05 de abril – Dique levantado contra a Revolução

Dique levantado contra a Revolução

No século XIV havia grande putrefação do clero, cuja consequência era a corrupção dos fiéis. Assim, toda a Idade Média entrava em deterioração moral, com uma explosão de orgulho e de sensualidade, a qual geraria depois os desvios intelectuais. Contra esses vícios lutou São Vicente Ferrer.

 

Devemos comentar uma ficha referente a São Vicente Ferrer. Sobre ele diz o Padre Rohrbacher(1):

Repreendia os vícios não só do povo, mas dos príncipes e prelados

Vicente Ferrer nasceu na Espanha, em 1357. Sua vocação foi anunciada a seus pais de forma miraculosa, antes de seu nascimento. Ao seu Batismo acorreu toda a cidade de Valência, sendo seus padrinhos os membros do Conselho Municipal. Entrou para a Ordem Dominicana aos dezoito anos, revelando logo rara inteligência e dotes para a pregação.

Em 1405, o Papa Bento XIII chamou São Vicente Ferrer a Gênova, onde este santo pregador recebeu do doge grandes demonstrações de respeito e consideração. Mas como lhe pedissem que usasse do crédito que tinha ante esse magistrado para que salvasse a vida de um homem de Valência, condenado à morte por seus crimes, demonstrou São Vicente tanto zelo pela justiça que, embora o criminoso fosse de seu país, julgou que não devia interceder por um homem que não merecia. Tudo que fez foi pedir que mudassem o gênero de seu suplício.

Vemos aqui a ideia oposta à que a “heresia branca”(2) quer inculcar sobre como deve ser necessariamente um Santo. Sem dúvida, é próprio a um Santo pedir que seja indultada uma pessoa ameaçada pela pena de morte. Mas isto desde que haja propósito, uma razão de ser. Não havendo, o Santo não o faz porque ele procede em tudo com conta, peso e medida e, sobretudo, sabe haver circunstâncias nas quais a pena de morte não só é indicada, mas não deve ser revogada.

É o contrário da noção que muitas pessoas têm de um Santo. Para essas, a pena de morte é intrinsecamente má e um Santo deve sempre pedir que não seja aplicada. Segundo essa mentalidade, quem for solidário com a execução da pena de morte passa por ser um indivíduo necessariamente de mau coração. Não é um “homem de boa vontade”, para usar a expressão tão cara e deturpada em nossos dias. Aqui temos uma colisão entre o procedimento de um Santo e as ideias da “heresia branca” a respeito de santidade que circulam por aí.

Repreendia São Vicente, com uma autoridade cheia de audácia, os vícios não só do povo, mas ainda dos príncipes e prelados. E não perdoava ninguém cuja conduta escandalosa era digna de reprovação. Entretanto, tinha certa moderação e cuidado para com os eclesiásticos, para salvar a honra de seu caráter, fazendo a reprimenda em particular. Fazia o mesmo com as religiosas que tinham dado margem para que falassem pouco lisonjeiramente de suas condutas.

Evidentemente, sendo possível repreender em particular é muito melhor. Porém, uma pessoa imbuída da mentalidade “heresia branca” objetaria: “Um Santo não repreende prelados, porque acha que todos eles são santos…”

Deve-se estudar para dar glória a Deus e santificar a própria alma

Conselhos de São Vicente aos que estudam: quereis estudar de maneira a vos ser útil? Que a devoção vos acompanhe em todos os vossos estudos e vosso fito seja alcançar a santificação, e não a simples habilidade.

Essa é uma recomendação muito importante. Quer estudar bem? Não deve fazê-lo simplesmente por estudar, porque este é um espírito superficial que não encontra nem aprende nada verdadeiramente. Deve-se estudar para conhecer, em última análise, Deus Nosso Senhor, com vista a Lhe dar glória e a santificar a própria alma.

Consultai mais a Deus do que aos livros e pedi-Lhe com humildade a graça de compreenderdes o que ledes.

Consultar mais a Deus do que aos livros significa rezar e considerar as coisas em função do Criador. Devemos, pois, pedir o auxílio divino e analisar tudo em relação a Ele. Este pensar, remoer e remexer as cogitações internamente, relacionando todas as coisas com o Onipotente, é mais importante do que ler e constitui uma das formas de oração, porque é elevar a mente a Deus.

