25 de agosto – São Luís Rei, o Varão Católico

São Luís Rei, o Varão Católico

Admitindo que cada santo represente, no firmamento da Igreja, algum aspecto específico — São Bento, por exemplo, o recolhimento;
São Domingos, a pregação; São Francisco, a pobreza; Santo Inácio, a luta pela Igreja, etc. —, o que simbolizou de modo particular São Luís, Rei de França? A fim de compreendermos o brilho especial da alma de São Luís, acompanhemos Dr. Plinio:

A respeito de São Luís, parece-me que uma das coisas mais comovedoras é a tradição que ele deixou atrás de si. Quer dizer, além de ele ter sido um grande santo da Idade Média, e de ter enchido seu tempo com sua personalidade, de maneira tal que se pode dizer que o século em que viveu foi o século de São Luís; além do fato de que as crônicas da Idade Média estão repletas de episódios da vida dele, e sua canonização foi inteiramente regular, tendo a Igreja analisado a personalidade dele e dado os fundamentos pelos quais o achava santo; além de tudo isto, ficou na memória popular dos europeus, e sobretudo dos franceses, uma recordação a respeito de São Luís que não procedeu do conhecimento dessas coisas.

Porque o povo de hoje já não conhece esses fatos, mas tem uma recordação dele, trazida de geração em geração. E essa lembrança, comovida, enternecida, entusiasmada, recolhida, corresponde exatamente aos documentos históricos que de São Luís se possui. Quer dizer, a legenda, ou a tradição, são exatamente iguais à realidade histórica. Não houve um exagero, um dado errado, tudo é inteiramente certo, nenhuma mentira se fez para dourar mais sua coroa de glória. Ele deixou atrás de si um sulco de verdade, de objetividade, e uma imagem que, apesar de tantas revoluções, transformações, de pregação de tantas doutrinas de ódio e de erro, se conserva fiel à realidade histórica.

Em que aspecto brilhou especialmente sua personalidade?

O que o povo francês venera na pessoa de São Luís? O que a História bem narrada, bem estudada, nos ensina a respeito de São Luís? Ele brilhou especialmente pela castidade? Pelo recolhimento? Pela pobreza? Em favor da Igreja? Se considerarmos os feitos externos de sua vida, nada disso se pode afirmar inteiramente.

Que ele brilhou pela castidade, não há dúvida nenhuma. Mas ele brilhou como todos os santos reluziram, inclusive aqueles cuja castidade não foi a virtude mais notável. Todo santo é necessariamente casto. Mas São Luís de Gonzaga, por exemplo, teve um brilho de castidade maior do que alguns outros santos.

São Luís conservou a virgindade até o matrimônio; casou-se, foi um esposo fidelíssimo, mas não teve ocasião — sua vocação não lhe pediu — de guardar uma castidade à maneira de São Luís de Gonzaga.

Foi então o recolhimento que o fez brilhar? Em outros santos, o recolhimento refulgiu muito mais. Porque foram eremitas que se separaram completamente do mundo e passaram a viver em lugares completamente desertos. Ou cenobitas que foram viver em conventos, afastados completamente da civilização, para levar ali uma vida inteira de silêncio, de estudo e de oração. São Luís, não. Ele viveu no meio do mundo, na direção do maior reino da Terra no tempo dele, que era o reino da França, e misturado continuamente com os homens.

Teria sido o espírito combativo? São Luís foi um cruzado, um grande guerreiro, mas houve na Civilização Cristã guerreiros mais bem sucedidos do que ele. As duas Cruzadas que ele empreendeu não alcançaram as vitórias que ele desejava. Houve, portanto, guerreiros que realizaram feitos de guerra, dentro da inspiração católica, maiores do que ele. Houve até guerreiros não santos que alcançaram vitórias maiores do que as obtidas por São Luís.

Por exemplo, Dom João d’Áus­tria, que não foi um santo e até esteve bem longe de o ser, obteve em Lepanto uma grande vitória cristã que São Luís não conseguiu com as suas Cruzadas.

Então, o que em São Luís nos dá um brilho da personalidade dele que, sob certo ponto de vista, se realça mais do que nos outros santos? O que houve em São Luís?

Varão católico na plenitude da expressão

São Luís representou, com uma plenitude que poucas vezes se encontra na História da Igreja, o varão católico como a Igreja deseja que ele seja. O varão leigo vivendo no século a vida de todo mundo, e levando até à mais alta perfeição o cumprimento dos Mandamentos da Lei de Deus. De maneira tal que, misturado com todos, ele, entretanto, superou a todos.

Há um ensinamento profundo da Igreja, quando canoniza santos assim. Ela canonizou vários santos leigos, se bem que nenhum deles tenha talvez brilhado com tanto fulgor como São Luís, no qual esta recordação do santo leigo se prolongou pelos séculos e ficou mais vivaz do que em outros santos. É uma missão histórica de São Luís post mortem, como houve a missão histórica de Santa Terezinha post mortem, que consistiu em derramar uma chuva de rosas em torno dela. E São Luís?

Ele foi o varão na plenitude do termo, para provar que o homem deve ser santo dentro da vida quotidiana. Que a santidade não é apenas o distintivo do padre, do frade, do monge, mas de todos os católicos dos quais Deus espera o cumprimento exato dos Mandamentos. E a muitos ele pede um cumprimento tão perfeito, que depois possam ser levados à honra dos altares. Isso São Luís nos ensinou. Ele foi um homem que provou que o bom católico pode ser varão até onde se deve, mas não lhe é vedado, por causa disto, ter certas qualidades que os espíritos superficiais reputam incompatíveis com a varonia. Assim, podemos analisar agora a figura de São Luís.

Realizou o equilíbrio feudal perfeito

Era um rei que tinha mão firme, e manteve de tal maneira a autoridade em seu reino, que poucos reinados na História da França conheceram a paz interior tão ampla e tão perfeita como se conheceu no tempo de São Luís.

O regime feudal, no meio das admiráveis vantagens que proporcionava, dava, entretanto, oportunidade a uma nobreza ainda muito turbulenta, devido à proximidade dos bárbaros, de se levantar nos seus feudos contra o rei. Por causa disto, muitos reis perseguiram a nobreza e tentaram extingui-la; e afinal quase todos eles reduziram a nobreza a um mero papel de aparato.

Com São Luís, o que se deu? O equilíbrio perfeito. Ele foi um rei que conservou o regime feudal e manteve a nobreza no uso de todos os seus privilégios. Em várias ocasiões ele herdou feudos e poderia tê-los reunido à coroa, mas não quis fazê-lo e nomeou outras famílias para esses feudos; não açambarcando todos os feudos, mas mantendo-os autônomos.

A ideia da sucção de todos os feudos, para formar a monarquia do tipo luís-quatorziano, nem de longe lhe passava pela cabeça. E apesar de ter robustecido de tal maneira o poder feudal — pela firmeza, energia, pelo medo que ele metia, pelo respeito que sua justiça incutia a todo mundo, pela veneração que tinham para com a pessoa dele —, São Luís manteve em paz o reino da França; conseguiu realizar o equilíbrio feudal perfeito.

Mostrou que um homem pode manter a ordem com força, mas que, pelo fato de ser um homem forte, não é necessariamente um tirano. Que para a manutenção da ordem, a bondade, a justiça, a respeitabilidade, têm um papel que a força nunca chega a preencher completamente. E que a irradiação das virtudes é, em muitas ocasiões, uma circunstância indispensável para a manutenção da autoridade.

