Junho – Sagrado Coração de Jesus (coletânea de documentos)

Sagrado Coração de Jesus (coletânea de documentos)

Legionário, 21 de julho de 1940 – Nossa Senhora do Sagrado Coração / A devoção ao Sagrado Coração de Jesus – O Sol do Amor de Deus

Legionário, 22 de junho de 1941 – O Sagrado Coração de Jesus / Esforcemo-nos por que essa devoção triunfe autenticamente (e não apenas através de alguns simbolismos da realidade) em todos os lares, em todos os ambientes e, sobretudo, em todos os corações. Só assim conseguiremos reformar o homem contemporâneo.

Catolicismo, junho de 1953 – Devoção ao Coração de Maria leva à plenitude o culto ao Sagrado Coração de Jesus

Catolicismo, agosto de 1956 – O culto ao Coração de Jesus: seu verdadeiro sentido, importância e atualidade / Apostolado não é ocultar às almas sua malícia, mas lavá-las na misericórdia de Deus

Artigo na revista espanhola “Cristiandad”, de novembro de 1958 – O sentido contra-revolucionário da obra de dois santos

Santo do Dia, 4 de junho de 1964 – Palavras de Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque: promessas inexcogitáveis de tantas riquezas, tão simples de serem concretizadas… e tão desprezadas!

Santo do Dia, 4 de março de 1965 – A devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Contra-Revolução

Santo do Dia, 24 de junho de 1965 – Comentários a invocações da ladainha do Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 14 de abril de 1984 – Sagrado Coração de Jesus: procurar admirar e adorar Seus atributos mais diversos e harmônicos

Santo do Dia, 6 de fevereiro de 1987 – Santuário do Sagrado Coração de Jesus: recolhimento, proteção e difusão de bênçãos

Santo do Dia, 14 de março de 1993 – SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS: a imagem da certeza

Santo do Dia, 10 de julho de 1993 – As harmonias do Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 5 de março de 1994 – Como amar a Deus apaixonadamente? “Eis o Coração que tanto amou os homens”: o Sagrado Coração de Jesus

Santo do Dia, 12 de março de 1994 – A Santa Igreja Católica tem verdadeiras maravilhas, mas, sob certo ponto de vista, a maior delas é o amor do Sagrado Coração de Jesus

1997 – O importante papel que a igreja do Sagrado Coração de Jesus desempenhou na formação de Plinio Corrêa de Oliveira

“Nada temas – disse Nosso Senhor a Santa Margarida Maria Alacoque. Eu reinarei apesar de Meus inimigos”. “Se tu crês, verás o poder de Meu Coração”. Abaixo, parte do altar na capela onde se encontram as relíquias de Santa Margarida Maria, no Santuário de Paray-le-Monial (França).

Abaixo, Imagem do Sagrado Coração de Jesus que se encontra em altar lateral, no homônimo Santuário na capital paulista

05 de junho – São Bonifácio, Bispo, lutador contra as heresias e mártir. Patrono da Alemanha

São Bonifácio, Bispo, lutador contra as heresias e mártir. Patrono da Alemanha

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Vigília da festa de Corpus Christi e festa de São Bonifácio, Mártir. Eu vou dar alguns dados tirados do livro “La vie des Saints”, de Rohrbacher:

“São Bonifácio viveu de 675 a 754 (portanto na alta Idade Média). Nasceu na Inglaterra, seu nome de batismo foi Winfried, mudado mais tarde pelo Papa para Bonifácio. Aos sete anos entrou no mosteiro de Nurslig, sentindo depois claramente que sua vocação era converter os povos pagãos. Dedicou-se especialmente a evangelizar os anglo-saxões da Germânia, disto sendo encarregado por Gregório II (Papa). Auxiliou Carlos Martelo na reforma da Igreja da França e convocou concílios para reprimir a simonia. Foi martirizado em Dokkum (Frísia). Seu corpo repousa em Fulda (Hesse), onde é objeto de veneração de toda a Alemanha católica, da qual ele é patrono”.

Para os senhores terem um pouco a ideia do papel deste santo na fundação da Idade Média, talvez valha a pena reunir um pouco, num só panorama, esses dados muito sumários que estão apresentados aqui nesta ficha.

Os senhores têm em primeiro lugar São Bonifácio como monge, numa época em que o que a Igreja tinha de mais dinâmico era o monaquismo, quer dizer, as instituições de grandes conventos e grandes conventos de frades que viviam recolhidos. O próprio do convento beneditino não era de se situar em cidades como hoje, mas era de situar-se em solidões e eles atraiam às solidões e as cidades se formavam em torno deles.

Ele participou ativamente da obra eclesiástica mais importante de seu tempo e da qual haveria de nascer futuramente a Idade Média. Os senhores têm visto, pelas conferências do Prof. Fernando Furquim, a importância de Cluny na Idade Média. São Bento é o “avô” de Cluny, se se pode dizer assim, é dele que nasceu Cluny.

Depois os senhores têm nele um outro aspecto: é o missionário. E uma das grandes obras da Idade Média foi a evangelização dos povos bárbaros. Antes da queda do Império do Ocidente os senhores têm toda a parte da Europa que fica para além do Danúbio que era bárbara. Mas bárbara como são bárbaros os índios que hoje podem existir ainda pela selva sul-americana.

Esta obra foi, portanto, uma obra grandiosa, porque foram povos enormes de grande valor etc. que foram incorporados à civilização e sobretudo à Cristandade. E esta obra foi, em grande parte, dos monges, mas de São Bonifácio maximamente. Os senhores estão vendo, portanto, um segundo aspecto.

Terceiro aspecto. Uma parte da Europa era católica: França, Itália, Inglaterra, um pouco a Espanha. Mas essa Cristandade estava podre de todas as podridões herdadas do Império Romano e a Idade Média remediou e sanou essa podridão.

Os senhores veem São Bonifácio atuando de um modo capital nesse ponto, pelo combate na mais importante nação católica, que era naquele tempo a França: ali ele combateu a heresia e a simonia. O que vem a ser a simonia? É a venda dos cargos eclesiásticos: vender dioceses, um bispo que vende nomeações de padres etc.

Os senhores estão vendo, portanto, que ele foi uma coluna e um luzeiro do seu tempo, um dos maiores homens de todas as épocas. Aqui os senhores têm uma ideia de conjunto da obra extraordinária de São Bonifácio.

A época dele foi uma das maiores da Igreja, em que Ela fez maiores coisas, primeiro dado. Segundo: em tudo quanto Ela realizou de grande, São Bonifácio colaborou. Terceiro: colaborou grandemente, capitalmente, foi uma figura capital nessa colaboração.

Depois de terem compreendido um pouco esta figura, os senhores vão ver então o alcance do juramento que fez ao Papa Gregório II quando foi sagrado bispo. Ele assinou esse juramento e colocou-o sobre as relíquias de São Pedro:

“Em nome do Senhor, Nosso Deus e Salvador Jesus Cristo. Ano VI do reinado do Imperador Leão e IV de seu filho Constantino, indicação VI. Eu, Bonifácio, bispo pela graça de Deus, prometo a Vós, bem-aventurado Pedro, príncipe dos Apóstolos e a vosso Vigário, bem-aventurado Papa, bem como a seus sucessores, pela indivisível Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e por vosso Sagrado Corpo aqui presente, que conservarei sempre a pureza da fé católica na unidade da mesma crença, na qual, fora de dúvida, está a salvação de todos os cristãos; que não atentarei jamais contra a unidade da Igreja Universal, mas terei sempre uma fidelidade integral, um empenho sincero por Vós e pelos interesses de vossa Igreja, a quem o Senhor deu poder de ligar e desligar, bem como ao vosso Vigário e seus sucessores, que não terei jamais comunhão alguma com os bispos que vir se afastarem dos caminhos antigos traçados pelos Santos Padres; que se puder, impedirei sua ação, caso contrário, denunciá-los-ei ao Papa e meu Senhor.

“Se, o que não apraza Deus, agir de alguma forma contra essa promessa, seja eu considerado culpado no julgamento de Deus, recebendo o castigo de Ananias e Safira, que vos quiseram mentir. Eu, Bonifácio, humilde bispo, assinei de próprio punho o formulário desta promessa, e colocando-a sobre o Sagrado Corpo do bem-aventurado Pedro, como é prescrito, prestei este juramento na presença de Deus, que é testemunho e juiz e prometo guardá-lo bem”.

Esse juramento é lindíssimo, porque contém uma parte que é um ato de fé que faz na Igreja Católica e na Santa Sé romana. E contém um ato de fidelidade, quer dizer, ele se liga especialmente à Cátedra de Pedro por este juramento, como é seu dever de bispo.

Então, o que promete? Ele promete que será sempre fiel ao Papado. E que – isto que contém maior ensinamento para nós – jamais terá nada de comum com os bispos maus, que se desligam da obediência de Roma. Mais ainda: promete intervir e impedir a ação destes bispos. E mais ainda: se não consegui-lo, denunciará ao Papa. Ou seja, ele promete uma guerra total contra os bispos maus.

Pede para si mesmo um castigo, caso ele não proceda bem. Qual é o castigo? O de Ananias e Safira. Qual é o castigo de Ananias e Safira? Os senhores se lembram, os Atos dos Apóstolos contam isso: Ananias e Safira era um casal que tinha bens; eram católicos e se apresentaram a São Pedro entregando uma certa porção de seus bens e dizendo: “Aqui está tudo o que possuímos, isso nós damos à Igreja”. São Pedro diz: “Vós mentis ao Espírito Santo, porque eu sei que vós dais uma parte dizendo que é tudo, mas guardais ocultamente outra para vós”. E os dois caíram mortos.

Que relação há entre o juramento dele e o ato de Ananias e Safira, se fosse infiel? Nesse juramento ele está afirmando, portanto “Eu prometo tudo a Deus”. Se ele reservar alguma coisa para si, comete o pecado de Ananias e Safira. Então, pede que caia morto no momento em que tenha cometido esse pecado. Naturalmente, subentende-se que pede a penitência final, pede a salvação. Mas ele pede sobre si mesmo o castigo.

Gregório II, que era o Papa, escreveu uma carta recomendando-o ao clero e à nobreza da França. A missiva tem esse trecho:

“Se alguém, o que não apraza a Deus, vier opor-se aos seus trabalhos e estorvá-lo no ministério, a ele e a seus sucessores no apostolado, que seja anatematizado pela sentença divina e fique sujeito à condenação eterna”.

Os senhores estão vendo bem com que vigor se procedia naquele tempo. Quer dizer, errou, cai em cima a condenação e está acabado: fica sujeito à condenação eterna.

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, isso não importa numa certa cólera e, portanto, numa certa imperfeição?” Não. Não é a cólera contra o pecador, mas contra o pecado, que atinge o pecador, porque ele pecou. É um tempo de lógica e coerência, de severidade e de justiça.

