11 de abril – Santa Gemma Galgani

Santa Gemma Galgani

Com traços harmônicos e ar de profunda reflexão, a fisionomia de Santa Gemma Galgani expressa algo de extraterreno. Ela possui uma espécie de altivez e pureza angélicas; sua cútis, impalpavelmente resplandecente e luminosa, exprime a pureza virginal que há nesta santa.

O olhar é de quem tem cogitações que não são desta Terra. E não é tanto o olhar de um pensador, mas é o olhar da mística que está embebida do que vê.

Percebe-se nela a virtude da fortaleza muito saliente: o que ela quer, quer mesmo. Mas, o que ela quer? Servir a Deus e a Nossa Senhora. E esse rumo, sejam quais forem os obstáculos, ela o seguirá!

Eu diria que Santa Gemma é uma representação física, corpórea, da mulher forte do Evangelho: uma pérola rara, de preço incomparável, que compensa ir até os confins do universo para encontrar.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/1/1986)

07 de abril – São João Batista de la Salle e o sofrimento pelo autêntico apostolado

São João Batista de la Salle e o sofrimento pelo autêntico apostolado

“O verdadeiro apóstolo tem de sofrer e dar sangue de alma pela obra que deseja realizar” — afirma Dr. Plinio, ao comentar os mais salientes aspectos da vida de São João Batista de la Salle, cujos esforços e padecimentos para estabelecer o ensino religioso nas escolas primárias, redundaram em preciosos frutos de santidade e de virtude para católicos do mundo inteiro.

Sobre a vida de São João Batista de la Salle nos são apresentados alguns dados biográficos, colhidos no livro Saints de France (Santos da França), de Henri Pourrat.

Organizador do ensino primário católico gratuito

São João Batista nasceu em Reims em 1651, de uma família de magistrados. Menino ainda, em meio a uma festa, sentiu uma náusea profunda de tudo quanto o rodeava. Dirigiu‑se a uma prima, que só conseguiu consolá‑lo, lendo para ele uma vida dos Santos. Com 17 anos, tornou‑se cônego, colocando‑se sob a direção de M. Tronson, conhecido como excelente diretor espiritual. Perdendo seus pais, precisou cuidar de seus irmãos.

Nesse época, em Rouen, uma senhora fundara uma escola gratuita para meninas órfãs. Em Reims, quiseram imitar esse exemplo, mas para os meninos. M. Nyel, encarregado de iniciar as suas funções de educador nessa cidade, foi hospedado por São João Batista, que escreveu então:“Se, [antes de abraçar minha vocação], eu soubesse que a simples caridade que eu tomava para com os mestres de escola, transformar‑se‑ia no dever de morar com eles, eu os teria abandonado. Porque como eu colocava abaixo de meus criados as pessoas que trabalhavam em escolas, o único pensamento de que seria obrigado a viver com eles me pareceria insuportável”.

E assim começou a missão de São João Batista. A organização do ensino primário católico gratuito, e dos Irmãos das Escolas Cristãs.

Sofrimentos e injúrias

E com isso, seus sofrimentos. Sua cidade natal, seus parentes, puseram‑se contra ele. Escrevendo suas regras para seus irmãos, quis que vivessem confiados na Providência. Seus companheiros murmuraram que isso era fácil para ele, cônego. Abandonou então a sua posição e distribuiu seus bens. Os discípulos murmuraram agora ser crime distribuir bens senão entre eles mesmos.

Organizado o Instituto e as escolas, começaram as perseguições dos mestres‑leigos. Seu hábito simples mereceu‑lhe vaias na rua e a injúria de lhe lançarem lama no rosto.

Amarguras até “entrar na terra prometida dos eleitos”

Mais tarde, difundindo a comunhão freqüente, e recebendo cheio de alegria e submissão a bula “Unigenitus”, João Batista é atacado pelos jansenistas, e abandonado pelos próprios irmãos. Idoso e alquebrado por suas austeridades, em 1717, la Salle pensa em descansar no noviciado de Saint Yon, mas o padre que o serve em suas doenças, o maltrata. E dois dias antes de sua morte, em suas querelas religiosas, o arcebispo de Rouen tira‑lhe todos os poderes, como a um padre indigno.

“Espere — diz João Batista com um sorriso — que logo serei libertado do Egito, para ser introduzido na verdadeira terra prometida dos eleitos”. E ele conseguiu isso, na Sexta‑Feira Santa de 1719.

Relaxamento do empenho apostólico

Para bem situarmos a pessoa de São João Batista de la Salle em meio às vicissitudes por ele vividas, devemos considerar que, naquela época, em virtude das guerras de religião — muito exacerbadas na França — entre protestantes e católicos, que desorganizaram profundamente a estrutura eclesiástica da Igreja Católica, de um lado; de outro, em virtude do fato de que os efeitos salutares da Contra‑ Reforma haviam passado, estava se reintroduzindo nos fiéis, e também no clero, um grave relaxamento de costumes e de empenho apostólico.

Como resultado dessa tibieza, procurava-se muito o apostolado junto aos mais ricos, aos nobres, às pessoas importantes da corte, aos magistrados, enfim, às pessoas que, a qualquer título, tivessem um situação social. Em contrapartida, desdenhava‑se o apostolado junto aos pobres e, especialmente, os meninos carentes. Noutros termos, favorecia-se antes as relações que pudessem trazer vantagens, com detrimento para a gente desprovida de recursos.

Resultado, imensa quantidade de crianças do povo crescia sem ter formação ou ensino religioso.

À procura dos abandonados

Ora, São João Batista de la Salle nascera numa família de magistrados e, portanto, de certa categoria. Além disso, tornou-se cônego, e os cônegos naquele tempo possuíam rendas. Poderia ele, portanto, seguir o movimento geral e candidatar‑se com seu título de cônego para frequentar meios mais gabaritados que os dele. Poderia almejar uma boa carreira eclesiástica, eventualmente como bispo, talvez cardeal. Entretanto, São João Batista de la Salle segue uma orientação diversa.

Pessoa modelar que era, abnegado, desinteressado dos bens desse mundo, vai procurar aqueles que estão sendo abandonados, e constituiu uma congregação religiosa de irmãos leigos, especialmente destinados a ensinar a religião para as crianças.

Catequista primoroso

Há outro aspecto que merece ainda mais nossa consideração. São João Batista de la Salle foi um exímio professor de catecismo, e desempenhou essa função santamente, ou seja, perfeitamente. Existem modos de lecionar o catecismo em nível primário, de maneira que se marque o rumo da alma para a vida inteira. E pessoas há que se mantiveram firmes na virtude e no ideal católico, ao longo de toda a sua existência, por causa de uma catequese bem dada. São João Batista de la Salle foi desses primorosos catequistas, ensinando os fundamentos do catolicismo com toda a atenção, o recolhimento e a influência que pode haver na lição de catecismo proferida por um santo.

Mas, fez ele coisa muito melhor. Não apenas deu aulas, como fundou uma congregação religiosa voltada para a catequese no ensino primário. Ou seja, suscitou vocações de homens que deixaram o mundo para se consagrar exclusivamente ao ensino do catecismo. Portanto, milhares de pessoas que, desde aquela época, têm passado a maior parte de suas vidas nessa nobre tarefa.

Admirável baluarte de Contra-Revolução

A congregação de São João Batista de la Salle se estendeu por inúmeros países e, ainda hoje, é uma das pujantes instituições da Igreja Católica, tornando-se a esse título um admirável baluarte de Contra‑Revolução.

Digna de todo louvor é a pessoa que realiza de modo altíssimo aquilo a que foi chamada. São João Batista de la Salle é uma delas. Esforçou-se, empenhou-se, obteve êxito no seu apostolado. Sua congregação prosperou e fez o bem pelo mundo afora. Essa é a linha mestra do apostolado dele. Um homem chamado por Deus, atendeu ao apelo divino e realizou sua vocação.

Sofrimentos e contrariedades

Agora, em torno dessa linha mestra, de um traçado límpido como um canal, aparecem as sinuosidades dos sofrimentos, das dificuldades, das oposições que ele encontrou à sua frente. Cumpre tê-las presente, para se contemplar, na sua verdadeira perspectiva, a vida e a obra de São João Batista de la Salle. É bela a luta que ele teve de enfrentar contra tantas incompreensões, das quais as mais dolorosas vieram da parte dos seus próximos.

