15 de agosto – Confiança e alegria

Confiança e alegria

Neste mês em que a Igreja celebra a realeza de Maria Santíssima, reveste-se de particular propriedade a recomendação que, com desvelada insistência, Dr. Plinio dirigia a seus discípulos para confiarem sem limites na Rainha e Mãe de Misericórdia:

“Ao discorrer sobre o pecado, São Francisco Xavier dizia ter mais temor, não da queda em si, mas do desânimo em relação à indulgência divina no qual pode cair o pecador após cometer a falta.

“Ora, a maneira de não incorrermos nesse desânimo é nos lembrarmos da Mãe inesgotavelmente misericordiosa que temos. E em possuindo essa misericórdia inexaurível, Nossa Senhora nos alcança as graças para nos emendarmos, e sua clemência se exerce perdoando, contemporizando, regenerando.

“De sorte que nunca será demasiado insistir: confiemos, confiemos e confiemos na Santíssima Virgem. Lembremo-nos sempre da extrema meiguice e da extraordinária condescendência de nossa Mãe para com as misérias de cada um de nós, individualmente considerado, e como, imbuídos dessa confiança, na oração da ‘Salve Rainha’ A honramos enquanto Soberana do universo, mas, ao mesmo tempo, A invocamos como Mãe, e Mãe de Misericórdia.

“Importa termos continuamente presente essa ideia da insondável clemência de Nossa Senhora, pois qualquer devoção, qualquer vida de piedade que não a tenha, corre o risco de ser completamente estiolada. Sem esta noção da misericórdia de Maria nada caminha, nada se realiza. Pelo contrário, tudo anda e cobra vigor com a ideia dessa providência indizivelmente suave, materna e contínua de Nossa Senhora sobre cada um de nós.

“Portanto, pensemos nessa verdade e procuremos cumular nossa alma de confiança e de alegria, pois quem possui uma Mãe assim não tem razão para se desesperar nem se abater com nada.”

Nossa Senhora tudo resolve, desde que nos voltemos para Ela. Devemos pedir-Lhe sempre o seu amparo, recordando-nos daquela sentença de Santo Afonso de Ligório: “Quem reza se salva, quem não reza, se condena”. Aquele que pretendesse passar a vida praticando atos de virtude sobre atos de virtude, porém sem rezar, primeiro não passaria a vida praticando atos de virtude e, segundo, acabava se perdendo. Por outro lado, quem vive no pecado mas reza, este ainda é capaz de se salvar.

“Supliquemos muito à nossa Mãe de Misericórdia que tenha pena de nós. Olhemos para as nossas dificuldades espirituais, para os nossos problemas de apostolado, para as nossas necessidades da vida quotidiana e roguemos com insistência o auxílio de Maria Santíssima. Ela nos atenderá infalivelmente. O Coração Imaculado de Maria é a porta na qual, em se batendo, nos é aberta; ao qual, em se Lhe pedindo, nos é dado. Na Mãe de Misericórdia a promessa do Evangelho se realiza com toda a integridade: [pedi e recebereis, batei e ser-vos-á aberto (Mt 7,7)].

“E se me permitam dizer, não receio mentir garantindo-lhes: rezem, peçam, e serão atendidos.”

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 16/11/1964)

15 de agosto – Assunção de Nossa Senhora

Assunção de Nossa Senhora

Quando ascendeu ao Céu, Maria pôde contemplar os coros angélicos e a multidão de bem-aventurados que A receberam em festa. Considerações de Dr. Plinio manifestando seu encanto com a Assunção de Nossa Senhora

Devoção às alegrias de Nossa Senhora

Era costume entre os antigos reportar-se às alegrias da Santíssima Virgem. Essa era uma devoção bastante difundida, a ponto de um dos santuários marianos mais famosos do Brasil, o de Guararapes, em Pernambuco, ser dedicado a Nossa Senhora dos Prazeres.

Na vida de Nossa Senhora notamos inúmeros movimentos de alegria. O mais insigne deles é evidentemente o Magnificat.

Porém, nenhuma das alegrias que a Santíssima Virgem teve nesta vida foi tão grande quanto à da sua Assunção.

Após a dormitio(1), Maria ressuscitou no apogeu de seu estado físico, mas também no auge de sua vida espiritual, pois a maturidade do corpo e a maturidade da alma se relacionam.

No dia de sua Assunção, Nossa Senhora estava na plenitude da santidade. Sua alma santíssima, que não deixou de progredir um minuto sequer durante toda a sua existência terrena, tinha chegado ao clímax. A Virgem Maria chegara à suprema perfeição. Possuía incomparável beleza de alma, pois estava repleta de virtude; seu amor a Deus atingira o apogeu. Essa santidade transluzia em toda a sua pessoa e Lhe dava uma beleza incomparável.

Entrada de Maria no Céu

Podemos imaginar sua alegria, sabendo que, a partir daquele momento, entraria no Céu com corpo e alma. Passaria por um cortejo incontável de Anjos, que prestariam a Ela homenagens como nunca nenhuma rainha deste mundo, nem de longe, recebeu. E Ela compreendia a natureza de cada Anjo, sua luz primordial(2), a graça recebida por cada um, seu amor a Deus, e o amor de Deus para com cada um deles. Maria Santíssima tinha o conhecimento perfeito da hiperdulia que as miríades de Anjos Lhe prestariam. E Ela, tendo uma alegria completa por cada um desses louvores, sabia que os merecia, porque tinha sido a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu espelho fidelíssimo.

Imaginemos que um Anjo da guarda aparecesse para um de nós e dissesse: “Meu filho dileto, você é extraordinário! Sobre você pousam todas as minhas complacências. Você é inteiramente digno de minha benevolência.” Esta pessoa teria grande tentação de vaidade. Um elogio desses, feito por uma natureza angélica, imensamente maior do que a nossa, é algo inebriante…

Sendo mera criatura humana, Nossa Senhora estava recebendo o amor entusiástico de todos os Anjos, e a corte que durante milhares de anos tinha esperado sua Rainha ficou transformada em algo lindíssimo, porque Ela estava chegando. A beleza do mundo angélico não atingira toda a formosura para a qual fora criado, porque era preciso que uma criatura humana o governasse. Nossa Senhora coroava com uma perfeição altíssima a beleza do Céu.

Certamente, Ela deve ter se encontrado com as almas santas que tinham subido ao Céu após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem dúvida encontrou-se com São José, com quem permutou uma saudação cheia de respeito e afeto sobre a qual nem sequer podemos ter idéia. Como deverá ter sido a alegria da alma de São José ao rever Nossa Senhora?

Beleza do transluzimento da santidade em Nossa Senhora

Maria Santíssima crescia continuamente em graça e santidade, por isso, quando chegou a hora de sua morte, Ela era muito mais santa do que quando São José morreu. Quando ele A viu ressurrecta, repleta de toda a santidade que deveria atingir segundo os planos de Deus — e que de fato Ela atingiu —, notou que a santidade transluzia em toda a sua pessoa com uma beleza incomparável. Com que veneração São José, afinal, via Nossa Senhora em corpo e alma, cujo esplendor era ainda maior do que Ela possuía na Terra!

São Joaquim e Santa Ana, sendo pais de Nossa Senhora, devem certamente ter tido o privilégio de assistirem, a partir de um lugar de destaque o ingresso d’Ela no Céu. Sabemos que os pais têm uma propensão natural por seus filhos, sobretudo quando são excelentes pais. Afinal, era justo que, tendo dado Maria Santíssima ao gênero humano, assistissem de um lugar especial a sua entrada no Céu.

Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, deveriam estar ali presentes. Depois de verem tantas desgraças causadas por seu pecado, puderam contemplar o remédio concedido por Deus para solucionar esse pecado, fazendo nascer Nosso Senhor Jesus Cristo e glorificando de tal maneira a Mãe Imaculada do Redentor.

Podemos ainda imaginar o desfile maravilhoso das almas eleitas e dos Anjos que A receberam no Céu, por assim dizer gradualmente, num como que desfile esplêndido, cantando hinos de glória. E, afinal, todo o paraíso celeste pondo-se a cantar, enquanto Ela sobe até o trono da Santíssima Trindade.

Por fim, a Assunção chega ao seu auge: a coroação de Nossa Senhora como Rainha dos Anjos e dos Santos, do Céu e da Terra, pela Santíssima Trindade. Houve então uma verdadeira festa no Céu. Não é uma hipérbole, mas uma festa autêntica, em termos e modos que não podemos imaginar. Foi o mais alto grau de alegria que possa haver. Ela foi coroada por ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Filha do Padre Eterno e Esposa do Divino Espírito Santo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 15/8/1966 e 1/11/1975)

1) A morte d’Ela foi tão leve que se compara a uma dormição.
2) Dr. Plinio assim designava o conjunto de virtudes ou atributos divinos que cada Anjo, ou cada alma, é especialmente chamado a conhecer e amar.

