prova a existência do demônio. Cada uma dessas transformações é uma ascensão nessa posse do demônio sobre nós, sobre o mundo. É, portanto, algo ainda da claridade da Idade Média que vai nos deixando, nos abandonando. E tudo o que nos cerca é um contínuo morrer da luz e um aumento das trevas.             v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 21/4/1970)

Revista Dr Plinio 232 (Julho de 2017)

 

1) Paris: Ed. Beauchesne et ses fils, 1957.

 

Os Anjos no Céu empíreo e durante o Juízo Final

Se no Inferno os demônios adquirem formas horrendas para atormentar os precitos, no Céu empíreo os Anjos tomam figuras lindíssimas para aumentar o gáudio dos bem-aventurados. No fim do mundo, os justos ouvirão harmonias perfeitas, sentirão perfumes celestiais, verão cores inimagináveis, sinais indicadores dos Anjos que descerão à Terra como um exército em ordem de batalha.

 

São Tomás nos diz que Nosso Senhor, na sua bondade infinita, apesar de condenar os réprobos às penas terríveis do Inferno, ainda lhes diminuiu algo. O que eles sofrem não é o que mereceriam padecer. Mas se está na bondade de Deus ter dispensado os precitos de algo das penas que eles mereciam, é conforme essa bondade, a “fortiori”, pagar os justos com mais do que eles merecem.

Figuras lindíssimas formadas pelos Anjos

De maneira que se do Inferno, que é terrível, Deus tirou algo, sobretudo Ele acrescentou ao Céu coisas completamente imprevistas, dando-nos uma ideia do Paraíso que nos deixa verdadeiramente surpresos. Fiquei pasmo ao ler um texto a respeito dos bem-aventurados, tirado do Cornélio a Lápide(1). Achei lindíssimo, mas nunca ouvi dizer isso em minha vida.

Esse exegeta flamengo, com sua grande autoridade, desenvolve a ideia de que, para o gáudio dos bem-aventurados, os Anjos, utilizando-se do ar e de outras matérias do Céu empíreo, formam figuras lindíssimas que eles tornam sensíveis aos homens.

De maneira que eternamente os homens ficam olhando essas figuras que os Anjos vão desenvolvendo para cada um, segundo seu próprio feitio, sua santidade, seu “thau”(2) ou sua luz primordial(3), e se regalam com elas.

Isso se dá no Céu empíreo, considerado enquanto um lugar material onde estarão os corpos dos bem-aventurados.

As razões apresentadas por Cornélio a Lápide para provar isso são, elas mesmas, tão bonitas, nobres e elevadas que me pareceu oportuno comentá-las.

A primeira razão é que os Anjos devem tomar, de vez em quando, essas formas ou até fazer corpos nos quais eles entrem, não para viver como o homem existe dentro de seu próprio corpo, mas como fez São Rafael ao animar um boneco que acompanhou Tobias. Assim também eles devem animar corpos para se comunicar com os homens, podendo dessa maneira falar-lhes de viva voz e estar acessíveis por meio de todos os sentidos humanos.

O homem saberá que naquilo não há um embuste, uma mentira, mas sim a expressão de um estado de alma.

Para explicar o que os homens devem achar disso, cito uma comparação retirada do próprio Cornélio a Lápide.

Os Anjos amam, adoram a Deus Nosso Senhor com todo o seu ser. Ora, se adoram com todo o seu ser, eles devem usar de todos os seus meios para dar glória a Deus. Ora, se um meio é formar essas figuras eles devem fazê-las.

Assim, ainda que não proporcionasse deleite aos homens, os Anjos deveriam tomar essas figuras para dar glória a Deus. E Cornélio faz a comparação:

Assim como um homem, quando toca um instrumento, não mente dando a entender que aquela é sua voz, ou que aquele é o efeito de seus dedos, mas o outro que ouve já sabe que é um instrumento que o homem usa para tornar mais expressivo algo que ele tem em si; assim também os homens, vendo essas figuras feitas pelos Anjos, saberão que o Anjo não pretende que nós tomemos aquilo como uma realidade total, mas como um instrumento de que ele se serve para se exprimir.

