27 de agosto – Santa Monica

Santa Monica

Nas “Confissões” de Santo Agostinho há um trecho especialmente magnífico: é chamado o “Êxtase de Óstia” ou o “Colóquio de Óstia”. Hoje em dia se diria o “diálogo de Óstia”.

O episódio é o seguinte: a mãe de Santo Agostinho, Santa Mônica (331–387), passou uns trinta anos ou mais chorando a pedir a Deus a conversão de seu filho. Parecia que quanto mais ela rezava, esta conversão se tornava mais longínqua. Até que, de desatino em desatino, Santo Agostinho acabou por comer as bolotas dos porcos e começou um processo de conversão que fez dele o grande Doutor da Igreja.

Santo Agostinho, já convertido, e Santa Mônica resolveram voltar para a África do Norte, naquele tempo inteiramente romana, e mais especificamente para a cidade de Cartago, de onde eram naturais, para ali residirem. E assim percorreram uma certa parte da Itália para tomar um navio em Óstia, que é um porto pequeno perto de Roma, mas que tinha naquele tempo uma certa importância. De lá iam seguir para a África.

Encontravam-se então numa hospedaria de Óstia, encostados junto a uma janela e começaram a conversar a respeito de Deus e das coisas do Céu, quando os dois juntos tiveram um êxtase.

Santo Agostinho relata este colóquio extraordinário e é um dos trechos mais famosos das “Confissões”. Poucos dias depois Santa Mônica morria, ainda estando na cidade de Óstia. Sua missão na terra estava cumprida e Nosso Senhor a chamou ao Céu para gozar do prêmio que merecia.

Então, o último lance de sua vida foi exatamente a alegria de ter na terra com o filho este colóquio, que era um prenúncio, um antegozo da visão beatífica. Tenho a impressão que qualquer um de nós que passasse por Óstia, gostaria de ver se ainda existe essa hospedagem.

Resolvi ler aqui a narração desse colóquio, porque é um página célebre e abre os nossos horizontes para os grandes portentos na perspectiva da hagiografia e da doutrina católica. O trecho é extraído diretamente das “Confissões”:

“Próximo já do dia em que ela ia sair desta vida – dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos…”

Estas interpelações diretas de Santo Agostinho a Deus são magníficas. Os senhores deveriam ler os “Solilóquios” de Santo Agostinho, que há em nossa biblioteca e que são qualquer coisa de absolutamente estupendo.

“…sucedeu, segundo creio, por disposição de Vossos secretos desígnios, que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o jardim da casa onde morávamos. Era em Óstia, na foz do Tibre, onde, apartados da multidão, após o cansaço duma longa viagem, retemperávamos as forças para nos embarcarmos.

“Falávamos a sós, muito docemente, esquecendo o passado e dilatando-nos para o futuro. Na presença da Verdade, que sois Vós, alvitrávamos qual seria a vida eterna dos santos, que ‘nunca os olhos viram, nunca o ouvido ouviu, nem o coração do homem imaginou’.”

Vejam que beleza: dois santos conversando sobre qual seria a vida eterna dos santos, e a alegria de Santa Mônica em sentir aquele filho perdido que agora estava incendiado de desejos de contemplar o Céu. É uma verdadeira maravilha!

“Sim, os lábios do nosso coração abriam-se ansiosos para a corrente celeste da nossa fonte, a fonte da Vida, que está em Vós, para que aspergidos segundo a nossa capacidade, pudéssemos de algum modo pensar num assunto tão transcendente.”

Faço notar aos senhores a maravilha da expressão “os lábios do coração”… quer dizer, aquilo por onde o coração bebe, por onde o coração sorve, estavam abertos para receber de Deus aquilo que nesta vida terrena se pode receber a respeito das alegrias do Céu.

“Encaminhamos a conversa até a conclusão de que as delícias dos sentidos do corpo, por maiores que sejam e por mais brilhante que seja o resplendor sensível que as cerca, não são dignas de comparar-se à felicidade daquela vida, nem mesmo que delas se faça menção. Elevando-nos em afetos mais ardentes por essa felicidade, divagamos gradualmente por todas as coisas corporais até ao próprio céu, donde o sol, a lua e as estrelas iluminam a terra.”

É uma verdadeira procura do absoluto. Eles começaram a considerar: primeiro as coisas da terra, que lisonjeiam os sentidos, porque estavam no Império Romano decadente, em que havia fortunas fabulosas e pessoas que tinham luxo para deleitar os sentidos de que os Srs. não têm ideia. Então, o primeiro confronto é da felicidade celeste para a felicidade dos homens, que no tempo do Império, eram tidos como felizes. Resposta: isto não é nada. Então, começam a perguntar: como é então (a felicidade verdadeira)? E começam a percorrer os céus, a imaginar com os dados do céu material e visível, como seria o paraíso celeste material, mas invisível, e como seria a glória da visão beatífica que neste paraíso se goza. É este o esquema da conversa deles. Então continua:

“Subíamos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as Vossas obras. Chegamos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, onde apascentais eternamente Israel com o pastio da verdade. Ali a vida é a própria Sabedoria, por Quem tudo foi criado, tudo o que existiu e o que há de existir, sem que ela própria se crie a si mesma, pois existe como sempre foi e como sempre será. Antes, não há nela ‘ter sido’, nem ‘haver de ser’, pois simplesmente ‘é’, por ser eterna.”

Ou seja, depois de ter considerado todas as coisas materiais, começaram então a considerar a alma como elemento para se ter algo da ideia da beleza, da perfeição de Deus. E depois de considerar a alma, chegaram à conclusão de que no ápice de tudo isto figurava a Sabedoria Eterna e Incriada. Essa Sabedoria que é eterna, que não tem passado, nem presente e nem futuro. Foi nessa consideração sapiencial, suprema, que os espíritos deles se detiveram.

“Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria…”

Quer dizer, visando conhecer a Deus enquanto Sabedoria, enquanto fim e explicação de todas as coisas.

“…atingimo-la momentaneamente num vislumbre completo do nosso coração.”

É o êxtase. Enquanto conversavam a respeito dessas coisas, conduzidos pela graça de Deus, em certo momento a Sabedoria se revelou a eles, e tiveram um fenômeno místico por onde viram Deus.

Os senhores vêem que é algo muito natural: são dois santos que tem uma conversa que é uma oração; esta vai subindo de voo, de ponto em ponto, e quando chega ao seu ápice, então lhes aparece Deus Nosso Senhor, mas aparece de maneira a fazê-los conhecer enquanto Sabedoria Eterna. E tudo isto com tanta simplicidade,   numa janela de uma hospedaria de Óstia…

“Suspiramos e deixamos lá agarradas as primícias de nosso espírito.”

Quer dizer, o que havia de melhor neles ficou na visão, não voltou para a terra.

“…Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba. Como poderá esta, meu Deus, comparar-se ao Vosso Verbo, que subsiste por si mesmo, nunca envelhecendo e tudo renovando?”

Aqui está uma insinuação de que Deus lhes disse uma palavra. Naturalmente é o Verbo. E que isto que foi dito por Deus sobre Sua própria Sabedoria, foi qualquer coisa tal que o que continuassem a conversar seria um balbucio. A visão cessou e as palavras deles eram umas coisas vazias à vista do que Deus havia revelado de Si mesmo.

“Dizíamos pois: suponhamos uma alma onde jazem em silêncio a rebelião da carne, as vãs imaginações da terra, da água, do ar e do céu…”

É a doutrina dos quatro elementos.

“Suponhamos que ela guarde silêncio consigo mesma, que passa para além de si, nem sequer pensando em si; uma alma na qual se calem igualmente os sonhos e as revelações imaginárias, toda a palavra humana, todo o sinal, enfim, tudo o que sucede passageiramente.

“Imaginemos que nessa mesma alma existe o silêncio completo, porque se ainda pode ouvir, todos os seres lhe dizem: ‘Não nos fizemos a nós mesmos, fez-nos O que permanece eternamente’. Se ditas estas palavras os seres emudecerem, porque já escutaram quem os fez, suponhamos então que Ele sozinho fala, não por essas criaturas, mas diretamente, de modo a ouvirmos a sua palavra, não pronunciada por uma língua corpórea, nem por voz de Anjo, nem pelo estrondo do trovão, nem por metáforas enigmáticas, mas já por Ele mesmo.

“Suponhamos que ouvíamos Aquele que amamos nas criaturas, mas sem o intermédio delas, assim como nós acabávamos de experimentar, atingindo num voo de pensamento, a Eterna Sabedoria que permanece imutável sobre todos os seres.”

Quer dizer, ele imagina uma alma que não cogita de nada mais criado, que consegue abstrair de tudo e que de repente ouve uma palavra de Deus que diz alguma coisa a respeito de Si próprio.

“Se esta contemplação continuasse e se todas as outras visões de ordem muito diferente cessassem, se unicamente esta arrebatasse a alma e a absorvesse, de modo que a vida eterna fosse semelhante a este vislumbre intuitivo – a visão beatifica – pelo qual suspiramos, não seria isto a realização do “entra no gozo do teu Senhor”? E quando sucederá isto? Será quando todos ressuscitarmos? Mas então não seremos todos transformados?”

Ele afirma então que se uma alma pudesse ficar eternamente apenas naquele vislumbre, já teria um prazer paradisíaco inefável, extraordinário.

“Ainda que isto, dizíamos, não pelo mesmo modo e por estas palavras, contudo, bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e os seus prazeres nos pareciam vis, naquele dia quando assim conversávamos. Minha mãe acrescentou ainda: ‘Meu filho, quanto a mim, já nenhuma coisa me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem porque ainda cá esteja, esvanecidas já as esperanças deste mundo. Por um só motivo desejava prolongar um pouco a minha vida: para ver-te cristão e católico, antes de eu morrer. Deus concedeu-me esta graça super abundantemente, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servirdes ao Senhor. Que faço, eu, pois, aqui?’”

Dias depois ela morreu.

Santa Mônica, nesta visão, teve o prenúncio de sua própria morte, compreendeu que não tinha nada mais para fazer. Agora os senhores considerem a diferença de uma grande santa com uma mãe piegas (excessivamente sentimental). Esta última diria: “Agora que meu filho está convertido, começou para mim a vida! Eu vou ouvir os sermões dele, vou ver suas obras, vou viver com ele uma vida gostosinha na casa episcopal, admirando a virtude e o talento daquele que eu gerei para a vida natural e que eu arranquei, pelas minhas orações, à morte eterna, para dar um grande santo. Agora é que está bom…”

Santa Mônica não queria ver seu filho para nada disso. Ela o queria para Deus. Quando sentiu que Santo Agostinho estava nas mãos de Deus, não quis perder  tempo vendo-o servir a Deus. Alguns dias depois ela expirou.

É uma grande santa e seu último grande lance da vida narrado por um grande santo.

Aí vemos um pouco o que é a vida de um santo, quando não é descrita por um “heresia branca”. Os senhores vêem quantas coisas há de comum com essa narração – e das quais já tinha me esquecido inteiramente – com as conferências sobre a “Procura do Absoluto” e temas conexos que temos feito aqui ultimamente.

Plinio Corrêa de Oliveira (Santo do Dia, 31 de agosto de 1965)

27 de agosto – O COLÓQUIO DE ÓSTIA

O COLÓQUIO DE ÓSTIA

Como, no decorrer dos séculos, a maneira de raciocinar dos vários povos vai enriquecendo com traços peculiares a fisionomia da Igreja – eis a tese exposta por Dr. Plinio na conferência que vimos reproduzindo em partes nesta seção. Para encerrá-la, comenta ele um texto célebre, repassado de beleza sobrenatural e literária, que bem exemplifica o pensamento latino: é o colóquio de Óstia, entre Santa Mônica e Santo Agostinho

 

Durante a extraordinária conversa que manteve com seu filho, Santa Mônica externou seu desejo de partir o quanto antes para o Céu, pois já não via razão para permanecer por mais tempo nesta Terra. A Providência Divina não demorou em atender aos santos anseios dela, e pouco depois a levou para a eterna bem-aventurança. O próprio Santo Agostinho narra de modo esplêndido a morte e os funerais de sua mãe, e como continuou a existência dele, após o último adeus àquela que lhe alcançara a conversão.

