26 de abril – Rainha do Conselho

Rainha do Conselho

Nossa Senhora foi o oráculo vivo que São Pedro consultou nas suas principais dificuldades, a estrela que São Paulo não cessou de olhar para se dirigir em suas numerosas e perigosas navegações — afirma um piedoso autor a propósito das relações de Maria com a pregação da Igreja nascente. Esse papel inspirador da Virgem Santíssima nos sugere cenas de rara beleza.

Por exemplo, Ela tendo a seu lado São Pedro, São Paulo ou São João Evangelista, explicando, interpretando e os ajudando a compreender os fatos da vida de Nosso Senhor, realçando este ou aquele episódio, espargindo assim o aroma do bom espírito que perfumava a Igreja inteira. Não sem razão, portanto, se A exalta no “Cantus Marialis” como a Rainha da prudência e do conselho, vaso de eleição, de ortodoxia, sabedoria e santidade.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

26 de abril – O bom conselho para o mundo

O bom conselho para o mundo

No momento em que a humanidade chega a uma encruzilhada, na qual se coloca para ela uma opção ineludível, é hora de pedir à Mãe do Céu seus sapienciais conselhos.

 

A opção para o mundo moderno é entre um porvir tenebroso, feito das últimas capitulações ante os extremos do erro e do mal, e o abraçar entusiástico da plenitude da verdade e do bem.

Como mover a humanidade – de tal maneira atolada no processo histórico que a vem impelindo há tantos séculos – a empreender a trajetória do filho pródigo rumo à casa paterna? Sem um possante auxílio da graça, a falar no interior de incontáveis almas, isto não se pode conseguir.

Esse bom conselho a ser proferido no íntimo de cada coração para a salvação da humanidade, que melhor modo há de obtê-lo senão implorando-se à Mãe do Bom Conselho que, por uma graça nova, converta o bárbaro supercivilizado do século XX?

Só assim poderá este, à maneira do bárbaro sub civilizado do século V, “queimar o que adorou e adorar o que queimou”. E só assim poderá ter origem uma nova e ainda mais esplendorosa era de fé.

Esse é o bom conselho por excelência que os devotos de Maria devem pedir para si e para todos os homens nos dias que correm.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Excertos de artigo publicado na “Última Hora”, de 14/5/1984. Título nosso.)

26 de abril – Uma graça que marcou a vida de Dr. Plinio

Uma graça que marcou a vida de Dr. Plinio

Em 5 de novembro de 1967, Dr. Plinio compareceu, em lugar de muito destaque, a uma Missa solene celebrada na Catedral de São Paulo. Diversos aspectos da cerimônia e do público foram filmados no interior do templo e nas suas escadarias.

Poucos dias depois, Dr. Plinio foi convidado a assistir ao documentário. Ao ver-se na tela, espantou-se por verificar quanto o seu vigor físico estava minado por alguma grave enfermidade. Ao mesmo tempo, causou-lhe pasmo a falta de percepção dos amigos mais próximos, que nada pareciam ter notado em relação a seu estado de saúde.

A ponto de completar 59 anos, em 13 de dezembro, Dr. Plinio tinha sido até então um homem robusto. Porém, o mal que nesse momento o abalava se agravaria rapidamente nos dias seguintes.

A descrição do que se seguiu é extraída, com ligeiras adaptações, da excelente obra “Dona Lucilia”, de autoria de João Clá Dias:

No dia 1º de dezembro daquele ano, Dr. Plinio cancelou sua costumeira conferência semanal, saindo de casa somente à tarde, para comungar no Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ao descer do automóvel, causou surpresa ao ser visto caminhar com o auxílio de bengala e calçando no pé direito um leve chinelo. Tinha a fisionomia muito abatida. Entretanto, com sua invariável finura, em nada deixava transparecer, aos que o cumprimentavam, seu mal-estar físico.

No dia seguinte, um domingo, não encontrou forças para sair de casa a fim de cumprir o preceito, sendo-lhe levada a Sagrada Comunhão. Uma pessoa que teve a oportunidade de estar com ele de manhã e à tarde, contou ter-se impressionado, ao cumprimentá-lo, com a elevada temperatura de sua mão. Nos dias subsequentes, a febre ultrapassaria a casa dos trinta e nove graus. Apesar disto, Dr. Plinio mantinha inalterável amenidade, nobreza e distinção de trato, tal qual aprendera de sua extremosa mãe, Dona Lucilia.

Narrações feitas por ele próprio, tempos depois, revelam a grande provação que nessa ocasião enfrentava:

“Quando me apareceu esta espécie de abscesso, imediatamente me lembrei do pensamento que tivera assistindo ao documentário. Parecia-me que algo de absurdo se realizava. Vi-me obrigado a passar alguns dias em casa, envidando, porém, todos os esforços para que mamãe nada percebesse. Minha penosa deambulação era feita com o auxílio de alguns apoios. Lembro-me que uma vez mamãe estava sentada à mesa, à minha espera, e eu, ao passar pelo hall, escorreguei e caí. Minha febre já estava altíssima. Pensei: O que eu pressentia está se realizando. Estou com uma grave enfermidade, serei obrigado a chamar médicos, que me apresentarão um terrível diagnóstico…”

De fato, na manhã do dia seguinte, segunda-feira, Dr. Plinio recorreu aos médicos e viu-se introduzido num túnel, à primeira vista, sem saída. Os resultados dos exames de laboratório revelaram uma forte crise de diabetes. Foi-lhe determinado repouso absoluto, regime alimentar restrito, remédios e controle glicêmico para rapidamente serem debelados os distúrbios orgânicos produzidos pela enfermidade. Entretanto, restava um problema não menos trágico: uma gangrena em seu pé direito.

“Deus qui ponit pondus…”

Os primeiros curativos foram feitos pelos médicos na própria residência de Dr. Plinio. Depois chamaram um especialista, que concluiu ser necessária uma urgente cirurgia para extinguir a grave infecção.

Naquela mesma noite, com os devidos cuidados, Dr. Plinio foi transladado ao Hospital Sírio-Libanês, onde foi operado. Ali permaneceria ele para alguns dias de convalescença.

Às vezes, as graças mais insignes nos são dadas em meio aos males que, com a permissão da Providência, sobre nós se abatem: “Deus qui ponit pondus, supponit manum” — “Deus ampara com a mão aquele a quem prova”. Em 16 de dezembro, Dr. Plinio recebeu de um amigo, vindo de Roma, um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano. Ele próprio descreve, com palavras impregnadas de filial e amorosa gratidão à Santíssima Virgem, esse episódio de transcendente significado para sua vida espiritual:

“Algum tempo antes desses fatos, eu me pusera a ler incidentemente o livro “La Vierge Mère du Bon Conseil” (“A Virgem Mãe do Bom Conselho”), de Mons. Georges F. Dillon 1 . E, durante a leitura, experimentava em minha alma uma sensível consolação.

“Tendo viajado à Itália, antes que eu adoecesse, meu amigo, Dr. Vicente Ferreira, teve a gentileza de me trazer de Genazzano uma estampa representando o venerando quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho. Essa estampa me chegava no momento de uma provação espiritual que me fazia sofrer muito mais do que a enfermidade física. […]

“Circunstâncias que não vêm a propósito mencionar davam-me a certeza de estar nos desígnios da Providência que [nossa] entidade realizasse uma larga ação no Brasil e em toda a América do Sul, e ainda nos demais continentes, em prol da Cristandade.

“De outro lado, estava eu certo de que meu falecimento naquela conjuntura acarretaria a ruína do esforço que começava a vicejar com vigor. E que eu desejava ardentemente levar a cabo para a maior glória de Nossa Senhora, antes de morrer. Daí um estado de verdadeira ansiedade a propósito das incertezas de minha situação clínica e cirúrgica”.

Nesse momento de grande perplexidade é que veio ter às mãos de Dr. Plinio a aludida estampa. Continua ele a narração:

“Quando a fitei, tive a inesperada impressão de que a figura de Nossa Senhora, sem mudar embora em nada, exprimia para comigo inefável e maternal doçura, que Ela me confortava e me incutia na alma — não sei como — a convicção de que a Santíssima Virgem me prometia que eu não morreria sem ter realizado a obra desejada. O que me invadiu de suavidade a alma.

“Hoje em dia conservo intacta essa convicção. E, pelo favor de Nossa Senhora, essa obra tem prosperado admiravelmente, autorizando a esperança de que alcance sua meta.

“Quando fui agraciado com o sorriso-promessa de Nossa Senhora de Genazzano, nada disse aos circunstantes. Só muito mais tarde falei disto a amigos. Dois destes, que me faziam companhia no hospital quando recebera a estampa, ao ouvirem minha narração, disseram que haviam notado que a figura da Mãe do Bom Conselho me fitava com muito comprazimento, o que lhes chamara muito a atenção”.

Pedindo a graça da perseverança

Até aqui, a narração extraída da obra “Dona Lucília”, de João Clá Dias. Eis um dado que convém notar: a devoção a Nossa Senhora do Bom Conselho, que caracterizaria as últimas três décadas de vida de Dr. Plinio, havia lançado muito antes uma semente na alma do virtuoso varão.

Sim, pois já na sua infância, conhecera Dr. Plinio a devoção à Virgem de Genazzano, quando estudava no Colégio São Luís, dos jesuítas. Na capela do estabelecimento se encontrava uma reprodução, aliás milagrosa (ver box 2), do famoso afresco da Mãe do Bom Conselho. Vejamos como, certa vez, Dr. Plinio o recordou:

Eu me lembro de que várias e várias vezes, nos meses de maio, todos os alunos eram convidados a comparecer à capela para festejar o mês de Maria, o que se fazia com uma bênção do Santíssimo Sacramento e cânticos em louvor da Santa Mãe de Deus. Recordo-me ainda bem que um dos hinos começava assim: “Neste mês de alegria, tão lindo mês de flores, queremos de Maria celebrar os louvores…”.

Toda a minha geração de alunos do São Luís passou por essa imagem. E eu numerosas vezes rezei com aflição diante dela, pedindo a graça da minha perseverança.

Contudo, essa devoção de Dr. Plinio a Nossa Senhora do Bom Conselho no tempo de infância não lhe havia marcado a vida como ocorreu cinqüenta anos mais tarde, em dezembro de 1967. Foi uma ação tão profunda da Santíssima Virgem em sua alma, que ele, quando instado por seus discípulos, o recordará cheio de gratidão, sempre aproveitando para incutir em todos a mesma confiança inabalável e filial na Mãe do Bom Conselho. As palavras seguintes são de uma de suas últimas conferências, feita poucos meses antes de falecer:

Aquela foi uma situação estritamente individual, que exigiu de minha parte um ato de confiança todo especial. Há provações que são do gênero do que esperávamos, e por isso achamos natural atravessarem o caminho de nossa vida. Mas há outras que nos perturbam particularmente, porque são de um gênero não axiológico. Tais provações — sempre permitidas por Deus para o nosso bem — cortam nossa vida como um tropel de demônios e parecem arrasar todas as nossas esperanças.