Uns se arrepiaram diante de um quotidiano confiado apenas à Providência, sem rendas nem patrimônios garantidos: “O senhor é cônego, tem bom ordenado, é fácil confiar na Providência quando, todos os meses, cai um montante na sua bolsa. Mas, para nós, coitados, onde está o nosso dinheiro? Queremos patrimônio!”

São João Batista de la Salle renuncia ao seus próprios bens, e a reclamação passa a ser outra. Ele diz:

— Pronto. Estou pobre como vocês.

— Que loucura! Dispensar esse dinheiro! Era só o que tínhamos! É um crime!

Ou seja, aqueles mesmos que deviam apoiá-lo e ajudá-lo na sua obra, não compreendiam todo o alcance do que ele desejava fazer. Muito lhe terá custado passar por essas adversidades, até que os horizontes se clareassem e seus seguidores se pusessem à altura do santo.

Outra contrariedade a vencer: tornar-se professor primário. Percebe-se pela narração que ele, em virtude da formação que recebera na família, não tinha em grande conta a figura de mestre-escola, “colocando-a abaixo de seus criados”. A Providência bate à porta de sua alma e lhe chama: “Meu filho, convido-o para ser professor primário e catequista”. Sem hesitação, ele deixa as honrarias e antigos hábitos, aceita o chamado e passa a viver no meio dos professores primários. Pode-se bem conjecturar que São João Batista esperasse encontrar, entre esses últimos, uma acolhida amável e um trato afetuoso. Não! Mais incompreensões, vistas limitadas, estupidezes.

Regou com o próprio sangue a árvore de sua obra

Ele adota uma vestimenta muito simples, para indicar a modéstia da profissão e das suas condições. Em lugar de respeito, as pessoas o vaiam na rua e chegam a jogar-lhe lama no rosto. Para onde se voltasse, encontrava ele recusa e maus tratos. Apesar de tudo, sua obra caminhava e prosperava.

Quer dizer, a Providência quis que ele sofresse tanto para, com os méritos dos seus padecimentos, com seu sangue, regar a semente que lhe fora confiada plantar e fazer vicejar.

Permitam-me chamar a atenção para essa regra da qual não se esquiva nenhuma obra apostólica: o apóstolo autêntico, ou sofre e dá o sangue de alma — mais dolorido e precioso que o do corpo — pelo que deseja realizar, ou absolutamente não é apóstolo.

Todo apóstolo tem de sofrer. E uma das suas aflições mais pungentes é a de se sentir, de um lado, chamado a empreender uma obra, e, de outro, perceber as ondas contrárias que parecem tornar sem sentido o chamado que recebeu. Essa coarctação da vocação, esse enfrentar obstáculos que parecem opor‑se à via do Espírito Santo, constitui uma das dilacerações mais penosas que uma alma pode sofrer.

De maneira que São João Batista de la Salle agiu como verdadeiro homem de Deus, suportando todas essas contrariedades. Por fim, a morte o libertou de tudo, e ele encontrou a sua coroa no Paraíso.

A nós cabe admirar e imitar esse modelo de santidade, de confiança e de resolução que levou a bom termo a obra para a qual a Providência o suscitou. Obra cujos frutos enriquecem e torna mais digna de nosso amor a Igreja Católica Apostólica Romana.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 15/5/1971)

07 de abril – Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus

Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus

Em plena Idade Média — a era das grandes batalhas travadas em defesa da Fé — pode-se contemplar uma alma repleta de respeito pelo sobrenatural ao lado de uma ternura e candura ímpares: Santo Hermano, o amigo do Menino-Deus!

 

Embora pareça paradoxal, há um princípio de ordem pelo qual uma virtude, quando integramente observada, atrai a si a prática de outra, muitas vezes oposta e simétrica à primeira. Como no-lo demonstra a Idade Média — que sob diversos aspectos, fora um período de combatividade, de luta, e de seriedade —, apesar de ser a era da piedade, nutrida de grande respeito, adoração, e humílima veneração ao divino e ao religioso, não obstante, foi também a idade da ternura e da candura. Embora pareça paradoxal, há um princípio de ordem pelo qual uma virtude, quando integramente observada, atrai a si a prática de outra, muitas vezes oposta e simétrica à primeira.

Como no-lo demonstra a Idade Média — que sob diversos aspectos, fora um período de combatividade, de luta, e de seriedade —, apesar de ser a era da piedade, nutrida de grande respeito, adoração, e humílima veneração ao divino e ao religioso, não obstante, foi também a idade da ternura e da candura. Aparentemente contraditórios, esses aspectos são, em realidade, apenas opostos, e demonstram a riqueza da alma medieval enquanto observante da Lei de Deus.    

Em meio à era das grandes batalhas, duramente travadas em defesa da Fé, pode-se entrever uma vida modelar, cheia de ternura e graça, que prenunciava de modo maravilhoso a Pequena Via idealizada por Santa Teresinha do Menino Jesus, pois esta via de santificação seria mais compreensível para os horizontes do homem medieval, do que para as espiritualidades posteriores, enregeladas pela Renascença e pelo processo revolucionário então nascente.  

Amigo e companheiro do Menino-Deus

A vida de um humílimo sacerdote premonstratense — o qual brilhou intensamente por sua virtude, delicadeza e ternura — foi expressão encantadora da espiritualidade medieval. Trata-se de Santo Hermano José.

Seus traços biográficos foram retirados da “Vida de Santos” de Englebert, como também de “Na Luz Perpétua” de Lehmann:  “Este bem-aventurado foi não somente um dos maiores devotos de Nossa Senhora, como um dos grandes contemplativos medievais”. É necessário, para bem compreender sua vida, considerar que ele fora grande escritor, redigindo obras de Teologia, além de outros tratados, e, portanto, um homem de alta cultura.

Todavia, sua vida sobrenatural iniciou-se quando era apenas menino. “Nasceu em Colônia, em ano desconhecido, no século XII, de uma rica família que empobrecera.”Nasceu, portanto, no apogeu da Idade Média, assemelhando-se com o Menino Jesus, que era de uma grande família que empobrecera“. Desde muito criança, procurava os altares da Santíssima Virgem e com Ela conversava longo tempo”. Certamente numa igrejinha do campo, ou na própria Catedral de Colônia, o pequeno Hermano, no altar de Nossa Senhora, aos pés da imagem, conversava por longo tempo com Ela.

Este fato faz sentir uma atmosfera delicadíssima da biografia dele.“Sua simplicidade era encantadora. Certa ocasião, trouxe uma maçã e pediu à Mãe de Deus que a aceitasse; a imagem da Virgem moveu-se e estendeu a mão para receber a oferta”. Para a Europa, a maçã é uma fruta banal, como a laranja para as nossas terras. Por isso mesmo vê-se a inocência dele, ante a grande bondade de Nossa Senhora. 

Por simples e comum que seja a oferta, é oferecida por um filho, e Ela toma aquele gesto cheia de encanto e amor.  “Outra ocasião, ao chegar à igreja, viu a Rainha do Céu em meio a grande esplendor, tendo a seu lado São João, que brincava com o Menino Jesus. Hermano ficou contemplando a cena, quando a Virgem o chamou.

Rapidamente ele subiu os degraus do presbitério, mas a grade fechada impediu sua passagem. ‘Não posso subir – disse a Maria Santíssima –; a porta está fechada e não há escada para eu trepar por cima da grade’. Maria ensinou-lhe, então, a fazer do gradil escada e subir. Penetrando assim no coro, recebeu licença para brincar com o Menino-Deus.” 

Era por certo São João Batista que brincava com o Menino Jesus, do qual ele era parente.Não seria difícil imaginar a bondade da Rainha do Céu indicando ao pequeno Hermano: coloque os pés aqui, segure ali, e então desça pelo outro lado. E por ser inocente, ele tomava com inteira naturalidade tudo o que se passava, sendo nada menos que companheiro do Menino Jesus e de São João Batista! Todos estes fatos fazem sentir de algum modo o sabor da Pequena Via.    

Por que andas descalço?