Numa janela, junto ao porto de Óstia

Hoje, porém, gostaria de comentar apenas o trecho em que Santo Agostinho descreve o seu diálogo com Santa Mônica, em Óstia. Ao lê-lo, tem-se  a impressão de que em certos momentos o texto se transforma em fita magnética, e como que se percebe a voz de Santo Agostinho ecoando através dessas páginas, de tal maneira são eloquentes os movimentos de alma dele expressos nessas palavras que ele dirige a Deus. Vejamos.

“Próximo já o dia em que ela ia sair desta vida – dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos – sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios, que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o jardim interior da casa onde morávamos. Era em Óstia, na foz do Tibre, onde, apartados da multidão, após o cansaço duma longa viagem, retemperávamos as forças para embarcarmos”.

Creio não ser difícil sentir a cadência e a força de evocação extraordinária do texto. Temos a impressão de ver o pequeno jardim para o qual dava a janela dessa casa, que devia ser uma hospedaria, e de ver Santo Agostinho e Santa Mônica olhando meio maquinalmente para as plantas e flores, sem prestar maior atenção nelas nem em outras coisas. E eles que começam a dialogar, numa conversa que logo se eleva a altos píncaros. Mas, já aqui vemos que ele não registra nenhum por- menor inútil. Nessa narração tudo está calculado como num mosaico ou num “puzzle”. Não há palavra supérflua. Ao mesmo tempo, porém, nota- se uma vida e um calor intensos na descrição dele. Por exemplo, este som: “Próximo já o dia em que ela ia sair desta vida”… É um modo fenomenal de iniciar o relato.

Cumpre dizer que a ótima tradução portuguesa contribui para se aquilatar a beleza do texto. Veja-se o cantante da formulação, que não fala da tristeza da morte, mas toma antes o lado bonito da existência que findou: “sair desta vida”. É o aspecto luminoso da morte. Em seguida ele se volta para Deus e diz: “Dia que Vós conhecíeis e nós ignorávamos”. Esse dirigir-se ao Senhor parece uma oração, e que Deus está perto dele. Então, de repente nós sentimos a proximidade de Deus com ele e da nossa alma com Deus, através das palavras de Santo Agostinho.

Ele termina o parêntese e continua: “Sucedeu, segundo creio, por disposição de vossos secretos desígnios…”

Santo Agostinho já está se perguntando por que aconteceu de ele estar junto com a mãe, na janela. E dá a resposta: provavelmente foi Deus quem quis. Percebe-se o raciocínio latino nesse modo de conjecturar, indagando e estabelecendo os motivos para o que ocorreu. Continua: “… que nos encontrássemos sozinhos, ela e eu, apoia- dos a uma janela”. A situação é linda, porque as janelas romanas não eram muito grandes, e naquela onde os dois se encontravam, não havia lugar para um terceiro. A moldura da janela quase que os isola do resto do mundo, e não cabe ninguém perto.

“…cuja vista dava para o jardim interior da casa onde estávamos”. Devia ser uma casa romana antiga, com pá- tio interno, ajardinado, e onde não havia quase movimento. Esse detalhe indica como estavam sós, e nos faz compreender a intimidade da cena. Mais uma vez, tudo tem sua razão de ser, nada é supérfluo.

“Era em Óstia, na foz do Tibre”…, ou seja, o lugar augusto em que o Tibre evanesce dentro do mar, outro aspecto muito bonito da narrativa. “…onde, apartados da multidão” – sempre a ideia dos dois inteiramente sós, na intimida- de – após o cansaço duma longa viagem, retemperávamos as forças para embarcarmos”. Quer dizer, a mãe e o filho estão propriamente na vida comezinha, na hospedaria, sem ter o que fazer e repousando. Mas o espírito, em altos vôos. Apoiam-se a uma janela e, nessa intimidade, para  onde  sobem  as  almas?

 

Um diálogo filosófico- teológico à maneira latina

“Falávamos a sós”. Repare-se na insistência dele a respeito do isolamento em que se encontravam. O que ele faz de maneira literária, e não como um registro policial: “Estávamos sozinhos e ponto. Tome nota disso”. Não. Ele insiste várias vezes e aquilo vai penetrando no espírito de quem o lê.

“Falávamos a sós, muito docemente, esquecendo o passado e ocupando-nos do futuro. Na presença da Verdade, que sois Vós, alvitrávamos qual seria a vida eterna dos santos, que nunca os olhos viram, nunca o ouvido ouviu, nem o coração do homem imaginou”.

Eles, de fato, estão fazendo filosofia e teologia. Mãe e filho tratavam do futuro e se perguntavam como seria a vida dos santos na eternidade, na presença do Altíssimo, a Quem os olhos nunca viram, nunca os ouvidos ouviram e nunca o coração do homem imaginou como é. Eles se põem, então, um problema teológico-filosófico.

“Sim, os lábios do nosso coração abriam-se ansiosos para a corrente celeste da vossa fonte, a fonte da Vida, que está em Vós, para que (ajudados) segundo a nossa capacidade, pudéssemos de algum modo pensar num assunto tão transcendente.”

Faço notar a beleza da expressão: “os lábios do nosso coração”, para indicar a vontade afetuosa do homem. Nesse diálogo, eles vão raciocinar e se elevar a subidas considerações, com verdadeiros vôos de Anjo. Eles percebem que o assunto é alto e mobilizam a capacidade de raciocínio deles, enfrentando juntos o tema. É a mãe, na despedida da vida, e o filho, num colóquio ultra-íntimo e amoroso. O que eles estão fazendo? Filosofia.

“Encaminhamos a conversa até à conclusão de que as delícias dos sentidos do corpo, por maiores que sejam e por mais brilhante que seja o resplendor sensível que as cerca, não são dignas de comparar-se à felicidade daquela vida, nem merecem que delas se faça menção.”

Quer dizer, tudo que existe neste mundo não é nada. E ele, na sua descrição, já deixou a Terra aqui embaixo e está pensando pura e exclusivamente no Céu. Santo Agostinho agora começa a voar. Faço notar como isto é um tratado: mãe e filho estão na janela, da qual o espírito deles se eleva a um píncaro acima de tudo quanto é terreno, considerando como as coisas temporais não têm nenhum valor em comparação com as da beatitude eterna. Iniciam, então, a outra parte de sua viagem filosófico-teológica. É um itinerário racionalmente calculado. Mas, com que sabor! Ele continua:

“Elevando-nos em afetos mais ardentes por essa felicidade, divagamos gradualmente por todas as coisas corporais, até ao próprio céu, donde o sol, a lua e as estrelas iluminam a terra. Subimos ainda mais em espírito, meditando, falando e admirando as vossas obras.”

Podemos imaginar a cena em que os dois faziam juntos essa contemplação: “Olha como o sol, a lua e as estrelas são bonitos, porém não nos satisfazem”. É propriamente uma meditação escolástica a respeito das criaturas que refletem a Deus, mas de modo insuficiente, sem darem inteira satisfação à alma. Esse é um discurso filosófico-teológico, feito de mãe para filho e de filho para mãe, numa janela de um albergue, diante de um acanhado jardim, no momento em que os dias dela já estavam contados e muito próxima a sua partida para o Céu. É maravilhoso!

“Chegamos às nossas almas e passamos por elas para atingir essa região de inesgotável abundância, onde apascentais eternamente Israel com o nutrimento da verdade. Ali a vida é a própria Sabedoria, por quem tudo foi criado, tudo o que existiu e o que há de existir, sem que Ela própria se crie a si mesma, pois existe como sempre foi e sempre será.”

Eles analisaram todas as criaturas terrenas e concluíram: não nos bastam. Depois analisaram a alma humana e disseram: também não basta. A partir daí ascenderam até o lugar que eles não conheciam, mas que era a pradaria onde as almas imortais “Israel” simboliza isso as eleitas, as preferidas são apascentadas pelo Eterno Pastor. Então eles ficaram contentes. Uma vez mais, importa considerar como é metódico esse itinerário de raciocínio, um autêntico curso de filosofia pré-São Tomás de Aquino, no voo das doçuras e da genialidade. Tudo é bem ordenado, numa atmosfera diferente daquela de São Charbel Makhlouf, do catolicismo, dos ritos litúrgicos e da hieraticidade dos santos do Oriente. É um outro estilo, outra forma de beleza da Igreja luzindo através dos vitrais da alma do povo latino.

Mãe e filho vivem seu primeiro instante de Céu

O colóquio de Óstia chega ao seu termo, e Santo Agostinho, mais à frente, prossegue sua narrativa:

“Enquanto assim falávamos, anelantes pela Sabedoria, atingimo-la momentaneamente num ímpeto completo do nosso coração.”

É um modo discreto de dizer que Deus apareceu a eles. No momento em que conversavam e subiam de indagação em indagação, naquele instante em que eles estavam com a meditação racional inteiramente feita, cai sobre a flor ordenada, perfumada e aberta da alma de cada um deles a gota de orvalho do Céu: é Deus que  se mostra a eles. Percebe-se como Nosso Senhor se comprouve com o raciocínio deles, auxiliou-os a atingir esse auge de meditação e, quando aí chegaram, mostrou-Se a eles. Compreende-se, por outro lado, como Deus ama a quem raciocina de maneira virtuosa e a quem procura metodicamente a verdade.

“Suspiramos e deixamos lá agarradas as primícias de nosso espírito.”

Quer dizer, eram os primeiros frutos de suas almas e de suas inocências, um primeiro presente que recebiam de Deus, e um primeiro instante de Céu que viveram juntos, e ali deixaram presos seus espíritos. Mãe e filho nunca mais se esqueceriam daquela hora, sendo que Santa Mônica em breve passaria a desfrutar eternamente das maravilhas que anteviram. “Voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba. Como poderá esta, meu Deus, comparar-se ao vosso Verbo que subsiste por si mesmo, nunca envelhece e tudo renova?”

É uma referência a Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus Encarnado. Ele é a a palavra eterna que Deus diz a respeito de si próprio. Enquanto a palavra do homem é “um ruído vão”, porque começa e acaba, sai do silêncio e volta ao silêncio, o Verbo de Deus existe e existirá por toda a eternidade. Que diferença entre essa palavra de Deus que eles perceberam num êxtase e essas palavras vazias que nós pronunciamos! As nossas passam, a de Deus permanece. É eterna e renova tudo quanto existe. Santo Agostinho e Santa Mônica o compreenderam, numa visão.

“Ainda que isso dizíamos, não pelo mesmo modo e por essas palavras, contudo bem sabeis, Senhor, quanto o mundo e seus prazeres nos pareciam vis naquele dia, quando assim conversávamos.” 

Os desejos de Santa Mônica postos na eternidade

Em seguida, Santa Mônica faz entender que ela vai morrer:

“Minha mãe então me disse: Meu filho, quanto a mim, já nenhuma coisa me dá gosto nesta vida. Não sei o que faço ainda aqui, nem por que cá esteja, evanescidas já as esperanças deste mundo.” Depois do que ela  contemplou, não tinha mais razão nenhuma para estar no mundo. Nem Santo Agostinho. Ou seja, ela viu tão alto em Deus que nem a companhia do filho, santo, por cuja conversão ela tinha chorado trinta anos, não a retinha mais nesta Terra. E ela queria ir para o Céu.

Alguém poderia indagar: “Não é um pouco duro esse desejo de partir?”