Foi numa situação assim, enquanto eu me encontrava em perigo de vida — de uma vida que me parecia não dever terminar naquele momento, pois ainda teria muito a fazer e realizar — que me defrontei com a imagem de Nossa Senhora de Genazzano no hospital. Esta imagem, em certo momento, sem mover-se, sem que houvesse o menor milagre, entretanto exprimiu algo que me deu a certeza de que a própria Nossa Senhora comunicava estar lá, envolvendo-me com sua celestial proteção.

Mãe e conselheira nas aflições e nas penumbras

Se analisarmos a noção de Nossa Senhora do Bom Conselho, entende-se que ela se refere à Santíssima Virgem enquanto obtendo de Deus, por sua intercessão onipotente, graças para as almas perturbadas, que não sabem o que fazer diante de certa emergência, e precisam, portanto, de um conselho.

E Nossa Senhora do Bom Conselho é a Mãe que se compadece dos homens desorientados, e lhes obtém a graça de uma iluminação interior, de um discernimento especial, de uma palavra que lhes vem de um bom amigo, de um bom diretor espiritual ou da leitura de um bom livro, etc. Enfim, Ela sempre lhes alcança o conselho que se queria, o conselho que se pedia, a solução que se procurava e se julgava impossível encontrar.

Tudo no mundo contemporâneo, no mundo do caos, parece falar contra nós, parece mentir-nos, dizer-nos coisas que nos levarão para o erro e o mal. Que remédio há para isto a não ser um bom conselho? E quem há-de nos dar bom conselho neste mundo desvairado? Ninguém mais e ninguém melhor do que Nossa Senhora do Bom Conselho. Ela é, pois, por excelência a mãe e a conselheira nas aflições e nas penumbras do mundo de hoje.

Assim, em nossos momentos de dúvida e apreensão, saibamos que nos está reservada a alegria — da qual tão poucos homens na terra desfrutam! — de nos voltarmos para Maria e Lhe dizer: “Mãe do Bom Conselho, Vós não me desamparareis. Tende pena de mim e dai-me uma orientação.”

1) Desclée de Brouwer, Bruges, 1885.

2) Plinio Corrêa de Oliveira, prefácio in: João S. Clá Dias, Nossa Senhora do Bom Conselho, Ed. Brasil de Amanhã, São Paulo, 1992, pp. XIX a XXII.

Assim relata Dr. Plinio o essencial da história da augusta imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano:

Na Albânia, no século XV, a religião corria grave risco: de um lado, o fervor da população católica estava em declínio; de outro lado, assaltavam-na com crescente furor as hordas dos invasores maometanos, cujo objetivo era destruir até à raiz a Fé católica em território albanês. Para evitar a catástrofe, a Providência suscitara um herói comparável, pelo destemor e pela Fé, aos pares de Carlos Magno e aos batalhadores mais salientes das Cruzadas e da Reconquista luso-hispânica: Scanderbeg. Enquanto ele viveu, a Albânia resistiu. Ele morto, em seguida a feitos heroicos e gloriosos, a resistência albanesa se esboroou. Explicável castigo para uma população atolada na tibieza.

Além de Scanderbeg — e quão superior a ele! — havia na Albânia outro pilar da Cristandade abalada. Era a Imagem — um afresco — de Nossa Senhora então chamada ‘dos Bons Ofícios’ (invocação análoga à de Nossa Senhora Auxiliadora, hoje generalizada em todo o mundo católico). Essa Imagem, venerada em santuário próximo de Scútari, ocasião de tantas e tão preciosas graças para aquele povo corrompido pela tibieza, cairia nas mãos do invasor maometano?

Era o que se perguntavam com ansiedade dois devotos albaneses, Georgio e De Sclavis, dignos representantes do que a Albânia ainda conservava de fiel.

A resposta a essa pergunta não tardou. A Imagem se destacou lentamente da parede, ante os olhos atônitos dos dois devotos, compatriotas do grande Scanderbeg. Ela se alçou e foi prosseguindo em direção às águas do Mar Adriático. E se foi deslocando sempre em igual direção, ao mesmo tempo que fazia entender aos dois albaneses que queria ser seguida por eles. Com Fé e estofo moral análogos aos de Scanderbeg, ambos os albaneses não hesitaram. Foram caminhando milagrosamente sobre as águas, até que a Imagem atingisse o território da catolicíssima Itália. (…)

Enquanto ambos os albaneses continuavam a seguir a Imagem pelo território italiano, esta… desapareceu. E foi encher de celestes consolações a alma de Petruccia, (…) grande figura de mulher forte do Evangelho, que Nossa Senhora elegera para Lhe erguer o santuário mil vezes abençoado em que a Imagem d’Ela está exposta à veneração de incontáveis fiéis, desde há cinco séculos.

Era ela uma viúva dotada de alguns bens. Muito piedosa, fora favorecida com uma visão na qual a Santíssima Virgem a incumbia de restaurar a igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Genazzano, então ameaçada de ruir.

Para tal fim, Petruccia recorrera à caridade dos fiéis. Mas o atendimento destes deixara a desejar. E as esmolas obtidas por Petruccia de modo nenhum bastavam para a execução da obra. Animosa, resolvera ela então aplicar na construção o restante de seu patrimônio pessoal. Mas até mesmo este fora insuficiente, pelo que as obras ainda estavam longe de ter chegado ao termo.

Tal insucesso atraía sobre a Beata os sarcasmos injustos dessa mesma população que dera tíbio atendimento aos pedidos dela. Mas Petruccia continuava animosa, apesar de seus oitenta anos, confiando com firmeza no auxílio da Santíssima Virgem.

Foi, pois, imensa e maravilhosa a surpresa dela, e a de toda a população de Genazzano, quando, na tarde do sábado 25 de abril de 1467, viram pousar sobre o lugarejo uma nuvem de aspecto admirável, da qual partiam os sons de uma música não menos bela. Aos poucos, destacou-se da nuvem o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, o qual foi pousar sobre o altar que, na previsão da futura conclusão das obras, Petruccia fizera erguer.

Estava confirmada a visão da Beata Petruccia. Tornava-se manifesto que a Santíssima Virgem desejava a conclusão das obras. E a população, que acorrera enlevada para prestar culto à Imagem, haveria de contribuir generosamente, de então em diante, para a reconstrução da igreja. Esta não tardou em ser concluída. E, enquanto nela os fiéis veneram o quadro da Virgem e do Menino, maravilhosamente transportado de Scútari pelos anjos, nela também dormem o sono da paz os restos mortais da Beata Petruccia, à espera da ressurreição final.

Os dois albaneses, que haviam ficado desconcertados pelo desaparecimento de sua tão querida Imagem, ignoravam o aparecimento desta última em Genazzano. E andavam sem rumo pela Itália, na vã procura de seu tesouro perdido.

Quando lhes chegou aos ouvidos a notícia do ocorrido no lugarejo em que residia Petruccia, para lá se dirigiram. É fácil calcular quanto se maravilharam e se alegraram ao reencontrarem ali o quadro celestial. Estava assim terminada a missão deles, que consistia, neste lance final, em atestar a identidade entre o quadro venerado em Scútari e o que empolgava toda Genazzano.

Um quadro entregue pela Providência

Entre as múltiplas reproduções do santo afresco, uma há que mostra ter sido o Brasil objeto de especial predileção, pois foi a própria Mãe do Bom Conselho quem quis enviá-lo para este país.

Em 1760, o Rei de Portugal expulsou de seus domínios de aquém e além-mar a Companhia de Jesus. Dois noviços brasileiros, os irmãos Miguel e José de Campos Lara, decidiram acompanhar no desterro seus irmãos de vocação, partindo para Roma.

Na Itália, ao terminarem seus estudos, receberam a ordenação sacerdotal. Pouco tempo depois, faleceu Miguel. Quanto a José, foi enviado por seus superiores a vários lugares. Porém, cedendo a fortes pressões dos governos da época, em 1773 o Papa Clemente XIV fechou a Companhia de Jesus.

Era uma situação inesperada para o Pe. José, após treze anos de desterro. A vida não foi fácil desde então. Era preciso ter uma fé alcandorada e um alto heroísmo para perseverar em condições tão adversas. E apesar dos anseios de sua família pelo retorno dele à pátria, o jovem sacerdote não desejava voltar ao Brasil.

Em 1785, fazia doze anos que José de Campos Lara vestira pela última vez a batina da milícia de Santo Inácio. E fazia vinte e cinco anos que deixara o país natal!

Certo dia, passeava ele pensativo por uma praia deserta, onde o rumorejar das ondas era suave lenimento para suas dores e preocupações, quando, de súbito, depara com um jovem que o aborda. O rapaz lhe oferece um quadro a óleo que representa a Mãe do Bom Conselho (acima), dizendo-lhe que o levasse para o Brasil. E lhe anuncia que, no lugar onde ela fosse venerada, erguer-se-ia um dia um grande colégio jesuíta. No fim da conversa, o Pe. Campos Lara vê seu interlocutor desaparecer ante seus olhos, ficando convencido de que se tratava de um Anjo.

Após algumas peripécias, volta ele ao Brasil, indo para a chácara herdada dos falecidos pais, na cidade de Itu (SP). Ali erigiu uma capela onde pudesse ser venerada a imagem. Em 1814, ele ouve comovido a notícia de que Pio VII restaurara a Companhia de Jesus! Mas faleceu em 1820, sem ver cumprida a profecia da volta dos jesuítas à Terra de Santa Cruz. Regressaram, porém. E em 1868 ergueram um colégio exatamente naquela chácara.

Em 1872, o quadro da Mãe do Bom Conselho foi entronizado no altar-mor da igreja recém-construída, anexa ao colégio. Oitenta e sete anos haviam transcorrido desde sua entrega miraculosa, sobre as areias da praia italiana, ao jesuíta brasileiro.

E quando este colégio da Companhia foi transferido para a cidade de São Paulo, em 1918, com ele foi também a cópia da imagem de Genazzano. Toda a minha geração de alunos do São Luís passou pela imagem da Mãe do Bom Conselho….

(O menino Plinio é o primeiro, na terceira fileira, da esquerda para direita)

26 de abril – Sublime intimidade entre o Menino e a Mãe

Sublime intimidade entre o Menino e a Mãe

Aplicando o senso católico e o discernimento dos espíritos ao comentar o afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, Dr. Plinio sonda as encantadoras profundidades do convívio entre o Menino Jesus e sua Mãe santíssima.