15 de agosto – Assumpta est Maria, gaudent angeli!

Assumpta est Maria, gaudent angeli!

Quando ascendeu ao Céu, Maria pôde contemplar os coros angélicos e a multidão de bem-aventurados que A receberam em festa. Considerações de Dr. Plinio manifestando seu encanto com a Assunção de Nossa Senhora

 

Devoção às alegrias de Nossa Senhora

Era costume entre os antigos reportar-se às alegrias da Santíssima Virgem. Essa era uma devoção bastante difundida, a ponto de um dos santuários marianos mais famosos do Brasil, o de Guararapes, em Pernambuco, ser dedicado a Nossa Senhora dos Prazeres.

Na vida de Nossa Senhora notamos inúmeros movimentos de alegria. O mais insigne deles é evidentemente o Magnificat.

Porém, nenhuma das alegrias que a Santíssima Virgem teve nesta vida foi tão grande quanto à da sua Assunção.

Após a “dormitio”(1), Maria ressuscitou no apogeu de seu estado físico, mas também no auge de sua vida espiritual, pois a maturidade do corpo e a maturidade da alma se relacionam.

No dia de sua Assunção, Nossa Senhora estava na plenitude da santidade. Sua alma santíssima, que não deixou de progredir um minuto sequer durante toda a sua existência terrena, tinha chegado ao clímax. A Virgem Maria chegara à suprema perfeição. Possuía incomparável beleza de alma, pois estava repleta de virtude; seu amor a Deus atingira o apogeu. Essa santidade transluzia em toda a sua pessoa e Lhe dava uma beleza incomparável.

Entrada de Maria no Céu

Podemos imaginar sua alegria, sabendo que, a partir daquele momento, entraria no Céu com corpo e alma. Passaria por um cortejo incontável de Anjos, que prestariam a Ela homenagens como nunca nenhuma rainha deste mundo, nem de longe, recebeu. E Ela compreendia a natureza de cada Anjo, sua luz primordial(2), a graça recebida por cada um, seu amor a Deus, e o amor de Deus para com cada um deles. Maria Santíssima tinha o conhecimento perfeito da hiperdulia que as miríades de Anjos Lhe prestariam. E Ela, tendo uma alegria completa por cada um desses louvores, sabia que os merecia, porque tinha sido a Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu espelho fidelíssimo.

Imaginemos que um Anjo da guarda aparecesse para um de nós e dissesse: “Meu filho dileto, você é extraordinário! Sobre você pousam todas as minhas complacências. Você é inteiramente digno de minha benevolência.” Esta pessoa teria grande tentação de vaidade. Um elogio desses, feito por uma natureza angélica, imensamente maior do que a nossa, é algo inebriante…

Sendo mera criatura humana, Nossa Senhora estava recebendo o amor entusiástico de todos os Anjos, e a corte que durante milhares de anos tinha esperado sua Rainha ficou transformada em algo lindíssimo, porque Ela estava chegando. A beleza do mundo angélico não atingira toda a formosura para a qual fora criado, porque era preciso que uma criatura humana o governasse. Nossa Senhora coroava com uma perfeição altíssima a beleza do Céu.

Certamente, Ela deve ter se encontrado com as almas santas que tinham subido ao Céu após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, e sem dúvida encontrou-se com São José, com quem permutou uma saudação cheia de respeito e afeto sobre a qual nem sequer podemos ter ideia. Como deverá ter sido a alegria da alma de São José ao rever Nossa Senhora?

Beleza do transluzimento da santidade em Nossa Senhora

Maria Santíssima crescia continuamente em graça e santidade, por isso, quando chegou a hora de sua morte, Ela era muito mais santa do que quando São José morreu. Quando ele A viu ressurrecta, repleta de toda a santidade que deveria atingir segundo os planos de Deus — e que de fato Ela atingiu —, notou que a santidade transluzia em toda a sua pessoa com uma beleza incomparável. Com que veneração São José, afinal, via Nossa Senhora em corpo e alma, cujo esplendor era ainda maior do que Ela possuía na Terra!

São Joaquim e Santa Ana, sendo pais de Nossa Senhora, devem certamente ter tido o privilégio de assistirem, a partir de um lugar de destaque o ingresso d’Ela no Céu. Sabemos que os pais têm uma propensão natural por seus filhos, sobretudo quando são excelentes pais. Afinal, era justo que, tendo dado Maria Santíssima ao gênero humano, assistissem de um lugar especial a sua entrada no Céu.

Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, deveriam estar ali presentes. Depois de verem tantas desgraças causadas por seu pecado, puderam contemplar o remédio concedido por Deus para solucionar esse pecado, fazendo nascer Nosso Senhor Jesus Cristo e glorificando de tal maneira a Mãe Imaculada do Redentor.

Podemos ainda imaginar o desfile maravilhoso das almas eleitas e dos Anjos que A receberam no Céu, por assim dizer gradualmente, num como que desfile esplêndido, cantando hinos de glória. E, afinal, todo o paraíso celeste pondo-se a cantar, enquanto Ela sobe até o trono da Santíssima Trindade.

Por fim, a Assunção chega ao seu auge: a coroação de Nossa Senhora como Rainha dos Anjos e dos Santos, do Céu e da Terra, pela Santíssima Trindade. Houve então uma verdadeira festa no Céu. Não é uma hipérbole, mas uma festa autêntica, em termos e modos que não podemos imaginar. Foi o mais alto grau de alegria que possa haver. Ela foi coroada por ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Filha do Padre Eterno e Esposa do Divino Espírito Santo.

 

(Extraído de conferências de 15/8/1966 e 1/11/1975)

 

1) A morte d’Ela foi tão leve que se compara a uma dormição.

2) Dr. Plinio assim designava o conjunto de virtudes ou atributos divinos que cada Anjo, ou cada alma, é especialmente chamado a conhecer e amar.

12 de agosto – Santa Joana de Chantal Profundidade e desapego

Santa Joana de Chantal Profundidade e desapego

O que teria levado Santa Joana de Chantal a abandonar seus parentes, rompendo vínculos afetivos, para fundar uma Congregação religiosa de contemplativas? Dir-se-ia que da formação recebida do suave São Francisco de Sales resultariam atitudes bem diversas. A consideração de algumas características do espírito desta grande Santa e de seu formador projeta luz sobre o problema e nos ajuda a compreender os desígnios de Deus.

Santa Joana Francisca Frémiot de Chantal, que viveu de 1572 a 1641, fundou, com São Francisco de Sales, a Ordem da Visitação. Era viúva do Barão de Chantal, com quem tivera seis filhos. Depois do falecimento de seu marido, ela começou a sentir um atrativo para percorrer as vias mais altas da vida espiritual e passou, então, a ser influenciada por São Francisco de Sales(1).

Objeto de uma ”suave” formação

Este Santo, como sabemos, era famoso pela suavidade. Ele escreveu livros de vida espiritual que jamais seria suficiente elogiar, por exemplo, a “Filoteia” e o “Tratado do Amor de Deus”. Entretanto, sobre a suavidade dele muita coisa de errado se diz. Temos em Santa Joana de Chantal um exemplo a respeito do modo pelo qual ele tratava as senhoras a quem queria influenciar.

Certa ocasião, São Francisco de Sales encontrava-se com Madame de Chantal — a futura Santa Joana de Chantal — em um jantar, e ela estava muito bem vestida. Então ele perguntou-lhe: “Madame, a senhora pensaria de novo em casar-se?” E ela, um pouco assustada com a pergunta, respondeu: “Mas, Monsenhor, não!” Disse ele: “Numa casa onde não há artigo para vender, não se põe tabuleta…” Quer dizer, por que a senhora está tão enfeitada, se não quer se casar? Aí percebemos qual era a qualidade dessa doçura. O dito não deixava até de ter uma ironia bem mordiscante e beliscante!

Passou sobre o corpo de seu próprio filho

Sob o bafejo da orientação dele, Joana de Chantal foi se transformando numa grande santa. Em certo momento, ela quis adotar o estado religioso. Deu-se, então, este episódio clássico de sua vida, fruto da direção de São Francisco de Sales:

Chegado o dia de sua partida, Santa Joana, que era viúva, devia deixar os seus familiares para ir para o convento que ela ia fundar. A santa viúva, que morava com seu sogro, ajoelhou-se pedindo-lhe a bênção e que lhe perdoasse se lhe desgostara em alguma coisa, e recomendou-lhe seu filho. O ancião de 86 anos estava inconsolável, abraçou sua nora e desejou-lhe completa felicidade. Os habitantes da região de Monteron, sobretudo os pobres, acreditando que com essa partida tudo perdiam, testemunhavam publicamente a sua dor. Em Dijon, ela fortificou-se com a Santa Comunhão contra a fraqueza que ela previa aproximar-se quando da separação de seu filho.