Ele não foi brutal como Luís XIV para com os nobres. Luís XIV exigia que os nobres morassem todos em torno dele, que abandonassem os seus castelos, perdendo assim sua influência nas várias partes da França. Mandou inclusive destruir vários castelos de nobres, para poder ter a nobreza na mão.

São Luís manteve a nobreza. E o que Luís XIV só conseguia realizar por meio da força e do esplendor da pompa real, São Luís realizou com a força, o esplendor, mas, de outro lado, também com a manifestação de uma justiça, de um equilíbrio, de uma bondade que encantava e atraía a confiança de todos.

Foi o varão ao mesmo tempo forte e bondoso; justo, equitativo, mas, por isso mesmo, ciente de seus direitos; que sabe se fazer temer e respeitar, bem como dar a cada um o que é seu; e que introduz então em torno de si a verdadeira paz, ou seja, a tranquilidade da ordem. Não é a tranquilidade da chibata, mas a da ordem; pôr todas as coisas em ordem para que elas fiquem em paz, e depois castigar quem saltar para fora da ordem. Esta é a verdadeira tarefa do ordenador.

Questão feudal com o Rei da Inglaterra

Outro aspecto: São Luís teve uma questão feudal com o Rei da Inglaterra. Sendo uma questão complicada, nosso Santo propôs no Conselho que ele sugeriria ao Rei da Inglaterra que lhe prestasse homenagem, como feudatário de algumas terras na França; e que, por gentileza e amabilidade, ainda acrescentaria estas e aquelas terras como cláusulas do acordo.

Os conselheiros de São Luís, quando ouviram isso, ficaram arrepiados, e disseram: “Mas senhor, nós poderíamos conhecer a causa dessa liberalidade?” Resposta de São Luís: “Sim, é para que haja amizade entre os meus filhos e os filhos do Rei da Inglaterra, porque são primos-irmãos.” Todos se entreolharam, como que exclamando: “Mas meu Deus, isto é política!? Uma política feita na base da amizade… Depois, nunca o Rei da Inglaterra virá prestar homenagem ao Rei da França!”

São Luís não permitiu discussão e foi enviada a proposta ao Rei da Inglaterra. Este veio à França, ajoelhou-se diante de São Luís e prestou-lhe homenagem, com espanto de toda a Cristandade. E esse donativo feito por São Luís contribuiu para um longo tempo de paz entre as duas coroas.

Armado de couraça dourada, desembarcou no Egito

Recordo-me de outro fato. São Luís passou quatro anos na Terra Santa, tratando com os maometanos. Os historiadores reconhecem que ele foi tão ágil em jogar uns maometanos contra outros e embrulhá-los, que o poder maometano ficou durante muito tempo entrelaçado por querelas, porque ele soube cortar a erva debaixo dos pés desses ou daqueles; e que a obra política de São Luís valeu mais que sua obra militar.

Ele foi o rei sumamente confiante, e confiante até a candura, quando era o caso, sumamente esperto, e esperto até os bordos, sem transpor esses bordos para o maquiavelismo. Embrulha os maometanos e é gentil com um cristão; atrai o coração de um e deixa os outros nas trevas. O varão perfeito como a Igreja Católica o imagina, o forma, como ela lhe dá forças; é um ideal a ser atingido.

São Luís e a majestade. Todo mundo concorda em dizer que ele era um homem de uma majestade extraordinária. Os cronistas descrevem o esplendor da personalidade de São Luís quando ele desembarcou no Egito, em terra de infiéis: estava armado de uma couraça dourada, um elmo, uma alta cimalha dourada também; era o mais alto dos homens do barco no qual navegava, esbelto,”élancé”. Quando a embarcação chegou perto da terra, ele se jogou dentro da água, coberto com armadura, e foi de encontro ao Egito para dominá-lo.

A ideia que temos hoje de um rei é a de um rei de museu: que não fala de medo de dizer bobagem, não se move de receio de ser deselegante, não agride, está perpetuamente sentado num trono, olhando para a frente e pousando para a História.

Ao ver um rei tão “délié”, tão elegante, o mais alto de todos e que salta, ataca, é o primeiro na hora do risco, todo o exército correu atrás dele.

Rei derrotado, mas venerado pelos seus adversários

Esse varão católico perfeito sofre um infortúnio: depois de lutas enormes, é preso. O poder muçulmano é maior do que o dele. O prisioneiro é o humilhado, dependente de todo mundo. São Luís ficou durante muito tempo preso, porque se discutiu o seu resgate; ele impôs tal veneração a todos, que os mouros vinham pedir a sentença dele a respeito dos processos que tinham entre si. Porque confiavam na justiça do rei cristão mais do que na de qualquer outra pessoa. E ele era tratado por todos com veneração.

Ser grande assim na derrota é muito mais do que ser grande na vitória. Ser grande na vitória, qualquer vencedor pode ser. Mas na derrota não é qualquer um que o consegue. Houve Um, que foi maior na derrota do que em todas as outras ocasiões de sua Vida — a respeito do Qual disse São Paulo: “Só sei pregar Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”(1). Na Cruz, Ele realizou o “summum” de sua majestade, de sua grandeza e de sua glória.

São Luís imitou Nosso Senhor Jesus Cristo: ele realizou o “summum” da majestade humana, provando que um rei pode ser grande e impor-se, não só porque está no trono e cercado de toda a pompa real, mas porque ele é um varão católico.

Ele foi o rei derrotado, porém venerado pelos seus adversários. São Luís volta da Cruzada derrotado. A Cruzada não deu o resultado que ele queria.

O povo todo o aclamou como verdadeiro herói e lhe preparou uma glorificação no seu trajeto através da França, porque compreendia quanto ele tinha sido grande guerreiro, grande homem, apesar da derrota, e porque queria consolá-lo da derrota sofrida; e nunca o prestígio dele foi maior na França do que aureolado com a coroa de espinhos da derrota.

Trato de São Luís com os leprosos

Este rei era um homem extremamente simples, dentro de toda a sua majestade.

Na Idade Média, para evitar o contágio da lepra, a Igreja tinha conseguido persuadir os leprosos de que deveriam viver isolados de todo mundo e, ao andar pelas ruas, precisariam agitar um sino para que ninguém chegasse perto deles. E a polícia apoiava essa atitude, de maneira que o leproso que não cumpria tais normas era punido; tratava-se de um regulamento, mas que só se tornou exequível porque a Igreja convenceu o próprio leproso da necessidade disso.

Podemos imaginar a situação tristíssima de um homem que tem de atravessar uma cidade, pois precisa pedir um pão senão morre de fome e, ostentando uma face chagada, horrorosa, caminha agitando um sino para significar: “Fujam porque sou eu!”; e vê as criancinhas fugirem, as pessoas jogando coisas para ele, de longe. Em que estado de humilhação está um homem assim?

É um dos mais belos feitos da Igreja ter convencido doentes de que eles devem agir desse modo. Porque é difícil imaginar uma situação mais dolorosa do que esta: um homem tocando um sino, como que dizendo: “Fujam e tenham pena de mim; façam o vazio em torno de mim, até que eu atravesse esta cidade carregando algumas coisas para ir num lugar onde ficarei só, causando horror a todos, devorado pela minha própria lepra.” E ele ali permanece anos e anos na dor e na solidão, até quando Deus quiser. É uma coisa tremenda. Essa era a regra geral.