Os senhores dirão: “Mas, Dr. Plinio, isso na nossa época não haverá…” Eu digo: meus caros, e as promessas dos castigos que Nossa Senhora fez em Fátima [a “Bagarre”, termo resumitivo de tais promessas e utilizado na linguagem corrente da TFP, n.d.c.], caso a humanidade não se convertesse? O que é a “Bagarre” senão isso? A “Bagarre”, na qual a gente tem tanta preguiça em crer?… A “Bagarre” é precisamente isso: num determinado momento a taça da ira de Deus, da cólera de Deus, está repleta e Deus descarrega o pulso dele sobre o mundo. É essa a teoria da “Bagarre”.

O que devemos considerar na “Bagarre”? A beleza, a santidade de Deus, porque a santidade não brilha só pelo fato de ela ser a fonte do bem, ou ser o próprio bem, mas brilha pelo horror que ela tem ao mal. É uma beleza a gente ver essa completa rejeição do mal que tem a santidade, de maneira tal que podemos e devemos amar estas fórmulas severas da Igreja que nos mostram o horror dEla ao mal e, portanto, o bem que há nEla.

03 de junho – as grandes vocações são belas como as flores dos cactos

Santa Clotilde e as grandes vocações são belas como as flores dos cactos

A D V E R T Ê N C I A

Gravação de conferência do Prof. Plinio com sócios e cooperadores da TFP, não tendo sido revista pelo autor.

Se Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito:

“Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”.

As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá Dr. Plinio em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo”, em abril de 1959.

Santa Clotilde (474-545) – Estátua da Igreja de São Germano de Auxerre (Saint Germain l´Auxerrois), em Paris. Feita em 1841 pelo escultor Louis Desprez. Foto de © Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons, CC BY 3.0

Hoje é 3 de junho, festa de Santa Clotilde, viúva. Da oração litúrgica na festa dela, nosso calendário tirou a seguinte frase: “Ela foi rainha da França, filha do rei Quilperico II, esposa do rei Clovis. Às suas orações, a França deve o dom da fé”.

Uma referência tirada de Dom Guéranger, de sua obra “L’Année Liturgique”:

“Santa Clotilde foi aureolada pela glória de uma maravilhosa maternidade espiritual, pois foi graças a essa rainha que, numa noite de Natal, nascia nas fontes batismais de Reims a nação primogênita da Igreja. Clotilde foi preparada pelo sofrimento para o grande destino que Deus lhe reservava. A morte violenta de seu pai, destronado por um usurpador fratricida, seus irmãos massacrados, sua mãe afogada no Ródano, seu novo cativeiro na corte ariana do carrasco que trazia consigo a heresia ao trono dos borguinhões, desenvolveram nela o heroísmo do martírio e a fizeram mãe de um povo”.

Dom Guéranger tem um estilo único, eu só não sei se é muito claro para os de gerações mais recentes…

Abreviadas as coisas, o fato é o seguinte: Santa Clotilde era filha do rei dos borguinhões. O pai dela era católico e o irmão do pai dela, portanto tio dela, era ariano. O arianismo constituía uma heresia terrível que infestou a Igreja durante séculos, uma coisa bárbara. E esse ariano matou o católico e dizimou toda a família de Santa Clotilde, o que os senhores acabaram de ouvir. A mãe foi jogada no Ródano, enfim, uma chacina completa, os irmãos foram mortos etc.

Nunca obtive uma explicação do motivo pelo qual Santa Clotilde não foi morta por esse mesmo sujeito. Ele a levou para sua corte e a tinha ali como uma espécie de sobrinha de segunda categoria, meio prisioneira, em cativeiro.

Clovis, que era o rei dos francos, uma nação vizinha dos borguinhões, quis se casar com ela, a qual perguntou então como é que seria a questão de sua fé. Clovis, apesar de pagão, garantiu que lhe daria liberdade de conservá-la. Santa Clotilde, então, se casou com Clovis, o qual respeitou sua fé.

Dom Guéranger mostra muito bem o contraste que havia no começo da vida dessa rainha e o fim. No começo opressa, perseguida etc. De repente, ela sobe ao trono, mas era de um rei pagão e bárbaro. Ela se casa com o bárbaro, mas este se converte, daí nascendo uma nação católica. Os senhores veem aí, portanto, a linda vocação de Santa Clotilde!

Todas as vocações muito bonitas começam de um modo tremendo: contra golpes, dificuldades, coisas impossíveis etc. etc. Mas é desses espinhos que nasce a vocação bonita. Fala-se muito da beleza da rosa, mas há uma outra que na minha opinião rivaliza com a rosa em beleza e talvez seja mais bonita: é a flor – o Dr. Eduardo pode dizer exatamente que for é, eu vou dar uma noção ultra imprecisa – mas é a flor do cactos.

Há um tipo de cactos que dá uma flor meio azul, meio vermelha – não sei se os senhores conhecem -, uma verdadeira maravilha! O cactos é uma planta horrenda, “de lo último”. Basta dizer que é “moderna”… É grossa, espinhada, sem cheiro, sem forma, de um jeito monstruoso, uma espécie de animal antediluviano em ponto vegetal. Porém disso nasce essa beleza que é a flor do cactos.

Assim também são as grandes vocações. Elas nascem de sofrimentos que não têm nome, nem palavras, nem eira nem beira, decepções, coisas que se entrecruzam, que derrocam, que não têm caminho etc., etc. No meio disso tudo, o “cactos” vai produzindo a sua flor. E, afinal de contas, acaba desabrochando em algo mais bonito, que é a vocação, cujo êxito não se deve a nenhuma mão de homem, não se deve a nada que tenha tido início no homem, mas se deve a Nossa Senhora!

É pena eu não ter a Epístola da Missa do Domingo passado aqui, para comentar com os senhores. Achei muito bonita! São Paulo diz isso: quem é que pode se gabar de ter dado a Deus algo, que depois não o tenha premiado? Ou seja, primeiro Deus nos dá algo, depois nós fazemos algo por Ele e aí Ele premeia em nós o próprio dom que Ele nos deu… Essa é a realidade, e que convém muito ter em vista.

Então aqui está Santa Clotilde: desde pequena preservada para isso, guiada para isso, não porque tenha feito algo, mas porque Deus quis e ela foi correspondendo ao que Deus quis. Aí está a santidade dela, seu mérito, mas o início foi todo ele de Deus.

Continua Dom Guéranger:
Deus quis que o homem, saindo de Suas mãos, ainda sem poder contemplar diretamente seu Autor, encontrasse como primeira tradução de Seu amor infinito a ternura de uma mãe. Isso dá às mães essa facilidade única de completar, pela educação, na alma do filho, a reprodução completa do ideal divino que deve nele imprimir-se”.

O pensamento de Dom Guéranger é belíssimo! Como Deus faz o filho nascer de sua mãe, esta tem uma intuição especial para completar no filho a obra de Deus. O que é verdade da mãe terrena, mas é muito mais verdade da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, na qual nós somos gerados e que tem, portanto, uma intuição materna para completar em nós a obra de Deus. E é também insondavelmente verdade em relação a Nossa Senhora.

“E se tão grande é a maternidade na ordem da natureza, muito mais sublime ainda o é na ordem da graça. É o exemplo da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e, como decorrência, mãe de todos os homens. E toda maternidade não foi, desde então, num verdadeiro sentido, senão uma decorrência da de Maria, uma delegação de seu amor e a comunicação de seu augusto privilégio de dar aos homens que devam ser seus filhos.

“A dignidade de mãe cristã foi acrescida por Maria a um ponto em que a natureza nunca poderia suspeitar. Como Clotilde, frequentemente a esposa, preparada pelo divino sofrimento, ver-se-á dotada de uma fecundidade mil vezes maior do que a terrena. Felizes os homens nascidos, pelo favor de Maria, dessa fecundidade sobrenatural, que resume todas as grandezas. Felizes os povos aos quais foi dada uma mãe, pela divina munificência”.

Ele faz aqui uma linda comparação: o que Santa Clotilde foi para os franceses, Nossa Senhora o é para todo o gênero humano, Ela é a mãe de todos os católicos. E assim como da graça de Santa Clotilde, da beleza de Santa Clotilde, da fé de Santa Clotilde nasceu a nação que foi outrora a nação da fé, da graça e da beleza, assim também nisso temos um exemplo do que foi nascermos de Nossa Senhora. Quer dizer, Nossa Senhora nos comunica também a sua beleza espiritual, a sua graça e sua fé. Ou seja, somos filhos de Nossa Senhora porque tudo recebemos dEla, somos gerados dEla. Esse é o pensamento que está no restante da ficha.

(Extraído de O Legionário
n. 773, 1/6/1947)

 

15 de Agosto – Na assunção, ensinamentos de contra-revolução

Na assunção, ensinamentos de contra-revolução

Através de pequenos pormenores extraídos das visões de Anna Catarina Emmerich sobre a Assunção de Maria Santíssima, pode-se compreender como a Contra-Revolução, para ser plena e vencer, precisa ser animada por uma ordenação de ideias e princípios esquecidos pelo mundo hodierno.

Vamos considerar uma ficha sobre a Assunção de Nossa Senhora, retirada de Catarina Emmerich.¹

A Assunção de Maria segundo Anna Catarina Emmerich

Assunçao de Nossa Senhora - Museu de Santa Cruz - Toledo

Na noite da sepultura de Nossa Senhora, sucedeu a Assunção da Virgem ao Céu com seu corpo. Eu vi vários Apóstolos e mulheres nessa noite rezando ante a gruta ou, antes, no jardinzinho que estava diante da gruta. Eu vi baixar do Céu um facho luminoso e três coros de Anjos rodeando a alma de Maria, que vinha resplandecente pousar sobre a sepultura.

Nossa Senhora esteve algumas horas com a alma separada do corpo. Sua alma santíssima baixou junto ao corpo precedida por um cortejo de Anjos.

Diante da alma vinha Jesus com suas chagas luminosas. E na parte interior da glória onde estava a alma de Maria, viam-se três coros de Anjos.

Naturalmente, os coros mais nobres, mais próximos; e, em periferias sucessivas, os outros coros, todos formando um facho de luz enorme que continha, no centro, a alma santíssima de Nossa Senhora.

O mais interior parecia de fisionomias angélicas de meninos, a segunda fileira era constituída por semblantes de criaturas de seis a oito anos e a mais exterior era de jovens. Só se distinguiam bem os rostos, o resto do corpo era como uma coluna luminosa algo indeterminada.

Isso indicava os graus sucessivos de espiritualidade: a criança é símbolo da pureza. A visão dos Anjos por essa forma, porque eles não têm corpos, simboliza uma elevação espiritual mais nobre, mais excelente.