“Num dia de inverno, dirigiu-se descalço à igreja, e enquanto rezava no altar da Virgem, esta lhe perguntou: ‘Hermano, por que andas descalço neste frio?’ E a resposta de Hermano: ‘Porque não tenho calçado.’ A Virgem, então, deu-lhe a quantia necessária para comprar sapato”. Até a estes aspectos chegava a preocupação e a ternura de Nossa Senhora, para que ele não andasse descalço.

Todos estes tocantes fatos da vida de Santo Hermano José prestam-se perfeitamente para a pintura das inocentes iluminuras medievais.“Toda a vida desse santo foi assim povoada de visões e êxtases. Aos 12 anos entrou para a Ordem dos premonstratenses de Steinfeld”. Pode-se entrever a familiaridade contínua com o sobrenatural que o marcou por toda a vida. 

Homem preso a Deus

Ordenado sacerdote, foi encarregado de dirigir alguns conventos de religiosas, para as quais escreveu diversos tratados de piedade e um comentário do “ântico dos Cânticos.

Quão valiosas deverão ser essas meditações sobre o Cântico dos Cânticos, comentadas por um homem de tão grande alma. Entretanto, não raras vezes, são estes livros repletos de preciosidades que inexplicavelmente desaparecem aos olhos dos homens, sendo descobertos apenas por uma longínqua posteridade. “Compôs vários hinos, sendo de sua autoria o mais antigo hino ao Coração de Jesus: “Summus Regis, cor aveto!” Sua vida foi de ininterrupta penitência, atacado de tentações e doenças. 

Sofria de contínuas enxaquecas que só cessavam quando subia os degraus do altar para celebrar, mas que redobravam de violência quando se aproximavam as solenidades litúrgicas.  Jogando com as palavras, ele dizia a propósito: “Festae sunt mihi infestae” – as festas são para mim nefastas. Seu pensamento estava sempre tão preso a Deus, diz seu biógrafo, que lhe era indiferente o curso do mundo.  No entanto, seu coração era como um hospital geral, onde, a começar pelos aflitos e confrades, todos os homens encontravam terno acolhimento e seguro refúgio”. A melodia desses hinos compostos por ele deve ser de grande beleza e piedade, e a letra, de riqueza sobrenatural. 

Tal a vida, tal a morte“Morreu Hermano, que adotara o nome de José por permissão especial da Virgem, em 1241. Seu corpo foi, mais tarde, encontrado intacto.”Há coisa mais bela que, anos após a morte de alguém, abrir-se o caixão e encontrá-lo intacto? Pois bem, lá estava Santo Hermano revestido de seu hábito premonstratense, reclinado no caixão, com ar de quem ainda está compondo seu último hino ou tendo sua última visão. Seria altamente repousante conhecer este santo e com ele poder conversar. E aproximando-se de joelhos pedir: “Por favor, poderia contar-nos como foram as suas visões?” Ele, então, recolhido e luminoso responde: “Com quanto gosto! Qual delas quer?” 

Certamente não conseguiríamos encerrar o diálogo antes de, maravilhados, conhecermos todos aqueles tocantes encontros dele com a Santíssima Virgem e seu Divino Filho. Pode-se compreender, através desta cogitação, o que será o convívio celeste, pois haverá inumeráveis almas como a de Hermano. E figurativamente, ao passar pela primeira “esquina” do Paraíso Celeste, deparando com um ancião de muitos dias, perguntar: — Quem sois vós? — Sou Hermano. 

E sentando-se em uma nuvem, ou em uma pedra preciosa diante de um rio, onde cantam os pássaros, ele calmamente descreve toda a sua vida. Se houvesse tempo no Céu, se lá houvesse minutos, o quanto não se daria para ver, por apenas um minuto, o sorriso e contemplar a santidade de Santo Hermano! 

Em meio às coisas horrorosas, disformes e incongruentes do mundo hodierno, Santo Hermano passa diante de nós como um anjo em meio às chamas do Purgatório. Lendo a sua vida é possível… é possível pensar: “Afinal, um consolo: um dia irei ao Céu. E lá encontrarei Santo Hermano”. Aqui fica um orvalho de esperança do Céu, enquanto tem de se batalhar na fornalha de nossos dias.

Plinio Corrêa de Oliveira, (Extraído de conferência em 6/4/1967)

05 de abril – A festa da seriedade triunfante

A festa da seriedade triunfante

A paz de alma é uma disposição pela qual a pessoa, colocada diante das piores dores, não sofre fratura em seu princípio axiológico. Ela compreende que a vida é assim e tem de ser assim. Portanto, não se agita, não se convulsiona, não se entrega a frenesis ou manifestações de inconformidade sem propósito. Pelo contrário, sabe que tudo se passa dentro das normas.

O ideal é quando a pessoa possui um temperamento tão dócil que não precisa fazer esforço para manter-se nesse estado de espírito. Para outros, de temperamento agitado, será necessário lutar, e nisso há um mérito especial.

Este é o primeiro ponto: considerar que o sofrimento é normal e parte integrante da vida, faz bem às almas e dá glória a Deus.


A dor, um “nonsense”?

A esperança de passar uma vida sem sofrimento é das mais mentirosas que possa haver. Segundo a concepção mundana, “coitado” é aquele a quem acontecem habitualmente infelicidades. Ele deve se conformar, porque “não tem remédio”.

É como alguém que nasceu, por exemplo, com uma doença na espinha dorsal, é paralítico, passa a vida numa cama. Não há o que fazer. A ideia que fica é: “Há gente que nasce assim, mas não sou desses, nem sequer posso pensar nisso. Isso é um absurdo.”

Então, a dor apresenta-se como o grande nonsense¹ e a alegria como o único sentido da vida. Resultado: a pessoa se apega enormemente a essa noção.

Olha, por exemplo, para seus próprios parentes: são todos ricos, bem instalados, não enfrentam contrariedades, os negócios dão certo, os planos de viagem não são perturbados, têm as relações que querem e evitam as que não desejam. Enfim, fazem a vida como lhes apetece. São “felizes”.


Mania do riso, negação da seriedade

Se considerarmos verdadeira essa teoria – que, na realidade, é infame –, o riso torna-se a atitude habitual do homem. Tudo quanto leva a pensamentos tristes é absurdo, porque perturba a alegria, considerada a finalidade da vida.

Nesse sentido, a seriedade seria irmã, filha ou mãe da melancolia. Logo, é preciso não ser sério, mas brincalhão, engraçado, viver rindo o dia inteiro. Se, durante o dia, houver vinte oportunidades de rir e de estar contente, tem-se um “bom dia”. Fora disso, nenhum dia seria bom.

Não é preciso ser adulto para ter essa mentalidade. Muitos meninos estudam pouco porque acham absurdo ter de estudar, pois isso “rouba” a alegria. Querem apenas uma vida de eterno feriado.

E, se alguém pergunta a um deles:

— Mas você não pensa que se tornará um adulto ignorante?

Ele responde:

— Não tem problema.
Desde que eu seja rico e possa me divertir, cultura, talento e todos os outros atributos humanos não têm importância nenhuma. É preciso ter dinheiro, vestir-me bem, frequentar o meio social que eu quero e rir, rir, rir o tempo inteiro.

Essa se torna a finalidade da vida. A seriedade torna-se impossível, pois tal mentalidade é a negação mais rotunda dessa virtude. O homem contemporâneo foi habituado a esse estado de espírito.

Ora, exatamente o contrário disso nós devemos adquirir.


Qualidade de sub-homem

Qual é o oposto desse estado de espírito? Antes de tudo, é compreender quão desprezível é uma pessoa que não possui as qualidades verdadeiras do homem.

O seu pensamento é como uma cartilagem inconsistente: só pensa asneiras. Sua vontade é como um leme quebrado: incapaz de indicar o rumo do navio. Sua sensibilidade é como a de uma pele doente: dolorida ao mínimo toque, incapaz de suportar o menor sofrimento.

Quem não é capaz de entender, admirar, querer ou fazer qualquer coisa um pouco acima do nível do chão não é um homem, mas um sub-homem, um bicho. Os passarinhos levam essa vida: se é agradável voar de um galho a outro, lá vão; se querem esvoaçar perto de um tanque, lá estão. Fazem apenas o que é deleitável, guiados pelos instintos.