Enfim, chegando a hora, disse adeus a todos os seus parentes. Depois, ajoelhando-se aos pés de seu pai, pediu-lhe a bênção e que cuidasse do filho que ela deixava. Monsieur Frémiot, o velho presidente do Parlamento de Bourgoin, sentia-se desfalecer. Abraçou chorando a sua filha e disse: “Meu Deus, não me compete mudar os vossos desígnios. Eu vos ofereço esta filha querida, recebei-a e consolai-me”. Depois, deu-lhe a bênção e ajudou-a a se erguer. O jovem Chantal, seu filho de 15 anos, correu para ela e prendeu-se a seu pescoço, esperando comovê-la. Não tendo êxito, deitou-se ante a porta por onde ela deveria sair e lhe disse: “Sou muito fraco, senhora, para vos reter, mas ao menos dirão que passastes sobre o corpo de vosso filho para abandoná-lo”. A santa chorou amargamente passando pelo jovem, mas instantes depois, temendo que pensasse que se arrependia de sua decisão, voltou para os que a acompanhavam e com uma face serena disse: “É preciso que perdoeis a minha fraqueza, pois deixo meu pai e meu filho para sempre, mas encontrei o meu Deus em toda parte”.

Vemos o trágico da cena! Santa Joana de Chantal era viúva, uma pessoa boníssima, cumpridora dos seus deveres de família e capaz de atrair toda a amizade, todo o afeto de uma família boa. Portanto, era muitíssimo estimada por todos os seus. Quando ela era o arrimo — do ponto de vista afetivo e não financeiro — de seu velho sogro, de seu pai, de seu filho, Deus a tocou com a graça da vocação e pediu-lhe que estraçalhasse aqueles vínculos de afeto constituídos em torno dela, para ser fundadora de uma nova família religiosa. E fundadora contemplativa, de maneira tal que não mais a poderiam ver. E ela, cuja bondade tinha criado aqueles vínculos, era chamada a renunciar a eles e, por assim dizer, destruí-los. Era uma superação de toda a vida anterior dela. Santa Joana até então tinha sido ótima, como membro de família. Deus pedia-lhe que oferecesse algo a mais do que a bondade que se tem na família, e era a bondade que se adquire adotando o estado religioso e rompendo com os laços de família, entretanto, tão santos. E então, se determina aqui uma situação trágica: ela vai abandonar seu sogro, seu pai e seu filho.

Uma cena que não se passaria hoje

Atualmente se perdeu o senso de gravidade das coisas. Se imaginássemos a mesma situação realizada hoje, teríamos uma diferença muito grande de ambientes que constituiria no seguinte: tudo se passaria com muito menos solenidade e gravidade. Não podemos supor hoje uma senhora viúva, moça, que deixe a casa paterna para entrar em um convento e que faz todo esse cerimonial antes de ir embora: ajoelha-se diante do ancião de 86 anos, pede-lhe perdão por tudo quanto lhe fez, e lhe roga a bênção; e o ancião, quase como uma figura de tragédia grega, se despede dela com lágrimas e a entrega a Deus. Depois, a despedida de seu velho pai: nova genuflexão, novas lágrimas. E por fim o lance dramático do filho, que se pendurou ao pescoço da mãe, pedindo-lhe para não entrar no convento. Ela recusou-se. Ele, então, deitou-se na soleira da porta e disse: “Já que eu não tive força para vos reter, ao menos se dirá que a senhora passou sobre o corpo de seu filho para ir para o convento”. Quer dizer, “a senhora está me abandonando!” Percebemos o trágico de todos esses lances.

Por que em nossos dias esta cena não se passaria com tanto cerimonial? Porque fomos habituados a não entrar no fundo do significado das coisas, e a nos incomodarmos somente conosco. Resultado, para o velho sogro o problema importante é o jornal que chega de manhã, o leitezinho que ele toma, a televisão, o chinelo, a saúde, os cuidados pessoais de toda ordem. Lê uma notícia sobre transplante de coração para ver se seria possível transplantar um nele, prolongando sua vida por mais 30 anos. Isso é o importante! A nora, que vai ou não para o convento, é uma coisa acessória, porque, se ela faltar, ele contrata uma enfermeira, e a vida continua do mesmo jeito.

Ademais, a ideia de ir para o convento não se reveste daquele aspecto semitrágico de antigamente. O senso da Cruz, da gravidade das coisas, o senso de toda a renúncia que significa alguém tornar-se religioso, o senso de toda a dignidade que a pessoa assume ao abraçar esse estado, daquele conúbio com Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a serenidade que traz, os espíritos perderam a noção disto. O resultado é que os grandes lances não têm mais essa acuidade, esse caráter dramático; são episódios banais.

As pessoas assistem, na televisão ou no cinema, a tantos dramas, romances, tantas despedidas, tantos reencontros, que todo mundo está saturado. Assim, os atos da vida cotidiana que teriam grandeza se esvaziam completamente.

Profundidade de espírito e amor a Deus

Então, qual é a grande lição que devemos tirar daí? Antes de tudo, considerar o espírito profundo de Santa Joana de Chantal que correspondeu à vocação, compreendeu que a família é uma instituição tal que, quando Deus lhe dá tudo, ela se supera e tende a produzir religiosos, missionários, guerreiros, apóstolos que são obrigados a se separar dela. E esta espécie de superação, por onde ela se entrega completamente, é a glória da família.

Também a profundidade de espírito desta Santa — renunciando a tudo para ser religiosa — e do ambiente de Civilização Cristã em que ela vivia, onde tudo se media, se pesava, e que, por causa disso, se revestiam de solenidade e de características próprias todos os atos da vida.

Essa profundidade de espírito prepara a alma para amar a Deus. O Reino dos Céus é dos violentos(2) , está escrito no Evangelho. O Reino dos Céus é dos profundos, pois é a violência dos profundos — tantas vezes chamados de fanáticos pela linguagem da impiedade — que agrada a Deus.

Peçamos a Nossa Senhora que nos obtenha essa profundidade de espírito, e que nosso Movimento procure incutir em seus membros, de todos os modos, essa profundidade, que é a seriedade, a abnegação, e o contrário do egoísmo, de modo a termos almas capazes de encher-se da graça de Deus, nosso Senhor, concedida pelas mãos de Maria.

Suavidade e exigência

Santa Joana de Chantal fundou a Ordem da Visitação cujas freiras são estritamente contemplativas. Encontramos nessa Ordem outro traço do espírito dela e de São Francisco de Sales: o sentido de não ter propriedade particular é levado tão longe nessa Ordem, que as religiosas se consagram a serviços comuns, por exemplo, bordados, vendidos para a manutenção delas. São Francisco de Sales, que fez essa regra com Santa Joana de Chantal, determinou o seguinte: nunca uma freira faça um bordado inteiro; os bordados são rotativos dentro da casa, para ninguém ter apego ao trabalho que fez.

Vemos como, nos últimos pormenores, foi levada longe a noção de propriedade comum para produzir o desapego completo. De tal maneira o direito de propriedade é de acordo com a natureza humana, que quando um indivíduo é chamado a um estado de vida no qual não deve possuir, é necessário um grande zelo para não se apegar à propriedade. Por isso os grandes fundadores de Ordens tomam muito cuidado para evitar qualquer forma de apego, de apropriação.

Dois aspectos dignos de nota são, em primeiro lugar, a importância das Ordens contemplativas. Numa época cheia dessas Ordens e em que havia muitas vocações para elas, São Francisco de Sales funda, com Santa Joana, mais uma Ordem contemplativa. Vemos, assim, o quanto isso é um tesouro que nunca haverá na Igreja em quantidade suficiente. Não há o que baste, desde que a Ordem seja realmente fervorosa.

Outra consideração interessante é a necessidade dessas Ordens contemplativas constituírem famílias de almas na Igreja, cada uma com seu espírito próprio, formando uma espécie de mosaico onde se vê um tom diverso em cada Ordem. Na Visitação, a suavidade, mas, de outro lado, a extrema exigência em tudo aquilo que se refere à verdadeira virtude.

