06 de Janeiro – Preparando os caminhos…

Preparando os caminhos…

Embora a Escritura empregue apenas o termo “magos”, segundo a tradição eles eram reis magos. Trata-se de uma tradição tão bonita que deve exprimir a verdade, pois geralmente a mentira não inventa coisas lindas.

Creio que a missão essencial dos três Reis Magos foi preparar seus reinos para a vinda dos Apóstolos ou de seus sucessores. De maneira que quando esses lá chegassem, a população estivesse aberta para acolher sua pregação, e os portadores da palavra de Cristo recebessem uma formidável confirmação na Fé, porque lá encontravam os traços dos Reis Magos.

Quando encontraram a Sagrada Família, imagino que o Menino Jesus, por mais que já soubesse falar — Ele é a Sabedoria Encarnada —, não conversou com os monarcas. Mas, por meio de flashes(1), Ele deve ter tornado mais ou menos presente aos reis magos tudo quanto a Cristandade faria de belo na humanidade, com a promessa de que nas regiões deles isso se realizaria, se seus povos fossem fiéis.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 22/12/1989)

1) Flash [do inglês: brilho, lampejo], palavra usada por Dr. Plinio em sentido metafórico, indicando maravilhamento ou percepção enlevada de alguma realidade.

06 de Janeiro – Os Reis Magos

Os Reis Magos

Na vida espiritual pode haver momentos em que pensamos trilhar um caminho incerto, sem vislumbrarmos o almejado objetivo. Dizemos: “Afinal, andamos, andamos, andamos, como se à nossa frente estivesse a estrela que guiava os Reis Magos, mas, até agora, não chegamos a Belém…”

Ora, nesse instante de dúvida procuremos nos convencer de que, se diante de nós reluz a estrela, importa confiarmos, pois logo a Providência nos confirmará em nossa certeza, assim como os Magos se viram confirmados na sua esperança: ajoelharam-se aos pés do Menino Jesus, a Quem ofereceram ouro, incenso e mirra.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 13/3/1984)

06 de Janeiro – Fidelidade à estrela

Fidelidade à estrela

Segundo uma bela tradição, baseada na exegese de algumas passagens da Escritura Sagrada(1), os Magos guiados pela estrela até Belém eram reis, possivelmente provenientes de pequenos e longínquos reinos.

Para Dr. Plinio(2), os três Reis Magos tinham como missão predispor seus respectivos reinos para a aceitação da Boa-Nova levada pelos Apóstolos ou por seus sucessores, cuja pregação encontraria receptividade da parte da população previamente preparada por seus monarcas.

Para isso — dizia Dr. Plinio —, o Menino-Deus deve ter tornado presente aos Reis Magos, por meio de graças místicas, algo de tudo quanto a Igreja e a Cristandade trariam de belo para a humanidade no decorrer dos séculos, com a promessa de que nas regiões por eles governadas isso se realizaria, se aqueles povos fossem fiéis.

Baltasar, Gaspar e Melchior eram, por certo, almas escolhidas e muito propensas ao maravilhoso, a ponto de se deixarem conduzir por uma estrela. Por isso suas pessoas aparecem nimbadas de uma atmosfera extraordinária, irradiando esse maravilhoso para o qual devem ter preparado seus pequenos reinos.

Sem dúvida, os Reis Magos foram objeto das orações de Nossa Senhora e de São José junto ao Divino Infante para o cumprimento de sua bela missão que, na opinião de Dr. Plinio(3), ultrapassou os limites do tempo e do espaço, estendendo-se a toda a História.

Procedentes de diversas raças, prefiguravam eles todos os povos que viriam adorar o Salvador. Por essa razão, os episódios históricos por eles vividos — a visão da estrela no Oriente; o encontro com Herodes; a insegurança deste rei iníquo e, com ele, de toda a cidade de Jerusalém; a alegria ao reavistarem a estrela; a adoração feita ao Menino, junto a Maria, sua Mãe; a oferenda de ouro, incenso e mirra; o aviso recebido, em sonho, para voltarem por outro caminho(4) — estavam envoltos em aspectos simbólicos que indicavam terem os Magos recebido de Deus uma autêntica e misteriosa delegação: representar as nações que, no futuro, se abririam à influência da Santa Igreja Católica.

Delegação semelhante encontramos junto à Cruz, onde Nossa Senhora, São João e Santa Maria Madalena representavam todos os católicos que ao longo da História permaneceriam fiéis aos pés do Crucificado.

Essa ideia deve dar muito alento àqueles que, nas horas difíceis da Igreja ou da Civilização Cristã, padecem incompreensões, humilhações, perseguições, e que, embora pouco numerosos, procuram representar em seus respectivos ambientes, a pureza, a ortodoxia, a intrepidez, o espírito de iniciativa, no momento em que tudo pareceria falar em recuo, em transigência, em fuga. Esses, por sua fidelidade, além de alegrar o Menino Jesus em sua pobre manjedoura ou consolar o Redentor em seus padecimentos no alto da Cruz, representam de algum modo os católicos fiéis do passado e os que o serão no futuro.

Há, portanto, uma espécie de reversibilidade por cima do tempo e do espaço, por onde essas várias ações se fundem numa cena única e grandiosa.

Peçamos aos Reis Magos que orem por nós para que tenhamos uma das muitas formas de coragem que poderão nos ser pedidas: a de estarmos sós como eles estavam no mundo pagão, à espera da estrela, isto é, da hora de Deus para cumprir com toda retidão, constância e pontualidade a vontade divina.

Para eles, a hora consoladora foi aquela em que contemplaram o Divino Infante nos braços de Maria Santíssima.