Não me parece, uma vez que ela, no Céu, estaria mais próxima de Santo Agostinho do que na Terra, porque se acharia perto de Deus, que é, por assim dizer, a “raiz” de Santo Agostinho. De fato, todos os que vão para a eterna bem-aventurança se encontram mais próximos dos que estão neste mundo do que se aqui ainda vivessem. Esta é uma verdade lindíssima, da qual

não podemos nos esquecer. Santa Mônica continua:

“Por um só motivo desejava prolongar um pouco mais a vida: para ver-te católico antes de morrer. Deus concedeu-me esta graça super abundantemente, pois vejo que já desprezas a felicidade terrena para servirdes ao Senhor. Que faço eu, pois, aqui?”

Note-se como ela punha a fé católica acima de tudo. O pensamento dela era este: “Meu filho se converteu e tornou-se um bom católico. Portanto, posso morrer em paz. O resto não me interessa”. Dias depois ela morreu…

E aqui também termina a nossa exposição.

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de agosto – Os tempos de São Luís, Rei da França

Os tempos de São Luís, Rei da França

Assim como Deus deseja encaminhar o desenvolvimento da Igreja para a realização de seus planos, é natural que esteja nos desígnios d’Ele, correlativamente, estabelecer, proteger e desenvolver a civilização católica. Em virtude dessa disposição divina, desperta o maior interesse uma análise da história à procura das pessoas providenciais, dos problemas, das crises, dificuldades e êxitos que a formação e conservação dessa civilização encontrou diante de si.

Vejamos hoje um de seus períodos-auge, aqueles anos do século XIII nos quais desabrochou um sábio governante e um grande herói da Fé: São Luís IX, rei da França.

Santidade e infâmia numa mesma dinastia

Ele era filho de Luís VIII e de uma princesa cercada de uma auréola bem medieval e poética, tanto pelo seu  nome como pela origem, pelo estilo e pelas qualidades morais: Branca de Castela.

Parece-me um nome de contos de fadas, que faz pensar num lírio particularmente alvo, brotado no alto da torre de uma fortaleza sobranceira e inexpugnável! Branca de Castela…

Dela nasceu, em 25 de abril de 1215, um filho igualmente lirial, do qual se podem fazer todos os elogios.

Por ocasião da morte de seu pai, em 1227, Luís tinha 12 anos. Com esta idade foi proclamado rei, bem antes do reconhecimento de sua maioridade, que sobreviria apenas em 1235. Neste mesmo ano casou-se com uma princesa de nome também literário, Margarida de Provença. Situada no sul da França, a Provença, além de rica e bela, é  uma  região de clima suave, terra dos trovadores e da poesia. E assim como a mãe era um lírio desabrochado nos cumes de uma fortaleza, a esposa era uma margarida nascida no meio dos encantos provençais.

Pelo lado materno, era primo-irmão de Luís outro monarca santo, o rei Fernando de Castela, grande herói da reconquista espanhola contra os mouros. Quanto a seus descendentes, São Luís foi pai do rei Filipe III, o Ousado, e avô de um dos piores reis de toda a história, Filipe, o Belo. Quer dizer, uma virtuosa mãe na origem, um primo santo no ramo colateral e um neto iníquo. É a confirmação de uma triste regra no existir das dinastias, segundo a qual a santidade e a infâmia costumam disputar lugar numa mesma genealogia…

Temas candentes no tempo de São Luís

Viveu São Luís numa época em que alguns temas eram candentes, revestindo-se de importância transcendental e ocasionando as mais profundas repercussões na organização da Idade Média. Não se tratava, portanto, de problemas meramente especulativos, nos quais o santo soberano deve ter tomado parte relevante, embora haja carência de dados históricos para situar essa participação.

Para mencionar apenas alguns desses temas, havia, em primeiro lugar, a luta entre o Império e o Papado, que atingia então seu estágio mais delicado.

Luís IX, rei de França ou seja, da “Filha Primogênita” da Esposa de Cristo santo, terceiro franciscano, cheio de zelo pela causa da Igreja, acompanhou com apreensão essa querela que envolvia os poderes espiritual e temporal. Infelizmente, não se conhece muito de sua atividade diplomática, nem da força política ou material que tenha empregado para assegurar a preponderância do Papado sobre o Império, questão absolutamente nevrálgica para a Civilização Católica daquela época. Seria preciso esclarecer ainda alguns pontos, para se poder chegar a uma conclusão acertada sobre a atitude do monarca francês nessa controvérsia.

Outro tema interessante é o seguinte: São Luís viveu no ápice da Idade Média. Sabemos que foi contemporâneo de São Tomás, de São Boaventura, e que no tempo dele a sociedade orgânica e corporativa atingiu o máximo de seu desenvolvimento. Ora, gostaríamos de saber se ele teve consciência de todo esse florescimento que se dava na sociedade, e de sua importância.

De modo mais particular é preciso abordar outro ponto.

Sabemos que o regime feudal, para corresponder à concepção católica da sociedade que o engendrou, devia ser constituído pelo inteiro equilíbrio de forças entre suseranos e vassalos. Sobretudo, entre o rei e os nobres. Esse equilíbrio é garantido por dois fatores: é necessário que o rei tenha uma autoridade efetiva e, por isso, que seja bastante vigoroso para impor sua vontade aos senhores feudais. Mas é preciso também que estes últimos sejam bastante fortes para poderem conter os eventuais abusos do monarca. Assim se mantinha a harmonia social na Idade Média.

Tal situação era possível em virtude do ascendente do Papa sobre toda a sociedade, pois, sendo o Pontífice superior aos reis e aos senhores feudais, podia servir de árbitro. E um rei que tinha sobre si esse poder pontifício (maior que a própria tutela exercida pelo Imperador do Sacro Império), não era inteiramente livre para estrangular os vassalos e nobres inferiores.

No tempo de São Luís, esse equilíbrio social parece ter atingido um apogeu. Segundo conceituados historiadores, no século XIV portanto, no período imediato ao de São Luís o feudalismo alcançou na Europa a sua posição ideal. Se isto é assim, deve ter havido uma preparação, realizada pela geração anterior, precisamente a que viveu sob a influência direta do virtuoso monarca francês.

Um santo no trono da França

Logo após a morte de Luís VIII, Branca de Castela, tão enérgica quanto jeitosa em política, assumiu a regência do governo. Depois de enfrentar vitoriosamente algumas crises, deixou o caminho livre e bem calçado para que as jovens mãos de seu filho continuassem a magna tarefa de governar a França. Os contemporâneos de São Luís afirmavam que a melhor distração do rei era cantar no coro da Igreja e conversar a respeito de assuntos religiosos com os cortesões. Costumava servir comida a 200 pobres, cujos pés lavava. Cuidava de bom grado dos doentes e tinha uma predileção especial em tratar dos leprosos, numa época em que esta doença era epidêmica e dificilmente curável.

Quando se pensa na aparência de um desses pobres enfermos, com as carnes em decomposição, cobertos por um manto grotesco e esfarrapado, agitando um guizo para afugentar as pessoas sãs, e se imagina um rei, no esplendor de seu poder, aproximar-se dele para tratá-lo com todo o carinho e solicitude, pode-se vislumbrar a autenticidade de suas virtudes.

Além de sua admirável caridade e paternal benevolência, São Luís era também louvado pela justiça e equidade com que governava seus súditos. Tornou-se quase legendário o fato de proceder pessoalmente a julgamentos e decisões, sob um grande carvalho nas proximidades de seu palácio, em Vincennes. Igual retidão marcou também outro episódio de sua vida, no qual esteve em jogo a integridade territorial francesa. Tratava-se de uma rebelião levada a cabo nada menos do que pelo próprio sogro do rei, Raimundo VII, Conde   de Tolosa, que se aliara a outro importante nobre francês revoltoso, Hugo de Lusignan, ambos simpatizantes de Henrique III, soberano inglês com pretensões não pequenas de conquista na França.

São Luís, para quem os interesses do reino contavam acima de quaisquer sentimentos familiares, partiu em luta contra seu sogro, derrotou-o e o obrigou a assinar um tratado ratificando os direitos da coroa francesa. Por fim, em 1243 se estabeleceu a chamada “paz de Bordeaux”, pela qual o rei da Inglaterra foi obrigado a ceder terras a São Luís. Aproveitando-se da ocasião propícia, os conselheiros do santo monarca quiseram convencê-lo a exigir mais do que o razoável. Prevaleceu, no entanto, o equilíbrio e a honestidade de São Luís, decidido a exigir apenas aquilo a que tinha direito, isto é, o proporcional à sua vitória.

Diante desse modelo de desprendimento, o ímpio e ganancioso Voltaire fez este interessante comentário: “É impossível ao homem levar mais longe sua virtude…”

Rei cruzado e penitente

Não se pode falar de São Luís IX sem mencionar um  dos aspectos mais rutilantes de sua personalidade: o de cruzado.

Depois de enfrentar e vencer as mais duras batalhas no seu reino, viu-se na contingência de conquistar vitória ainda mais árdua, ou seja, aplacar as resistências e as injunções maternas que tentaram demovê-lo da promessa feita de abraçar a cruz. Afinal, prevaleceram suas inabaláveis disposições, e São Luís acabou vestindo a túnica de cruzado e partindo com seus guerreiros para a Terra Santa.

Nessa  campanha, semeada de reveses e pontilhada de poucos sucessos, São Luís lutou como herói, mas acabou sendo preso por causa da imprudência de um irmão seu, que não seguiu as ordens do rei sobre a tática a ser empregada na batalha decisiva. No cárcere, São Luís deu provas de heroísmo ainda maior, edificando os próprios inimigos que o mantinham cativo. Após um longo período de sofrimento, recobrou a liberdade e pôde voltar ao seu reino, cujos súditos rezavam e ansiavam por seu feliz retorno.

Sem fundamento, São Luís pensou haver cometido alguma imperfeição, algum pecado, em punição do qual Deus permitira o inglório fracasso daquela Cruzada. Sua delicadeza de consciência e sua profunda piedade o faziam pensar numa reparação, quando lhe chegou o oferecimento de uma preciosa relíquia, vinda diretamente da Terra Santa: um espinho da dolorosa coroa que, na Paixão, cingira a fronte adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O que fez São Luís?

Não mandou confeccionar apenas um precioso escrínio, mas ordenou a construção de uma verdadeira joia de arquitetura, a Sainte Chapelle (Capela Santa), no interior da qual fosse abrigada aquela relíquia de inestimável valor. E como se tal não bastasse, resolveu partir para as fronteiras de seu reino com a Itália, onde recebeu pessoalmente o es-

pinho sagrado, a fim de conduzi-lo a pé, em trajes de penitente, até Paris. Tudo isso, em reparação pela suposta falta que ele teria cometido nos campos de batalha, defendendo a Terra Santa.

Eis a verdadeira fisionomia de um santo, e de um santo que era rei! Autêntico monarca, que dizia  “mea  culpa, mea culpa, mea maxima culpa”, quando não tinha culpa alguma. Possuía, sim, um senso moral tão desenvolvido, uma aversão tão completa ao pecado, que se julgava na obrigação de reparar uma pretensa falta, em virtude da qual Deus não havia sido glorificado como merecia.

Foram almas dessa categoria que levaram a Civilização Cristã aos seus dias de maior esplendor. Foram personalidades assim, santas e providenciais, que procuraram realizar neste mundo a sociedade humana perfeita, regida pelas leis de Deus e pelos ensinamentos da santa Igreja.

O santo monarca entregou sua alma ao Criador em 1270, aos 55 anos, após ser atingido pela peste, em plena guerra, durante outra Cruzada que ele comandou. Até chegar a seu leito de morte foi um batalhador, a respeito do que haveria muito a dizer noutra oportunidade.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de agosto – São Luís IX

São Luís IX

Em tudo correspondendo ao seu título de Rei Cristianíssimo, pleno de zelo pela causa da Santa Igreja, São Luís IX de França foi suscitado por Deus a fim de se tornar um perfeito modelo de governante para o seu tempo e os séculos sucessivos.