Pois bem, assim agem certos homens. Uma pessoa que recebeu essa formação desde pequeno, e não foi habituada a reagir adquirindo um estado de espírito oposto, inevitavelmente desemboca na quarta Revolução, cuja essência está expressa num dos slogans da Revolução da Sorbonne: “É proibido proibir.”


Necessidade do árduo

Entretanto, isso se liga a outra realidade: o espírito humano bem construído possui tendências pelas quais, em certo momento, deseja realizar grandes ações.

É como um jovem que, de vez em quando, quer subir uma montanha, atravessar a nado uma baía, participar de um torneio de esgrima, fazer algo difícil. Seu corpo e sua sensibilidade têm necessidade do árduo, do grande, para se sentirem proporcionados às potências que não podem permanecer adormecidas.

Daí a existência de campeonatos — alguns medíocres — mas que, afinal, exprimem de algum modo essa necessidade. Daí também a nobreza do risco bem calculado. Se, diante de um risco, o indivíduo percebe ser capaz de enfrentá-lo e sair-se bem, e então se lança, essa atitude é nobre, elevada. A própria palavra “nobre” começa a ter sentido para ele.

Mesmo a melancolia e a tristeza podem acrescentar algo à sua alma. Por exemplo, a tragédia grega, com tudo o que tem de horrível, acaba sendo bela; e o homem, ao lê-la, acrescenta algo ao seu espírito.


Páscoa: seriedade gloriosa e triunfante

Esse mesmo homem, colocado diante da leitura da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e das cerimônias da Semana Santa, tem a alma naturalmente disposta a corresponder à graça específica desses Mistérios da Vida do Redentor.

Ele vê o que Nosso Senhor fez de insigne e admirável e, estimulado por isso, diz:
“Eu também quero! Ainda que me venha um sofrimento tremendo, desde que eu O imite e seja um só com Ele, eu quero!” — É algo admirável!

Só então o homem começa a conceber o encanto das coisas vistas em profundidade, a compreender o aspecto do universo que conduz a Deus; aprende a elevar o espírito para os destinos eternos, para a adoração, para o serviço e para a glória de Deus.

Isso confere ao homem a solidez e a seriedade devidas. Ele introduziu em seu “mobiliário” mental o mais belo dos ornatos: a Cruz de Cristo. Porque compreendeu que nunca se fez coisa mais bela do que o Homem-Deus ter querido sofrer tudo quanto sofreu, da parte de homens que não tinham nenhum direito de fazer o que fizeram — homens infames, grosseiros, sem-vergonha. Nosso Senhor aceitou isso imediatamente, por um povo ingrato e por discípulos infiéis. Um nonsense aparente, mas sustentado no peito! Assim é: vitorioso!

Neste sentido, pode-se dizer que a Páscoa da Ressurreição é a festa da seriedade triunfante — não a seriedade esmagada, melancólica e triste, mas gloriosa, brilhando com todas as luzes de Deus.


¹ Do inglês: disparate.
(Extraído de conferência de 26/1/1989)

05 de abril – Dique levantado contra a Revolução

Dique levantado contra a Revolução

No século XIV havia grande putrefação do clero, cuja consequência era a corrupção dos fiéis. Assim, toda a Idade Média entrava em deterioração moral, com uma explosão de orgulho e de sensualidade, a qual geraria depois os desvios intelectuais. Contra esses vícios lutou São Vicente Ferrer.

 

Devemos comentar uma ficha referente a São Vicente Ferrer. Sobre ele diz o Padre Rohrbacher(1):

Repreendia os vícios não só do povo, mas dos príncipes e prelados

Vicente Ferrer nasceu na Espanha, em 1357. Sua vocação foi anunciada a seus pais de forma miraculosa, antes de seu nascimento. Ao seu Batismo acorreu toda a cidade de Valência, sendo seus padrinhos os membros do Conselho Municipal. Entrou para a Ordem Dominicana aos dezoito anos, revelando logo rara inteligência e dotes para a pregação.

Em 1405, o Papa Bento XIII chamou São Vicente Ferrer a Gênova, onde este santo pregador recebeu do doge grandes demonstrações de respeito e consideração. Mas como lhe pedissem que usasse do crédito que tinha ante esse magistrado para que salvasse a vida de um homem de Valência, condenado à morte por seus crimes, demonstrou São Vicente tanto zelo pela justiça que, embora o criminoso fosse de seu país, julgou que não devia interceder por um homem que não merecia. Tudo que fez foi pedir que mudassem o gênero de seu suplício.

Vemos aqui a ideia oposta à que a “heresia branca”(2) quer inculcar sobre como deve ser necessariamente um Santo. Sem dúvida, é próprio a um Santo pedir que seja indultada uma pessoa ameaçada pela pena de morte. Mas isto desde que haja propósito, uma razão de ser. Não havendo, o Santo não o faz porque ele procede em tudo com conta, peso e medida e, sobretudo, sabe haver circunstâncias nas quais a pena de morte não só é indicada, mas não deve ser revogada.

É o contrário da noção que muitas pessoas têm de um Santo. Para essas, a pena de morte é intrinsecamente má e um Santo deve sempre pedir que não seja aplicada. Segundo essa mentalidade, quem for solidário com a execução da pena de morte passa por ser um indivíduo necessariamente de mau coração. Não é um “homem de boa vontade”, para usar a expressão tão cara e deturpada em nossos dias. Aqui temos uma colisão entre o procedimento de um Santo e as ideias da “heresia branca” a respeito de santidade que circulam por aí.

Repreendia São Vicente, com uma autoridade cheia de audácia, os vícios não só do povo, mas ainda dos príncipes e prelados. E não perdoava ninguém cuja conduta escandalosa era digna de reprovação. Entretanto, tinha certa moderação e cuidado para com os eclesiásticos, para salvar a honra de seu caráter, fazendo a reprimenda em particular. Fazia o mesmo com as religiosas que tinham dado margem para que falassem pouco lisonjeiramente de suas condutas.

Evidentemente, sendo possível repreender em particular é muito melhor. Porém, uma pessoa imbuída da mentalidade “heresia branca” objetaria: “Um Santo não repreende prelados, porque acha que todos eles são santos…”

Deve-se estudar para dar glória a Deus e santificar a própria alma

Conselhos de São Vicente aos que estudam: quereis estudar de maneira a vos ser útil? Que a devoção vos acompanhe em todos os vossos estudos e vosso fito seja alcançar a santificação, e não a simples habilidade.

Essa é uma recomendação muito importante. Quer estudar bem? Não deve fazê-lo simplesmente por estudar, porque este é um espírito superficial que não encontra nem aprende nada verdadeiramente. Deve-se estudar para conhecer, em última análise, Deus Nosso Senhor, com vista a Lhe dar glória e a santificar a própria alma.

Consultai mais a Deus do que aos livros e pedi-Lhe com humildade a graça de compreenderdes o que ledes.

Consultar mais a Deus do que aos livros significa rezar e considerar as coisas em função do Criador. Devemos, pois, pedir o auxílio divino e analisar tudo em relação a Ele. Este pensar, remoer e remexer as cogitações internamente, relacionando todas as coisas com o Onipotente, é mais importante do que ler e constitui uma das formas de oração, porque é elevar a mente a Deus.

O estudo fatiga o espírito e seca o coração: ide de quando em quando reanimá-lo um tanto aos pés de Jesus Cristo. Alguns momentos de repouso em suas chagas sacrossantas vos dão renovado vigor e novas luzes. Interrompei vosso trabalho com jaculatórias.

O que ele diz a respeito de jaculatórias de vez em quando, suspender o estudo para meditar nas chagas de Nosso Senhor é tão verdade que pode ser considerado com mais amplitude. Ao estudar, se é um estudo puramente técnico, devemos de vez em quando interrompê-lo para pensar em algo elevado, que nos conduza a Nossa Senhora, ainda que seja uma coisa terrena: algum belo lance da História da Igreja ou da Civilização Cristã; algum belo aspecto da arte católica, etc., para distender o espírito.

Isto, por sua vez, é o contrário do que se chama “mentalidade politécnica”. Entretanto, há também um modo “politécnico” de fazer jaculatórias. É o seguinte: “Vou fazer de dez em dez minutos uma jaculatória.” É incomparavelmente melhor do que não fazer, mas não é o modo ideal, porque a jaculatória deve corresponder a um anseio da alma. Quando a alma não sente esta necessidade, então se faz de dez em dez minutos, empregando o princípio de que “quem não tem cão, caça com gato”. Ainda assim é muito bom, porém o verdadeiro é sentir essa necessidade de alma, de vez em quando, e fazer jaculatórias.