 

Nossa Senhora do Bom Conselho se apresenta a nós com uma invocação que, à primeira vista, talvez não pareça ter muita relação com o quadro. Este representa uma Rainha de um pequeno país balcânico, o que se nota na figura, nos ornamentos e, mais ainda, no tipo marcadamente oriental, com os olhos um pouco em amêndoa, e voltados para baixo.

Ela está com o Menino nos braços e numa atitude de muita intimidade, em que se tem impressão de que Ela esqueceu que é Rainha e Ele esqueceu que é Rei! Não que hajam pedido demissão ou abdicado da realeza. Mas, no momento, aquilo que está no fundo do espírito, na primeira plana da atenção e do modo de sentir, é o fato de que Ela é Mãe e Ele é Filho!

Profundeza de sentimento e de pensamento

Mais ainda — e é uma das coisas que mais me atrai no quadro —, há uma profundidade na intimidade de relacionamento, pela qual se sente até o fundo da alma d’Ela: Ela é Mãe, e Mãe daquele Filho, quer bem àquele Filho; e até o fundo da alma d’Ele: Ele é Filho, e Filho daquela Mãe! Há entre Eles uma união de alma, que explica a tranquilidade e quase a imobilidade daquele afeto.

Ou seja, é um afeto que chegou tão ao fundo, que Eles não têm nada para dizer entre Si. Estão quietos e apenas querendo-Se bem, mais nada, como quem nota que, de parte a parte, o conhecimento e o afeto mútuos chegaram até o fim. E que, portanto, não há mais o que considerar. É só fruir uma bem-aventurada delícia daquele mútuo entendimento e mútuo estar juntos!

Nesse ponto, o artista foi muito delicado porque, pintando o Menino com todas as feições de criança daquela idade, e nada de comum com o hominho precoce, vê-se n’Ele uma profundeza de sentimento e de pensamento, que o homem feito não tem. E que corresponde inteiramente à Doutrina Católica sobre o Homem-Deus.

A unidade das naturezas divina e humana na mesma Pessoa traz, como consequência, que aquele Menino, daquela idade, concebido sem pecado original, e que, portanto, não passou por nenhuma das debilidades e das — eu digo no sentido etimológico latino — imbecilidades, das fraquezas da infância, tenha a profundidade do sentir. Ele está tão consciente do que é uma mãe, do que é aquela Mãe, quais as profundezas de alma que Ela oferece a Ele; e Ele entra tão a fundo nessas profundezas que se põe na mão d’Ela como uma criança!

Quadro que tem um voo sobrenatural extraordinário

Com um sublime paradoxo: Ele é criança para tudo, exceto para entender e querer as coisas sublimes, extraordinárias. De maneira que não me espanta que Ele quisesse precisar d’Ela para os serviços mais modestos. Porque é assim que se compagina a condição de criança no Menino-Deus. E o quadro exprime isto admiravelmente. É uma obra de arte mediana, mas tem um voo sobrenatural extraordinário!

O afresco nos dá bem a noção da relação entre Eles. O modo como Nossa Senhora O carrega é o de uma pessoa que leva um tesouro de um valor infinito; mas é uma pessoa muito generosa. Se supusermos um indivíduo levando um tesouro, nós o imaginamos agarrado ao tesouro, e voltado a impedir que alguém o roube; e sua atitude é de quem diz para qualquer um: “Isto é meu, não é seu! Não chegue perto e não amole, porque é meu!”

Nossa Senhora não. Ela O segura com muito cuidado, muita delicadeza, de maneira tal que nada se passa n’Ele, ou em torno d’Ele, que Ela não note imediatamente; uma vigilância materna dulcíssima! Mas Ela não deixa ver a menor preocupação de que Lhe tirem o tesouro. Ela sabe que é desses tesouros que quando se compartem não se dividem. E uma vez dado, ele fica inteiramente com quem deu, e inteiramente a quem foi concedido. De maneira que, sem propriamente mostrar o Menino, a própria posição do rosto d’Ela foi calculada com cuidado para que não ocultasse nada da face do Menino. E que o Menino ficasse em primeiro plano e Ela no segundo.

E, pelo respeito e pela seriedade tranquila, distendida e afetuosa com que Ela O carrega, vê-se que Ela tem uma noção inteira de que está levando o Filho de Deus. E que O adora com o mais profundo respeito.

Mas, de outro lado, Ela tem a sensação de estar de tal modo penetrada pelo afeto d’Aquele a quem Ela respeita, que Se sente desembaraçada para, sem nenhuma vacilação, nenhum acanhamento, dar ordens ao seu próprio Deus. De maneira que Ela delibere quando é hora de deitá-Lo ou tirá-Lo do Presépio; se é hora de dormir ou não. E Ela, sabendo que é nada, ou como que nada, para o Deus d’Ela diz: “Meu Deus, chegou a hora de dormir!” E Ele, cuja natureza humana está hipostaticamente ligada à natureza divina, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, fecha os olhos e dorme, porque sua Mãe mandou.

Desdobramentos da Encarnação

Todas essas possibilidades estão contidas no “et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis”. Quando São João diz no prólogo de seu Evangelho: “O Verbo de Deus se fez carne, e habitou entre nós”(1), todo esse celeste turbilhão de relações vertiginosas, admiráveis e dulcíssimas será contido na Encarnação, são desdobramentos da Encarnação.

Não conhecemos detalhes do convívio entre Eles, mas é possível, por exemplo, que Ele, com um pouco mais de idade, na hora de brincar — e era Deus querendo brincar! — não tenha dito a Ela o que queria, como não diz uma criança que não sabe ainda falar. E que Ela, por amor, precisou adivinhar que Ele queria uma bola. E que tenha arranjado uma bola para Ele.

Podemos imaginar Nossa Senhora e São José confabulando sobre o tamanho, o diâmetro da bola, de que matéria seria, como fazer a bola oca, para não ficar muito pesada para a mãozinha d’Ele, etc. Mas ambos já imaginando em cima desta bola uma cruz, como se haveria de ver depois nas mãos de incontáveis reis da Terra!

Ou, então, Maria Santíssima prestando atenção para saber de que comida Ele gostava mais. Ou fazendo oração para pedir a Ele que Lhe desse o conhecimento de qual era a refeição que Ele queria comer naquele dia. E Ele talvez fazendo dificuldade para falar; de repente, dizendo a Ela uma palavra qualquer, própria de criança, mas na qual Ela percebia misteriosamente que queria dizer: “Não sabeis, minha Mãe, que Eu vim à Terra para sofrer?”

Ninguém pode calcular o que foram as relações dessa infância, os mistérios, as sublimidades… Deus brincando! A Escritura diz que, antes de todos os séculos, Deus, que é a Sabedoria, brincava na superfície de Terra(2). Mas daí a uma bolinha feita na oficina de Nazaré… Que diferença!

A Mãe que criei e da qual nasci

E Nossa Senhora falando com Ele… Assim como Ele se transfigurou para três Apóstolos no alto do Monte Tabor, quantas vezes Ele Se transfigurou para Ela? E em que atitudes? Dormindo, talvez… E no dormir, que poder, que majestade, que inocência, que delicadeza! Às vezes, de fugidio, de repente, é Deus que Ela vê!

Quem pode calcular isto?

Nós sabemos, pelo Gênesis, que Deus, no sétimo dia, repousou e considerou todas as coisas que tinha feito. Mas nenhuma delas era bonita como Nossa Senhora. E Jesus, como Criador, confabulando com sua natureza humana, por assim dizer, pensando: “Como é linda esta Mãe que Eu fiz e da qual nasci! Como a alma d’Ela é incomparável!

Ali no quarto — estando entreaberta a porta — vejo que Ela está rezando. É noite, e uma candeia dá uma luz indecisa. Vejo o perfil d’Ela e noto que Ela reza para Mim. Mas não entro no quarto. E percebo que Ela está orando para o Padre Eterno, para o Divino Espírito Santo. Eu — como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, diria Ele — conheço a oração d’Ela. Entretanto, é hora de chamá-La para tal coisa.” E grita: “Mamãe!”

Poder-se-iam multiplicar as situações, desenvolver isto ao infinito. Ele A vê, em certo momento, chorar. E Ele sabe, porque a Santíssima Trindade — Ele, portanto — está dando esclarecimentos a Ela sobre a Paixão, e depois sobre a morte d’Ele. E Ele nota a docilidade d’Ela, como Ela aceita, como Ela quer. Mas Ele vê desde já aquela espada que transpassa a alma d’Ela. E Ele Se deleita em considerar que, pelo amor que Ela tem aos homens, Ela quer que Ele morra. E no dia seguinte, quando Ela se levanta, Ele percebe um sulco de dor que dá uma majestade, uma gravidade, uma interioridade à fisionomia d’Ela, que é verdadeiramente indescritível.

Imaginemos Nossa Senhora tendo conhecimento profético dos milagres, dos ensinamentos, das parábolas d’Ele, vendo a figura d’Ele, num alto de um monte, que passa… A Paixão, a Cruz, a morte e a glória da Ressurreição. Quem poderia imaginar tudo isso adequadamente? Ninguém!

Quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, no Colégio São Luís

No Colégio São Luís havia um quadro da Mãe do Bom Conselho colocado no retábulo do único altar da modesta capela, que era uma sala transformada em capela. Inúmeras vezes entrei lá. Por exemplo, para celebrar o mês de maio em honra de Nossa Senhora, diariamente todos os alunos entravam na capela cantando. Eu olhava para a imagem, naturalmente, e minha atenção era solicitada por duas coisas muito desiguais: uma era a Mãe de Deus e outra o Menino Jesus, mas tomados em tese, como a Doutrina Católica os considera, e como a mente de uma criança pode alcançar.

E pensava: “É a Mãe de Deus, Maria Santíssima, que me deu aquela graça no Coração de Jesus(3) e está aqui sob outra invocação, outra roupagem. Mas é Ela! E vou rezar para Ela, porque já vi como é misericordiosa comigo. Sem a misericórdia d’Ela eu não me arranjo. Mas com a misericórdia d’Ela eu alcanço tudo. Portanto, é mais uma oportunidade de me unir bem a Ela, e rezar a Ela para alcançar esta união”.

Eu sabia que o título, a invocação d’Ela era “Mater Boni Consilii”, portanto, Mãe do Bom Conselho. E tentei, algumas vezes, rezar para esta invocação, que eu notava ser excelente, mas não me dizia grande coisa. A piedade é assim: às vezes uma invocação excelente não nos fala muito à alma.

De maneira que isto ficou assim, até eu ler um livro sobre Nossa Senhora de Genazzano, pouco antes de sofrer aquela crise de diabetes(4), e depois suceder tudo quanto sucedeu. Seria mais ou menos como um facho de luz que nasce pequenino, de uma lâmpada pequena, mas forte, e que depois se torna imenso. Assim seria essa primeira visualização minha de Nossa Senhora de Genazzano.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 26/4/1985)

1) Jo 1, 14.
2) Cf. Pr 8, 31.
3) Ver Revista Dr. Plinio, n. 1, p. 4-7.
4) Ver Revista Dr. Plinio, n. 21, p. 20-21.

