30 de abril – São Pio V, herói em meio às angústias!

São Pio V, herói em meio às angústias!

A célebre batalha de Lepanto, na qual a Armada Católica logrou afastar o poderio otomano que se acercava do Ocidente Cristão, foi assinalada por insigne heroísmo. Entretanto, houve quem, apesar de não empunhar armas físicas, obteve de Deus o bom êxito dos guerreiros da Fé.

 

Tantos foram os comentários feitos a respeito da batalha de Lepanto, em vários anos sucessivos, que quase não há algo para acrescentar. Mas vou destacar um herói da batalha de Lepanto, a propósito do qual poucos historiadores falam. Esse herói foi o Papa São Pio V.

No século XVI, os cristãos da Europa estavam divididos

Em que sentido ele foi um herói, e por que é importante para nós reconhecermos o heroísmo dele?

São Pio V via o poder otomano crescer cada vez mais e o perigo de que eles se lançassem sobre a Itália, por exemplo, ou qualquer outra parte da Europa, e operassem uma invasão com efeitos talvez mais ruinosos do que a dos árabes na Espanha, no começo da Idade Média.

Isto porque no tempo de São Pio V, século XVI, os cristãos da Europa estavam divididos entre católicos e protestantes. Já havia, portanto, instalada entre os cristãos, essa lamentável divisão a qual enfraquece tanto as forças católicas e que nós desejamos remediar pela conversão de todos.

No século XVI, o protestantismo tinha um vigor incomparavelmente maior do que hoje;  estava ainda na sua fase de expansão, de luta. E era muito de se temer que os protestantes aproveitassem a agressão feita pelos maometanos a um país católico, para eles mesmos invadirem outros países católicos. Tanto mais que já havia disso uma experiência.

À Casa d’Áustria, que governava a Áustria e a Hungria, pertencia habitualmente, por eleição, o título de Imperador do Sacro Império Romano Alemão. Várias vezes ela se viu em dificuldades seríssimas por causa de combinações, ou ao menos de convergências claras, entre protestantes, do interior do Sacro Império, e otomanos, de fora dele, visando forçar a capitulação da Casa d’Áustria e liquidar de imediato o Catolicismo, pelo menos nos povos de língua alemã.

Assim, para a Santa Sé, a ameaça otomana era muito mais forte do que foi a ameaça árabe, a qual, entretanto, fora tão terrível. Porque no tempo de São Pio V os cristãos estavam divididos.

Indecisão de Felipe II

Nessa situação, São Pio V precisava apelar, naturalmente, para quem era o apoio temporal da Igreja em seu tempo: Felipe II, Rei da Espanha. Com efeito, o Papa só podia encontrar apoio, dentre as grandes potências católicas, em Felipe II e depois em Veneza, uma grande cidade marítima, a qual constituía uma república aristocrática, com largo desenvolvimento em todo o Mediterrâneo e com muitos bons navegadores e boas frotas. Se bem que o poder de Veneza fosse ponderável, o grande poder decisivo era de Felipe II.

Os historiadores reconhecem — mesmo aqueles que admiram Felipe II, e têm muitas razões para isso; eu sou um admirador dele —, entretanto, em Felipe II um homem extraordinariamente indeciso. Quando precisava resolver alguma questão, tinha vaivéns: concordava, depois discordava, mandava embaixadores, pedia prazo, deixava passar o prazo… Não era fácil vencer a indecisão de Felipe II.

São Pio V via o perigo crescer e todo o assunto ser resolvido numa sala do Palácio Real de Madri, ou do Escorial, por Felipe II sozinho, ou com seus auxiliares. Se, em última análise, Felipe II se retraísse, de repente a horda maometana desataria sobre a Itália, e depois atingiria toda a Cristandade; seria o fim da Civilização Cristã no Ocidente. Não seria o fim da Igreja porque Ela é imortal; mas ao que a Igreja poderia ficar reduzida ninguém sabe.

Pástor(1) narra as tratativas de São Pio V com Felipe II, e diz que constituíram para o Papa um verdadeiro martírio, tanto teve ele que pedir ao Rei de Espanha. Felipe II fazia exigências; São Pio V solicitava apoio para uns e para outros, a fim de atender as exigências financeiras e outras de Felipe II. Afinal conseguia, porém Felipe II queria mais. Depois Felipe II pedia que o Papa mandasse seus navios, mas o Pontífice não os possuía. São Pio V acabou arranjando os navios, e Felipe II já não queria enviar a esquadra dele. Entretanto, apenas os navios da Santa Sé não adiantariam…

É certo que, se não fosse a pressão de São Pio V, não haveria a batalha de Lepanto, porque a Espanha não teria mandado sua esquadra, a qual era o grande contingente decisivo entre as forças navais aliadas. Dessa forma, os historiadores de São Pio V reconhecem que para ele foi, ao pé da letra, um martírio lutar em tais condições; ele foi um verdadeiro herói em aguentar a angústia de tal situação, e ao mesmo tempo combater até o último momento, para conseguir afinal de contas que as tropas saíssem e a batalha se travasse.

Nossa Senhora aparece a São Pio V

Assim compreendemos melhor a razão pela qual houve a famosa aparição a São Pio V, quando ele estava reunido com cardeais, em Roma, tratando de algum assunto. Enquanto a reunião se desenvolvia, em certo momento ele se levantou e rezou um terço pela vitória dos católicos sobre os maometanos, porque ele tinha a noção de que, cedo ou tarde, deveria realizar-se uma grande batalha, a qual seria decisiva para a Cristandade.

Enquanto ele rezava, ou terminada a oração do terço, Nossa Senhora Auxiliadora apareceu-lhe e comunicou-lhe a vitória cristã na batalha de Lepanto. São Pio V, então, foi ao local da sala onde estavam reunidos os cardeais e informou-lhes: “Nós podemos nos tranquilizar. A batalha foi ganha. Eu tive uma revelação neste sentido.”

Naquele tempo não havia rádio, telégrafo ou televisão; e uma notícia dessas levaria um tempo enorme para, desde Lepanto, chegar até Roma. Entretanto, ele a recebeu no próprio dia da vitória. Ou seja, foi uma revelação sobrenatural feita por Nossa Senhora a São Pio V.