Também para nós chegará um momento muito preciso em que uma estrela nos dirá que a hora esperada chegou!

Não será, provavelmente, uma estrela exterior, mas uma voz interior, à qual devemos estar atentos e dóceis, a fim de nos prepararmos para, nessa hora, sermos modelos de exatidão e fidelidade como os Reis Magos.

 

1) Cf. Sl 72, 10-11; Is 60, 3.

2) Cf. Conferência de 22/12/1989.

3) Cf. Conferência de 5/1/1964.

4) Cf. Mt 2, 1-12.

06 de Janeiro – Alta vocação dos Reis Magos

Alta vocação dos Reis Magos

Todos os sacerdotes, reunidos no Templo, deveriam ter comunicado ao povo que os tempos haviam chegado à sua maturidade e, conforme as profecias, afinal o Messias iria nascer. Contudo, foi preciso que viessem de longe os Reis Magos para anunciar em Jerusalém o seu nascimento. Isso mostra o cúmulo da degradação a que essa cidade, ainda não deicida, havia chegado.

Dom Guéranger faz os seguintes comentários a respeito  da vocação e dignidade dos Magos.

Os Reis Magos professam o desejo firme de adorar o Messias.

Tendo a estrela anunciada por Balaão se levantado sobre o Oriente, os três Magos, cujo coração se tinham aberto à espera do Messias Libertador, sentiram antes de tudo a impressão de amor que os levava a Ele. Eles receberam a nova da alegre vinda do Rei dos Judeus de um modo místico e silencioso, diferente dos pastores de Belém aos quais a voz de um Anjo convidou para irem ao Presépio. Mas a linguagem muda da estrela é explicada em seus corações pela ação do Pai Celeste que lhes revelava seu Filho.

Nisto sua vocação foi mais alta em dignidade do que a dos pastores, os quais, segundo as disposições divinas na antiga Lei, nada conheceram a não ser pelo ministério dos Anjos, mas se a graça divina se dirigiu imediatamente a todos os corações pode-se também dizer que ela os encontra fiéis.

Os Magos, falando a Herodes, exprimiram a simplicidade de sua empresa: “Nós vimos sua estrela e viemos para adorá-Lo”. Esses reis dóceis deixam, portanto, de um momento para outro, sua pátria, suas riquezas, seu repouso para caminharem em seguimento de uma estrela de que eles ignoravam o termo.

O poder de Deus que os tinha chamado os reunia em uma mesma viagem em uma mesma fé. Os perigos da viagem, os cansaços, o temor de se levantarem contra si as suspeitas do Império Romano, nada os fez recuar. Seu primeiro passo, seu primeiro repouso foi em Jerusalém. É, pois, nesta cidade sagrada que em pouco tempo será maldita que eles chegam, eles gentios, para anunciar Jesus Cristo e declarar que Cristo veio. Com toda a segurança, toda a calma dos apóstolos e dos mártires, eles professam seu desejo firme de adorar o Messias. Eles obrigam a Israel, depositária dos oráculos divinos, a confessar um dos principais caracteres do Messias: seu nascimento em Belém.

Herodes se agita em seu leito e medita o projeto de carnificina, mas é tempo para os Magos deixarem a cidade infiel, que já recebeu por sua  presença o anúncio de seu repúdio. A estrela aparece no céu e os reis decidem tomar novamente seu caminho. Mais alguns passos eles estarão em Belém, aos pés do Rei que eles vieram procurar.

A vocação dos Magos foi mais alta do que a dos pastores

Esses comentários são borbulhantes de ideias profundas, das quais cada uma mereceria verdadeiramente uma conferência.

A primeira ideia é uma comparação entre os Magos que foram procurar o Menino Jesus, guiados pela estrela, e os pastores. Mas é uma comparação que procura o valor de procedimento de uns e de outros perante o Natal, pelo modo através do qual foi noticiada a uns e outros o advento de Jesus Cristo.

Então ele diz que a chegada de Jesus Cristo foi anunciada aos pastores pelos Anjos. E aos Magos certamente por uma estrela que estava no céu, mas eles souberam que ela significava a vinda do Messias. Como? Em virtude de comunicações internas de caráter místico e silencioso operadas pela graça de Deus na alma de cada um, fazendo com que, quando a estrela chegasse, eles soubessem tratar-se do anúncio do Messias que vinha. Então, tocados por um movimento que era uma fidelidade à voz interna do Padre Eterno na alma deles, os Magos acreditaram na estrela, e como esta se movia  eles a seguiram.

Temos, assim, dois processos. Um é o anúncio de fora para dentro: os pastores, por um fato externo a eles, altamente miraculoso e extraordinário, ficam sabendo que o Messias nasceu. Pelo contrário, os Magos tomam conhecimento de que o Messias nasceu por meio de um fato interior, o qual a estrela apenas esclarece um pouco mais.

Voz interior provocada pela graça

O que tem mais mérito: seguir os Anjos ou a voz interior? Segundo a “heresia branca”

seria os Anjos porque, para esse tipo de mentalidade, a aparição de um Anjo é a prova da santidade; mais ainda, se uma pessoa tem a emoção santificante de ver o Anjo, naquela sensação ela fica santa de uma vez. É uma espécie de suspiro santificante. De maneira que o mais importante é ter recebido o anúncio de um Anjo e corresponder.

Além disso, é mais espetacular ver o Anjo, porque voz interior, quantos têm? Depois, sabe-se lá se é voz interior ou não? Pode haver dúvidas. Com um Anjo não, é uma coisa provada, garantida e, ademais, importante: Deus mandou um Anjo para falar com aquele; oh, não é pouca coisa! Voz interior é a vida de todos os dias, uma coisa apagada, sem graça, desbotada. Então, muito mais vale receber um anúncio pelos Anjos, e é mais fiel quem o segue.