26 de abril – Obra de cortesia e de arte

Obra de cortesia e de arte

Dr. Plinio descreve o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, mostrando, entre outros elevados e profundos aspectos, a cortesia de Maria Santíssima.

A fotografia mostra Nossa Senhora como Rainha. As coroas de Maria Santíssima e do Menino Jesus são de pedras preciosas, não propriamente do quadro, mas joias que foram nele presas posteriormente, em razão dos grandes milagres e graças de que o afresco de Genazzano tem sido ocasião.

Nossa Senhora está olhando para quem reza

Vemos os colares de pérola que estão suspensos no quadro, alguns adornos que dão uma ideia oriental, com uma espécie de meia-lua; são coisas muito legítimas, muito boas, mas nós podemos abstrair delas para compreendermos bem o afresco em si mesmo como pintura.

No quadro, percebemos que há uma coerência admirável na figura mais expressiva, que é Nossa Senhora, porque o Menino Jesus é menos expressivo.

O que há de interessante na figura de Maria Santíssima?

A fisionomia d’Ela está completamente distendida. Não se nota um músculo que esteja contraído, que indique qualquer impressão, exceto a sensação de contentamento de estar com o Menino. Ela está toda voltada para a ideia de que segura o Menino Jesus nos braços e só está pensando n’Ele; não tem outra preocupação. O mundo inteiro não existe para Ela, há apenas o Menino Jesus.

O curioso é que Ela não está olhando propriamente para Ele, mas para quem reza. Percebe-se que o fato de a face de Nossa Senhora tocar na fronte e na face do Menino Jesus faz com que Ela tenha uma espécie de degustação da presença d’Ele, de alegria daquele contato do corpo que é, sobretudo, um contato de alma muito íntimo, que A deixa cheia de satisfação.

Esse contato, entretanto, é habitual e não de surpreender. Não é um êxtase, nem nada deste gênero, mas uma impressão, uma sensação como toda mãe tem com seu filho; quando ela está com seu filho, há momentos em que o amor materno se abre mais, floresce mais e o seu carinho se expande. Nossa Senhora é apresentada desta maneira aqui.

Bondade, ternura, proteção

A bondade, a ternura, a proteção d’Ela para com o Filho se fazem notar muito na posição do pescoço e da cabeça. O Menino está suspenso n’Ela e A agarra pelo pescoço — a ponta da mão direita d’Ele aparece por detrás —, e explica que Ela esteja com o pescoço ligeiramente inclinado pelo peso d’Ele. A intimidade d’Ele com Ela é extraordinária! O Menino agarra como algo que Ele está habituadíssimo a segurar, e Nossa Senhora se deixa agarrar como quem já foi segurada mil vezes. E até acha agradável sentir-Se curvada diante de um peso tão suave, tão doce, tão deleitável para Ela.

O Menino não está propriamente com medo, mas meio agarrado a Ela como quem, também Ele, não quer saber nada do mundo de fora. Ele está todo para Ela, como Ela está toda para Ele. Ele só tem alegria de estar ligado à Mãe d’Ele, mais nada, e na alegria de se sentir protegido e unido a Ela.

Nenhum dos dois pensa, nem cogita nem nota nada. Olhem para essa Criança: não está pensando em bola, em doce ou qualquer outra coisa. Está pensando apenas: “Mamãe”; e a Mãe está pensando somente: “Meu Filho”.

Nota-se, entretanto, uma coisa curiosa: na expressão d’Ele, apesar de ser menino, existe — é uma delicadeza do quadro — uma sensação de “doninho”. O Menino Jesus segura Nossa Senhora, está contente, protegido, mas Ele é um pouco “doninho” d’Ela, enquanto n’Ela existe uma veneração, respeito. Parece que Ela está procurando escutar o que se dá dentro d’Ele, se sai uma palavra desse Sacrário que Ela tem nos braços… E quando se presta atenção, vê-se o seguinte: Ela está rezando para Ele. Essa posição da cabeça, essa atitude, é de quem ausculta, no fundo está numa espécie de prece, não pedindo algo, mas fazendo uma contemplação da Pessoa d’Ele, querendo tomar contato com a Pessoa d’Ele. É uma meditação, uma contemplação muito alta.

Está subentendida a doutrina da mediação

Ele está nesta intimidade com Ela, mas, enquanto os olhos d’Ela vão para baixo, os olhos d’Ele vão para cima, dirigem-se a Deus. É a ideia da mediação. Ela olha para Ele e Ele olha para Deus. Nós olhamos para Nossa Senhora, Ela olha para Jesus e Ele olha para Deus.

É bonito que tanta doutrina tenha sido posta tão delicadamente neste quadro, que nem se sabe o que dizer.

Notem outra coisa: o olhar d’Ela é, curiosamente, bivalente. Não é verdade que Ela está olhando para Ele? E também olhando para quem fita o quadro?

Sente-se meio olhado por Ela quando se olha para o quadro, e é bem o papel d’Ela. Ela é nossa medianeira, recebe nossa oração, transmite para Ele e Ele é Deus e transmite a nossa oração às outras Pessoas da Santíssima Trindade.

De maneira que se tem a Doutrina Católica suavissimamente expressa, sem essa precisão dogmática que é própria à Teologia, mas com esse subentendido que é próprio à arte. Porque é agradável adivinhar isto no quadro, sem que se veja à primeira vista.

Os que se encontram neste auditório, não acham mais interessante descobrirem quando uma pessoa lhes mostra, do que estar escrito em baixo: “Mediação universal”? 

Que dizer, a coisa que se insinua é dada a entender de leve, não está afirmada de modo cortante, mas a pessoa vai assim descobrindo como atrás de um aroma delicado. Na arte, isso tem seu encanto. Para a arte, às vezes certo mistério aumenta o atrativo. Aqui temos, então, este mistério.

Sentir-se filho mais até do que adotivo

Há outro aspecto interessante: essa intimidade. Toda intimidade é fechada, exclui. O pintor soube — aliás, a meu ver, esse quadro foi pintado por Anjo — criar uma coisa curiosa, que é uma intimidade aberta. Tem-se a impressão de que se alguém for chegando perto, entra no circuito dessa intimidade; que é amado por Nossa Senhora, pelo Menino Jesus, é entendido pelos dois e que Eles socorrem a pessoa que se aproxima. Qualquer um que se achega a esse quadro pode sentir-se íntimo, sentir o aconchego da presença do quadro. Seja uma alma reta, seja um pecador, seja até um inimigo; se se aproxima sente esse aconchego.

Outra coisa curiosa: Nossa Senhora aqui está sorrindo? Olhando para os lábios, não. Não sei se notam que há um ligeiro sorriso indefinido espalhado por todo o rosto; e é um certo comprazimento para com o Filho. Mas de outro lado também é um comprazimento para com o devoto, com o fiel que chega aí perto, filho d’Ela como Este outro.

Está insinuado no quadro que quem olha para o quadro é irmão do Menino Jesus, é também filho d’Ela. Esse quadro poderia se chamar “Adoção”. Porque a pessoa se sente filho adotivo, ou mais até do que adotivo, simplesmente aproximando-se do quadro. Isso me parece ser o que o quadro tem de mais interessante.

Pergunto o seguinte: o quadro é de uma Rainha? Faço abstração da coroa. Não há nada que indique uma pessoa de alta categoria social, nem de categoria social modesta, nem média. Está à margem das categorias sociais. Apesar disto, há qualquer coisa n’Ela de Rainha, porque é sumamente venerável, sumamente respeitável. Se fôssemos abrir a boca para dizer uma palavra, teríamos vontade de nos ajoelhar.

Por quê? Tão ordenada, tudo tão direito dentro d’Ela, que qualquer palavra que partisse d’Ela seria uma palavra de sabedoria, de santidade. Quase que se imagina o timbre desta voz, seria um ensinamento. Imediatamente teríamos desejo de nos colocar genuflexos. Todas essas riquezas foram postas neste quadro.

Nossa Senhora está cortês com o Menino Jesus, nesse afresco? Eu diria que sumamente cortês. Notem com que respeito Ela está com Ele. É um enorme respeito, uma veneração. Mas, de outro lado, muito íntima. E Ele com Ela também, com que respeito! Como Ele está direitinho, nada está errado, nada como não deve ser. Jesus tem a sensação da sacralidade dos braços em que Ele está. Quer dizer, um menino dessa idade, rezando numa igreja, não podia ter uma atitude mais cheia de respeito do que está aí.

Temos aí uma verdadeira obra de cortesia e de arte.

No que está a cortesia nesse quadro? Os três elementos da cortesia estão presentes ali: o respeito mútuo, o amor mútuo e, como reflexo de ambos, um modo de tratar que deixa transluzir o bem-estar de permanecer ligado a algo de mais alto, e ao mesmo tempo um sorriso por estar ligado a algo que se quer muito. E essa é uma das definições de cortesia. Aí estaria a cortesia no quadro de Nossa Senhora de Genazzano.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/6/1974)

26 de abril – Intercâmbio de mentalidade entre Mãe e Filho

Intercâmbio de mentalidade entre Mãe e Filho

A cidade de Genazzano está construída numa montanha, no alto da qual se ergue a Basílica de Nossa Senhora do Bom Conselho, onde se encontra o belíssimo afresco, trazido no século XV pelos Anjos desde Scútari, na Albânia.

 

Temos aqui uma vista da cidadezinha de Genazzano. Bem no centro e no alto encontra-se o campanário e o corpo da igreja e, depois, vemos a cidade que se pendura nas encostas dessa pequena montanha. Eis uma das razões do pitoresco dessa cidade.

O extremo pitoresco do urbanismo “genazzaniano”

Genazzano foi, outrora, uma cidade fortificada e era uma espécie de feudo dos Príncipes Colonna. No período das guerras feudais, ela teve que enfrentar várias dificuldades, diversos cercos, e por causa disso a população procurava concentrar-se dentro da cidade, encostando-se as casas, umas nas outras, tanto quanto possível. O melhor meio para uma fortificação defender-se com facilidade era localizar-se no alto de uma montanha; ora, os altos das montanhas são naturalmente estreitos, pequenos. Daí a necessidade de fazer as ruas o mais possível estreitas e com um traçado sinuoso, pelo qual se adaptem ao modo com que cada casa consegue pendurar-se no morro. Aí está o extremo pitoresco do urbanismo “genazzaniano” — se assim podemos chamar —, que vamos examinar.

Veem-se restos de muralhas, pois com o desaparecimento das guerras feudais e do perigo de invasões normandas, árabes, etc., as muralhas foram caindo, mas a cidade continuou assim, agarradinha às encostas e deitando uns prolongamentos para o sopé da montanha.

