09 de maio – Madre Thérèse-Camille de l’Enfant-Jésus

Madre Thérèse-Camille de l’Enfant-Jésus

Mais importante do que fazer uma imponente obra é edificar pelo exemplo. Eis a lição tirada por Dr. Plinio da conturbada vida da Madre Thérèse-Camille de l’Enfant-Jésus.

 

A  24 de julho de 1784, recebia o véu no Carmelo Mademoiselle Camille de Soyécourt(1), filha da mais alta nobreza da França. Jovem, entretanto, tão franzina e acometida, segundo os médicos, de uma moléstia incurável do coração, que todos julgavam não poder permanecer mais de seis meses no convento. Contudo, ela não somente sobreviveu muitos anos como, sem dúvida, sua personalidade teve destaque notável, embora desconhecido, na preservação do Carmelo de Paris durante a Revolução Francesa.

Familiares guilhotinados

Em 1792, seu convento foi invadido e as religiosas dispersas. Irmã Camille, liderando o grupo delas, instalou-se numa casa, firmemente decidida a manter vivo o espírito carmelitano. Denunciada, a pequena comunidade foi presa. Quando obteve a liberdade, Mademoiselle de Soyécourt refugiou-se em casa de sua família, mas por pouco tempo, pois seus pais e duas irmãs foram encarcerados.

Após numerosas peripécias, empregou-se numa fazenda. Durante todo esse tempo não deixou de cumprir o mais rigorosamente que pôde os preceitos do Carmelo: jejuava, recitava o Ofício nas horas devidas e confessava-se, com grande dificuldade, semanalmente, com um padre refratário.

Um dia teve a notícia da condenação de seus familiares, todos guilhotinados. Soube então que sua irmã deixara um filho, pequeno ainda. Apesar de sua dolorosa situação, Irmã Camille foi tutora do sobrinho até a morte.

Expulsa da fazenda onde trabalhava, pois a morte de seus pais traiu sua pessoa, a religiosa mendigou algum tempo. Tendo encontrado uma Irmã de seu convento, decidiu restabelecer sua Ordem. Com o dinheiro das esmolas e com auxílio de padres refratários obteve a capela de um seminário, recomeçando os ofícios religiosos.

Copiava e distribuía a Bula de excomunhão de Napoleão

Terminado o Terror, Mademoiselle de Soyécourt, então uma figura alta, pálida, grave e suave, decidiu reobter para seu sobrinho e para seu convento a fortuna de seus pais. Causava espanto aos notários e homens da lei a presença dessa mulher paupérrima, falando de milhões, de venda de terras e de compra de imóveis.

Mas conseguindo integralmente o que desejava, a religiosa chamou para junto de si as suas Irmãs dispersas. E o convento carmelita de Paris reinstalou sua comunidade. Aí ela viveu mais de 45 anos, não sem problemas. Por exemplo, em janeiro de 1811, Fouché foi informado de que uma senhora carmelita, superiora do Carmelo, ocupava-se ativamente em copiar e distribuir a Bula de excomunhão do próprio Imperador. Foi por isso presa num lugar bem distante do convento, o que não a impedia de atender sua comunidade, fazendo-lhe visitas inteiramente disfarçadas, e passando, desse modo, diante dos guardas, com toda a segurança.

A Restauração tirou-a desse exílio. Quando suas dificuldades morais pareceram diminuir, começaram as físicas. Seu corpo tornara-se quase diáfano, por causa dos jejuns e penitências. Aos 85 anos, ainda dormia sobre uma tábua, apesar da gota dolorosíssima e de dores de estômago que não lhe permitiam repousar. Manteve, entretanto, como sempre em sua vida, inalterável bom humor e sua proverbial intrepidez. Repleta de dores, veio a falecer, em 1849, aos 92 anos de idade.

Vida cheia de inusitados contrastes

Gostaria que nos colocássemos diante dessa biografia(2), não no ponto de vista de quem simplesmente a lê, mas de quem a viveu. Então, vermos tudo quanto foi acontecendo para ela como próprio a uma vocação, a um objetivo muito definido, nos quais ela se adentrou com todo o empenho de sua alma.

Ela entra no Carmelo, forma-se, e poderia esperar ter, por exemplo, uma vida como a de Santa Teresa de Jesus ou de Santa Teresinha do Menino Jesus, ou seja, transcorrida inteira no Carmelo, com essas ou aquelas dificuldades, mas dentro da vida carmelitana. Com certeza, ela tivera mil apetências sugeridas pela graça para isso.

Entretanto, o que aconteceu? Ao invés de levar essa vida, eclode a Revolução Francesa e a Irmã Camille vai para o cárcere. Suponhamos que ela tenha pensado na hipótese do martírio: “Vou dar a minha vida, ficarei uma santa. Está bem, aceito com todo o gosto”. Conformidade… Ora, ela foi posta em liberdade.

Ela, que esperava viver ao menos sozinha para Deus, transforma-se em chefe de família, apesar de solteira, e fica tutora de um sobrinho.

Tendo sido uma moça rica, perde a fortuna. Os pais vão para a guilhotina e ela se torna criada numa fazenda, isto é, trabalhadora manual. Ela, que dera sua vida à Igreja, de nobre passa a religiosa e depois a trabalhadora manual em fazenda. A biografia não entra nesses pormenores, mas nada exclui a hipótese de que ela tenha tido que limpar estábulos e realizar outras tarefas prosaicas desse gênero.

Depois, é posta fora desse emprego e vira mendiga, tendo que cuidar ainda do menino. Começa a mendigar de um lugar para outro e, de repente, passada a Revolução Francesa, ela se transforma em mulher de negócios. Começa, então, a bater os cartórios para recompor a fortuna à qual tinha direito.

Tudo isso era completamente contrário ao que ela queria. Porém, ela sempre com o mesmo objetivo: ser carmelita. A tal ponto que reconstitui o Carmelo. Então, começa a vida normal de carmelita, mas vem a prisão que a interrompe novamente. Afinal, ela volta para o Carmelo. Dir-se-ia que ela vai levar uma vida tranquila. Então se inicia outro gênero de provação.

O que é ser pessoa realizada?

Poder-se-ia pensar: “Bem, coitada, é a fase final. Agora ela vai morrer e repousar em Deus.”

Nada de repousar em Deus! Vai ainda lutar na Terra até o último alento. Vive até os 92 anos, sempre praticando penitência, sendo modelo de religiosa, aguentando doenças e, afinal, morre numa idade que, com certeza, nunca podia imaginar atingir.

Aos olhos do espírito moderno, como considerar isso? Foi uma vida frustrada ou realizada?

Para os homens de hoje a vida realizada seria se ela tivesse entrado no convento e ficado religiosa direitinho até o fim. Como houve fatos que atrapalharam sua vida e a obrigaram a ser uma porção de coisas que não queira, ela cem vezes durante sua existência deveria ter se sentido frustrada, abandonado a vocação. E quando chega a doença, ela devia ter dito: “Não tem mais solução. Deus me entregou. Porque agora que eu poderia levar a vida normal de uma carmelita, começo a ter uma existência de doente”.

 Nós, entretanto, dizemos que foi uma grande vida realizada. E é impossível ouvirmos essa narração sem sentirmos a maior admiração por ela.

Mas então nos perguntamos: o que vem a ser a realização? Aqui entra o choque do homem moderno contra o espírito católico.

Segundo o espírito do mundo, ela não foi uma pessoa realizada porque não levou a vida que desejava. Teve uma existência inteiramente diferente daquele ponto para onde tendiam os seus esforços. Ela, portanto, não realizou a obra que empreendeu. Em última análise, a noção de indivíduo realizado que nós vemos por aí é, ou quem levou a vida que quis, ou o que ganhou muito dinheiro, suposto sempre que todo mundo quer adquirir dinheiro. Ora, ela não ganhou muito dinheiro e não levou a vida que quis. Logo não foi uma pessoa realizada.

Mas é impossível ouvirmos a leitura dessa ficha sem vermos que ela foi realizada. Então, no sentido verdadeiro da palavra, o que é a realização? Não é o que o espírito moderno pensa. A realização é, no sentido mais imediato – não no supremo –, a realização de si próprio. Quer dizer, vê-se que ela efetivou uma grande personalidade. Foi uma pessoa de grande virtude que, no esplendor de sua virtude, manifestou um grande número de qualidades até naturais de que a Providência a tinha dotado. Levou até a perfeição mil coisas que nela estavam potencialmente. É como uma semente que deu inteiramente uma esplêndida árvore.

Então, realizar-se, nesse sentido mais imediato da palavra, é o atingir a sua própria perfeição. Se fez ou não o que quis, não tem importância. O importante é ter chegado à sua própria perfeição.

Nunca se sentiu quebrada e sempre caminhou para a frente

Ademais, ela realizou essa perfeição, não através de uma série de fracassos consumados, mas vê-se que sua vida teve uma continuidade. Embora não fosse tudo como ela queria, eram os planos que Deus traçara a respeito dela. Ela, portanto, fez a vontade da Providência.

Quando acabamos de ler essa síntese de sua vida, percebemos a grande obra da Irmã Camille para a glória de Deus entre os homens. Não foi tanto de acabar fundando um convento – o que é uma obra excelente –, mas uma coisa muito maior: ter deixado um grande exemplo de perseverança, resolução, força de alma, confiança na Providência divina, obediência aos desígnios de Deus nas circunstâncias mais adversas da vida.

De maneira que, enquanto sua memória for conhecida pelos homens, haverá pessoas fracas, em condições difíceis, que terão um alento maior para enfrentar as dificuldades da vida, por causa do exemplo dela. E Irmã Camille vai ser a força dos fracos, a luz daqueles que estiveram na incerteza, na penumbra. Por quê? Porque foi o grande exemplo que ela deixou; isso é algo muito maior do que fazer uma grande obra.