Entretanto, Dom Guéranger, um grande teólogo e especialista na consideração destes temas, mostra que a operação interna da graça numa alma vale mais do que qualquer fato externo, e que a fidelidade à voz interior é mais  preciosa do que a fidelidade a um anúncio exterior; e por causa disto aqueles que não viram o Anjo, mas creram nessa voz interior, tiveram maior mérito. Evidentemente, a voz interior não é um cochicho, mas um jogo de espírito provocado pela graça, por onde a alma percebe, discerne, pondera e, iluminada pela graça, chega às conclusões impregnadas de espírito de fé.

Esse é diretamente um fruto do Espírito Santo, e a fidelidade a isso é mais árdua, mas ao mesmo tempo mais meritória, do que a fidelidade dos pastores ouvindo a voz dos Anjos.

Poder-se-ia objetar: “Mas essas vozes interiores às vezes enganam”.

É bem verdade, mas qual é a consequência?

É que Deus faz mal em nos falar por meio da voz interior? Quem ousaria censurar o Onipotente? E se Deus não faz mal, deveríamos não ouvir, como quem dissesse: “Deixa-O ir falando…”?

Há uma frase na Escritura que diz: “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Sl 94, 8). Portanto, não podemos fazer ouvido mouco à ação interna da graça na alma, mas devemos saber discernir, com o auxílio que o próprio Deus nos dá para isso.

Aqui se aplica bem a palavra de Nosso Senhor a São Tomé: “Tu creste porque me viste. Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20, 29).

É fecundíssimo este pensamento.

Jesus no berço já estava dividindo, causando polêmica

Outro aspecto que o texto ressalta é a degradação do povo eleito. Nascido o Messias, esse povo deveria receber o aviso de seu nascimento.

Ora, esse aviso precisaria ser dado em Jerusalém e no Templo. O normal seria que todos os sacerdotes reunidos no Templo, num momento em que uma nuvem áurea entrasse no recinto sagrado e um cântico angélico se deixasse sentir, tivessem a confirmação daquilo do que suas almas já lhes estavam dizendo, ou seja, que os tempos haviam chegado à sua maturidade, que os fatos conferiam com a descrição das profecias e que, afinal, o Messias ia nascer. Contudo, foi preciso que viessem de longe os Reis Magos – gentios, pagãos, alheios à nação, filhos, portanto, de povos reprovados e condenados – para anunciar em Jerusalém que o Messias tinha nascido.

Quer dizer, é o cúmulo da degradação para Jerusalém ainda não deicida, mas que nada faltava para ser deicida. É interessante notar a reação dos sacerdotes. Eles confirmaram que o Messias deveria nascer em Belém e, com isso, indicaram uma das características de que de fato aquele era o Messias. Portanto, sem quererem, prestaram um testemunho de que aquele nascimento se operava nas  condições previstas pelas profecias.

Assim, involuntariamente, eles serviram à causa de Jesus Cristo. O resto é só miséria. Herodes ordenou a matança, quis eliminar o Menino.

Não consta que ninguém na Sinagoga tenha se revoltado contra isto. Nem creio que a Sinagoga, já tão pacifista, se incomodasse com derramamento de sangue dos inocentes…

O resultado é que começou a luta da Sinagoga contra Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele encontrava-Se no berço e já estava dividindo, causando polêmica; não era a causa, mas o motivo de um morticínio. O primeiro sangue derramado por Ele foi vertido quando ainda era Menino.

Pedra de escândalo para que se revelassem as cogitações de muitas almas, para construção e edificação e para a perdição de muitos, como disse bem depois o Profeta Simeão (cf. Lc 2, 35).

Essas são as considerações que me parece a propósito fazer a respeito do dia de Reis.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 6/1/1966)

03 de Janeiro – Santa Genoveva

Santa Genoveva

Tendo apenas sete anos de idade, Santa Genoveva prometeu, na presença dos bispos São Germano e São Lupo, guardar a pureza de alma e de corpo. Tal promessa ela a cumpriu com toda fidelidade e teve a insigne glória de, em 451, impedir que os hunos comandados por Átila invadissem Paris, tornando-se a padroeira dessa cidade.

Em 3 de janeiro comemora-se Santa Genoveva, virgem. A respeito dela, vamos considerar a seguinte nota biográfica extraída da obra L’Année Liturgique, de Dom Guéranger: Em meio à multidão, São Germano discerne uma virtuosa menina…

Genoveva foi célebre no mundo inteiro. Ainda vivia ela nesta carne mortal, e o Oriente já conhecia seu nome e suas virtudes. Do alto de sua coluna, o estilita Simeão a saudava como sua irmã em perfeição no Cristianismo. A capital da França tinha-lhe sido confiada; uma simples pastora protegia os destinos de Paris, assim como um simples lavrador, Santo Isidro, vigiava a capital das Espanhas.

São Germano de Auxerre ia para a Grã-Bretanha para onde o Papa São Bonifácio I o estava enviando, a fim de combater a heresia pelagiana. Acompanhado de São Lupo, Bispo de Troyes, que devia partilhar sua missão, parou na aldeia de Nanterre. Enquanto os dois prelados se dirigiam à igreja onde queriam rezar pelo sucesso de sua viagem, o povo fiel os circundava com uma piedosa curiosidade.

Iluminado por uma luz divina, Germano discerniu em meio à multidão uma menina de sete anos, e foi advertido interiormente de que o Senhor a tinha escolhido. Perguntou aos presentes qual era o nome dessa criança e rogou que a trouxessem à sua presença. Assim, fizeram aproximarem-se os pais, Severo e Gerúntia. Ambos ficaram enternecidos com os sinais de ternura com que o bispo cumulava sua filha.