Temos, assim, alguns dados que podem servir para uma meditação sobre a vida de Santa Joana de Chantal.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 21/8/1965 e 20/8/1968)

 

1) Não possuímos os dados bibliográficos da ficha lida por Dr. Plinio nesta conferência.
2) Cf. Mt 11, 12.

11 de agosto – Um lírio florescido no lodo

Um lírio florescido no lodo

A vida de Santo Alexandre parece um conto de fadas: andrajoso e enegrecido pelo ofício de carvoeiro, era, na verdade, um vaso de eleição. Elevado à dignidade episcopal, manifestou nobreza e fidelidade. Eis um Santo, símbolo de tantas outras almas dispersas pelo mundo e que possuem uma beleza rara. Nossa Senhora realiza através delas os magníficos desígnios da Providência Divina para esta Terra.

Os dados que vou expor a continuação foram tirados do livro Vidas dos Santos, escrito por Rohrbacher1. Trata-se da escolha de Santo Alexandre como Bispo de Comana.

Desprezível aos olhos dos homens

Em meados do século terceiro, os cristãos de Comana, no Ponto, enviaram deputados a São Gregório Taumaturgo, Bispo de Cesareia, pedindo-lhe um bispo. São Gregório dirigiu-se à cidade procurando um pastor para a nova diocese. Os magistrados e principais do lugar procuravam o mais nobre, o mais eloquente ou o que mais se distinguisse por brilhantes qualidades. Apresentaram-lhe numerosos pretendentes. São Gregório, que considerava mais a virtude, disse-lhes que não deviam desdenhar mesmo aqueles cujo exterior parecesse desprezível. Um dos que presidiu a eleição quis ridicularizar as palavras do Santo e disse:
— Se não quereis o que temos de melhor, é preciso ir buscar um bispo entre os artesãos e a plebe. Aconselho-vos Alexandre, o carvoeiro. Nós todos consentiremos na escolha.

— E quem é esse Alexandre? – perguntou Gregório.
Apresentaram-no, então. Estava seminu, coberto de andrajos sujos e rotos. Via-se claramente qual era sua profissão pelo negrume das mãos e do rosto. Todo mundo começou a rir, vendo esta figura em meio à assembleia.

Um vaso de eleição escondido pelo demônio

Alexandre não estava admirado, não olhou ninguém e parecia estar satisfeito com o seu estado. De fato, era um filósofo cristão, um verdadeiro sábio. Não fora a necessidade que o reduzira àquele estado, mas o desejo de se ocultar para praticar a virtude. Ele era jovem e belo, não lhe faltaria ocasiões de tentação, e ele queria ser casto. A poeira do carvão que o desfigurava era como uma máscara que o impedia de ser reconhecido. Seu ofício servia-lhe, ainda, para viver inocentemente e praticar boas obras. São Gregório, descobrindo quem era, mandou que o banhassem e vestissem com seus próprios trajes.
Assim, ele veio parecendo um outro homem, atraindo a atenção de todos os olhares.
— Não vos admireis – disse São Gregório – se vos enganastes, julgando segundo os sentidos. O demônio queria tornar inútil esse vaso de eleição, escondendo-o.
Consagrado solenemente, ao fazer seu primeiro discurso, Alexandre assombrou os presentes.
Santo Alexandre, célebre por sua pregação, governou dignamente a Igreja de Comana até a perseguição de Décio, quando então sofreu o martírio pela Fé.
Parece um conto de fadas. Nesse episódio não há nada que não seja admirável. Que comentários fazer a respeito de um fato como esse?
Notem que o maravilhoso se soma ao maravilhoso. Um jovem belo, grande filósofo, sagacíssimo, um verdadeiro sábio que resolve fugir do mundo, vai para um lugarejo como Comana e se faz carvoeiro, profissão modesta, humilde, escolhida por ele para desaparecer aos olhos do mundo.

 

Humilde, casto e despretensioso, cheio de sabedoria

Decide apresentar-se enegrecido pelo carvão para que sua formosura não atraísse manifestações de admiração. Por esta forma, vive inocentemente numa profissão árdua, que lhe dá pobreza e na qual não tem ocasiões de pecado, roubo e outras coisas parecidas, mas vive entre seus carvões e sua Filosofia.
O que seria um crepúsculo assistido por Santo Alexandre, sendo ainda carvoeiro?
Imaginemo-lo sentado num casebre qualquer de um arrabalde de Comana, próximo a uma floresta, que talvez fosse uma terra abandonada de onde ele retirava a lenha para reduzi-la a carvão.
Ali, no silêncio de uma tarde pesada e calorosa, ele permanece sentado do lado de fora da casa com as mãos e o rosto sujos pelo carvão, esperando que acabasse de cozer uma comidinha preparada na cozinha, meditando e fazendo filosofia daquilo, pensando, distinguindo, elaborando uma arquitetura de espírito, elevando-se até a Teologia, rezando a Nossa Senhora, tendo eventualmente uma visão; depois, entra na casa para ir comer as aboborinhas que preparara e, em seguida, volta à meditação. A horas tantas, vai à igreja para rezar, visitar o Santíssimo Sacramento e a imagem de Nossa Senhora e, por fim, começa a noite casta, pia e tranquila de sua Comana.
Pode-se imaginar algo melhor do que isso? Dá vontade de deixar tudo e ir correndo para dentro da carvoaria de Santo Alexandre, com a condição de não ouvir falar do mundo moderno, e levar uma vida tranquila, casta e despreocupada. Que coisa maravilhosa!

Enlevo recíproco que destrona os orgulhosos

Pois bem, esse homem é chamado, de repente, para uma assembleia e aí vem o toque do extraordinário em sua vida. Começam a rir dele: “Está aí! Pega esse carvoeiro!” Ele, que interiormente poderia estar dando risada de todos por ser muito mais inteligente e culto do que eles, entretanto está satisfeito, sentindo-se bem por ser objeto de caçoada, pois ama a humildade.
Imaginem, naquela assembleia, os notáveis decadentes da aldeia, querendo um bispo que os enfeitasse com considerações apenas humanas; e, ali, a figura provavelmente majestosa, venerável, sábia, calma, cheia de interioridades e de mistérios, de São Gregório Taumaturgo, célebre por realizar uma quantidade enorme de milagres, e que está presidindo a reunião. Estão presentes dois Santos, um em face do outro, em torno à pequena autoridade degradada de Comana.
Percebe-se, no fundo, aquilo que a narração não diz: com certeza, Santo Alexandre contemplava embevecido São Gregório Taumaturgo que, por sua vez, olhava encantado para o humilde carvoeiro, pois percebeu nele uma pessoa de alto valor. Então, interessou-se por ele, mandou ver quem era e, afinal de contas, tirou o brilhante de dentro da ganga.
Ora, imaginem as notabilidadezinhas esmagadas, o mundanismo trucidado, quando entra na mesma assembleia Santo Alexandre, esbelto, fino, limpo, trajado com os próprios ornamentos episcopais de São Gregório. Eis a derrota completa. Quem fora esmagado, agora é levantado, e aqueles que davam risadas ficam quietos. Verifica-se a frase do Magnificat: “deposuit potentes de sede et exaltavit humiles”– tirou do trono os poderosos e exaltou os humildes (Lc 1, 46). Santo Alexandre é sagrado bispo e faz um sermão que deixa todo mundo pasmo. Aquelas “grandezas” locais, suburbanas, caipiras estavam todas achatadas pela figura superior do novo prelado.

 

O lírio nascido do lodo, na noite e sob a tempestade

Como termina a vida de Santo Alexandre? Estoura uma perseguição. Um belo dia, prendem-no, ele derrama seu nobre sangue em holocausto por Nosso Senhor Jesus Cristo e para testemunhar sua adesão à Fé Católica. É um mártir a mais que, depois de ter estado todo pintado de preto, acabou tingido do vermelho de seu próprio sangue. Com certeza o corpo dele foi levado para as catacumbas e ali conservado pela piedade dos fiéis.
É possível desejar maior maravilha do que essa? Infelizmente, só podemos lamentar que nossa época, tão infensa ao maravilhoso, não tenha tais belezas; mas é exatamente dessa forma que Deus castigou estes tempos, dispondo as coisas de tal maneira que o maravilhoso não aparece mais. Tudo é banal, raso e insípido, quando não é hediondo e pecaminoso.
Contudo, existem almas dispersas pelo mundo que possuem uma beleza rara e, portanto, escapam a essa hediondez, por meio das quais Nossa Senhora faz a maravilha da humildade completa, da sujeição e da fidelidade perfeita à Igreja Católica Apostólica Romana nos seus piores dias, precisamente nos momentos em que essa fidelidade seria mais difícil de se esperar.
Maria Santíssima imprime nessas almas eleitas o maravilhoso perfume de uma devoção mariana levada até os extremos limites desejados por São Luís Maria Grignion de Montfort, e são as únicas capazes de espargir esse aroma em meio à pestilência e de emitir luz entre as trevas, porque são luminosas, nobres e possuem uma maravilha própria.
É como um lírio que floresce no pântano, na noite e sob a tempestade, para indicar que a Providência Divina e Nossa Senhora têm magníficos desígnios para esta Terra. O maravilhoso está praticamente reduzido a nada, mas terá uma verdadeira expansão no Reino de Maria que, se Deus quiser, não vai tardar.v

(Extraído de conferência de 10/8/1967)

1) Cf. ROHRBACHER, René François. Vidas dos Santos. Vol. XIV. São Paulo: Editora das Américas, 1959. p. 331-333.