Por que a ele? Porque era o chefe da Cristandade, não tem dúvida. Mas também porque São Pio V tinha lutado a propósito dessa guerra e desenvolvido um esforço igual ou maior do que os batalhadores de Lepanto. Foi um verdadeiro herói, como Dom João d’Áustria e os outros grandes guerreiros que venceram em Lepanto.

Muitas vezes as dores morais atormentam mais que as físicas  

Alguém dirá: “Isso, Dr. Plinio, eu não compreendo, porque ele não arriscou a vida, mas ficou comodamente em Roma à espera de que viesse uma notícia. Se ele não arriscou a vida e não combateu, não pode ser herói”.

Este é o ponto, o prisma falso que devemos tirar de nossa cabeça.

Por certo, quem luta com as armas na mão é um herói. Mas a Doutrina Católica jamais admitiu a tese de que esta é a única forma de heroísmo.

O heroísmo não é apenas o ato pelo qual o homem enfrenta o risco de perder a vida ou a integridade física. Mas é a atitude pela qual o homem enfrenta qualquer grande dor ou grande infortúnio. Isso caracteriza o herói.

Há dores morais e dores físicas. E muitas vezes as dores morais atormentam incomparavelmente mais, sendo mais difícil enfrentá-las do que as dores físicas.

Um exemplo da heroicidade que há em enfrentar dores morais é a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual se divide claramente em duas partes: a Agonia e a Paixão propriamente, onde Ele foi preso, torturado e depois crucificado.

Na primeira parte, a Agonia, o Redentor desenvolveu um verdadeiro e perfeito heroísmo, no mais alto sentido da palavra. Porque todos os sofrimentos morais ocasionados pelos pecados, pela ingratidão da Humanidade, pela maldade de que Jesus seria vítima, atingiram tal ponto que Ele pediu a Deus que, se fosse possível, afastasse o cálice. Ele chegou a suar sangue, dentro da perspectiva do que ia acontecer.

Sofrimento moral de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras

A aceitação antecipada do sofrimento, a dor moral que Nosso Senhor teve no Horto das Oliveiras foi um autêntico heroísmo, embora ali não tenha combatido fisicamente contra ninguém. Mas Ele deliberou aceitar o tormento e a morte, apesar da inutilidade de seus sofrimentos para quem não correspondesse à graça e acabasse se perdendo.

Essa deliberação foi heroica. A dor de alma que tal deliberação Lhe causou foi uma dor autêntica, embora Ele fisicamente não estivesse combatendo.

Alguém dirá: “Mas Jesus ofereceu o risco da vida d’Ele; e esse risco é um elemento integrante do heroísmo.”

É verdade; entretanto Nossa Senhora não o ofereceu. N’Ela ninguém tocou. Seu sofrimento foi, de ponta a ponta, moral, sem nenhuma dor física. Ora, Maria Santíssima é chamada, invocada, aclamada pela Igreja como “Regina Martyrum” — Rainha de todos os mártires. Apesar de não ter sofrido fisicamente, ninguém, em toda a História do mundo, padeceu como Nossa Senhora pela Paixão e Morte de seu Filho.

Vemos assim que ter a força de alma para aguentar as decepções, calúnias, frustrações, enfim, tudo quanto o homem pode sofrer na vida, é um verdadeiro heroísmo. É uma tolice imaginar ser herói apenas quem combate de armas na mão.

Quanto a São Pio V, alguém poderia perguntar: “Dr. Plinio, na comodidade da sala do Palácio Pontifício, qual era o heroísmo dele?”

Foi um heroísmo de alma, que consistiu em enfrentar este sofrimento: ter lutado com Felipe II em condições tão difíceis, em vez de entregar os pontos e procurar não ver o perigo iminente. O que ele fez caracteriza o verdadeiro herói.

Confiança heroica

Devemos entender que, na nossa vida de todos os dias, temos ocasiões de praticar verdadeiramente o heroísmo. Inclusive aguentando os quotidianos  “rios chineses”, que nos fazem estar ziguezagueando continuamente em torno de algo que nunca chega ao fim. Isso é heroísmo.

Como foi heroico o profeta Simeão, esperando sempre, até a extrema velhice, para, afinal de contas, ver o Salvador que lhe tinha sido prometido! E Abraão que ofereceu Isaac, o filho da promessa, o qual ele teve na velhice!

Há uma confiança heroica pela qual nunca se desiste de esperar. Essa confiança dói, e a alma fica às vezes como que sangrando, mas a pessoa continua a confiar, dizendo: “A promessa interior, inefável, feita por Nossa Senhora não falhará! Eu confio na palavra d’Ela, cumprirei a minha missão. Vou para a frente. Que Maria Santíssima me ajude!”

 Qual é a palavra de Nossa Senhora? É uma voz da graça, uma apetência que sentimos, a qual nos leva a praticar a virtude e o amor de Deus. É com base nisso que devemos estruturar a nossa confiança.

Uma alma assim tem uma confiança heroica: por isso a oração dessa alma move as montanhas.

Em que consiste o verdadeiro heroísmo

Nossa Senhora só revelou a São Pio V o que tinha acontecido, depois de ele ter rezado um terço. Quer dizer, Ela quis mostrar o quanto Lhe é grato pedirmos tudo quanto precisamos por meio do rosário; por isso, resolveu esperar aquela ocasião para dar-lhe esse enorme galardão.

A Fé heroica move as montanhas.  Fé que crê apesar de todas as aparências em sentido contrário. Não desanima, não volta atrás. Continua a lutar apesar de ter apenas um palito, porque possui o que vale mais do que tudo: um terço na mão.

A nossa principal arma é a oração. E a oração é vitoriosa quando inspirada pela Fé que move as montanhas, segundo a expressão empregada por Nosso Senhor no Evangelho.

Imaginemos um exército católico, que se encontra bloqueado diante de uma montanha cujo túnel foi destruído. Um santo começa a cavar a montanha e milagrosamente a levanta com as mãos. O exército passa e o varão de Deus deixa baixar a montanha, abre o túnel e sai do outro lado. Consideraríamos esse santo um colosso. Um homem que carregou com as duas mãos uma montanha! Oh! Fantástico! Seria admirável. Porém, muito mais bonito é carregar uma montanha com a oração, do que com as duas mãos. Isso fez São Pio V por meio de sua prece.