Foi no alto desse local que uma ardorosa devota da Mãe do Bom Conselho, Petruccia Nora, quis construir uma igreja de acordo com revelações e visões recebidas, e que deveria ser num lugar onde havia uma capela, em estado de deterioração, em louvor de São Brás, bispo e protetor contra os males da garganta.

Aí pousou, em certo momento, em meio a coros angélicos cantando e nuvens luminosas, a imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho que tinha atravessado o Mar Adriático, acolitada pelos dois albaneses que a seguiram desde Scútari, na Albânia, caminhando milagrosamente sobre as águas.

É-nos grato tomar em consideração que no lugar onde está, na igreja, o altar de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, a imagem baixou, e imaginarmos a cena: esse burgozinho efervescendo de alegria com as graças todas que se derramavam do Céu, de um modo sensível através das músicas, das nuvens, etc., e o triunfo de Petruccia, posteriormente sepultada na igreja, na qual há uma lápide comemorando-a.

Elegância que tem poesia

À primeira vista, quem olhasse essas construções poderia fazer uma objeção: “Isso é um espaço mal aproveitado, a cidade não deveria ter sido construída aí, as casas ficam se encostando, por assim dizer “acotovelando-se” umas nas outras; a população fica mal servida de espaços; as ruas têm que ser sinuosas e, portanto, feias; não há um plano de conjunto. Pelo contrário, se se fizer uma cidade dividida como um tabuleiro de xadrez, em quadradinhos, com espaço horizontal bem amplo, grandes avenidas e um trânsito abundante passando por aí, fica muito mais bonito!”

Ora, isso daria nessa banalidade que todos conhecemos. Pensemos, por exemplo, em uma grande avenida de São Paulo e façamos a comparação: Genazzano é pitoresca, dá vontade de ir visitar. Pelo contrário, diante da grande avenida sentimos vontade de bocejar.

Vemos nesta outra fotografia, tirada de dentro de um restaurante, um panorama muito bonito, montanhoso, variado e, felizmente, pouco cultivado pelo homem. É curioso, mas às vezes a cultura do homem embeleza e às vezes torna sem graça uma determinada paisagem. Aqui se tem a impressão de que as coisas continuam como eram quando saíram das mãos de Deus.

Em outra foto aparece uma parte da muralha, uma fontezinha com chafariz, que está ao lado de uma espécie de reservatório. Nota-se na muralha certa preocupação de elegância. Vejam as ameias, cuja finalidade é permitir que o defensor da cidade se proteja dos projéteis lançados pelo adversário, escondendo-se atrás disso que poderíamos chamar vagamente uns “Vs”; e na hora de ele mesmo atirar, aparece depressa e joga qualquer coisa, depois volta para trás.

Entretanto, esses “Vs” são mais altos do que costumam habitualmente ser em fortificações dessa natureza, para tomar assim uma forma de elegância que tem certa poesia.

Observem as paredes. São fortificações belíssimas. A vegetação se introduziu em todas as frinchas que separam uma pedra da outra. Onde um pouco de terra pousou, uma semente se deitou, uma planta nasceu e assim aquela que poderíamos chamar quase de torre é felpuda de vegetação.

Do lado de cá, há uma porta que outrora fora aberta, mas provavelmente por razões de defesa resolveram fechar. Junto a ela está tudo ajardinado e arranjadinho, a fonte está bem conservadinha sobre uma bonita coluna que sustenta a bacia, e tem-se aí um golpe de vista muito interessante.

Ruas estreitas em zigue-zague, terraços floridos

É especialmente interessante o fato de terem conservado a muralha e, com o desaparecimento das guerras, ter-se formado um pouco de cidade de um lado e do outro dela; e, para maior comodidade, foram retirados os batentes da porta, que não é mais necessário fechar, pois os inimigos desapareceram. Contudo, a muralha permanece. Vejam como é interessante esta “piazzetta” localizada logo depois da muralha, em cujo andar térreo vê-se uma janela com cortininhas e um toldo. Trata-se, provavelmente, de um restaurante muito barato, de comida nada “raffinée”, mas saborosa, onde o povo engorda tanto quanto pode, comendo e bebendo, conversando, exclamando e, pela vocação um pouco oratória do povo italiano, declamando também.

Neste outro aspecto da cidade, vemos um claro exemplo do que falávamos há pouco sobre as ruas apertadas, estreitas. Aqui foi concedido ao fator “rua” o menor espaço possível, para poder caber dentro das muralhas o maior número possível de habitantes.

Vejam como a rua se torna, assim, sinuosa, desenvolvendo-se numa espécie de zigue-zague. E, para aproveitar mais o espaço, por cima da própria rua constroem pontes onde deve haver quartos com gente habitando.

Como habitação, não é muito diferente de uma favela de pedra. Entretanto, não se tem a impressão de miséria e para lá vão turistas para ver o pitoresco dessas mansões humildes. Notem como as ruas são limpas, os lugares arejados e como as pessoas moram um pouco ou muito apertadas ali dentro, mas alegres e com o espírito gaiato, satisfeito, cantam, evidentemente.

Isso aqui está fotografado à luz do dia, porém é ainda mais bonito sob o luar. Exatamente, nós visitamos isso ao luar, e fica um verdadeiro encanto! Não é só quando a Lua nasce “por detrás da verde mata”, que ela é muito bonita. Ela é bela em todas as circunstâncias: “pulchra ut luna, electa ut sol”(1), diz a Escritura num trecho aplicado pela Igreja a Nossa Senhora. Sob o luar essa paisagem urbana adquire certo ar de mistério, e um transeunte que anda sozinho por essas ruas, à noite, com uma capa, o rosto meio embuçado e com um passo apressado, não se sabe se é um mensageiro que está trazendo uma mensagem secreta, um aventureiro a fugir de uma polícia, ou simplesmente um habitante do lugar, um pouco teatral… É a poesia de Genazzano.

Na Itália, como em outros países da Europa, existe a preocupação frequente de florir os terraços. Vemos nessa residência como tudo está enfeitadinho, indicando o prazer e a alegria de viver, o gosto de ter uma vida razoável e alegremente ornada, dentro de certa pobreza. É o contrário da revolução social marxista, com os punhos fechados, ameaçando revolta e morte.

Aqui vemos uma porta e, no alto, um brasão com uma coroa.

Nos edifícios antigos era comum porem-se coroas, escudos, ainda que não pertencessem às famílias nobres, mas, por exemplo, à municipalidade. Elas ostentavam uma coroa, não feita de ouro e prata, mas de pedra, representando, em ponto pequeno, a muralha, símbolo da autonomia da cidade. Tanto quanto a minha vista me permite discernir, não há sobre esta porta uma coroa nobiliárquica, mas municipal. Entretanto, vejam como ela ficou agradável de ver em cima dessa entrada. É a pequena e modesta pompa de um vilarejo consciente de sua dignidade.

O teto, a mesa de Comunhão e o quadro da Mãe do Bom Conselho

Vemos aqui o interior da igreja. O afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano está à esquerda. Nota-se do lado esquerdo alguns arcos grandes que, à primeira vista, parecem vedados por um grande cortinado; mas não é cortina, e sim um gradeado muito bonito, sólido e bem desenhado, que defende por todos os lados a imagem de eventuais atentados durante a noite. Assim, a sagrada imagem fica ao resguardo de qualquer ladrão que queira vendê-la, de qualquer devoto indiscreto que deseje fazer com ela uma extravagância, inspirado por alguma piedade mal entendida, ou de qualquer blasfêmia de algum profanador.

A igreja tem um tom de seriedade que lembra a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo. Na parte do fundo, vê-se a capela-mor, o presbitério e dois altares — o altar onde estão as velas, e aquele onde se encontra o Crucifixo é o altar antigo.

O teto não cai perpendicularmente, mas à maneira de uma semi abóboda, cujo desenho é mais ou menos entrevisto pelo arco que há no alto, na entrada do presbitério, e que se repete depois. Aqueles losangos e os desenhos dentro deles não são pintados, e sim feitos em alto-relevo muito fino, muito bonito e distinto, sem aqueles transbordamentos demagógicos e um tanto cafajestes que o Renascimento tem, mesmo quando procura ser aristocrático. Aqui não: esse adorno é muito discreto e distinto, como convém às coisas sacrais.

A mesa de Comunhão é de um mármore de muito boa qualidade, concebida segundo uma inspiração muito justa e verdadeira, do ponto de vista teológico. Dado que o Santíssimo Sacramento é Nosso Senhor realmente presente sob as espécies eucarísticas, o padre dar a Comunhão e o fiel recebê-la constituem um ato tão alto, de uma elevação infinita — porque Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, é Aquele que é dado e recebido — que seria próprio aos Anjos segurarem o pano da mesa de Comunhão.

Por isso, é muito bonita a ideia de representar a mesa de Comunhão como um pano improvisado, sustentado poeticamente por anjos, não esticado, mas com umas ondulações bonitas esculpidas no mármore.

Desagrada, entretanto, o fato de serem representados uns anjos travessos, sem seriedade, nada daquilo que se pode imaginar de um Príncipe na presença de Deus por toda a eternidade. Isso desdoura e entra em contraste com toda a respeitabilidade autêntica, muito maternal e afável da igreja.

Ao fundo da nave esquerda, na capela guarnecida de grades fortes e distintas, de que falamos há pouco, e cujas paredes estão revestidas de mármores particularmente bonitos, encontra-se o nicho com o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho.

A imagem é altamente expressiva e deixando transparecer esse convívio maternal, silencioso, de longas e longas horas entre Ela e o Menino Jesus, e uma espécie de consenso mudo entre ambos a respeito de toda espécie de coisas, de temas, indicando a união intimíssima de almas da mais alta das meras criaturas, que é Maria Santíssima, com Aquele que, enquanto Homem é criatura, e na sua natureza divina é o Criador. Isso tudo vivido na simplicidade das relações, Mãe e Filho. É o tipo de relação mais simples, mais espontânea, mais natural e mais íntima que o espírito humano pode conceber.

Há nessas duas figuras uma espécie de silêncio vivo pelo qual não dão a impressão, nem um pouco, de meras pinturas. Não se pode retratar melhor o intercâmbio de afeto, de mentalidade e quase de vitalidade entre Mãe e Filho do que essa imagem representa.

Imagem do Beato Stefano Bellesini

Em uma capela contígua à igreja encontra-se um altar com os restos mortais do Bem-aventurado Stefano Bellesini, sacerdote agostiniano que viveu em meados do século XIX(2). É o grande devoto de Nossa Senhora de Genazzano.

Tanto quanto a minha experiência faz notar, essa devoção tem como que eclipses. Quer dizer, há momentos em que ela é muito sensível, e a esperança de ser atendido pela intercessão de Nossa Senhora do Bom Conselho é fácil, alegre e luminosa. Em outras ocasiões fica difícil, essa esperança não é sensível e torna-se necessária uma grande força de alma para se perseverar na confiança.