11 de agosto – Santa Clara de Assis Modelo de consagração a Deus

Santa Clara de Assis Modelo de consagração a Deus

Na véspera de conduzir seus discípulos a uma histórica demonstração de Fé e catolicidade pelas ruas de São Paulo, Dr. Plinio procura avivar em suas almas as chamas do amor de Deus,  comentando-lhes alguns expressivos episódios da vida de Santa Clara de Assis, modelo heroico de entrega e devoção ao serviço divino.

No dia 12 de agosto, após termos celebrado a festa de Santa Clara de Assis, nosso movimento realizará, sob o patrocínio dessa insigne contemplativa, um grande cortejo pelas ruas de São Paulo. Parece-me de assinalada beleza que algo tão ativo se efetue sob o signo de tão intensa contemplação.

Encontro com São Francisco

Consideremos, portanto, alguns aspectos e episódios mais significativos da vida dessa admirável santa, baseados numa biografia escrita por Dom Guéranger em sua obra “L’Anné Liturgique”. Discorrendo sobre a conversão de Clara, aponta o autor:

Quando São Francisco pregava em Assis, na igreja de São Jorge, uma jovem de nobre família tinha resolvido ir com sua mãe e sua irmã para ouvir uma das suas instruções. Clara ouviu palavras de amor ardente, contemplou a fisionomia transfigurada de São Francisco e desde este momento o escolheu como guia de sua alma. Ela confiou seu desígnio a uma tia e com ela foi a Santa Maria dos Anjos. Quem poderia dizer o que se passou na alma do pai Seráfico, nesta primeira entrevista com aquela que deveria ser sua auxiliar na obra que o Céu lhe confiou?

Com efeito, Santa Clara, juntamente com São Francisco de Assis, fundou o ramo feminino da Ordem franciscana cujas freiras, em homenagem a ela, são chamadas de clarissas.

Inteira consagração ao serviço divino

Prossegue o biógrafo:
São Francisco desvendou a Clara as belezas do Esposo Celeste, a excelência da virgindade. Em seguida, a entreteve com tudo aquilo que tinha de mais caro no coração: o poder e os encantos da pobreza e a necessidade da penitência. Surpresa, enlevada, Clara o ouviu e atendeu ao chamado divino em sua alma. Em pouco tempo a sua deliberação estava fixada: ela quebrará todos os vínculos que a unem à  terra e se consagrará a Deus.

Ou seja, depois de se converter, Santa Clara se consagra inteiramente a Nosso Senhor. Vejamos agora como isso se fez.

Na noite de Domingo de Ramos do ano 1212, ela deixou furtivamente a casa paterna e, em companhia de algumas amigas íntimas, tomou o caminho de Santa Maria dos Anjos. Francisco e alguns frades foram ao encontro delas com tochas nas mãos e as introduziram no santuário de Maria. Foi ali, no meio da noite, que se passou a cena dos desponsórios espirituais de Santa Clara. Francisco lhe perguntou o que ela queria e a santa respondeu: “O Deus do Presépio e do Calvário. Eu não quero outro tesouro nem outra herança”. Enquanto Francisco lhe cortava os cabelos, ela depositou tudo quanto tinha de precioso — suas jóias, seus ornamentos — e recebeu o hábito e o véu grosseiros, a corda, e se consagrou a Deus para todo o sempre.

Cena esplendorosa

Devemos considerar o esplendoroso da cena. Na pequena cidade de Assis forma-se um cortejo de moças que, movidas pela graça do chamado divino, abandonam o império das famílias que lhes queriam longe dessa vida de penitência. Andam pelas ruas tortuosas de Assis, a passos lentos para não despertar a atenção alheia. Saem do perímetro da cidade e, no campo, entre Assis e o pequeno convento de Santa Maria dos Anjos, encontram um outro cortejo, ainda mais celeste que o delas, encabeçado pelo próprio São Francisco. Este era um outro Cristo na Terra, pois, além de um dia ser tocado por chagas nos mesmos lugares em que Jesus foi ferido, aparentava até semelhança fisionômica com Nosso Senhor.

Então, com alguns dos santos que o ajudaram a fundar sua obra, São Francisco sai de encontro a Clara e suas amigas, à luz de tochas que eles portam nas mãos. Os dois séquitos se unem e se dirigem à igreja de Nossa Senhora onde, no silêncio da noite, com as portas provavelmente fechadas, Santa Clara renuncia ao mundo e se consagra a Deus. Como simbólica afirmação dessa entrega, deixa que São Francisco lhe corte os cabelos e dá assim o passo definitivo do qual nascerá a Ordem das Franciscanas, cujos frutos renderam e ainda renderão glória a Deus de tantas formas e tantos modos.

Colateralmente faço notar a necessidade de medirmos o genuíno valor das coisas santas e católicas, como o da cena acima descrita, para fazermos o confronto com a profunda decadência na qual o mundo vai imergindo, tornando-se indiferente a essas maravilhas.

Numa cena repassada de beleza, Santa Clara e suas companheiras se encontram com São Francisco e seus frades nos arredores de Assis, e todos se dirigem ao pequeno convento onde ela se consagraria para sempre ao serviço de Deus

Seguir o exemplo da consagração de Santa Clara

Será, talvez, a grande lição a colhermos desse lindo episódio da vida de Santa Clara. Pode-se dizer que valeria a pena ter nascido apenas para, neste momento, constatarmos a decadência religiosa e moral em que vamos soçobrando, sentirmos a alma dilacerada de dor, pulsando de indignação face a esse declínio, e tomar a deliberação de devotar a vida inteira para impedir que tal decadência continue a prejudicar as almas. Dessa forma estaremos fazendo uma consagração semelhante à de Santa Clara, que deixou tudo para entrar no convento.

Se a crise do homem contemporâneo nos é indiferente, e julgamos mais importante a “vidinha” de todos os dias, o ter um automóvel novo, uma vistosa roupa, um bom colchão de molas, o sucesso na profissão, etc., então é o caso de perguntar onde está nossa Fé, nosso amor a Deus sobre todas as coisas.

Uma afirmação de Fé

Nesse sentido, volto a lembrar do desfile que nosso movimento realizará no centro de São Paulo. Mais do que uma comemoração pelo êxito do abaixo-assinado contra o divórcio, será uma afirmação de nossa Fé, de nossa convicção dos princípios católicos que abraçamos e sustentamos, a afirmação de que desejamos, antes de tu-do, ser autenticamente filhos da Santa Igreja.

Não deverá ser um mero espetáculo, mas um propósito firmado diante de Deus, de Nossa Senhora, dos anjos e santos, de todos os membros do movimento que ali es-tiverem, um propósito de viver fundamentalmente para glorificar a Igreja. E nada mais. Se alguém morrer depois de ter feito esse propósito de modo sério, teria ganho sua existência, pois valeria a pena ter nascido para tal.

Incalculável importância da vida interior

Também a esse propósito convém recordar outro fato conhecido da vida de Santa Clara, quando ela pôs em fuga os sarracenos que sitiavam o seu mosteiro, avançando para eles com o santo cibório na mão. Mais uma cena de extraordinária beleza: esta virgem consagrada a Deus que não recua diante do invasor e o enfrenta, segurando a âmbula repleta de partículas consagradas. Diante dela, ostensório vivo que leva o Santíssimo Sacramento nas mãos, os agressores recuam e fogem.

Outra admirável lição para nós. Normalmente, a Providência quer que procuremos os meios materiais para enfrentar e derrotar os adversários da Igreja. Porém, quando esses meios faltam, não devemos julgar que Deus nos abandonou. Pelo contrário, Ele nos prepara para recebermos suas melhores graças, a fim de compreendermos como esses meios são secundários. Santa Clara não precisou de exércitos nem de armas para repelir o inimigo às suas portas.