Então, há uma espécie de concerto permanente e eterno dos Anjos no Céu para os nossos sentidos. Para dar glória a Deus, antes de tudo, e para nos regalar.

Um convite para a santificação

Vemos assim como tudo quanto se possa imaginar de belezas materiais do Céu empíreo é nada em comparação com a aparição dos Anjos. Porque os Anjos são muito mais nobres do que a matéria. Portanto, o regalo, a alegria que eles devem dar é muito maior do que o gáudio material. Logo, a melhor das alegrias dos homens no Céu empíreo vai ser esse contato com os Anjos.

A amizade e a intimíssima união e comunicação que haverá entre os Anjos e os homens.

Quer dizer, haverá uma grande intimidade no Céu entre nós e os Anjos, tão superiores a nós por natureza, mas que aceitam nas suas fileiras os homens e têm com estes uma intimidade como possuiriam com os anjos que caíram no Inferno. E eles, portanto, se interpenetram, se co-alegram com os homens. E para os homens os conhecerem inteiramente, eles querem ser entendidos não apenas de alma a alma. Como o homem é feito de alma e corpo, eles desejam que também o corpo conheça o Anjo. Então tomam corpo para contar ao corpo como eles são.

Parece-me simplesmente deslumbrante imaginar o Céu assim!

Continua o resumo do texto de Cornélio a Lápide:

Como os homens que se salvam terão levado, na Terra, uma vida angélica, ao menos no período que lhes determinou a salvação, os Anjos os amarão especialmente por causa disso. E o gáudio que os vários sentidos vão ter em contato com essas figuras despertadas pelos Anjos estará na proporção do domínio que o homem na Terra tenha tido sobre seus próprios sentidos. De maneira que o homem dominou muito sua vista e não só não olhou para coisas imorais e lúbricas, mas ele nunca olhou por mera curiosidade para nada, nunca andou com os olhos tontamente de um lado para outro, e se fez deles um uso inteiramente racional, virtuoso, o homem contemplará muito melhor os Anjos do que veria se ele não tivesse feito o bom uso desse sentido.

E assim com os cinco sentidos. O homem que tenha dado a todos os sentidos o uso perfeitamente santo, ordenado, racional, verá dessas figuras tudo que está na sua natureza ver!

Temos aqui um convite para a santificação. Cada vez que um de nós tiver a tendência de fazer um uso tonto dos próprios sentidos, deve pensar: “Eu comprometo a visão ou o conhecimento que terei de um Anjo, ou de meus Anjos”.

Por exemplo, a pessoa que tenha feito bom uso do ouvido, discernirá melhor as melodias. A que aceitou as carências desses sentidos, de boa vontade, com humildade, será premiada por isso. A que tenha sofrido pela fé em algum desses sentidos será premiada por isso, com uma particular acuidade em perceber o gáudio dos Anjos.

Deus estará, através dos Anjos – haverá ainda outras coisas –, continuamente premiando a cada um por todo o bem que fez na Terra governando seu próprio corpo.

Compreende-se a justiça de Deus no Céu e o que nós perdemos doidamente quando começamos a fazer aquilo que não devemos. Não só nos expomos a um risco inenarrável, mas comprometemos, prejudicamos um gáudio eterno e insondável destinado para nós, homens.

Entrelaçamento de toda a Criação

O texto continua e dá outra confirmação baseada na Escritura:

O Profeta Isaías, no capítulo VI, quando fala dos Anjos, diz que viu Anjos no Céu em forma humana. Se eles, para se fazer ver por Isaías, tomaram forma humana, por que não tomam forma humana para se fazer ver pelos bem-aventurados?

Eu acho muito razoável. Cornélio a Lápide apresenta essas reflexões como opinião pessoal dele, não como ensino oficial da Igreja, mas considero essa opinião atraentíssima e muito convincente. Ele diz também que:

São João, no Apocalipse, fala várias vezes dos Anjos e que sempre os viu em forma humana. Os Anjos tomaram figuras de homens para se fazerem ver por São João. Logo, tomarão figuras de homens para serem vistos pelos bem-aventurados.