Percebemos assim como é o verdadeiro heroísmo.

Nós devemos ter apetência de derramar o nosso sangue pela Igreja?

Pode ser que a graça nos dê essa apetência. Será uma coisa esplêndida!

O desejo de verter o sangue pela Igreja é uma vontade de doação total. É magnífico. Não tenho palavras suficientes para encorajá-los. Os mártires tinham esse desejo, e muitos morriam na alegria do sacrifício que faziam. Porém não posso aceitar que se entenda ser essa a única forma de heroísmo; que outras formas de lutar pela Igreja não são verdadeiro e autêntico heroísmo.

Então o que é o heroísmo? É a aceitação enérgica, firme, com espírito de Fé, de qualquer sofrimento extraordinário, seja físico ou moral, que põe em risco a nossa vida ou outros bens.

Heroísmo de um sacerdote que guardou o segredo de confissão

Houve um caso que se contava no Brasil antigo. Um assassino acabava de matar alguém numa igreja, e pediu ao padre que o atendesse em confissão. O sacerdote, vendo que ele estava contrito, deu lhe absolvição e logo depois foi ver no templo — cidadezinha do interior, de manhãzinha, a igreja ainda vazia — quem estava morto. Encontrou um homem apunhalado. O padre começou a tirar o punhal, que estava cravado no corpo da vítima. Entram pessoas na igreja que começam a gritar, dizendo que o sacerdote havia matado aquele homem.

O padre foi processado, condenado, preso, e passou muitos anos na cadeia, tido como um sacrílego, um degradado, um infame. O assassino tinha fugido e o sacerdote aceitou essa pavorosa humilhação, mas não declarou quem era o criminoso.

Uns dez ou quinze anos depois, certo dia o padre vê chegar à cadeia, onde ele cumpria a pena, pessoas tocando música, dando brados de viva ao nome dele.

O que sucedera? O assassino havia morrido e, pouco antes de falecer, tinha confessado que ele era o autor do crime e que o padre era inocente. Então o sacerdote foi absolvido e depois reintegrado no exercício do ministério sacerdotal.

Embora não tenha levado pancadas, esse padre sofreu intensamente. Acho que vários dos que estão aqui presentes prefeririam morrer a passar por isso. Ele foi um autêntico herói.

Heroísmo é a disposição de aguentar qualquer grande sofrimento, por amor a Nossa Senhora. E foi o que São Pio V suportou. Portanto, foi herói.

Compreendamos, então, o valor do heroísmo, ainda quando incruento. Admirando a quem Deus pede o sangue corpóreo na luta pela Igreja e pela Civilização Cristã, devemos entender que a muitos outros Ele pede o sangue da alma.

Quando temos uma grande dor, devemos dizer: “Quero sofrer isto, porque não há outro meio para chegar à finalidade que tenho em vista. Mas eu olho de frente tudo quanto estou sofrendo e meço grão por grão, milímetro por milímetro, todo o sofrimento que preciso aceitar. Está bem, eu aceito. Nossa Senhora me ajude e me dê força. Isto eu quero, porque o resultado vale mais do que eu sou”. Esse é o sofrimento heroico. 

(1) Ludwig von Pastor (1854-1928), historiador alemão, célebre por sua História dos Papas

(Extraído de conferência de 7/10/1975)  (RDP 164, novembro 2011)

29 de abril – Santa Catarina de Siena e o zelo pela causa da Igreja

Santa Catarina de Siena e o zelo pela causa da Igreja

Sobressaindo na fé, esperança e caridade numa época semeada de provações para a Igreja, Santa Catarina de Siena tornou-se modelo de alma fervorosa e batalhadora, envidando todos os esforços para ver a Esposa Mística de Cristo triunfar sobre suas adversidades. Razão pela qual Dr. Plinio no-la apresenta como a padroeira de todos aqueles que trabalham e lutam pela causa católica.

 

Ao celebrarmos a memória de Santa Catarina de Siena, virgem e Doutora da Igreja, cuja festa transcorre no dia 29 de abril, parece-me oportuno evocarmos a seguinte passagem de sua vida, narrada por um biógrafo:

Aproximava-se o Natal, primeiro que Catarina passava em Roma. Quando menina, sempre gostara de presentear seus amigos nessa santa comemoração, com flores e cruzes. Agora, porém, que dispunha de prestígio, era conseguindo indulgências e concessões da Igreja que proporcionava alegria aos amigos.

Cinco laranjas para o Papa

Não se esqueceu do Papa, e enviou-lhe cinco laranjas que ela mesma dourara, acompanhando o presente com essas linhas expressivas: “Sede uma árvore de amor enxertada sobre a árvore da Vida, Cristo, o doce Jesus. Desta árvore nascerá uma flor brotada de vossa vontade, o pensamento das virtudes e os seus frutos amadurecerão para a maior honra de Deus e salvação de vosso rebanho. Esse fruto parece amargo a princípio, ao ser mordido pela boca do santo desejo, mas tornar-se-á doce, desde que a alma se resolva a sofrer até a morte pelo Cristo crucificado e pelo amor do bem.

“Assim se dá com a laranja, que se põe na água a fim de lhe retirar o amargor, açucarando-a em seguida e dourando-a por fora. E agora, onde lhe ficou o azedume? Na água e no fogo. O mesmo se passa, Santíssimo Padre, com a alma que concebe o amor da virtude. O que a princípio lhe parece amargo, provém de sua imperfeição. O remédio está no sangue de Cristo crucificado, que proporciona a água da graça, purificando-a do amor próprio e sensual, que enche a alma de tristeza.

“E como o sangue está ligado ao fogo, pois que foi derramado com o fogo do amor, podemos dizer, na verdade, que o fogo e a água purificam a alma do amor próprio e dela extraem o azedume [das ofensas feitas a Deus] que a princípio continha, enchendo-a de força pela perseverança e paciência, e adocicando-a pelo mel de uma humildade profunda.

“Assim preparado o fruto, este é então dourado, simbolizando o ouro da pureza e o ouro reluzente da caridade, que se manifesta por uma verdadeira paciência no serviço do próximo, suportado com imensa ternura de coração.