E a Igreja, sempre prodigiosamente sábia, ensinava não só aos leprosos que deviam fazer isto, mas que o povo precisava dar esmolas; e que os leprosos deveriam depois fugir. Esse é o equilíbrio extraordinário da Igreja. E a Igreja suscitava em alguns homens ou mulheres sadios, padres ou freiras, que fossem morar com os leprosos para cuidar deles. Diante de um infortúnio mais pungente, é impossível levar o equilíbrio mais longe.

O que fazia São Luís?

O rei está acima da lei. A uma lei feita por Deus o rei deve obedecer mais do que ninguém; mas se elaborada apenas pelos homens, o rei, estando acima da lei, pode violá-la porque é o autor da lei. Assim, São Luís transgredia a lei; quando por seu caminho passavam leprosos, não era raro ele parar, descer do cavalo, conversar com eles e uma vez chegou até a oscular um leproso. Este rei cheio de glória aproxima-se do homem carregado da maior infâmia — não uma infâmia moral, mas uma espécie de infâmia social, de degradação social.

Podemos imaginar o consolo desse leproso durante a vida inteira, pensando: “O reino todo tem nojo de mim, mas o santo, o homem perfeito, o guerreiro denodado, o varão casto e piedoso, que é a glória e o entusiasmo da nação francesa, esse apeou do seu cavalo e, como um verdadeiro pai dos filhos que mais sofrem, não teve medo de mim. Ele se acercou de mim e não teve receio de que a minha lepra contagiasse as suas carnes régias, aristocráticas, juvenis e sadias. Ele ajudou-me, dirigiu-me algumas palavras de consolo, deu-me ouro, e eu durante a vida inteira, no meio da minha tristeza, direi: ele fez por mim o que não realizou pelos mais altos fidalgos de seu reino.”

Pode haver maior equilíbrio do que este: um homem, que era o mais esplêndido da Europa, descer assim até os últimos degraus da caridade e da humildade?

Nós poderíamos passar uma noite inteira comentando a personalidade de São Luís e mostrando esses contrastes de virtudes que faziam dele uma espécie de sinfonia viva, que entusiasmava a todo mundo.

A personalidade de São Luís expressa na Sainte Chapelle

Sua personalidade se exprimiu do modo mais esplêndido na Sainte Chapelle, que foi a obra dele. A Sainte Chapelle é incomparável, e foi a única coisa no mundo diante da qual fiquei estupefato. Ela possui dois andares; quando entrei no de baixo, exclamei oh! Eu não tinha visto o mais bonito, que é o de cima…

Quando eu estava na Sainte Chapelle, procurava reconstruir a personalidade de São Luís. Imaginem uma capela toda feita de cristal — e que era um relicário! —, com cristais alegres, de cores diáfanas. Entretanto, coisa curiosa, não há nada de frágil, de efeminado, de dulçoroso; é um monumento grave, sério e forte.

De tal maneira que, dentro dela, a pessoa se sente como se estivesse numa fortaleza. Por outro lado, uma majestade régia, não se fica intimidado, mas se tem a sensação de estar dentro de casa. Uma castidade em tudo; percebe-se que um homem impuro não pode sentir-se bem à vontade. Porém tanta suavidade que qualquer pecador envereda pela porta do perdão. Todas as harmonias da alma de São Luís estão lá. E isto nos explica que a humanidade tenha ficado sempre com os olhos postos nele.

“Non est inventus similis illi”

Aí está a figura do rei santo. Quando se olha para ele, tem-se a impressão de que é inigualável. Na Missa de certos santos, a liturgia diz: “Não se encontrou um varão parecido com ele”. Afirma isto de uma série de varões, o que não é uma contradição, porque são homens tais que, quando se os contempla, se exclama: “Como esse, não houve!”

Como São Luís, Rei de França, não existiu outro igual!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/8/1970)

1) 1 Cor 2,2.

24 de agosto – São Bartolomeu

São Bartolomeu

O Protótipo do homem amado por Deus

O elogio de Nosso Senhor a São Bartolomeu é um dos maiores que possam ser feitos a alguém, porque é o filho do povo eleito, protótipo do homem amado por Deus, no qual não há fraude.

Ele era, portanto, o contrário daqueles que se encontravam em decadência, dentro da nação eleita.

A este título, há uma relação muito grande entre ele e um contrarrevolucionário que deseja ser um verdadeiro católico no qual não há fraude e que, por isso, em face da Revolução e do espírito do demônio, não faz concessão alguma, odeia tudo quanto o demônio ama e ama tudo quanto o demônio odeia; odeia tudo quanto a Revolução ama e ama tudo quanto a Revolução odeia.

Nesse contrarrevolucionário não há fraude, e ele merece inteiramente o nome de católico. Assim, é natural que peçamos o auxílio da intercessão de São Bartolomeu.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/8/1965)

23 de agosto – Santa Rosa de Lima

Santa Rosa de Lima

Normalmente, imaginamos ser necessário arquitetar grandes planos, praticar ações dignas de louvor ou realizar vultosas obras para tornarmo-nos notáveis ante nosso tempo. Entretanto, uma jovem pode provar ao mundo como a santidade e o amor a Deus são de maior eficácia: Santa Rosa de Lima, Patrona da América.

No livro “El verdadero rostro de los santos”(1) há alguns dados biográficos sobre Santa Rosa de Lima.

“Nascida no dia 20 de março de 1586, em Lima, Isabel Flores de Oliva — mais tarde conhecida como Rosa de Lima — era da antiga nobreza espanhola. Porém, quando ainda jovem, seus pais empobreceram.

“Inclinada à vida religiosa desde a mais tenra idade, Santa Rosa sofreu contrariedades, sobretudo por parte de sua mãe, que se havia empenhado em casá-la.

“Aos vinte anos fez-se Terceira Dominicana, sob a proteção de Santa Catarina de Siena. Vivia em uma cela no jardim da casa paterna e ajudava seus pais fazendo bordados e cuidando das flores que a família depois vendia.

“No que se refere à mortificação, ninguém a superou. Certa vez, quando se achava acabrunhada por mil inquietações, ouviu a voz do Senhor que lhe dizia: ‘Aquele que deu a vida e o sangue por ti saberá cuidar também de teu corpo. As leis naturais foram criadas por ele e são para ele’. Rosa destinava dez horas do dia à oração, dez horas ao trabalho, e apenas o que sobrava concedia ao sono. A cada dia, no decurso de horas inteiras, via-se assaltada por terríveis tormentos, temendo que o Senhor a abandonara, considerando esse suplício pior do que a morte. Porém depois, sentia-se fortalecida por novas sensibilidades da graça divina.

“A uma comissão de teólogos que a interrogava acerca de sua oração, confessou: ‘Rezar não me custa nenhum trabalho. Minhas energias concentram-se no meu interior como o ferro atraído pelo imã e se sentem embriagadas por tal doçura que nenhum mal é mais possível. Meu coração arde. Sinto a Deus em todo o meu ser e tenho absoluta certeza de sua adorável presença. Tal contemplação não me cansa, e minha única alegria é sentir Deus presente em minha alma. Ver-me privada d’Ele seria para mim um inferno e nada criado poderia consolar-me.’