Em torno de Maria havia uma coroa de Anjos. Não saberia dizer o que viam os presentes; eu só via que olhavam para o alto, cheios de admiração e emoção. Às vezes, maravilhados, prostravam-se com o rosto no chão. Quando essa aparição se tornou mais clara e pousou sobre o sepulcro, abriu-se um facho de luz desde ali até a celeste Jerusalém. A alma de Maria, passando diante de Jesus, penetrou através da pedra no sepulcro, logo alçou-se dali com seu corpo resplandecente de luz e se dirigiu triunfante, com o angélico acompanhamento, à Jerusalém Celeste.

Quando, dias depois, estavam os Apóstolos rezando em coro, chegou o Apóstolo Tomé com dois acompanhantes. Um era o discípulo Jonatan Eleazar, e outro era um criado do país dos Reis Magos. Tomé e Eleazar rezaram diante do sepulcro. João abriu os três parafusos que fechavam o caixão, deixaram a tampa de lado e viram, com grande maravilha, o sepulcro vazio. Só estavam ali os lençóis e tecidos com os quais haviam envolvido os sagrados restos. Tudo estava em ordem perfeita. O lençol estava tirado na parte do rosto e aberto na parte do peito; as ataduras dos braços e das mãos apareciam abertas e postas em boa ordem. Os Apóstolos alçaram as mãos em sinal de grande admiração e João gritou:

— Ela não está mais aqui!

Solidariedade entre ordem e Contra-Revolução; desordem e Revolução
É interessante notarmos a boa ordem em que estavam os panos. Qual é o alcance desse pormenor? Deus, de tal maneira ama o bem, ama o mundo, que Ele quer a boa ordem para todas as coisas do universo que criou. E, por causa disso, tudo quanto é feito por Ele ou sob o influxo da graça se põe em ordem, se dispõe de um modo correto e conveniente. É uma espécie de aliança do metafísico com o sobrenatural. O sobrenatural ruma para aquilo que está metafisicamente bem arranjado, bem posto, e é esta a razão pela qual todas as manifestações da graça produzem a ordem na natureza.

É o contrário das manifestações do demônio. Sempre quando lhe é permitido aparecer ou influenciar as almas, a sua ação se caracteriza por perturbações tremendas, por convulsões. Se ele infesta uma pessoa, resulta em gestos agitados; se ele infesta uma casa, mexe nos móveis para colocá-los em desordem.

Compreende-se, então, até que ponto todos os domínios da ordem e todos os aspectos dela são solidários entre si. Mas, também quanto a todos os domínios e aspectos da desordem, eles são igualmente solidários. Nisso compreende-se a unidade da Revolução e a unidade da Contra-Revolução, como a Revolução não pode ser considerada apenas um movimento político, religioso ou cultural, mas é a tendência à subversão e à desordem em tudo.

E como a Contra-Revolução, portanto, não pode igualmente ser apenas um movimento político, religioso ou cultural, mas para ser plena, precisa ter um espírito e ser animada por uma graça que visa pôr tudo em ordem.

Através desse pequeno pormenor, tem-se ocasião de meditar sobre a solidariedade de todas as formas de ordem e de desordem.

A nobilíssima noção de fidelidade esquecida

Continua o texto.
Os demais se aproximavam, olhavam, choravam de alegria e admiração. Oravam com os braços levantados e os olhos no alto e se prosternavam pensando na luz que tinham visto na noite anterior. Logo tomaram consigo todos os lençóis e o caixão, como relíquias, e levaram tudo até a casa, orando e cantando salmos em ação de graças. Quando chegaram à casa, João pôs as telas dobradas diante do altar. São Tomé e os demais rezavam. Pedro se afastou um tanto, preparando-se para celebrar.

É o príncipe dos Apóstolos! É evidente que a primeira Missa da Assunção devia ser rezada por ele.

Logo o vi celebrar a Missa diante do crucifixo de Maria…

Era o crucifixo diante do qual Nossa Senhora rezava.

…e os demais Apóstolos por detrás dele, em ordem, rezando e cantando. As mulheres estavam junto à porta e perto da lareira. O criado de Tomé tinha aspecto de estrangeiro: olhos pequenos, ossos das maçãs do rosto saltados, fronte e nariz achatados, e cor morena. Ele já estava batizado e era simples no seu modo se ser, muito serviçal e humilde. Fazia tudo o que se lhe ordenava: ficava de pé ou se sentava conforme lhe diziam. Virava os olhos para onde se lhe indicavam; ia e vinha segundo se lhe mandavam e sorria para tudo. Quando viu que Tomé chorava, chorou também. Foi inseparável companheiro e ajudante de São Tomé, e o vi levantar pedras muito grandes quando Tomé queria edificar alguma capela.

É uma muito boa manifestação de fidelidade de um servo, fazendo tudo quanto seu amo lhe mandava fazer e sentindo tudo como seu amo sentia, fazendo-se um só com ele. É uma ideia que o mundo hodierno perdeu completamente, essa nobre noção da fidelidade pela qual duas pessoas de categorias diferentes, em vez de se odiarem, se estimam. E não apenas se estimam, mas se fundem, constituindo como que um só todo, quase um não se podendo conceber sem o outro, como a relação do escudeiro e do cavaleiro na Idade Média.

Há inúmeros exemplos de situações como essa, porém, a mais bela de todas foi a dos mártires São Lourenço e São Sisto. Quando o Papa São Sisto foi levado para o martírio, o diácono habitual dele, São Lourenço, aproximou-se e disse: “Santo Padre, como ides para o martírio e me deixais? Vós que sempre celebrastes o sacrifício comigo me abandonareis na hora de vosso último sacrifício?” E ambos foram martirizados sob o mesmo perseguidor. Que beleza e nobreza de ideias há nisso! Como a fidelidade pode chegar a uma verdadeira participação na mesma glória, e como o mundo de hoje está esquecido disso…

Estas são somente duas meditações a respeito da Assunção de Nossa Senhora.

(Extraído de conferência de 14/8/1968)
1. – Cf. BEATA ANNA CATARINA EMMERICH. Visiones y Revelaciones Completas. Buenos Aires: Guadalupe, 1952, L. II, tomo IV, p. 278-279.

09 de Junho – Santo Efrem, Doutor da Igreja

Santo Efrem (306-373). Mosaico no Mosteiro Novo de Quios, Grécia

Hoje é festa de Santa Teresa, viúva, filha de D. Sancho I, rei de Portugal, e irmã de duas outras Santas. Tendo sido declarado nulo seu casamento com o Rei de Leão, professou na Ordem de Cister, século XIII.

Amanhã teremos a festa de Santo Efrem sírio, Diácono, Confessor e Doutor da Igreja, chamado “cítara do Espírito Santo”, grande devoto da Virgem, lutou contra os hereges, século IV.

Há duas categorias de santos na devoção popular: alguns para os quais se reza e dos quais se fala, e outros santos que foram “arquivados” e postos em silêncio, a respeito dos quais não se fala e para os quais não se reza.

Até certo ponto isso é normal. Vamos dizer que de algum modo os santos, depois de mortos, têm sua história: são canonizados e alguns chamam a atenção durante muito tempo. Mas depois, no firmamento da Igreja, há tantos santos, que a atenção dos fiéis se volta para outros e aqueles vão ficando esquecidos. O que não é um fenômeno, mas é algo que corresponde à ordem da História da Providência. Ficam no calendário da Igreja, são lembrados pela Ordem Religiosa a que pertenceram, ou pela Diocese em que nasceram etc., mas cedem lugar a outros que passam, por assim dizer, no grande palco da História, até que terminado o tempo, terminadas todas as canonizações e encerrada a História da Humanidade, esses santos serão venerados pelas almas de uma santidade inferior que também foram admitidas no Reino dos Céus.

Portanto, isso é algo natural. Porém, não é normal que todo santo que incomode a “heresia branca” [uma piedade desvirtuada por um sentimentalismo que deforma, por exemplo, o verdadeiro conceito de caridade cristã, n.d.c.] entre logo nesse “arquivo”, enquanto outros que incomodam menos, custem mais ou nunca sejam “arquivados”…

E assim temos sistematicamente um silêncio a respeito dos reis santos, a rainha santa, a princesa santa…  Quem de nós ouviu falar nessa Santa Teresa, viúva? Eu não sabia que ela existia, mas estou sabendo agora. Quais são as duas outras irmãs que ela teve e que também foram santas? Por que seu casamento com o Rei de Leão foi declarado nulo? Como foi a vida que ela levou na Ordem de Cister?

No esquema resumido que temos não se diz, nem se poderia dizer, pois não temos um hagiógrafo capaz de responder a todas essas perguntas. Mas aqui fica o ponto: como seria bom que alguém se esmerasse em ir procurando a biografia desses santos…

Por exemplo, na enciclopédia “Espasa Calpe” deve haver alguma coisa sobre quase tudo isso. Se houvesse alguém com luz primordial, com um chamado especial para isso, e que, de acordo com nosso Departamento do Exterior, escrevesse para perguntar algo sobre tais biografias, fotografias, etc… Que beleza se algum dia pudéssemos inaugurar uma galeria de estampas bonitas, feitas pelo Dante e pelo Humberto, representando os reis e rainhas santos com a coroa na cabeça! Isso seria algo muito esplêndido!

A vida de todo santo é cheia de surpresas. Quando comecei a ler a vidas de Santos bem escritas e documentadas, comecei a me entusiasmar e compreendi que toda vida de santo é isso. Há um trecho da Sagrada Escritura inserida numa liturgia referente a um Santo e que diz o seguinte: “Não foi encontrado ninguém que seja parecido com ele”. E isso se pode dizer de cada Santo, mesmo daqueles que foram muito parecidos com outros. Há peculiaridades extraordinárias, há coisas lindíssimas!

O cerne, o eixo da História da Humanidade é a vida dos Santosé para eles que ela se ordena. E o creme dos cremes da História é saber como se tornaram Santos.

Se pudéssemos tomar essas vidas de Santos, uma por uma, veríamos verdadeiras maravilhas, teríamos, assim, o nosso ciclo santoral ultramontano para quebrar a “heresia branca”.

Vou pedir a Santa Teresa – e peço que se associem às minhas orações – para ver se ela toca alguém para fazer esse serviço. Se tocar alguém, quem sabe se não fazemos uma pequena comissão de estudos? Que beleza e que surpresa podermos ostentar no Congresso 2000 de “Catolicismo”, logo na entrada, um painel de Santos aos quais esse Congresso está recomendado!

Dizem – eu acho isto um pouco… mas não deixa de ter certa razão – que quando se pede a um santo esquecido somos atendidos, porque não têm muitas pessoas que rezem para eles. Há nisso algo de verdade. Quem sabe se pedindo a estes Santos nos ajudam e trabalhamos para a glória deles?