Suscitada para servir a Igreja numa difícil conjuntura

Florido, rico em idéias e simbolismos, esse texto sobre Santa Catarina de Siena nos remete à época em que ela viveu, marcada por graves acontecimentos na história da Igreja.

Santa Catarina de Siena pertenceu à Ordem Terceira dominicana, e desde seus 15 anos de idade consagrou-se às obras de caridade, a uma intensa vida de piedade e mortificação. Distribuía abundantes esmolas aos pobres, servia os doentes, visitava os prisioneiros e consolava os desafortunados. Como sói acontecer com as almas particularmente queridas por Deus, a Providência permitiu que fosse afligida desde cedo por doenças crônicas, que não fizeram senão se agravar no decorrer de sua breve existência, vindo a falecer aos 33 anos, em Roma.

Dirigida pelo bem-aventurado Raimundo de Cápua — que, além de seu confessor, foi também seu biógrafo, autorizado por ela a publicar o conteúdo de suas visões e revelações — Catarina de Siena se santificou e se tornou um dos mais luminosos florões do catolicismo no século XIV.

Porém, como dissemos, nessa época a situação da Igreja não era o que se poderia desejar como ideal. Pelo contrário, a barca de Pedro era então ameaçada por toda espécie de ondas nefastas que procuravam pô-la a fundo. Sinais de decadência da fé e de relaxamento dos costumes se faziam notar um pouco por toda a parte, nos mais variados ambientes católicos. Até mesmo nos mosteiros e conventos, que deviam proporcionar aos seus religiosos a tranqüilidade e a estabilidade que trazem o desapego dos bens terrenos, instalara-se um desejo de luxo e opulência oposto aos ideais evangélicos.

Como se tal não bastasse, a sede do Papado se transferira de Roma para Avignon, feudo que os Pontífices romanos possuíam na França, e ali viviam sobre o domínio dos soberanos franceses. Ora, aqueles germens de decomposição moral atingiram também as fileiras do clero secular, disseminando um espírito de revolta contra a autoridade do Vigário de Cristo e outros desmandos. Donde se estabelecer, por volta de 1378, uma situação de cisma dentro da Igreja, com o Papa legítimo, Urbano VI,  e um ilegítimo eleito apenas por cardeais franceses.

Em meio a essa confusão, as almas retas lamentavam a ausência dos Papas de Roma, e desejavam ardentemente que a Cidade Eterna voltasse a ser o centro da Cristandade, e a paz, a dignidade da fé e o bom aroma da virtude reinasse novamente no orbe católico.

Uma dessas almas foi Santa Catarina de Siena, suscitada por Deus para, através de suas célebres cartas e admoestações dirigidas às autoridades eclesiásticas — sobretudo à maior delas, o próprio Papa — reconduzir as ovelhas de Cristo a serem outra vez um só rebanho sob a égide de um só pastor. Grande mística, favorecida por visões de Nosso Senhor Jesus Cristo, ela escrevia essas missivas inspirada por tais revelações, e acabou granjeando influência e admiração entre os que aceitavam seus conselhos. Contribuiu, dessa forma, para sustentar a nau da Igreja em sua conturbada trajetória, embora não chegasse a presenciar em vida o fim do chamado grande cisma do Ocidente, que se deu trinta anos depois de sua morte.

Seja como for, confiante na infinita solicitude de Nosso Senhor Jesus Cristo por sua Esposa Mística, Santa Catarina rezou e se sacrificou até o derradeiro suspiro pela salvação e reunificação da Igreja. Nessas disposições entregou a alma a Deus, no dia 27 de abril de 1380.

Não há flores sem cruzes, nem cruzes sem flores

É essa Santa Catarina que se comprazia em dar presentes de Natal aos seus amigos. Percebe-se nessa peculiaridade o espírito ameno, alegre (no bom sentido da palavra) e afável de uma religiosa tão penitente e mortificada. Mas, os presentes que ela oferecia eram simbólicos. Quando menina, ela dava flores, de que o solo italiano é fecundo, e cruzes, de que a vida do católico é também fecunda.

Essa ideia de oferecer flores e cruzes parece-me muito equilibrada, pois o Natal é uma época de felicidade e convém externar esse júbilo por meio do colorido das flores. Contudo, para o católico não há flores sem cruzes, e por isso sempre será oportuno, na hora do júbilo florido, lembrar a alma que ela deve se preparar para os sofrimentos.

Eu diria mais: também não há cruzes sem flores. Pois o católico sabe aceitar as provações como algo valioso para a sua santificação e para uni-lo a Nosso Senhor e Nossa Senhora. Razão pela qual a cruz é por ele recebida com alegria, como se adornada de flores, a exemplo de Nosso Senhor ao abraçar a cruz que Ele deveria levar até o alto do Calvário. Segundo piedosa crença, no momento em que Lhe impingiram o instrumento de seu suplício, o Divino Redentor o osculou afetuosamente antes de carregá-lo nos ombros, porque era o meio para a realização da missão que O trouxera ao mundo, isto é, a redenção do gênero humano.

Advertências salutares

Quando alcançou notoriedade, dotada de prestígio junto aos Papas, Santa Catarina de Siena passou a dar presentes mais elevados, quer dizer, obtinha para seus favorecidos certas indulgências concedidas pelo Pontífice e outros dons espirituais.

Para compreendermos o valor de uma indulgência cumpre considerar que as almas de quase todos os fiéis defuntos passam pelo Purgatório, onde se purificam e expiam as penas devidas às faltas cometidas nesta vida.

Ora, pelos méritos das indulgências, uma alma consegue abreviar seu período de expiação no Purgatório, ou até mesmo eliminá-lo de todo.

Podemos imaginar, então, com que felicidade os amigos de Santa Catarina de Siena recebiam, mandado por ela na noite de Natal, um documento do Papa concedendo tais e tais indulgências. Com um detalhe interessante de notar. É que por meio dessa forma amena de agradar o próximo, envolta no bimbalhar dos sinos natalinos e sob o invólucro do perdão, Santa Catarina não deixava de lhe dizer uma importante verdade: “Não se esqueça de que você tem contas a pagar. Essas indulgências serão suficientes para cobri-las? Examine sua alma, abra os olhos e pense em como se comportará doravante”.

Havia, portanto, subjacente ao gesto de afeto e amizade, uma salutar advertência para a vida espiritual do seu conhecido.