Viveu no auge da Cristandade medieval, e com sua combatividade, sua fé, esperança e caridade exemplares, contribuiu para o grande florescimento dos melhores valores da Idade Média.

 

Plinio Corrêa de Oliveira

25 de agosto – São Luís Rei, o Varão Católico

São Luís Rei, o Varão Católico

Admitindo que cada santo represente, no firmamento da Igreja, algum aspecto específico — São Bento, por exemplo, o recolhimento;
São Domingos, a pregação; São Francisco, a pobreza; Santo Inácio, a luta pela Igreja, etc. —, o que simbolizou de modo particular São Luís, Rei de França? A fim de compreendermos o brilho especial da alma de São Luís, acompanhemos Dr. Plinio:

A respeito de São Luís, parece-me que uma das coisas mais comovedoras é a tradição que ele deixou atrás de si. Quer dizer, além de ele ter sido um grande santo da Idade Média, e de ter enchido seu tempo com sua personalidade, de maneira tal que se pode dizer que o século em que viveu foi o século de São Luís; além do fato de que as crônicas da Idade Média estão repletas de episódios da vida dele, e sua canonização foi inteiramente regular, tendo a Igreja analisado a personalidade dele e dado os fundamentos pelos quais o achava santo; além de tudo isto, ficou na memória popular dos europeus, e sobretudo dos franceses, uma recordação a respeito de São Luís que não procedeu do conhecimento dessas coisas.

Porque o povo de hoje já não conhece esses fatos, mas tem uma recordação dele, trazida de geração em geração. E essa lembrança, comovida, enternecida, entusiasmada, recolhida, corresponde exatamente aos documentos históricos que de São Luís se possui. Quer dizer, a legenda, ou a tradição, são exatamente iguais à realidade histórica. Não houve um exagero, um dado errado, tudo é inteiramente certo, nenhuma mentira se fez para dourar mais sua coroa de glória. Ele deixou atrás de si um sulco de verdade, de objetividade, e uma imagem que, apesar de tantas revoluções, transformações, de pregação de tantas doutrinas de ódio e de erro, se conserva fiel à realidade histórica.

Em que aspecto brilhou especialmente sua personalidade?

O que o povo francês venera na pessoa de São Luís? O que a História bem narrada, bem estudada, nos ensina a respeito de São Luís? Ele brilhou especialmente pela castidade? Pelo recolhimento? Pela pobreza? Em favor da Igreja? Se considerarmos os feitos externos de sua vida, nada disso se pode afirmar inteiramente.

Que ele brilhou pela castidade, não há dúvida nenhuma. Mas ele brilhou como todos os santos reluziram, inclusive aqueles cuja castidade não foi a virtude mais notável. Todo santo é necessariamente casto. Mas São Luís de Gonzaga, por exemplo, teve um brilho de castidade maior do que alguns outros santos.

São Luís conservou a virgindade até o matrimônio; casou-se, foi um esposo fidelíssimo, mas não teve ocasião — sua vocação não lhe pediu — de guardar uma castidade à maneira de São Luís de Gonzaga.

Foi então o recolhimento que o fez brilhar? Em outros santos, o recolhimento refulgiu muito mais. Porque foram eremitas que se separaram completamente do mundo e passaram a viver em lugares completamente desertos. Ou cenobitas que foram viver em conventos, afastados completamente da civilização, para levar ali uma vida inteira de silêncio, de estudo e de oração. São Luís, não. Ele viveu no meio do mundo, na direção do maior reino da Terra no tempo dele, que era o reino da França, e misturado continuamente com os homens.

Teria sido o espírito combativo? São Luís foi um cruzado, um grande guerreiro, mas houve na Civilização Cristã guerreiros mais bem sucedidos do que ele. As duas Cruzadas que ele empreendeu não alcançaram as vitórias que ele desejava. Houve, portanto, guerreiros que realizaram feitos de guerra, dentro da inspiração católica, maiores do que ele. Houve até guerreiros não santos que alcançaram vitórias maiores do que as obtidas por São Luís.

Por exemplo, Dom João d’Áus­tria, que não foi um santo e até esteve bem longe de o ser, obteve em Lepanto uma grande vitória cristã que São Luís não conseguiu com as suas Cruzadas.

Então, o que em São Luís nos dá um brilho da personalidade dele que, sob certo ponto de vista, se realça mais do que nos outros santos? O que houve em São Luís?

Varão católico na plenitude da expressão

São Luís representou, com uma plenitude que poucas vezes se encontra na História da Igreja, o varão católico como a Igreja deseja que ele seja. O varão leigo vivendo no século a vida de todo mundo, e levando até à mais alta perfeição o cumprimento dos Mandamentos da Lei de Deus. De maneira tal que, misturado com todos, ele, entretanto, superou a todos.

Há um ensinamento profundo da Igreja, quando canoniza santos assim. Ela canonizou vários santos leigos, se bem que nenhum deles tenha talvez brilhado com tanto fulgor como São Luís, no qual esta recordação do santo leigo se prolongou pelos séculos e ficou mais vivaz do que em outros santos. É uma missão histórica de São Luís post mortem, como houve a missão histórica de Santa Terezinha post mortem, que consistiu em derramar uma chuva de rosas em torno dela. E São Luís?

Ele foi o varão na plenitude do termo, para provar que o homem deve ser santo dentro da vida quotidiana. Que a santidade não é apenas o distintivo do padre, do frade, do monge, mas de todos os católicos dos quais Deus espera o cumprimento exato dos Mandamentos. E a muitos ele pede um cumprimento tão perfeito, que depois possam ser levados à honra dos altares. Isso São Luís nos ensinou. Ele foi um homem que provou que o bom católico pode ser varão até onde se deve, mas não lhe é vedado, por causa disto, ter certas qualidades que os espíritos superficiais reputam incompatíveis com a varonia. Assim, podemos analisar agora a figura de São Luís.

Realizou o equilíbrio feudal perfeito

Era um rei que tinha mão firme, e manteve de tal maneira a autoridade em seu reino, que poucos reinados na História da França conheceram a paz interior tão ampla e tão perfeita como se conheceu no tempo de São Luís.

O regime feudal, no meio das admiráveis vantagens que proporcionava, dava, entretanto, oportunidade a uma nobreza ainda muito turbulenta, devido à proximidade dos bárbaros, de se levantar nos seus feudos contra o rei. Por causa disto, muitos reis perseguiram a nobreza e tentaram extingui-la; e afinal quase todos eles reduziram a nobreza a um mero papel de aparato.

Com São Luís, o que se deu? O equilíbrio perfeito. Ele foi um rei que conservou o regime feudal e manteve a nobreza no uso de todos os seus privilégios. Em várias ocasiões ele herdou feudos e poderia tê-los reunido à coroa, mas não quis fazê-lo e nomeou outras famílias para esses feudos; não açambarcando todos os feudos, mas mantendo-os autônomos.

A ideia da sucção de todos os feudos, para formar a monarquia do tipo luís-quatorziano, nem de longe lhe passava pela cabeça. E apesar de ter robustecido de tal maneira o poder feudal — pela firmeza, energia, pelo medo que ele metia, pelo respeito que sua justiça incutia a todo mundo, pela veneração que tinham para com a pessoa dele —, São Luís manteve em paz o reino da França; conseguiu realizar o equilíbrio feudal perfeito.

Mostrou que um homem pode manter a ordem com força, mas que, pelo fato de ser um homem forte, não é necessariamente um tirano. Que para a manutenção da ordem, a bondade, a justiça, a respeitabilidade, têm um papel que a força nunca chega a preencher completamente. E que a irradiação das virtudes é, em muitas ocasiões, uma circunstância indispensável para a manutenção da autoridade.

Ele não foi brutal como Luís XIV para com os nobres. Luís XIV exigia que os nobres morassem todos em torno dele, que abandonassem os seus castelos, perdendo assim sua influência nas várias partes da França. Mandou inclusive destruir vários castelos de nobres, para poder ter a nobreza na mão.

São Luís manteve a nobreza. E o que Luís XIV só conseguia realizar por meio da força e do esplendor da pompa real, São Luís realizou com a força, o esplendor, mas, de outro lado, também com a manifestação de uma justiça, de um equilíbrio, de uma bondade que encantava e atraía a confiança de todos.

Foi o varão ao mesmo tempo forte e bondoso; justo, equitativo, mas, por isso mesmo, ciente de seus direitos; que sabe se fazer temer e respeitar, bem como dar a cada um o que é seu; e que introduz então em torno de si a verdadeira paz, ou seja, a tranquilidade da ordem. Não é a tranquilidade da chibata, mas a da ordem; pôr todas as coisas em ordem para que elas fiquem em paz, e depois castigar quem saltar para fora da ordem. Esta é a verdadeira tarefa do ordenador.

Questão feudal com o Rei da Inglaterra

Outro aspecto: São Luís teve uma questão feudal com o Rei da Inglaterra. Sendo uma questão complicada, nosso Santo propôs no Conselho que ele sugeriria ao Rei da Inglaterra que lhe prestasse homenagem, como feudatário de algumas terras na França; e que, por gentileza e amabilidade, ainda acrescentaria estas e aquelas terras como cláusulas do acordo.

Os conselheiros de São Luís, quando ouviram isso, ficaram arrepiados, e disseram: “Mas senhor, nós poderíamos conhecer a causa dessa liberalidade?” Resposta de São Luís: “Sim, é para que haja amizade entre os meus filhos e os filhos do Rei da Inglaterra, porque são primos-irmãos.” Todos se entreolharam, como que exclamando: “Mas meu Deus, isto é política!? Uma política feita na base da amizade… Depois, nunca o Rei da Inglaterra virá prestar homenagem ao Rei da França!”

São Luís não permitiu discussão e foi enviada a proposta ao Rei da Inglaterra. Este veio à França, ajoelhou-se diante de São Luís e prestou-lhe homenagem, com espanto de toda a Cristandade. E esse donativo feito por São Luís contribuiu para um longo tempo de paz entre as duas coroas.

Armado de couraça dourada, desembarcou no Egito

Recordo-me de outro fato. São Luís passou quatro anos na Terra Santa, tratando com os maometanos. Os historiadores reconhecem que ele foi tão ágil em jogar uns maometanos contra outros e embrulhá-los, que o poder maometano ficou durante muito tempo entrelaçado por querelas, porque ele soube cortar a erva debaixo dos pés desses ou daqueles; e que a obra política de São Luís valeu mais que sua obra militar.

Ele foi o rei sumamente confiante, e confiante até a candura, quando era o caso, sumamente esperto, e esperto até os bordos, sem transpor esses bordos para o maquiavelismo. Embrulha os maometanos e é gentil com um cristão; atrai o coração de um e deixa os outros nas trevas. O varão perfeito como a Igreja Católica o imagina, o forma, como ela lhe dá forças; é um ideal a ser atingido.

São Luís e a majestade. Todo mundo concorda em dizer que ele era um homem de uma majestade extraordinária. Os cronistas descrevem o esplendor da personalidade de São Luís quando ele desembarcou no Egito, em terra de infiéis: estava armado de uma couraça dourada, um elmo, uma alta cimalha dourada também; era o mais alto dos homens do barco no qual navegava, esbelto,”élancé”. Quando a embarcação chegou perto da terra, ele se jogou dentro da água, coberto com armadura, e foi de encontro ao Egito para dominá-lo.

A ideia que temos hoje de um rei é a de um rei de museu: que não fala de medo de dizer bobagem, não se move de receio de ser deselegante, não agride, está perpetuamente sentado num trono, olhando para a frente e pousando para a História.