Que a oração, enfim, preceda e termine vosso trabalho. A Ciência é um dom do Pai das luzes. Não a olheis, pois, como obra de vosso espírito e de vosso talento.

De fato, a maior parte das pessoas considera que o seu enriquecimento cultural é fruto do próprio espírito e talento. Ora, precisamente essas enganam-se de um modo cabal.

Em suas pregações falava contra o pecado, sobre o juízo de Deus, o Inferno

Vicente acompanhou o Cardeal Pedro de Luna a Avignon, sendo que algum tempo depois este foi eleito Papa sob o nome de Bento XIII, na época do grande cisma que dividia a Igreja. O novo Papa quis que Vicente fosse seu auxiliar, mas o Santo sabia não ser esta a sua missão. Assim, deu início à grande obra de evangelização como pregador. Percorreu a França, Espanha, Itália e Inglaterra; esta última por especial pedido do Rei Henrique IV. Os pecadores mais endurecidos não resistiam às suas palavras, assim como numerosos judeus, muçulmanos e cismáticos se convertiam.

A ignorância e a corrupção dos costumes, consequências comuns da guerra e do cisma, tornaram necessárias as missões de Vicente. Era preciso um apóstolo cuja voz terrível pudesse abalar as consciências a fim de arrancar os pecadores de suas desordens.

O Santo tratava comumente dos temas mais assustadores do Cristianismo, tais como o pecado, o juízo de Deus, o Inferno e a eternidade. Tinha, além disso, o dom de pronunciar seus discursos da maneira a mais patética. Não se contentando em ser veemente, ele falava ainda de uma maneira proporcionada à compreensão dos ouvintes. A santidade de sua vida dava nova força às suas palavras.

Sua fama chegou ao reino mouro de Granada, cujo soberano quis ouvi-lo. Entretanto, São Vicente começou a promover tantas conversões, que os ministros do rei, temerosos do que sucederia à crença muçulmana, pediram-lhe que afastasse dali o grande pregador.

Depois de uma existência toda consagrada a levar almas para Deus, pontilhada de milagres sem conta e pela luta contra o doloroso cisma de Avignon, que culminou pela condenação do antipapa Pedro de Luna e a aceitação completa de Martinho V, eleito pelo Concílio de Constança, São Vicente veio a falecer na Bretanha, em 1419, aos sessenta e dois anos de idade.

Depois dos Apóstolos, provavelmente foi o maior pregador popular

Poucas coisas são bonitas na vida dos Santos quanto situarmos a missão deles no panorama da luta entre a Revolução e a Contra-Revolução.

De acordo com esse panorama, na Europa do século XIV, a Cristandade começa exatamente a entrar em declínio. Era uma decadência eclesiástica terrível que se atestava pelo fato de haver papas exilados em Avignon, sob a férula dos reis da França, um cisma tremendo. Três “papas” que se combatiam reciprocamente, dos quais, naturalmente, um só era válido. Mas tal era a confusão na Cristandade que, ao lado de cada pseudo-papa ou do papa, havia Santos que os apoiavam.

Compreende-se, para isso ser possível, o que significava de putrefação do clero, a qual trazia como consequência a corrupção dos fiéis. Assim, era toda a Idade Média que entrava em putrefação, de caráter mais moral do que intelectual. Não se tratava tanto de uma grande heresia, mas de uma deterioração moral, uma explosão de orgulho e de sensualidade que começava, a qual deveria gerar depois os desvios intelectuais que são os erros da Revolução.

Então a Providência enviou, muito adequadamente para essa época, um Santo que foi grande em sua esfera própria como, por exemplo, o foi São Tomás de Aquino na sua. Porque, se podemos dizer que São Tomás de Aquino foi o Doutor comum, o filósofo dos filósofos, o teólogo dos teólogos, o mestre dos mestres, podemos afirmar que, como pregador popular, depois dos Apóstolos provavelmente ninguém excedeu a São Vicente Ferrer. Nem mesmo Santo Antônio Maria Claret, que no século XIX foi um pregador assombroso, teve de longe a expressão de São Vicente Ferrer.

Ele dizia de si mesmo que era o Anjo do Apocalipse, que tinha vindo para anunciar a derrocada da Civilização Cristã e o começo do fim do mundo. Com efeito, ele lutou enormemente para a moralização dos costumes, com vistas a sustar essa decadência moral.

O Santo oposto à tibieza

Nesse sentido essa ficha é muito sintomática porque fala de conversões de judeus, maometanos, hereges, mas as menciona como fatos colaterais, de uma importância menor dentro do conjunto da obra dele. Enquanto o grande acontecimento era o poder de sua pregação pela qual ele sacudia as consciências meio adormecidas, sendo assim, por excelência, o Santo oposto à tibieza, porque esse tipo de pregador que fala a respeito do Inferno, dos pecados, que tonitrua, pede o castigo do Céu, é exatamente o Santo chamado para falar, não às almas fervorosas, mas sobretudo às tíbias, e feito para sacudir aquelas que de outro modo não se podem convencer. Então se compreende o número colossal de conversões operadas por ele.

Contudo, por mais numerosas que tenham sido, essas conversões foram insuficientes. Delas não surgiu um movimento, uma corrente organizada para combater a Revolução que nascia. O resultado é que São Vicente Ferrer converteu muitas almas, mas não a Cristandade, não converteu a sociedade enquanto tal, pois ele não foi tão ouvido pelos homens de seu tempo quanto eles deveriam tê-lo escutado.

Então, São Vicente Ferrer foi o dique que a Providência levantou contra a Revolução, mas que a maldade dos homens destruiu. Entretanto, na abertura dessa torrente que começa a cair para o abismo, fica de pé a figura grandiosa dele, anunciando as catástrofes que provinham do fato de ele não ter sido ouvido, exatamente como a de um profeta do Antigo Testamento anunciando desgraças ao povo eleito porque não tinha dado atenção aos enviados de Deus.

Assim fica a imensa figura de São Vicente Ferrer pairando no firmamento da Igreja, num pórtico que é o fim da Idade Média e pode ser considerado o começo da Revolução.          

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 4/4/1966 e 4/4/1967)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

 

1) Cf. ROHRBACHER, René-François. Histoire Universelle de l’Église Catholique. Paris: Librairie Louis Vivès, 1901. v. X, p. 39-110.

2) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

05 de abril – Como um profeta do Antigo Testamento

Como um profeta do Antigo Testamento

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:

— Irmão Vicente, e a vaidade?

— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.

A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação”. E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade”.

Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.

De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.

Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/1/1970)

05 de abril – Esvoaça do lado de fora, mas não entra

Esvoaça do lado de fora, mas não entra

Certa ocasião, quando São Vicente Ferrer entrava em Barcelona — uma das maiores e mais ilustres cidades de seu tempo —, fizeram-lhe uma recepção tão extraordinária que de todas as janelas pendiam tapeçarias em sua honra, o povo o aclamava e ele caminhava debaixo de um pálio, cujas varas eram carregadas pelos principais da cidade. Então, alguém lhe perguntou, baixinho, ao ouvido:

— Irmão Vicente, e a vaidade?

— Esvoaça do lado de fora, mas não entra — respondeu ele.

A resposta de um orgulhoso seria: “Nem sinto tentação”. E um pusilânime diria: “Pobre de mim, estou inundado de vaidade”.

Este Santo deu a resposta certa: Como homem, posso e estou sendo tentado. Porém, a tentação esvoaça do lado de fora, mas, pela graça de Deus, ela não entra.

De fato, neste vale de lágrimas é normal sermos tentados. A tentação tempera a alma. Quem diz “não” para o demônio sai mais forte, mais pertencente a Nossa Senhora. O servo bom e fiel que foi provado e venceu manifesta a sua fidelidade, faz render na luta os seus talentos, colhe louros e os entrega à sua Senhora.