Um lindo modo de estimular o Papa à prática da virtude

Há ainda o pitoresco fato de ela ter mandado cinco laranjas de presente para o Papa. Entende-se que Santa Catarina fez uma compota, “dourando” os frutos no açúcar e no fogo, o que lhe inspirou a bela comparação que expressou nas linhas dirigidas ao Vigário de Cristo.

Na verdade, encontrara um modo gracioso e igualmente ameno de estimular o Pontífice à prática da virtude, à paciência, ao desapego das coisas materiais, ao amor à cruz e ao espírito de penitência, quão mais necessários naquele que era o guia e modelo de todos os católicos do mundo. Então se refere ao amargor que a fruta apresenta num primeiro momento, para depois tornar-se doce e agradável ao paladar: assim como a virtude, a princípio amarga para o homem ainda presa de suas imperfeições e apegos; em seguida suave e deleitosa, pelo sofrimento unido ao de Cristo e abraçado com perseverança e humildade

Padroeira dos que trabalham e lutam pela Igreja

Concluo esses comentários salientando um ponto que me parece muito oportuno. Uma vez que Santa Catarina de Siena distinguiu-se por seu zelo e fervor no serviço da Esposa Mística de Cristo, posto que ela tanto trabalhou para reerguer a Igreja no tempo dela, não será despropositado tomá-la como padroeira de todos aqueles que igualmente trabalham e lutam pelos interesses católicos.

E, portanto, é de extrema conveniência que a ela elevemos nossas preces, rogando seu auxílio e sua intercessão junto a Maria Santíssima e ao Sagrado Coração de Jesus, a fim de que possamos, nós também, conquistarmos em nossa época grandes vitórias para a Igreja.

 

(Extraído de conferência em 30/4/1971)

28 de abril – Apóstolo da mediação universal de Maria

Apóstolo da mediação universal de Maria

Num século em que o jansenismo e outros erros demonstravam aversão à verdade da mediação universal de Nossa Senhora junto a seu Divino Filho, o apostolado e a obra de São Luís Grignion de Montfort — afirma Dr. Plinio no artigo transcrito a seguir — constituiu um dos “maiores monumentos à Santíssima Virgem”.

 

Muitos são hoje (…) os católicos que conhecem e admiram a obra do grande e fogoso missionário popular da França do século XVIII, São Luís Maria Grignion de Montfort, autor do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Nasceu ele em Montfort-la-Cane, na região da Bretanha, em 1673. Ordenado sacerdote em 1700, se dedicou à pregação missionária, principalmente na Bretanha, Normandia e Vandeia. As cidades em que pregou, inclusive as mais importantes, viviam em grande medida da agricultura e estavam profundamente marcadas pela vida rural. De sorte que São Luís Maria, se bem que não haja pregado exclusivamente a camponeses, ainda pode ser considerado essencialmente um apóstolo das populações rurais.

Suavidade e santa firmeza

Em suas pregações, que em termos modernos poderiam chamar-se sumamente “aggiornate”, ele não se limitava a ensinar a doutrina católica em termos que servissem para qualquer época e qualquer lugar, senão que sabia dar realce aos pontos mais necessários para os fiéis que o ouviam.

O gênero de seu “aggiornamento” (era muito original). Os erros de seu tempo, ele não os via como meros frutos de equívocos intelectuais oriundos de homens de insuspeitável boa fé: erros que por isso mesmo um diálogo destro e ameno sempre dissiparia.

Capaz de diálogo afável e atraente, ele não perdia de vista, entretanto, toda a influência do pecado original e dos pecados atuais, assim como a ação do príncipe das trevas na gênese e no desenvolvimento da imensa luta movida pela impiedade contra a Igreja e a Civilização Cristã. A célebre trilogia demônio, mundo e carne, presente nas reflexões dos teólogos e missionários de boa lei em todos os tempos, a tinha ele em vista como um dos elementos básicos para o diagnóstico dos problemas de sua época. E assim, conforme as circunstâncias o pediam, ele sabia ser ora suave e doce como um anjo, [ora firme e severo, como apóstolo] incumbido de anunciar as ameaças da Justiça Divina contra os pecadores rebeldes e endurecidos.

Esse grande apóstolo soube alternadamente dialogar e polemizar, e nele o polemista não impedia a manifestação das doçuras do Bom Pastor, nem a mansidão pastoral aguava os santos rigores do polemista. (…)

Mundanismo e jansenismo afastavam as almas da Igreja

A sociedade francesa dos séculos XVII e XVIII estava gravemente enferma. Tudo a preparava para receber passivamente a inoculação dos germens do Enciclopedismo, e desmoronar-se em seguida na catástrofe da Revolução Francesa.

Resumindo um pouco a visão de conjunto da sociedade francesa, pode-se dizer que nas três classes — clero, nobreza e povo — preponderavam dois tipos de alma: os laxistas e os rigoristas. Os laxistas, tendentes a uma vida de prazeres que levava à dissolução e ao ceticismo. Os rigoristas, propensos a um moralismo hirto, formal e sombrio, que levava ao desespero quando não à rebelião. Mundanismo e jansenismo eram os dois pólos que exerciam uma nefasta atração, inclusive até em meios reputados dos mais piedosos e moralizados da sociedade de então.

Um e outro – como tantas vezes acontece com os extremos de erro – levavam a um mesmo resultado. Com efeito, cada qual por seu caminho, afastava as almas do sadio equilíbrio da Igreja. Esta, efetivamente, nos ensina em admirável harmonia  a doçura e o rigor, a justiça e a misericórdia.

O maior louvor à Virgem Mãe de Deus

São Luís Maria Grignion de Montfort, como ardoroso pregador da austeridade cristã genuína, nada tinha da austeridade taciturna, biliosa e estreita de um Savonarola ou um Calvino. Ela era suavizada por uma terníssima devoção a Nossa Senhora. Em torno da mediação universal de Maria, o missionário francês construiu toda uma mariologia  que é o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus.