Ao ver um rei tão “délié”, tão elegante, o mais alto de todos e que salta, ataca, é o primeiro na hora do risco, todo o exército correu atrás dele.

Rei derrotado, mas venerado pelos seus adversários

Esse varão católico perfeito sofre um infortúnio: depois de lutas enormes, é preso. O poder muçulmano é maior do que o dele. O prisioneiro é o humilhado, dependente de todo mundo. São Luís ficou durante muito tempo preso, porque se discutiu o seu resgate; ele impôs tal veneração a todos, que os mouros vinham pedir a sentença dele a respeito dos processos que tinham entre si. Porque confiavam na justiça do rei cristão mais do que na de qualquer outra pessoa. E ele era tratado por todos com veneração.

Ser grande assim na derrota é muito mais do que ser grande na vitória. Ser grande na vitória, qualquer vencedor pode ser. Mas na derrota não é qualquer um que o consegue. Houve Um, que foi maior na derrota do que em todas as outras ocasiões de sua Vida — a respeito do Qual disse São Paulo: “Só sei pregar Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado”(1). Na Cruz, Ele realizou o “summum” de sua majestade, de sua grandeza e de sua glória.

São Luís imitou Nosso Senhor Jesus Cristo: ele realizou o “summum” da majestade humana, provando que um rei pode ser grande e impor-se, não só porque está no trono e cercado de toda a pompa real, mas porque ele é um varão católico.

Ele foi o rei derrotado, porém venerado pelos seus adversários. São Luís volta da Cruzada derrotado. A Cruzada não deu o resultado que ele queria.

O povo todo o aclamou como verdadeiro herói e lhe preparou uma glorificação no seu trajeto através da França, porque compreendia quanto ele tinha sido grande guerreiro, grande homem, apesar da derrota, e porque queria consolá-lo da derrota sofrida; e nunca o prestígio dele foi maior na França do que aureolado com a coroa de espinhos da derrota.

Trato de São Luís com os leprosos

Este rei era um homem extremamente simples, dentro de toda a sua majestade.

Na Idade Média, para evitar o contágio da lepra, a Igreja tinha conseguido persuadir os leprosos de que deveriam viver isolados de todo mundo e, ao andar pelas ruas, precisariam agitar um sino para que ninguém chegasse perto deles. E a polícia apoiava essa atitude, de maneira que o leproso que não cumpria tais normas era punido; tratava-se de um regulamento, mas que só se tornou exequível porque a Igreja convenceu o próprio leproso da necessidade disso.

Podemos imaginar a situação tristíssima de um homem que tem de atravessar uma cidade, pois precisa pedir um pão senão morre de fome e, ostentando uma face chagada, horrorosa, caminha agitando um sino para significar: “Fujam porque sou eu!”; e vê as criancinhas fugirem, as pessoas jogando coisas para ele, de longe. Em que estado de humilhação está um homem assim?

É um dos mais belos feitos da Igreja ter convencido doentes de que eles devem agir desse modo. Porque é difícil imaginar uma situação mais dolorosa do que esta: um homem tocando um sino, como que dizendo: “Fujam e tenham pena de mim; façam o vazio em torno de mim, até que eu atravesse esta cidade carregando algumas coisas para ir num lugar onde ficarei só, causando horror a todos, devorado pela minha própria lepra.” E ele ali permanece anos e anos na dor e na solidão, até quando Deus quiser. É uma coisa tremenda. Essa era a regra geral.

E a Igreja, sempre prodigiosamente sábia, ensinava não só aos leprosos que deviam fazer isto, mas que o povo precisava dar esmolas; e que os leprosos deveriam depois fugir. Esse é o equilíbrio extraordinário da Igreja. E a Igreja suscitava em alguns homens ou mulheres sadios, padres ou freiras, que fossem morar com os leprosos para cuidar deles. Diante de um infortúnio mais pungente, é impossível levar o equilíbrio mais longe.

O que fazia São Luís?

O rei está acima da lei. A uma lei feita por Deus o rei deve obedecer mais do que ninguém; mas se elaborada apenas pelos homens, o rei, estando acima da lei, pode violá-la porque é o autor da lei. Assim, São Luís transgredia a lei; quando por seu caminho passavam leprosos, não era raro ele parar, descer do cavalo, conversar com eles e uma vez chegou até a oscular um leproso. Este rei cheio de glória aproxima-se do homem carregado da maior infâmia — não uma infâmia moral, mas uma espécie de infâmia social, de degradação social.

Podemos imaginar o consolo desse leproso durante a vida inteira, pensando: “O reino todo tem nojo de mim, mas o santo, o homem perfeito, o guerreiro denodado, o varão casto e piedoso, que é a glória e o entusiasmo da nação francesa, esse apeou do seu cavalo e, como um verdadeiro pai dos filhos que mais sofrem, não teve medo de mim. Ele se acercou de mim e não teve receio de que a minha lepra contagiasse as suas carnes régias, aristocráticas, juvenis e sadias. Ele ajudou-me, dirigiu-me algumas palavras de consolo, deu-me ouro, e eu durante a vida inteira, no meio da minha tristeza, direi: ele fez por mim o que não realizou pelos mais altos fidalgos de seu reino.”

Pode haver maior equilíbrio do que este: um homem, que era o mais esplêndido da Europa, descer assim até os últimos degraus da caridade e da humildade?

Nós poderíamos passar uma noite inteira comentando a personalidade de São Luís e mostrando esses contrastes de virtudes que faziam dele uma espécie de sinfonia viva, que entusiasmava a todo mundo.

A personalidade de São Luís expressa na Sainte Chapelle

Sua personalidade se exprimiu do modo mais esplêndido na Sainte Chapelle, que foi a obra dele. A Sainte Chapelle é incomparável, e foi a única coisa no mundo diante da qual fiquei estupefato. Ela possui dois andares; quando entrei no de baixo, exclamei oh! Eu não tinha visto o mais bonito, que é o de cima…

Quando eu estava na Sainte Chapelle, procurava reconstruir a personalidade de São Luís. Imaginem uma capela toda feita de cristal — e que era um relicário! —, com cristais alegres, de cores diáfanas. Entretanto, coisa curiosa, não há nada de frágil, de efeminado, de dulçoroso; é um monumento grave, sério e forte.

De tal maneira que, dentro dela, a pessoa se sente como se estivesse numa fortaleza. Por outro lado, uma majestade régia, não se fica intimidado, mas se tem a sensação de estar dentro de casa. Uma castidade em tudo; percebe-se que um homem impuro não pode sentir-se bem à vontade. Porém tanta suavidade que qualquer pecador envereda pela porta do perdão. Todas as harmonias da alma de São Luís estão lá. E isto nos explica que a humanidade tenha ficado sempre com os olhos postos nele.

“Non est inventus similis illi”

Aí está a figura do rei santo. Quando se olha para ele, tem-se a impressão de que é inigualável. Na Missa de certos santos, a liturgia diz: “Não se encontrou um varão parecido com ele”. Afirma isto de uma série de varões, o que não é uma contradição, porque são homens tais que, quando se os contempla, se exclama: “Como esse, não houve!”

Como São Luís, Rei de França, não existiu outro igual!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 27/8/1970)

1) 1 Cor 2,2.

24 de agosto – São Bartolomeu

São Bartolomeu

O Protótipo do homem amado por Deus

O elogio de Nosso Senhor a São Bartolomeu é um dos maiores que possam ser feitos a alguém, porque é o filho do povo eleito, protótipo do homem amado por Deus, no qual não há fraude.

Ele era, portanto, o contrário daqueles que se encontravam em decadência, dentro da nação eleita.

A este título, há uma relação muito grande entre ele e um contrarrevolucionário que deseja ser um verdadeiro católico no qual não há fraude e que, por isso, em face da Revolução e do espírito do demônio, não faz concessão alguma, odeia tudo quanto o demônio ama e ama tudo quanto o demônio odeia; odeia tudo quanto a Revolução ama e ama tudo quanto a Revolução odeia.

Nesse contrarrevolucionário não há fraude, e ele merece inteiramente o nome de católico. Assim, é natural que peçamos o auxílio da intercessão de São Bartolomeu.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/8/1965)

23 de agosto – Santa Rosa de Lima

Santa Rosa de Lima

Normalmente, imaginamos ser necessário arquitetar grandes planos, praticar ações dignas de louvor ou realizar vultosas obras para tornarmo-nos notáveis ante nosso tempo. Entretanto, uma jovem pode provar ao mundo como a santidade e o amor a Deus são de maior eficácia: Santa Rosa de Lima, Patrona da América.

No livro “El verdadero rostro de los santos”(1) há alguns dados biográficos sobre Santa Rosa de Lima.

“Nascida no dia 20 de março de 1586, em Lima, Isabel Flores de Oliva — mais tarde conhecida como Rosa de Lima — era da antiga nobreza espanhola. Porém, quando ainda jovem, seus pais empobreceram.

“Inclinada à vida religiosa desde a mais tenra idade, Santa Rosa sofreu contrariedades, sobretudo por parte de sua mãe, que se havia empenhado em casá-la.

“Aos vinte anos fez-se Terceira Dominicana, sob a proteção de Santa Catarina de Siena. Vivia em uma cela no jardim da casa paterna e ajudava seus pais fazendo bordados e cuidando das flores que a família depois vendia.

“No que se refere à mortificação, ninguém a superou. Certa vez, quando se achava acabrunhada por mil inquietações, ouviu a voz do Senhor que lhe dizia: ‘Aquele que deu a vida e o sangue por ti saberá cuidar também de teu corpo. As leis naturais foram criadas por ele e são para ele’. Rosa destinava dez horas do dia à oração, dez horas ao trabalho, e apenas o que sobrava concedia ao sono. A cada dia, no decurso de horas inteiras, via-se assaltada por terríveis tormentos, temendo que o Senhor a abandonara, considerando esse suplício pior do que a morte. Porém depois, sentia-se fortalecida por novas sensibilidades da graça divina.

“A uma comissão de teólogos que a interrogava acerca de sua oração, confessou: ‘Rezar não me custa nenhum trabalho. Minhas energias concentram-se no meu interior como o ferro atraído pelo imã e se sentem embriagadas por tal doçura que nenhum mal é mais possível. Meu coração arde. Sinto a Deus em todo o meu ser e tenho absoluta certeza de sua adorável presença. Tal contemplação não me cansa, e minha única alegria é sentir Deus presente em minha alma. Ver-me privada d’Ele seria para mim um inferno e nada criado poderia consolar-me.’

“O último pedido que saiu de seus lábios, na hora da morte, foi em benefício de sua mãe: ‘Senhor, deixo-a em vossas mãos. Dai-lhe forças, não permitais que seu coração se dilacere de tristeza’. Tão logo expirou, viu-se sua mãe tomada por um tal consolo e alegria que precisou retirar-se para ocultar a felicidade que seu rosto estampava.

“Faleceu em 26 de agosto de 1617.”

Família da antiga nobreza, porém empobrecida

Vários aspectos da vida de Santa Rosa são dignos de comentário. Em primeiro lugar, o fato de pertencer a uma família nobre, porém empobrecida, é notável.

À semelhança da Sagrada Família de Nazaré — a qual também não dispunha de recursos em abundância, mas era de estirpe real —, a família de Santa Rosa passava por uma situação sumamente penosa, difícil, e, a esse título, também sumamente abençoada, em que a dignidade da linhagem e do caráter deve brilhar sozinha, sem os recursos tão prestigiosos e tão úteis das riquezas.
Compreende-se, de imediato, um traço da predileção divina.

Símbolos da elevação de sua alma

Há episódios na história dos santos permitidos pela Providência com a intenção de ornamentar a história de suas almas, e proporcionar que vejamos, através dessa beleza secundária e quase episódica, algo de mais profundo dentro da santidade, e de nos atrair à admiração para com a vida virtuosa.