…que faz a promessa de manter a pureza de alma e de corpo

— Esta criança é sua? — perguntou-lhes Germano.
— Sim, senhor — responderam eles.
— Felizes pais com uma tal filha — acrescentou o bispo. Por ocasião do nascimento desta criança, saibam-no, os Anjos deram grande festa no Céu. Esta menina será grande diante do Senhor; e, pela santidade de sua vida, arrancará muitas almas do jugo do pecado.

Depois, dirigindo-se à criança, disse:
— Genoveva, minha filha…
— Padre santo — respondeu ela — vossa serva escuta.

Então, disse Germano:
— Fala-me sem temor: gostarias de ser consagrada a Cristo numa pureza sem mancha, como sua esposa?
— Bendito sejais, meu Pai — exclamou a criança —, o que me pedis é o maior desejo de meu coração. É tudo o que quero. Dignai-vos rogar ao Senhor que mo conceda.
— Tem confiança, minha filha — retomou Germano —, sê firme em tua resolução. Que tuas obras sejam conformes à tua Fé, e o Senhor acrescentará sua força à tua beleza.

Os dois bispos entraram na igreja e foi cantado o Ofício de Noa, seguido das Vésperas. Germano tinha mandado trazer Genoveva junto a si, e durante a salmodia manteve suas mãos postas sobre a cabeça da criança.

No início do dia seguinte, antes de partir, mandou o pai trazer-lhe Genoveva.

— Salve, Genoveva, minha filha — disse-lhe Germano. Lembras-te de tua promessa de ontem?
— Ó Padre santo — retorquiu a criança —, lembro-me do que prometi a vós e a Deus. Meu desejo é de manter para sempre, com o socorro celeste, a pureza de minha alma e de meu corpo.

Neste momento, Germano percebeu no chão uma medalha de cobre marcada com a imagem da Cruz. Tomou-a e dando-a a Genoveva disse-lhe:
— Faze-lhe um furo, põe-na no pescoço e guarda-a em lembrança de mim. Não leves nunca colar, nem anel de ouro ou de prata, nem pedra preciosa; pois se a atração das belezas terrenas vier a dominar teu coração, perderias logo teu ornamento celeste, que deve ser eterno.

Depois destas palavras, Germano recomendou à criança que pensasse nele frequentemente, em Cristo e, tendo-a recomendado a Severo como um depósito duas vezes precioso, tomou a estrada para a Grã-Bretanha, junto com seu piedoso companheiro.

Florilégio de Santos

Nesse episódio, podemos notar algo que explica o admirável florescimento de almas santas na Idade Média. Vejamos os homens que figuram nesta história.

Em primeiro lugar, o Papa São Bonifácio. Este envia São Germano de Auxerre para defender a Inglaterra contra os pelagianos, e São Germano tem como companheiro de viagem outro Santo, que é São Lupo, Bispo de Troyes. Quer dizer, são dois bispos santos mandados por um Papa santo para defender um país que está ameaçado pela heresia.

Compreende-se o calor da santidade, a intensidade da vida espiritual, o que era, afinal de contas, este florilégio enorme de Santos sobre os quais a Idade Média, ponto por ponto, vinha se construindo.

Ao longo da viagem, passam por uma cidadezinha chamada Nanterre, onde a primeira providência não é se dirigirem para o hotel ou para a hospedaria, nem para um lugar onde possam se divertir. A primeira atitude que tomam, depois de uma viagem fatigante, é ir para a igreja a fim de rezar.

Tal é a iluminação desses personagens, tal o seu prestígio, a atração exercida por eles, que entram na igreja, o povo os rodeia e começa a olhá-los rezar. É o povinho fiel, os camponesinhos com o jeito, naturalmente, do que seriam os camponeses no tempo de Santa Joana d’Arc, alguns séculos depois, rodeando os dois bispos que, recolhidíssimos diante do Santíssimo Sacramento, numa pequena capela, estão fazendo uma oração intensa. E o povo olhando, maravilhado!

De repente, nesse ambiente de fervor, uma graça se faz notar por todos: aqueles dois Santos, enviados por um terceiro Santo, distinguem, entre os fiéis que os rodeiam, uma grande Santa, uma menina de sete anos. Eles a chamam e, diante de todo o povo, um deles faz a profecia a respeito do que a menina haveria de ser. E começa por dizer assim: “Fiquem sabendo que no Céu houve uma grande alegria quando esta menina nasceu.”

Quando Genoveva nasceu, houve grande alegria no Céu

Imaginem o maravilhamento de toda a aldeiazinha! Um lugarejo onde tudo é notícia, tudo é novidade, em que até a chegada de dois bispos é um grande acontecimento… De repente, esses bispos falam da “fulaninha” que eles veem correr descalça de um lado para outro, pelas ruas da cidade. Em relação a essa menina, quando ela nasceu, houve alegria no Céu!

Ninguém duvidou, ninguém pediu provas, todos acreditaram, inclusive a menina e seu pai. Porque essas pessoas são os tais bem-aventurados, dos quais nos fala o Evangelho, que creem sem ter visto.

Pensam elas: é tão natural ter havido alegria no Céu por uma menina santa que nasceu! Os Santos são tão frequentes e tão numerosos, eles estão em um contato tão contínuo com o Céu, que conhecem o que se passa lá. Portanto, é natural que eles saibam. É uma comunicação normal.