 

(Extraído do “Última Hora”, de 29/5/1984)

28 de abril – São Luís Maria Grignion de Montfort e a devoção capaz de renovar a face da Terra

São Luís Maria Grignion de Montfort e a devoção capaz de renovar a face da Terra

O exemplo do grande apóstolo da devoção mariana, São Luís Grignion de Montfort, inspirou e bafejou a piedade de Dr. Plinio, desde o momento em que este encontrou, numa livraria católica de São Paulo, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Às vésperas da canonização do santo autor, Dr. Plinio escreveu as palavras transcritas a seguir, exaltando as virtudes e a obra desse ardoroso missionário da Mãe de Deus.

 

Como condição de vitória, sem se desprezar nem de leve as providências concretas, devemos contar essencialmente com os recursos sobrenaturais. A História demonstra que não há inimigos que vençam um país cristão que possua três devoções: ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e ao Papa. Investigue-se bem a queda de nações aparentemente muito fervorosas em sua adesão à Igreja: alguma broca secreta a minava em uma dessas três virtudes-chave.

A vitória, pois, depende de nós. Tenhamos em dia nossa consciência, estejamos tranquilos em Deus, e venceremos.

O livro dos tempos novos

Isto explica o extraordinário relevo que damos a uma notícia apagada, que os jornais reproduziram há pouco: a canonização iminente do Bem-aventurado Luís Maria Grignion de Montfort [ver quadro em destaque].

A notícia nada significa para o comum das pessoas. Ela significa tudo, para os que conhecem o verdadeiro fundo das coisas. A Providência resolveu jogar sua bomba atômica contra os adversários da Igreja. Perto desta bomba, as convulsões de Hiroshima e Nagasaki não passam de inocentes tremedeiras. Há dois séculos que está pronta a bomba atômica do Catolicismo. Quando ela explodir de fato, compreender-se-á toda a plenitude de sentido da palavra da Escritura: “Non est qui se abscondat a calore ejus [Não há quem se esconda de seu calor (Sl 1)]”.

Esta bomba se chama com um nome muito doce. É que as bombas da Igreja são bombas de Mãe. Chama-se O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Livrinho de pouco mais de cem páginas. Nele, cada palavra, cada letra é um tesouro. Este o livro dos tempos novos que hão de vir. (…)

Por meio de Maria, unir-se a Deus

O Beato Grignion de Montfort expõe em sua obra, no que consiste a perfeita devoção dos fiéis a Nossa Senhora, a escravidão de amor dos verdadeiros católicos à Rainha do Céu. Ele nos mostra o papel fundamental da Mãe de Deus no Corpo Místico de Cristo, e na vida espiritual de cada cristão. Ele nos ensina a viver nossa vida espiritual em consonância com essas verdades. E nos inicia em um processo tão sublime, tão doce, tão absolutamente maravilhoso e perfeito, de nos unirmos a Maria Santíssima, que nada há na literatura cristã de todos os séculos que o exceda neste ponto.

Esta devoção, diz Grignion de Montfort, unindo o mundo a Nossa Senhora, uni-lo-á a Deus. No dia em que os homens conhecerem, apreciarem, viverem essa devoção, nesse dia Nossa Senhora reinará em todos os corações, e a face da Terra será renovada.

De que forma? Grignion de Montfort esclarece que seu livro suscitaria mil oposições, seria caluniado, escondido, negado; que sua doutrina seria difamada, ocultada, perseguida; que ela daria automaticamente uma antipatia profunda nos que não têm o espírito da Igreja. Mas que um dia viria em que os homens por fim compreenderiam sua obra. Nesse dia, escolhido por Deus, a restauração do Reino de Cristo estaria assegurada.

Mais poderoso que todas as forças humanas

Durante séculos, a canonização do Beato Grignion vem caminhando. Por fim, ela chegou a seu termo. É absolutamente impossível que esse fato não tenha um nexo profundo com a dilatação da Verdadeira Devoção no mundo.

E, nós o repetimos, é essa Verdadeira Devoção, a bomba atômica que, não para matar, mas para ressuscitar, Deus pôs nas mãos da Igreja em previsão das amarguras deste século.

Pois bem, nosso otimismo é este: confiamos imensamente mais na bomba atômica de Grignion de Montfort, e em seu poder, do que receamos da ação devastadora de toda as forças humanas. 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do “Legionário”, de 21/10/1945) 18, 7).

28 de abril – Luís Maria Grignion de Montfort: Profeta e missionário

Luís Maria Grignion de Montfort: Profeta e missionário

São Luís Maria Grignion de Montfort foi verdadeiro profeta e missionário.

No momento em que muitos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranquilos quanto à situação da Igreja — embalados num otimismo displicente, tíbio e sistemático —, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução Francesa.

Como missionário, causticou implacavelmente o espírito neopagão, fazendo quanto podia para afastar o povo fiel do mundanismo e de tudo quanto possuía o mau espírito nascido da Renascença.

Se São Luís Grignion tivesse estendido sua ação missionária a toda a França, provavelmente teria sido outra a História daquele país e do mundo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 3/6/1993)

27 de abril – São Pedro Armengol: De bandido a religioso

São Pedro Armengol: De bandido a religioso

São Pedro Armengol é o modelo da confiança. Pecador medonho, ele se arrependeu, confiou e não só foi perdoado, mas recebeu uma vocação religiosa. Nossa Senhora chamou o bandido para ser religioso. É uma bondade extraordinária!

Nas dificuldades, peçamos a São Pedro Armengol a confiança e a calma dele, certos de que Nossa Senhora resolverá tudo.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 16/2/1988)

26 de abril – Oração à Mãe do Bom Conselho

Oração à Mãe do Bom Conselho

Ó Mãe do Bom Conselho, eu Vo-lo suplico: falai no mais íntimo da alma deste vosso filho e escravo.

Tornai, assim, sempre presente a meu espírito a convicção de que são objetivas — e não meros frutos da imaginação — as graças que, segundo firmíssima tradição, concedeis a vossos devotos pelas “mudanças” de vossa fisionomia.

Convencei-me de que podeis instilar, desta forma, nas almas, convicções de confiança e paz que valham por verdadeiras promessas vossas.

Tendo em vista os auxílios providenciais que em várias ocasiões inesperadamente me concedestes, peço-Vos que acresçais ainda mais minha confiança, de sorte que ela se torne inabalável em todas as ocasiões.

Pela virtude dessa confiança, dai-me a certeza de que, através de graças avassaladoras, tornar-me-eis um perfeito cavaleiro vosso; exorcizai e enviai para longe de mim qualquer influência diabólica; e uni-me cada vez mais a Vós, para Vos servir na Terra e Vos louvar no Céu. Assim seja.