“O último pedido que saiu de seus lábios, na hora da morte, foi em benefício de sua mãe: ‘Senhor, deixo-a em vossas mãos. Dai-lhe forças, não permitais que seu coração se dilacere de tristeza’. Tão logo expirou, viu-se sua mãe tomada por um tal consolo e alegria que precisou retirar-se para ocultar a felicidade que seu rosto estampava.

“Faleceu em 26 de agosto de 1617.”

Família da antiga nobreza, porém empobrecida

Vários aspectos da vida de Santa Rosa são dignos de comentário. Em primeiro lugar, o fato de pertencer a uma família nobre, porém empobrecida, é notável.

À semelhança da Sagrada Família de Nazaré — a qual também não dispunha de recursos em abundância, mas era de estirpe real —, a família de Santa Rosa passava por uma situação sumamente penosa, difícil, e, a esse título, também sumamente abençoada, em que a dignidade da linhagem e do caráter deve brilhar sozinha, sem os recursos tão prestigiosos e tão úteis das riquezas.
Compreende-se, de imediato, um traço da predileção divina.

Símbolos da elevação de sua alma

Há episódios na história dos santos permitidos pela Providência com a intenção de ornamentar a história de suas almas, e proporcionar que vejamos, através dessa beleza secundária e quase episódica, algo de mais profundo dentro da santidade, e de nos atrair à admiração para com a vida virtuosa.

Sob esse aspecto, é muito bonito considerar Santa Rosa vivendo reclusa em uma cela, no jardim da casa paterna, e ajudando seus pais através da confecção de bordados e cuidando das flores que a família vendia.

Eram bordados feitos por uma jovem santa, que se retirara para reclusão inteira, e na clausura também cultivava flores.

Isso causa tal encanto ao início de sua vida, que não poderia deixar de ser comentado.

Missão de caráter universal

A mortificação à qual se dedicava era particularmente preciosa para os tempos em que Santa Rosa viveu.

A vinda dos ibéricos para a América colocava-os numa situação moral das mais perigosas. Encontrando aqui uma natureza tropical exuberante, com condições climáticas que infelizmente favoreciam a luxúria, muitos se deixavam dissolver num ambiente onde a vulgaridade e a corrupção moral debandavam.

Ora, nestas circunstâncias, ela suscitava em torno de si o espírito de penitência e de mortificação. Com tal atitude, naturalmente, ela freou em grande parte a corrupção dos costumes e criou condições menos favoráveis à Revolução, o que determinou, por sua vez, uma marcha mais lenta desta em nosso continente.

O admirável é que Deus não suscitou para a América inteira um grande pregador — Ele pôs, nas mais variadas partes, grandes pregadores, porém de âmbito restrito —, mas sim uma mulher que tivesse uma missão de caráter universal. Santa Rosa de Lima fez, no plano da comunhão dos santos, o necessário para salvar a América.

Vemos o poder de uma alma entregue a Nossa Senhora, à misericórdia de Deus e à penitência.

Sustentação nos sacrifícios, consolações na oração

Essa posição é quase incompreensível caso não consideremos o que, em contrapartida, está dito por ela a respeito da oração. Durante a oração, Santa Rosa recebia consolações extraordinárias, sentindo um verdadeiro Céu na Terra durante dez horas por dia. E isso dava-lhe ânimo para suportar depois uma vida de dor e sofrimento.

Vias de oração na santidade

Entre os santos há semelhanças e dissemelhanças.

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia estar tão habituada ao sofrimento que, quando chegasse ao Céu, precisaria ela desabituar-se de padecer para se sentir verdadeiramente feliz. Nisto se vê uma enorme analogia com o conceito de Santa Rosa de Lima sobre o sacrifício.

Porém, no que diz respeito às vias da oração, como eram diferentes! Santa Rosa de Lima sentia muita sensibilidade ao rezar; Santa Teresinha do Menino Jesus passou muitas vezes por aridez durante a oração.

Entretanto, uma e outra oração eram igualmente aceitas por Nossa Senhora e encaminhadas a Deus Nosso Senhor como sendo variantes de uma mesma coisa, inteiramente coerente e uniforme consigo mesmo: a santidade.

Resignação, profunda paz de alma

Uma observação de proveito para a vida espiritual é a seguinte: sabendo que sua mãe sofreria muito com sua morte, Santa Rosa pediu a Deus, então, que esta tivesse forças para resistir a tal dor. Pois bem, ela foi tão amplamente atendida, que a mãe não só teve força, mas também uma inexplicável alegria com a morte da filha.

Como se pode explicar essa felicidade?

É que a resignação cristã constitui uma tristeza com tais contrafortes de paz e de alegria, que há mais felicidade numa alma cristã profundamente triste — mas resignada — do que noutra repleta de uma alegria natural.

A resignação cristã é filha da consolação

Consolar, do latim “consolare”, significa dar força, ou seja, conceder capacidade de aguentar a dor. A verdadeira consolação consiste em robustecer a alma para aguentar o sofrimento.

A resignação cristã é exatamente filha da consolação, filha da aceitação da dor. De maneira tal que essa consideração dá ao homem uma alegria superior em meio às suas tristezas.

Então, à vista de considerações tão elevadas, a alma ao mesmo tempo deplora a morte e encontra uma estabilidade, uma fixidez em face dela, uma posição de equilíbrio. Isto se chama resignação cristã.

A graça pode acentuar essa alegria que existe na resignação. E foi exatamente o que aconteceu com a mãe de Santa Rosa de Lima: ela recebeu tanta força, e sua alegria dentro da resignação foi de tal maneira acentuada pelo Divino Espírito Santo, que ela precisou se esconder para que não a julgassem mal.

No que essa alegria consistia? Com certeza, uma participação da alegria de Santa Rosa que já estava inundada pelas felicidades celestes.

Peçamos a Santa Rosa de Lima que interceda por nós, a fim de — à sua semelhança — termos a coragem de nos deixarmos fazer santos e assim realizarmos grandes obras.

Estão aqui algumas considerações a respeito da vida de Santa Rosa de Lima.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 29/8/1966 e 29/8/1967)

1) Wilhelm Schamoni: Barcelona, 1951.

22 de agosto – Mãe da Igreja e Rainha do mundo

Mãe da Igreja e Rainha do mundo

Inúmeras vezes, em suas conferências, Dr. Plinio falou a respeito da realeza de Nossa Senhora. Suas elevadas explicitações eram frutos  de uma autêntica piedade mariana.  Imaginando como teria  e desenvolvido a Humanidade no Éden,  caso não houvesse o pecado original, Dr. Plinio narra  o movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora.

Com que alegria eu atendo ao pedido que me apresentaram para fazer uma exposição a respeito de Nossa Senhora como Rainha da História!

Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

A História tem necessariamente um “unum”

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morreram ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu nem de quem o sucederá. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado etc. Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História se desenvolve, ela não forma um todo.

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coreia e o Japão, a Coreia e a China, a China e o Japão — relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos — não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”(1) americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros — porque serão amados por Deus —, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

“Post-scriptum” marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a post-História.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar‑se — por causa d’Ela e não devido a nós —, a História terá a sua post-História. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa post-História, que é o fecho de ouro da História do mundo.

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais e eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História — e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? —, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de modo tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel — que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu —, os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é Rainha desse “unum”?

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos — os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus —, entretanto temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se põe no centro de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

O homem simboliza, melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo — corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas no equilíbrio do universo —, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lumen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar e um padrão especial de beleza.