Um grande convento é uma coisa esplêndida, mas se não fosse, ele mesmo, um grande exemplo, não adiantaria de nada. Abaixo do culto a Deus, a melhor coisa que podemos fazer é edificar pelo exemplo. As nossas palavras e ações vêm abaixo do exemplo. As palavras movem, o exemplo arrasta.

Irmã Camille deixou um exemplo de força de alma, e se percebe que, através de todas as incertezas da sua vida, ela foi sempre forte. Nunca se sentiu quebrada, sempre caminhou para a frente fazendo o dever de acordo com o que queria a Providência, sem perder a unidade do que ela estava realizando.

Mas entendendo que, fazendo o dever do momento, ela cumpria a vontade de Deus. No Céu ela está vendo essa unidade que Deus quis. E ela talvez não tivesse calculado que o seu exemplo irradiaria tanto, pudesse ser tão conhecido.

Trata-se de uma personalidade extraordinária, uma pessoa que talvez ainda venha a ser canonizada. Essa é a vida de alguém que cegamente vai seguindo diante das dificuldades, agindo e não se incomodando. No fim vem a glória de ter dado um bom exemplo, obedecendo a Deus. A meu ver, eis a grande lição que esta nota biográfica nos ensina.            

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 17/2/1970)

 

 

1) Serva de Deus, cujo processo de beatificação, aberto em 1938, ainda está em curso.

2) Não dispomos das referências bibliográficas.

02 de maio – Glória de fogo na História da Igreja

Glória de fogo na História da Igreja

No tempo do Império Romano, Santo Atanásio combatia os arianos com muito vigor. Mas, a certa altura, o mundo inteiro tornou-se ariano, como que da noite para o dia, e esse Santo Patriarca de Alexandria quase ficou sozinho nessa luta, chegando a ser tão perseguido que, para evitar a morte, não teve outro remédio senão entrar na sepultura dos pais e ali morar escondido.

Entretanto, ele lutou contra tudo e contra todos até que o Concílio de Niceia definiu a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, a Maternidade Divina de Nossa Senhora.

Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Uma coluna qualquer um terremoto derruba. Porém, nada derrubou Santo Atanásio! Ele tinha a graça divina que o ajudou. A muitos Deus oferece a graça, mas nem todos correspondem. A este grande Doutor da Igreja, pelo contrário, Deus a ofereceu e ele correspondeu generosamente. O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/10/1985)

Revista Dr Plinio 266

02 de maio – Santo Atanásio, gigante contra o arianismo

Santo Atanásio, gigante contra o arianismo

Batalhador incansável contra uma das maiores heresias de todos os tempos, Santo Atanásio sofreu atrozes perseguições promovidas pelos inimigos da Igreja. Mas as enfrentou com coragem, dignidade e ufania. Foi um dos maiores santos de toda a História, um lutador contra a heresia, como talvez a Esposa de Cristo não tenha tido nem antes nem depois dele.

 

Estive lendo, antes de vir para cá, um resumo biográfico muito condensado da vida de um dos maiores santos da Igreja, que foi Santo Atanásio. E alguns dos aspectos da biografia desse grande santo, que eu não conhecia, me chamaram a atenção, e me pareceu bem comentá-los.

Uma das maiores heresias da História

Santo Atanásio(1) viveu no tempo do Imperador Constantino e de seus sucessores imediatos. Quer dizer, quando a Igreja estava saindo das catacumbas e se organizando à luz do dia. Nessa época, ao mesmo tempo em que as perseguições promovidas pelos pagãos estavam em declínio, a Esposa de Cristo sofria um outro flagelo, certamente pior do que a perseguição dos pagãos, e que nós conhecemos muito bem: as heresias e as divisões internas.

Uma das maiores heresias de toda a História grassou exatamente no tempo de Santo Atanásio e Constantino, a dos arianos. Estes afirmavam que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha uma natureza apenas humana; não era Deus, era um grande homem, um homem extraordinário. E essa heresia, como percebem, importava na negação completa da Religião Católica. Reduzir Nosso Senhor Jesus Cristo a um puro homem é negar a Doutrina da Igreja por inteiro.

Os arianos eram muito poderosos, espalharam-se rapidamente por todo o Império Romano — que se localizava mais ou menos em torno da bacia do Mediterrâneo — e, por serem exímios em toda espécie de difamação, obtiveram influência na corte imperial; arrastaram atrás de si tal número de fiéis, mesmo sacerdotes e bispos, que Santo Atanásio declarou que um belo dia o mundo inteiro gemeu porque, ao amanhecer, deu-se conta de que era ariano. Quer dizer, de um momento para outro essa heresia grassou por toda parte e, como que, todo o mundo se tinha tornado ariano.  

Nesta luta contra o arianismo, o gigante foi Santo Atanásio, Patriarca — quer dizer, mais do que um arcebispo — de Alexandria, que era uma das grandes sedes episcopais da antiguidade.

Seis anos no fundo de um poço

Santo Atanásio foi, não me lembro se quatro ou seis vezes, obrigado a fugir da cidade de Alexandria, por causa das conspirações dos arianos, os quais conseguiram vários decretos imperiais expulsando-o para esta ou aquela parte do Império Romano, e muitas vezes sendo perseguido de morte; e, ao longo dessas perseguições e dessa luta tremenda que ele travou, alguns fatos não são tão conhecidos.

Conhece-se a história da querela dele com os arianos no terreno doutrinário, mas sabe-se menos a respeito dos episódios policialescos de sua luta com os arianos. Parece-me, entretanto, que na vida de um santo, mesmo alguns fatos menores têm muito de edificante, e que valeria a pena referir aqui alguns desses episódios.

Para terem ideia do quanto importava, muitas vezes, a resistência a favor da ortodoxia contra a heresia, basta dizer o seguinte: Santo Atanásio, num lance de sua luta, para fugir aos hereges passou seis anos no fundo de um poço! Não sei se os aqui presentes se dão bem conta do que significa isso: sem ver sequer a luz do dia! Havia apenas um católico fiel o qual, na hora em que o poço estava abandonado, lhe jogava o necessário para viver. O poço, ao menos água lhe fornecia…  E ele ficava ali lendo, refletindo, rezando, de maneira que Deus, no mais alto dos Céus, recebeu durante seis anos o louvor perfeito que um santo lhe enviava do fundo de um poço. Sempre confiando na Providência, disposto a lutar, inquebrantável no seu propósito, de maneira que, ao cabo de seis anos, a perseguição se amainou e o amigo dele lhe avisou do alto do poço. Ele, então, saiu e continuou sua luta contra o arianismo.

Numa outra ocasião — a provação foi menor, mas não deixou de ser também impressionante — ele teve que fugir pelos desertos do Egito, e não encontrou lugar para se refugiar a não ser a sepultura do próprio pai. E passou ali dentro durante quatro meses! Lúgubre é, não para a alma de um grande santo, mas, em todo caso, para a sensibilidade humana. De lá ele saiu e conseguiu retomar a luta contra o arianismo. E fazia isso por meio de sermões extraordinários, que eram anotados, e as cópias transmitidas de católico para católico, por toda a extensão do Império Romano.

Um conciliábulo de arianos

Certa vez, Santo Atanásio foi intimado a comparecer a um grande concílio de bispos arianos. Ele declarou que não iria porque eram bispos hereges, não os reconhecia como verdadeiros católicos e não tinha comunhão com aquela gente. Mas o santo recebeu do Imperador Constantino um decreto, obrigando-o comparecer para discutir com os hereges. Aí mudava a situação. Não era mais aceitar o concílio como uma assembleia legítima, da qual ele participaria, mas ir lutar contra o pseudo concílio, aliás, um conciliábulo de hereges.

Ele, então, foi; estavam presentes cento e tantos bispos, o que para aquele tempo era muita coisa, e com os hábitos de seriedade e solenidade daquela época. Acompanhado de um sacerdote que lhe era fiel, Santo Atanásio entra na assembleia, onde todos os bispos paramentados o recebem. Não lhe destinam lugar para sentar-se; ele fica em pé e percebe logo que os arianos não queriam discutir doutrina — porque os hereges não gostam de discutir doutrina, eles vão fazendo afirmações e depois caluniam.

Santo Atanásio percebeu que se tratava de uma acusação; ele ia ser julgado, numa atmosfera de calúnia e de ódio tal que nem se constituía um tribunal regular, o qual ele recusaria. Foi um puro vozeiro contra ele. E a primeira investida foi essa: uma mulher de má vida levantou-se e disse que ela estava rica devido ao dinheiro que Santo Atanásio lhe dava; tinha presenciado, durante os períodos em que ele passava em lugares que não se sabia onde, tais e tais abominações; e que podia dar provas disso porque ela era testemunha.

Então, à medida que ela falava, os bispos arianos bramiam que ele precisava ser deposto, condenado etc. — porque não há como um herege para se fingir de zelador dos bons costumes, quando se trata de perseguir um verdadeiro católico. Santo Atanásio, com uma inteligência extraordinária, sutil, não disse nada. Conservou-se sereno e deixou o pessoal vociferar. Apenas ele soltou um cochicho no ouvido do padre que o acompanhava. Quando o sacerdote pôde cortar a palavra da meretriz, ele lhe disse, fingindo que era Santo Atanásio: “Então, você afirma realmente que me conheceu, que me viu etc.?” A tonta pensou que aquele fosse Santo Atanásio, o qual ela nunca tinha visto. Então, declarou: “Afirmo.” “Jura?” “Juro.” Notem com que superior inteligência ele decidiu a situação!