Aqui está um ponto de partida interessante: termos na sede um relicário só para as relíquias dos Santos que foram reis, príncipes da alta nobreza etc., com uma bonita coroa encimando o relicário. Podemos fazer esta pergunta a quem fôssemos mostrar a sede: “Você gosta de venerar Santos que foram reis? Aqui há várias relíquias…”.

Outra página, outro aspecto da hagiografia (vida dos santos): todos os Santos foram devotos de Nossa Senhora, mas nem todos tiveram uma missão mariana tão definida; e de algum modo podemos dizer que nem todos foram tão marianos do mesmo modo.

Santo Efrem, de quem tratamos hoje, Doutor da Igreja, foi um dos grandes inauguradores da Mariologia. Ele tinha uma coisa muito curiosa: como era missionário e gostava de pregar a Doutrina Católica para o povo, para fazer apostolado, compôs poesias que eram cantadas. Como São Luiz Maria Grignion de Montfort, ele ensinava o povo a entoá-las. Suas canções eram tão bonitas, tão harmoniosas, sua teologia, por outro lado, era tão poética e cabia tão bem para os ouvidos populares, que foi chamado de “citarista do Espírito Santo”!

Não posso imaginar nada mais bonito e evocativo do que Santo Efrem – com um perfil fortemente oriental – sentado numa pedra, com um grande vale estendendo-se a seus pés, uma árvore bonita, uma pequena fonte, ele reclinado sobre si mesmo pensando e compondo uma bonita canção sobre Nossa Senhora, para ser entoada com aquele lirismo pastoral muito simples do Oriente, e desenvolvendo a teologia sobre Nossa Senhora de modo muito poético e agradável… E naquelas aldeias, naquelas solidões, naquelas cidades de mercados, o povo aprendendo as canções, os camponeses voltando para casa com o cântaro à cabeça e cantando as canções de Santo Efrem. Depois, as crianças cantando essas canções nos mercados ou nas reuniões de família à noite. É a linda imagem de sua alma: “citarista do Espírito Santo”!

Imaginemos uma cítara colocada sobre uma mesa e, de repente, a cítara começa a tocar sozinha. É o Espírito Santo que compõe a música. É uma canção diretamente produzida pelo Divino Espírito. A alma dele foi essa cítara, e que cantou em honra de Nossa Senhora.

E agora aqui vai outro desejo… Como Danielacho que devemos ser “varões cheios de desejos”: que Nossa Senhora nos desse citaristas para a época das realizações das promessas de Nossa Senhora em Fátima, para cantarem canções guerreiras de Nossa Senhora, e desde já formando o espírito das pessoas em função dessa época. Canções cheias de sentido, teológicas, e ao mesmo tempo cantando a beleza do heroísmo católico, a beleza das belezas.

Quem sabe se o Divino Espírito Santo inspirasse na alma de algum de nós uma canção sobre a morte de Nossa Senhora e a morte do guerreiro, a união dos dois holocaustos e o entusiasmo com que o guerreiro marcha para esse holocausto…

27 de setembro – São Vicente de Paulo, O bom espírito, causa da união entre os membros da Igreja

São Vicente de Paulo: O bom espírito, causa da união entre os membros da Igreja

Envolvendo virtudes que parecem antitéticas, a alma do grande São Vicente de Paulo, ao mesmo tempo tão combativa e tão compassiva, é o exemplo perfeito do bom espírito e daquele que adere com a inteligência e a vontade, sem infiltrações de preferências pessoais, a todos os princípios da Santa Igreja.

Muitas vezes eu me tenho perguntado qual é a razão da união de almas que caracteriza tão especialmente o nosso Movimento; união que se traduz numa concórdia na ação e na vida cotidiana, que é uma das nossas maiores graças.

A união, uma grande graça
Várias vezes, recebendo visitantes da Europa, mais de um me disse: “Agradeça a Deus essa união que reina aqui e peça sempre que Ele continue a dá-la”. Eles se impressionam com aquilo que há de compacto e de maciço no Grupo.
Isso me faz lembrar um sacerdote da Paróquia de São Vicente, perto de Santos, que me perguntava uma vez se eu não podia entregar-lhe nosso regulamento. Eu disse:
— Não temos regulamento.
Ele, acreditando pouco no que eu dizia, insistiu:
— Eu queria que o senhor me desse pelo menos o artigo que atribui poderes ao senhor, para ver como mantém todos unidos.
— Não há regulamento, não existe esse artigo.
— Como?
Eu nem soube o que responder. Porque essa união é uma graça tão grande e é um fato tão natural, que nem me passou pela cabeça como lhe explicar isso.

União com base em princípios supremos, livre de caprichos pessoais
De fato, quando há um mesmo espírito e quando este procura ser e é inteiramente bom, ortodoxo, quando nele não entram infiltrações de preferências pessoais, de manias, de caprichos individuais, mas nele a alma procura conhecer e aceitar por inteiro a Revelação, o Magistério da Igreja, e modelar-se segundo o ensinamento recebido e não segundo si mesma, quando esse espírito se desenvolve ao calor da devoção a Nossa Senhora, existe algo que é mais eminente do que uma humilde doutrina, que é a profissão ardorosa, entusiástica, sem restrições, incondicional de alguns princípios supremos, dos quais todos os outros princípios decorrem por via de consequência.

Isso é o bom espírito, a união inteira da inteligência e da vontade nesses princípios que traz a adesão aos outros princípios secundários, e que faz também a coesão na ação.

A propósito disso, eu gostaria de comentar algo sobre o espírito de São Vicente de Paulo.

Desfazendo o mito da incompatibilidade entre as virtudes
São Vicente de Paulo era, ao mesmo tempo, o Santo da combatividade e da caridade. Da combatividade em dois terrenos: o doutrinário, no qual combateu os jansenistas com meticulosidade, política, tática e estratégia. Ele os combateu em Roma, na corte do Rei da França, na nobreza, no clero, no povo, de todos os modos possíveis, com sua imensa influência pessoal. Além da combatividade intelectual ele também quis armar uma cruzada contra Túnis e, nesse sentido, dirigiu-se ao Rei de França.

Ao mesmo tempo, era o Santo da caridade, da compaixão. Encontramos nessa conjunção uma rara e alta manifestação de bom espírito. Porque, segundo a opinião corrente, quem é muito combativo, não é muito compassivo, e quem é muito compassivo, não é combativo.

Como nós somos muito combativos, chegam à conclusão que nos falta compaixão. Dizem que somos duros, severos, vingativos, temos em nossa alma toda a maldade que eles atribuem aos inquisidores, a Torquemada¹ e ao grande São Pio V,² por exemplo. Trata-se de destruir esse mito.

Quem é verdadeiramente compassivo é combativo. Quem é santamente combativo é compassivo. Se a combatividade e a compaixão são virtudes, não pode haver entre elas uma incompatibilidade. Pelo contrário, todas as virtudes são irmãs, revertem umas nas outras. Imaginar que uma pessoa possa ter uma virtude e por isso não tenha a virtude oposta, é ignorar o bê-á-bá da virtude.

O bom espírito consiste, isto sim, em ser combativo contra aquilo e aqueles que se deve combater e nas horas certas, com toda a energia; ser compassivo para aqueles com quem se deve ter compaixão, nas horas em que é necessário e na medida em que é preciso.

Vê-se bem isso na índole da Igreja, que ao mesmo tempo instituiu as ordens de cavalaria e as ordens de enfermeiros e enfermeiras, que curam as feridas.

Pode-se conceber perfeitamente um exército católico com uma ordem de cavalaria para ferir os adversários, e depois uma ordem de irmãs de caridade para cuidar desses feridos com as devidas cautelas, e nos termos necessários, sem humanitarismo. O verdadeiro católico ama o bem sob todas as formas, e como o bem é difusivo de si, ele é compassivo.

Uma indomável combatividade pode e deve coexistir com uma meticulosa compassividade
Mas não é possível amar o bem sem odiar o mal. Qualquer amor ao bem que não redunde em ódio ao mal, não é verdadeiro. Se uma pessoa ama o bem, pela mesma razão pela qual é combativo, é compassivo.

Uma indomável, feroz e tremenda combatividade pode e deve coexistir com uma dulcíssima e meticulosa compassividade, desde que esta não signifique pactuar com o mal, consentindo que ele continue quando deve morrer, ou que continue atuando, pelo menos ferido e incompleto, quando ele deve ser exterminado radicalmente. Consentir que lhe restem algumas armas na mão, restos de prestígio, de influência. Contra o mal, a ofensiva deve ser inteira para desarmá-lo por completo. Fora dessa medida, a mais requintada, extrema, e delicada suavidade é o corolário da combatividade.

Eliminado até em suas sementes, arrasado o mal e negados a ele todos os quartéis, humilhado, destroçado, privado de todos os meios de ação e de todo o prestígio em toda a medida em que seja possível neste vale de lágrimas, o resto é tarefa da compaixão.

Na junção dessas duas coisas entendemos o que é o bom espírito, envolvendo virtudes que parecem antitéticas, mas que são uma só virtude. Isso nos explica a alma do grande
São Vicente de Paulo, ao mesmo tempo tão combativa e tão compassiva, igual a de todos os outros Santos, inclusive dos cruzados, dos Santos inquisidores e dos que fundaram
ou se santificaram em Ordens de Cavalaria.

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(Extraído de conferência de
20/7/1965)

1) Tomás de Torquemada (*1420 – †1498).
Alcunhado o Grande Inquisidor, Inquisidor-
Geral espanhol.
2) De nascimento chamado Antônio
Ghislieri; foi o 225º Papa, governou a
Igreja de 1556 até sua morte em 1572.
Foi também inquisidor.

26 de abril -Celeste Conselheira

Celeste Conselheira

A alma verdadeiramente católica deseja ser aconselhada por outrem, e ninguém mais do que Nossa Senhora para dar um bom conselho. Entretanto, Ela, ao aconselhar, muitas vezes o faz imperceptivelmente, despertando na alma desejos e pensamentos, desviando o espírito das coisas vãs.

A festa em honra de Nossa Senhora do Bom Conselho foi instituída no século XV, na igreja dos Irmãos Eremitas de Santo Agostinho, em Genazzano, na Itália.

A Mãe do Bom Conselho
Esta é uma invocação muito bonita, porque indica Nossa Senhora em uma das tarefas mais maternas, mais próprias à Rainha do Universo, que é exatamente a de dar o bom conselho.

Como Rainha do Universo, Nossa Senhora governa tudo. O próprio de quem governa é não só dar ordens como também dar conselhos. E para aqueles que amam verdadeiramente Nossa Senhora, todos os conselhos d’Ela valem como ordem.

A invocação bem exata é Mãe do Bom Conselho; é a Mãe considerada enquanto dando um conselho, uma orientação a um filho espiritual d’Ela, a um filho gerado por Ela na ordem sobrenatural, como somos todos nós.