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nesta linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza: nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra‑ arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável, a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História…

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela — por quanto tempo não se sabe —, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então — eu emprego um termo moderno e desdourado — uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano — podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! — levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem‑Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub‑História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o último justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra‑se? Lembra‑se?”

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram… O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria, Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a altura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento. E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a post-História, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encanto paradisíaco de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a História noturna, porque longe do Sol da Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará‑los para aquela hora de bem‑aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da lama do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é este: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter‑se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

Maria Santíssima dirige a História…

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele faz pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que homens fazem e, por assim dizer, corrigir — se a palavra “corrigir” não fosse inadequada —, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: “Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá…”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível — hesito diante do termo — fazer a História tão bela como é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também, para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede.” E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

…e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Maria Santíssima é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a uma pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

— O que você viu?

— Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido.”

O modo de relacionar esses granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral. O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter‑relação do agir da Humanidade e do agir de Deus, mas da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único de pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra‑Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra‑Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser Rainha dessa rebeldia, a não ser neste sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre esta reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/4/1982)

1) Selva.

22 de agosto – Nossa Senhora, Rainha da História

Nossa Senhora, Rainha da História

Inúmeras vezes, em suas conferências, Dr. Plinio falou a respeito da realeza de Nossa Senhora. Suas elevadas explicitações eram frutos  de uma autêntica piedade mariana.  Imaginando como teria  e desenvolvido a Humanidade no Éden,  caso não houvesse o pecado original, Dr. Plinio narra  o movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora.

 

Com que alegria eu atendo ao pedido que me apresentaram para fazer uma exposição a respeito de Nossa Senhora como Rainha da História!

Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

A História tem necessariamente um “unum”

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morreram ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu nem de quem o sucederá. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado etc. Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História se desenvolve, ela não forma um todo.

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coreia e o Japão, a Coreia e a China, a China e o Japão — relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos — não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”(1) americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros — porque serão amados por Deus —, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

“Post-scriptum” marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a post-História.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar‑se — por causa d’Ela e não devido a nós —, a História terá a sua post-História. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa post-História, que é o fecho de ouro da História do mundo.

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais e eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História — e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? —, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de modo tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel — que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu —, os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é Rainha desse “unum”?

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos — os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus —, entretanto temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se põe no centro de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

O homem simboliza, melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo — corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas no equilíbrio do universo —, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lumen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar e um padrão especial de beleza.

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nesta linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza: nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra‑ arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável, a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História…

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela — por quanto tempo não se sabe —, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então — eu emprego um termo moderno e desdourado — uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano — podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! — levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem‑Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub‑História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o último justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra‑se? Lembra‑se?”

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram… O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria, Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a altura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento. E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a post-História, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encanto paradisíaco de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a História noturna, porque longe do Sol da Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará‑los para aquela hora de bem‑aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da lama do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é este: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter‑se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

Maria Santíssima dirige a História…

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele faz pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que homens fazem e, por assim dizer, corrigir — se a palavra “corrigir” não fosse inadequada —, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: “Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá…”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível — hesito diante do termo — fazer a História tão bela como é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também, para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede.” E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

…e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Maria Santíssima é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a uma pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

— O que você viu?

— Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido.”

O modo de relacionar esses granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral. O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter‑relação do agir da Humanidade e do agir de Deus, mas da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único de pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra‑Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra‑Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser Rainha dessa rebeldia, a não ser neste sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre esta reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/4/1982)

 

1) Selva.

22 de agosto – A realeza de Maria Santíssima

A realeza de Maria Santíssima

Em Fátima, com a promessa de triunfo do Imaculado Coração de Maria, começou a se delinear nas páginas da história a era em que a realeza de Maria deverá atingir todo seu fulgor.


Esmagando o demônio, príncipe deste mundo, com seu calcanhar puríssimo, Nossa Senhora reinará, triunfará!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/5/1965)

22 de agosto – Nossa Senhora, Rainha do universo

Nossa Senhora, Rainha do universo

Muito se tem comentado sobre o trecho do Gênesis que descreve a Criação do universo. Nele observamos que, descansando no sétimo dia e apreciando ser boa cada criatura individualmente, Deus considerou que o conjunto era ótimo.  Qual será, entretanto, o papel da Santíssima Virgem nesse primeiro momento da Criação?

Quando a Terra era ainda “inanis et vacua”(1), podemos imaginar, com base nas descrições de astrônomos a respeito das estrelas, os estágios pelos quais teria ela passado antes de tomar seu aspecto atual.

Por exemplo, na etapa em que o globo terrestre não fosse senão uma matéria incandescente com coloridos diversos, estes constituiriam uma pirotecnia celeste, um divino fogo de artifício, o qual só Deus podia contemplar. Seria, de certa forma, um jato de fogo saído das mãos d’Ele para formar a Terra, com todo o “verum, o bonum, o pluchrum”.

Tem-se a impressão de que a Terra, a natureza, ainda em seus primórdios, tinha uma pujança extraordinária. Com o passar do tempo tudo ia se concatenando, se ordenando, e belezas incontáveis se estabelecendo.

Nessas eras primitivas não houve um aspecto dessas transformações que não significasse certa profecia a respeito do Divino Salvador e de Maria Santíssima.

Tudo isso são meras hipóteses, e seria bonito que um astrônomo ou geólogo, repleto de espírito de Fé, estudasse as fases pelas quais passou a Terra, relacionando os aspectos que deveriam simbolizar movimentos de alma de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria.

A Terra em formação

Consideremos que, após a Terra ter passado por fases assustadoras e aparentemente desordenadas por sua violência, Deus a foi temperando, fez com que ela se resfriasse e fosse mudando de aspecto.

Já não havia aquelas imensas labaredas, aqueles ruídos estrondosos, aquelas crateras que se abriam. Dir-se-ia que a Terra perdera a grandeza pré-apocalíptica daqueles primeiros tempos. Talvez um anjo, diante daquela transformação, tenha perguntado: “Senhor, por que deixais que isto fique assim? O que aconteceu para que as coisas revelassem menos a vossa magnificência?” E Deus simplesmente disse: “Vereis!”

E, ao verem tudo em ordem, os anjos compreenderam ser essa ordem mais bela do que a magnificência de uma só coisa; o equilíbrio de uma situação global, abrangendo todas as pulcritudes anteriores ordenadas, tinha uma beleza superior, que não tocava tanto os sentidos, porém era mais apreciável pela mente, por isso mais digna dos anjos.

Possivelmente, algum anjo ou todos eles tivessem cantado: “Graças Vos damos, Senhor, porque nós compreendemos agora o dom da inteligência que nos destes para inteligir aquilo que ficou menos chamejante e tonitruante, porém mais compreensível e belo do que tudo quanto Vós fizestes. A ordem global é mais bela do que a dos mais belos elementos, quando não cabem dentro dela”.

E se isso acontecesse, Deus sorriria e responderia: “Vós não vistes nada!”

Então, estando a Terra em ordem, Ele começa a criar vegetais, com exuberância colossal, árvores gigantes etc. Depois, ordena tudo: bosques, flores delicadas, frutos. Estabelecida a ordem entre os vegetais, Deus cria os animais enormes — talvez nessa etapa surgiram os dinossauros. Depois disso começa a pôr em ordem todos eles: os animais vão ficando menos terríveis, tudo vai se ordenando.