Sob esse aspecto, é muito bonito considerar Santa Rosa vivendo reclusa em uma cela, no jardim da casa paterna, e ajudando seus pais através da confecção de bordados e cuidando das flores que a família vendia.

Eram bordados feitos por uma jovem santa, que se retirara para reclusão inteira, e na clausura também cultivava flores.

Isso causa tal encanto ao início de sua vida, que não poderia deixar de ser comentado.

Missão de caráter universal

A mortificação à qual se dedicava era particularmente preciosa para os tempos em que Santa Rosa viveu.

A vinda dos ibéricos para a América colocava-os numa situação moral das mais perigosas. Encontrando aqui uma natureza tropical exuberante, com condições climáticas que infelizmente favoreciam a luxúria, muitos se deixavam dissolver num ambiente onde a vulgaridade e a corrupção moral debandavam.

Ora, nestas circunstâncias, ela suscitava em torno de si o espírito de penitência e de mortificação. Com tal atitude, naturalmente, ela freou em grande parte a corrupção dos costumes e criou condições menos favoráveis à Revolução, o que determinou, por sua vez, uma marcha mais lenta desta em nosso continente.

O admirável é que Deus não suscitou para a América inteira um grande pregador — Ele pôs, nas mais variadas partes, grandes pregadores, porém de âmbito restrito —, mas sim uma mulher que tivesse uma missão de caráter universal. Santa Rosa de Lima fez, no plano da comunhão dos santos, o necessário para salvar a América.

Vemos o poder de uma alma entregue a Nossa Senhora, à misericórdia de Deus e à penitência.

Sustentação nos sacrifícios, consolações na oração

Essa posição é quase incompreensível caso não consideremos o que, em contrapartida, está dito por ela a respeito da oração. Durante a oração, Santa Rosa recebia consolações extraordinárias, sentindo um verdadeiro Céu na Terra durante dez horas por dia. E isso dava-lhe ânimo para suportar depois uma vida de dor e sofrimento.

Vias de oração na santidade

Entre os santos há semelhanças e dissemelhanças.

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia estar tão habituada ao sofrimento que, quando chegasse ao Céu, precisaria ela desabituar-se de padecer para se sentir verdadeiramente feliz. Nisto se vê uma enorme analogia com o conceito de Santa Rosa de Lima sobre o sacrifício.

Porém, no que diz respeito às vias da oração, como eram diferentes! Santa Rosa de Lima sentia muita sensibilidade ao rezar; Santa Teresinha do Menino Jesus passou muitas vezes por aridez durante a oração.

Entretanto, uma e outra oração eram igualmente aceitas por Nossa Senhora e encaminhadas a Deus Nosso Senhor como sendo variantes de uma mesma coisa, inteiramente coerente e uniforme consigo mesmo: a santidade.

Resignação, profunda paz de alma

Uma observação de proveito para a vida espiritual é a seguinte: sabendo que sua mãe sofreria muito com sua morte, Santa Rosa pediu a Deus, então, que esta tivesse forças para resistir a tal dor. Pois bem, ela foi tão amplamente atendida, que a mãe não só teve força, mas também uma inexplicável alegria com a morte da filha.

Como se pode explicar essa felicidade?

É que a resignação cristã constitui uma tristeza com tais contrafortes de paz e de alegria, que há mais felicidade numa alma cristã profundamente triste — mas resignada — do que noutra repleta de uma alegria natural.

A resignação cristã é filha da consolação

Consolar, do latim “consolare”, significa dar força, ou seja, conceder capacidade de aguentar a dor. A verdadeira consolação consiste em robustecer a alma para aguentar o sofrimento.

A resignação cristã é exatamente filha da consolação, filha da aceitação da dor. De maneira tal que essa consideração dá ao homem uma alegria superior em meio às suas tristezas.

Então, à vista de considerações tão elevadas, a alma ao mesmo tempo deplora a morte e encontra uma estabilidade, uma fixidez em face dela, uma posição de equilíbrio. Isto se chama resignação cristã.

A graça pode acentuar essa alegria que existe na resignação. E foi exatamente o que aconteceu com a mãe de Santa Rosa de Lima: ela recebeu tanta força, e sua alegria dentro da resignação foi de tal maneira acentuada pelo Divino Espírito Santo, que ela precisou se esconder para que não a julgassem mal.

No que essa alegria consistia? Com certeza, uma participação da alegria de Santa Rosa que já estava inundada pelas felicidades celestes.

Peçamos a Santa Rosa de Lima que interceda por nós, a fim de — à sua semelhança — termos a coragem de nos deixarmos fazer santos e assim realizarmos grandes obras.

Estão aqui algumas considerações a respeito da vida de Santa Rosa de Lima.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 29/8/1966 e 29/8/1967)

1) Wilhelm Schamoni: Barcelona, 1951.

22 de agosto – Mãe da Igreja e Rainha do mundo

Mãe da Igreja e Rainha do mundo

Inúmeras vezes, em suas conferências, Dr. Plinio falou a respeito da realeza de Nossa Senhora. Suas elevadas explicitações eram frutos  de uma autêntica piedade mariana.  Imaginando como teria  e desenvolvido a Humanidade no Éden,  caso não houvesse o pecado original, Dr. Plinio narra  o movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora.

Com que alegria eu atendo ao pedido que me apresentaram para fazer uma exposição a respeito de Nossa Senhora como Rainha da História!

Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

A História tem necessariamente um “unum”

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morreram ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu nem de quem o sucederá. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado etc. Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História se desenvolve, ela não forma um todo.

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coreia e o Japão, a Coreia e a China, a China e o Japão — relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos — não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”(1) americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros — porque serão amados por Deus —, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

“Post-scriptum” marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a post-História.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar‑se — por causa d’Ela e não devido a nós —, a História terá a sua post-História. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa post-História, que é o fecho de ouro da História do mundo.

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais e eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História — e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? —, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de modo tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel — que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu —, os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é Rainha desse “unum”?

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos — os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus —, entretanto temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se põe no centro de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

O homem simboliza, melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo — corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas no equilíbrio do universo —, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lumen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar e um padrão especial de beleza.

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nesta linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza: nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra‑ arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável, a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História…

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela — por quanto tempo não se sabe —, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então — eu emprego um termo moderno e desdourado — uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano — podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! — levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem‑Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub‑História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o último justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra‑se? Lembra‑se?”

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram… O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria, Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a altura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento. E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a post-História, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encanto paradisíaco de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a História noturna, porque longe do Sol da Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará‑los para aquela hora de bem‑aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da lama do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é este: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter‑se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

Maria Santíssima dirige a História…

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele faz pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que homens fazem e, por assim dizer, corrigir — se a palavra “corrigir” não fosse inadequada —, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: “Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá…”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível — hesito diante do termo — fazer a História tão bela como é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também, para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede.” E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

…e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Maria Santíssima é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a uma pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

— O que você viu?

— Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido.”

O modo de relacionar esses granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral. O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter‑relação do agir da Humanidade e do agir de Deus, mas da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único de pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra‑Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra‑Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser Rainha dessa rebeldia, a não ser neste sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre esta reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/4/1982)

1) Selva.

22 de agosto – Nossa Senhora, Rainha da História

Nossa Senhora, Rainha da História

Inúmeras vezes, em suas conferências, Dr. Plinio falou a respeito da realeza de Nossa Senhora. Suas elevadas explicitações eram frutos  de uma autêntica piedade mariana.  Imaginando como teria  e desenvolvido a Humanidade no Éden,  caso não houvesse o pecado original, Dr. Plinio narra  o movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora.

 

Com que alegria eu atendo ao pedido que me apresentaram para fazer uma exposição a respeito de Nossa Senhora como Rainha da História!

Para se entender em que sentido Maria Santíssima tem esse título, é preciso compreender o que significa Rainha e História. Esses são temas familiares a nossas almas; tratarei apenas de explicitá-los.

A História tem necessariamente um “unum”

Imaginemos que alguém, ao fazer um histórico de um hotel, o concebesse da seguinte maneira: o que se passou nos quatrocentos ou quinhentos quartos do hotel. Não seria, portanto, a história dele como uma instituição, um estabelecimento que fornece comida, alojamento, com épocas em que os hóspedes são mais numerosos ou menos, a renda é maior ou menor; onde surgem problemas com os empregados, há mudanças de donos porque antigos proprietários morreram ou o venderam.

O histórico seria, portanto, composto de histórias do que se passa naquela população ambulante, os hóspedes que vêm de diversos lugares, passam lá algum tempo, depois voltam ou nunca mais aparecem; são eles animados por desejos, esperanças, realidades diversas, e um hóspede que entra não tem ideia de quem o antecedeu nem de quem o sucederá. Isso não forma a História.

Um historiador que trabalhasse essas informações poderia, quando muito, escrever “histórias em um hotel”. Escolheria esses e aqueles personagens interessantes que passaram pelo hotel, e explicaria em que períodos de suas vidas estiveram lá, quais eram presumivelmente seus pensamentos, suas preocupações, o que faziam, por que ali se hospedaram e, talvez pelo registro das ligações interurbanas do hotel, com quem teriam falado etc. Isto seriam histórias num hotel, mas não a história de um hotel.

Por quê?

A História, como um “unum”, é diferente das histórias fragmentadas e esparsas como as acima imaginadas. Ela é uma narração que tem o mesmo agente, temas conexos, e cuja ação é contínua através dos tempos. Essa é a perfeita História.

Por exemplo, História de uma nação: há um mesmo agente, quer dizer, a nação tomada no seu conjunto, que está agindo. Em geral, os temas têm certa continuidade: relações com os países fronteiriços, problemas internos culturais, sociais, econômicos que vão mudando com o tempo, mas nascem um do outro.

Mas, se não houver uma continuidade de agentes e de temas; mais ainda, se não existir uma continuidade daqueles em relação aos quais a História se desenvolve, ela não forma um todo.

Nossa Senhora é a Rainha de todos os povos

Ora, quando dizemos que Nossa Senhora é Rainha da História, não afirmamos que Ela é a Rainha apenas da História deste ou daquele país, nem sequer de um bloco de países. Por exemplo, Rainha da História dos povos cristãos Ela o é, sem dúvida, a título especial dos povos católicos. Mas a Virgem Santíssima é genericamente Rainha da História de todos os povos. E as relações longínquas entre a Coreia e o Japão, a Coreia e a China, a China e o Japão — relações triangulares complexas, atormentadas, que se desenvolveram entre esses três povos de raça amarela e vizinhos ao longo dos séculos — não tinham a Nossa Senhora como ponto de referência, mas sim como Rainha.

A triste História intertribal da América do Sul, das várias nações de índios cujas tribos se atacavam umas às outras, colaboravam entre si por terem inimigos comuns, se ignoravam e por vezes se perdiam nas vastidões da “jungle”(1) americana; toda essa movimentação dos homens é a História. E Nossa Senhora é a Rainha dessa História, ainda para os povos que A ignoravam. Ela é a Rainha da História inteira.

Digo de propósito “da História inteira”, porque não se refere apenas a tudo o que aconteceu em determinada época, mas desde que o homem foi criado até o momento em que os últimos justos vivos serão chamados a participar do julgamento dos outros — porque serão amados por Deus —, e os malditos escorraçados pela justiça divina. Enfim, enquanto houver homens vivos haverá História, e Nossa Senhora será a Rainha dessa História.

“Post-scriptum” marial da História

Qual é a relação de Nossa Senhora com o centro em torno do qual se move a História?

Compreendendo o “unum” da História, entenderemos melhor como Ela é a Rainha da História. Então, a glorificação de Maria Santíssima como Rainha da História aparecerá claramente aos nossos olhos.