Somos soldados da Igreja Militante e devemos nos entusiasmar com isso.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/1/1970)

04 de abril – Santo Isidoro de Sevilha e a virtude nas boas maneiras

Santo Isidoro de Sevilha e a virtude nas boas maneiras

A compostura, o modo de andar, a gravidade nos gestos, podem não ser apenas meras atitudes externas, mas o reflexo de uma alma virtuosa. Verdade esta freqüentemente esquecida pelos adeptos desenfreados do estilo “descontraído” e “espontâneo”, porém lembrada de modo persuasivo nas palavras de Santo Isidoro de Sevilha, aqui comentadas por Dr. Plinio.

Comemora-se no dia 4 deste mês a festa de Santo Isidoro de Sevilha, Arcebispo, Confessor e Doutor da Igreja. Dele diz o martirológio ter sido insigne pela santidade e doutrina. Engrandeceu toda a Espanha com seu zelo pela fé católica e observância da disciplina eclesiástica. Considerado um dos homens mais doutos de sua época, lutou tenazmente contra os arianos(1). Irmão de São Fulgêncio, Bispo de Cartagena, de Santa Florentina, religiosa e de São Leandro, a quem sucedeu no arcebispado de Sevilha.

Sábios conselhos de um santo

Faço notar, antes de tudo, a beleza encantadora presente numa floração simultânea de santos como se deu na família de Santo Isidoro. Nas Obras escolhidas deste Doutor da Igreja há um capítulo intitulado Lamentações de uma alma pecadora, do qual destacamos o seguinte trecho:

“Em todos os teus atos, em todas as tuas obras, e em todo o seu trato, imita os bons, emula os santos, tem diante de teus olhos o exemplo dos mártires, considera os exemplos dos justos, imitando-os; que o exemplo dos santos e os ensinamentos dos Padres sejam para ti incentivo de virtude. Tem bom espírito, guarda tua boa fama e não a diminuas com nenhuma ação e não a deixes cair em descrédito.

“Demonstra o que professas em teu porte e andar. Haja em tua apresentação a simplicidade; em teu movimento, a pureza; em teu gesto, a gravidade; em teu passo, a honestidade. Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente. Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não te prestes a ser espetáculo dos outros; não permitas que te denigrem; não te unas a pessoas vãs.

“Evita os maus, rechaça os indolentes. Foge das reuniões excessivas com homens, mormente dos que, por sua idade, são mais inclinados aos vícios. Acompanha-te dos bons, deseja sua companhia. Busca o convívio dos bons, junta-te aos santos. Se fores partícipe do seu trato, também o serás de sua virtude. O que caminha com os sábios, será sábio; o que caminha com os estultos, será estulto, pois os semelhantes gostam de reunir-se aos semelhantes. É perigoso viver entre os maus, é pernicioso acompanhar-se daqueles que têm vontade perversa. Tu te nutrirás de sua infâmia se te juntas com os indignos. É melhor sofrer o ódio dos maus que a sua companhia. Assim como muitos benefícios traz consigo o viver com os santos, assim muito mal traz a companhia dos maus, pois aquele que toca um imundo, é por ele contaminado.”

Devemos espelhar o que há de bom em nossa alma

Desse lindo trecho de Santo Isidoro de Sevilha devemos destacar, em primeiro lugar, o aspecto profundamente “ambientes e costumes”(2), quando fala do modo de apresentação do homem, da forma pela qual convém se externar aos olhos dos outros. Toda pessoa precisa compor para si um personagem. Ninguém deve ser inteiramente espontâneo — como pretendem certas pessoas “modernas” — no sentido de que sua presença exterior seja sugerida simplesmente por seus movimentos desalinhados, desataviados, incontrolados.

Em seu modo de ser, de olhar, andar, por seu porte e seu procedimento geral, o homem necessita procurar espelhar aquilo que há de bom em sua alma. Nem sempre as qualidades morais transparecem de maneira natural. Muitas vezes, alguém possui grandes virtudes, mas estas não se refletem no seu exterior se ele não tomar cuidado em manifestá-las e reprimir atos espontâneos que possam dar impressão do contrário.

E quanto aos nossos defeitos de alma, temos obrigação de evitar que transpareçam, não por hipocrisia e vaidade, mas por compostura, respeito aos outros e, sobretudo, a Deus, convictos de que o mal não tem direito de se expor à luz do sol.

Portanto, cada um tem necessidade de compor para si mesmo uma linha de conduta externa, um conjunto de gestos, de frases, de vocabulário, de modos de olhar, de ser, que são expressões autênticas de muitos aspectos de sua alma.

Isto não seria assim se o homem fosse concebido sem pecado original. Porém, tendo havido a queda de Adão, é preciso esse esforço. Por isso, nas civilizações que atingem certo grau de perfeição, ensina-se às pessoas a terem porte, maneiras e a constituírem para si seu próprio personagem. Lembro-me que o inimitável Saint-Simon(3) dizia: “Fulano transpõe os umbrais de uma porta com total inconsequência”. A expressão é muito interessante, porque todo limiar de porta que se ultrapassa, em si tem conseqüência. O umbral é um marco.

Noutra feita, criticando os modos de determinada pessoa, afirmava ele: “Trata-se de um homem a quem não se ensinou a dançar…”. As danças daquela época — que nada têm de comum com as de hoje — eram de alta compostura, superior finura de porte e apresentação, e proporcionavam ao indivíduo a arte de ter boas maneiras em tudo. Compreende-se, assim, o pensamento, a doutrina que estavam subjacentes a essas frases de Saint-Simon.

Incentivo à prática da virtude

Afirma Santo Isidoro: “Demonstra o que professas — quer dizer, o que pensas, o que és — em teu porte e andar”. Como se pode obter isso sem estudar uma postura e modo de caminhar adequados? Essa recomendação indica ser necessário o controle de si mesmo e que há certas maneiras de andar e de se portar significativas de algo bom e outras de alguma coisa má. Portanto, tal conselho nada tem de mundanismo. Pelo contrário, é um incentivo à prática da virtude.

Continua o Santo: “Seja tua apresentação a simplicidade”.

Simplicidade não é o mesmo que simploriedade. Aquela é o modo de ser do indivíduo não complicado nem afetado, sem ademanes e requebros inúteis. O homem simples procura ser útil, e age de maneira ao mesmo tempo intencional, produto da educação, e autêntica.

O gesto do corpo é o sinal da mente

“Em teu movimento, a pureza”.

Faço notar a beleza desta ideia! Os gestos da pessoa pura são diferentes dos da impura. Por exemplo, no volver a cabeça para atender alguém e perguntar: “O que é?”, pode-se perceber às vezes tratar-se de uma alma casta, ou então o contrário. Vê-se, pois, como é profundo o pensamento de Santo Isidoro.

Ele continua: “Em teu passo haja honestidade”. Ser honesto não significa tão-somente — como se julga hoje — não furtar. Em latim, “honestus” quer dizer composto, apresentando certa beleza, distinção e elegância.

“Que não demonstres o vergonhoso, o lascivo, o petulante, o insolente, o superficial. O gesto do corpo é o sinal da mente”.

Este é um magnífico princípio que deve nortear a vida do católico. E o Santo acrescenta: “Teu andar, por conseguinte, não represente tua superficialidade, teu passo não ofenda a ti ou a teu próximo. Não prestes a ser espetáculo dos outros, não permitas que te denigrem”.

Ouçamos as recomendações de Santo Isidoro

Em seguida, Santo Isidoro fala das boas e más companhias. Tais conselhos são muito importantes para combater certo erro moderno, segundo o qual se deve fazer apostolado introduzindo-se, sem nenhuma ou com pouca prevenção, no meio dos maus. Quando alguém se infiltra entre os ímpios para evangelizar, expõe-se ao risco de se tornar mau, assim como o convívio com os virtuosos pode tornar bom quem era ruim.

Isso se aplica de modo particular aos movimentos como o nosso, dedicados a atrair as almas para Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja. Qualquer conselheiro Acácio(4) poderia dizer: “Se vocês frequentassem os ambientes mundanos, poderiam ter mais relações sociais e assim fazer maior bem”.

Ora, isso todo mundo sabe. Agir assim seria bom em tese, caso não houvesse inconvenientes: um deles, a fuligem inoculada nas almas de quem voluntariamente vive nos meios onde se ofende a Deus…

Temos aqui, então, comentadas algumas preciosas recomendações de Santo Isidoro de Sevilha, as quais devemos não apenas ouvir, mas praticar, adotando-as no nosso existir quotidiano como verdadeiros exercícios de piedade que nos façam crescer em perfeição, no amor a Deus, a Nossa Senhora e ao próximo.