Deu-se, então, na assembleia o que ocorreu aqui com os presentes: os próprios hereges estalaram na gargalhada. Porque a farsa ficou de tal maneira evidente, que não era mais possível continuar. E houve um movimento para dissolver todo mundo, porque a coisa tinha terminado em chanchada.

Acusado de ter decepado a mão de um bispo

Aí, alguns mais fanáticos dentre os arianos começaram a exclamar: “Tem mais essa acusação, que é gravíssima!” É tal a má-fé dessa gente que voltaram para ouvir a segunda acusação. Depois de se ver que a primeira era uma chanchada, do que valeria a autoridade desses mesmos homens para levantarem outra acusação?

E Santo Atanásio foi mais uma vez extraordinariamente servido pela Providência. Levantou-se um bispo herético, tirou de uma caixa uma mão ressequida de um morto, e disse: “Aqui está a mão de tal bispo meleciano — havia uma heresia colateral, meio metida com a dos arianos, chamada dos melecianos(2) —, morto por Atanásio em tal ocasião. E isso foi um crime nefando. Para provar que ele realmente foi morto, aqui está a mão desse venerável homem de Deus, que se afundou no deserto — era o mesmo deserto onde estava Santo Atanásio. Quem é que poderia ter cometido esse assassinato senão Atanásio?” Santo Atanásio ouviu isso também com toda a serenidade possível.

Entre os assistentes — é uma coisa que só se explica por intervenção divina — havia um homem de cabeça baixa e recoberto com aqueles panos do Oriente. Santo Atanásio foi até ele e perguntou aos arianos: “O bispo tal morreu? Vocês têm certeza?” “Temos”. O santo puxou o pano e disse: “Olhem, aqui está ele”. Era o próprio bispo meleciano…

Então, Santo Atanásio, gracejando, disse o seguinte: “Deus não deu a cada um de nós mais do que duas mãos; levante uma mão!” Ele levantou. “Agora levante a outra”. Ele o fez e o santo concluiu: “Bem, compete a vocês explicar em que parte do corpo dele se encaixava outra mão”. Cumprimentos… e o caso estava liquidado.

Os arianos desarmaram? Não. Começaram a gritar atrás de Santo Atanásio: “Mágico, praticou crime de magia! Não se pode explicar, a não ser por magia, que esse homem estivesse aqui presente nesta hora!” Essa é a psicologia do herege. Diante das provas mais capazes de cegar, mais deslumbrantes de que estão com má-fé, eles não desanimam; encontram outra calúnia e mais outra, e vão sempre para a frente. Mas a coisa ficou tão desmoralizada que acabou.

Sagacidade de Santo Atanásio

Santo Atanásio, como verdadeiro santo, tinha horror à mentira. Evidentemente, não mentia nunca, nem em matéria leve. Certa vez, ele estava andando pelo deserto e, em determinado momento, apareceram tropas imperiais à procura dele, e alguém lhe perguntou: “Sabes onde está Atanásio?” Não o reconheceram. Diz o santo: “Sei sim, ele não está longe daqui”. Os militares foram à sua procura, e ele desviou…

Da parte de um Doutor da Igreja, exímio teólogo com profundidade de espírito, herói de grande sisudez, esses traços enriquecem a fisionomia dele, mostrando a pluralidade e a riqueza de aspectos que tem a alma de um verdadeiro santo. Sobretudo, destroçando um pouco a ideia sentimental que certas imagens projetam sobre o fiel a respeito do santo. Não me refiro às imagens monstruosas da “arte” moderna, mas a certas imagens que apresentam o santo com uma carinha muito bem-feitinha, sem barba, com um sorrisinho de quem não compreendeu nada.

Não é isso de nenhum modo um Doutor da Igreja, sobretudo um Santo Atanásio, um dos maiores santos de toda a História, e ele sozinho um lutador contra a heresia, como talvez a Igreja não tenha tido nem antes nem depois dele.

Horrível morte de Ario

Para conhecerem os lados dramáticos da vida dele, menciono apenas um episódio, e com isso encerro este comentário sobre Santo Atanásio.

Constantino, o Grande, que libertou a Igreja, foi enredado pelas intrigas dos arianos. Aliás, a vida post-conversão de Constantino é um tanto discutida. Em certo momento, ele tomou partido decidido por Ario, chamou Santo Atanásio e o expulsou para a Gália. O santo lhe disse: “Vós me proibis de voltar para meu trono patriarcal e apoiais os hereges. Prestareis em breve contas a Deus por isso!”

 E dirigiu-se para a Gália, onde foi recebido, aliás, com todas as atenções e toda a cortesia por Constâncio, filho de Constantino, o Grande. E ali esteve durante algum tempo. Depois foi para Roma, e justificou-se perante o Papa, que lhe deu toda a razão. E aproveitou a ocasião — assim são os santos: eles são expulsos de um lado e aproveitam para fazer maravilhas de outro; ninguém consegue tolher sua capacidade de ação — para fundar o estado monástico em Roma, diz seu biógrafo.

Posteriormente, chegou a notícia de que Constantino tinha morrido, e ao mesmo tempo a informação de que também Ario falecera. Este havia sido colocado por Constantino no trono patriarcal, onde ele era um arcebispo usurpador, não o patriarca legítimo. No ato de sua posse, Ario organizou a procissão com aquela solenidade que se fazia antigamente para a posse de um bispo; e quando a procissão transcorria, ele, em determinado momento, estando perto de instalações sanitárias públicas, sentiu-se mal. Então desceu do animal em que montava e entrou numa dessas instalações, e ali morreu do modo mais horrível que possa haver: parece que o abdome dele se rompeu e suas vísceras se derramaram no chão. Assim, em pouco tempo, morreram Constantino e também Ario; e Santo Atanásio ficou senhor da diocese.

Acolhido triunfalmente em Alexandria

Mas pouco tempo depois recomeçaram as perseguições; ele levou sua vida, quase até o fim, de perseguição em perseguição.

O povo de Alexandria gostava muito dele e, em geral, quem o perseguia eram pessoas corrompidas das classes dirigentes. Numa das ocasiões em que voltou para essa cidade, ele foi reempossado na Arquidiocese como legítimo pastor. A população preparou-lhe uma grande recepção, tão afetuosa e extraordinária, que passou como provérbio, em Alexandria e naquelas partes do Egito, a seguinte expressão, quando se queria dizer que alguém foi muito bem acolhido: “Foi recebido como Santo Atanásio”. Era o último grau da popularidade, da acolhida respeitosa, cheia de veneração, filial e, ao mesmo tempo, plena de entusiasmo.

Há um outro aspecto da vida de tantos santos perseguidos. As cúpulas corrompidas organizam contra eles toda espécie de difamação. Mas o Espírito Santo sopra onde quer e previne a opinião pública a respeito da realidade das coisas. De maneira que, de um modo ou de outro, acontece com frequência — não é uma regra absolutamente geral, pois nessa matéria não há regras absolutamente gerais — que o povo vê claro e faz justiça àquele que os poderosos estão perseguindo.

Essas são as notas mais interessantes, que me pareceu conveniente apresentar a respeito do grande Santo Atanásio.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência  de 20/2/1971)

01 de maio – Profeta Jeremias: Um varão de dores

Profeta Jeremias: Um varão de dores

O Profeta Jeremias foi aquele que mais chorou a queda de Jerusalém e, profeticamente, a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste sentido, é um dos profetas mais cheios de tristeza e  de lamentações. Foi o profeta das lágrimas que melhor profetizou o pranto e a dor do Redentor e de sua Mãe Santíssima.

Não há profeta que possa ser tomado a sério se não for um varão de dores. Ele tem que sofrer, mas não como os outros, porque precisa ser um ponto de atração e de concentração das dores. Estas  confluem nele, e ele deve recebê-las e abraçá-las como Nosso Senhor abraçou a sua Cruz. O Profeta Jeremias abraçou esse sofrimento imenso para, de fato, realizar os desígnios da Providência.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 11/8/1967 e 16/9/1967)
Revista Dr Plinio 254 (Maio de 2019)

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – A Igreja refulgirá com esplendor

A Igreja refulgirá com esplendor

A Igreja foi profanada de maneira a estampar em sua face uma fraqueza e uma indignidade que ela não tem, tornando-se sujeita a uma forma de humilhação inenarrável. Logo, deve vir uma glorificação, não propriamente maior do que a Ressurreição ou Ascensão, porque a Igreja não morre, mas a Esposa Mística de Cristo refulgirá com um esplendor, uma maravilha que esteja na proporção da humilhação sofrida.

 

Páscoa é uma palavra que significa passagem. Quando se fala da Santa Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, refere-se à sua Santa Passagem.

Festa de triunfo

Passagem de quê? Aquele fato extraordinário miraculoso, único na História, pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo morto pelos seus assassinos, depois de ter passado três dias na sepultura, ressuscitou-Se a Si próprio, um Anjo abriu sua sepultura e Ele apareceu resplandecente em vários lugares na glória de sua Ressurreição.

Jesus veio à Terra para uma luta, uma oblação e uma vitória. A sua luta e a sua oblação tinham que terminar numa vitória. A Páscoa é esta passagem d’Ele do estado de morto para vivo; de morto que se auto-ressuscita. É isto que não tem precedente na História. Já houvera pessoas que ressuscitaram um morto. Ele mesmo ressuscitou o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e Lázaro, mas um morto que ressuscita a si mesmo só pode ser Deus. Ao se auto-ressuscitar, Ele derrota magnificamente todos os seus adversários. Mais: é Deus que vence o demônio, a verdade que vence o erro, a virtude que vence o crime, a ordem que vence a desordem, a luz que vence as trevas. A Páscoa é, pois, fundamentalmente uma festa de triunfo.