Para praticar esta virtude com este grau enérgico de confiar, quando todas as impressões de caráter sobrenatural se apagam em nós para nos provar, a intercessão do Beato Stefano Bellesini que, com certeza, foi exímio nisso, nos é muito favorável. Eu rezo a ele mais de uma vez por dia, e recomendo muito que rezem também.

A atitude dele nessa imagem de cera que reveste suas relíquias é muito calma, tranquila, de quem já está elevado às tranquilidades eternas do Céu.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/11/1988)

1) Do latim: bela como a Lua, incomparável como o Sol (Ct 6, 10).
2) * 1774 – † 1840.

25 de abril – São Marcos e o apostolado no mundo contemporâneo

São Marcos e o apostolado no mundo contemporâneo

Ensinando a doutrina de Cristo numa das mais importantes cidades da Antiguidade, São Marcos conseguiu converter pessoas mergulhadas numa vida de prazeres, atraindo-as mais pelo seu exemplo do que por sua pregação.  No mundo de hoje, incomparavelmente mais depravado do que o daquela época, o apostolado é mais difícil e, por isso, mais nobre do que o realizado pelo Evangelista.

 

Comentarei uma ficha a respeito de São Marcos Evangelista, tirada da obra de Jacques de Voragine: “La Légende Dorée”(1).

Enviado por São Pedro para pregar em Alexandria

O Evangelista Marcos, sacerdote da tribo de Levi, foi, pelo Batismo, filho do Apóstolo Pedro de quem era discípulo na palavra divina. Quando ele acompanhou o bem-aventurado Pedro a Roma, onde este pregava, os fiéis da cidade pediram ao beato Marcos que escrevesse o Evangelho de forma a perpetuá-lo na memória de todos.  Ele pôs por escrito tudo o que ouvira de seu mestre, o beato Pedro, que examinou o relato com cuidado e, vendo que era pleno de verdade, aprovou-o e julgou-o digno de ser recebido por todos os fiéis. […]

Marcos foi enviado pelo beato Pedro a Alexandria para pregar a palavra de Deus. Logo depois de entrar na cidade, conforme relata Fílon, judeu muito eloquente, juntou-se uma multidão unida pela fé, pela devoção e pela continência. […] Pedro Damiano(2) diz a seu respeito: “Tão grande foi sua influência em Alexandria, que todos os que acorriam para ser instruídos nos rudimentos da fé logo estavam praticando a continência e todo gênero de boas obras, parecendo uma comunidade de monges. Esse resultado devia-se menos aos milagres e à eloquência de suas prédicas do que a seus exemplos”. E acrescenta que, após a morte, o corpo dele foi levado de volta para a Itália, a fim de que a terra na qual escrevera o Evangelho tivesse a honra de possuir seus sagrados despojos. “Feliz Alexandria, que foi banhada por seu sangue glorioso, feliz Itália, por possuir o tesouro de seu corpo!”

Conta-se que Marcos era dotado de tamanha humildade, que cortou o polegar para que não pudesse ser ordenado sacerdote, mas prevaleceu a autoridade de São Pedro que o escolheu para Bispo de Alexandria. […]

Seu glorioso martírio

Os sacerdotes dos templos planejaram prendê-lo, e no dia de Páscoa, quando o bem-aventurado Marcos celebrava Missa, entraram na igreja, amarraram-lhe uma corda no pescoço e arrastaram-no por toda a cidade, dizendo: “Levemos o búfalo ao Matadouro”. Sua carne e seu sangue espalharam-se pelo chão e cobriram as pedras. Em seguida, foi colocado numa prisão, onde um anjo o consolou e o próprio Senhor Jesus Cristo dignou-se visitá-lo, dizendo para confortá-lo: “A paz esteja contigo! Marcos, meu Evangelista, nada temas, porque estou aqui para levar-te comigo”.

Chegada a manhã, puseram outra vez uma corda no seu pescoço e o arrastaram de um lado para outro, gritando: “Levemos o búfalo ao Matadouro”. No meio desse suplício, Marcos dava graças a Deus dizendo: “Entrego meu espírito em tuas mãos”. E pronunciando estas palavras, expirou. […]

Como os pagãos queriam queimar seu corpo, de repente o ar ficou turvo, começou uma tempestade, caiu granizo, explodiram trovoadas, faiscaram relâmpagos. Todo mundo fugiu, deixando intacto o corpo do santo, que os cristãos recolheram e sepultaram na igreja com toda a reverência.

O beato Marcos tinha nariz comprido, sobrancelhas baixas, belos olhos, ligeiras entradas no cabelo, barba espessa. Era homem de boas maneiras e de meia-idade. Seus cabelos começavam a branquear. Era afetuoso, comedido e cheio da graça de Deus.

O paganismo daquela época e o neopaganismo de hoje

Alexandria era uma das maiores cidades da Antiguidade, famosa por sua cultura, sua riqueza, sua importância política e também pela pompa e pelo luxo da vida que ali se levava.

O paganismo daquele tempo era bem diferente do nosso neopaganismo. Este último está centrado na vulgaridade, na banalidade, no igualitarismo. O paganismo de outrora tinha seu lado vulgar, enquanto era estruturado de tal maneira que as maiores riquezas iam parar, com frequência, nas mãos de pessoas menos dotadas de porte pessoal para ostentá-las. Mas a mania de um luxo desordenado, fabuloso, com orgias extraordinárias, e a ostentação de uma cultura muito requintada davam, ao mesmo tempo, às cidades mais pagãs uma espécie de importância que fazia com que elas brilhassem aos olhos de todo o universo.

Porém essas cidades mais importantes eram também as mais difíceis de converter, precisamente como no mundo contemporâneo. Converter uma aldeia, digamos… Mas obter a conversão de uma grande cidade, ainda que não seja converter a cidade inteira, é uma obra insigne do ponto de vista do apostolado.

Foi, entretanto, o que São Marcos conseguiu. Ele mal chegou a Alexandria e já obteve um número enorme de conversões exímias, porque todas as pessoas convertidas por ele adotaram um estilo de vida quase monástico. Vemos o choque natural entre a postura casta, austera, séria, digna dessa gente e, por outro lado, a atitude depravada das pessoas das elites do Império Romano, que se misturavam com as elites locais para levar aquela vida de prazer exorbitante do paganismo romano.

Eficácia de seu apostolado

Imaginemos chegando a Alexandria — cidade opulenta, magnífica — São Marcos, esse varão assim retratado:

O beato Marcos tinha nariz comprido, sobrancelhas baixas, belos olhos, ligeiras entradas no cabelo, barba espessa. Era homem de boas maneiras e de meia-idade. Seus cabelos começavam a branquear. Era afetuoso, comedido e cheio da graça de Deus.

Alexandria, às quatro horas da tarde, quando o Sol ainda brilha com todas as suas luzes. Pela porta da cidade, entra esse judeu com a sua barba, o seu porte, a sua santidade, a sua piedade, o seu recolhimento, o seu gênio e o Sol vai se pondo…

Ele encontra as primeiras pessoas e começa a pregar. Umas dão risada, outras ficam indiferentes, um outro para e procura ouvir, depois mais outro para também. Dali a pouco está formada uma roda. Ele vai para uma estalagem, hospeda-se, vem mais gente.

Ao cabo de algum tempo, engrossou o contingente e essas pessoas começam a dizer o contrário do que diziam antes. Passam a falar de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos sacrifícios e da Cruz do Redentor, da necessidade que têm todos os homens de imitá-Lo, de seguir um caminho de austeridade, de castidade, de dignidade, condenando os costumes vigentes.

Devemos imaginar um beberrão, uma esposa abandonada, um moço que está abrindo os olhos para todas essas imundícies da sociedade e que talvez esteja seduzido ou horrorizado por elas, uma jovem que está a pique de perder a sua castidade e que passa por ali; todos param e a graça penetra aos borbotões! E aquelas pessoas adquirem, então, a noção de um mundo completamente novo, de uma concepção da vida totalmente diferente que, por isso mesmo, lhes dá tudo o que eles não possuíam.

O dinamismo do apego aos bens terrenos

Todas essas pompas da vida, para quem não as possui, parecem sumamente aprazíveis e dignas de serem cobiçadas. Nós temos em nossa época esta ilusão tão viva. Os povos que não têm progresso se sentem propensos às maiores concessões para consegui-lo. As pessoas que não possuem automóvel se predispõem às maiores loucuras ou aos trabalhos mais árduos, para chegarem a ter um. E depois fazem o mesmo para conseguir um bom emprego, a fim de adquirir uma fortuna média e, em seguida, lançam-se como loucas para ter uma fortuna grande. E, afinal de contas, as pessoas que têm uma fortuna grande acabam sabendo que existe no mundo um grupo de mais ou menos dois ou três mil milionários, os quais residem em grandes hotéis da Europa, dos Estados Unidos e de outros lugares, e que levam uma vida super faustosa, de cuja essência nem as pessoas mais ricas muitas vezes têm noção. Cada um joga-se como louco para o escalão superior e tem a impressão de que, se conseguir alcançá-lo, terá a felicidade. De maneira que tende para aquilo com um dinamismo extraordinário.

E ao adquirirem o que procuravam, as pessoas ficam apegadíssimas e depois depravadíssimas. Por quê? Porque em relação a todas as coisas terrenas, quando as possuímos, o primeiro movimento é o apego, e depois uma espécie de náusea, compreendendo que não dão o resultado esperado. Então, segue-se o desejo de uma depravação maior, que também desinteressa e deixa de nos causar apetência.

A fidelidade a Nosso Senhor Jesus Cristo atrai seguidores e suscita ódios

Compreendemos, então, que a palavra de São Marcos abra a perspectiva dos bens eternos, fale de uma felicidade sem fim, de um espírito que sobrevive à matéria, de uma ressurreição dos corpos, de um Inferno, de um Purgatório, de um Deus boníssimo, justíssimo, sapientíssimo, a Quem rezamos e que nos ajuda. Fale de Nossa Senhora e prometa os esplendores da Eucaristia. Aos que conhecem um pouco mais a doutrina, mencione essa coisa incomparável que é a Confissão e a certeza de ter os pecados perdoados. Tudo isso, para um homem que frequentava as orgias de Alexandria, produzia ao mesmo tempo os efeitos mais contrários: desde a suma atração até a suma repulsa. Entende-se, então, que com a ação da graça muitas pessoas se tenham convertido, e que com isso São Marcos se tenha tornado para a cidade de Alexandria um verdadeiro problema.

Surgiram muitos seguidores a ponto de ficar implantada, para todo o sempre, uma cristandade lá. Havia também muitos que o odiavam, e estes, em determinado momento, o prenderam e o mataram. Quer dizer, a questão é clara, explicável: ele dividia, separava, criava para aqueles que não queriam segui-lo uma situação insustentável. O resultado era matá-lo.

