Na correção dos erros de seus contemporâneos, possuía São Pedro Canísio um modo quintessenciado de caridade e de justiça: sem deixar de dizer a verdade por inteiro, repreendia fazendo uso das regras da antiga cortesia.
São Pedro Canísio, Confessor e Doutor da Igreja, foi apóstolo da Alemanha. Chamado “o martelo dos hereges”, lutou contra o protestantismo. Ele pertenceu à companhia de Jesus e viveu no século XVI.
Carta de um monarca ao Santo
O Imperador Fernando da Áustria escreveu a São Pedro Canísio a seguinte carta, retirada de uma edição de Vidas de Santos, da “Vozes de Petrópolis”. Em 1553, escrevia o Rei Fernando a respeito de seu catecismo: Digno religioso, devoto e caro amigo – escreveu o imperador a ele vimos e examinamos a primeira parte de vosso catecismo. Julgamos que, com o auxílio de Deus, essa publicação servirá grande mente à salvação de nossos fiéis súditos. Pedimos, portanto, que o termineis sem demora e nos envieis o catecismo completo o mais depressa possível, por que faremos traduzir o vosso catecismo em língua alemã e, quando estiver impresso nas duas línguas, latim e alemão, será explicado publicamente à juventude de todas as nossas escolas latinas e alemãs, com exclusão de qualquer outro catecismo, sob as penas mais severas e a ameaça de nossa indignação. Ordenamos que anoteis, à margem, os livros e os capítulos onde se encontram os trechos das Escrituras, dos Padres e Doutores da Igreja e do Direito Canônico, citados por vós com tanta erudição e a cada passo nesse catecismo. Isso é para permitir aos mestres menos instruídos e à gente de pouco conhecimento encontrar essas citações. Temos grande esperança que, por esse meio, aqueles que caíram na ignorância sejam reconduzidos ao seio de nossa mãe, a Santa Igreja Católica, e que muitos se curvarão à doutrina desses escritos quando virem as fontes originais de onde a extraístes. Ajudareis a milhares de almas e recebereis de Deus todo poderoso o cêntuplo em recompensa. De nossa parte, nós, como rei cristão, sinceramente desejoso da salvação eterna de nossos fiéis súditos, trataremos de vos indenizar com toda a nossa real benevolência, a vós e a vossa religiosíssima Companhia. Dado em nossa cidade, a 16 de março do ano de Nosso Senhor de 1553.
Advertência do Santo aos presbíteros
Junto a isso, tenho a seguinte ficha de um trecho de um sermão de São Pedro Canísio, contra a corrupção do clero na Alemanha: Temos desonrado o altar de Deus com mãos impuras e lábios polutos, com nossos corações incircuncisos, nossas vidas escandalosas e nossos graves abusos. Nosso pecado é tanto maior quanto abusamos da dignidade que nos foi conferida. Assim, por nossa causa, o nome de Deus é blasfemado. Com tais homens, nada de honestidade em casa, de sobriedade à mesa, de continência no leito, nem de estudos nos livros, nem de devoção no coração. Ambos os trechos merecem comentários.
Alguns aspectos regalistas e outros edificantes da carta do imperador
O primeiro é a atitude do Rei Fernando da Áustria, a respeito da difusão da religião no seu Império. Nota-se nesta ficha algumas atitudes do rei que dizem bem respeito ao erro do regalismo. Ele toma decisões a respeito da difusão do catecismo como se ele fosse um senhor espiritual. Ele afirma que vai proibir a difusão de outros catecismos em toda a Áustria, para a adoção única desse catecismo, que é o bom e que é escrito por São Pedro Canísio. Depois ele dá uma ordem a São Pedro Canísio, como se fosse a um funcionário dele, para que complete as citações que estavam ainda incompletas no original mandado a ele. E dá depois as explicações pelas quais ele quer essas citações. Mas, se é verdade que essa nota desagradável existe nesta carta, para as nossas almas habituadas a um laicismo tremendo dos dias de hoje, a carta contém também um aspecto muito digno de louvor. É um exemplo de uma virtude, em outro sentido, que nós devemos registrar. É o extremo empenho que deve ter um rei católico, mesmo quando ele não seja regalista e não enquadre as atribuições da Igreja, na difusão da verdadeira doutrina no seu reino.