1) Sectários da heresia difundida por Ario (280-336), padre de Alexandria (Egito), que negava a natureza divina de Nosso Senhor Jesus Cristo.
2) Dr. Plinio fez inúmeras exposições mostrando a importância dos ambientes e costumes para a formação ou deformação das almas. O aspecto “ambientes e costumes” de um assunto consiste em considerá-lo sob esse ângulo.
3) Duque de Saint-Simon (1675-1755), escritor francês que, em suas “Memórias”, descreveu com penetração, finura e charme a vida de corte em Versailles, na época de Luís XIV.
4) Personagem de uma obra do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900). O conselheiro Acácio dizia, de modo sentencioso, coisas evidentes.

30 de março – De pé, como uma tocha de esperança

De pé, como uma tocha de esperança

Na hora do Gólgota, no momento mais trágico que houve e haverá na existência da humanidade, Nossa Senhora permaneceu fiel. Não se entregou, não fraquejou, não traiu, não recuou.

E continuou de pé como uma tocha de oração e de esperança. Maria permanecia ereta, em toda a força de seu corpo e de seu espírito, com os olhos inundados de lágrimas, mas com o coração inundado de luz. Possuía a Fé inabalável, a certeza inamovível de que, após a grande tragédia, depois do abandono geral, viria a aurora da Ressurreição, viria o alvorecer da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, nimbada de glória a partir de Pentecostes. E de que, de cruzes em luzes, de luzes em cruzes, o mundo chegaria até o momento que em Fátima Ela prenunciou: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!”

 

Plinio Corrêa de Oliveira

30 de março – Cerimônia do Sábado Santo Ocasião de graças

Cerimônia do Sábado Santo Ocasião de graças

Dr. Plinio possuía um amor intenso às cerimônias, não só as litúrgicas — pelas quais tinha um enlevo especial —, mas também as realizadas no Movimento por ele fundado. Na medida em que possuam o espírito militante da Igreja, as cerimônias constituem um modo eficacíssimo de fazer a Contra-Revolução.

 

Analisei profundamente a cerimônia do Sábado Santo da qual participei. A cerimônia é um conjunto de ritos. Por rito se entende o conjunto de ideias, de gestos realizados pelo celebrante, pelos acólitos e pelas outras pessoas que ali estavam participando da cerimônia eclesiástica propriamente dita, feita pelo sacerdote.

Oração pública e oração privada

Entretanto, a cerimônia não consistia apenas em gestos, mas também em palavras pronunciadas pelo padre e diante das quais todos os presentes reagiam ora por gestos, ora por palavras, ora por cânticos, ora pelo silêncio e pelo recolhimento, que manifestavam a impressão que tudo aquilo lhes estava causando.

O que faziam ali o clero e os fiéis? O clero, personificado pelo sacerdote, rezava uma oração oficial da Igreja. Quer dizer, não era apenas a pessoa do padre que orava. Ele poderia, eventualmente, fazer uma oração privada, por exemplo, se estivesse recitando um Terço acompanhado pelos presentes; como pessoa particular, rezaria em nome dele e, sendo sacerdote, por sua dignidade puxaria a oração e todos nós participaríamos, mas não passaria de uma oração privada.

Na cerimônia de ontem, porém, o padre estava fazendo o que se chama uma oração pública, isto é, em nome de toda a Igreja. De maneira que como ele é, dentro da Igreja, uma pessoa pública, fazendo aquela oração era a Igreja universal que falava por sua boca.

Notem especialmente o seguinte: não só era a Igreja universal, mas o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo Quem falava por ele. A Cabeça mística da Igreja é Cristo, e quando a Igreja fala oficialmente, é Ele Quem fala. E tudo quanto o sacerdote pede, Nosso Senhor Jesus Cristo está oficialmente rogando ao Padre Eterno. Eis o valor impetratório de uma oração oficial da Igreja.

A cerimônia se compõe de várias partes; há o Círio Pascal, o fogo, a renovação das promessas do Batismo, etc., que preparam a Missa e antecedem as alegrias da Páscoa, e de um ou outro modo se relacionam com a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, comemorada na Santa Missa.

A Igreja militante, padecente e gloriosa

Tudo conflui, portanto, para a Missa, na qual se dá a renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, mas na alegria pela Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, festejada pela Igreja. A Igreja militante celebra na Terra, a Igreja gloriosa festeja no Céu, e há, portanto, uma especial alegria no Paraíso porque na Terra é Páscoa.

Alguém perguntará: “E a zona dolorosa da Igreja penitente?” Nesse dia, Nossa Senhora, sorridente, vai ao Purgatório e leva para o Céu uma quantidade enorme de almas, cujo tormento Ela abrevia. Ademais, Ela alivia o sofrimento de muitas que permanecem ali e as enche de gáudio pela presença d’Ela. É a Páscoa da Ressurreição!

Vejam que firmamento de ideias — cada uma mais rica do que a outra — povoam essa cerimônia!

A parte não litúrgica da cerimônia teve um complemento muito bonito: o momento em que se descerrou o véu e apareceu a Sagrada Imagem(1). Nesse instante, olhei para os outros também, e tive a impressão de que havia um estado de espírito coletivo por onde, no fundo da alma, numa zona que se sente pouco, todos estavam bebendo, em pequenos goles, o licor mais delicioso e mais seleto do espírito católico. Havia um recolhimento sacral, uma paz, uma alegria, um bem-estar que nem sequer pode ser adequadamente descrito com as palavras “felicidade de situação”. Porque a felicidade de situação é um comprazimento do homem com uma determinada circunstância terrena, e o bem-estar de alma que se sentia ali era muito mais do que isso; e lembrava mais o Céu empíreo, com lampejos de visão beatífica, do que qualquer outra coisa.

Um mistério cheio de luz, uma luz cheia de mistério

Na cerimônia, as pessoas estavam como que vendo uma fisionomia, que era a fisionomia da Igreja, e aprendendo, a respeito da Esposa de Cristo, um modo de ser, uma impostação de alma feita de uma seriedade cheia de alegria, de um bem-estar que não é nem um pouco o que no mundo entendem por bem-estar — aquela delícia horrível que a cibernética e outras coisas pretendem trazer —, mas é um bem-estar feito de harmonia e de equilíbrio, o qual reúne junto de si as coisas mais heterogêneas numa harmonia suprema.

Por exemplo, o maior recolhimento, mas ao mesmo tempo com a maior naturalidade. É o recolhimento sem esforço em que a alma, sem tentar pensar em outras coisas, é atraída para aquela seriedade, dignidade, que a música e tudo quanto está ali exprime, que faz entender fiapos do que é dito em latim, mas que tem um sentido, uma significação extraordinária, em que a pessoa se percebe num mistério cheio de luz — não é um jogo de palavras, mas um outro sentido da coisa —, uma luz cheia de mistério. E assim fica posto um estado de alma diante do qual, de bom grado, se passaria ao Céu.

E o efeito disso sobre a alma é diretamente o seguinte: torna-a suave e amoravelmente propensa a todas as virtudes.

Esta impressão é conjunta. Não é a impressão somada deste, daquele ou daquele outro, mas todos sentem que estão com esta impressão. E o fato de no conjunto todos terem esta impressão, ganha mais do que se as pessoas estivessem sozinhas.

A ação da graça é intensificada pelas aparências sensíveis

Tratamos há pouco do que se passou entre Deus e o celebrante, em nome da Igreja, e da participação daqueles que concorriam para a cerimônia à maneira de leigos. Existe, contudo, algo mais profundo. Esse estado de alma ao qual me referi, de onde nasce e o que ele é perante Deus? Esta impressão individual e coletiva que se teve ali, como se relaciona com a graça?

Nós temos a graça recebida no Batismo. Ademais, recebemos também a graça da vocação. Mas outras graças se acrescentaram a essas, de maneira a incrementá-las. Nessa ordem interior, o que se passou em nós?

É uma coisa correlata com o que o padre estava fazendo, porque tudo isso constitui um todo, não são dois pedaços. A correlação entra pelos olhos, mas são aspectos distintos. Apresentada a distinção, vou tratar disso.