O estudo fatiga o espírito e seca o coração: ide de quando em quando reanimá-lo um tanto aos pés de Jesus Cristo. Alguns momentos de repouso em suas chagas sacrossantas vos dão renovado vigor e novas luzes. Interrompei vosso trabalho com jaculatórias.

O que ele diz a respeito de jaculatórias de vez em quando, suspender o estudo para meditar nas chagas de Nosso Senhor é tão verdade que pode ser considerado com mais amplitude. Ao estudar, se é um estudo puramente técnico, devemos de vez em quando interrompê-lo para pensar em algo elevado, que nos conduza a Nossa Senhora, ainda que seja uma coisa terrena: algum belo lance da História da Igreja ou da Civilização Cristã; algum belo aspecto da arte católica, etc., para distender o espírito.

Isto, por sua vez, é o contrário do que se chama “mentalidade politécnica”. Entretanto, há também um modo “politécnico” de fazer jaculatórias. É o seguinte: “Vou fazer de dez em dez minutos uma jaculatória.” É incomparavelmente melhor do que não fazer, mas não é o modo ideal, porque a jaculatória deve corresponder a um anseio da alma. Quando a alma não sente esta necessidade, então se faz de dez em dez minutos, empregando o princípio de que “quem não tem cão, caça com gato”. Ainda assim é muito bom, porém o verdadeiro é sentir essa necessidade de alma, de vez em quando, e fazer jaculatórias.

Que a oração, enfim, preceda e termine vosso trabalho. A Ciência é um dom do Pai das luzes. Não a olheis, pois, como obra de vosso espírito e de vosso talento.

De fato, a maior parte das pessoas considera que o seu enriquecimento cultural é fruto do próprio espírito e talento. Ora, precisamente essas enganam-se de um modo cabal.

Em suas pregações falava contra o pecado, sobre o juízo de Deus, o Inferno

Vicente acompanhou o Cardeal Pedro de Luna a Avignon, sendo que algum tempo depois este foi eleito Papa sob o nome de Bento XIII, na época do grande cisma que dividia a Igreja. O novo Papa quis que Vicente fosse seu auxiliar, mas o Santo sabia não ser esta a sua missão. Assim, deu início à grande obra de evangelização como pregador. Percorreu a França, Espanha, Itália e Inglaterra; esta última por especial pedido do Rei Henrique IV. Os pecadores mais endurecidos não resistiam às suas palavras, assim como numerosos judeus, muçulmanos e cismáticos se convertiam.

A ignorância e a corrupção dos costumes, consequências comuns da guerra e do cisma, tornaram necessárias as missões de Vicente. Era preciso um apóstolo cuja voz terrível pudesse abalar as consciências a fim de arrancar os pecadores de suas desordens.

O Santo tratava comumente dos temas mais assustadores do Cristianismo, tais como o pecado, o juízo de Deus, o Inferno e a eternidade. Tinha, além disso, o dom de pronunciar seus discursos da maneira a mais patética. Não se contentando em ser veemente, ele falava ainda de uma maneira proporcionada à compreensão dos ouvintes. A santidade de sua vida dava nova força às suas palavras.

Sua fama chegou ao reino mouro de Granada, cujo soberano quis ouvi-lo. Entretanto, São Vicente começou a promover tantas conversões, que os ministros do rei, temerosos do que sucederia à crença muçulmana, pediram-lhe que afastasse dali o grande pregador.

Depois de uma existência toda consagrada a levar almas para Deus, pontilhada de milagres sem conta e pela luta contra o doloroso cisma de Avignon, que culminou pela condenação do antipapa Pedro de Luna e a aceitação completa de Martinho V, eleito pelo Concílio de Constança, São Vicente veio a falecer na Bretanha, em 1419, aos sessenta e dois anos de idade.

Depois dos Apóstolos, provavelmente foi o maior pregador popular

Poucas coisas são bonitas na vida dos Santos quanto situarmos a missão deles no panorama da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução.

De acordo com esse panorama, na Europa do século XIV, a Cristandade começa exatamente a entrar em declínio. Era uma decadência eclesiástica terrível que se atestava pelo fato de haver papas exilados em Avignon, sob a férula dos reis da França, um cisma tremendo. Três “papas” que se combatiam reciprocamente, dos quais, naturalmente, um só era válido. Mas tal era a confusão na Cristandade que, ao lado de cada pseudo-papa ou do papa, havia Santos que os apoiavam.