Como isto é diferente da distância que nos separa do sobrenatural em nossos dias! Antes de admitir que uma coisa vem do Céu, o homem contemporâneo se mune de todas as armas do racionalismo para ver se consegue negar. Não havendo meios de recusar, só então ele se resigna, sem grande entusiasmo a, de quando em vez, admitir a procedência celeste de algo.

Pelo contrário, naquele ambiente cheio de Fé a situação se resolveu imediatamente.

São Germano pergunta à menina:
— Você quer se consagrar a Deus?
— Meu pai — responde ela —, é o mais caro desejo do meu coração!

Está tudo resolvido. Fica um sulco de luz naquela cidade que, a partir de então, começa a ter história. A cidadezinha nasce para a História porque um grande fato sobrenatural se passou nela.

Arco voltaico de santidade

Ela, provavelmente, foi dali mesmo levada pelos pais para um convento onde a prioresa ou a abadessa seria uma Santa também, com um daqueles nomes cuja sonoridade é estranha para nós, mas uma Santa de verdade. Chegam lá e dizem:
— Viemos trazer esta menina, nossa filha.

Certamente a resposta da santa abadessa não seria: “Ah! como ela é engraçadinha”, mas sim:
— Esta menina parece ter o espírito de Deus!

E é possível que Santa Genoveva tivesse dito, com toda inocência, sem qualquer pretensão:
— Tenho mesmo.

E a abadessa perguntasse para a mãe:
— Mas por que trazes a menina?
— Ah! porque São Germano de Auxerre e São Lupo de Troyes disseram dela tais e tais coisas…
— Ah, que bonito!

A abadessa não iria perguntar se tinham um atestado timbrado da Cúria, nem nada disso. Ela acredita também, acolhe no convento a menina que já começa a santificar-se, elevando-se na vida espiritual, a partir daí, como um cedro do Líbano.

Ela cresce, enche o panorama com a sua presença e floresce como uma flor no centro do jardim do Ocidente. Não havia imprensa, rádio ou televisão; entretanto, a fama de Santa Genoveva se espalhou até o Oriente, a ponto de São Simeão Estilita, na Ásia Menor, ouvir falar dela.

Era o famoso Santo que vivia no alto de uma coluna, de onde nunca descia, rezando o tempo inteiro. Era uma forma de verdadeiro eremita. Ele então ouve falar das virtudes de Santa Genoveva e, por esses “radares” que os Santos têm para se sentirem uns aos outros, compreende que ela era irmã espiritual dele e saudou de longe, do alto de sua coluna, esta flor que nascia no “doux pays de France”.

Vemos os contatos passando por sobre os mares, as ilhas, as cordilheiras, as vastidões desertas e povoadas, e estes dois Santos formando uma espécie de arco voltaico de santidade naquela época.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/1/1966)
Revista Dr Plinio 202 – Janeiro de 2015

03 de Janeiro – Os sacratíssimos Nomes de Jesus e de Maria

Os sacratíssimos Nomes de Jesus e de Maria

 Nome de Jesus é um símbolo sacratíssimo que tem o poder de atrair sobre nós todas as graças e de causar o terror nos demônios. Intimamente relacionado com ele está o Nome de Maria.

A Igreja comemora em janeiro o Santíssimo Nome de Jesus, a respeito do qual diz a Sagrada Escritura: “Que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no Céu, na Terra e no Inferno” (Fil 2,10).

O nome de algo deve designar sua natureza

Qual a razão pela qual se festeja o Santíssimo Nome de Jesus? Naturalmente, tudo quanto se refere a Nosso Senhor Jesus Cristo merece nossas homenagens, nossa veneração e, portanto, deve ser comemorado.

Mas por que essa insistência especial no que diz respeito ao Nome de Jesus? Por que grandes santos da Igreja afugentavam os demônios com o Nome de Jesus? O que é o nome aqui? Não dizemos também “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”? Quando fazemos algo de muito importante, por exemplo, no início da Missa o padre se persigna; na redação de um testamento, diz-se:

“Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, eu, Fulano de tal, faço meu testamento.”

De acordo com a ordem profunda das coisas, que foi truncada pelo pecado original, a linguagem humana era capaz de exprimir adequadamente os seres, dando-lhes um nome. E esse nome era ma palavra que definia aquilo que havia de mais interno, mais substancial, mais característico no ser para o qual ele era aplicado.

O nome de uma coisa deve designar sua natureza mais íntima, e os orientais têm uma certa ideia disso — quando não dão às pessoas nomes como os nossos; por exemplo, alguém pode chamar-se Plinio, que para ele não quer dizer nada. Mas os orientais dão nomes com um sentido próprio. Como por exemplo, lembro de ter tomado conhecimento de que um nome oriental, do qual não me recordo, significava “Chuva de Primavera”. São nomes poéticos para indicar algo da nota dominante daquela alma. Depois do pecado original e da torre de Babel essas coisas se perderam e a linguagem humana não tem mais essa precisão. Entretanto, ficou-nos essa vaga ideia de que entre o nome e a natureza da coisa há uma relação.

Conta o Gênesis que quando os animais passaram diante de Adão, ele foi dando um nome a cada um. Ou seja, dava uma definição para, por meio de uma palavra, exprimir adequadamente — por uma relação natural entre o vocábulo e a coisa, e não apenas algo convencional — aquilo que era o ser.

Tomemos, por exemplo, a águia. Nós a chamamos com esse nome, mas não há uma relação necessária entre a palavra “águia” e o conteúdo dessa ave, aquilo que é o típico dela. É uma coisa convencional. Mas na linguagem usada por Adão, não. Entre os sons, a música, a estrutura da palavra “águia” e a realidade da águia, havia uma relação verdadeira e profunda.