Portanto, uma alma que faça um autêntico ato de generosidade interior, renunciando a si mesmo e rumando para sua santificação, poderá realizar maior bem para a causa católica do que, por exemplo, todo o nosso cortejo desse dia 12 de agosto o qual, entretanto, com a ajuda de Maria Santíssima, há de ser um grande feito.

Vemos, assim, o valor incalculável da vida interior.

Peçamos, então, a Nossa Senhora, Rainha do Céu e da Terra, que, a rogos de Santa Clara de Assis, cumule nossas almas dessas resoluções, dessas considerações, bem como desse espírito de consagração e de entrega ao serviço divino.

Plinio Corrêa de Oliveira

11 de agosto – Santa Clara de Assis

Santa Clara de Assis

A biografia de Santa Clara de Assis muito nos fala da importância da vida interior, assim como da glória verdadeira das coisas santas e católicas. Oriunda de família nobre, fundadora do ramo feminino da Ordem Franciscana, ela abandonou tudo o que possuía de rico e de precioso, para não ter “outro tesouro e outras heranças que o Deus do Presépio e do Calvário”.

Consagrada a Nosso Senhora para todo sempre, esta santa virgem um dia pôs em fuga os sarracenos que invadiam o norte da Itália e sitiavam seu convento.

Avançou de encontro a eles, levando em suas mãos um cibório com o Santíssimo Sacramento: diante dessa frágil religiosa protegida pelo Coração Eucarístico de Jesus, tudo pára, tudo recua!

Prova de que uma alma que se esforce na sua santificação pode fazer um bem maior para a causa católica do que todas as grandes realizações meramente materiais…

Plinio Corrêa de Oliveira

10 de agosto – São Lourenço, Mártir

São Lourenço, Mártir

Colocado sobre uma grelha e assado vivo, São Lourenço passou para a História como exemplo para os séculos futuros…

Faremos alguns comentários, com base num texto da obra de Rohrbacher “A vida dos santos”, a respeito de São Lourenço, Mártir.

A perseguição de Valeriano intensificou-se sobremaneira no ano de 258. O Papa São Sisto foi preso com alguns membros do seu clero, quando estava no cemitério de Calisto para celebrar os Santos Mistérios. Quando o levavam ao suplício, Lourenço, o primeiro dos diáconos da Igreja Romana, seguia-o chorando e dizendo: “Aonde ides, pai, sem vosso filho? Aonde ides, Santo Pontífice, sem vosso Diácono? Não estais acostumado a oferecer o sacrifício sem ministro. No que vos desagradei? Experimentai se sou digno da escolha que fizestes de mim, para me confiar a dispensa do Sangue de Nosso Senhor”. Sisto respondeu-lhe: “Não sou eu que te deixo, meu filho, mas um combate maior te está reservado. Poupam-nos, a nós velhos, mas tu me seguirás dentro de três dias”.

Entretanto, o prefeito de Roma, julgando que os cristãos tinham grandes tesouros escondidos e querendo disso certificar-se, mandou chamar Lourenço, que como primeiro Diácono da Igreja Romana era custódio. Pediu-lhe que lhe entregasse os tesouros dos cristãos e Lourenço respondeu-lhe que lhe entregaria, após fazer o cômputo total do que possuíam. Reuniu todos os pobres e doentes de Roma, mostrando-os ao prefeito como únicos tesouros e os maiores da Igreja. Os pobres eram ouro, as virgens e viúvas, as pérolas e demais pedras preciosas. Furioso, o prefeito ordenou a morte do Diácono, mas exigiu que fosse lenta e cruel. Despiram-no e deitaram-no sobre uma grelha, tendo embaixo brasas semi-acesas. Os que assistiam ao suplício viram o rosto do mártir rodeado de esplendor extraordinário. Depois de muito tempo, disse o supliciado ao algoz: “Fazei-me virar. Já estou bastante assado desse lado”. Depois que o viraram, disse ainda: “Está assado, podeis comer.” Olhando então ao céu, rogou a Deus pela conversão de Roma e expirou. Senadores, convertidos pelo exemplo de sua constância, carregaram-lhe o corpo nas costas e o enterraram no Campo Verano, perto de Tivoli, numa gruta.

O sacrifício de um mártir

Há um grande número de dados preciosos nesse texto. O primeiro deles é o diálogo de São Lourenço com o Papa São Sisto. O santo sacrifício da Missa é a repetição incruenta do Santo Sacrifício da Cruz. De sorte que oferecer o Sacrifício da Cruz e oferecer o sacrifício da Missa é uma mesma coisa. O mártir, por outro lado, quando se oferece em holocausto, de algum modo oferece um sacrifício que é o dele e, sem renovar o Sacrifício da Cruz, entretanto imita a Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou a Si próprio. Há, portanto, um conjunto de correlações entre o Sacrifício do Calvário, a Missa e o martírio. E foi em torno dessas correlações que girou o diálogo, entre todos admirável, do Papa São Sisto com seu Diácono.

O Papa foi preso e conduzido para a morte. E o Diácono dele, São Lourenço, lhe dizia: “Vós oferecestes tantas vezes o sacrifício comigo — era o papel do Diácono ajudar o Papa na celebração da Missa. Agora, vós não o quereis oferecer? Ireis me deixar nesta Terra, no momento em que vosso sacrifício vai ser feito? É como que a vossa Missa. Eu não sou vosso Diácono? Levai-me para eu ser morto convosco; uma vez que eu vos servi a vida in-teira ao pé do altar, quero servir-vos também ao pé da morte.”

Depois dessa maravilha de diálogo, São Sisto profetizou:
“Eu vou ter uma mor-te suave em comparação com a tua. Os moços vão ser menos poupados do que nós, velhos. Daqui a três dias chegará tua oca-sião e serás morto.”

Prenúncio do vínculo feudal

Realmente, essa fidelidade de São Lourenço a São Sisto traz consigo um primeiro lampejo de Idade Média. Trata-se de uma fidelidade que gira em torno de relações de caráter eclesiástico, mas é uma fidelidade feudal. O servidor se une àquele a quem serve, por um vínculo muito maior do que um contrato de locação de serviço; é um vínculo de amor e de dedicação de toda a alma, de consagração da vida inteira, de tal maneira que ele sente que não tem razão de existir a não ser em função daquele a quem serve. Na força desse vínculo vemos prenunciado o feudalismo, em que há os vínculos de fidelidade, já então de ordem temporal, mas concebidos religiosamente, porque a fidelidade é uma virtude religiosa, ainda quando praticada no âmbito temporal.

Nesse vínculo que ligava o Diácono ao Papa, vemos desabrochar a alma feudal, feita do senso do serviço, do senso da alienação e do senso de honra, pois aquele que serve coloca a sua honra em servir de fato àquele a quem se vinculou. Vemos nisso uma admirável alienação, o contrário da desalienação miserável que os revolucionários desejam. E um ante-sabor da Idade Média, onde as articulações das pessoas que constituíam a sociedade eram todas na base de uma alienação, de uma entrega, de uma proteção. Todo o perfume da Idade Média começa a evolar-se nessa lealdade, nessa dedicação, nesse senso de honra, nessa entrega, nessa alienação de São Lourenço para com o Papa São Sisto.

 

Os tesouros da Igreja…

De outro lado, temos o episódio admirável com os pobres.

Tendo ouvido dizer que os cristãos eram riquíssimos, o prefeito mandou chamar São Lourenço, ao qual, de acordo com a organização da Igreja naquele tempo, como Diácono, cabia a guarda dos objetos que constituíam o tesouro da Igreja romana. Pobre tesouro primitivo: alguns objetos doados pela nobreza romana, ou pelas pessoas ricas de Roma, para o culto. Era uma coisa que não tinha comparação com os tesouros hodiernos da Igreja.

Exigiu, então, que São Lourenço os entregasse. O santo Diácono disse-lhe: “Não tem dúvida. Eu vou trazê-los. Preciso de certo tempo para reuni-los todos para ver quantos são; depois eu os trago.” O prefeito respondeu: “Está bem. Então faça isso.”

No dia marcado aparece grande número de pobres de Roma, viúvas, estropiados, aos quais os romanos pagãos tinham um desprezo soberano; o pouco caso dos romanos em relação ao pobre era uma coisa incomparável. São Lourenço afirmou: “Aqui estão os tesouros da Igreja”. É uma admirável lição de espírito sobrenatural.

O mártir, quando se oferece em holocausto, imita a Nosso Senhor Jesus Cristo, que se imolou a Si próprio.