Compreende-se, para isso ser possível, o que significava de putrefação do clero, a qual trazia como consequência a corrupção dos fiéis. Assim, era toda a Idade Média que entrava em putrefação, de caráter mais moral do que intelectual. Não se tratava tanto de uma grande heresia, mas de uma deterioração moral, uma explosão de orgulho e de sensualidade que começava, a qual deveria gerar depois os desvios intelectuais que são os erros da Revolução.

Então a Providência enviou, muito adequadamente para essa época, um Santo que foi grande em sua esfera própria como, por exemplo, o foi São Tomás de Aquino na sua. Porque, se podemos dizer que São Tomás de Aquino foi o Doutor comum, o filósofo dos filósofos, o teólogo dos teólogos, o mestre dos mestres, podemos afirmar que, como pregador popular, depois dos Apóstolos provavelmente ninguém excedeu a São Vicente Ferrer. Nem mesmo Santo Antônio Maria Claret, que no século XIX foi um pregador assombroso, teve de longe a expressão de São Vicente Ferrer.

Ele dizia de si mesmo que era o Anjo do Apocalipse, que tinha vindo para anunciar a derrocada da Civilização Cristã e o começo do fim do mundo. Com efeito, ele lutou enormemente para a moralização dos costumes, com vistas a sustar essa decadência moral.

O Santo oposto à tibieza

Nesse sentido essa ficha é muito sintomática porque fala de conversões de judeus, maometanos, hereges, mas as menciona como fatos colaterais, de uma importância menor dentro do conjunto da obra dele. Enquanto o grande acontecimento era o poder de sua pregação pela qual ele sacudia as consciências meio adormecidas, sendo assim, por excelência, o Santo oposto à tibieza, porque esse tipo de pregador que fala a respeito do Inferno, dos pecados, que tonitrua, pede o castigo do Céu, é exatamente o Santo chamado para falar, não às almas fervorosas, mas sobretudo às tíbias, e feito para sacudir aquelas que de outro modo não se podem convencer. Então se compreende o número colossal de conversões operadas por ele.

Contudo, por mais numerosas que tenham sido, essas conversões foram insuficientes. Delas não surgiu um movimento, uma corrente organizada para combater a Revolução que nascia. O resultado é que São Vicente Ferrer converteu muitas almas, mas não a Cristandade, não converteu a sociedade enquanto tal, pois ele não foi tão ouvido pelos homens de seu tempo quanto eles deveriam tê-lo escutado.

Então, São Vicente Ferrer foi o dique que a Providência levantou contra a Revolução, mas que a maldade dos homens destruiu. Entretanto, na abertura dessa torrente que começa a cair para o abismo, fica de pé a figura grandiosa dele, anunciando as catástrofes que provinham do fato de ele não ter sido ouvido, exatamente como a de um profeta do Antigo Testamento anunciando desgraças ao povo eleito porque não tinha dado atenção aos enviados de Deus.

Assim fica a imensa figura de São Vicente Ferrer pairando no firmamento da Igreja, num pórtico que é o fim da Idade Média e pode ser considerado o começo da Revolução.          

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 4/4/1966 e 4/4/1967)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

 

1) Cf. ROHRBACHER, René-François. Histoire Universelle de l’Église Catholique. Paris: Librairie Louis Vivès, 1901. v. X, p. 39-110.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

05 de abril – Como um profeta do Antigo Testamento

Como um profeta do Antigo Testamento

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:

— Irmão Vicente, e a vaidade?

— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.

A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação”. E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade”.

Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.

De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.

Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/1/1970)

05 de abril – Esvoaça do lado de fora, mas não entra

Esvoaça do lado de fora, mas não entra

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:

— Irmão Vicente, e a vaidade?

— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.

A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação”. E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade”.

Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.

De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.

Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/1/1970)

04 de abril – Santo Isidoro de Sevilha e a virtude nas boas maneiras

Santo Isidoro de Sevilha e a virtude nas boas maneiras

A compostura, o modo de andar, a gravidade nos gestos, podem não ser apenas meras atitudes externas, mas o reflexo de uma alma virtuosa. Verdade esta freqüentemente esquecida pelos adeptos desenfreados do estilo “descontraído” e “espontâneo”, porém lembrada de modo persuasivo nas palavras de Santo Isidoro de Sevilha, aqui comentadas por Dr. Plinio.