A Igreja quer uma ordem sacral e hierárquica

Então o Santíssimo Nome de Jesus é, de um modo misterioso, a própria definição daquilo que na Pessoa adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo existe de mais definitivo, de mais capaz de mencionar aquilo que Ele é. E, relacionado a Ele, o Nome imaculado de Nossa Senhora. Ambos trazem consigo bênçãos, graças especiais, porque são o símbolo, a expressão misteriosa e inefável da realidade santíssima que n’Eles existe. Então podemos compreender por que Deus concede tantas graças aos que usam com frequência os Nomes de Jesus e Maria.

E, nesse sentido, o nome é uma imagem, um símbolo da pessoa, e o Nome de Jesus — do qual, aliás, o Evangelho fala com muito cuidado — é um símbolo sacratíssimo que, enquanto símbolo, tem o poder de atrair sobre nós todas as graças e de causar o terror dos demônios. E o Nome de Jesus se resume naquelas três iniciais “IHS — Iesus, hominum Salvator”, Jesus, Salvador dos homens — que se coloca abaixo da cruz, nos documentos e em certos papéis. A cruz e o Nome de Jesus são os dois símbolos perfeitos.

Um estandarte com esses Nomes — por exemplo, o de Santa Joana D’Arc — é um meio de afugentar os demônios, de atrair as graças de Deus, de conquistar a boa vontade dos anjos.

Isto tem alguma relação especial conosco? Tem, naturalmente. O Nome de Jesus, sendo a palavra que indica sua glória, é a manifestação desta. E nós queremos a glorificação dos Nomes de Jesus e de Maria. Um dos estandartes que serão lançados na alvorada do Reino de Maria, com certeza vai ser gloriosamente pintado com o Nome de Jesus, e outro com o Nome de Maria.

O que deseja a Igreja quando glorifica o Nome de Jesus? Ela quer que se dê honra a Jesus, que o Nome de Jesus esteja por cima de todas as coisas e que tudo Lhe esteja sujeito; quer uma ordem sacral baseada na única Fé verdadeira, que é a Católica, Apostólica e Romana; uma ordem que nada tenha de laicista nem de igualitário. E a festa do Nome de Jesus é uma das numerosas solenidades da sacralidade, da hierarquia e da civilização cristã.

A saudação ”Salve Maria!”

Nós temos essa prática de nos saudar, dizendo “Salve Maria!” É uma saudação na qual se repete, a todo o momento, o Nome de Nossa Senhora. Ao invés de dizermos ao outro “Bom dia”, afirmamos: “Que a Santíssima Virgem seja glorificada!” O “Salve Maria!” é uma honra, uma glorificação, um ato de amor a Nossa Senhora. Ao conscientizar o valor dessa saudação, podemos adquirir mais méritos. O “Salve Maria!” não deve ser pronunciado às pressas, nem de forma atrapalhada, mas como uma oração que lucraria em ser dita com mais piedade, mais unção, mais propósito, porque, às vezes, nos esquecemos de Nossa Senhora e o transformamos num “Bom dia”.

O “Salve Maria!” tem um alto valor próprio, que devemos ter em mente. Daí minha insistência para um máximo de piedade ao pronunciar essa saudação, em vista do valor do Nome de Nossa Senhora ou do valor infinitamente maior do Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esses são os pensamentos que nos devem animar e é adequado pedirmos que o Nome de Jesus seja cercado de toda a glória. Que Jesus seja conhecido e adorado por todos os homens, sendo reverenciadas as coisas que são conformes a Ele. Que a Revolução seja derrotada e que a Contra-Revolução vença, porque esta é a própria vitória do Nome de Jesus.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 1/1/1965 e 1/1/1966)

03 de Janeiro – Nome acima de todos os nomes

Nome acima de todos os nomes

Por isso Deus O exaltou soberanamente e Lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no Céu, na Terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Fil 2, 9-11).

Fazendo suas essas ardorosas palavras do Apóstolo, o Martirológio Romano recorda, no dia 3 de janeiro, a Festa do Santíssimo Nome de Jesus. Para Dr. Plinio, tal comemoração encerra um especial significado, assim descrito por ele:

“Por que razão se exalta o Santíssimo Nome de Jesus?

“Naturalmente, tudo quanto se refere ao Verbo Encarnado merece nossas homenagens, nossa veneração e é digno, portanto, de uma festa. Porém, poder-se-ia perguntar qual o motivo dessa particular insistência no que diz respeito ao Nome do Filho de Deus. Por que grandes santos da Igreja expulsavam e afugentavam os demônios, invocando o Nome de Jesus? E por quê, ao realizarmos alguns atos comuns ou importantes de nosso quotidiano, nos persignamos e fazemos uma pequena oração que sempre se inicia com o Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? 

“Que valor possui, afinal, um nome, e o Nome de Jesus?

“De acordo com a ordem profunda das coisas que foi truncada pelo pecado original, a linguagem humana era capaz de distinguir de modo conveniente os seres criados, dando-lhes um nome adequado, um vocábulo que definisse o que havia de mais interno, substancial e característico na criatura nomeada.

“Assim, segundo a narração do Gênesis (2, 19-20), cada animal recebeu de Adão um nome que os caracterizava e que era a definição mais apropriada de seus respectivos predicados.