Se quisermos penetrar mais a fundo, Nossa Senhora, por sua intercessão onipotente, obtém de Deus para as almas perturbadas, que não sabem o que fazer diante de certa emergência, o conselho de que necessitam, a solução que procuram e que pareceria impossível alcançar; porque elas analisam a situação e não encontram em seus recursos intelectuais uma orientação rectrix a seguir, precisando, portanto, de um conselho para saber como devem proceder.

Pedindo a Nossa Senhora do Bom Conselho, a Nossa Senhora enquanto Mãe dos homens desvairados, que não sabem como se orientar, Ela se compadece deles e os orienta.

Todos nós sabemos que o espírito humano é susceptível de erro, de grandes perplexidades e muitas vezes não é capaz por si mesmo de atinar com a solução de um problema que tenha diante de si. Nessa situação, é necessário o conselho de uma mentalidade mais alta, que vê mais, que irá explicar e traçar uma diretriz para seguir.

Habitualmente nós consideramos o conselho como uma norma para a ação. Esse é o significado corrente da palavra conselho. E, nesse sentido, cabe dizer que para toda espécie de ações, mesmo as interiores e espirituais, Nossa Senhora pode dar um conselho, uma norma.

Por exemplo: uma pessoa solitária está com uma perplexidade espiritual muito grande: continuará ou não a ter uma devoção? Deixará ou não de se abster disto ou daquilo? Como fará? É um problema puramente interior, relativo a um fazer que é um mero fazer do espírito e que não se traduz, a não ser por vias de consequências, numa operação externa. O homem pode ter perplexidades a esse respeito e, tendo-a, precisa de uma ajuda: um conselho espiritual, um conselho para as dificuldades de apostolado, para os estudos, para o trato com os outros, para tudo.

Necessidade do conselho e seu papel nas instituições ocidentais
Nós podemos dizer que um dos frutos da Idade Média, da Civilização Cristã, é o ter tornado bem clara essa necessidade do conselho como uma norma de vida vigente até mesmo nas instituições civis ocidentais.

Se analisamos a primitiva história das monarquias pagãs do Oriente, mesmo das grandes como a do Egito, da Pérsia, da China, do Japão, notamos que, em geral, o monarca era absoluto, tinha o poder de dispor dos seus súditos como entendesse e quase não ouvia conselhos. De vez em quando aparecia alguém que dava um parecer a respeito de determinada situação, mas o conselho como uma instituição que o soberano consultava com rotina, aquilo que nós chamamos Conselho de Estado, não existia. O monarca ficava no seu isolamento, resolvendo as coisas por si e tomando as decisões.

Na Idade Média vemos aparecer a instituição do Conselho. Reconhecendo a precariedade, a falibilidade do espírito humano, os monarcas nomeavam Conselhos, órgãos coletivos diante dos quais o rei costumava levar seus problemas mais importantes. Estes eram debatidos em reunião e o rei aceitava ou não a solução proposta, mas habitualmente ele resolvia tudo com o seu Conselho.

Essa ideia passou da monarquia para as outras formas de governo que havia na Idade Média. As repúblicas aristocráticas governam-se por Conselhos. Por exemplo, o famoso Conselho dos Dez de Veneza, que assessorava o Doge e tinha um poder enorme; as repúblicas burguesas, as cidades livres da Alemanha, eram governadas por Conselhos, sendo o burgomestre a expressão de um Conselho eleito pela cidade. Assim foi se afirmando o princípio de que ter um Conselho é o complemento natural de todo governo.

Pedir conselho, uma postura católica por excelência
Mas, se os homens devem pedir conselhos uns aos outros, se devem reconhecer que por si mesmos têm dificuldade de encontrar a sua própria via em circunstâncias espinhosas, então é sobretudo verdade que convém a eles, podendo se comunicar com Deus por meio da oração, que a Ele peçam o conselho. Deve ser um dos hábitos de nossa vida espiritual, de nossa piedade, pedirmos que Nosso Senhor nos ilumine e nos faça compreender aquilo que devemos fazer.

É conhecido o fato, mais de uma vez mencionado por mim, de São Tomás de Aquino: quando ele tinha problemas filosóficos muito delicados e difíceis, que não conseguia resolver, ele introduzia a cabeça dentro do Sacrário e ficava ali rezando para o Santíssimo Sacramento até que viesse a solução desejada. Essa postura de alma de não só pedir conselho aos outros, mas, sobretudo, de pedi-lo a Deus, no campo natural e no campo sobrenatural, é a postura católica por excelência.

Se nós vemos tantas pessoas que se curam de uma ou outra doença, que vão a Aparecida e deixam objetos de cera para lembrar o milagre, pedem graças de toda ordem e as recebem, às vezes graças materiais, Deus Nosso Senhor, a fortiori, que Se encarnou para salvar as nossas almas e não para salvar os nossos corpos que a morte vai devorar, Ele deseja nos dirigir, nos fazer conhecer a verdade e o bem no campo espiritual.

O mais alto, o mais belo conselho é, evidentemente, a Deus Nosso Senhor, autor de toda verdade, de todo bem e de toda luz, que nós devemos pedir, e a atitude habitual de fazê-lo por meio de jaculatórias, deveria ser comum e corrente entre nós em todas as nossas perplexidades.

Como são os conselhos d’Ela?
Ora, Nossa Senhora é a intermediária de todas as graças; é Ela quem leva a Deus Nosso Senhor os nossos pedidos e é Ela quem traz para nós a graça do bom conselho, aquilo que o Espírito Santo comunica a Ela e que nós devemos saber para nossa orientação.

Como Nossa Senhora aconselha o íntimo de nossas almas? Ela o faz pela voz da graça, por meio de uma iluminação interior, de um discernimento especial, de uma palavra que vem de um bom amigo ou de um bom diretor, enfim, de um livro que encontramos. Foi, por exemplo, o que aconteceu comigo com O Livro da Confiança do Abbé Saint-Laurent, que tanto me ajudou nas vias da confiança. Eu o comprei apenas para agradar a um vigário amigo e gentil que me tinha convidado para ir a uma feira de livros.

De um modo ou de outro, Nossa Senhora nos faz chegar o conselho que nós queríamos.

Em todas as ocasiões é sumamente importante a invocação de Nossa Senhora enquanto Conselheira, enquanto Padroeira que pede a Deus que os montes se movam e os rios alterem o seu curso para que a axiologia do coração de seus filhos se desenvolva de um modo reto e satisfatório.

Conselhos vindos pela união de almas
Os bons conselhos aparecem na alma sobretudo pela voz da vocação. Sempre que ouvirmos algo em nosso interior ou fora de nós que está na linha da vocação; sempre que sentimos um movimento que nos dá, de repente, apetência de algum bem; sempre que a graça inspire dentro de nós apreensão diante de algum mal; sempre que recebamos uma influência que nos santifica, devemos tomar isso como um bom conselho.

O modo pelo qual nós recebemos de Nossa Senhora, permanentemente, bons conselhos, é nos unindo àqueles que devem ser os planetas em torno dos quais nós devemos gravitar como satélites. O satélite não sai da órbita porque ele gira em torno de seu planeta. Assim também nós não saímos da órbita se estamos unidos interiormente com os que devem nos aconselhar.

Não se trata apenas de pedir um conselho, mas de ter uma tal união de almas, que, por assim dizer, ambos tenham o mesmo espírito, a mesma mentalidade, a mesma vontade; seguir o que o planeta deseja, antes mesmo de o ter manifestado.

Há um exemplo maravilhoso de união de almas que eu estou lendo agora na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus: são as relações fraternas dela com Celina, irmã quatro anos mais velha do que ela. Durante muito tempo, Celina não foi carmelita porque cuidava do pai, Monsieur Martin, que estava muito doente. Santa Teresinha, já no Carmelo, se correspondia com Celina, e as cartas dela indicam essa união de almas. Celina teve a glória, não sei como qualificar, de ser, de algum modo, a inspiradora de Santa Teresinha. E Santa Teresinha, pela união de almas, quase que continuamente tendendo para Celina como para seu próprio polo. O que, evidente, nos dá uma vivíssima desconfiança de que Celina também venha a ser canonizada.

Vê-se aí quase uma espécie de fusão de almas, uma interpenetração por onde ambas vivem da mesma graça. E Santa Teresinha tem trechos de uma beleza inimaginável a respeito disso.

Esses são os moldes pelos quais nós recebemos os bons conselhos de Nossa Senhora. Os mais preciosos, fecundos e sadios dos bons conselhos imponderáveis dentro da alma, são os que nos vêm por certas ideias, movimentos interiores, sugestões que sentimos, os quais nos aproximam, nos integram na nossa vocação, e isso pela ação direta de uma alma, levando-nos para a santidade e para o bem.

Nós deveríamos pedir a Nossa Senhora que Ela, por essa forma, nos encha dos conselhos maternais d’Ela para assim alcançarmos não só a maior das uniões com Deus, mas sobretudo das uniões com Ela.

A Mãe do Bom Conselho, auxílio dos contrarrevolucionários
Nossa Senhora do Bom Conselho é a Mãe dos aflitos – aflitos, porque desorientados. Quem mais desorientado em nossos dias que o contrarrevolucionário? Tudo no mundo cotidiano, no mundo revolucionário, no mundo do caos, parece falar contra nós, mentir-nos e levar-nos para o erro e para o mal. Que remédio há para isto a não ser um bom conselho? E quem o dá neste mundo desvairado?

Ninguém mais e melhor do que Nossa Senhora do Bom Conselho! Ela é, portanto, por excelência, a Mãe e a Conselheira do contrarrevolucionário desgarrado nas aflições e nas penumbras, para não falar nas trevas do mundo de hoje.

Cabe aqui uma resolução prática para nossa vida espiritual: não fazermos nada de importante sem pedir a Ela um conselho. A Nossa Senhora nós devemos pedir tudo e com frequência, mesmo as coisas pequenas, porque Ela gosta de ser invocada também nas oportunidades aparentemente secundárias. Não sabemos resolver uma coisa? Rezamos: “Minha Mãe, aconselhai-me”.

O habitual pedido do bom conselho é uma postura altamente recomendável para o contrarrevolucionário. Nós vivemos numa batalha intelectual e doutrinária, somos envolvidos a todo instante pelas influências da Revolução; e, ainda que sejamos bons contrarrevolucionários e procuremos assumir com fidelidade a doutrina dada, sem embargo, a Revolução é de tal maneira envolvente, que muitos se queixam de notarem em sua alma permeações revolucionárias. Se assim é, haverá propósito melhor que o de pedir a Nossa Senhora que nos consiga as luzes e os conselhos e nos advirta sempre, no interior da alma, contra as coisas revolucionárias? Que Ela nos aconselhe sempre: “Meu filho, aquilo é revolucionário, não aceite. Aquilo é heterodoxo, não aceite. Aquilo conduz ao mal, é imoral, não aceite”.