Comemora-se no dia 4 deste mês a festa de Santo Isidoro de Sevilha, Arcebispo, Confessor e Doutor da Igreja. Dele diz o martirológio ter sido insigne pela santidade e doutrina. Engrandeceu toda a Espanha com seu zelo pela fé católica e observância da disciplina eclesiástica. Considerado um dos homens mais doutos de sua época, lutou tenazmente contra os arianos(1). Irmão de São Fulgêncio, Bispo de Cartagena, de Santa Florentina, religiosa e de São Leandro, a quem sucedeu no arcebispado de Sevilha.

Sábios conselhos de um santo

Faço notar, antes de tudo, a beleza encantadora presente numa floração simultânea de santos como se deu na família de Santo Isidoro. Nas Obras escolhidas deste Doutor da Igreja há um capítulo intitulado Lamentações de uma alma pecadora, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Em todos os teus atos, em todas as tuas obras, e em todo o seu trato, imita os bons, emula os santos, tem diante de teus olhos o exemplo dos mártires, considera os exemplos dos justos, imitando-os; que o exemplo dos santos e os ensinamentos dos Padres sejam para ti incentivo de virtude. Tem bom espírito, guarda tua boa fama e não a diminuas com nenhuma ação e não a deixes cair em descrédito.

“Demonstra o que professas em teu porte e andar. Haja em tua apresentação a simplicidade; em teu movimento, a pureza; em teu gesto, a gravidade; em teu passo, a honestidade. Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente. Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não te prestes a ser espetáculo dos outros; não permitas que te denigrem; não te unas a pessoas vãs.

“Evita os maus, rechaça os indolentes. Foge das reuniões excessivas com homens, mormente dos que, por sua idade, são mais inclinados aos vícios. Acompanha-te dos bons, deseja sua companhia. Busca o convívio dos bons, junta-te aos santos. Se fores partícipe do seu trato, também o serás de sua virtude. O que caminha com os sábios, será sábio; o que caminha com os estultos, será estulto, pois os semelhantes gostam de reunir-se aos semelhantes. É perigoso viver entre os maus, é pernicioso acompanhar-se daqueles que têm vontade perversa. Tu te nutrirás de sua infâmia se te juntas com os indignos. É melhor sofrer o ódio dos maus que a sua companhia. Assim como muitos benefícios traz consigo o viver com os santos, assim muito mal traz a companhia dos maus, pois aquele que toca um imundo, é por ele contaminado.”

Devemos espelhar o que há de bom em nossa alma

Desse lindo trecho de Santo Isidoro de Sevilha devemos destacar, em primeiro lugar, o aspecto profundamente “ambientes e costumes”(2), quando fala do modo de apresentação do homem, da forma pela qual convém se externar aos olhos dos outros. Toda pessoa precisa compor para si um personagem. Ninguém deve ser inteiramente espontâneo — como pretendem certas pessoas “modernas” — no sentido de que sua presença exterior seja sugerida simplesmente por seus movimentos desalinhados, desataviados, incontrolados.

Em seu modo de ser, de olhar, andar, por seu porte e seu procedimento geral, o homem necessita procurar espelhar aquilo que há de bom em sua alma. Nem sempre as qualidades morais transparecem de maneira natural. Muitas vezes, alguém possui grandes virtudes, mas estas não se refletem no seu exterior se ele não tomar cuidado em manifestá-las e reprimir atos espontâneos que possam dar impressão do contrário.

E quanto aos nossos defeitos de alma, temos obrigação de evitar que transpareçam, não por hipocrisia e vaidade, mas por compostura, respeito aos outros e, sobretudo, a Deus, convictos de que o mal não tem direito de se expor à luz do sol.

Portanto, cada um tem necessidade de compor para si mesmo uma linha de conduta externa, um conjunto de gestos, de frases, de vocabulário, de modos de olhar, de ser, que são expressões autênticas de muitos aspectos de sua alma.