Por causa disso as luzes da Páscoa são esplêndidas, a alegria é de vitória, um desses gáudios irradiantes e comunicativos em que as almas têm vontade de proclamar. É uma coisa como o Sol em pleno meio-dia. É assim que se pode interpretar a alegria da Páscoa.

Seriedade com que se celebrava a Liturgia da Semana Santa na pequena São Paulo

Eu me lembro bem do contraste que havia em todo o ambiente da cidade entre a Páscoa e os dias anteriores da Semana Santa.

Na pequena São Paulo de então, em todas as igrejas se celebrava a liturgia da Semana Santa com uma seriedade que hoje em dia, infelizmente, não se tem mais. A partir de Quarta-feira Santa começava-se a rezar o chamado Ofício de Trevas. Colocavam dois grupos de clérigos, um em frente ao outro, no próprio presbitério do altar-mor, onde começavam a recitar salmos alusivos à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. O fundo do presbitério estava todo coberto por um grande pano roxo, que é a cor da dor, da tristeza. Assim, a igreja, habitualmente cheia de cores alegres, apresentava um fundo de tristeza. Uma peça triangular cheia de velas cobria o altar de cima a baixo, terminando com uma vela central. À medida que o ofício ia se desenvolvendo, em períodos marcados levantava-se um acólito, apagava uma vela e voltava ao seu lugar. Quando o ofício estava no fim, era o sinal de que a luz do mundo tinha se apagado.

Todo o recinto sagrado ficava envolto em uma atmosfera de recolhimento e tristeza, com todas as luzes apagadas. Alguém levava aquela última vela para trás do altar, onde ela permanecia acesa, enquanto o restante da igreja ficava na escuridão. Era o sinal de que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha cessado de brilhar no mundo e que sua Morte, já prefigurada naquele dia, aconteceria em breve.

Na Quinta-feira Santa havia uma cerimônia muito bonita, que era o desnudamento dos altares.

Após a Missa, que ainda tinha algo de festivo no meio de tanta dor, pois era a alegria da última Ceia antes da tristeza pela Paixão que se iniciaria. Guardavam o Santíssimo Sacramento numa urna revestida de seda branca e bordada com um cordeiro dourado, colocada no alto de um altar, retiravam dos outros altares todos os ornatos, velas, vasos, toalhas, etc., e a igreja apresentava um ar de desolação e tristeza.

Na Sexta-feira Santa já não havia Missa. Era celebrada o que se chamava “Missa dos pré-santificados”, na qual não existia a Consagração. O padre tirava o Santíssimo Sacramento daquela urna, e apenas se consumiam as sagradas Espécies que na véspera tinham sido consagradas. Depois não havia mais Hóstias na igreja. Guardavam em algum lugar as que eram destinadas aos moribundos, mas sem objeto de culto. O tabernáculo permanecia aberto para indicar que o Dono da casa não estava mais presente.

Os sinos não tocavam mais, os fiéis vestidos de preto formavam longas filas, passando diante de um crucifixo e osculando-o. A cidade toda ficava imersa numa espécie de silêncio respeitoso, refletindo a tristeza enorme da humanidade porque Aquele que era o Sal da terra e a Luz do mundo, o Salvador, não se encontrava mais presente.

Na Páscoa, a cidade passava da tristeza para uma alegria inocente

A partir do meio-dia do sábado, prenunciavam-se as alegrias da Ressurreição. Já pela manhã as crianças penduravam nos postes figuras representando Judas, para serem espancadas. Nas casas começavam a preparar os piqueniques e os almoços festivos do dia seguinte.

Chegada a Páscoa da Ressurreição, as pessoas punham trajes alegres, cumprimentavam-se efusivamente, os sinos da cidade repicavam, pois Jesus Cristo ressuscitou, o demônio foi esmagado e Nossa Senhora está inundada de felicidade!

Pelo gosto de sondar esses ambientes, lembro-me de que certa vez fiz algo de que me alegro: subi ao ponto mais alto de São Paulo naquele tempo, que era a torre da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, para dali contemplar a cidade no momento em que se comemorava a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu queria ver se no ar da cidade se sentia a alegria da Páscoa, e de fato senti. Quando, aos meus pés, os carrilhões começaram a tocar e depois na cidade de São Paulo, sem arranha-céus ainda, de todas as distâncias chegavam os ecos dos sinos que bimbalhavam naquela quantidade enorme de torres de igrejas por todos os lados, percebia-se a transformação da cidade, que passava da tristeza para uma alegria inocente e triunfal. Eu saí de lá triunfante, com a ideia de que tinha participado com vitória Nosso Senhor calcando aos pés o demônio.

Era um júbilo, um triunfo pascal com grandeza bíblica, pois o verdadeiro espírito da Páscoa tem grandeza bíblica, desde que se preste atenção e o contemple como os personagens bíblicos olhariam para esse acontecimento.

Grandeza do fato de Nosso Senhor ressuscitado aparecer a sua Mãe Santíssima

Certa ocasião, durante uma Missa, eu estava pensando como seria, dada a grandeza intrínseca da Ressurreição, o “modus faciendi” adotado por Deus para que ela tivesse toda a sua majestade.

Um “modus faciendi” seria a vida voltando ao cadáver divino – no qual a união hipostática não cessou apesar da morte – de maneira que as cicatrizes se recompusessem, a respiração recomeçasse, e toda a perfeição e grandeza d’Ele fossem como que florescendo. A mais estupenda primavera da História! Quando chegasse um determinado momento, a sepultura estaria cheia de Anjos que cantariam o mais estupendo “Gloria in excelsis”, e Nosso Senhor Se levantaria como um Rei. Os Anjos removeriam a pedra e Jesus, no mesmo instante, apareceria para Nossa Senhora porque para Ele não havia distância. Eu tenho como certo que, no momento em que Jesus recobrou a vida, Ele já saiu da sepultura e apareceu a Maria Santíssima.

Outro modo seria: de repente a vida voltar ao cadáver com a plenitude inteira d’Ele, como se fosse um raio feito para viver e não para matar, mas que, encontrando obstáculos, mataria. Sua Alma entraria no Corpo e apareceria a Nossa Senhora. Portanto, uma coisa imediata.

A meu ver, a beleza do ato conteve as duas hipóteses. Pode-se imaginar algo de maior grandeza bíblica do que Deus ressuscitando-Se a Si próprio e que aparece à sua Mãe Santíssima? Em comparação com isto, o que é a entrega das tábuas da Lei, a dança de Davi diante da arca, e tudo quanto se passou no Antigo Testamento?

Grandeza semelhante pode ser contemplada na atual fase em que se encontra a Santa Igreja.

Quando alguém é submetido a uma prova de humilhação, quanto mais profunda esta tenha sido tanto mais alta será a glória que virá em reparação. Por exemplo, o julgamento e a Crucifixão constituíram uma humilhação sem nome para Nosso Senhor. Fazem “pendant”, contrapõem-se a isso a Ressurreição e a Ascensão, que são glórias também indizíveis.

O sagrado semblante da Igreja incutirá terror aos maus

Ora, nós vivemos numa época em que a Igreja está sendo humilhada além do extremo limite que se imaginava possível. Em que consiste essa humilhação? É tão horrível que se torna até desagradável a analogia que vou empregar, mas exprime bem a realidade do crime que está sendo cometido.

Os carrascos terem tomado Nosso Senhor durante os três dias da Paixão e O terem desfigurado o quanto puderam, inclusive a Face divina, não é uma coisa tão horrível quanto se eles O tivessem feito ingerir uma substância qualquer por onde Ele fizesse com sua Sagrada Face contorções ridículas e medonhas. Isto seria fazer com que partisse d’Ele um movimento que O desordenasse e causasse o seu desfiguramento. Isso seria mais terrível do que qualquer coisa, sobretudo se permanecesse à maneira de um cacoete definitivo.

Pois bem, precisamente o que se perpetrou foi obrigar a Igreja a fazer um cacoete com a própria face, sujeitando o Corpo Místico de Cristo a esta forma de humilhação inenarravelmente pior do que qualquer outra. Logo, deve vir uma glorificação, não propriamente maior do que a Ressurreição ou Ascensão porque a Igreja não morre. Mas, nesta ordem do desfigurado, a Esposa Mística de Cristo tem que refulgir com um esplendor, uma maravilha que esteja na proporção da humilhação sofrida.

Há mais: seria lógico que quando ela vencer, assim como a face da Igreja foi profanada de maneira a estampar uma fraqueza e uma indignidade que ela não tem, seu sagrado semblante meta terror nos maus e arranque gritos de admiração da humanidade!

Eu creio que Nosso Senhor, por ocasião da Ascensão, reconstituiu um “super-Tabor”. E, portanto, tudo quanto se relata de sua Transfiguração, Ele brilhou com aquilo tudo e mais ainda durante a Ascensão. Tenho a impressão de que, quanto mais Ele ia subindo, mais esplendoroso Se tornava. Seria lógico, pareceria razoável que isto fosse assim, porque há a hora da humilhação e a hora da glorificação. E é preciso que o cálice da humilhação tenha sido bebido por inteiro para depois a glória vir por inteiro também.

Assim acontece com a causa da Contra-Revolução. Esse é um fenômeno tão profundo que há dias nos quais não percebemos a glória de sermos contrarrevolucionários. Mas, de repente, vem um lampejo e sentimos por inteiro essa glória. São pequenos antegozos do esplendor que virá após a longa humilhação que devemos percorrer, para sermos dignos da grande glória quando o dia da glorificação chegar.        v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 25/12/1976, 6 e 15/4/1980)
Revista Dr Plinio 265 (Abril de 2020)

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – Alegrai-vos, pois o Senhor ressuscitou!