“Nesse sentido, pois, o nome é uma imagem da pessoa que o porta. E mais que todos, o Nome de Jesus é um símbolo d’Ele e uma representação sacratíssima que, como tal, tem o poder de atrair sobre nós todas as graças e o poder de causar terror nos demônios. É interessante notar que, na iconografia católica, o Nome de Jesus se resume nas três iniciais — “IHS (isto é, Iesus Hominum Salvator”, Jesus Salvador dos Homens — colocadas em alguns documentos eclesiásticos, com uma Cruz sobre o “H”. Juntos, o Nome e a Cruz, os dois símbolos perfeitos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Ao celebrar, portanto, de forma especial o Nome do Divino Redentor, pretende a Igreja salientar a obrigação dos fiéis de honrar a Jesus, de glorificar o seu Nome, para que este se situe acima de todas as coisas e que tudo lhe esteja sujeito. Quer a Igreja, com essa solenidade, frisar seu anseio por uma ordem sacral, baseada numa fé católica, apostólica e romana autêntica, uma ordem na qual a festa do Nome de Jesus seja uma das grandiosas comemorações da Civilização Cristã.

“Tais são os pensamentos que nos devem animar na recordação dessa luminosa data do calendário litúrgico, e inspirar em nossas almas o pedido de que o Nome de Jesus seja de fato cercado de toda a glória. Que Nosso Senhor seja conhecido, adorado, reverenciado por todos os homens, sendo reverenciadas as coisas que são conformes a Ele. Que a Revolução seja esmagada e a Contra-Revolução vença, pois a vitória dela é a própria vitória do Nome de Jesus.”

03 de Janeiro – Santíssimo nome de Jesus

Santíssimo nome de Jesus

Há uma misteriosa e insondável relação entre o nome de Jesus e o Verbo feito carne, de tal maneira que não se concebe outro que lhe fosse mais apropriado. É o mais suave e santo dos nomes que  jamais um homem tenha usado.

Nome que, de modo maravilhoso, é a própria manifestação da glória d’Ele. Nome que é um símbolo sacratíssimo do Filho de Deus e, enquanto tal, tem o poder de atrair sobre nós todas as graças e favores celestiais.

Plinio Corrêa de Oliveira

02 de Janeiro – São Basílio de Cesareia, campeão da Fé

São Basílio de Cesareia, campeão da Fé

São Basílio de Cesareia, campeão da Fé

Assim como São Basílio enfrentou heroicamente os imperadores que desejavam restaurar o paganismo, os católicos devem combater os atuais propugnadores do neopaganíssimo, sem vacilações nem conivências, sem concessões ao erro, sem mutilações da doutrina da Igreja.

Em sua luta contra a Cidade de Deus, o pai da mentira nem sempre é original e costuma incidir às vezes nos mesmos artifícios e nos mesmos processos.

Problemas de estratégia apostólica

Assim, por exemplo, a tática ultramoderna e aerodinâmica de combater a Igreja de preferência por meios indiretos, com ares de quem pede desculpas pelos danos a contragosto causados aos que se postam no caminho da “civilização” e do “progresso”, esta tática é velha de vários séculos.

E como Deus suscita Santos com peculiaridades especiais, conforme a época em que aparecem e a tarefa que deles espera, vejamos sumariamente o modo de agir de um Santo que, já no século IV da era cristã, teve pela frente, em sua essência, os mesmos problemas de estratégia apostólica que os católicos defrontam no mundo de hoje, pois enfrentou a mesma espécie de inimigos: os que mordem e sopram ao mesmo tempo.

Efetivamente, São Basílio viveu em uma época idêntica à nossa, com a diferença que se achava numa fase da história do cristianismo que corresponde ao crepúsculo que antecede a aurora, enquanto tudo parece indicar que nos achamos num momento que corresponde ao crepúsculo prenunciador das sombras da noite, da espessa sombra totalitária neopagã e socialista que ameaça o mundo moderno.

O grande Doutor da Igreja do Oriente assistiu aos últimos estertores do paganismo, como nós assistimos ao seu renascer.

E nesse estrebuchar do paganismo não vemos apenas os esforços desesperados de um neopagão do porte de Juliano Apóstata e de todos os seus áulicos, mas também o terror das heresias que faziam causa comum contra a Igreja com esses remanescentes do cesarismo, tal como hoje hereges e cismáticos se aliam ao bolchevismo totalitário em sua luta contra a civilização católica.

Juliano Apóstata e os atuais inimigos da Igreja

O arianismo havia perturbado profundamente o mundo cristão. Ao lado de bispos fiéis à Igreja, piedosos, caritativos, amados do povo, havia os bispos arianos, prelados da corte semipagã, que favoreciam a persistência do paganismo.

Entre os imperadores romanos e do Oriente, que após a conversão de Constantino tentaram restabelecer o paganismo, Juliano Apóstata é o exemplo mais expressivo. E em sua tática vemos os mesmos processos hoje usados pelos inimigos da Igreja, sejam eles liberais ou totalitários.

Com efeito, Juliano, precursor do Estado leigo moderno, começa por dar liberdade não somente ao Catolicismo, que já emergira das catacumbas com o advento de Constantino, mas a todas as seitas cristãs dissidentes.

Com esse gesto visava ele a mesma finalidade dos nossos inimigos de hoje. O pagão Marcelino1 perfeitamente compreendeu o embuste: “Juliano agiu de tal modo que a liberdade que parecia conceder degenerasse em licença e aumentasse as divisões.”

Obtido esse resultado, não mais tinha a temer para suas empresas ulteriores uma “resistência unânime dos cristãos”.

A hipocrisia dessa liberdade de cultos não tardou a se revelar com a perseguição que moveu contra Santo Atanásio e na proteção que concedeu aos hereges, como no caso dos donatistas.

Monopólio do ensino pelo Estado

Em Juliano Apóstata vemos os mesmos esforços no sentido da implantação do neopaganismo de que Hitler foi o exemplo em nossos dias. E, entre outras analogias, podíamos aplicar indiferentemente a um e a outro a tática da corrupção, mediante a negação de empregos públicos aos católicos, conforme nos mostra a História.