Isto não seria assim se o homem fosse concebido sem pecado original. Porém, tendo havido a queda de Adão, é preciso esse esforço. Por isso, nas civilizações que atingem certo grau de perfeição, ensina-se às pessoas a terem porte, maneiras e a constituírem para si seu próprio personagem. Lembro-me que o inimitável Saint-Simon(3) dizia: “Fulano transpõe os umbrais de uma porta com total inconsequência”. A expressão é muito interessante, porque todo limiar de porta que se ultrapassa, em si tem conseqüência. O umbral é um marco.

Noutra feita, criticando os modos de determinada pessoa, afirmava ele: “Trata-se de um homem a quem não se ensinou a dançar…”. As danças daquela época — que nada têm de comum com as de hoje — eram de alta compostura, superior finura de porte e apresentação, e proporcionavam ao indivíduo a arte de ter boas maneiras em tudo. Compreende-se, assim, o pensamento, a doutrina que estavam subjacentes a essas frases de Saint-Simon.

Incentivo à prática da virtude

Afirma Santo Isidoro: “Demonstra o que professas — quer dizer, o que pensas, o que és — em teu porte e andar”. Como se pode obter isso sem estudar uma postura e modo de caminhar adequados? Essa recomendação indica ser necessário o controle de si mesmo e que há certas maneiras de andar e de se portar significativas de algo bom e outras de alguma coisa má. Portanto, tal conselho nada tem de mundanismo. Pelo contrário, é um incentivo à prática da virtude.

Continua o Santo: “Seja tua apresentação a simplicidade”.

Simplicidade não é o mesmo que simploriedade. Aquela é o modo de ser do indivíduo não complicado nem afetado, sem ademanes e requebros inúteis. O homem simples procura ser útil, e age de maneira ao mesmo tempo intencional, produto da educação, e autêntica.

O gesto do corpo é o sinal da mente

“Em teu movimento, a pureza”.

Faço notar a beleza desta ideia! Os gestos da pessoa pura são diferentes dos da impura. Por exemplo, no volver a cabeça para atender alguém e perguntar: “O que é?”, pode-se perceber às vezes tratar-se de uma alma casta, ou então o contrário. Vê-se, pois, como é profundo o pensamento de Santo Isidoro.

Ele continua: “Em teu passo haja honestidade”. Ser honesto não significa tão-somente — como se julga hoje — não furtar. Em latim, “honestus” quer dizer composto, apresentando certa beleza, distinção e elegância.

“Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente”.

Este é um magnífico princípio que deve nortear a vida do católico. E o Santo acrescenta: “Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não prestes a ser espetáculo dos outros, não permitas que te denigrem”.

Ouçamos as recomendações de Santo Isidoro

Em seguida, Santo Isidoro fala das boas e más companhias. Tais conselhos são muito importantes para combater certo erro moderno, segundo o qual se deve fazer apostolado introduzindo-se, sem nenhuma ou com pouca prevenção, no meio dos maus. Quando alguém se infiltra entre os ímpios para evangelizar, expõe-se ao risco de se tornar mau, assim como o convívio com os virtuosos pode tornar bom quem era ruim.

Isso se aplica de modo particular aos movimentos como o nosso, dedicados a atrair as almas para Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja. Qualquer conselheiro Acácio(4) poderia dizer: “Se vocês frequentassem os ambientes mundanos, poderiam ter mais relações sociais e assim fazer maior bem”.

Ora, isso todo mundo sabe. Agir assim seria bom em tese, caso não houvesse inconvenientes: um deles, a fuligem inoculada nas almas de quem voluntariamente vive nos meios onde se ofende a Deus…

Temos aqui, então, comentadas algumas preciosas recomendações de Santo Isidoro de Sevilha, as quais devemos não apenas ouvir, mas praticar, adotando-as no nosso existir quotidiano como verdadeiros exercícios de piedade que nos façam crescer em perfeição, no amor a Deus, a Nossa Senhora e ao próximo.

1) Sectários da heresia difundida por Ario (280-336), padre de Alexandria (Egito), que negava a natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.
2) Dr. Plinio fez inúmeras exposições mostrando a importância dos ambientes e costumes para a formação ou deformação das almas. O aspecto “ambientes e costumes” de um assunto consiste em considerá-lo sob esse ângulo.
3) Duque de Saint-Simon (1675-1755), escritor francês que, em suas “Memórias”, descreveu com penetração, finura e charme a vida de corte em Versailles, na época de Luís XIV.
4) Personagem de uma obra do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900). O conselheiro Acácio dizia, de modo sentencioso, coisas evidentes.