Nesse sentido, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho é idêntica à invocação de Nossa Senhora da Fidelidade Contrarrevolucionária. É por meio das orações d’Ela que nós obteremos essa fidelidade.

Pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora
Nós podemos pedir a Ela que nos dê os conselhos não só em toda ocasião de dúvida, mas também naquelas ocasiões nas quais não temos dúvidas e nossa alma não se lembra de pedir, ou não tem vontade de receber os conselhos que nem pensamos serem necessários. Imploremos que Ela nos abra os olhos para aquilo que precisaríamos ver, dizendo: “Minha Mãe, dai-me o bom conselho que Vós julgais conveniente, mesmo numa hora em que eu não perceba ser aquele assunto importante”. Quer dizer, pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora.

Quantos praticam com muito resultado a devoção às almas do Purgatório, pela qual pedem a elas que os acordem de manhã cedo a tantas horas? Se as almas do Purgatório, por uma pequena oração, nos indicam a hora certa, quanto mais Nossa Senhora que é incomparavelmente superior a todos os santos e, portanto, também às almas do Purgatório. Ela tem uma ciência de Deus como ninguém; além do mais, Ela é Mãe de Deus e Onipotência Suplicante.

Bem entendido, esse conselho, no mais das vezes, não virá de modo extraordinário… As almas do Purgatório quando acordam as pessoas pela manhã, atuam discretamente. Nossa Senhora, a fortiori… Ela não aparece, mas desperta na alma certo pensamento, desvia o espírito para outro lado, nos faz notar, de repente, alguma coisa… Às vezes eu vejo pessoas abatidas, tristes, com perplexidades e eu tenho vontade de dizer: “Mas meu caro, por que você vem pedir conselho a mim? Você já pediu a Nossa Senhora do Bom Conselho? Não é uma coisa incomparável? Do que adianta eu lhe dar um conselho, se Nossa Senhora não reforçar o meu conselho junto à sua alma? Simplesmente pelo valor lógico do meu conselho, eu posso muito pouco. Pelo contrário, com o apoio d’Ela pode-se tudo”.

Peçam sem cessar o auxílio d’Ela e obterão uma renovação na sua vida espiritual, eficácia no seu apostolado, sagacidade nos métodos de ação em todos os campos. Ela sabe tudo, pode tudo e para nós quer tudo.

Pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora
É preciso admitir como provável que não estejamos todo o tempo juntos, e que em muitas ocasiões, pessoas às quais recorremos habitualmente para pedir um conselho não estarão ao nosso alcance. Teremos que resolver nós mesmos, e haverá o perigo de o desânimo e o desengano invadirem nossas almas e as fazerem cair no meio da via da confiança e do sucesso.

Nossa Senhora do Bom Conselho será, por excelência, nossa padroeira nesta via de encontrar o conselho que nos mantenha confiantes, certos de que aquilo que é axiológico acontecerá, e por essa maneira nos será dada a vitória.

Mais do que nunca, a festa de Nossa Senhora do Bom Conselho é a festa dos contrarrevolucionários. É uma festa individual de cada contrarrevolucionário, pois ele tem a alegria – que tão poucos homens na Terra têm – de voltar-se para Ela e dizer: “Mãe do Bom Conselho, Vós não me desamparareis. Tende pena de mim e dai-me uma orientação”. 

1) Cortina de ferro: expressão usada, durante a Guerra Fria, para designar a divisão existente entre os países capitalistas e socialistas da Europa.  2) Do francês: sonhadora.

Plinio Corrêa de Oliveira

26 de abril – IX A imagem-pináculo da devovo ção a Maria

IX A imagem-pináculo da devovo ção a Maria

No afresco da Mãe do Bom Conselho de Genazzano transparece a intimidade do Menino com sua Mãe, parecendo ambos estarem prontos para uma confidência. Do mesmo modo Nossa Senhora trata as almas de seus eleitos e, mesmo quando parece retirar-Se daqueles que A abandonam, conserva dentro da alma destes uma promessa de que retornará.

Pelos acontecimentos que vou narrar, veremos como Nossa Senhora trata as almas que Ela ama muito, das quais, porém, se afasta. Afasta-se, mas continua presente em estado de ruína dentro delas. Ruínas que falam, eu diria quase ruínas que cantam e que convidam para a reconciliação, para o perdão, para a reestruturação.

A veracidade da história se comprova
No século XV não houve grandes controvérsias a respeito da autenticidade do milagre do afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, mas, à medida que o racionalismo foi progredindo na Europa, as dúvidas começaram a nascer. E no século XVII se perguntavam: “Será que existiu na Albânia a igreja de onde ele saiu? Será que esse quadro veio da Albânia? Como se pode provar isso?” Ora, a Albânia se tornou, pela invasão, um país majoritariamente muçulmano. Isso explica bem porque Nossa Senhora a tenha abandonado. A nação albanesa estava separada da Itália por algo parecido com a cortina de ferro:1 era um país turco e a entrada de pessoas cristãs não era permitida. Da Albânia não se tinha notícia alguma. Entretanto, continuou a haver lá um certo número não tão pequeno de católicos, os quais se conservaram fiéis à sua Fé. Por razões ligadas à política – cujos pormenores não é o caso de explicar aqui –, foi permitido a esses albaneses católicos continuar com algumas práticas da Religião. Apenas no século XVIII, com a decadência do poderio turco, depois de tantos anos de separação, foi possível enviar alguns missionários italianos para a Albânia, que começaram a tomar contato com os católicos albaneses que estavam, até então, completamente isolados. Assim puderam informar-se com facilidade, de modo sumamente direto e, portanto, com toda veracidade, a respeito das circunstâncias da vida religiosa albanesa, mandando relatórios para a Santa Sé, como se faria em qualquer missão. O relatório explicava o que os críticos queriam saber: que existia, de fato, uma igreja da Anunciação, em Scutari. Nela constava que havia um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, o qual partira misteriosamente antes da dominação
turca. Tomou-se conhecimento também de cantos e hinos religiosos que o povo albanês cantava, pedindo a Nossa Senhora que voltasse porque estavam arrependidos.

Das ruínas, Nossa Senhora voltará a fazer reinar seu Imaculado Coração
Portanto, ficou um resíduo de fiéis o qual Nossa Senhora não abandonou. Mesmo tendo deixado a Albânia, Ela continuou a ter sua mão pousada lá, e o santuário em ruínas continuou habitado pela predileção d’Ela, passando a ser teatro de milagres e lugar de peregrinação. E aí se vê um deixar não deixado, um abandonar não abandonado, um retirar não retirado, quase mais bonito do que o ficar.

Quanta bondade de Nossa Senhora, quanta conservação de sua misericórdia! As punições d’Ela são de mãe que continua a conclamar para a penitência, para a emenda, para uma modificação de vida, e não para o abandono completo e a destruição da nação.

Todos esses fatos se deram porque Nossa Senhora quis conservar a fé entre os albaneses.

É a economia, o modo pelo qual Nossa Senhora não trata o comum das almas, mas as muito prediletas. Por aí se compreende como é a misericórdia d’Ela: mesmo quando Ela castiga e parece se retirar, conserva dentro da alma uma espécie de ruína, de permanência de algo que é um sinal de que Nossa Senhora não a abandonou inteiramente, pois ainda deseja e espera que essa alma seja reconduzida ao bom caminho. E esse algo é como uma lâmpada que se acende no meio das ruínas, é uma luz que continua a brilhar com graças que continuam a ser recebidas, é uma promessa de Nossa Senhora que diz que Ela ainda voltará e fará reinar a virtude, fará reinar seu Imaculado Coração nos lugares que Ela
abandonou.

Nesse sentido, eu acho que o afresco da Mãe do Bom Conselho é feito para o desfile inaugural do Reino de Maria. E aparecerá com uma grande ênfase. Pode-se imaginar que a Imagem apareça de corpo inteiro, falando, movimentando-se, enfim, como se Ela tomasse vida e depois voltasse para dentro do quadro.

Das ruínas, Nossa Senhora voltará a fazer reinar seu Imaculado Coração
Há um outro dado curioso: eu li, no livro do João Clá, que na Albânia Ela chamava-se Nossa Senhora dos Bons Ofícios e depois, em Genazzano, passou a ser chamada Nossa Senhora do Bom Conselho. Ora, “Bons Ofícios”, a meu ver, equivale a Auxiliadora, porque se alguém me fez bons ofícios, significa que me auxiliou em certas circunstâncias. Essa coincidência com a invocação da Virgem de Lepanto pareceu-me muito interessante.

Que imagem, como esta, pode ser apresentada como foco de devoção? Certas imagens de Nossa Senhora das Graças são muito expressivas, mas absolutamente não são como esta.

A meu ver, a escravidão a Nossa Senhora, ou seja, o pináculo da devoção a Ela, deve voltar-se normalmente para a imagem-pináculo, que é a Mãe do Bom Conselho.

Quando estamos diante d’Ela somos atraídos pela imagem e algo da doçura e da suavidade d’Ela comunica-se a nós, deixando-nos como que suavemente hipnotizados.

É incrível, mas o olhar d’Ela e do Menino chamam tanto a atenção…! Fica-se com os olhos fixos no afresco, desejando passar uma eternidade olhando-o. A tal ponto que há momentos em que não é possível sequer recitar o Rosário; é preciso parar de rezar… Fica-se sem saber o que dizer…é um milagre permanente.

O olhar do Menino Jesus tem o feitio de razão de um homem, por assim dizer; Ele é um varãozinho. O d’Ela é de Senhora, de uns trinta e poucos anos, mas não é tão determinado
como o do Menino Jesus, não tem os contornos do olhar d’Ele. É meio impreciso, nota-se uma certa incerteza. Entretanto, para ter o Menino com essa idade, Nossa Senhora deveria ser muito mais moça. A característica da infância n’Ele, no afresco, é precocemente maturada. É um Menino que sabe o que quer, dir-se-ia já dotado de razão, embora Ele não o deixe transparecer.

A testa de Nossa Senhora na fotografia é ligeiramente rosada. Ela está com uma espécie de liberdade, muito natural e quase suave. A cor do seu vestido é escura. As estrias, no fundo, são de cores vivas. Aquele como que fio de metal que sai da orla do manto, está muito costuradinho no tecido de cima, e faz gomos. Não tem nada de apertado, tudo é muito direito, muito natural.

Intimidade atraente, cheia de sobrenatural
Entre Nossa Senhora e o Menino Jesus há uma intimidade própria para uma confidência. É uma intimidade tão grande que a atmosfera está pronta para o Menino Jesus dizer uma coisa ao ouvido d’Ela, e Ela responder a Ele ou dizer algo a Ele, baixinho, e Ele responder. Não estão fazendo confidência, mas está tudo pronto para tal.