Alegrai-vos, pois o Senhor ressuscitou!

Durante os três dias em que Nosso Senhor esteve morto, aos olhos dos que O conheceram tudo parecia irremediavelmente perdido. Porém, sua gloriosa ressurreição trouxe-lhes novamente a alegria e o júbilo.

 

Comentarei a Ressurreição de Nosso Senhor, com base num texto tirado da “Concordância dos Santos Evangelhos”, de Dom Duarte Leopoldo e Silva(1).

A narração da Ressurreição

Na noite do sábado, quando já raiava o primeiro dia da semana, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ir embalsamar a Jesus.

No primeiro dia da semana, partindo muito cedinho, estando ainda escuro, chegaram elas ao sepulcro ao levantar do Sol, trazendo os perfumes que tinham preparado. E diziam entre si: “Quem nos há de afastar a pedra da entrada do sepulcro?” Porque ela era muito grande.

Eis que houve um grande terremoto, porque um Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. O seu aspecto era como o relâmpago e suas vestes como a neve.

De medo dele, assustaram-se os guardas e ficaram como mortos.

Maria viu a pedra afastada do sepulcro e foi correndo ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. As outras mulheres viram também a pedra afastada do sepulcro e, entrando, não encontraram o Corpo do Senhor Jesus.

E aconteceu que, estando elas consternadas por esse motivo, se apresentaram junto delas dois homens vestidos de roupas deslumbrantes. E como elas se atemorizassem e baixassem os olhos para o chão, disseram-lhes eles: “Não temais, porque sei que procurais a Jesus que foi crucificado. Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou como tinha dito. Recordai-vos do que vos disse Ele quando estava ainda na Galileia: ‘É preciso que o Filho do Homem seja entregue nas mãos dos pecadores, que seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia’.

Vinde ver o lugar onde foi posto o Senhor, e ide prontamente dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele ressuscitou e vai adiante de vós para a Galileia. Aí O vereis, como Ele vos disse. Eis que eu vos preveni”.

Então, recordaram-se elas das palavras de Jesus e, saindo, fugiram do sepulcro, porque as tinham acometido o tremor e o pavor, e a ninguém disseram coisa alguma por estarem possuídas de medo.

Entretanto, saíram Pedro e aquele outro discípulo, e vieram ao sepulcro. Ambos corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais apressado do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro.

Inclinando-se, viu os lençóis postos no chão, mas não entrou. Chegou, depois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro e viu os lençóis postos no chão. Mas o sudário, que estivera sobre a cabeça de Jesus, não estava posto com os lençóis, senão que estava dobrado num lugar à parte.

Então, pois, entrou também aquele discípulo que primeiro tinha chegado ao sepulcro: e viu e acreditou.

E os discípulos voltaram de novo para casa.

Jesus aparece a Maria Madalena

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios.

Ora, estava Maria junto ao sepulcro, na parte de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se, olhou para o sepulcro e viu dois Anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira, outro aos pés, onde tinha sido posto o Corpo de Jesus.

Disseram-lhe eles: “Mulher, por que choras?” Respondeu-lhes ela: “Porque tiraram o meu Senhor e não sei onde O puseram”.

Dizendo isto, voltou-se para trás e viu a Jesus, de pé, mas não sabia quem Ele era.

Disse-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? A quem procuras?” Julgando ela que fosse o jardineiro, disse-lhe: “Senhor, se O tiraste, dize-me onde O puseste e eu O levarei”.

Disse-lhe então Jesus: “Maria!” Voltando-se, disse-Lhe ela: “Raboni!”, o que quer dizer “Mestre!”

Disse-lhe Jesus: “Não Me toques, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai dizer aos meus irmãos que Eu subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”.

* * *

Como a linha geral deste lindíssimo texto dos Evangelhos sobre a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo é bastante conhecida, julgo mais interessante irmos comentando um ou outro pormenor mais ilustrativo.

Aquela sobre a qual todas as alegrias e as glórias da Ressurreição convergiram

Na noite de sábado, quando já raiava o primeiro dia da semana, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para vir embalsamar a Jesus.

São citadas duas Marias; onde está a outra Maria, Nossa Senhora? Percebe-se que a dor, o recolhimento, a esperança d’Ela eram tão grandes, que a Virgem Santíssima pairava acima de todas as circunstâncias e providências concretas, mesmo as mais augustas, que dissessem respeito ao Corpo de seu Divino Filho. Por causa disso, as outras A serviam e faziam, por mediação, instigação e pelas ordens de Nossa Senhora, aquilo que Ela mesma quisera realizar.

Tal era o grau excelso de recolhimento de Maria Santíssima, que toda a dor, todo o júbilo e toda a esperança da Igreja estavam n’Ela concentrados, para depois serem distribuídos a todos os fiéis ao longo de todos os tempos. Todas as alegrias e glórias da Ressurreição de Nosso Senhor convergiram, como num foco central, sobre a Virgem Maria; d’Ela não se diz nenhuma palavra, porque Nossa Senhora é superior a todo louvor, a qualquer menção. Ela paira acima de tudo. Cabe-nos apenas pensar nisto e continuar, reverentes, a narração, porque na soleira da porta do quarto onde estava Nossa Senhora não penetrou o cronista do Evangelho, e também nós não somos dignos de entrar. Podemos apenas sentir esses perfumes da devoção a Maria Santíssima do lado de fora, e nos enlevarmos ao passar. Essa é a razão do silêncio dos Evangelhos a respeito de Nossa Senhora, quando falam da Ressurreição.

O caráter matinal da alegria pascal

No primeiro dia da semana, partindo muito cedinho, estando ainda escuro, chegaram elas ao sepulcro ao levantar do Sol, trazendo os perfumes que tinham preparado. E diziam entre si: “Quem nos há de afastar a pedra da entrada do sepulcro?” Porque ela era muito grande.

Elas chegaram ao sepulcro quando raiava o dia. De fato, a alegria pascal tem qualquer coisa de matinal. Nosso Senhor, que sai de dentro da morte, é simbolizado pelo Sol que se levanta do interior da noite.

Como deve ter sido a primeira noite de Adão, quando viu descerem as trevas sobre o mundo, e depois ele adormeceu? O medo de que nunca mais as coisas se restaurassem e voltassem ao que eram… E, vendo o Sol surgir de novo de dentro da noite, Adão observou esse esplendor que evocava o pensamento da ressurreição. Nosso Senhor era o Sol que saía de dentro da escuridão da morte, e aquelas que foram tomar conhecimento d’Ele chegaram ao sepulcro exatamente no momento em que o símbolo figurava a realidade que se tinha passado.

Vemos aqui como Nosso Senhor ama a natureza que Ele criou, gosta de fazer todas as coisas em consonância com essa natureza e dando valor ao símbolo de que Ele mesmo é o Autor.

Compreendemos também porque, adequadamente, o Evangelho menciona essa hora. Todas essas coisas têm muitos sentidos místicos, alegóricos, reais. Aqui está um desses significados.

Assim como afastaram a pedra do Santo Sepulcro, os Anjos removerão as pedras de nossos caminhos

As santas mulheres levavam perfumes que tinham preparado, fazendo-nos lembrar das palavras de Jesus, quando recebeu o perfume daquela mulher: o Corpo d’Ele já estava sendo preparado para a sepultura. Os cadáveres eram aromatizados com perfumes. Elas estavam tão esquecidas da profecia da Ressurreição, e tão certas de que Nosso Senhor não tinha ressuscitado, que levavam todos os unguentos perfumados para ungir o cadáver; chegam lá e encontram um Deus ressuscitado!

Vemos como era razoável que Nossa Senhora pairasse acima dos acontecimentos. Ela sabia que Jesus não seria encontrado lá, mas tinha que incentivar o ato de piedade delas, embora dele não pudesse participar. Então, elas lá foram com os seus perfumes, que eram uma expressão das almas delas. Quem oferece perfumes é porque tem amor e gostaria que sua alma subisse a Deus como um aroma de um odor suave.

De outro lado, notemos a confiança dessas mulheres. Elas sabiam que havia uma pedra muito pesada no sepulcro, podiam temer perseguições e a tarefa que pretendiam fazer era impossível, mas nada as deteve. Elas confiaram que, obedecendo à voz interior da graça, não seria uma pedra que lhes haveria de atrapalhar o cumprimento da missão. Que maravilhosa lição para nós! Quantas vezes a graça nos chama para alguma coisa, mas nós dizemos: “E quem tirará uma pedra tão pesada de nosso caminho?” A resposta é esta: “Contemos com Nosso Senhor, porque se a graça nos chama para algo, não há pedra que alguém não afaste”.

No caso concreto, os Anjos afastaram a pedra. Quantas vezes os Anjos têm afastado pedras dos nossos caminhos! Precisamos ter confiança e caminhar de encontro a todas as pedras, porque os Anjos as removerão, por ordem de Nossa Senhora.

Harmonia entre dois terremotos: o do castigo e o da graça

Eis que houve um grande terremoto, porque um Anjo do Senhor desceu do Céu e, aproximando-se, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Seu aspecto era como o relâmpago e suas vestes como a neve.

Sinto muito por não ter o mínimo talento para a pintura, pois eu gostaria de saber pintar isto, que representa para mim umas das imagens que faço de um Anjo. É um Anjo descrito pelo próprio Espírito Santo. Pode haver uma coisa mais gloriosa, mais espiritual, mais casta, mais forte, do que um espírito que é como um relâmpago, mas vestido como a neve?