Por que o pobre é um tesouro? Antes de tudo, porque ele é homem, é cristão, batizado, filho da Igreja Católica. E o que vale no homem não é o que ele tem, sabe, pode ou faz; mas sim o fato de ele ser, acima de tudo, uma criatura de Deus. Em segundo lugar, que ele foi remido pelo Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em terceiro lugar, que ele custou as lágrimas indizivelmente preciosas de Nossa Senhora. Esses títulos fazem de qualquer homem, mesmo que seja um molambo, um verdadeiro tesouro, porque Nosso Senhor Jesus Cristo ter-se-ia encarnado e morrido na Cruz ainda que fosse só por causa dele.

Ora, duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si. Se aquele homem vale o Sangue de Cristo, como o Sangue de Cristo tem um valor infinito, aquele homem tem de algum modo um valor infinito. Então, por ser homem, por ser filho da Igreja, um pobre tem um valor incomensurável. Mas ele tem um valor ainda maior, não simplesmente pelo fato de ser homem, mas de ser pobre. Não no sentido revolucionário de que só o pobre tem valor. Aos olhos de Deus, há uma série de predicados humanos, até opostos entre si, se bem que não contraditórios, os quais tornam o homem digno de um amor especial de Deus, debaixo de certo título.

O sofrimento: uma forma de predileção!

Por exemplo, “simples de espírito”, no sentido corrente, atual da expressão — não no sentido antigo — quer dizer pessoas pouco inteligentes. Deus ama os simples de espírito de um modo especial; os ama na sua fragilidade porque são desnudados intelectualmente dos recursos necessários para viver, e a Providência Divina pousa sobre eles e os protege. Isso não quer dizer que Deus não ame o sábio. O fato de Deus amar com uma proteção especial aquele que é carente do ponto de vista intelectual não exclui que Ele, por outro título, ame imensamente um São Tomás de Aquino, ou Nossa Senhora, cujo conhecimento de todas as coisas deixava o de São Tomás de Aquino mais longe do que o de São Tomás dista de nós.

São títulos diversos, segundo os quais Deus ama cada coisa. De certa forma, isso ocorre com o homem que se encanta com a rosa, a rainha das flores, porque ela se abre lindíssima e se mostra no seu esplendor. Entretanto, o homem não se maravilha com a violeta pela razão oposta? Porque ela se esconde, é apagada, delicada, pequenina. Dizer que Deus ama o pobre não significa que Ele não ama o rico. Na pobreza há um título especial para o Criador amar quem é pobre. E qual é esse título?

Esse título é: Deus ama os que sofrem; bem entendido, os que padecem com resignação, em união com Ele; o sofrimento é uma prova de predileção. De maneira que quem vê um pobre porque sofre, vê no pobre um tesouro. O que significa que se eu devo amar a pobreza de um pobre, o pobre também precisa amar sua pobreza. É evidente.

Isso não quer dizer que o pobre não deva trabalhar, para deixar de ser pobre. Mas enquanto não consegue sair da pobreza, ele precisa, ao mesmo tempo, ver nela um sofrimento, mas deve carregá-la com resignação. E nós, vendo um pobre, devemos lamentar que ele seja pobre e, na medida em que podemos e tem propósito, precisamos ajudá-lo; mas devemos dar graças a Deus que não só criou os ricos, mas também os pobres. Porque há uma excelência especial da alma humana na aceitação da pobreza.

É como, por exemplo, a doença. Não se pode imaginar a que grau de degradação teria descido o mundo se não houvesse doenças.

Que cúmulo de imoralidades haveria na Terra, se elas não existissem! A Igreja é quem mais faz para acabar com as doenças, mas Ela dá graças a Deus por haver doenças invencíveis, porque é necessário para o homem que haja doenças. Assim, com esse equilíbrio muito grande das coisas, pode-se e deve-se dizer que o pobre, a viúva, o órfão, são verdadeiros tesouros reais dentro da Igreja Católica. São Lourenço deu uma admirável lição ao prefeito de Roma.

Lição para todos os séculos

A última lição ele a deu para todos os séculos: foi o seu martírio. Não se pode compreender sem um milagre, mas um milagre de primeira classe, que um homem aguente o que ele suportou. São Lourenço foi colocado sobre uma grelha, debaixo da qual foram postas brasas. E ele foi assando aos poucos. Podemos imaginar o que representa a dor de ser assado por essa forma.

E São Lourenço, com placidez e o rosto translúcido de alegria, quando percebeu que uma parte de seu corpo estava queimada — é um outro milagre ele não ter morrido com isso —, disse: “Um lado está assado, podem assar o outro lado.” Ele foi virado e na hora de expirar pediu a conversão de Roma; e foi atendido. Vários senadores que assistiram o seu martírio carregaram o seu corpo até a sepultura. Quer dizer, ele, um mero Diácono da Igreja, que vivia como perseguido nas catacumbas, é carregado por componentes do mais alto órgão legislativo da Terra naquele tempo, que era o Senado romano, levado aos ombros por aqueles que ele converteu com seu sofrimento.

Qual o resultado da humildade?

Isso foi o resultado de sua humildade. No Magnificat, disse Nossa Senhora: “Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles — Deus destituiu de suas cátedras os poderosos e exaltou aqueles que são humildes.” Vimos o que aconteceu com São Lourenço. Quem hoje houve falar do Imperador Valeriano? Está desfeito em poeira, apontado ao horror de todos os séculos, quando não, no esquecimento.

Um dos mais célebres palácios do mundo comemora a glória de São Lourenço: o Escorial, construído por Felipe II. Era festa de São Lourenço e Felipe II teria contra os protestantes franceses uma batalha muito árdua. Então, o rei propôs a Deus que ele faria construir uma Basílica magnífica em louvor de São Lourenço, se ganhasse aquela batalha. Ele desbaratou os hereges e mandou construir uma grande obra de arte, o Escorial, que tem exatamente a forma de uma grelha, para celebrar o instrumento do martírio de São Lourenço. E todos os turistas e peregrinos do mundo inteiro, que vão ao Escorial, ficam sabendo das glórias de São Lourenço. Sem falar, naturalmente, no culto que lhe presta a Igreja Universal.

O mártir sacrossanto está no mais alto do Céu, louvado por Nossa Senhora, pelos anjos, objeto de predileção de Deus; até o fim do mundo se celebrará a memória dele e por toda a eternidade os anjos vão cantar sua glória no Paraíso.

E os poderosos, que eram filhos da iniquidade e se orgulhavam do seu poder, foram jogados no chão. Valeriano onde estará?

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/8/1969)

08 de agosto – Um inocente que irradia luz espiritual

Um inocente que irradia luz espiritual

São Domingos de Gusmão (cuja festa se celebra em agosto) e São Francisco de Assis, seu contemporâneo, foram dois luzeiros cujas vocações se interpenetram. Considera-se terem realizado o  famoso sonho de Inocêncio III, no qual esse Papa via a Basílica de São João de Latrão, que simbolizava a Cristandade, rachada e sendo sustentada, ora por São Domingos, ora por São Francisco. 

Dr. Plinio tinha por ambos profunda admiração, que se traduziu em numerosos comentários pervadidos de sentimentos de enlevo e veneração. Na conferência que transcrevemos a seguir, ele  analisa um afresco de Fra Angélico, no qual o insigne pintor dominicano procura retratar as perfeições morais de seu santo Fundador

 

Cristandade tendia já naquela época para a moleza, o relaxamento, a perda do senso do sacrifício, do sobrenatural, e se inundava dos bens materiais que o avanço da civilização proporcionava.

Foi neste contexto que, para barrar o progresso do mal, Deus suscitou as vocações de São Francisco e de São Domingos: o primeiro, pela caridade, e o segundo, pela lógica, lograram conjuntamente reerguer a Idade Média do século XIII. A Ordem dos Franciscanos devia praticar em grau exímio a humildade e a pobreza; a dos Dominicanos, combater num terreno mais intelectual o orgulho e a sensualidade.

Na conferência de hoje, pretendo voltar-me particularmente para São Domingos. Procuremos vê-lo pelos olhos de um de seus mais eminentes filhos espirituais, Fra Angélico.

Em um de seus célebres afrescos, ele representa São Domingos ainda muito moço, vestido de dominicano, numa atitude pensativa, meditando ao pé da Cruz. A pintura mostra um personagem muito sereno e calmo. Mas, ao mesmo tempo, dentro da serenidade e da calma dele, está se entregando a uma intensa atividade. Encontra-se numa pesquisa, numa interrogação. Sem tensões nem cansaços errados, a investigação de seu espírito se concentra num determinado ponto. De outro lado, nota-se nele uma atitude de enlevo e de amor.