Temos, assim, até a consumação dos séculos, o drama de todos aqueles que querem ser fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles existem, se apresentam, falam, atraem, deslumbram, criam o ódio. Criando o ódio, sai a luta. E na luta, podem morrer. É natural.

Somos tão inferiores a São Marcos, entretanto chamados a um apostolado ainda mais nobre!

Podemos nos perguntar se é possível comparar o mundo em que viveu São Marcos e o de hoje.

Para termos um pouco a ideia da comparação do nosso pobre apostolado com o grande apostolado de São Marcos, o mundo contemporâneo é incomparavelmente mais depravado do que o do Evangelista. Porque se ele viesse hoje ao mundo, tudo leva a crer que não obteria o mesmo resultado. E uma das provas disso é a insensibilidade deste mundo aos milagres de Lourdes e de Fátima; as pessoas não se incomodam, tudo fica na mesma.

Contudo, São Marcos deve ter tido santa inveja de nós. Porque quanto mais difícil é o trabalho que temos a felicidade de realizar por Nossa Senhora, tanto mais ele é nobre. E quanto mais nobre, mais é invejável.

Se no mundo de hoje é mais difícil propagarmos a doutrina de Nosso Senhor, fazê-lo atualmente é ainda mais nobre do que naquele tempo. E a nossa vocação é mais bela do que a de outrora. E, então, devemos nos dar conta do imenso valor de termos nascido nessa época de luta, de contradição e de perseguição.

Entretanto, somos tão inferiores a São Marcos, a perder de vista completamente, a ponto de não poder haver comparação! Nisto há uma beleza especial. Nossa Senhora elegeu para aqueles tempos um São Marcos; para a nossa época, uns pigmeus. Isso significa que Ela quer fazer através de nós um milagre muito maior do que o operado por meio de São Marcos. A nossa miséria é um atestado de grandeza da ação d’Ela.

Quando vier o Reino de Maria, nos lembraremos desta meditação e compreenderemos como éramos pequenos e desproporcionados, e como, portanto, aquilo que saiu de nós foi obra exclusiva da misericórdia de Nossa Senhora.

São Marcos, cuja fortaleza é tal que ele entra numa cidade, enfrenta-a de peito aberto e cria nela um rio de luz e de graças santificantes magníficas, nos serve de contraste!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1971)

1) VARAZZE, Jacopo de. Legenda áurea­: vidas de santos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 371-373.

2) São Pedro Damião, Doutor da Igreja.

24 de abril – Homem que lutou arduamente contra a Revolução

Homem que lutou arduamente contra a Revolução

Orador brilhante, São Fidélis de Sigmaringa evangelizou cidades alemãs e foi enviado para a região dos grisões, na Suíça, a fim de pregar contra o protestantismo. Alcançou sucessos importantes, o que levou os hereges a martirizarem-no. Foi um verdadeiro contrarrevolucionário porque a heresia protestante era a Revolução no seu tempo.

o dia 24 de abril, a Igreja comemora a festa de São Fidélis de Sigmaringa. Sua ficha biográfica apresenta alguns dados tirados da Vida dos Santos, de Reindenberg, e da História da Igreja Católica, de Rohrbacher.

Chefe de uma missão para combater o protestantismo

Marcos Roi, o rei que viveu de 1577 a 1622, tomou o nome de Fidélis quando entrou para os capuchinhos, aos 35 anos de idade.
Nascido em Sigmaringa, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito em Friburgo de Brisgóvia. A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante três anos. Depois de ter exercido a profissão de advogado em Colmar, resolveu abandonar o mundo.
No testamento que fez nesta altura, diz o seguinte: “Quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para me entregar aos braços do Salvador.”
O Padre Fidélis possuía grandes dotes oratórios. Nomeado guardião (superior) do Convento de Feldkirch, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e numerosas igrejas do campo.
A cidade de Feldkirch foi de todo transformada por ele. Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente entre os grisões, a Congregação da Propaganda encarregou os capuchinhos de irem combatê-lo. O Padre Fidélis foi nomeado chefe dessa missão.
“Dentro em breve não me tornareis a ver, disse ele a seus amigos em Feldkirch, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. E desde então passou a assinar suas cartas da seguinte maneira: “Padre Fidélis, prope diem esca vermium” – que em breve será pasto dos vermes.
Em janeiro de 1622, entrou na região ocupada pela Áustria e lá começou a pregar a Fé com grande êxito.
Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta e o missionário avisou os austríacos. Os grisões levantaram-se então em massa.
No dia 24 de abril, estando o Padre Fidélis a pregar em Seewis, ouviu-se o grito: “Às armas!”
Os grisões saíram ao encontro das tropas imperiais que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidélis é quem chamara os austríacos.
Ainda o deixaram sair da cidade. Mas como daí a pouco regressasse a Grächen, 20 soldados caíram sobre ele, trataram-no de sedutor e queriam forçá-lo a abraçar a sua seita.
“Que me propondes? – perguntou Fidélis – Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos, não a renunciarei. Ademais, sabei que não temo a morte.”
Eles então mataram-no a sabre.

 

Homem sobrenatural e indômito que enfrentou a morte

É interessante notarmos qual foi a atuação deste grande pregador para que o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente. Ele era um missionário famoso que pregava em vários lugares. E a Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça denominada dos grisões, incumbiu a Ordem religiosa da qual ele fazia parte – os capuchinhos – de mandar para aquela zona pregadores, bons oradores, a fim de converterem os que se tinham pervertido para o protestantismo, e impedir que novos católicos fossem objeto com êxito do proselitismo protestante.
Então ele, que já havia transformado por inteiro uma cidade importante da Alemanha – Feldkirch – pelos seus sermões, se dirigiu à Suíça sabendo que ia morrer, pois recebeu uma revelação de que lá seria martirizado. Mas, homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte.
E tinha uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima, e até assinava “Frei Fidélis que em breve será pasto dos vermes.” Quer dizer, sabia que seria mártir e iria para o Céu o que lhe dava uma grande alegria.
A essa prova de tenacidade, ele juntou outra demonstração de força, de valor: o fato de ter irritado sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra este. São Fidélis alcançou sucessos tão importantes contra a heresia, que os protestantes prepararam um encontro no qual ele foi morto.
Foi um orador audacioso, valoroso, forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. Um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza, que leva a abnegação de sua própria vida e o desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua existência.

Sentimentalismo religioso do século XIX

Consideremos a fórmula utilizada por São Fidélis:
Quero viver para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me nos braços do Salvador.
Se uma pessoa hoje empregasse essa fórmula, seríamos levados a achar que ela é “heresia branca”1. Diria isto suspirando, com tanta moleza, que afirmaríamos: “Qual! Você é um pulha e não tomamos a sério a sua vida espiritual.”
Ele assinava suas cartas com as palavras: “Frei Fidélis, que em breve será pasto dos vermes.”
Compreende-se o equívoco tremendo que o sentimentalismo religioso do século XIX criou em torno dessas fórmulas, e precisamos não nos deixar vencer pelo equívoco.
O estado de espírito que apontei é muito ruim, mas a fórmula é muito boa em si mesma considerada. Ela foi empregada por um Santo e, portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto o Santo faz é bom. Se essa fórmula não fosse boa, ele não teria sido canonizado.
Precisamos compreender que essa fórmula é susceptível de ser pronunciada, ser vista de outro modo, e não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século XIX nos tolde a visão da coerência que ela tem com as virtudes as quais somos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução, a combatividade. Entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isso tem de ser virtude porque foi pronunciado por um santo.
O valor dessa fórmula é muito grande. Evidentemente, um homem que tem a verdadeira virtude da sabedoria, compreendendo, portanto, que todas a coisas desta Terra são um nada – desde que elas obstem à aquisição da virtude, ao pleno conhecimento da sabedoria e ao amor de Deus –, precisa afastar-se delas.

Quem tem vocação religiosa deve abraçá-la

Quando Nossa Senhora quer que alguém tenha uma vocação, torna-lhe difícil a vida fora da vocação a qual deve abraçar. E um santo nessas condições, em geral, é levado pelas circunstâncias a uma alternativa: ou se perde ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.
Depois, independente do perigo de perder-se, ele tem o atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria e, por amor de Deus, assume aquela fórmula.
Então, ele fez-se capuchinho. Isso significa abraçar a pobreza completa, renunciar a toda forma de sinarquia2. É despreocupar-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas pelo fato de os possuírem. Não admirando ninguém porque tem um bonito automóvel, um formoso apartamento ou, suprema ventura, possui uma fábrica importante, Mas dando valor aos homens e às coisas na medida em que se aproximam, praticam a sabedoria.
Uma pessoa assim, com um estado de espírito varonil, combativo, fazendo um ato de imolação inteiramente inaciano, pode dizer: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições. Desejo imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo que sofreu, e por isso vou ser um lutador, agredir o adversário; sofrerei porque na guerra se sofre.”
É o sentimentalismo religioso do século XIX que dá a isso um aspecto de “heresia branca”. Mas não tem nada de “heresia branca”. É a piedade de boa lei que o homem mais valoroso e combativo deve ufanar-se em possuir.

Verdadeiro contrarrevolucionário

Assim também, dizer que dali a pouco ele vai ser o pasto dos vermes é ter coragem, uma prova de que não tem medo de morrer. São Fidélis poderia acrescentar, apontando para seu corpo: “Esta carne vai ser comida pelos vermes. Através destas órbitas eles entrarão – como que engendrados pelo meu próprio corpo – que comerão os olhos, sairão pelos ouvidos e pela boca. Mas eu não me incomodo porque a minha alma vai para o Paraíso. Terei a glória do martírio que vale muito mais do que essa decomposição do meu corpo. E no último dia ele ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu.”
É uma atitude de força de alma que o faniquito do liberal, do sentimental, não dá.
Compreendemos, assim, como uma fórmula como essa, sendo bem interpretada e entendida, nada tem de “heresia branca”; é uma fórmula esplêndida.