Um novo Adão, uma nova Eva…

Suponhamos que um profeta tivesse a revelação de quem seria Carlos Magno, e muito tempo antes mandasse preparar sua coroa, seu castelo, uma esplêndida sala com um imponente trono. Certo dia nascia Carlos Magno.

Foi o que se deu com a Criação: quando a sala do trono estava pronta para receber o rei, Deus cria Adão, para reinar; de certa forma, tudo tinha sido criado em função dele, mas faltava ainda um aspecto do Criador a ser representado, e este não cabia a Adão; então, Deus cria da costela do homem a primeira mulher, Eva.

Estavam criados o homem dos homens e a mulher das mulheres, ambos com dons extraordinários, capacidades incomparáveis. Quem seria capaz de imaginar como seria o homem antes do pecado?

Vemos assim a vastidão de horizontes de Deus no planejar, e a amplitude de poderes ao executar, tudo feito na plenitude da perfeição.

Porém, o primeiro casal deveria ser como a base de uma enorme montanha, que teria no ápice um novo Adão e uma nova Eva. No cimo deste monte estava uma Virgem, que deveria ser a Mãe perfeita e seria Esposa do próprio Deus, na qual Ele geraria o Homem-Deus. Este deveria ser o instante mais belo, mais nobre e mais elevado da Criação.

Quão grandioso não terá sido o momento em que Deus fez do barro um boneco e, soprando em suas narinas, lhe deu vida, criando assim o homem! Muitíssimo mais grandioso foi o instante no qual o Altíssimo tomou uma Virgem, pousou sobre Ela sua virtude, fazendo vir ao mundo o Homem-Deus.

Tudo isso Nossa Senhora conheceu. Porque Maria Santíssima compreendia o que se passava dentro d’Ela, admirava e amava. E sua correspondência à graça dava mais glória a Deus do que tudo o que houve no passado e haverá no futuro. O que dizer diante de tal grandeza?

Pois esse ato mais nobre do que a Criação do universo — a Encarnação do Verbo — se passou n’Ela, com a colaboração d’Ela. Sua alma santíssima e seu Sapiencial e Imaculado Coração tiveram alguma proporção com a Encarnação, enquanto que o Céu não tem proporção. “Hic tacet omnis língua” — Aqui se cala toda língua.

Maria Santíssima e o “Consummatum est”

Um estudo aprofundado desta temática nos ajudaria a compreender certas coisas inconcebíveis pelo espírito humano, como, por exemplo, o que se deu na alma de Nossa Senhora e na humanidade santíssima de Jesus no momento do “Consummatum est”.

Pois a morte é algo sumamente doloroso: o corpo fica em estado cadavérico — creio que a alma tenha consciência disso. Essa consciência deve coincidir com um pináculo de desdita, de infelicidade e de mal-estar no corpo, até a hora em que a alma o deixa e a pessoa morre.

Para se ter ideia do significado dessa separação, imaginemos que arrancassem de nossos dedos as primeiras falanges, depois as segundas e por fim as terceiras. Que dor sentiríamos? No entanto, esta dor seria muito menor do que a causada pela morte!

“Stabat Mater Dolorosa”

Somados aos sofrimentos próprios da morte, teve Nosso Senhor que padecer toda espécie de torturas e atrocidades. E, por não ter as fraquezas do subconsciente, Ele sentiu até a profundidade última de sua alma essa dissociação e ruptura.

Nossa Senhora, por sua vez, conhecendo-O como ninguém e possuindo uma sabedoria superior à de qualquer outra criatura, via todas aquelas dores, o sangue correndo, a respiração arfando, a vida bruxuleando, e percebia inteiramente o tamanho daquele sofrimento.

E em meio a tantas dores Ela nem sequer se sentou, e nem desmaiou. Mas, para o esmagamento do demônio, a redenção do gênero humano e pela glória de Deus, desejou que aquilo se desse, apesar dos sofrimentos causados a seu Divino Filho e a Ela. Que dores Maria Santíssima terá suportado! Que extraordinária força de vontade Ela possuía, para passar por cima dos sentimentos mais pungentes e fazer aquilo que a Fé e a razão indicavam! Isto tudo deveria formar um tumultuar harmônico na alma d’Ela, à semelhança do som de um órgão com todos seus registros ativados. Os fenômenos mais extraordinários da pré-história da Terra dão apenas uma ideia do que foi a força de alma de Nossa Senhora naquele momento.

Quando as águas saíam das entranhas da Terra — assim imagino, pois não estou dando uma aula de Ciência, mas fazendo uma digressão —, precipitando-se e esguichando de todos os lados nos mares, deveria haver um barulho, um burburinho do elemento líquido, fenomenal e cheio de grandeza. Era uma imagem pálida da resolução que brotava do fundo do ser de Maria, ao dizer: “Ele precisa morrer, porque a glória de Deus pede! Se é a vontade do Pai que meu Filho morra, Eu O ofereço!”

Dor pela Morte; indizível alegria pela Ressurreição

Mas há ainda outro momento de incomensurável grandeza: a Ressurreição de Nosso Senhor. O corpo d’Ele trancado, uma pedra, dois guardas romanos boçais, colocados ali com lanças, couraças, para enfrentar qualquer pessoa; uma noite e um silêncio profundos dentro da sepultura, uma escuridão tão completa como igual só havia num outro lugar do mundo: a alma de Maria.

O Filho d’Ela estava morto! Não definitivamente morto, a Santíssima Virgem bem o sabia, mas Ela, que tinha assistido à Encarnação do Verbo, agora presenciava o estraçalhamento! Podemos imaginar o que Nossa Senhora sentiu na hora da Morte de seu Divino Filho. A dor daquele pecado cometido e daquela separação consumada! E o que nunca deveria estar dissociado, ali estava separado, no escuro, abandonado pelos homens.

Nossa Senhora, entretanto, quando chegou a hora decretada pela sabedoria e bondade de Deus, viu uma luz sobrenatural entrando naquelas profundidades do sepulcro, os anjos afluindo às miríades e, de repente, o Corpo de Jesus estremecer…

Não é verdade que isto se parece com a Criação? E que entre o cadáver d’Ele e o corpo de Adão, feito para receber a alma, há analogias celestes?

Podemos imaginar o frêmito, o sobressalto de Maria Santíssima. Creio que nesse momento Ela se tenha levantado alguns passos acima do chão, ficado estática e talvez brilhado com uma luz extraordinária. É perfeitamente possível que tenha cantado o Magnificat!

Nossa Senhora, Rainha do universo

Este é o verdadeiro método para se ter ideia de quem é Maria Santíssima. Ela está no Céu, em corpo e alma, se digna conhecer o que estamos dizendo neste momento e de estar agindo, por meio da graça, na alma de cada um de nós, para inteligir, querer e sentir o que deve.

E Ela conhece incomparavelmente melhor o que está se passando, por exemplo, em mim ou em qualquer um dos presentes neste auditório, do que nos conhecemos uns aos outros, ou até mesmo o que ocorre em cada um.

Através do método de se fazer uma relação entre as coisas estupendas do universo e a Virgem Maria, pode-se, por exemplo, ao ver um rio que calmamente muda de direção, pensar em Nossa Senhora, Rainha do universo, a qual dá o rumo do rio da História e, de vez em quando, de modo sereno altera sua direção para sair uma maravilha maior.