No todo externo deste homem há algo de luminoso. Ele irradia uma luz que não é física, mas espiritual. Não se trata do viço da mocidade, também presente nele; é uma espécie de luz interior, mais ou menos indefinível, decorrente de uma extraordinária lucidez e de uma clara visão das coisas.

Singular discernimento das almas

Tem-se a impressão de que, se um de nós olhasse o mundo de dentro dos olhos dele, veria o universo com alguns matizes completamente diferentes. Sobretudo, no que diz respeito às almas.

Examinando-as, procurando conhecer caráteres, esse homem está tão distante do lamaçal das atividades comuns, tão longe das paixões que habitualmente os homens têm, que ele, por diferença, percebe muito mais essas desordens e, por conaturalidade, também discerne melhor o que há de bom nos homens. Ele tem uma visão muito mais penetrante do mundo das almas, do que uma pessoa comum.

Fortaleza, clareza de visão e equilíbrio

Uma objeção que se poderia fazer a esta figura é a seguinte: onde está presente dentro dela a combatividade de espírito? Parece uma pessoa feita para concordar com tudo, e capaz apenas desse sorrisinho que esboça. E, a esse título, é uma pessoa que deve ser rejeitada por uma verdadeira formação.

Na realidade, imaginemos este homem fechando o livro e presenciando alguma cena de despudor insolente ou alguma extravagância, que se tornaram tão comuns nas ruas de hoje. Ele ficaria ou não profundamente chocado, e quereria empunhar um látego como aquele com que Nosso Senhor expulsou os vendilhões do Templo? Certamente.

É na sua extrema inocência, na sua extrema candura que reside uma extrema clareza de visão, muita fortaleza e muito equilíbrio. Este homem é capaz de atitudes enérgicas, mas também, no intervalo das batalhas, de sorrir e meditar sobre o Natal. Sem violências, sem choques interiores, ele passa de um estado de alma para outro.

Ele é, entretanto, um homem transparente para cada um de nós compreendê-lo. Um homem que poderíamos sondar, no mais íntimo de sua alma, para perguntarmos qual é o ponto de partida de todo esse equilíbrio que ele demonstra.

O ponto de partida é, antes de tudo, uma noção primeira da ordem. Porque esta é uma pessoa que nunca perdeu a graça batismal. Isto está escrito na sua fisionomia. Não se poderia admitir, por exemplo, que lhe fizessem esta biografia: “Grande santo penitente. Viveu por muito tempo no meio de pessoas corrompidas e cometeu inúmeros assassinatos. Ei-lo depois de convertido”. A penitência tem aspectos mais sublimes, mas não tem o da inocência. Neste homem se discerne a graça batismal na sua candura originária, em sua beleza primaveril.

Certezas extraordinárias

A partir da fidelidade à graça batismal, há uma certa retidão por onde ele vê muito claramente que a verdade é a verdade, e o erro é o erro. E os primeiros princípios universais da lógica e do entendimento não passaram pelo menor abalo, no espírito dele. De maneira que ele possui naturalmente certezas extraordinárias.

Prestemos atenção em sua fisionomia: não há o menor grau de dúvida a respeito de nada. Ele nunca duvidou. Consideremos com que tranqüilidade ele procura o seu caminho. Por quê? Porque ele anda a partir de certezas que nunca foram abaladas, e que lhe abrirão todas as portas.

De outro lado, com essa noção muito grande de todas as certezas, possui ele uma naturalidade e um modo categórico de condenar completamente o erro, e de se desfazer do mal de uma forma que não admite discussão: é, e está acabado!

Fé católica absoluta

Tomemos a fé católica deste homem, por exemplo. É uma fé total, absoluta! Ele acha evidente que a Igreja Católica seja verdadeira. Não há dúvidas para ele a esse respeito. É uma fé que nasce dessas certezas originárias, serenas e magníficas de quem nunca pecou contra a criteriologia, nunca pecou contra os próprios nervos, nunca pecou contra nada! E que progride na sua vida espiritual como o Rio Amazonas corre para o mar: caudaloso, enorme, tranqüilo, arrastando tudo, empurrando o mar longe para frente. Não é um rio wagneriano com cascatas, com quedas d’água nem coisas semelhantes. Ele se dirige para o oceano em linha reta, e chega ao mar. O mar, neste caso, é o Céu!…

Um profundo senso do divino

Outra coisa que há nele é o senso do divino, que se traduziria pouco mais ou menos num raciocínio da seguinte evidência:

“Eu existo. Contudo, é verdade também que antes de mim existiu uma quantidade enorme de seres. É verdade que, ao mesmo tempo em que eu existo, existe uma quantidade enorme de seres, e que depois de mim existirá outra quantidade enorme de seres. Há, portanto, um fluxo do existir dentro do qual, somando e subtraindo, eu sou uma gota, e não o centro dele.

“Por detrás desse fluxo de existência há uma ordenação, uma regra, uma concatenação de fatos, uma sucessão de coisas que constituem um universo coordenado e uno. Esse universo que assim existe me dá a ideia de um Ser ainda maior do que ele e, portanto, um Ser Absoluto, Divino, que também existe. É Ele o Criador de tudo.”

É a primeira impostação da alma diante de Deus.

Este é um homem sem interesses individuais. Ele não tem vaidades, nem complexos, nem ambições. Ele tem o hábito de, no seu pensamento, nas suas reflexões, não reportar as coisas a si, mas a este absoluto que é Deus, e que é o centro para onde ele está voltado.

Da inocência, o espírito apostólico

Então nós temos que, para este homem, rutila com clareza muito maior do que para o comum dos homens a noção de que a verdade é a verdade, o erro é o erro, o bem é o bem, e o mal é o mal. Vamos dizer que este homem, de repente, se encontrasse com Lutero. Ele se diferenciaria do heresiarca por vários abismos sucessivos. Ele iria notando as divergências, e diria: “Não! Errado!” E depois: “Vou pregar contra as idéias erradas de Lutero, pois não posso deixar que leve outros a seus erros! Nós não cabemos juntos no mundo!”

Donde nasceu o ímpeto desse espírito apostólico? Nasceu da candura originária, que é, em última análise, a boa ordem inicial de todo ser. Nasceu de todos os primeiros princípios da razão, de todos os primeiros impulsos dos nervos, de toda a graça do Batismo. Nasceu do senso do divino, e do respeito enorme por tudo o que existe, inclusive por si próprio, sentindo, por detrás, Deus que o envolve e que o transcende. Eis o ponto de partida desta alma inocente, que contém todo o resto.

“Paraíso originário” de todo batizado

Esse estado de alma é o “paraíso originário” que todo batizado tem, em grau maior ou menor do que São Domingos.

E aqui, ao término dos comentários sobre esta magnífica representação do Fundador dos dominicanos, parece-me apropriado ressaltar esta verdade: todos nós tivemos a inocência batismal. É ou não é verdade que todos nós, no fundo de nossas almas, sentimos saudades dos encantos do tempo em que éramos inocentes? Entretanto, como fomos feitos para viver dessa inocência, permanecem na alma mil cordas que ninguém vibrou, mil solicitações que não foram atendidas, mil possibilidades de expansão que de fato não foram aproveitadas, mil apetites feitos para a casa paterna que se vão saciar nas bolotas dos porcos. Resultado: mil remorsos indefinidos, não se está contente consigo mesmo, não se sente limpo diante de Deus.

Achamos que nossa existência é dura. É verdade. Porém, não agravamos nosso exílio, fechando as janelas que davam para o Céu? Há na Escritura uma lamentação de Deus, dirigida ao povo hebraico: “Vós transformastes o meu templo numa barraca para guardar frutas”. Não somos nós um templo do Espírito Santo, que transformamos em barraca para guardar frutas?

Olhando de frente nossa situação atual, lembremo-nos que tudo aquilo pode ser restaurado, desde que rezemos com confiança nesse sentido. Peçamos, pois, a Deus Nosso Senhor, por meio de Maria Santíssima, que nos limpe de nossos pecados e imperfeições, e restaure em nós aquela bondade derivada das graças que o Batismo infundiu em nossas almas.

08 de agosto – São Domingos de Gusmão – Extraordinária lucidez

São Domingos de Gusmão – Extraordinária lucidez

Em um de seus célebres afrescos, Fra Angelico representa São Domingos ainda muito moço, vestido com hábito dominicano, numa atitude pensativa, meditando ao pé da Cruz.

A pintura mostra um personagem muito sereno e calmo.

No todo externo deste homem há algo de luminoso. Ele irradia uma luz que não é física, mas espiritual. Não se trata do viço da mocidade, também presente nele; é uma espécie de luz interior, mais ou menos indefinível, decorrente de uma extraordinária lucidez e de uma clara visão das coisas.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 11/4/1972)