Ele recebeu o catecismo, examinou-o, formou dele o mais alto conceito; ele tinha em alto conceito São Pedro Canísio e desejava ardentemente a difusão desse catecismo. Ele deita um empenho em todas as partes da carta em que o serviço se a completo, saia logo, promete a tradução, explica as vantagens que ele espera; essa é uma obra de alta Contra-Revolução feita por ele. Com efeito, a importância da questão do catecismo está em que havia infiltrados nos meios católicos, muitos autores que faziam catecismos com sabor protestante, e já era difícil naquele tempo encontrar um catecismo explicado à maneira dos homens do tempo, mas que, simultaneamente, fosse bem ortodoxo.
De maneira que ele se agarra ao catecismo de São Pedro Canísio como a uma tábua de salvação . Vê-se o zelo, o ardor com que ele quer fazer isso, porque é bom católico, mas também porque é bom imperador. Ele era Rei dos Romanos, era Rei do Império Romano do Ocidente. Ele quer aclamar, ele quer estabelecer esse catecismo porque é dever do rei velar pela Fé e é primeiro porque é católico, mas em segundo lugar porque é sumo interesse do poder público, não há maior interesse para o poder público do que a difusão da Fé Católica.
Se a Fé Católica estiver bem difundida no reino, tudo se pode esperar de bom, mas se ela estiver mal difundida, nada se pode esperar de bom, porque todo bem vem da Santa Fé Católica, Apostólica e Romana. Essa ideia fundamental está no centro da carta e é agradável ver um dos maiores ou talvez o maior potentado do tempo, com esse empenho pela difusão da doutrina católica. Comparando essa atitude com a dos potentados de nosso tempo, compreende-se como decaiu toda a situação do universo, como a influência religiosa vai se esvaindo no mundo contemporâneo, para não dizer que se esvaiu completamente, cedendo lugar a uma influência antirreligiosa . E neste sentido, a carta é edificante.
Modo de corrigir quintessenciado de caridade e de justiça
É edificante também esse trecho de São Pedro Canísio em que ele fala a respeito das condições do clero na Alemanha no tempo dele. Ele fala no plural, “nós”, não porque ele se julgasse culpado, mas porque era uma das regras da antiga cortesia. Tendo que dizer a alguém uma coisa desagradável, não dizer: “Você tem este defeito”, mas dizer dum modo mais amável: “Nós temos este defeito”, um “nós” que o interessado entenda bem… desde que ele não seja bobo. Alguém dirá: “Mas o que adianta dizer isso se o interessado sabe que se trata dele?” Esse modo de dizer revela um empenho de não ferir, de não machucar e faz parte da caridade, da polidez, do respeito, que é um modo quintessenciado de caridade e e justiça, e o respeito que se deve ter mesmo àqueles a quem se repreende. De maneira que ele não se inclui nesse caso, mas ele fala esse “nós”, evidentemente de uma maneira elevada, num trecho de um sermão pregado para clérigos, padres ou religiosos, em que ele diz, de um modo plural, mas no qual ele aponta clara e rudemente os defeitos do clero de seu tempo.
Vigor ao estigmatizar os erros do clero
É sempre bom lembrar isso, porque, por um instinto que na sua origem radicalmente é até sadio na alma católica, o verdadeiro católico tem para com o clérigo todas as complacências e todas as simpatias, e esta é uma posição de alma que volta continuamente ao espírito, mas com a tendência natural que já não é louvável, de nem sequer abrir os olhos para a verdade e não reconhecer a verdade como ela é, ainda quando ela entre olhos adentro. E aqui nesta última parte entra a “heresia branca”. E então para nós nos expungirmos da “heresia branca” é interessante nós vermos como falava um santo, um grande santo, um Doutor da Igreja, um homem célebre pelos múltiplos e enormes serviços que ele tinha prestado à Igreja Católica. A resenha feita por ele do quadro moral desse tipo de sacerdote: Com tais homens, nada de honestidade em casa, de sobriedade à mesa, de continência no leito, nem de estudos nos livros, nem de devoção no coração.
É o que se chama uma ruína completa, porque não resta nada . Se um homem em casa não é honesto, na mesa não é sóbrio, no leito não é puro, não estuda nos livros e no coração não tem devoção, o que resta? Vê-se o olhar límpido, forte, objetivo, e a boca vigorosa com que ele sabia estigmatizar os erros do tempo.
1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte, etc . As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.
Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 24/04/1967)