Quando observamos uma cascata, cujas águas se precipitam e assim se purificam, reportamo-nos a Maria Santíssima intervindo nos acontecimentos e fazendo com que o curso da História seja purificado.

Falei do gáudio que teríamos ao ver as combustões do céu; podemos também imaginar nossa alegria se contemplássemos as chamas do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria. Enfim, contemplando as criaturas, podemos fazer mil analogias com Nossa Senhora.

Maria e as vitórias da Santa Igreja ao longo da História

E considerar uma operação de Deus sobre as coisas, comparando com a ação da alma d’Ela, nas grandes ocasiões da História.

São Gregório VII excomungando o Imperador Henrique IV. Um a um os liames feudais no Sacro Império Romano Alemão iam se desfazendo. Ninguém empurra o Imperador, aos pontapés, para fora de seu palácio, mas sucede algo muito pior: o palácio se esvazia, de maneira que não havia mais criados para servi-lo. Todo o mundo o abandonou, no meio da sua pompa inútil. E o seu império cessou pela excomunhão do Vigário de Cristo!

Que é o poder das armas? Dois mil, cinco mil, dez mil — os exércitos naquele tempo eram pequenos — cinquenta mil homens em armas… Um ancião — colocado no castelo de Canossa, pertencente à Condessa Matilde, da Toscana — excomunga e declara dissolvidos os vínculos feudais; um império inteiro para de funcionar, porque esse ancião é sucessor daquele a quem foi dito: “Tu és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.”

Então o Imperador consegue convencer alguns para o seguirem, porque explica que vai pedir perdão e precisa de ajuda para poder atravessar os Alpes. Coisa dificílima! Hoje se sobrevoam os Alpes… Ele sai num trenó, durante o inverno, talvez acompanhado de três ou quatro servidores, que têm horror do homem a quem servem, e o conduzem quase como a um leproso com o qual ninguém quer se contagiar. Sobem e descem montes, passam por precipícios, correm riscos de vida e Henrique IV não tem certeza de sua própria contrição; sabe, entretanto, que se ele morrer sem contrição, mas por mera atrição, pode ir para o inferno! E pede Àquela a quem ele ofendeu que o proteja e perdoe, de maneira a poder chegar à fonte de todo o perdão: o ancião venerável a quem ele insultou.

Por fim, Henrique IV chega a Canossa, mas encontra fechadas as portas do castelo. Oh! A grandeza dessas portas fechadas! Oh! A magnificência desta decisão de São Gregório VII: “Não perdoo, não te restaurarei no império! Absolverei a tua pobre alma, quiçá para uma vida de penitente. O diadema imperial, não o terás mais na fronte. Esta fronte pecou e sobre ela a glória máxima da ordem temporal não pousará!”

Durante quatro dias e quatro noites, ele fica ajoelhado na neve e pedindo! Afinal, as portas se abrem e se faz a reconciliação. Entoam-se hinos, há grande alegria e se restabelece a ordem normal das coisas: a vitória da Religião sobre a ordem temporal, a vitória do sobrenatural sobre o natural, a vitória do espírito sobre a matéria. Quantas vitórias mil vezes mais gloriosas do que a de um país sobre outro! Vitórias ordenativas de todo o conjunto humano.

À medida que eu falava, vi os corações de vários de meus ouvintes se encherem de entusiasmo, e Nossa Senhora gostou disso. Como se terá entusiasmado o Coração d’Ela, quando se passou esse fato?

Como seriam as labaredas do Coração dulcíssimo de Nossa Senhora, quando Godofredo de Bouillon e os dele saltaram por cima das muralhas de Jerusalém e entraram?

E vendo os missionários chegando num país onde não há Fé e que começam a pregar a Religião católica e ela começa a nascer?

Anchieta e Nóbrega vêm ao Brasil e iniciam a pregação — estou falando do Brasil, mas poderia apresentar outros exemplos —; o País começa a nascer e a se mover. Mais bela do que a natureza mineral, a vegetal, a animal e do que o próprio homem, era a graça que vinha pelas mãos dos missionários e conduzia as pessoas para a vida sobrenatural.

Maria Santíssima percebeu que isto era mais pulcro do que tudo quanto se tinha passado anteriormente. Anchieta, ameaçado pelos índios, canta as glórias d’Ela, escrevendo em latim um poema e decorando-o. O mar não ousa tocar nas areias sobre as quais o texto estava redigido. Nossa Senhora sorri, vendo o filho bem-amado do qual nasceria a evangelização deste País.

Que labareda, talvez áurea ou azulada, sairia do Coração de Maria!

E gotas de graças caindo! Já não é o dramático, o espetacular e o apocalíptico, mas outra forma de manifestação: o gracioso, o materno, o afável, o leitoso de certas pedras, o suave de alguns cristais, a brisa de auroras que havia no Coração d’Ela. Todas as modalidades possíveis de brisas que sopraram na Terra não têm o encanto de um só sorriso de Maria!

Quantos sorrisos Nossa Senhora dirigiu a Anchieta, que evangelizava este País!

A maternalidade de Maria Santíssima! O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. O Homem-Deus é Filho d’Ela, e Nossa Senhora nos ama por causa disso. Quando sofremos, Ela tem pena de nós. Quanto isto é magnífico! Sobretudo quando pecamos, Ela tem compaixão de nós. E é mais magnífico ainda.

Porque, quando sofremos, o sofrimento não nos torna inimigos de Maria Santíssima. Até, pelo contrário, quebra em nossa alma certa autossuficiência e tendência ao orgulho. Mas, quando pecamos, nós rompemos com Ela de um modo criminoso.

Nossa Senhora previu tudo isso quando estava na Terra e teve dor, porque Ela pensou: “Essa alma, maravilha criada por Deus, que meu Filho resgatou com aquelas gotas de Sangue incomparáveis que Eu vi florescerem n’Ele aos borbotões, agora vai se perder?” De modo semelhante ao gemido de Nosso Senhor: “Quae utilitas in sanguine meo? – Que utilidade tem o meu Sangue?”, Maria Santíssima diz: “Qual a utilidade do Sangue de meu Filho?”

Então Nossa Senhora pede a Jesus, pelo amor d’Ele ao pecador — o Redentor ama aquele que não O ama mais —, que lhe consiga a graça de atender ao que esta diz em sua alma: “Meu filho, converta-se! Meu filho, abra os olhos! Meu filho, tenha juízo! Meu filho, volte a ser meu!” E às vezes com insistências tão prementes que se diria que a alma está literalmente sitiada. Quantas doçuras cabem nisso! Quanto saber fazer! Quanta misericórdia e compreensão! Quanto esgueirar-se pelas anfractuosidades de uma alma, para se adaptar a tudo!

A participação d’Ela na Igreja Militante e na Igreja Penitente

Todas essas operações o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria está fazendo no Céu e na Terra. Porque Nossa Senhora conhece, mais do que qualquer bem-aventurado, o que se passa em Deus, e Ela reage no suprassumo da elevação e da perfeição. E preside, dirige, rege tudo quanto sucede no Céu! Sabe o que se passa em todas as criaturas da Terra. Conhece a vida da Igreja Militante e, com esta intensidade, participa de tudo o que acontece.

Mais ainda, Ela conhece a Igreja Penitente e vê todas as dores no Purgatório.