Plinio Corrêa de Oliveira

26 de abril – Poder maravilhoso de se comunicar com as pessoas

Poder maravilhoso de se comunicar com as pessoas

O quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano tem um poder maravilhoso de fazer com que as pessoas entrem em comunicação com a Mãe de Deus. Ele muda de colorido e Maria Santíssima ora parece alegre, satisfeita e risonha, ora apresenta um aspecto de tristeza. Sem que se possa dizer que haja um movimento nos traços do afresco, ele exprime por esta forma a inúmeros fiéis aquilo que a Virgem deseja.

 

No dia 26 de abril, comemora-se a festa de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, instituída a propósito do célebre afresco da Mãe de Deus que se venera na igreja dos agostinianos, na cidade de Genazzano, Itália.

Scanderbeg, um guerreiro valorosíssimo

As informações que darei foram tiradas de um livro sobre Nossa Senhora do Bom Conselho. A razão da compra desta obra, de minha parte, foi que em pequeno eu rezava muito diante de um quadro dessa invocação, o qual se encontrava no altar-mor da antiga capela do Colégio São Luís e tem uma história milagrosa, cujos pormenores não me lembro, mas que está ligada ao martírio dos quarenta jesuítas que vieram evangelizar o Brasil.
Vendo esse livro, comprei-o e confesso que me encheu de admiração. De fato, tudo quanto ali diz respeito à história do afresco e à devoção a Mãe do Bom Conselho é uma verdadeira maravilha!

 

Em duas palavras a história desse quadro é a seguinte: a Albânia, no século XV, era um Estado cristão capitaneado por um general chamado Scanderbeg, um guerreiro valorosíssimo que lutava contra as hordas turcas as quais estavam tentando avançar pela Europa adentro.Scanderbeg era um homem bastante religioso e que se colocava sob a proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho, da qual havia na Albânia um santuário nacional muito frequentado. Enquanto Scanderbeg viveu, a luta contra os turcos foi vitoriosa. Ele reunia em si todo o valor e toda a combatividade da nação albanesa. Era um grandíssimo homem, mas o povo albanês estava em decadência e por causa disto provavelmente a resistência cessaria quando ele morresse. Os últimos lances de sua vida foram extraordinários. Numa ocasião ele se encontrava deitado, agonizando, quando veio a

 

notícia de que os turcos estavam chegando às portas da cidade. Quando ele ouviu isto, fez uma oração a Nossa Senhora e pediu-Lhe forças para combater. Levantou-se do leito e foi de encontro aos turcos. Ele tinha dois auxiliares que o ajudavam porque quase não aguentava mais dirigir a batalha. Depois, voltou para a cama e faleceu. Assim morre um verdadeiro herói católico, um devoto de Nossa Senhora na sua acepção mais exata e mais adamantina. É uma verdadeira beleza!

 

 

As águas do mar se tornaram sólidas

Mas dois amigos albaneses, que eram filhos da luz, notando o declínio da Albânia e prevendo que o país cairia quando morresse Scanderbeg, resolveram ir ao Santuário de Nossa Senhora do Bom Conselho a fim de pedir luzes a respeito do que deveriam fazer: ficar na Albânia realizando uma certa resistência e algum apostolado debaixo das hordas turcas, ou ir para a Itália. Tanto mais que um número muito grande de albaneses já estava fugindo para lá, e parecia-lhes mais indicado emigrarem. Chegando ao Santuário, rezaram e ficaram de

voltar no dia seguinte para ter uma solução do caso. Qual não foi a surpresa deles quando verificaram que o quadro se destacara da parede, deu uma espécie de giro dentro da igreja, saiu pela porta e foi andando no ar lentamente. Eles acompanharam o afresco que, quando chegou ao mar, continuou a andar acima das águas. Os dois amigos, então, prosseguiram sua caminhada sobre o mar, que se tornou sólido debaixo dos seus pés, sempre acompanhando o quadro. Assim, chegaram à Itália.

É uma grande caminhada, mas eu acho que não é o caso de interpor aqui perguntas e críticas, porque Nossa Senhora tem o poder de fazer um quadro andar pelos ares e de dar consistência às águas. E pode conceder a dois homens a possibilidade física de atravessar uma grande extensão, caminhando sobre as águas solidificadas.
Na Itália, o quadro sumiu misteriosamente da vista deles. Então, empreenderam – isso é muito medieval ainda – andar por todo o país a fim de ver onde tinha ido parar, porque não queriam se separar dele. Assim como a estrela desapareceu da vista dos Reis Magos quando chegaram a Jerusalém, assim também o quadro sumiu para esses dois albaneses.

Uma nuvem brilhante desceu sobre o terreno de Petruccia

Havia em Genazzano – uma pequena cidade da Itália, que era feudo dos Príncipes de Colonna, uma grande família nobre romana – uma mulher anciã chamada Petruccia que dizia ter vocação de construir uma igreja. Era uma senhora isolada, meio mendiga, um pouco maníaca e todo mundo debicava dela. Em certo momento, Petruccia conseguiu que lhe dessem um terreno para edificar uma igreja em louvor de Nossa Senhora. Mais tarde, obteve um pouco de material da construção e, assim, levantou-se algo a maneira de um muro numa parte do terreno. Depois os trabalhos pararam porque ela não recebeu mais auxílios.
E toda a molecada, quando encontrava a Petruccia na rua, dizia para ela:
— Ei, Petruccia, cadê a igreja? Quando é que será construída?
Não é preciso ter muita imaginação para dar o alinhamento geral da cena.
Havia em Genazzano uma feira para onde afluía grande parte da população. Certo dia em que Petruccia estava no meio do povo, de repente se fez ouvir um estrondo no céu e apareceu uma nuvem brilhante, da qual partiam harmonias que desciam sobre a cidade. A nuvem baixou sobre o terreno de Petruccia e, quando desapareceu, encontrou-se o quadro – que o povo não sabia ser de Nossa Senhora do Bom Conselho – encostado junto a uma das paredes, sem prego, nem apoio, nem suporte, o que é uma coisa inexplicável. Foi o grande dia da Petruccia.
Mas ninguém sabia que invocação era aquela. Nunca se tinha ouvido falar dela. Era uma manifestação angélica.
Um belo dia, os dois albaneses, que estavam à procura do quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, tendo ouvido falar, em Roma, sobre o que havia ocorrido em Genazzano, desconfiaram naturalmente que aquele era o quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho.
Foram para lá, se prostraram diante do afresco, rezaram. Comunicaram ao povo que se tratava do quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, da Albânia, que eles tinham visto partir para não se deixar subjugar pelos turcos.