Imaginemos a língua que eles falavam, o aramaico. Por exemplo, no alto da Cruz Nosso Senhor disse a Nossa Senhora: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), com a conotação de “Minha Rainha, eis aí teu filho”. É preciso dizer, por mais que se admire, o latim não estava à altura d’Eles. A construção desse idioma é muito arquitetônica, muito raciocinada, mas não tem a graça, os afetos, o carinho do aramaico.

Por outro lado, contemplando a expressão fisionômica de Nossa Senhora, se eu não a interpreto mal, é um pouco rêveuse,2 de alguém que está se deleitando com a presença do
Menino Jesus e assim entregue a um grau de elevação sobrenatural muito alto; não é algo como tinha Santa Teresa de Jesus, mas discreto, suave.

Nesse relacionamento seria legítimo imaginá-Los prelibando o cálice da amargura. Não é isso, porém, que transparece no afresco. Tem-se a impressão de que o mistério da vida de Nosso Senhor o veriam depois, e de que, no momento, Eles estão com os olhos postos no encontro dos dois no Céu, onde, por toda a eternidade, Ele estaria num fastígio de glória inconcebível, mas unido a Ela assim, como no quadro.

Os atributos que lhe cabem por ser Mãe do Homem-Deus, Esposa do Divino Espírito Santo e Filha por excelência de Deus Pai são inenarráveis, celestiais. Evidentemente, não são contestados por nada na pintura, mas também não se deixam ver de propósito.

Parece que o artista conheceu Nossa Senhora nesta vida e acabou pintando algo do que ele viu n’Ela, sem estar glorificada, mas d’Ele e d’Ela pensando na glorificação. Podemos imaginar quando Ela ouviu Nosso Senhor dizer ao Bom Ladrão: “Hodie mecum erisin Paradiso – Tu estarás hoje comigo no Paraíso” (Lc 23, 43), como Nossa Senhora ficou alegre com isso, compreendendo que, no meio da noite em que Ele estava, a certeza de o Paraíso estar próximo O iluminava!

1) Cortina de ferro: expressão usada, durante a Guerra Fria, para designar a divisão existente entre os países capitalistas e socialistas da Europa.  2) Do francês: sonhadora.

Plinio Corrêa de Oliveira

03 de julho – São Tomé e as Santas Alegrias da Contrição

São Tomé e as santas alegrias da contrição

O Apóstolo São Tomé é um exemplo perfeito de como unir a alegria à tristeza na contrição. Ele pregou o Evangelho aos povos do Oriente, demonstrando como o verdadeiro arrependimento traz consigo uma execração do próprio pecado e uma admiração pela virtude alheia.

 

Por que Nosso Senhor disse que seus discípulos praticariam milagres ainda maiores do que os d’Ele? Qual é o princípio a que isso obedece?

 

Farão milagres ainda maiores
Não é fácil responder a essa pergunta, mas me parece que entre as múltiplas respostas que podem concorrer para a explicação do caso, há uma digna de nota. Quem viu Nosso Senhor, quem da divina boca d’Ele ouviu a sua doutrina, esse já tinha uma espécie de milagre evidente diante dos olhos. Era algo tão sobrenatural, tão divino, tão fora de qualquer proporção humana, que para um homem de fé já não seria necessária outra coisa.

Por essa razão também, Nosso Senhor censurou aqueles que Lhe pediam milagres. “Essa geração malvada e ingrata, só crê por causa dos milagres” (cf. Mt 12, 38-39). Há uma bem-aventurança, portanto, em crer sem os milagres. E a São Tomé Ele fez uma crítica análoga: “Tomé, tu creste porque viste; bem-aventurados os que não viram, mas creram” (Jo 20, 29). Era natural que quem tivesse contato com os Apóstolos, que continuavam a obra de Nosso Senhor, mas que não tinham – porque ninguém pode ter – a irradiação d’Ele, que esses fizessem milagres maiores.

Psicologia dos que necessitam de milagres para crer
São Tomé fez milagres espantosos. Um milagre se somava a outro. A cada vez o rei dizia: “Se vier mais um milagre, então eu crerei. São Tomé fazia um milagre talvez maior do que o anterior e o rei não acreditava. Por fim, o rei acabou expulsando-o do reino. É interessante fazer o estudo da psicologia dos que insaciavelmente necessitam de milagres para crer. De fato, estes não têm vontade de crer. E, por causa disso, um ou dois milagres que lhes poderiam bastar, para eles são insuficientes. Querem uma série de milagres. E quando estes os acachapam, matam ou expulsam quem fez o milagre! É a prova de que e para quem não quer, não há milagre que baste.

O homem pode sempre recusar o seu assentimento, e uma espécie de apetência de milagre, de fome de milagres, de evidência, denuncia, no fundo da alma, uma espécie de recusa preguiçosa da graça, como quem diz: “Eu não estou disposto a pensar, a me esforçar, a abrir a minha alma. Se
vós arrombardes a minha alma à força de milagres, então eu atenderei e crerei. Sem isto eu não crerei”. É um misto de preguiça, de alma estreita, fechada sobre si mesma, de recusa da graça. Por maiores que sejam os milagres, essas almas, muitas vezes – não digo sempre – acabam a cada milagre se tornando mais duras, recusando mais essa graça e acabam odiando aquele que praticou os milagres.

Há, portanto, algo que devemos considerar e que é a maldade humana: como o homem, viciado pelo pecado original e pelos consentimentos sucessivos que deu aos pecados atuais, pode ter a sua alma fechada para a graça de Deus; e como nada, a não ser certas graças fulminantes, e que às vezes não passam através dos milagres, pode abrir uma alma para as grandes transformações.

Eu tenho a impressão de que, por causa disso, certos povos ou certas pessoas muito supersticiosas são difíceis de converter, por precisarem
da ação palpável do preternatural sobre o natural para crer, não tendo a alma tão elevada, tão aberta, quanto a daqueles bem-aventurados que
não viram, mas creram.

São Tomé, alma ávida de execrar a própria falta
É interessante notarmos, por fim, a atitude de São Tomé. Ele andou mal. Ele duvidou da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e foi o único que não estava presente na Assunção de Nossa Senhora. Entretanto, ele foi objeto do maravilhoso carinho de Nossa Senhora.

Quando Maria Santíssima ia subindo ao Céu, Ela desatou a correia que Lhe servia de cinto e jogou do alto para ele, sendo o único que recebeu d’Ela um dom que valia quase mais do que ter presenciado a sua dormição. Assim são os castigos de Nossa Senhora: severos, enérgicos, maravilhosamente doces depois. De tal maneira enérgicos e de tal maneira doces, que não se sabe que mais admirar, se a energia ou a doçura. E propriamente o que extasia é a coincidência de tanta energia da doçura e de tanta doçura na energia. Não se compreende como numa alma podem caber coisas antitéticas em tal grau e completando-se de um modo tão magnífico.

São Tomé, convertido por essa doçura e, ao mesmo tempo, por essa severidade de Nosso Senhor, corroborado na graça por essa doçura e por essa severidade de Nossa Senhora, tornou-se uma alma verdadeiramente penitente.

Uma alma penitente odeia o pecado que cometeu
O que é uma alma verdadeiramente penitente? É aquela que, quando faz o mal, com vergonha e com tristeza, conta o mal que fez e gosta de
repetir que o fez . Aproveita as ocasiões que com naturalidade e compostura se lhe apresentam, para insistir em que fez mal. Faz uma espécie de flagelação de si próprio aos olhos dos outros e diz: “Em tal lance de minha vida, é bom que vocês saibam, eu andei mal. Aquele foi o mal que eu fiz; e eu o odeio tanto e me odeio a mim enquanto tendo feito aquele mal, que eu gosto de contar para os outros, para que me execrem por causa daquilo, porque eu me execro e sou faminto da execração dos outros”.

Tal é a alma verdadeiramente penitente: aquela que mesmo depois de se ter arrependido, de ter expiado, de ter praticado anos de virtude, ainda tem, diante de si, aquele pensamento de Davi num dos salmos penitenciais: “Peccatum meum contra me est semper. Tibi soli peccavi, et malum coram te feci – Eu pequei só na tua presença, ó meu Deus, e meu pecado está o tempo inteiro de pé diante de mim” (cf. Sl 50). Ou seja,
eu estou o tempo inteiro de pé diante do meu pecado e o meu ódio contra ele só se extinguirá com minha vida. Sempre que eu possa falar mal
dele e possa conclamar todos os povos a falarem mal dele e me ajudarem a execrá-lo, eu não deixarei de o fazer, porque eu odeio o meu pecado. E é só com isso que minha alma se aquieta.

Quem não gosta de ser repreendido, e quando é admoestado ouve com uma certa impaciência a repreensão, tendo alívio quando se muda de assunto, esse não tem o arrependimento verdadeiro dos seus pecados. O verdadeiro arrependimento é ter um ódio crescente ao próprio pecado. Quanto mais passa o tempo, tanto mais se compreende o mal feito e se o odeia, e tanto mais se tem um pesar daquilo e um desejo de ultrajar o mal feito.

Pontos para exame de consciência
São Tomé ia por toda parte evangelizar e não receava contar o pecado que cometera àqueles a quem queria atrair para a verdadeira Fé. Ele não teria receio de escandalizar? De causar má impressão? Não. A verdadeira penitência eleva, ajuda os outros a também se arrependerem, a até odiarem o seu próprio pecado. Isto é o que faz a verdadeira penitência.

Se nos voltarmos, nesse momento, para um exame de consciência sobre nós mesmos e nos perguntarmos a respeito de nossos pecados, qual é a nossa atitude? Quando há propósito, gostamos de contar os nossos pecados para pessoas que depois vão esgravatar aquilo e nos mostrar, ponto por ponto, as agravantes do que fizemos? Gostamos do contato das pessoas que nos punem pelos pecados que cometemos? Gostamos de nos lembrar do mal que fizemos e de fazer o papel de advogados contra nós mesmos, aduzindo, um por um, os elementos agravantes que possam nos ocorrer?

O fato de termos vivido longe da Igreja Católica, da influência de Nossa Senhora, de termos sido espíritos mundanos, orgulhosos, egoístas, sensuais, tudo quanto fizemos antes de nossa conversão, nós temos bem presente? Falamos mal disso? Censuramos? Gostaríamos que alguém nos censurasse?

Hoje em dia, em relação à tibieza, à mania de brinca-brinca, às faltas de correspondência à graça, à ingratidão em relação à graça, à vulgaridade de espírito, a quantas outras coisas
desse gênero, gostamos de que falem mal de nós a esse respeito? Temos sofreguidão ou somos lânguidos e indiferentes? Ou nós rugimos de raiva quando nos chamam a atenção?