 Ocorreu-me agora uma ideia, para vermos como são essas coisas. Tudo leva a crer que Cornélio a Lápide esteja no Céu, e que lá ele tenha conhecimento desses comentários feitos por nós ao trabalho dele. Provavelmente, os Anjos e ele – não sob a forma corpórea, mas espiritual, pois Cornélio ainda não ressuscitou – estão sorrindo e se alegrando com o que está se passando aqui. E certamente estão pedindo, por meio de Nossa Senhora, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nós ocupemos os lugares vagos, à nossa espera, os quais eles estão considerando ali.

É o entrelaçamento de toda a Criação. A Igreja gloriosa no Céu e a Igreja militante na Terra que entram em contato, em convívio indizível, insensível, mas quão real a propósito da obra escrita por Cornélio a Lápide. Quais serão as delícias que ele no momento sente por ter sido o autor dessa grande obra?

Vemos, assim, como as boas ações se refletem na eternidade celeste, e as más terão suas consequências no Inferno. Não percamos de vista como Deus é infinitamente sério! Tudo é sério, grave e produz consequências terríveis ou admiráveis!

Cornélio a Lápide menciona vários autores, teólogos célebres. Um deles é um Santo canonizado, especialmente ao alcance de nossa admiração e de nossa veneração, Santo Anselmo, de quem ele cita um argumento para mim inesperado.

Santo Anselmo diz que os Anjos terão corpo no Céu para se fazerem temer pelos demônios e pelos ímpios. Compreende-se porque, se no Inferno os seres infernais estarão continuamente tomando figuras horrendas para atormentar os réprobos, não é admissível que no Céu os Anjos não façam isso ainda muito mais perfeitamente para premiar os bons. Eles podem, complementarmente, afligir os ímpios pela manifestação de seu esplendor!

Ao tratar a respeito desses ímpios, Santo Anselmo fala da ressurreição dos mortos. Então, no Vale de Josafá, onde todos os ressurretos deverão se reunir para esperar o Juízo Final, os Anjos também deverão tomar corpo nessa ocasião e ali meterão pânico nos ímpios, assim como causarão alegria aos justos.

De repente desaparece da Terra o caos e o horror

Poder-se-ia imaginar o fim do mundo assim: um dia comum – como foi hoje e deverá ser amanhã –, de repente, devido a uma explosão atômica, todo mundo morre e ficam só os justos. Estes, pasmos com aquilo, mas ultra-aliviados por terem desaparecido da Terra o caos e o horror, subitamente ouvem harmonias celestes, sentem perfumes celestiais, veem cores inimagináveis! Fixam o firmamento e notam que a própria ordem baixa do Céu!

Os Anjos esplendorosos, irradiantes de beleza, de ordem em todo o seu ser e dispostos como um exército em ordem de batalha! Bem se pode imaginar a grandeza desse espetáculo!

Sem dúvida, aqueles homens, até então horrorizados com o caos e a desordem do fim do mundo, hão de se rejubilar extremamente, de um modo máximo, vendo-se olhados com tanta bondade e alegria por esses Anjos que vão descendo.

Em determinado momento, faz-se ouvir a voz de Nosso Senhor e os corpos todos ressuscitam. O gáudio dos últimos homens fiéis chega ao máximo quando veem o mais maravilhoso dos maravilhosos: a Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É claro! Não há figura que os Anjos possam fazer, nem gáudio ou delícia alguma que possa representar o que é Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, em Quem resplandece a natureza humana na sua perfeição, ligada hipostaticamente ao Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Então a glória é máxima, mas transparece para os sentidos do homem através do Corpo sacrossanto de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só este gáudio vale mais do que todas as alegrias que os Anjos possam proporcionar aos homens no Céu! Nós já julgávamos inimaginável o júbilo causado pelos Anjos, entretanto muito maior é a felicidade proporcionada pela perfeição de Nosso Senhor Jesus Cristo que aparece, assim, aos homens.

Entretanto, diz a Teologia: “Caro Christi, caro Mariæ”– a carne de Cristo é a carne de Maria. Nós não podemos tecer adequadamente essas considerações sem pensar n’Aquela que, tendo a natureza humana, com um corpo já ressuscitado, está gloriosamente no Céu, aonde foi levada pelos Anjos. Não é possível que Maria Santíssima não esteja resplandecendo no seu corpo em toda a glória possível. São Luís Grignion de Montfort diz bem que Deus fez para os homens o Paraíso terreno, para os Anjos, o Paraíso celeste – onde também nós devemos chegar –, mas para Si fez um Paraíso que é Nossa Senhora.