O quadro se mantém junto à parede de um modo miraculoso

A igreja se tornou um lugar das múltiplas romarias partidas dos vários Estados italianos, antes da abominável unificação da Itália. A romaria andava em fila, homens separados das mulheres, havia proibição de estar prestando atenção nas coisas do caminho, devia-se o tempo inteiro rezando o Rosário, cantando ladainhas em louvor de Nossa Senhora, parando nos lugares ermos – onde não houvesse possibilidade de escândalo – para comer, e continuando a caminhada até chegar a Genazzano.
Mesmo nos dias de enchentes, em que pessoas acabam dormindo até nas ruas, o quadro de Nossa Senhora continua junto à parede, mas não encostado nela, de maneira que ele se mantém de um modo miraculoso. Há, então, chuvas de graças que o afresco espalha para todas as pessoas.
Essas graças são muitas vezes de curas, porém o forte não é propriamente a graça de cura, mas um poder maravilhoso de, sem praticar um milagre evidente, se comunicar com um grande número de pessoas que vão consultar a Santíssima Virgem a respeito de padecimentos espirituais, dúvidas, problemas. A meu ver, a ideia relacionada com o afresco é a seguinte:
O quadro muda de colorido, ora toma uma cor brilhante e Nossa Senhora parece alegre, satisfeita e risonha, ora adquire cores que Lhe dão um aspecto de tristeza. E sem que se possa dizer que haja um movimento nos traços do afresco, entretanto é verdade que ele exprime por esta forma a inúmeros fiéis aquilo que Ela quer, e muitos acabam entendendo isto e passam a ter com a Mãe de Deus uma comunicação, resolvendo problemas importantíssimos.

 

Mudanças de fisionomia de Nossa Senhora

O quadro é veneradíssimo, e o livro apresenta atestados importantes de pessoas que reconheceram mudanças da fisionomia de Nossa Senhora. Um dos atestados mais interessantes é de um pintor de certa celebridade de Gênova, que recebeu de uma família genovesa, provavelmente rica, a incumbência de ir a Genazzano e fazer uma cópia do afresco para ser colocada numa igreja de Gênova. Como era um homem de projeção, consentiram que trabalhasse no próprio altar, perto do quadro, para poder ver bem, e ele começou, então, a pintar a imagem.
O livro transcreve um atestado dele declarando que a figura de Nossa Senhora tantas vezes modificou a expressão fisionômica, enquanto ele pintava, que lhe foi impossível retratá-la. Ela não modifica tanto, mas é um prodígio que Maria Santíssima quis fazer para que este homem atestasse o maravilhoso do fato, e até hoje se dá isto.
É um prodígio contemporâneo que não pode ser apresentado como um milagre, mas demonstra ser a Fé Católica verdadeira, e deve ser visto como uma graça muito preciosa para todas as pessoas que querem elucidar seus problemas.
O mais interessante é que vários outros quadros de Nossa Senhora do Bom Conselho, os quais afinal se copiaram e foram levados para diversos pontos da Itália, têm propriedades análogas e há peregrinações porque a Santíssima Virgem prodigaliza os seus conselhos às pessoas que vão ali rezar.
Temos, assim, a indicação de um elemento para nos afervorarmos na piedade a Nossa Senhora.

(Extraído de conferência de 25/4/1967)

26 de abril – Mediação de Maria suavemente expressa

Mediação de Maria suavemente expressa

No afresco da Mãe do Bom Conselho de Genazzano o Menino Jesus está numa grande intimidade com Nossa Senhora, mas os olhos d’Ele estão voltados para cima, enquanto os d’Ela para baixo. Ela olha para Ele, e Ele para Deus.

Entretanto, o olhar d’Ela é curiosamente bivalente. Embora Maria Santíssima contemple seu Divino Filho, também é verdade que está olhando para quem venera o quadro. Este é bem o papel da Mãe de Deus: a Medianeira que recebe nossa oração, transmite para Jesus e Ele a leva às outras Pessoas da Santíssima Trindade.

Desta maneira temos a doutrina católica sobre a Mediação de Maria suavemente expressa, sem a precisão dogmática característica da Teologia, mas com a suavidade e o subentendido próprios à arte.

É muito bonito que tanta doutrina tenha sido posta tão delicadamente nesse afresco. Sem dúvida, é mais interessante descobrir isso analisando a pintura do que se estivesse escrito embaixo: “Mediação Universal”. Porque essa sublime verdade insinuada, dada a entender de leve, sem estar afirmada de modo categórico, mas de maneira a permitir ao fiel ir descobrindo como por detrás de um aroma delicado, tem um inegável encanto. Para uma obra de arte, às vezes um certo mistério aumenta o atrativo, e nesse afresco encontramos esse mistério.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 29/6/1974)

Revista dr Plinio 265 (Abril de 2020)

26 de abril – Rainha do Conselho

Rainha do Conselho

Nossa Senhora foi o oráculo vivo que São Pedro consultou nas suas principais dificuldades, a estrela que São Paulo não cessou de olhar para se dirigir em suas numerosas e perigosas navegações — afirma um piedoso autor a propósito das relações de Maria com a pregação da Igreja nascente. Esse papel inspirador da Virgem Santíssima nos sugere cenas de rara beleza.

Por exemplo, Ela tendo a seu lado São Pedro, São Paulo ou São João Evangelista, explicando, interpretando e os ajudando a compreender os fatos da vida de Nosso Senhor, realçando este ou aquele episódio, espargindo assim o aroma do bom espírito que perfumava a Igreja inteira. Não sem razão, portanto, se A exalta no “Cantus Marialis” como a Rainha da prudência e do conselho, vaso de eleição, de ortodoxia, sabedoria e santidade.

 

Plinio Corrêa de Oliveira