A presença do Anjo causou um terremoto, porque é tal a superioridade da natureza do Anjo, tal a sua grandeza, que há uma espécie de incongruência entre ele e os seres materiais. E compreende-se que na proximidade de certos Anjos com a matéria, a fragilidade desta estremeça. Mas, bendita a terra que tremeu pela presença do Anjo! Bendito o Anjo que fez tremer a terra! Essa é a terra que treme para dar glória a Deus, depois de ter tremido de indignação por causa do deicídio que tinha sido realizado. Entre os dois terremotos, há uma espécie de harmonia, de simetria: o terremoto do castigo, mas depois o terremoto da graça, da presença do Anjo, da reconciliação e da aliança. Foram dois fatos tão grandes, que eram dignos de serem celebrados por terremotos.

Senso hierárquico de Santa Maria Madalena

De medo dele, assustaram-se os guardas e ficaram como mortos.

Maria viu a pedra afastada do sepulcro e foi correndo ter com Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. Ela disse: “Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”.
É bonito que o primeiro pensamento tenha sido orientado para São Pedro.

Tem-se a impressão de que Maria Madalena não sentiu o terremoto. E nem viu o Anjo na sua natureza angélica, mas notou que o sepulcro estava aberto. Entre as santas mulheres, aquela de quem o Espírito Santo, no Evangelho, mais fala que amava Nosso Senhor é Maria Madalena. Em vez de ter a coragem de entrar no sepulcro, ela entendeu que o fato era tão augusto que não lhe cumpria fazer isso. Que coisa bonita! É o senso hierárquico e anti-igualitário da Igreja, que se manifesta desde esses albores. Maria Madalena vai correndo falar com o chefe da Igreja, conta-lhe o que ela viu, para que ele tome as providências que as circunstâncias pedem.

Notemos, de um lado, toda a beleza do papel do sexo feminino: o amor com que as santas mulheres levam o unguento, e o significado deste na Igreja; e, de outro lado, a jurisdição de São Pedro, da hierarquia. Maria Madalena, que estava com o coração transbordante de amor, vai falar com ele. Mesmo dentro da efervescência da hora, não se perdeu a distância psíquica e manteve-se o senso de hierarquia.

As outras mulheres viram também a pedra afastada do sepulcro, e entrando não encontraram o Corpo do Senhor.

Elas tiveram menos a ideia da hierarquia, então entraram.

Anjos com roupas deslumbrantes, e não como as usadas hoje

E aconteceu que, estando elas consternadas por esse motivo, eis que se apresentaram junto delas dois homens vestidos de roupas deslumbrantes.

Quer dizer, os Anjos tomaram a forma de homens. E para compreendermos o que eram essas roupas deslumbrantes, temos que nos lembrar dos trajes daquele tempo. Não podemos imaginar dois Anjos vestidos com paletós e calças e, muito menos, com suéteres e outras roupas de hoje. Porque é inimaginável um Anjo aparecer de paletó refulgente e de gravata deslumbrante, para não falar das outras roupas…

Há uma tal vilania nos trajes atuais que não ousamos fazer monumentos de homens vestidos com calça, paletozinho, bengalinha. Naquele tempo se usavam túnicas, as quais têm dignidade. Então, apareceram dois Anjos com forma de homem, de modo alvinitente, brilhante, e eles se põem a falar.

É muito bonito que os dois falam como um só. Eles representam, evidentemente, todos os Coros dos Anjos. E naturalmente as vozes deles não seriam iguais, mas harmoniosas. O Evangelho não fala em música, nem em canto; eles faziam uma proclamação, eram dois arautos que anunciavam esse fato. E eles falam no singular, tal é o uníssono deles, tal é a união das almas que amam a Deus. Eis a mensagem dos Anjos:

Não temais, porque sei que procurais a Jesus que foi crucificado. Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou como tinha dito. Recordai-vos do que vos disse Ele, quando estava ainda na Galileia.

“Recordai-vos”. Há certa censura àquela insuficiência de Fé que, com exceção de Nossa Senhora, todos os outros tiveram. Então, os Anjos citam as palavras de Nosso Senhor: “É preciso que o Filho do Homem seja entregue nas mãos dos pecadores, que seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia”.

Como quem declara: “Essas foram as palavras de Jesus, lembrai-vos agora e confundi-vos”. Mas isso era dito de tal maneira que, sendo uma lição, não era, entretanto, para produzir no momento uma contrição. Tanto é assim que, em vez de contrição, as santas mulheres sentiram alegria.

“Vinde ver o lugar onde foi posto o Senhor, e ide prontamente dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele ressuscitou…

Os Anjos confirmam: a missão delas não era igual à missão de Madalena, a qual era dizer que o sepulcro estava vazio. Elas deveriam informar que dois Anjos apareceram e anunciaram a Ressurreição.

Por que os Anjos não falaram a Pedro? Pode-se fazer a conjectura: aquelas que foram fiéis ao pé da Cruz receberam a mensagem. Aquele que era o Papa, o Príncipe dos Apóstolos, não estava lá presente e não recebeu a mensagem. Alguém me dirá: “Mas por que não a São João Evangelista, que estava presente?” Veremos que ele fez questão de dar preeminência a São Pedro. …e vai adiante de vós para a Galileia. Aí O vereis”. Então, recordaram-se elas das palavras de Jesus e, saindo, fugiram do sepulcro, porque as tinham acometido o tremor e o pavor, e a ninguém disseram coisa alguma, por estarem possuídas de medo.

Mas não é um medo de castigo. Entrevê-se que é devido ao contato com a coisa augusta, enorme. E ficaram quietas. Agiram bem ou agiram mal? Eu não encontro no Evangelho esclarecimentos para isso.

Espírito hierárquico da Igreja

Entretanto, saíram Pedro e aquele outro discípulo e vieram ao sepulcro.

Eles tinham recebido a notícia, transmitida por Maria Madalena, de que o sepulcro estava vazio.

Ambos corriam juntos, mas aquele outro discípulo…

O discípulo a quem Jesus amava.

…correu mais apressado do que Pedro.

Compreende-se porque São Pedro era mais velho, mas o fato é que quem amava mais corria mais.

E chegou primeiro ao sepulcro. Inclinando-se, viu os lençóis postos no chão, mas não entrou.

O amor levou-o a ir depressa, mas é o mesmo amor que o fez dar precedência àquele a quem Nosso Senhor tinha dado a precedência. Ele não entrou, esperou que São Pedro entrasse. Vemos aqui o espírito hierárquico da Igreja e como o correr de São João não era sem distância psíquica, mas um correr cheio de ordem; era uma pressa cheia de falta de pressa; ele era tão equilibrado, tão santo, que chegando ao sepulcro ele espera São Pedro. Quanto respeito, quanta reverência! E tudo passou para a História.

Chegou, depois, Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro e viu os lençóis postos no chão. Mas o sudário, que estivera sobre a cabeça de Jesus, não estava posto com os lençóis, senão estava dobrado e num lugar à parte.

Vemos aqui a beleza do respeito ao Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há uma dignidade da cabeça, da fronte, da face, que é algo de especial no homem; e, por causa disto, o sudário, que tocou na Face, não estava colocado junto com os outros panos. Mais ainda: os panos estavam no chão; o sudário, num lugar à parte. Entrevê-se que era um lugar mais distinto, talvez uma anfractuosidade da pedra.

Cristo ressuscitado apareceu primeiro a Nossa Senhora

Então, pois, entrou também aquele discípulo que primeiro tinha chegado ao sepulcro.

O Evangelho repisa bem: só depois entrou o discípulo fiel. São João, caso fosse orgulhoso, diria: “Bem, São Pedro é o chefe, mas eu tenho direito. Quem estava ao pé da Cruz não era eu? Agora chegou minha vez.” Aquele que ama não quer o primeiro lugar, quer amar. E ainda que aquele a quem ele ama queira dar o primeiro lugar a outrem, ele assim o deseja. Que lição para nós!

E viu e acreditou.

Fica-se pasmo. São João deixa entender que, com todo o amor dele, foi naquela hora que ele acreditou. E era o discípulo amado…

E os discípulos voltaram de novo para casa.

Voltaram porque Nosso Senhor disse que ia aparecer-lhes na Galileia.

Tendo Jesus ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios.

Como é curiosa essa referência! Nesta hora lembrar isso! É que a vitória de Jesus sobre o demônio faz a identificação daquela para quem Ele fez tão grande bem, tão grande maravilha. Vemos a beleza da contrição e do perdão: primeiro o Redentor apareceu para Maria Madalena; mas houve um momento super-primeiro. Quem foi A primeira a quem Ele apareceu? Na primeira hora, o primeiro raio de beleza evidentemente foi para Nossa Senhora. Costuma-se contemplar o encontro de Nosso Senhor com Nossa Senhora na “Via Crucis”. Eu não conheço coisa mais bonita, mas há algo tão bonito: é o encontro d’Ela com Ele ressuscitado. O que terá sido a alegria de Maria Santíssima, o “Magnificat” d’Ela? Só no Céu poderemos saber.

Afeto de Nosso Senhor pelos Apóstolos e discípulos

Ora, estava Maria junto ao sepulcro, na parte de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se, olhou para o sepulcro e viu dois Anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira, outro aos pés, onde tinha sido posto o Corpo de Jesus.

Disseram-lhe eles: “Mulher, por que choras?” Respondeu-lhes ela: “Porque tiraram o meu Senhor e não sei onde O puseram.” Dizendo isto, voltou-se para trás e viu a Jesus, de pé, mas não sabia quem Ele era.

Disse-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? A quem procuras?” Julgando ela que fosse o jardineiro, disse-Lhe: “Senhor, se O tiraste, dize-me onde O puseste e eu O levarei”.

Disse-lhe então Jesus: “Maria!” Voltando-se, disse-Lhe ela: “Raboni!”, o que quer dizer “Mestre!”