A “heresia branca” se encontra no estado temperamental do estúpido com que os sentimentais repetiam isso.
Temos a prova concreta: um homem que empregava tais fórmulas é um mártir de uma admirável coragem, o qual viu chegar a morte com a serenidade que os maiores heróis não teriam. Que lutou arduamente contra a Revolução, foi um verdadeiro contrarrevolucionário – porque o protestantismo era a Revolução no seu tempo –, homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.
A relíquia de São Fidélis se encontra em nossa capela. Faremos uma boa coisa pedindo a ele que nos obtenha a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século XIX vivo até nossos dias, infelizmente.
Tal sentimentalismo, sendo uma coisa má, como é evidente, não houve na obra de nenhum santo daquele tempo. São deformações que existiram à margem do santo e de modo contrário ao exemplo dado por ele. Naquele século, houve santos admiráveis que estavam isentos e até eram o contrário disso, como Santa Teresinha do Menino Jesus.
A pequena via ensinada por ela, tão cheia de candura, de suavidade, é uma via de grande força e combatividade para quem sabe ler um livro de Santa Teresinha.
Percebe-se isso nos seus desejos. Ela dizia que possuía anseios infinitos, queria ser missionária, brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja, etc. É uma manifestação de uma combatividade que chega até o Cruzado, e inclusive o desejo de derramar o sangue. E isto da parte dessa santa tão suave na sua pequena via. Vê-se, portanto, como as duas coisas são compatíveis.v

(Extraído de conferência de 24/4/1967)

1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.
2) Diferentemente do sentido político que lhe é dado habitualmente, Dr. Plinio usava a palavra “sinarquia” para caracterizar a mentalidade ateia, segundo a qual a finalidade suprema de uma sociedade é o trabalho e a produção material.

24 de abril – São Fidelis de Sigmaringa: Coragem e serenidade diante da morte

São Fidelis de Sigmaringa: Coragem e serenidade diante da morte

Pela palavra e pelo exemplo, esse heroico missionário combateu tenazmente os erros espalhados pela primeira Revolução.

Tais foram seus êxitos que os inimigos da Igreja, consumidos pelo ódio, o martirizaram.

Em 24 de abril comemora-se a festa de São Fidelis de Sigmaringa, sobre o qual me enviaram uma ficha com alguns dados biográficos.

Viveu de 1577 a 1622. Ingressou nos capuchinhos aos 35 anos de idade.

Nascido em Sigmaringa, Alemanha, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito, em Friburgo.

A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante seis anos, e, depois de ter exercido a profissão de advogado, resolveu abandonar o mundo.

No testamento que fez, a certa altura, diz o seguinte: “Quero viver, daqui para o futuro, na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me aos braços do Salvador”.

O Padre Fidelis possuía grandes dotes oratórios, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e em muitas igrejas do campo.

Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente nos Grisões(1), a Santa Sé encarregou os capuchinhos de combatê-lo. O Padre Fidelis foi nomeado chefe dessa missão.

“Dentro em breve não me tornareis a ver — disse ele aos seus amigos —, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. Ao escrever uma carta a seu superior, encerrou-a assim: “Seu amigo Fidelis, que em breve será pasto dos vermes”.

Em janeiro de 1622, entrou na região ocupada pela Áustria e começou a pregar a Fé, com grande êxito.

Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta, e o missionário avisou os austríacos. Os Grisões levantaram-se, então, em massa.

No dia de 24 de abril, estando o Padre Fidelis a pregar, ouviu-se o grito: “Às armas!” Os Grisões saíram ao encontro das tropas imperiais, que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidelis fora quem chamara os austríacos. Ainda o deixaram sair da cidade, mas, como daí a pouco regressasse, vinte soldados caíram sobre ele. Trataram-no de sedutor e quiseram forçá-lo a abraçar a sua seita.

“Que me propondes? — respondeu Fidelis. Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos. Não renunciarei! Ademais, sabei que não temo a morte.”

Eles, então, mataram-no a golpes de sabre.

Varão sobrenatural, enérgico e batalhador

É interessante notarmos bem qual foi a atuação deste Padre, deste grande pregador, para que depois o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente.

Ele era um missionário famoso, um grande orador que pregava em vários lugares. A Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça, denominada Grisões, incumbiu a Ordem religiosa da qual ele fazia parte, que era a dos capuchinhos, de mandar pregadores para aquela zona bons oradores, a fim de converterem os que se tinham pervertido para o protestantismo, e para impedir que novos católicos fossem objeto do proselitismo protestante.

Então nosso Santo, que já transformara inteiramente uma cidade importante da Alemanha por seus sermões, dirigiu-se à Suíça, sabendo que iria morrer, pois teve uma revelação de que lá seria martirizado.

Mas, homem sobrenatural, enérgico e batalhador, ele não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a martírio com uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima. Ele até assinava: “Frei Fidelis, que em breve será pasto dos vermes”. Quer dizer, sabendo que seria mártir e a sua alma iria para o Céu, isto lhe dava então uma grande alegria.

A essa demonstração de tenacidade, ele juntou outra prova de força, de valor, que foi o fato de ter irritado sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra ele. Portanto, ele alcançou resultados importantes como, aliás, se refere na nossa ficha. A tal ponto, que os protestantes resolveram assassiná-lo, e prepararam um encontro em que ele, afinal de contas, acabou morto.

Foi, portanto, um orador audacioso, valoroso, forte; um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio; um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza, porque esta virtude atinge um alto grau em cada mártir que leva a abnegação e o desejo de lutar até o ponto de imolar efetivamente a sua existência.

Devemos nos precaver contra o sentimentalismo religioso do século XIX

Por outro lado, considerem esta fórmula que São Fidelis empregou:

“Quero viver, para o futuro, na maior pobreza, na castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me aos braços de Nosso Salvador.”

Isso poderia ser pronunciado, segundo um estilo sentimental de piedade difundido principalmente no século XIX, entre suspiros e com tanta moleza que seríamos levados a não tomar a sério essas palavras.

Compreendemos, assim, o equívoco tremendo que a piedade eivada de sentimentalismo do século XIX criou em torno de fórmulas como essa, e o quanto é necessário que não nos deixemos vencer por esse engano. Porque, embora o estado de espírito que eu apontei seja muito ruim, a fórmula é muito boa, em si mesma considerada. É uma fórmula empregada por um santo e, portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto um santo faz é bom.

De maneira que, sendo essa fórmula susceptível de ser pronunciada e considerada de outro modo, não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século XIX nos torça a visão do que ela tem de bom, e de sua coerência com algumas das virtudes que nós fomos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução e a combatividade.

É um engano pensar que quem pronuncia essa fórmula é incompatível com essas virtudes que nós tanto apreciamos. Não pode ser, porque entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isto tem que ser virtude, porque foi pronunciado por um santo. Logo, não pode haver incompatibilidade.

Por isso, o valor dessa fórmula é muito grande. É evidente que um homem dotado da verdadeira virtude da sabedoria, que compreenda como todas as coisas deste mundo são nada — na medida em que obstem a aquisição da virtude e o amor de Deus —, deseje retirar-se desta Terra.

Fidelidade à vocação religiosa

Quando Nossa Senhora deseja que alguém abrace uma vocação, em geral Ela torna difícil a vida para essa pessoa fora da vocação. Portanto, um santo, nessas condições, é levado pelas circunstâncias à seguinte alternativa: ou se perde, ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.

Ademais, independentemente do perigo de se perder, ele tem um atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria, para unir-se a Deus por essa forma, naquele estado de vida e, por amor do Altíssimo, ele adota aquela fórmula. Então se faz, como São Fidelis, um capuchinho, por exemplo.

O que quer dizer fazer-se capuchinho?

É adotar a pobreza completa, renunciando a toda forma de apego às coisas materiais, despreocupando-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas pelo fato de os possuírem. Não admira ninguém porque tem um bonito automóvel, um bom apartamento ou uma fábrica importante. Absolutamente não! Mas, dá valor aos homens e às coisas, na medida em que se aproximam da sabedoria.

Uma pessoa assim possui um estado de espírito varonil, combativo, e poderia dizer: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, porque quero imitar Nosso Senhor Jesus Cristo que sofre; e, por isso, serei um lutador, vou batalhar e sofrer, porque na guerra se sofre”.

Isso nada tem de “heresia branca”(2). É piedade de boa lei que o homem mais valoroso e mais combativo deve ufanar-se em ter.

Assim também, dizer com coragem que daqui a pouco vai ser pasto dos vermes, é uma prova de que ele não tinha medo de morrer e ria a respeito disso: “Eu agora estou vivo, esta carne que estou vendo vai ser comida pelos vermes; através destas órbitas vão entrar vermes e comer estes olhos; destes ouvidos, desta boca, sairão vermes como que engendrados pelo meu próprio corpo. Mas não me incomodo, porque a minha alma vai para o Céu. Terei o martírio, que vale muito mais. E, no último dia, o meu corpo ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu”.

É uma atitude de força de alma completamente oposta ao faniquito que o sentimental tem diante da morte.

Lutou arduamente contra a Revolução de seu tempo

Portanto, bem interpretada, bem entendida, essa fórmula nada tem de “heresia branca”. É uma fórmula esplêndida! É “heresia branca” estar no estado temperamental estúpido com que a escola dos sentimentais do século XIX repetia isso; escola essa que está, mais ou menos, viva até nossos dias.

Em São Fidelis temos a prova concreta: um homem que empregava fórmulas dessas deu exemplo de uma admirável coragem, vendo chegar até ele a morte com a serenidade que os maiores heróis não saberiam sobrepujar, e que lutou arduamente contra a Revolução em seu tempo, foi um verdadeiro contrarrevolucionário, porque o protestantismo era a Revolução em sua época. Homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.

Uma relíquia deste santo se encontra em nossa capela; de maneira que faremos uma boa coisa pedindo-lhe que nos dê a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século XIX, vivo até hoje, infelizmente.

O século XIX foi um século de grandes santos, santos admiráveis, mas que estavam isentos disso, e até eram modelos do contrário.

É bem o que se poderia dizer de Santa Teresinha do Menino Jesus. A pequena via, inaugurada por ela, tão cheia de candura, de suavidade, é uma via de grande força e combatividade, para quem sabe ver a vida de Santa Teresinha.

Percebe-se isso nos desejos da Santa de Lisieux. Ela dizia que tinha desejos infinitos, entre os quais o de brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja. Vê-se nisso uma manifestação de combatividade que chega até o cruzado. E isso da parte desta Santa tão suave na sua pequena via.

Vemos, portanto, como as virtudes são inteiramente compatíveis entre si.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1971)

 

1) Um dos cantões da Suíça, o de maior extensão territorial.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor. São Fidelis deu exemplo de uma admirável coragem: vendo chegar a morte com a serenidade que os maiores heróis não saberiam sobrepujar, foi um verdadeiro contrarrevolucionário.

24 de abril – São Fidelis: Admirável exemplo de fortaleza

São Fidelis: Admirável exemplo de fortaleza

São Fidelis de Sigmaringa era um missionário famoso, grande orador enviado à região da Suíça para impedir a expansão do protestantismo.

Homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, tendo recebido a revelação de que seria martirizado,  não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte com alegria.

A essa prova de tenacidade ele juntou a de força, valor e eficácia, pois irritou sobremaneira os protestantes, que resolveram então matá-lo. Ninguém se torna de tal maneira irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos importantes contra ele.

Eis, portanto, um orador audacioso, valoroso, forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. São Fidelis nos dá um admirável exemplo de fortaleza levada à abnegação de sua própria existência, e ao desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua vida.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/4/1967)