Também no laicismo escolar temos em Juliano Apóstata um precursor da moderna perseguição à Igreja. E assim como a legislação escolar, que lentamente promove o monopólio do ensino pelo Estado, é a mais terrível arma usada pelos inimigos da Igreja liberais e totalitários, do mesmo modo essa foi a grande arma desse imperador neopagão.

Em suas leis, que estabeleciam o monopólio educativo do Estado, dizia Juliano: “Todos aqueles que fizerem profissão de lecionar devem ter a alma imbuída das únicas doutrinas que são conformes ao espírito público.”

Bem podemos avaliar o que Juliano entendia por esse “espírito público”, como bem sabemos o que quer dizer hoje em dia a “neutralidade” escolar.

Pois foi num mundo assim minado pelos mais satânicos métodos de perseguição ao Catolicismo – por isso mesmo, hipócritas e velados –, nesse tempo em que, humanamente falando, a causa da ortodoxia estava perdida, foi nessa época em que viveu São Basílio.

Sem a chama da vida interior é vã toda obra de assistência social

Ninguém melhor indicado do que ele, São Basílio, para promover uma larga política da mão estendida com os neopagãos e os hereges. Com efeito, em Atenas, juntamente com São Gregório Nazianzeno, sentara lado a lado com Juliano nos mesmos bancos escolares. E era de natural pacífico e retraído.

Entretanto, resoluto e reiteradamente recusou-se a aceitar o convite para ir à corte de Juliano, como mais tarde enfrentaria o Imperador Valente, quando este começou a persegui-lo devido à sua oposição ao arianismo e à sua recusa em aceitar em sua igreja esses mesmos hereges.

Mais do que o Santo da ação social, mais do que um precursor do serviço social em seu aspecto moderno, devemos ver no grande Bispo de Cesareia o campeão da Fé, o defensor da ortodoxia, o homem da Igreja.

E essa pureza de doutrina, essa santa intransigência em matéria de Fé e de costumes é que são a chave de sua obra no setor social. Conforme diz o Evangelho de sua festa, “se o sal perder sua força, com que se há de condimentar?” (cf. Mt 5, 13).

Se a meta do serviço social é facilitar à sociedade os meios necessários para que os seus membros possam desenvolver plenamente sua personalidade, se o sumo bem que podemos aspirar para o próximo é a realização de sua missão sobre a Terra para que consiga atingir a bem-aventurança eterna, é claro que sem essa chama da vida interior seria vã toda a obra de assistência social desenvolvida pelo grande Santo.

Operários saem às ruas exigindo a libertação de São Basílio

São Basílio enfrentou o totalitarismo do Estado do mesmo modo que os católicos do mundo de hoje terão de fazer perante os novos imperadores neopagãos e neocoroados, sem vacilações nem conivências, sem concessões ao erro, sem mutilações da doutrina da Igreja, sob pretexto de proselitismo ao campo contrário.

Só assim podemos imitar o grande e Santo Doutor em sua desassombrada intervenção a favor dos humildes, dos fracos, de todas as vítimas da arbitrariedade, da tirania, das injustiças sociais.

Só assim poderemos edificar, nas cidades de hoje, aquela verdadeira cidade de assistência social por ele construída às portas de Cesareia. Só com esse verdadeiro conceito de caridade é que poderemos trazer à Igreja as multidões desgarradas que hoje se debatem no meio da mais completa miséria, principalmente espiritual.

Só assim teremos ao nosso lado aquele mesmo povo que sai tumultuariamente pelas ruas, ao saber que São Basílio se achava perante o tribunal do Prefeito Imperial de Cesareia, que o ameaçava com as acusações mais infames. Esse mesmo povo a cuja frente, segundo a narração de São Gregório Nazianzeno, se achavam os operários das fábricas imperiais, brandindo os instrumentos de seu ofício e exigindo a libertação do seu benfeitor.

Só imitando as verdadeiras virtudes de São Basílio é que estaremos certos de haver combatido o bom combate no campo social.

02 de Janeiro – Campeão da Fé, defensor da ortodoxia

Campeão da Fé, defensor da ortodoxia

São Basílio viveu num mundo minado pelos mais satânicos métodos de perseguição ao Catolicismo, precisamente por serem hipócritas e velados, numa época em que, humanamente falando, a causa da ortodoxia estava perdida.
Mais do que o Santo da ação social, devemos ver no grande Bispo de Cesareia o campeão da Fé, o defensor da ortodoxia, o homem da Igreja.
Sua pureza de doutrina, santa intransigência em matéria de Fé e de costumes são a chave de sua obra no setor social. Se o sumo bem que podemos aspirar para o próximo é a realização de sua missão sobre a Terra para atingir a bem-aventurança eterna, é claro que sem essa chama da vida interior seria vã toda a obra de assistência social desenvolvida pelo grande Santo.
São Basílio enfrentou o totalitarismo do Estado como os católicos de hoje terão de fazer perante os imperadores neopagãos e neocoroados, sem vacilações nem conivências, sem concessões ao erro, sem mutilações da Doutrina da Igreja, sob pretexto de proselitismo.
Só assim podemos imitar o grande e santo Doutor em sua desassombrada intervenção a favor dos humildes, dos fracos, de todas as vítimas da arbitrariedade, da tirania, das injustiças sociais.
Só com esse verdadeiro conceito de Caridade poderemos trazer à Igreja as multidões desgarradas que hoje se debatem no meio da mais completa miséria, principalmente espiritual.

(Extraído de O Legionário n. 718, 12/5/1946)