Que beleza de cena! De quanta coisa ela se lembrou quando Ele falou-lhe: “Maria”? As mil vezes em que Nosso Senhor lhe disse, com afeto, “Maria”; tudo isso acordou na alma dela. Então, ela entendeu. E, como certamente mil vezes tinha ela dito para Ele em vida, Madalena exclamou: “Mestre!”, “Raboni!”

Disse-lhe Jesus: “Não Me toques, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai dizer aos meus irmãos que Eu subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”.

Nota-se que Maria Madalena queria ir de encontro a Ele. Que linda intimidade dela com Jesus! Com certeza, quis segurá-Lo, beijar suas mãos ou seus pés. E Ele disse-lhe essas palavras: “Não Me toques”, e deu a razão: “porque ainda não subi para meu Pai”.

Razão para mim um tanto misteriosa, mas sublime. Há uma grandeza nisso, toda a distância entre esta e a outra vida: “Eu não subi ainda para meu Pai, mas já estou do outro lado do rio da morte, o qual continua a correr entre nós, embora Eu esteja ressuscitado. Eu não estou ressuscitado para esta vida. Já estou ressuscitado para o Céu. Não Me toques, mas vai dizer aos meus irmãos –– observem o afeto, chamando os Apóstolos, os discípulos, de irmãos –– que Eu subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”. Estava pronunciado o perdão, e as coisas continuavam no diapasão da alegria.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 5/4/1969)

 

1) Silva, Duarte Leopoldo da. Concordância dos Santos Evangelhos. 7 ª. ed. São Paulo: LTr, 1998. pp 439-441.

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – Nossa Senhora e a Ressurreição

Nossa Senhora e a Ressurreição

Nossa Senhora nos ensina a perseverança na fé, no senso católico e na virtude do apostolado destemido Fides intrepida mesmo quando parece tudo perdido. A Ressurreição virá logo. Felizes dos que souberem perseverar como Ela e com Ela. Deles serão as alegrias, em certa medida as glórias do dia da Ressurreição.

Plinio Corrêa de Oliveira (Da Via-Sacra escrita para o “Legionário”, abril de 1941)

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – Como obter indulgências durante o Tríduo Pascal?

Como obter indulgências durante o Tríduo Pascal?

Durante o tríduo pascal, constituído pela Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia, os fiéis vivem o mistério central da Fé Cristã da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo; um tempo que também traz inumeráveis graças para os fiéis através das indulgências e seguindo simples condições.

Assim se pode obter a Indulgência Plenária durante o Tríduo Pascal:

Quinta-feira Santa

Neste dia se revive a Instituição da Eucaristia, tem lugar uma Missa comemorativa da Última Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o lava-pés, se celebra a Ordem Sacerdotal e o “Mandamento do Amor”, que é a própria Eucaristia.

É possível ganhar a indulgência plenária se, após a Missa da Ceia do Senhor, se rezar piedosamente o hino eucarístico ‘Tantum ergo”, escrito por São Tomás de Aquino:

“Tantum ergo Sacramentum

Veneremur cernui:

Et antiquum documentum

Novo cedat ritui:

Præstet fides supplementum

Sensuum defectui.

Genitori, Genitoque

Laus et jubilatio,

Salus, honor, virtus quoque

Sit et benedictio:

Procedenti ab utroque

Compar sit laudatio.

Amen.”

***

Tão sublime Sacramento,

adoremos neste altar,

Pois o Antigo Testamento

deu ao Novo seu lugar.

Venha à fé por suplemento

os sentidos completar.

Ao eterno Pai cantemos

e a Jesus, o Salvador.

Ao Espírito exaltemos,

na Trindade eterno amor.

Ao Deus uno e trino demos

a alegria do louvor. Amém.

Também é possível obter a indulgência plenária se neste dia se visita por espaço de meia hora o Santíssimo Sacramento que tenha sido reservado no monumento Eucarístico.

Sexta-feira Santa

Na Sexta-feira Santa se comemora a Paixão e Morte de Jesus. Tem lugar a celebração da Paixão do Senhor com a adoração da Cruz, ato litúrgico que não se realiza com Eucaristia.

Neste dia se concede indulgência plenária aos fiéis cristãos que assistam piedosamente a adoração da Cruz na solene ação litúrgica.

Também se pode ganhar a indulgência se se realizar o exercício piedoso da Via Sacra diante das estações legitimamente estabelecidas e meditando a Paixão e Morte de Jesus Cristo.

Sábado Santo

Durante o Sábado Santo não há celebrações litúrgicas até a Vigília Pascal. É um dia de grande silêncio, para intensificar a oração em memória da morte de Cristo e acompanhar Nossa Senhora em sua dor. Se concede indulgência plenária quando duas ou mais pessoas rezam juntos o Santo Rosário.

Vigília Pascal

Esta é a celebração mais importante do ano litúrgico e dos fiéis cristãos, já que se faz memória da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Vigília ocorre na noite do sábado, e, em alguns lugares, se estende até o amanhecer do Domingo da Ressurreição.

Os fiéis podem obter a indulgência plenária se participarem na celebração da Vigília Pascal e renovarem nela as promessas batismais.

Condições da indulgência

Para que os fiéis ganhem a indulgência plenária é necessário ter em conta várias condições: exclusão de todo afeto para qualquer pecado, inclusive o venial; confissão sacramental, comunhão Eucarística e orar pelas intenções do Santo Padre.

As condições podem ser cumpridas alguns dias antes ou depois da ação para ganhar a indulgência, mas se recomenda que a comunhão e a oração pelo Sumo Pontífice ocorram no mesmo dia.

Toda indulgência plenária pode ser obtida somente uma vez por dia e pode ser aplicada aos fiéis defuntos.

 

João Sérgio Guimarães

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – Páscoa

Páscoa

Disse São Paulo que, se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria nossa Fé. É no fato sobrenatural da Ressurreição que se funda todo o edifício de nossas crenças. (…)

Cristo, Senhor Nosso, não foi ressuscitado: ressuscitou. Lázaro, foi ressuscitado. Ele estava morto. Outrem que não ele, isto é, Nosso Senhor, o chamou da morte à vida. Quanto ao Divino Redentor, ninguém O ressuscitou.

Ele mesmo a Si próprio se ressuscitou. Não precisou que ninguém O chamasse à vida. Retomou-a quando quis.

Tudo quanto se refere a Nosso Senhor tem sua aplicação analógica à Santa Igreja Católica. Vemos freqüentemente, na História da Igreja, que quando ela parecia irremediavelmente perdida,  e  todos os sintomas de uma próxima catástrofe pareciam minar seu organismo, sobrevieram sempre fatos que a têm sustido viva contra toda a expectativa de seus adversários. Fato curioso, às vezes, não são os amigos da Santa Igreja que vêm em seu socorro: são seus próprios inimigos. Numa época delicadíssima para o Catolicismo, como foi a de Napoleão, não ocorreu o episódio mil e mil vezes curioso de se ter reunido um Conclave para eleição de Pio VII, sob a proteção das tropas russas, todas elas cismáticas e obedecendo a um soberano cismático? Na Rússia, a prática da Religião Católica era tolhida de mil maneiras.

As tropas desse país asseguravam, entretanto, na Itália, a livre eleição de um Soberano Pontífice, precisamente no momento em que a vacância da Sé de Pedro teria acarretado para a Santa Igreja prejuízos de que, humanamente falando, ela talvez não se pudesse ter soerguido jamais.

Estes são meios maravilhosos de que a Providência lança mão para demonstrar que Ela tem o supremo governo de todas as coisas. Entretanto, não pensemos que a Igreja deveu sua salvação a Constantino, a Carlos Magno, a D. João d’Áustria, ou às tropas russas. Ainda mesmo quando ela parece inteiramente abandonada, e ainda mesmo quando o concurso dos meios de vitória mais indispensáveis na ordem natural parece faltar-lhe, estejamos certos de que a Santa Igreja não morrerá.

Como Nosso Senhor, ela se soerguerá com suas próprias forças, que são divinas. E quanto mais inexplicável for, humanamente falando, a aparente ressurreição da Igreja — aparente, acentuamos, porque a morte da Igreja nunca será real, ao contrário da de Nosso Senhor —, tanto mais gloriosa será a vitória. Nestes dias turvos e tristonhos de 1943, confiemos pois. Mas confiemos, não nesta ou naquela potência, não neste ou naquele homem, não nesta ou naquela corrente ideológica, para operar a reintegração de todas as coisas no Reino de Cristo, mas na Providência Divina que obrigará novamente os mares a se abrirem de par em par, moverá montanhas e fará estremecer a terra inteira.

Se tal for necessário para o cumprimento da divina promessa: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

Esta certeza tranquila no poder da Igreja, tranquila de uma tranqüilidade toda feita de espírito sobrenatural, e não de qualquer indiferença ou indolência, podemos aprendê-la aos pés de Nossa Senhora. Só Ela conservou íntegra a Fé, quando todas as circunstâncias pareciam ter demonstrado o fracasso total de seu Divino Filho. Descido da Cruz o Corpo de Cristo, vertida pela mão dos algozes, não só a última gota de Sangue, mas ainda de água, verificada a morte, não só pelo testemunho dos legionários romanos, como pelo dos próprios fiéis que procederam ao sepultamento, aposta ao túmulo a pedra imensa que lhe devia servir de intransponível fecho, tudo parecia perdido. Mas Maria Santíssima creu e confiou.