Imaginem o que significa contemplar, por toda a eternidade, o Paraíso de Deus, onde Ele pôs as suas complacências, o Divino Espírito Santo gerou Nosso Senhor Jesus Cristo, que nele esteve presente como num sacrário durante nove meses! De Maria Santíssima Ele nasceu preservando a sua virgindade; Ela amamentou-O, nutriu-O, carregou-O nos braços e depois O acompanhou toda a vida até o alto do Calvário e o degredo d’Ela na Terra, enquanto não chegou o momento de sua morte, para consolidar a Santa Igreja então existente. Compreende-se o que tudo isso foi e quantas glórias devem coincidir em Maria Santíssima!

O que corresponde como prêmio a Nossa Senhora por um só cuidado que Ela tenha tido com o Menino Jesus? Um só sorriso, um só desvelo! Ao que isso está em correlação como glória? A quem foi dado ter uma glória de longe comparável a isso? Ela está fora de toda comparação, acima de toda conjectura.

Isso se nós tomarmos os gestos d’Ela mais miúdos, quotidianos; quanto mais as grandes atitudes, nas grandes ocasiões da História. Por exemplo, ao pé da Cruz, o mérito d’Ela no momento em que Ele disse “consummatum est”, e Ela aceitou ao mesmo tempo a morte d’Ele e a ofereceu a Nosso Senhor como co-Redentora do gênero humano. Nós não temos ideia da glória com que isso é premiado no Céu!

Ora, se não temos medida para nos referir a Ela, o que dizer então de Nosso Senhor Jesus Cristo?! 

Seriedade, beleza e glória do Juízo Final

Por aí temos ideia da sublimidade das coisas celestes e a grandeza da finalidade para a qual o homem é chamado. E, por contraste, como ofende a Deus a vulgaridade da vida contemporânea, que ultraje isso traz à Divina Majestade!

Imaginem, por exemplo, um hippie sujo, descabelado, maltrapilho – não por pobreza e infortúnio, o que se respeita, mas porque quer –, sentado numa calçada, com o olhar e gestos vazios, vendo quem passa e causando horror a todo mundo que não tenha começado a ser conquistado pelo hippismo.

Esse homem foi criado, talvez seja batizado e, portanto, tenha sido recebido na Santa Igreja, faz parte do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto católico, pois o pecador não deixa de pertencer à Igreja. Ele, de si, é chamado a ser um príncipe no Céu e a ver, como acabo de dizer, Nossa Senhora, a Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas conspurca tudo isso para se jogar na vilania. Compreendemos que insulto ele faz a Deus, porque foi chamado a uma coisa tão diversa e, entretanto, faz assim consigo. Ele tem que dar uma satisfação ao Criador!

Consideremos qual seria a atitude de um rei diante de um homem a quem ele tivesse confiado a coroa do reino. O indivíduo pega a coroa com desrespeito e a conduz como quem leva uma bola. O rei tem o direito de chamar, interpelar imediatamente o homem, de lhe obrigar a repor a coroa de onde a tirou, mandar prendê-lo e depois julgá-lo. É evidente! Ora, esse rei deu muito menos a esse homem do que Nosso Senhor Jesus Cristo derramando por nós seu Sangue infinitamente precioso, oferecido juntamente com as lágrimas inestimáveis de Maria! Qual é o valor dessa oferenda? Pois bem, essa oferta teria sido feita inteiramente como foi, ainda que somente pela alma daquele hippie.

Portanto, se Nosso Senhor deu tudo isso a cada um de nós, não está no direito d’Ele exigir que conduzamos adequadamente esse dom precioso, muito mais do que uma coroa: a alma remida por seu Sangue e o Batismo que a consagrou? É evidente!