No Reino de Maria haverá uma esplendorosa catedral em honra de Nossa Senhora Rainha da História. Será talvez a catedral de todos os esplendores do Reino de Maria. A vitória sobre o dragão da Revolução para a implantação do Reino d’Ela fecharia uma era na História e abriria outra. Mais ainda: de algum modo terminaria a História e começaria a post-História.

Há uma tese, que nos é cara, de que a História propriamente não se encerraria agora e, portanto, não estaríamos no fim do mundo, embora todas as aparências sejam de fim de mundo. Em razão dos acontecimentos que ocorrem atualmente, podemos dizer que é o fim de um mundo, mas não o fim do mundo.

Porque, pela intercessão de Nossa Senhora e para a realização de uma glória d’Ela, sem a qual a História não pode encerrar‑se — por causa d’Ela e não devido a nós —, a História terá a sua post-História. Como numa carta se pode colocar um “post-scriptum” mais belo do que a própria carta, na História será escrito o “post-scriptum” marial da História: o Reino de Maria. Todas as riquezas, todo o bom gosto e, sobretudo, toda a piedade do mundo devem se mobilizar para comemorar a abertura dessa post-História, que é o fecho de ouro da História do mundo.

Antes mesmo de nascer, Nossa Senhora já reinava na História

Vejamos qual será a continuidade dessa História.

Antes da Torre de Babel, os homens constituíam um só todo, moravam no mesmo lugar, ou em locais tão próximos que tinham contato contínuo entre si. Em suma, o gênero humano não estava disperso pela Terra, todos os povos giravam em torno de alguns acontecimentos centrais e eram o eixo da História.

Nossa Senhora ainda não havia sido criada, mas já era com vistas a Ela e a seu Divino Filho, o Qual haveria de vir, que a História era tecida.

Deus, ao governar a História — e quem pode duvidar que Ele seja o Rei da História? —, tinha em vista a Encarnação do Verbo no claustro puríssimo de Maria Virgem, e, por causa disso, dirigia a História caminhando para esse ponto, esse destino. Nossa Senhora estava, portanto, presente nos planos de Deus e, antes de nascer, já reinava na História, porque tudo era dirigido por Ele de modo tal que desse glória a Ela.

Há alguns reis que o são desde meninos; outros que, estando ainda no claustro materno quando lhes morre o pai, herdam a realeza antes mesmo de terem nascido; mas ninguém é rei antes de ter sido concebido. Nossa Senhora, séculos antes de ser concebida, já era Rainha. Desde sempre Ela estava nos planos do Padre Eterno, no amor do Verbo, nas ansiedades de seu Divino Esposo, o Espírito Santo, e, por causa disso, tudo corria em direção a Maria Santíssima. Isto é ser Rainha!

Depois da dispersão da Torre de Babel — que estava sendo construída por pessoas tomadas de orgulho, pretendendo que ela chegaria até o Céu —, os homens foram para as direções mais variadas. A História nos mostra que uns perderam contato com os outros. Como um planeta que tivesse explodido no céu, dando origem a muitas estrelas pequenas e algumas Vias Lácteas, a Humanidade eclodiu, fazendo surgir corpúsculos, grupos humanos que se ignoraram uns aos outros do modo mais completo.

Entretanto, acima disso pairava um “unum”, o qual fazia com que a História humana se desenrolasse. Qual era esse “unum”, e como Nossa Senhora é Rainha desse “unum”?

Fivela que prende o reino angélico ao reino animal

De fato, o gênero humano tem uma unidade. Nos planos de Deus, os homens constituem intermediários entre os anjos, seres puramente espirituais, e, de outro lado, os animais, seres materiais; e mais abaixo estão as plantas e os minerais. O ser humano é, por assim dizer, a fivela que prende o reino angélico ao reino animal.

Embora não sejamos, nem de longe, elevados como os anjos — os de menor categoria entre eles, quando têm aparecido a simples mortais, mostram-se tão esplendorosos, que quem os vê começa a tremer pensando estar diante do próprio Deus —, entretanto temos este título de glória: somos o liame que une o imensamente grande com o imensamente pequeno, onde, portanto, a harmonia se afirma, triunfa.

Essa é uma explicação pela qual convinha que nesse ponto de junção, ou seja, o gênero humano, o próprio Deus se encarnasse para honrar a Criação inteira. De nenhum modo o Criador poderia honrar tanto a Criação, quanto se encarnando. Ele se põe no centro de sua obra; a corola da flor do universo somos nós, homens. No centro dessa corola está Nosso Senhor Jesus Cristo e junto d’Ele, com o véu de mãe, está Nossa Senhora.

O homem simboliza, melhor do que o anjo, todo o universo

Na mente de Deus, esta categoria da criação tão magnífica, de uma posição tão excelente, tão honrada por Ele, deveria realizar uma glória especial.

O que vem a ser aqui a glória?

É o deleite que Ele tem com a honra que recebe pelo fato de que seres à sua imagem e semelhança Lhe prestam culto e veneração. E a homenagem oferecida pelo homem simboliza melhor a de todo o universo do que a homenagem prestada pelo anjo.

A estrela mais distante e da qual, talvez, não tenhamos conhecimento até o fim do mundo — corpo material com reluzimento e propriedades físicas e químicas no equilíbrio do universo —, entretanto, participa de nós e temos algo com que a honramos, porque ela é matéria, e a matéria está presente em nós. E se as estrelas não tivessem brilho, mas pudessem conhecer e soubessem que há homens, elas começariam a cintilar.

Deus quis que esse gênero humano assim constituído tivesse certa forma de beleza e de excelência física, que não fosse senão o espelho de algo muito mais magnífico, precioso e nobre, que condiciona a beleza física, que é a beleza espiritual: o “lumen” do intelecto, a força da vontade, o cognoscitivo e o vibrátil da sensibilidade, formando em cada homem um exemplar e um padrão especial de beleza.

História da Humanidade se não tivesse havido pecado original

Caso não tivesse havido o pecado original, Deus intencionava nesta linha criar cada ser humano com seu papel nesse universo de beleza: nasceria e, depois de passar algum tempo no Paraíso terrestre, seria chamado ao Céu, sem a morte, e brilharia por toda a eternidade, cintilando diante de Nosso Senhor.

É claro que, neste plano, toda a História desenvolvida no Éden teria como ponto central a Encarnação do Verbo. O amor de Deus por essa espécie de criaturas iria se manifestando cada vez mais, de maneira tal que os homens até então existentes, e a própria natureza, exprimissem um santo, calmo e ardoroso alvoroço: “O que virá agora, já que Ele nos ama tanto?” E, em certo momento, viria o insuspeitado, o inimaginável: o próprio Deus se faria carne e habitaria entre nós. E apareceria o Homem ultra‑ arquetípico, elevado a uma glória incomparavelmente maior do que a simples natureza pode dar, mas Homem, ligando sua natureza humana à natureza divina, formando uma só Pessoa, a segunda da Santíssima Trindade.

Movimento ascensional da História rumo a Nossa Senhora

Como se daria isso?

É claro que o gargalo magnífico, pelo qual se chegaria até esse acontecimento único, seria Nossa Senhora, a Virgem perfeita, da qual Ele nasceria. Ela, a incomparável, a única para cuja construção gradual tudo confluísse, de maneira que os profetas teriam dentro de si uma palpitação, que era um pressentir de Maria que viria. A perfeição de todos os seres humanos de algum modo prenunciaria a d’Ela; poderíamos assim imaginar uma ascensão gradual da Humanidade até Nossa Senhora, a flor que se abriria e o Verbo estaria em seu interior. Rainha da História…

Não estaríamos no alto do morro do qual se desce, mas depois haveria algo mais alto. Porque as criaturas, conhecendo a Encarnação do Verbo e Nossa Senhora, convivendo com Ele e com Ela — por quanto tempo não se sabe —, num convívio pacífico, amoroso, reverente, como gostamos de imaginar ter sido na noite de Natal, no dia de Pentecostes, nas grandes festas de Nosso Senhor Jesus Cristo; haveria aquela paz, alegria, glória, sabedoria, majestade e, ao mesmo tempo, misericórdia e bondade indizíveis; surgiria então — eu emprego um termo moderno e desdourado — uma pista de voo ainda mais alta.

No alto do morro se construiria uma catedral; e muito mais magnificente do que o morro seriam os séculos da História cristã.

Como seria a festa da gloriosa Ascensão do Verbo Encarnado? Ele subiria ao Céu certamente sem Paixão, sem cruz. E, depois, a Assunção de Nossa Senhora? Como seriam as alegrias de todo o gênero humano? Os homens ficariam no Paraíso terrestre e Nosso Senhor viria apenas nas espécies eucarísticas? Ou, com a ausência do pecado, a inocência do gênero humano — podemos imaginar a beleza do gênero humano inocente! — levaria Deus Nosso Senhor a tornar a presença d’Ele frequente entre homens?

Ninguém pode ter ideia, porque viriam alcandores sobrepujados por outros alcandores, no ápice dos quais sempre estaria Nossa Senhora, Rainha de todos os anjos e santos; Rainha de tudo aquilo quanto a graça engendrasse de grande, porque d’Ela nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, o Homem‑Deus.

Portanto, por mais que a História glorificasse Maria Santíssima e Nosso Senhor, Ela pairaria acima de tudo e atrairia a Si a História. Aí está a Rainha da História: o movimento ascensional de toda a História rumo a Ela para chegar a Ele.

Com a Virgem Maria a História se evanesce em santidade, virtude e beleza

Para que isto tivesse tido a sua verdade, não era preciso que, depois de Adão e Eva, nenhum outro homem pecasse. O pecado original propriamente, o pecado do gênero humano, foi cometido em Adão e Eva porque eles eram o gênero humano naquele tempo. Mas seus descendentes já não continham todo o gênero humano. De maneira que os pecados deles não seriam pecados originais, nem se transmitiriam aos seus descendentes.

Caso aqueles que pecassem fossem postos fora do Paraíso, deveriam aguentar a vida nesta Terra como pudessem. E surgiria a sub‑História, como as notas ao pé da página de um livro. O grande eixo central da História seria dos homens que teriam continuado no Paraíso.

Em determinado dia a coleção dos homens estaria completa. E Nossa Senhora representaria às Três Pessoas da Santíssima Trindade: “Vede, o número misterioso, intencionado por Vós, está completo. No Céu, os lugares dos anjos malditos, que apostataram, estão também preenchidos, vosso plano está realizado; a História chegou ao auge de sua glória!”

Como seriam esses homens perfeitíssimos do final da História? Como seria, então, o Reino de Maria? Aquela época em que os homens pudessem dizer a Nossa Senhora: “Vós realizais o que há de mais maravilhoso na História. Vós sois o ponto terminal, a História convosco se evanesce em santidade, virtude e beleza. Vós sois o aroma que se desprende da flor, ou seja, o melhor que a flor deita de si. Vós sois o aroma da História, o perfume de todas as misericórdias e todas as justiças daquele Infinito que nos criou”.

A História terminaria quando o último justo tivesse atingido o píncaro de sua justiça, e Deus dissesse ao gênero humano: “Ó salvos no Céu, ó salvos na Terra, ó amados por toda parte, acabou!”

Que glória e que hino! Todos os homens deixando o Paraíso terrestre para viver no Céu! Mas, não se restringindo às belezas insondáveis da visão beatífica e do Céu empíreo, eles de vez em quando desceriam à Terra e, olhando os diversos lugares, comentariam uns com os outros: “Lembra‑se? Lembra‑se?”

Devido ao pecado original, Deus não desistiu de seu plano, mas o transcendeu

Esse era o plano e essa seria a linha reta da História. Não se realizaram… O homem pecou. Mas, no momento trágico de sua expulsão do Paraíso terrestre, Deus revelou ao homem que a História continuaria, Ele realizaria seu plano e viria a Virgem que esmagaria a serpente. O Criador profetizou ao homem a História, a qual não seria de paz, de beleza e de harmonia, mas de luta, de guerra; o gênero humano cindido entre duas raças, a da Virgem e a da serpente, e a vitória permanente da Virgem sobre a serpente, calcando-a aos pés.