Implacáveis conosco no julgamento de nossos próprios defeitos
Para concluir, devemos nos dirigir, neste ato, a todos os santos penitentes que há no Céu. Quantas almas foram penitentes nesta Terra? E no Purgatório? Devemos pedir que elas tenham pena
de nós, façam com que compreendamos o mal que fizemos, caiamos em nós e tenhamos as santas alegrias da contrição, a santa e jubilosa tristeza da contrição, aquele ódio ao mal, ao mal em nós, que é um dos pontos de partida do espírito contrarrevolucionário.

Que tenhamos probidade de nos considerarmos a nós mesmos, que sejamos implacáveis conosco no julgamento de nossos próprios defeitos. É isso que devemos pedir com toda a alma a esses santos, junto com o amor e a admiração pela virtude. Uma admiração enlevada, trazida pela virtude; a alegria de que outros foram inocentes, não praticaram o mal que nós praticamos; que os outros praticam um bem que não praticamos; a satisfação de nos sentirmos pequenos diante de nossos irmãos.

Excelente meio de reparação: alegria pela virtude dos outros
Devemos lembrar que a inveja da graça fraterna é um pecado contra o Espírito Santo. Quando vemos que um irmão é mais do que nós na ordem da graça e o invejamos, isso constitui um pecado. O contrário, a alegria pelo dom fraterno, dá glória ao Espírito Santo. E se nós queremos reparar os nossos pecados, um dos melhores meios de reparação é termos alegria pela virtude dos outros.

Pensarmos em tanta virtude de pessoas que nós conhecemos, em tanta virtude maior do que a nossa, nesse, naquele ponto . . . como são superiores a mim! “Meu Deus, eu Vos dou graças, eu Vos dou graças por vossa grande glória que brilha na pessoa deste, daquele ou daquele outro”.

Almas sem inveja, alegres da virtude dos outros, tristes pelo seu próprio pecado, estas são as almas nas quais Nossa Senhora entra e sobre as quais domina – Ela que é o templo do Espírito Santo – trazendo consigo o Espírito Santo; Ela que é Mãe de Deus Filho, trazendo consigo Nosso Senhor; Ela que é Filha do Padre Eterno, trazendo consigo o Padre Eterno.

Que Nossa Senhora faça germinar em nós o amor da Santíssima Trindade, nos dê esse espírito de contrição, Ela que é a Virgem das virgens, inocentíssima, mas pela qual passaram todas as graças de arrependimento, de atrição e de contrição, que encheram e encherão até o fim do mundo a face da Terra.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 21/12/1968)
Revista Dr Plinio 328 (Julho de 2025)

26 de janeiro – São Timótio – Audaz invectivador dos maus

São Timóteo - Audaz Invectivador dos Maus

Diante do mal e do erro, São Timóteo não temia uma atitude de ataque frontal. Sabendo que podiam lhe advir inconvenientes e perseguições, ele não se acovardava e assim sacrificou a própria vida. Há ocasiões nas quais devemos ser jeitosos e há momentos em que deve prevalecer a audácia..

No dia 26 de janeiro, a Igreja celebra a festa de São Timóteo, bispo e mártir. A respeito dele diz D. Guéranger:¹

Por sua fama de santidade, torna-se bispo de Éfeso
Timóteo, nascido em Listra, na Licaônia, filho de pai gentio e mãe judia, já praticava a religião cristã quando o Apóstolo Paulo chegou àquela região. Paulo, impressionado com a fama de santidade de Timóteo, tomou-o por companheiro de viagem. Contudo, por causa dos judeus que se convertiam a Jesus Cristo e que sabiam que o pai de Timóteo era pagão, Paulo o circuncidou. Quando ambos chegaram a Éfeso, o Apóstolo fê-lo bispo a fim de que governasse essa Igreja.

Paulo escreveu-lhe duas cartas, uma de Laodiceia e outra de Roma, para orientá-lo no exercício de seu cargo pastoral. Como Timóteo não podia aceitar que se oferecessem aos ídolos dos demônios o sacrifício devido somente a Deus, um dia em que os habitantes de Éfeso imolavam vítimas a Diana durante uma de suas festas, ele esforçou-se em dissuadi-los dessa impiedade, mas eles o lapidaram. Os cristãos o transportaram semimorto e o levaram a um monte nas proximidades da cidade, onde ele adormeceu no Senhor, no nono dia das calendas de fevereiro.

Após uma invectiva contra uma mulher culpada, inicia-se a perseguição: Ainda sobre São Timóteo, temos esta ficha narrando uma visão de Ana Catarina Emmerich:²

Timóteo, discípulo de São Paulo, foi feito prisioneiro na ilha de Quios, ao mesmo tempo em que o Apóstolo São João estava cativo na ilha de Patmos. Sempre o vi alto, moreno, magro e pálido. Foi muito estimado por todos. Mantinha uma comunidade de convertidos. Até os soldados que o rodeavam queriam-lhe bem. Havia uma mulher nobre, cristã, que caíra em grave culpa. Enquanto Timóteo celebrava os Sagrados Mistérios numa pequena igreja, já no altar, conheceu por revelação a culpa daquela pessoa que chegava à igreja para ouvir Missa. O santo bispo saiu então à porta e impôs penitência à mulher, impedindo-a de entrar. Em consequência disso, levantou-se uma perseguição contra o santo. Foi desterrado para a Armênia e libertado. São Paulo o enviou como bispo a Éfeso. Nessa cidade foi morto porque havia condenado com veemência as desordens e as orgias celebradas naqueles dias, com máscaras, levando ídolos em bacanais.

Ao aproximar ambos os trechos – a hagiografia histórica de D. Guéranger e a revelação mística de Ana Catarina Emmerich –, notamos uma concordância completa entre um e outro.

Resoluto em desmascarar o erro
É importante considerar aqui dois aspectos: em primeiro lugar, a coragem dele invectivando o culto a Diana. O templo dessa deusa, em Éfeso, era dos mais célebres da gentilidade, considerado uma das obras-primas do mundo antigo.

Eu cheguei a ver reconstruções desse templo e realmente era uma beleza! Uma construção de mármore branco que ficava no alto de uma escadaria e tinha a forma quase de um quadrado. A proporção entre a escadaria encimada pelo templo dava um aspecto muito bonito e agradável de se ver. O teto era também bem proporcionado e com uma figura no alto. Não era mais a arte grega pura, mas a helenística, que mistura algo do Oriente e que hoje é censurada pelos críticos de arte como pouco pura, mas que não deixou de inspirar algumas obras-primas muito importantes.

Ora, nesse templo, a deusa Diana operava toda espécie de ações maravilhosas, mirabolantes. Eram prodígios do demônio que agia por esse meio. E São Timóteo, indo àquele local e querendo fazer cessar esse culto, manifestou uma coragem, uma capacidade de enfrentar o adversário e uma decisão verdadeiramente extraordinárias.

Em consequência, o que aconteceu? Ele foi perseguido, lapidado e morreu.

O mesmo aconteceu no fato da mulher que foi à igreja onde ele ia celebrar Missa. Ele teve uma notícia de que ela pecara e achou que não podia deixá-la aproximar-se dos Santos Mistérios. Então exigiu que ela fizesse uma penitência na entrada da igreja. Ela não quis. Era uma mulher nobre. Naquele tempo a nobreza tinha uma grande situação, pelo menos em vários países. Entrevê-se pela narração que ela tomou uma atitude de revolta e açulou muita gente contra ele. Por isso ele quase morreu, foi expulso da cidade e exilado na Armênia.

No estandarte, um leão ou uma raposa?
Nos dois casos vemos a mesma atitude. Diante do mal e do erro, uma posição de ataque frontal e flagrante, sabendo que poderiam vir inconvenientes, perseguições. Ele não se incomodava e numa dessas ele sacrificou a própria vida.

Isso significa que se deva proceder sempre assim? Nós não podemos dizer que, muitas vezes, não procedemos assim? Mas muitas vezes não nos esgueiramos? Houve uma pessoa que, com certo espírito, declarou que o animal que deveria figurar em nosso brasão não era um leão, mas uma raposa, de tal maneira damos vueltas y vuelteretas. E é verdade que nosso leão sabe dar passos de raposa. Isso não tem dúvida nenhuma.

Saber quando imitar e quando apenas admirar
O que acontece na vida de certos Santos é que eles, por inspiração divina, têm uma linha de conduta que não é para ser seguida por todo mundo, mas é para inspirar atitudes em outros. São os tais Santos que fazem as coisas que são para serem admiradas e não são para serem sempre imitadas. Mas, na beleza da sua atitude, eles fazem algo que inspira outros a, no momento oportuno, fazerem o que eles fizeram.

É um pouco como São Francisco de Assis com seu pai. Pedro Bernardone brigou com São Francisco e lhe disse:
— Você não é meu filho!
São Francisco tirou a roupa, ficou quase nu diante do pai e respondeu:
— Graças a Deus, fique com essa roupa, porque eu não sou mais filho de Pedro Bernardone… Mais veridicamente que nunca eu posso dizer “Pai nosso, que estais no Céu…”

Não se deve deduzir daí que todo mundo que brigue com o pai deva tirar a roupa. Mas há algo no ato dele que inspira a tomar uma atitude enérgica nos momentos oportunos.

O Grupo tem lances de muita energia e de uma energia bravia. Mas há horas em que devemos ser audaciosos e há horas em que devemos ser jeitosos. Nós devemos admirar nos Santos a audácia e o jeito. Santo Inácio de Loyola foi extremamente audacioso e extremamente jeitoso. E São Timóteo é um Santo admirável, que nos mostra muita audácia.

Audaciosos e jeitosos
Alguém me perguntará: “Dr. Plinio, o que o senhor admira mais: a audácia ou o jeito?

Eu sou obrigado, pelas circunstâncias, a todos os jeitos e trejeitos, mas meu coração e minha alma vão para a audácia. Dizer de frente, dizer no duro, de uma vez, romper, enfrentar, rachar… oh, delícia! Oh, maravilha! Só de dizer isso eu floresço, se é que se pode dizer que um homem é uma flor. O que se pode fazer? Deus me livre de faltar com a audácia numa hora em que devo ser audacioso. Mas, Deus me livre de faltar com o jeito na hora em que tenho que ser jeitoso.

A audácia é uma virtude mais difícil que o jeito. Ela supõe que se arrisque a pele, enquanto muitas vezes o medo se camufla atrás do jeito.

De maneira que mais vale a pena insistir sobre a audácia do que sobre o jeito. Entretanto, quando eu notar que os membros do Grupo estão muito audaciosos, preparem-se, porque falarei sobre o jeito. Porque não há coisa pior do que uma audácia sem jeito.


1) Guéranger, Prosper. L’Année Liturgique. Le temps de Noël. 10.ed., Paris: H. Oudin, 1891, t. II, p. 434-435.
2) Beata Ana Catarina Emmerick. Visiones y Revelaciones Completas. Buenos Aires: Guadalupe, 1952, t. X, p. 307-308.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/1/1969)