Como isso é útil para pensarmos durante nossas dificuldades espirituais e para nos dedicarmos sem reserva à causa da Igreja, que é a causa de Deus e de Nossa Senhora! Sem reservas, porque a pessoa analisa e vê que foi criada para isso, e o modo mais digno de empregar seu tempo, seu corpo, sua alma é exatamente fazer isso.

Hoje não se veem tantos hippies por aí. Pode-se quase dizer do hippismo que ele não está em nenhum lugar e, ao mesmo tempo, tornou-se presente em toda parte. Ele sumiu quase inteiramente das vistas, mas penetrou no espírito de quase todo mundo, em alguma medida. Mas no tempo em que se viam hippies na rua, quantas vezes olhando um ou outro eu pensava: “Quem sabe se esse pobre miserável foi chamado a pertencer à militância católica?”

Essas considerações nos ajudam a entender melhor a seriedade, a beleza e a glória do Juízo.

Os justos impugnarão todos os que pecaram contra eles

Falamos dos Anjos, de Nossa Senhora. Evidentemente não está tudo dito, porque isso é posto para imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo, que chega em grande pompa e majestade. Então, tudo não fica propriamente pequeno, pois Ele não diminui nada! Pelo contrário, as coisas vão mostrando magnificências maiores à medida que se aproxima a ocasião para Ele vir. No momento em que Ele chega, o brilho de todos aumenta ainda mais, mas Ele supera tudo infinitamente.

Começa o Juízo, que para os bons é um início do Céu, pois eles já principiaram a ver aquelas figuras nos Anjos, e em Nossa Senhora o Paraíso de Deus. Na Humanidade Santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele aparece, veem o indizível!

Os justos começam, um por um, a impugnar todos os que pecaram contra eles. Então veremos, por exemplo, Santa Joana d’Arc ressurrecta inculpar o Bispo Cauchon e todos os que pertenceram ao tribunal que a condenou. Incriminar a moleza do rei e de seus próprios companheiros de armas, que não tentaram proezas inimagináveis para salvá-la.

Como tudo é sério! Como tudo é grande! Como tudo é belo!

Peçamos a Nossa Senhora, medianeira universal de todas as graças, necessária por vontade de Deus, que não só nos faça chegar até lá como justos, mas nos dê a alegria de trabalhar efetiva e vitoriosamente para o prenúncio disso, que é o começo do Reino de Maria.

Santa Teresa dizia a Deus: “Ainda que não houvesse Inferno eu Te temeria; ainda que não houvesse Céu eu Te amaria!” Nós devemos afirmar a mesma coisa em relação ao Reino de Maria: Ainda que não houvesse castigo para quem não trabalhasse pelo Reino de Maria, assim mesmo eu trabalharia. Ainda que não houvesse prêmio para quem trabalhasse pelo Reino de Maria, assim mesmo eu trabalharia.

Contudo, é bom meditar sobre o castigo e o prêmio para assim trabalharmos ao máximo pelo Reino de Maria na Terra, para que venha a era bendita do domínio d’Ela, e depois o acontecimento bendito do Juízo Final e dos Anjos como um exército em ordem de batalha.

Espero firmemente podermos juntos, no Céu – quem sabe se próximos ao Cornélio a Lápide –, vermos figuras magníficas e dizermos a ele: “Muito obrigado por nos ter dado, já na Terra, uma noção disso.”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 14/1/1981)

Revista Dr Plinio 232 (Julho de 2017)

 

1) Sacerdote pertencente à Companhia de Jesus (*1567 – †1637). Trata-se de uma resenha preparada para Dr. Plinio da qual não possuímos os dados bibliográficos.

2) Denominação da última letra do alfabeto hebraico, a qual tinha a forma de uma cruz. Baseando-se no capítulo 9 da profecia de Ezequiel, Dr. Plinio empregava esse termo a fim de indicar um sinal marcado por Deus nas almas das pessoas especialmente chamadas a rezar e agir em favor da Igreja e da implantação do Reino de Maria.

3) Segundo o pensamento de Dr. Plinio, posto que todo homem é criado para louvar a Deus, concede Ele a cada pessoa uma luz primordial, isto é, uma aspiração para contemplar as verdades, virtudes e perfeições divinas de um modo próprio e único, pelo qual dará sua glória particular ao Criador.