Nessa profecia estava contida a promessa do Salvador que viria. E, portanto, da Encarnação do Verbo e de tudo quanto aconteceu em virtude disso.

Deus não desistiu de seu plano nem da História que os homens desfiguraram pelo seu pecado. Ele os transcendeu em magnificência, fazendo dessa luta uma História de algum modo mais bela do que a História daquela paz.

A nossa grande guerra contra os filhos do demônio, por vários aspectos, é mais bela do que a própria História do Paraíso.

Considerem a hipotética História do Paraíso: que magnificência! Mas seria uma História que não teria mártires, cruzados, nem homens que estraçalhassem o erro pelo vigor de sua lógica.

Sendo verdadeiro o provérbio português “quanto maior a altura, tanto maior é o tombo”, também é verdade que quanto maior é o tombo, tanto mais alto é o soerguimento. E a altura da vitória se medirá pela profundidade do tombo, e por mais outro tanto que se elevará acima.

Esta é a História com a post-História, a História do Reino de Maria que vem se aproximando.

Se Nossa Senhora era a Rainha da História, nos planos cheios de bondade, impregnados de encanto paradisíaco de Deus Nosso Senhor, por essa mesma razão Ela é Rainha da história dos tormentos, das aflições, das lutas, das angústias, das incertezas, das batalhas, das polêmicas, da vitória. Portanto, Ela é verdadeiramente a Rainha da História.

Poder-se-ia perguntar: “E a História triangular de chineses, coreanos e japoneses, que ligação tem com tudo isso?” Aliás, é a História noturna, porque longe do Sol da Justiça, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para ver as coisas simplificadamente, toda essa História correu até o momento em que São Francisco Xavier chegou ao Japão, pregando a Nosso Senhor Jesus Cristo. De um modo ou de outro, tudo havia sido um conjunto de tentames da Providência para aproximar esses povos e prepará‑los para aquela hora de bem‑aventurança.

Uns rejeitaram, outros aceitaram e batalharam. Eles ignoravam qual era o ponto central em torno do qual lutavam, a fim de que se soerguessem tanto quanto possível de dentro da lama do paganismo, para poderem estender as mãos ao apóstolo magnífico que lhes fora mandado pelo zelo de Santo Inácio; e aos missionários que se lhe seguiram, ao longo da História desses povos.

O centro é este: o momento magnífico da vitória do Reino de Maria, em que eles deverão converter‑se. E Nosso Senhor e Nossa Senhora, ainda que eles não soubessem, eram o centro dessa História. Maria Santíssima é ou não é a Rainha dessa História?

Leme e figura de proa

Rainha em que sentido?

Como nós gostamos muito de lógica, de definições bem feitas, buriladas, lapidadas e de cada coisa colocada em seu lugar, estou certo de que todos desejam entender bem qual é aqui o papel da rainha.

Até aqui eu descrevi a rainha como uma espécie de modelo ideal, que exerce uma presidência honorífica, atrai pelo esplendor, inspira pela magnificência de sua ação de presença e de seu exemplo. Mas uma rainha não é apenas isso.

Em ponto muito pequeno, puramente terreno, “in partibus infidelium”, nas regiões dos infiéis, há uma rainha cujo papel, de certa forma, é análogo ao que foi dito: a Rainha da Inglaterra. Se se comparasse um fósforo com o Sol, ainda haveria exagero no tomar em consideração o papel do fósforo, de tal maneira é grande a desproporção entre essa Rainha e a Rainha da História. A Rainha da Inglaterra tem uma ação de presença, ela encanta, deslumbra, anima. Porém ela não reina, porque reinar não é só isso; é governar. Dizer que a rainha não governa, mas reina, equivale a afirmar que é uma figura de proa no navio.

A figura de proa tem seu papel no navio, porque é um estandarte. Mas é uma coisa inteiramente diferente do leme. Para reinar é preciso ser leme e figura de proa.

Maria Santíssima dirige a História…

Em que sentido Nossa Senhora tem nas mãos o leme da História?

Ela conhece as intenções de Deus a respeito da História; tais intenções são o plano de Deus condicionado às orações, aos atos de virtudes e aos pecados dos homens.

Depois da Redenção infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, os homens pertencem a seu Corpo Místico, formando com Ele uma unidade sobrenatural em cuja realidade interna o mais delicado disso se passa. Tomando essa verdade em consideração, é do modo pelo qual reagimos às graças, dizendo sim ou não, e também da maneira pela qual os outros aceitam ou recusam os favores divinos, que Deus realiza um balanço geral. Nesse balanço Ele faz pesar a sua bondade e a sua justiça infinitas.

Mas o próprio Deus, na sua insondável bondade, quer mais do que Ele mesmo faz. Os homens são tão ruins que Deus daria aos homens menos do que Ele quer. Por uma disposição de sua sabedoria, verdadeiramente magnífica, Deus constituiu esta situação: uma criatura inteiramente humana, mas absolutamente perfeita; além disso, Filha do Padre Eterno, Mãe de Deus Filho e Esposa do Divino Espírito Santo, que sempre está em condições de retocar, ao menos em parte, o que homens fazem e, por assim dizer, corrigir — se a palavra “corrigir” não fosse inadequada —, reformar, rever, segundo os planos da misericórdia de Deus, aquilo que sua justiça faria. De maneira que Maria Santíssima está sempre pedindo: “Meu Pai Eterno, meu Filho adorável, meu Esposo perfeitíssimo, recuai um pouco, adoçai um tanto, ajeitai aqui, fazei mais acolá…”

E a rogos de Nossa Senhora, que nunca deixou de ser atendida, Deus como que passa a borracha sobre o plano da História escrito a lápis, e deixa a Santíssima Virgem traçar a ouro o plano verdadeiro, o qual corresponde ao mais fundo da intenção d’Ele.

Deus não A teria criado se não fosse isso. Mas se não A tivesse criado, ficaria difícil ou impossível — hesito diante do termo — fazer a História tão bela como é. Nossa Senhora enfeita essa História. E somente por isso, de um lado, Ela é a Rainha da História, porque Ela imprime, por um profundo consentimento de Deus, à História um rumo, que Deus sem Ela não teria imprimido. Nossa Senhora, portanto, dirige o leme da História.

De outro lado, Maria Santíssima não se limita a isso. Ela pede também, para alguns, o castigo. É natural. Quando surgir o Anticristo, virá o momento em que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, com um sopro de sua boca, o exterminará. Mas esse momento não será apressado por Nossa Senhora? Ela dirá: “Eis que os últimos bons que restam bradam e pedem que venhais! Vinde, por favor, vossa Mãe Vos pede.” E pelo sopro dos lábios de Nosso Senhor estará encerrada a História.

Compreendemos, então, a direção da História, direção “intercessiva”. Deus é quem dirige tudo, mas a intercessão de Nossa Senhora é segundo os planos do Criador. E Ela realiza a vontade de Deus, obtendo a modificação dos planos d’Ele. Deus reina, mas por meio de Maria Santíssima, a Quem Ele quis dar toda a glória que se pudesse imaginar a uma tão excelsa missão de intercessora de todo o gênero humano. Assim, Ela dirige a História.

…e a modela como um artista faz com a argila

Há mais. Nossa Senhora dirige a História geral dos homens, que é composta pelas Histórias de cada nação; e a História de cada nação é composta pelas histórias de cada família; e a história de cada família se compõe das histórias de cada homem. E, como família, entendo pai e mãe, unidos em legítimo matrimônio, e filhos dele decorrentes; e também as famílias espirituais, suscitadas por Maria Santíssima ao longo da História. É a reação delas que condiciona a História.

Nossa Senhora intervém na história de cada um de nós, do último mendigo que possa estar implorando misericórdia, porque é um bêbado e um inútil, até o maior potentado da Terra. Por todas as pessoas a Santíssima Virgem intervém até o último momento de suas vidas, pedindo ao Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Divino Espírito Santo que mandem graças para converter esse, melhorar aquele. E são derramadas graças que a pessoa pode recusar totalmente, ou só a meias. Por isso a história, mesmo dos malditos, sofre certa inflexão devido a algum pedido da Virgem Maria.

Até lá vai o poder de Nossa Senhora. E a oração d’Ela, interveniente junto a cada homem e “intercessivamente” junto a Deus, modela a História como um artista modela a argila para fazer uma imagem. Portanto, Maria Santíssima é operante na História.

O fator determinante de todo o curso da História é nossa atitude diante das graças que recebemos através de Nossa Senhora. Todos os nossos pedidos sobem ao Céu por meio d’Ela, e só são gratos a Deus porque são apresentados por Ela.

É conhecido o princípio de que, se o Céu inteiro pedisse sem Maria Santíssima não obteria; Ela, pedindo sozinha, obtém. Tal é a gloriosa, magnificente e régia intercessão de Nossa Senhora.

Considerando tudo isso, compreendemos bem o que significa o poder d’Ela como Rainha da História.

Aspecto “catedralício” da História

Um homem inteligente, que olha para uma catedral, não tem a visão apenas das pedras com as quais ela é construída; sobretudo ele vê o “unum”, que é a catedral.

Se a uma pessoa que foi olhar uma catedral perguntamos:

— O que você viu?

— Um montão de granitos.

Pensamos: “É claro que ele viu uma quantidade enorme de granito, mas se viu só isso ou principalmente isso é um estúpido.”

O modo de relacionar esses granitos entre si forma uma coisa muito superior: a catedral. O granito foi “per accidens”, por acaso, circunstancialmente, um meio para se chegar a ver a catedral.

Assim Nossa Senhora vê a História da Humanidade, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a História d’Ela e do seu Divino Filho.

Quer dizer, Maria Santíssima vê o plano de Deus e a inter‑relação do agir da Humanidade e do agir de Deus, mas da Humanidade formando um todo; e dentro da Humanidade, outros todos: as nações, as regiões, as famílias. Ou seja, Ela contempla todos os componentes e o grandioso todo do gênero humano que é a fivela entre o anjo e a criatura meramente material; o gênero humano ao qual Nossa Senhora e, em sua natureza humana, o Divino Filho d’Ela pertencem, com honra insondável para o gênero humano.

Então, Maria Santíssima vê o conjunto dos pecados que conduzem a um grande movimento único de pecado: a Revolução. Mas Ela observa também o conjunto das virtudes e um grande movimento único que combate os pecados. E, como um homem não estúpido contempla uma catedral, os olhos virginais de Nossa Senhora veem o aspecto “catedralício” da História, isto é, a Revolução e a Contra‑Revolução.

A Virgem Maria é Rainha da Contra‑Revolução e, em certo sentido, Rainha da Revolução.

Como? A Revolução como tal é uma rebeldia contra Nossa Senhora, e Maria Santíssima não pode ser Rainha dessa rebeldia, a não ser neste sentido: Ela tem o direito, a missão e o poder de punir, e manda como a rainha sobre o escravo revoltado.

Aí está uma exposição sobre Nossa Senhora como Rainha da História.

Que a misericórdia de Maria Santíssima pouse sobre esta reunião, e faça com que produza frutos de salvação para nós e dê glória a Ela.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/4/1982)

 

1) Selva.

22 de agosto – A realeza de Maria Santíssima

A realeza de Maria Santíssima

Em Fátima, com a promessa de triunfo do Imaculado Coração de Maria, começou a se delinear nas páginas da história a era em que a realeza de Maria deverá atingir todo seu fulgor.


Esmagando o demônio, príncipe deste mundo, com seu calcanhar puríssimo, Nossa Senhora reinará, triunfará!

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 31/5/1965)