A graça teve como ocasião a cerimônia. O que quer dizer aqui ocasião? É uma palavra de sentido muito precioso. Deus é o Autor da graça, a qual é um dom criado por onde o homem participa da própria vida do Criador. Contudo, Deus muitas vezes liga a concessão da graça a fatos externos que são, assim, ocasiões para Ele concedê-la. Por isso, ao considerarmos tal fato, ela fala a nossas almas.

Quando contemplamos esse conjunto de ações correlatas, sentimos e conhecemos um “verum, bonum, pulchrum” — uma verdade, ou todo um horizonte de verdades da Fé que vem ao nosso espírito, a santidade e a beleza dessas verdades em si — e, por outro lado, como o que está se passando exprime bem aquelas verdades, e faz sentir a santidade e a beleza delas. Então, as aparências sensíveis são também elas uma ocasião para que a graça intensifique em nós a sua ação.

E vendo, por exemplo, as respostas varonis dadas às perguntas do padre sobre a renovação das promessas do Batismo, aquilo tudo é ocasião para a graça da virtude da fortaleza operar em nossas almas.

Aspecto simbólico da cerimônia

Isso age de várias maneiras, porque nós raciocinamos e vemos o nexo entre as coisas, mas também — e eu queria chamar a atenção para este pormenor — pelo seu lado simbólico. Esses gestos, esses objetos, esses sons, esses paramentos, essas cerimônias são símbolos que nos fazem ver, de um modo para nós meio misterioso, por uma série de analogias, aquilo que está sendo simbolizado. É o próprio do símbolo.

Por exemplo, a Sagrada Imagem está com uma coroa, que é o símbolo da realeza. Vendo-a sobre a cabeça da Sagrada Imagem, nós temos uma ideia de realeza ainda mais plena de Nossa Senhora como Rainha, ainda mais perfeita, de maneira que o símbolo nos fala prodigiosamente dentro da alma. E essa simbolização serve de ocasião para a graça produzir em nós esse estado de espírito que notamos ali.

Então, a cerimônia assim vista é uma ocasião para a graça. Se olharmos os paramentos do padre, a cor e a forma deles, o barrete, os gestos que ele faz, o modo pelo qual o texto é cantado, tudo isso tem cintilações de grandezas, todo o passado da Igreja aparece, por assim dizer, em pequenas chamas.

Sente-se, por exemplo, quando o texto fala do fogo, que há uma certa grandeza patriarcal dos tempos primitivos, do Antigo Testamento; e tem-se a impressão de ver a Igreja sair das névoas mais profundas da História, cantando o fogo, quando ela nem era nascida, mas havia a pré-Igreja, que eram os justos do Antigo Testamento e o culto verdadeiro de Yaveh. E um padre em 1982 — face aos problemas da cibernética e de todos os horrores promovidos pela Revolução — de repente faz emergir misteriosamente esse passado. Assim são os aspectos da vida da Igreja.

Quem coligou esses trechos? Quem determinou que, para o Sábado Santo, essas deveriam ser as impressões causadas nos fiéis? Quem definiu que tais paramentos e tais gestos eram indicados para tal ocasião? Quem reuniu tudo isso para formar essa cerimônia?

É assombrosa a naturalidade com que o sacerdote segue os ritos; por exemplo, tirar o fogo da pedra para acender a chama pascal. Isso é do tempo em que não havia fósforo, quase a época da pedra lascada, da pedra polida! É até lá que aquilo nos leva! Em seguida, o padre faz uma invocação de algo tirado do Evangelho, e posteriormente se refere à Cristandade atual. Ele desliza pelos séculos como um pássaro…

O barrete, a estola, a capa magna, o cantochão, o órgão

Aquele barrete que o padre usa em certos momentos, no fundo, corresponde à ideia de que o homem deve ter adornos que o completem, porque sem eles o homem não realiza inteiramente aquela beleza que perdeu quando saiu do Paraíso. Portanto, é uma espécie de vergonha do pecado, não relativa ao pudor, ao sexto Mandamento, mas da condição de pecador, e vontade de algum modo recompor a dignidade humana, que leva os homens a usarem chapéus. Aquele barrete corresponde a esta ideia; é preto, em sinal de luto pela Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, como a batina é preta. O barrete é dividido em três gomos, e tem uma parte inteiramente lisa do outro lado: Deus Uno e Trino. Mas o barrete, do qual gosto muito, dá ao padre uma dignidade perfeita e acabada, porém não suprema. Para indicar a plenitude do sacerdócio a Igreja tem para a fronte humana um símbolo mais augusto, que é a mitra; e, para mostrar a plenitude conjunta dos três poderes, a tiara que pousa sobre a cabeça de um só: o Papa.

Símbolos e símbolos, graças e graças, dizendo coisas misteriosas à nossa alma. Até o sapato. Por exemplo, o sacerdote pode celebrar de sandálias, mas não de tênis. A capa magna, a capa de asperges, a estola, tudo tem beleza! O cantochão! O órgão! O harmônio é um filho do órgão. Que maravilha!

Mas como é que se juntou isso ao longo dos séculos? Historicamente, para quase todas essas coisas, ou para muitíssimas delas, há uma explicação, a qual, entretanto, é insuficiente, porque a pergunta não é quem propôs isto, aquilo, mas quem incrustou isso definitivamente na vida da Igreja.

Ação do Espírito Santo e espírito militante

Quem fez isso foi o Divino Espírito Santo. Ele é o Espírito da Igreja, e foi juntando, dispondo as coisas ao longo da História da Igreja, arranjando tudo isso para chegar àquela maravilha que vimos na cerimônia.

De maneira que tivemos, naquela simbolização toda, uma comunicação do Espírito Santo aos homens, indicando como o ambiente no qual habitualmente o homem se move, as mentalidades, a sociedade espiritual e a temporal deveriam ser.

Ali vimos, movendo-se, a Igreja de todos os tempos, e a Igreja do Reino de Maria que vai nascendo. E que, ou eu me engano muito, ou timbrará em conservar, mais saliente do que nunca e manifestado com todos os esplendores, o seu caráter de militante. Tudo naquela cerimônia entrava como uma moção do Espírito Santo, já dando os primeiros lampejos do Reino de Maria.

Nas graças que recebemos durante aquela solenidade há um nota preponderante, dizendo às nossas almas: “Tudo quanto constitui nesta cerimônia um chamado para toda espécie de virtudes, concebei-o, vede-o à luz da batalha. Sede militantes até o fim, que o resto vos será dado abundantemente! Sede filhos da luta, deixai-vos inspirar por ela, sede batalhadores vossa vida inteira e cada vez mais, e Deus fará convosco uma aliança”.

Mas não se trata apenas de ter a alma aberta a uma impressão enquanto se está na cerimônia. É preciso levá-la como uma recordação saudosa e analítica do que houve e, de vez em quando, retomá-la.

Então, compreendemos qual é o papel que nossas cerimônias têm. Naturalmente, num grau eminente, as solenidades ligadas à sagrada Liturgia, em que a Igreja fala e implora. Nosso Senhor Jesus Cristo pede oficialmente em nome de toda a Igreja. Mas também, e de modo autêntico, se bem que menos eminente, em todas as nossas cerimônias.

A cerimônia, enquanto tal, é ocasião para graças deste gênero. Ela exterioriza, torna sensível aquilo que não basta estar só na inteligência e na vontade. Mais ainda, não entra inteiramente na inteligência nem na vontade enquanto não tiver penetrado de algum modo na sensibilidade.

Compreendemos, assim, que a cerimônia é um modo de combater; é um modo eficacíssimo de fazer a Contra-Revolução, na medida em que levemos o espírito militante para dentro dela.

Evidentemente não é uma luta sem sentido, sem razão de ser. A causa pela qual se combate é a Fé; é por Deus que lutamos. Se não amássemos Nosso Senhor e Maria Santíssima, não teríamos razão para combater. Mas, diante do pecado que ofende a Ele e a Ela, a atitude é a luta. Não se compreende a oração sem luta, como não se compreenderia, a “fortiori”, a luta sem oração.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 10/4/1982)

1) Imagem de Nossa Senhora de Fátima que verteu lágrimas milagrosamente em Nova Orleans, em 1972.