Sua Fé se conservou tão segura, tão serena, tão normal nestes dias de suprema desolação, como em qualquer outra ocasião de sua vida. Ela sabia que Ele haveria de ressuscitar. Nenhuma dúvida, nem ainda a mais leve, maculou seu espírito. É aos pés d’Ela, portanto, que haveremos de implorar e obter essa constância na Fé e no espírito de Fé, que deve ser a suprema ambição de nossa vida espiritual. Medianeira de todas as graças, exemplar de todas as virtudes, Nossa Senhora não nos recusará qualquer dom que neste sentido lhe peçamos.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído do “Legionário”, nº 559, de 25/4/1943)

Abril PÁSCOA DA RESSUREIÇÃO DE JESUS – Os fulgores da Ressurreição

Os fulgores da Ressurreição

Contemplando os esplendores e mistérios que envolvem a Páscoa da Ressurreição, Dr. Plinio tece interessantes hipóteses e comentários sobre o significado dos acontecimentos narrados no Evangelho.

 

Nas cerimônias litúrgicas do tríduo pascal, a Igreja sempre soube impregnar de tristeza a atmosfera quando se tratava de ficar triste; e depois marcar de alegria os momentos em que se deveria estar alegre.

Pudemos ver, por exemplo, essa nota de tristeza, sobretudo, ontem: a cerimônia da Sexta-Feira Santa estava pungente!

Agora, o júbilo. O “Gloria in Excelsis Deo” dá-nos a impressão de ser o reflexo da alegria de quando Nosso Senhor ressuscitou!

A primeira visita ao Santo Sepulcro

O Evangelho lido hoje narra que Santa Maria Madalena e a outra Maria encontraram o sepulcro aberto e um anjo sobre a lápide que antes vedava o túmulo. O anjo rolou a pedra e sentou-se nela.

Por ser o seu rosto como o raio e a sua vestimenta como a neve, ele incutiu grande terror àqueles guardas que tomavam conta do sepulcro, e que então fugiram. Duas simples mulheres não tiveram medo, e ele falou com elas familiarmente.

Tem-se a impressão de que elas estavam muito intimidadas, porém não medrosas, o que é uma coisa diferente.

Outra manifestação da intimidação delas é o fato de ter sido necessário o anjo dizer-lhes que entrassem no sepulcro. Seria normal elas penetrarem ali, vamos dizer, com as reverências devidas a um lugar sacrossanto, fazendo assim a primeira visita ao Santo Sepulcro! Uma honra, aliás, enorme! Todas as gerações dos séculos posteriores visitaram o Santo Sepulcro. Elas foram as duas primeiras. É formidável! Como honra, é algo extraordinário!

Elas entraram e viram que Nosso Senhor não se encontrava lá. Estava tudo explicado.

Um acontecimento pleno de simbolismos

Agora, eu teria muita vontade de saber qual era o sentido simbólico do rosto como fulgor e das roupas como neve.

Evidentemente o fulgor indica o poder de Deus. Mas indicará de que maneira? Será um fulgor de vitória, de festa triunfal em que não se está mais pensando no inimigo, ou desse tipo de celebração de triunfo na qual se tem a sensação de estar calcando aos pés o inimigo? É uma pergunta. Qual seria o feitio desse fulgor?

Se soubéssemos como os exegetas consideram esse fulgor, talvez pudéssemos ter aí um elemento para formar um juízo sobre isso.

As roupas como a neve. Percebe-se que era neve refulgindo ao clarão desse fulgor. A neve é a pureza do espírito. Um puro espírito porque não tem carne e, além disso, é um espírito puro, ou seja, é santo! Compreende‑se bem que a túnica — seria provavelmente uma túnica — era como a neve. Mas quais são os outros significados dessa neve?

Por que ele não pairava no ar ou não estava de pé sobre a pedra, mas sentado?

Cada uma dessas coisas tem um significado. É claro que nós teríamos vontade de conhecê-los. Aumentaria nossa alegria pela Páscoa da Ressurreição.

Por que um anjo anunciou a Ressurreição?

Se o objetivo da manifestação angélica era dar uma prova apologética da Ressurreição, debaixo de certo ponto de vista, essa prova poderia não ser muito concludente. Sobretudo para os homens do século XX, cuja mentalidade os levaria a dizer:

“As duas foram caminhando para a sepultura cada vez mais compenetradas. Quando chegaram lá, estavam no auge da excitação. Então julgaram ver um anjo. E os guardas estavam fora porque tinham saído para — em linguagem nossa — tomar um cafezinho. A sepultura estaria aberta? Quem pode garantir? Qual é a prova que se tem disso? Não seria mais interessante haver um magote de dez homens importantes como, por exemplo, Lázaro, José de Arimateia, Nicodemos que dissessem terem visto? Por que um anjo?”

Eu julgaria uma objeção completamente inválida, mas é uma pergunta que se poderia fazer.

A essa pergunta devemos dar a seguinte resposta:

Deus, nas suas manifestações, não visa principalmente àqueles que não creem, mas aos que creem. Um episódio como esse — que foi a primeira manifestação da Ressurreição, depois vieram muitas outras — seria calculado conforme a conveniência da piedade e do aumento no fervor do punhado de fiéis reunidos em torno de Nossa Senhora. Era a esses que se tratava de afervorar, de alimentar, de preparar para Pentecostes, que seria o próximo grande lance.

Sendo assim, compreende-se que fosse um anjo e não um homem. Porque não existe proporção entre dez homens e um anjo. Ademais, poderia haver entre eles pequenos desacordos a propósito de um ponto ou outro, e até mesmo algum que, ao contar o fato, ficasse vaidoso…

Poder-se-ia, inclusive, levantar outra objeção: Nós não acreditamos muito nesses homens que estão servindo de testemunhas, porque nenhum homem estaria à altura de testemunhar tal acontecimento; só um puro espírito. Parece-me, portanto, inteiramente concludente e apropriado o aparecimento de um anjo para anunciar a Ressurreição.

A honra de remover a lápide do Sepulcro

Em uma de nossas comissões de estudo estamos lendo textos de São Dionísio Areopagita que tratam sobre a hierarquia dos Anjos. Segundo ele, dos nove coros angélicos existentes, o menos elevado é o dos simples Anjos.

A palavra “anjo” significa “emissário”. E esses são os emissários. Um anjo de uma categoria mais elevada é um Arcanjo. Os outros têm categorias mais altas: Principados, Virtudes, Potestades, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins.

E São Dionísio Areopagita dizia que embora a categoria dos Anjos seja a menos elevada, ela completa a hierarquia angélica. De tal maneira que esta ficaria cambaia como um vaso do qual se serrasse a base, caso não houvesse o coro dos Anjos.

Quer dizer, a categoria menos alta é tão preciosa que constitui um elemento sem o qual toda aquela ordenação que está acima ficaria desajustada. É, pois, um importantíssimo papel. Por que Deus teria enviado um simples anjo e não um serafim para realizar uma missão como essa?

Provavelmente porque remover uma pedra não é tarefa para um príncipe. E podemos imaginar esses anjos menos elevados fazendo uma humilde e razoável súplica diante de Deus para ser dada a eles, e não a uma categoria mais elevada, a honra de mover a pedra do Santo Sepulcro:

“Senhor, Vós que nos mandais exercer missões que tocam mais diretamente na matéria, desta vez que se trata de operar a mais nobre remoção da matéria, Vós nos tirais essa ocasião única?! Ela não está na natureza de nosso ofício?”

A qualquer pessoa pareceria um argumento difícil de responder…

Duas maneiras de imaginar a Ressurreição

Mas considerando a Ressurreição em si, poderíamos imaginá-la de duas formas:

Em certo momento, Nosso Senhor começaria a dar sinais de vida. Seu Corpo sagrado se tornaria de uma luminosidade extraordinária, e no instante em que sua Alma o reassumisse, sua primeira atitude seria uma glorificação do Padre Eterno e um ato de amor ao Espírito Santo. E levantando-Se com uma majestade indizível, caminharia dentro do sepulcro transformado, de repente, numa catedral feita de luzes, cânticos e glória.

Chegando junto à porta do túmulo, o anjo rolaria a pedra. É-nos legítimo imaginar que no interstício entre a Ressurreição e o encontro com Santa Maria Madalena, em virtude do deslocamento rapidíssimo dos corpos gloriosos, Ele tenha estado no Cenáculo e se manifestado a Nossa Senhora. De maneira a ter sido Ela a primeira pessoa a contemplar seu divino Filho ressuscitado. Logo depois, Jesus teria Se apresentado a Santa Maria Madalena, conforme nos descreve o Evangelho.

Essa seria uma modalidade de conceber a Ressurreição.

Poder-se-ia figurá-la de outro modo, conforme a piedade e o feitio de cada pessoa. Por exemplo, em meio às trevas densas, de repente reluz algo à maneira de um corisco sublime! A montanha, como que, racha e Nosso Senhor se levanta como um raio. E num instante já está junto à porta, um anjo rola a lápide e Ele aparece diante dos olhos estupefatos. Acabou!

A Páscoa: uma festa triunfal

Em todo caso, a Páscoa não é uma celebração qualquer, é uma festa de triunfo. Portanto, não pode ser considerada, como muitos supõem, apenas como uma festa caseira para despertar a bonomia familiar, distribuindo ovos e todos se abraçando. Tudo isso é muito legítimo, acho um encanto, mas a Ressurreição tem qualquer coisa de um estouro, de uma explosão magnífica!

Sem dúvida, pode-se imaginar a Ressurreição acompanhada pelo maior e mais majestoso dos raios desferidos numa aurora.

Vários quadros representam o divino Ressuscitado assim, saindo com o braço direito levantado e tendo os dedos em posição de quem ensina ou abençoa, mas com um ar de desafio vitorioso: “Já atravessei!” Isso deveria causar no Inferno o terror diante da inutilidade de tudo quanto fizeram contra Ele.

Aí está um pequeno comentário para participarmos juntos das alegrias pascais.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 18/4/1981 e 21/4/1984)