Em tudo isto Nossa Senhora está continuamente presente, à maneira de uma brisa, um vulcão, um céu, um sol, um diamante, uma águia, uma pomba, um cordeiro, um leão. Ela é tudo! Muito mais do que tudo, Ela é a Virgem Maria, Mãe de Deus!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/11/1979)

1) Informe e vazia. Cf. Gen 1,2.

22 de agosto – Vós sois Rainha

Vós sois Rainha

“Em mim, ó minha Mãe, Vós sois Rainha. Eu reconheço o vosso direito e procuro atender às vossas ordens.

Dai-me ‘lumen’ de inteligência, força de vontade, espírito de renúncia para que as vossas ordens sejam efetivamente obedecidas por mim. Ainda que o mundo inteiro se revolte e Vos negue, eu Vos obedeço.”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/5/1975)

22 de agosto – Rainha dos Apóstolos

Rainha dos Apóstolos

Como Nossa Senhora exercia sua realeza sobre os Apóstolos?

A situação era, debaixo de todos os pontos de vista, delicada; uma dessas situações que a sabedoria divina, por assim dizer, se empenha em resolver com brilho especial. A Santíssima Virgem era Rainha do Céu e da Terra. Portanto, Rainha e Mãe da Santa Igreja Católica. Porém, na Igreja, Ela não possuía um cargo especial de jurisdição.

Quer dizer, a Hierarquia Católica foi, desde o primeiro instante, constituída essencialmente pelo papa, pelos bispos e pelos sacerdotes incumbidos de participar, com os bispos e sob a ordem destes, do governo da Igreja. Ora, Nossa Senhora, sendo do sexo feminino, não podia pertencer à Hierarquia. Isso criava, então, uma situação bonita e complexa: Ela era Rainha da Igreja, mas na Igreja era súdita daqueles de quem Ela era Rainha. E Maria Santíssima devia prestar, enquanto membro da Igreja discente, homenagem, reverência, obediência àqueles de quem Ela era Rainha.

Mas, de outro lado, ponham-se, por exemplo, na posição de São Pedro — o Chefe da Igreja, o Príncipe dos Apóstolos: dar ordens a Nossa Senhora, sua Rainha? Ele ordenava e Ela obedecia. Mas, pensem um pouco… Que Rainha!

Imaginemos — para termos uma pálida ideia dessa situação — que a esposa de um rei fosse, de repente, parar numa ilha que é dirigida por um governadorzinho qualquer das terras de seu marido. A função de governador é dele, a rainha reinante propriamente não governa. Mas como ele vai dispor a respeito da rainha?

E essa comparação não é inteiramente verdadeira. Porque Nossa Senhora não era Rainha apenas, mas Esposa do Divino Espírito Santo e Mãe do Rei da Igreja, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela possuía uma autoridade de outra natureza, de outro tipo, sobre a Igreja Católica.

Ela obedecia a São Pedro, de uma obediência efetiva, humilde, enlevada, cheia de entusiasmo; nunca ninguém obedeceu melhor à Sagrada Hierarquia do que a Santíssima Virgem, porque, sendo a obediência à Sagrada Hierarquia uma virtude essencial, então Nossa Senhora a praticou de um modo inconcebivelmente perfeito. Mas, de outro lado, Ela possuía esse reinado sobre as almas dos Apóstolos, que Ela exercia de modo perfeito.

Quer dizer, Nossa Senhora tinha um conhecimento, antes de tudo, profundo, bem entendido, sobrenatural, da mentalidade de todos os Apóstolos, sacerdotes e discípulos de Nosso Senhor. Ela privava, conversava com eles.

O que era esse conversar? Não pensemos que consistia apenas numas consultinhas. Devia ser normalmente um trato por onde eles e Nossa Senhora discorriam; não iam eles contar novidades insípidas, banais, mas falavam das coisas de Deus e de tal maneira que havia uma comunicação de alma, propriamente uma conversa.

Naturalmente, compreendemos como seria a conversa de qualquer pessoa com Nossa Senhora. Quer dizer, a pessoa balbucia alguma coisa e Ela se põe a falar. O resto é enlevo, veneração, admiração, é absorção e tudo quanto podemos imaginar.

Mas eles também diziam algo. Não eram solilóquios em que apenas Ela falava. Eles conversavam. E, como boa Mãe, Maria Santíssima gostava de ouvir o que eles tinham a dizer. E Ela sabia qual a missão de cada um na Igreja, porque conhecia o passado, o presente e o futuro; na economia da Providência, Nossa Senhora conhecia não só a função que eles tinham, ou teriam, mas o que Deus queria que fizessem: de um, que convertesse um povo; de outro, que morresse lapidado; de outro, que construísse uma igreja; de outro, que transpusesse o mar e fosse fundar uma cristandade num ponto remoto.

Conhecendo tudo isso, em todo trato que tinha com eles, Ela ia dispondo a alma de cada um de acordo com os desígnios de Deus. Daí decorria um convívio lindíssimo, maravilhoso, que os Apóstolos e os que se aproximavam d’Ela sabiam notar e respeitar no mais alto grau.

Vemos assim o efeito de Pentecostes. Os Apóstolos, que tinham tratado com Nosso Senhor, foram tão frios com o Redentor na hora extrema; dir-se-ia que não entenderam Nosso Senhor. Mas depois de terem recebido o Espírito Santo, a vista deles ficou inteiramente clara; conhecendo a Mãe de Deus, insondavelmente perfeita, mas infinitamente inferior a Nosso Senhor Jesus Cristo, eles, entretanto, sabiam admirá-La, dar-Lhe o apreço e a veneração que deviam.

Assim, na Igreja nascente Ela irradiava, para um círculo inicial de pessoas, toda essa beleza. Houve, então, um altíssimo grau de devoção a Nossa Senhora. E a primeira expansão da Igreja foi intensamente iluminada por este fogo maravilhoso: a presença e a ação de Maria Santíssima.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 31/5/1972)

21 de agosto – Fortaleza e suavidade

Fortaleza e suavidade

São Pio X realizou maravilhosamente, em sua vida, a síntese de dois aspectos do Catolicismo: fortaleza e suavidade. Acolhedor e afável para os bons e os verdadeiramente arrependidos, foi o martelo inexorável das heresias, não regateando os golpes com que feriu os propagandistas do erro. É este mesmo Papa doce e amável quem acumula, em suas encíclicas, as expressões duras e contundentes contra os semeadores da mentira e da discórdia.

Ainda aí havia a inenarrável suavidade do pastor que, por amor de suas ovelhas, acomete corajosa e intrepidamente, sem cuidar de si, a matilha dos lobos esfaimados.
O Modernismo, por exemplo, se apresentava com esta nota inédita: a primeira heresia que não abria luta declarada contra a doutrina oficial, mas se confundia habilmente em manejos tortuosos, procurando aninhar-se no seio da Igreja. Foi São Pio X quem, de espada em punho, saiu a desentocar essa serpente.
Entretanto, embora ferido de morte, o Modernismo ainda continua a empestar os ambientes católicos. Certas mofas contra o valor da apologética, a incoerência em que se diluem os conceitos mais elementares e principalmente tanto laxismo que corre o mundo sob capa de caridade não passam de autêntico Modernismo.
Que as virtudes do grande Papa sejam um estímulo e exemplo para os que combatem os erros da era presente.


(Extraído de O Legionário n. 488, 18/1/1942)